quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Servo dos servos do Senhor

Qual mineiro, que procura pepitas, o servo dos servos do Senhor busca incansavelmente aquelas que a Palavra de Deus oferece. Por vezes pega-as na superfície - há muitas catas produtivas - mas, geralmente ele cava. Cava e atinge a camada original onde encontra grande variedade delas.

Diferentemente dos que sequer olham as catas, nem evitam o “ouro de tolo”, ele enriquece a muitos. Quem convive com ele, ou simplesmente está por perto, de nenhum tipo de preciosidade fica privado.

Pouco recebe comparado ao tanto que ele dá. Alguns, sem a riqueza que dele receberam, hoje andariam descaminhos, mas pouquíssimos se dão conta disso.

Seu prêmio o aguarda. Ele o receberá não dos que enriqueceu, mas do dono das riquezas.

 

Qual pai que conhece seus filhos o servo dos servos do Senhor divide proporcional e adequadamente o alimento de que precisam, manejando bem o verdadeiro pão dos céus.

Diferentemente dos que dão pedras por pães, e cobras por peixes, ele multiplica pães e peixes - como seu Senhor o ensinou a fazer - e alimenta a todos. Esse alimento, que é precioso como as pepitas - comparado a ouro depurado - por ser doce como mel atrai também os que procuram apenas o prazer. Mas, estes se enfastiam logo, desacostumados a tão grande doçura.

Só sentem seu valor quando ficam sem alimento e o espírito de cada um começa a definhar. Raramente ele recebe reconhecimento pela colheita, pelo preparo ou, sequer, por servir o alimento.

Sua mesa entretanto o aguarda. Lá, aquele que deveria, ao vê-lo chegar do trabalho, ser servido primeiro, fará questão de servi-lo.

 

Qual pastor de ovelhas, que as conduz aos pastos mais verdes e às águas mais tranqüilas, o servo dos servos do Senhor não faz experiências com seu rebanho em novas paragens. Se necessário ele as leva através do vale da sombra da morte, mas as conduz ao local certo.

Diferentemente dos mercenários que fogem espantados com o perigo, ou não ligam para o estado do rebanho, ele cuida até da harmonia dentro dele. Separa as brigas e protege as ovelhas mais fracas.

Como o rebanho não lhe pertence, a lã e o leite que ele produz é todo entregue ao dono. As crias também.

Sua recompensa não falhará. Tendo sido fiel no pouco será colocado sobre o muito, tão logo compareça à presença de seu Senhor.

 

Mas os tempos são maus, e, atribulado, o Povo de Deus anda trocando seu direito de primogenitura por sopa de lentilhas, ouro depurado por pirita, águas tranqüilas por cisternas rotas e a voz do Bom Pastor pela voz dos mercenários. Ou, como as ovelhas gordas de que fala Ezequiel, dão marradas nas mais fracas.

A culpa, entretanto, não é apenas dos dias maus e da tribulação (que, graças a Deus, por amor dos eleitos, será abreviada). Cada um que abandona os meios de graça, ou que, amando o mundo, torna-se cada vez mais inimigo de Deus, é, tanto, ou mais, culpado por esse estado.

Se o espírito está pronto, mas a carne é fraca, o que esperar de quem enfraquece também o próprio espírito? Não é isso que está sendo feito?

Deus queira nos ajudar, despertando nossos olhos e dando-nos vontade para querer e força para fazer o que lhe agrada. Ensinando-nos, por fim, a aproveitar os meios que ele mesmo colocou à nossa disposição. Especialmente as fadigas dos servos de seus servos.

sábado, 19 de janeiro de 2008

João Batista e Elias

Se você for convidado para comemorar a Páscoa em casa de judeus - convite raríssimo a um gentio - você verá um cálice diferente dos demais sobrando à mesa.

O jantar obedecerá a uma ordem meticulosa com muitas orações, leituras, cerimônias e que cada comida simbolizará alguma coisa.

Após a quarta rodada de vinho, o dono da casa encherá parcialmente aquele cálice e o passará de mão em mão. Cada participante derramará nele um pouco do vinho de seu próprio cálice até que ele fique cheio. Uma criança então abrirá a porta da casa.

Há muitos outros detalhes de como eles celebram hoje a festa que nosso Senhor cumpriu na cruz e da qual usou apenas o pão e o vinho nos ordenando que os tomássemos em sua memória, mas estes são suficientes para o que me proponho falar.

