sábado, 17 de janeiro de 2009

Caim e o verdadeiro culto

Que ganharia Caim por matar seu irmão Abel? Mais riquezas? Mais respeito diante de seus pais ou de seus outros irmãos? Mais aceitação diante de Deus? Absolutamente nada. Mas, ele o matou. Por despeito e por vingança o matou. Vingou-se de que? De seu irmão ter feito um culto que agradou a Deus.

Os dois irmãos foram criados juntos e o que os distinguia era apenas a idade e a profissão. Caim, mais velho e mais experiente, lavrava a terra e dela tirava os frutos. Abel, mais novo, quiçá jovem, cuidava de ovelhas. Porém ambos foram criados pelos mesmos pais e, como nasceram após o pecado deles, conheciam as determinações de Deus.

Deus não permitira a seus pais que trajassem aventais de folhas, mas providenciou-lhes vestimentas de peles. Certamente os filhos se vestiam assim e assim compareciam diante de Deus no cultuar-lhe.

Mas, como está escrito, “no fim de uns tempos...” eles foram cultuar a Deus por si mesmos. Sem a presença e orientação dos pais. Esse gesto que deixa qualquer pai moderno feliz foi o ensejo para a desavença entre o lavrador e o pastor de ovelhas.

Os dois só estavam de acordo na necessidade de cultuar a Deus, pois Abel apresentou as primícias e o melhor de seu rebanho, ao passo que Caim, o lavrador, apresentou o fruto da terra e de suas forças.

O escritor da Carta aos Hebreus fala da falta de fé de Caim: “Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb 11.4).

O Apostolo João destaca a falta de amor que caracterizava Caim: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros; não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (1Jo 3.11-12).

Creio que a falta de fé levou Caim a um culto errado e a falta de amor a uma atitude errada.
Se já sabiam que Deus determinara vestirem-se de peles – o que, hoje sabemos, era o prenúncio dos sacrifícios da Antiga Aliança e um tipo do sacrifício de nosso Senhor – como Caim poderia cultuar a Deus por suas forças, ou por qualquer outro modo não ordenado por Ele?

Caim deveria acreditar (ter fé) que era necessário apenas, e tão somente, o que Deus determinara. Mas ele apresentou orgulhosamente o que seu braço lhe alcançou: semeou, cultivou, colheu e transportou. Seu irmão sequer precisou carregar a vítima.

O primeiro assassinato aconteceu por razões litúrgicas!

O correto obedeceu a Deus e foi aceito. O errado tentou fazer conforme sua própria vontade e foi rejeitado. O que seria de se esperar senão que o errado se arrependesse e passasse a fazer o certo? Entretanto o que ele fez? Matou o que estava certo!

Não é a toa que Judas nos fala do “caminho de Caim” (Jd 1.11). Por ele andam muitos. E, até hoje, andam por ele todos aqueles que tentam cultuar a Deus “segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás ... sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras” (CFW XXI,1).

Mas, voltando a pergunta inicial: Por que matou seu irmão? Matou porque seu irmão agradou a Deus com um culto simples. E o dele, tão trabalhoso, recebeu o desagrado de Deus.
Parece que o pecado “emburrece” o pecador. Você se lembra da Parábola dos Lavradores Maus? Desde quando matar o herdeiro lhes garantiria a herança? Desde quando é possível agradar a Deus fazendo o que ele não ordenou que fosse feito?

Sabemos que por adorarem a criatura em vez do Criador, Deus entregou os homens a paixões infames para desonrarem-se mutuamente, homens com homens, mulheres com mulheres. Pois bem: Caim nos mostra que o culto errado leva a falta do amor verdadeiro pelo irmão. Até mesmo pelo o irmão de sangue.

Na época da Nova Aliança em que vivemos o simples menosprezar o irmão é mesmo que matá-lo. Assim nos ensinou nosso Senhor e Mestre. Quantos, então, são mortos cada vez que insistem em um culto simples e obediente às ordens do Senhor? Não estejamos entre eles.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Inversões: Davi e Golias, armas e arados


Há alguns anos atrás, durante a primeira intifada, vi esta foto. Trata-se de um jovem palestino, na Faixa de Gaza, enfrentando um tanque de Israel com uma funda. Lembrei-me logo de Davi e hoje esta foto é encontrável na Internet sob o nome de “Davi Palestino”.