Os judeus ainda esperam o Messias, e acreditam que ele será precedido por Elias. Aquele cálice especial é o Cálice de Elias, e ele recebe um pouco do cálice de cada um, simbolizando que, cada um, de alguma forma, é responsável pela inauguração da Era Messiânica que ele trará. Exatamente por isso a porta é aberta, para que Elias entre sem embaraços naquele lar.

Para eles a profecia de que Elias precederá o Messias, ainda aguarda seu cumprimento.

Elias lhes é como uma espécie de “segundo Moisés”. Moisés recebeu a Lei de Deus no Sinai, e Elias escutou a voz de Deus no silêncio daquele mesmo monte (que em sua época era chamado também de Horebe). A morte de Moisés não foi testemunhada e Elias não morreu: foi levado aos céus por uma carruagem de fogo. Moisés deixou Josué como seu sucessor e Elias deixou a Eliseu, e ambos evidenciaram a autoridade que receberam dividindo as águas do Rio Jordão.

Essa esperança - da vinda de Elias - era comum nos dias de Jesus: “Mas os discípulos o interrogaram: Por que dizem, pois, os escribas ser necessário que Elias venha primeiro? Então, Jesus respondeu: De fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer nas mãos deles. Então, os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista.” (Mt 17.10-13)

O que há de comum então entre Elias e João Batista?

Ambos eram impulsivos: Caniços agitados pelo vento. Ambos “gostavam” dos desertos. Vestiam-se de modo peculiar e ficaram famosos pela alimentação: Elias foi alimentado por corvos e por uma viúva de cuja panela nunca faltou comida nos anos de seca e João alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Ambos enfrentaram situações parecidas: decadência religiosa do povo governado por um rei fraco com uma mulher má.

“Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.” (Mt 17.5). Quando Pedro propôs fazer tendas para cada um deles, como se fossem iguais, esta foi a ordem de Deus. Elias e Moisés estavam então falando com Jesus transfigurado. Portanto, para nós, cristãos, apesar de Elias representar todos os profetas, como Moisés representa a Antiga Aliança, e terem nosso mais alto respeito e consideração, nossa obediência deve ser dada apenas a Jesus: “A ele ouvi”.

As palavras do Senhor sobre João esclarecem que, como Elias, ele lutava para restabelecer o verdadeiro culto em Israel. Elias enfrentou os profetas de Baal e João Batista as “víboras” hipócritas disfarçados de religiosos ao ponto de fingir arrependimento.

João Batista nos dá duas outras lições: 1) Mesmo se tivermos de “clamar no deserto” não desistamos, e 2) nossa posição deve ser sempre expressa pelo que ele disse: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30).

Seja esse nosso desejo sincero.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Nos braços de Simeão

Quarentas dias após haver nascido o Senhor foi levado, por seus pais, a Jerusalém. Foi sua primeira visita àquela cidade.

Iam purificar Maria e resgatar seu primogênito. As leis levíticas eram muito claras: A mulher era impura 40 dias após o parto e todos os primogênitos deveriam ser consagrados a Deus a menos que fossem resgatados.

O sacrifício de purificação, usualmente feito com um cordeiro, podia ser feito com dois pombinhos ou duas rolinhas, se a família não tivesse posses. Foi o caso deles.

O resgate do primogênito não precisava ser feito no templo (bastava pagar 5 shekalim a um sacerdote), mas já que eles iam passar por lá ... De Belém à Jerusalém a viagem era pequena - uns 10 quilômetros - e já era o começo da volta à Nazaré, de onde vieram.

Lá encontraram dois anciãos: Simeão e Ana (que são mencionados apenas aqui). Há muitas informações sobre Ana, e poucas sobre Simeão. Talvez, como Ana, ele fosse um velho Judeu, que a idade dispensara da obrigação de ir ao Templo, mas insistia em fazê-lo.

Apesar de outras opiniões, eu prefiro imaginá-lo como um sacerdote ‘jubilado’ que dedicava-se a ajudar a rotina do templo, como permitido. Que encerrara seus dias de ofício, triste com o que via. Mas fora agraciado pelo Espírito Santo com a certeza de que veria o Messias antes de morrer.

O texto diz que o Espírito Santo o levou ao templo na hora certa - talvez, naquele dia, seu encargo fosse receber os resgates dos primogênitos - e deu fim a sua espera. Tomou a criança nos braços e orou: - Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra, porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste diante de todos os povos, luz para revelação aos gentios e para glória do teu povo de Israel.

Simeão viu os mistérios de Deus. E como João veria anos depois e todos os profetas viram no passado, Simeão acabara de ver o Conselho de Deus, sua Vontade, Planos e Decretos. Viu em um bebê. Em um bebê aconchegado em seus braços. Já podia morrer em paz.

Que privilégio inaudito: tomar nos braços o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Que privilégio ver que a luz, que Israel já possuía, se estenderia à todos os povos. Que privilégio ver que aquele bebê manifestaria os pensamentos de muitos corações, seria alvo de contradições e a causa do engrandecimento de alguns e da ruína de outros.

Quantos textos devem ter sido lembrados por Simeão. Ele segurava em seus braços o Descendente da mulher que haveria de esmagar a cabeça da serpente, o Cordeiro de Deus que substituiu Isaque, o Anjo do Senhor que lutou com Jacó na travessia rasa do rio Jaboque, o Leão de Judá, o Profeta infalível referido por Moisés, o Guerreiro do Altíssimo que lutou ao lado de Josué contra Jericó, a Raiz de Davi ... Simeão se dera conta de que estava vendo o início da eternidade, o Reino de Deus entre os homens. O Emanuel.

A partir de então nada seria mais o mesmo. A partir de então aquela pobre família, sem posses até para um sacrifício, seria assolada por dores. Dores tais que a alma da mãe sentir-se-ia traspassada por espada.

A partir de então a luz que dissipa todas as trevas brilharia no coração de quem o Pai dera àquele pequeno que estava em seus braços.

Mas, a partir de então as trevas se levantariam com tal força, que embora não pudessem prevalecer contra luz - pois é da natureza da luz sempre vencer as trevas - obscureceriam ainda mais os corações dos que não pertencessem àquele bebê.

"Veio para os seus, mas os seus não o receberam". Como isso deveria doer em Simeão. Seus sentimentos se misturavam: sentia alegria por ter nos braços o Senhor, e sentia tristeza porque seu povo colocaria o Senhor nos braços de uma cruz.

Benditos braços de Simeão! Quisera eu estar lá!

sábado, 5 de janeiro de 2008

Um novo tempo, uma nova história

Eu não saberia dizer se ele era baixinho ou tinha poucos recursos, mas era conhecido como “Dionísio, o exíguo” (ou simplesmente Dionísio exíguo). Era monge. Nascera na Romênia em 470, mas vivia em Roma desde 500 d.C. Era considerado como o mais sábio a serviço da Cúria Vaticana.

Traduziu, do grego para o latim, os diversos Decretos dos Concílios de Nicéia, de Constantinopla e de Calcedônia além de muitas outras obras, e conhecia bem as matemáticas e de astronomia.

Seu ofício o levava a escrever muitas correspondências as quais tinha de datar, como era costume - porém, cada vez mais a contra gosto - em função do ano em que o Imperador Romano Diocleciano tinha assumido o trono.

Um dia ele escreveu a um bispo: “Prefiro contar e indicar os anos a partir da encarnação de nosso Senhor, de forma a fazer a fundação de nossa esperança melhor conhecida e a causa da redenção do homem mais destacada”.

Como ele chegou à data em que Cristo nasceu não se sabe, mas errou. Errou por 4 ou 7 anos. Mateus afirma que Jesus nasceu nos dias de Herodes, e Herodes morreu no que seria o ano 4 do calendário de Dionísio, e, quando Lucas refere-se ao “primeiro recenseamento, ... feito quando Quirino era governador da Síria”, fornece-nos um período que se estende do ano 4 até o ano 7 do mesmo calendário.

Até hoje há discussões. A maioria dos estudiosos concorda que Jesus nasceu no período que vai do ano 4 ao ano 5 do calendário de Dionísio. Isso significa para nós que não estamos 2.008 anos distantes do nascimento do Senhor Jesus, mas 2012 (ou talvez 2015).

Mas o que importa mesmo foi que sua prática legou-nos o hábito de ver a história dividida em “Antes de Cristo e Depois de Cristo” inaugurando o que chamamos de “Era Cristã” e cada vez mais se chama de “Era Comum”.