Que diferença! Golias hoje está com fundas e Israel com as armas pesadas. O Israel bíblico lutava com simplicidade: Davi enfrentou Golias e Débora conduziu o exército, a pé, contra os poderosos caros de ferro de Sisera. Lutavam confiados em Deus. O Israel de hoje é um dos principais fabricantes de armas. Chega a exportar.


Talvez, como eu, você esteja admirado com o desequilíbrio desta guerra, que não sai de nossa frente, em que o Davi usa as armas de Golias.


Acho que a simpatia que nós cristãos sentimos naturalmente pelo povo que outrora foi detentor da Antiga Aliança, e do qual veio nosso Senhor, esteja sendo abalada pelas atrocidades que vemos.


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O comandante da invasão da Europa, que pôs fim a Segunda Guerra mundial, General Dwight Eisenhower, ao fim de seu mandato como presidente dos EUA, em 1961, sabia muito bem do que falava quando afirmou: “Nas esferas de governo, devemos nos proteger contra uma influência indesejada, procurada ou não, por parte do complexo militar-industrial”.


Na realidade a Segunda Guerra Mundial causou uma transformação tão grande nas indústrias que até hoje não foi avaliada totalmente. Por exemplo: Uma fábrica de canoas foi transformada em fábrica de barcos de guerra e de 15 funcionários, em menos de um ano, passou a mais de 3 mil. E assim muitas fábricas de ferramentas e implementos agrícolas deixaram de ser fabricados. Na linguagem do Profeta Joel (3.1) “As relhas de arado estavam sendo transformadas em espadas”.


A necessidade de matéria prima era tão grande que os carros americanos foram dispensados de portar a placa dianteira e toda indústria dos EUA e da Inglaterra foi orientada para o esforço de guerra. O mesmo já acontecia com a indústria Alemã e Japonesa e nos países aliados de um lado ou de outro, como Itália, Rússia, Austrália, Canadá, etc.


Após a guerra, muitas indústrias voltaram a seus produtos originais. Porém estava construído o que o General chamou de Complexo Industrial Militar, que fabricam não apenas armas, mas de fardas a satélites.


Fabrica produtos peculiares. Por exemplo, mísseis com tecnologia tão sofisticada, que, de tão cara ainda não é comercializada, com a única missão de “explodir-se” causando o maior número possível de mortes e a óbvia necessidade de ser reposto.


Esse “complexo” depende da existência de guerras. As palavras de Eisenhower exortam a que o governo não se deixe influenciar por ele. O que é praticamente impossível.


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Isso não é novidade para quem medita na palavra de Deus: Desde o pecado o homem é assim: onde ele puder ser beneficiado, mesmo que seja em detrimento de seu próximo, ele procurará tal benefício a qualquer preço.


Manter esse Complexo funcionando, garantindo empregos, novas tecnologias e supremacia militar, certamente não é o único motivo das guerras, porém há quem diga que é um dos principais. Transforma Davis em Golias e drena recursos, forças e a atenção dos problemas reais.


O que conforta nossos corações, nos quais o Reino de Deus já está presente, é que um dia, quando o Reino de Deus se espalhar pelo mundo, como as águas cobrem o mar, a profecia de Joel será substituída pela a de Miquéias: “Ele [Jesus] julgará entre muitos povos e corrigirá nações poderosas e longínquas; estes converterão as suas espadas em relhas de arados e suas lanças, em podadeiras; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra” (Miquéias 4.3).


Será o fim do Complexo Industrial Militar que passará a fabricar ferramentas agrícolas.


Vem, Senhor Jesus!

domingo, 4 de janeiro de 2009

Homem de dores

No ano passado escrevi sobre a alegria que o velho Simeão deve ter sentido ao tomar nosso Senhor nos braços. De fato, qualquer um de nós, conhecendo o que Simeão conhecia, sem dúvida, se alegraria. Entretanto nosso Senhor viveu à sombra do sofrimento, e não foi sem razão que o profeta o chamou de homem de dores. Não sei bem se daí poderia inferir tristeza, porém vale a pena lembrar alguns episódios de sua vida.

As condições em que ele nasceu: Sujeito à burocracia de um censo que visava determinar a base tributária de uma colônia invadida. Em uma cidade “pequena demais para figurar entre as principais de Judá”, cuja a única estalagem (Lucas fala no singular) lotada o remeteu a uma estrebaria.