A idéia de que Jesus dividiu a história humana é muito simpática aos cristãos, e faz todo sentido com sua cosmovisão, pois tudo que foi registrado nas Sagradas Escrituras antes da vinda de Cristo aponta para um Messias que havia de vir.

Pessoas como Isaque, José, Moisés e todos aqueles que estão listados no capítulo 11 da carta aos Hebreus, possuíam sempre, pelo menos, dois traços comuns: a esperança de um Messias e a certeza de que seus feitos eram apenas “sombra” de feitos maiores.

A esperança perpassou a Antiga Aliança: Aos patriarcas materializava-se em uma descendência numerosa. Aos peregrinos do êxodo no estabelecimento de uma nação. Aos súditos do reino de Israel na vinda do reino eterno.

A esperança materializou-se em Jesus. O Reino chegou. Chegou para todos os povos. Não é mais a história da esperança é a história do cumprimento das promessas e das profecias.

Por isso se exorta tanto a “cantar um cântico novo”. O velho, com seus verbos no tempo futuro ou no modo subjetivo, canta a esperança. O novo canta o que aconteceu e o que está acontecendo. Vivemos uma nova história.

Na realidade já vivemos a eternidade. Ainda estamos em sua ante-sala, mas o primeiro de nossa raça já entrou lá e nos aguarda. E quando chegarmos lá olharemos para trás e perceberemos que sempre estivemos naquele bendito lugar.

Dionísio errou a data, mas acertou no "discernimento dos tempos".

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Feliz 2008

Ao desejar a você e aos seus queridos um bom ano de 2008, desejo, de todo meu coração, que seja realmente um bom ano. Porém, corro o risco de ser mal entendido, pois, como eu tenho muitos amigos, e boa parte deles têm horror a que se faça distinção entre dia e dia (mesmo que a façamos para o Senhor) especialmente se fizermos a tal distinção como conseqüência de algo arbitrado pela Igreja de Roma.
Mas, só de chamar o próximo ano pelo nome de 2008 já estou concordando com uma decisão de um Papa. Pior: Estou dizendo que estamos há 2 mil e 8 anos do nascimento do Senhor Jesus Cristo, quando na verdade já estamos, pelo menos, há 2013 anos.
Tudo começou em 531, com um monge chamado Dionísio (conhecido como Dionísio Exíguo, talvez, por ser baixinho). Ele observou que todos os documentos eram datados a partir do ano em que o Imperador Diocleciano assumiu o trono – ano que hoje chamaríamos de 284 a.D. Ele Escreveu: “Prefiro contar e indicar os anos a partir da encarnação de nosso Senhor, de forma a fazer a fundação de nossa esperança melhor conhecida e a causa da redenção do homem mais conspícua”.
Seus cálculos - não tão precisos - tiveram a enorme conseqüência de introduzir a idéia de “Antes de Cristo e Depois de Cristo” na datação dos anos. Mas, como ainda não se conhecia o ‘zero’, o primeiro desta nova datação foi chamado de ano 1 da era cristã.
Houve resistências:
1. O calendário dos judeus sempre foi lunar – não diz o Salmo 104 “Fez a lua para marcar o tempo”? – mas, a cada 3 anos, precisavam inserir outro mês antes de Nisan e periodicamente fazer outras correções para que houvesse correspondência com o calendário solar, pois, afinal é por este último que “se regula as estações do ano”.
2. Próximos às tradições dos judeus, os mulçumanos chegaram a fazer da lua crescente seu símbolo, e mantêm até hoje – a despeito de todas as complicações comerciais com o ocidente – um rígido calendário lunar
3. Como o Concílio de Nicéia determinou que a Páscoa sempre seria celebrada no dia seguinte ao equinócio da primavera - que é marcado pelo calendário solar (cujo ano é 11 dias maior do que o ano do calendário lunar) - até hoje a Igreja Grega, para quem a festa da Páscoa é de grande importância, usa também um calendário lunar. De fato: rejeitou novamente a troca pelo gregoriano em 1971.
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Mateus afirma que Jesus nasceu nos dias de Herodes. E sabemos que Herodes morreu no que seria o ano 4 do calendário de Dionísio.
Quando Lucas cita o censo feito por Quirino na Síria fornece-nos indícios de que Jesus nasceu no ano 6 ou 7, pois ele nasceu durante um recenseamento.
Até hoje há discussões. E os anos mais aceitos pelos estudiosos como prováveis para o nascimento de Jesus são 4 ou 5 a.C. Ou seja: não estamos 2.008 anos distantes do nascimento do Senhor Jesus, mas 2012 ou talvez 2015.
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Depois de muitos anos de aperfeiçoamentos os cálculos de Dionísio foram reconhecidos por Roma, o Papa Gregório XIII, que em 1582, decretou seu uso, após remover 10 dias (5 a 14 de outubro de 1582) do calendário então vigente. Entre 1582 e 1584 a maioria das nações ligadas a Roma passaram a adotar o Calendário Gregoriano.
4. Alguns reformadores menores hesitaram em aceitar esse novo calendário - exatamente por proceder de Roma - e a maior reação que se conhece foi de Scaliger (1540-1609), astrônomo calvinista famoso pela elaboração de uma cronologia histórica, que acabou tendo de basear-se no Calendário Gregoriano.
A Alemanha foi o primeiro país protestante a aceitá-lo (1700), mas gastou 75 anos para aceitá-lo em todo seu território.
A Inglaterra (e as colônia americanas) só o aceitaram em 1752. E para isso precisaram eliminar 11 dias. “Foram dormir em 3 de setembro e acordaram em 13 de setembro de 1752”.
Curiosamente o Japão só o aceitou em 1873, a Rússia em 1917, e a China em 1949.
Portanto, no melhor “estilo conciliar” ...
Considerando que:
1. O ano lunar é composto de 12 meses de 29 dias, 12 horas, 44 minutos e 2,9 segundos (mais ou menos 354 dias).
2. O ano solar (a volta completa da terra em torno do sol) é composto de 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 45 segundos (sendo que a cada século essa velocidade diminui em ½ segundo).
3. O ano atômico é igual a 290.091.200.500.000.000 oscilações de um átomo de césio (e padrão oficial da terra desde 1972).
4. Logo após a meia noite de 31 de dezembro de 2007 (sem a correção de 1 segundo que “tivemos” de fazer em nossos relógios na virada de 2005 para 2006) passaremos a nos referir, para todos os efeitos, ao tempo como 1 de janeiro de 2008, diferentemente do que se fazia há cerca de 300 anos, quando essa virada era no começo da primavera do hemisfério norte.
Decido que:
1. Quer você goste ou não, vou desejar que esse período seja todo passado por você, e por mim, na presença de Deus.
2. Quer você goste ou não, receba meus votos de Feliz Ano Novo.

Abraços, ou melhor Sala das Sessões ... ou melhor ainda quarto do computador de minha filha, 31 de dezembro de 2007.
Fôlton

sábado, 29 de dezembro de 2007

De geração em geração

“Senhor, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração”. Quando leio esse texto penso que Moisés estava meditando em como Deus protegera a José - a quem sucedera como líder desse povo que agora ele conduzia pelo deserto - como protegera a Jacó, a Isaque e a Abraão através de tantos descaminhos. Um verdadeiro refúgio de geração em geração.

Talvez, antes deles, Moisés já tivesse isso em mente ao perceber que Abraão tinha mais de 50 anos quando Noé morreu. E Noé, por sua vez, conviveu com Lameque. O mesmo Lameque que nasceu uns 50 anos antes do próprio Adão morrer.

Às vezes penso nos registros que Moisés deve ter lido na maior biblioteca de então no Egito. Porém logo me lembro das palavras do Senhor Jesus: “Moisés ... escreveu a meu respeito” (Jo 5.46). Afinal, Moisés registrou detalhes da história que só o próprio Deus sabia.

Tudo o que aconteceu no Éden, o castigo de Babel, o dilúvio, o chamado de Abraão. Tudo isso, desfilava diante de seus olhos e ele escreveu: “Pois mil anos, aos teus olhos, são como o dia de ontem que se foi e como a vigília da noite. Tu os arrastas na torrente, são como um sono, como a relva que floresce de madrugada; de madrugada, viceja e floresce; à tarde, murcha e seca”.

Agora a incredulidade daqueles que viram o mar se abrir os condenara a vagar pelo deserto. Uma geração inteira tinha de morrer no ermo. Todos os que nasceram no Egito, com exceção de Josué e Calebe, jamais poriam os pés na terra da promessa. E, meditando nisso ele escreve: “somos consumidos pela tua ira e pelo teu furor, conturbados. Diante de ti puseste as nossas iniqüidades e, sob a luz do teu rosto, os nossos pecados ocultos. Pois todos os nossos dias se passam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um breve pensamento”.