Seus primeiros anos: Aos oito dias recebeu no corpo a única marca permitida a um Judeu: a circuncisão. Isso visava trazer à lembrança a todos os descendentes de Abraão que Deus era o Senhor até sobre os atos mais íntimos e recônditos da vida. Nosso Senhor precisava ser lembrado disso? Não. Mas precisava cumprir a lei.

Aos quarenta dias foi reconhecido por um velho Simeão, farto de dias, que viu nele o sinal de seu próprio fim. Também por uma anciã de oitenta e quatro anos que dedicara-se a adorar a Deus no templo desde que seu marido morrera. Até aqui foi reconhecido apenas por humildes e inexpressivos pastores e por estes dois anciãos.

Com quase dois anos de idade, vieram, do oriente, homens importantes, trazendo presentes e declarando terem vindo adorar o Rei dos Judeus. Se eles queriam adorá-lo o ocupante do trono não estava disposto a abdicar. E, então as perseguições começaram. Não achando-o, várias crianças de sua idade foram mortas na esperança de que ele estivesse entre elas. A perseguição o fez refugiado político onde não o procurariam, em um país proibido aos judeus: “... o SENHOR vos disse: Nunca mais voltareis por este caminho” (Dt 17.16).

Mesmo quando voltou a sua terra natal, (aos seis anos?) não pôde morar onde seus pais queriam, pois o rei de lá era tão cruel quanto seu finado pai. Foi morar em Nazaré. Lugar tão miserável que mais tarde Natanael - homem reconhecido pelo próprio Senhor Jesus como isento de dolo - perguntará a seu irmão: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1.46).

Até mesmo a alegria do ‘Bar Mitzvá’, quando seria declarado religiosamente maior de idade, apto a desfrutar da companhia, conversa, e ritos de todos os homens judeus, é ofuscada pelo incidente em que o leva a declarar na frente de seu pai terrestre que estava na casa de seu verdadeiro pai.

Se pouco sabemos entre os doze primeiros anos e o que sabemos é marcado pela tristeza e pela dor, dos doze aos trinta não deve ter sido diferente. De José os Evangelhos não falam mais e Jesus assume sua profissão e certamente os deveres de um filho primogênito: “Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E não vivem aqui entre nós suas irmãs?” (Mc 6.3). Provavelmente José havia morrido.

Sobre suas irmãs nada sabemos. Nem quantas eram, nem seus nomes. Gosto de pensar que eram duas, pois seria normal a um casal daqueles dias ter sete filhos em doze anos. Mas, parece que, juntamente com seus irmãos, elas também foram motivo de tristeza para ele: “Dirigiram-se, pois, a ele os seus irmãos e lhe disseram: Deixa este lugar e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque ninguém há que procure ser conhecido em público e, contudo, realize os seus feitos em oculto. Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. Pois nem mesmo os seus irmãos criam nele” (Jo 7.3-5).

De seus discípulos mais chegados escutou discussões sobre quem seria o maior. Diante deles elogiou a fé de um soldado romano como a maior que já vira e em seguida os repreendeu no meio de uma tempestade como “homens de pouca fé”. Não foram poucas as vezes em que os censurou a incredulidade. Dois o traíram. Um por trinta moedas e outro por pura vergonha. Nenhum conseguiu manter-se acordado em sua noite mais dolorosa. E na hora mais difícil todos o abandonaram.

Realmente era homem de dores e sabia o que era padecer. Entretanto, além dessas que foram registradas nos Evangelhos, devemos somar as que nós colocamos sobre seus ombros. Certamente não foram poucas. Aliás, não são poucas, pois continuamos a fazê-lo sofrer já que ele intercede por nós junto ao Pai.

Como é pueril, para não dizer mal-sã, essa alegria toda que tem contaminado seu rebanho, que troca a cruz, deixada por ele, em quem devemos nos gloriar, por festas e mais festas sem sentido, que são apenas pretextos para dar ocasião a carne.

Como deveria ser reverente nosso comportamento e nossas disposições para com o Homem de Dores que soube o que é padecer exatamente por causa de nosso fútil procedimento.

Devemos nos alegrar, sim, por tudo o que dele recebemos. Mas nunca deixemos que o preço dela seja ofuscado.