Moisés, que já estava com mais de 90 anos, podia falar que depois dos oitenta o melhor de seus dias fora canseira e enfado. Estava cansado.

Estava cansado, mas não desanimava nem desacreditava da misericórdia do Senhor: “Volta-te SENHOR. Sacia-nos de manhã com a tua benignidade, para que cantemos de júbilo e nos alegremos todos os nossos dias. Alegra-nos por tantos dias quantos nos tens afligido, por tantos anos quantos suportamos a adversidade”.

Estava cansado, mas sentia vontade de ainda fazer alguma coisa: “Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; confirma sobre nós as obras das nossas mãos, sim, confirma a obra das nossas mãos”.

E hoje? Não podemos ver com muito mais detalhes como o SENHOR tem sido nosso refúgio de geração em geração? Além da sarça, não vemos aquele que a fazia arder? Acaso Babel não foi invertida? Do dilúvio não fomos salvos? Acaso já não ante-vivemos a verdadeira terra da promessa?

Ah! Senhor; tem misericórdia de nós que esbanjamos muito mais prodigamente nossos dias e ensina-nos a contá-los com coração sábio. Ensina-nos a usar melhor o tempo que tu nos destes. Abençoa as obras de nossas mãos: hoje, em 2008, e até o dia eterno.

Amém.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Não sou ingênuo

Não sou ingênuo ao ponto de achar que Papai Noel representa o Natal, e que sem o Papai Noel não há como relembrar do Natal. Mas também não sou ingênuo ao ponto de achar que ele me impede de comemorar a encarnação do Verbo Divino.

Não sou ingênuo ao ponto de crer que com poesias, peças de teatro, festas, ou uma audição do Messias de Haendel - ou de outro oratório de natal qualquer - terei comemorado o Natal. Jamais! Eles podem até trazer a impressão de que me esforcei bastante. Mas se eu não me esvaziar de mim mesmo, como o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores o fez, mesmo que a manjedoura seja o prenúncio da cruz, jamais terei sequer atinado com o verdadeiro motivo que o trouxe ao tabernáculo que vivo.

Não sou ingênuo ao ponto de achar que em 25 de dezembro comemorarei 2007 anos do nascimento de Jesus. Sei que a data não é essa. Porém não sou ingênuo ao ponto de achar que, por não saber a data exata, tudo que eu fizer, alegrando-me pelo seu nascimento, será errado e incorrerei no seu desagrado.

Não sou ingênuo ao ponto de achar que ele ficará tanto mais alegre comigo quanto mais exageros eu fizer, mais trabalhos eu tiver, e mais - dos recursos que ele mesmo me deu - eu gastar, para presentear e festejar seu nascimento, e depois viver o ano todo como se ele não existisse.

Não. Não sou ingênuo.

Sou, na verdade, culpado. Culpado de levar meu Senhor a tanto para me resgatar. Porém, vou celebrar sim. Celebrar com gratidão ele ter adquirido minha natureza.

E, como sei que ele se agrada mais de um coração contrito, do que de qualquer outra coisa, no momento de maior alegria, terei cuidado de colocar aos pés da cruz, ou melhor, ao lado da manjedoura, toda minha gratidão. Então, ela será tão preciosa quanto o ouro, e tão especial quanto o incenso e a mirra.

sábado, 15 de dezembro de 2007

O natal e o nascimento de Jesus

Quem comemora apenas o natal, comemora a possibilidade de gastar um pouco mais. Afinal o tal “espírito natalino de generosidade” é apenas uma faceta a mais do velho e perverso consumismo.

Quem comemora o nascimento do Deus-Homem, comemora o inusitado, o inaudito: Deus fazendo-se semelhante à suas criaturas para, redimindo-as, fazê-las cumprir o propósito original para que foram criadas.

 

Quem comemora apenas o natal, completa o tal “espírito natalino de generosidade” entregando-se, com dissolução, a uma alegria efêmera vinda da comida e da bebida, ou de coisas piores. E declara, sem dar-se conta do que está confirmando debochadamente, que o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores - diante de quem se dará de toda palavra frívola (Mt 12.36) - nasceu.

Quem comemora o nascimento do “Deus-Conosco” alegra-se na esperança de que a maior festa que possa fazer será nada, comparada com a que celebrará, com ele e com todos os queridos que já estão com ele. Porém não deixa de ser um antegozo, se feita para seu louvor.

 

Quem comemora apenas o natal, degrada o sacrifício eterno, que não se limitou à cruz, mas começou na manjedoura, exatamente com um comportamento oposto às pompas, luxo, usura e devassidão com que uma mídia insensata e uma multidão supersticiosa a tratam.

Quem comemora o nascimento daquele que é a “expressão exata do Pai” dobra-se ajoelhado diante de tal mistério e de tal pessoa, e, sem saber como, mas crendo na promessa e na misericórdia - essência de seu proceder - oferta o ouro de suas posses, o incenso de seu louvor e a mirra de sua vontade alquebrada, aos pés de seu Senhor, ao dispor de sua vontade.

 

Quem comemora apenas o natal, faz sua própria vontade, atende seus próprios desejos, gasta para promover-se, presenteia para ser lembrado ou para receber outros em retribuição, ou, ainda, para acalmar uma consciência cheia de cicatrizes de remorso pelo que não fez de bom o ano inteiro.

Quem comemora o nascimento daquele em quem “habita a plenitude da divindade” esvazia-se de si mesmo, como ele fez, e presenteia mais com o coração do que com bolso. Mais com o amor mais do que com o interesse. Mais de si mesmo do que daquilo que o dinheiro pode adquirir.

 

Quem comemora apenas a natal, entrega-se a símbolos supersticiosos e comerciais de coisas que nunca fizeram parte daquele momento sublime e chega a idolatrá-las e as vezes a impô-las.

Quem comemora o nascimento daquele que “não se envergonha de ser chamado nosso irmão” - apesar de sermos menos do que nada, e muitas vezes desonrarmos sua amizade - tem os motivos certos para alegrar-se, festejar, e depositar tudo aos pés do Rei dos reis e Senhor dos senhores.

 

Que neste natal tenhamos a sabedoria de, nos momentos mais efusivos, manter nosso pensamento em seu real significado, e sermos gratos. Gratos, pelo grande amor como que fomos e somos amados.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Dois convites

Bem cedo um anjo do Senhor removeu a pedra que selava o sepulcro onde jazia seu corpo. Tão fantástica e tão assustadora era seu aspecto que os guardas romanos, apavorados, "ficaram como se estivessem mortos".

O anjo se dirigiu às mulheres, e sua primeira palavra foi "não temais". Depois de afirmar que o Senhor havia ressuscitado, lhes convidou a sanar a dúvida dizendo: "vinde ver o lugar onde ele jazia".

Cerca de trinta e quatro anos antes, um anjo do Senhor apareceu, tarde da noite, a uns pastores, que cuidavam de seus rebanhos nos campos. Sua primeira palavra a eles também foi "não temais". Porém continuou: "eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura".

Mal acabou de falar e uma enorme quantidade de anjos - literalmente: o exército celestial - respondeu em uníssono: "Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem".

Bradaram e desapareceram.

Atônitos os pastores concluíram "Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer".

Na manhã de sua ressurreição o anjo convidou as mulheres a entrar na sepultura em que o corpo do Senhor estivera. Na noite de seu nascimento, após a mensagem dos anjos, os pastores se convidaram mutuamente: “vamos até Belém”.

Esses dois convites ainda são feitos e constituem-se na essência do Evangelho. Tão importante quanto ver o túmulo vazio é ver a manjedoura habitada. É impossível crer em um sem crer na outra. Enquanto a manjedoura nos fala de Deus habitando conosco, o túmulo vazio nos fala de nossa habitação com ele.

Os pastores convidaram-se mutuamente, pois um nascimento é coisa corriqueira, já uma ressurreição é algo tão fantástico que o anjo mesmo insistiu no convite. Eles deveriam procurar pelo menino que estava lá. As mulheres deveriam constatar que aquele mesmo menino, agora crescido, não estava mais lá.

Entretanto os lugares que deveriam ser visitados eram notáveis: uma manjedoura e um sepulcro. No sepulcro ele deixa a vida conforme nós a conhecemos e inaugura um “novo e vivo caminho” para a vida mais plena. A vida da qual esta é apenas sombra. Na manjedoura, esvaziado de si mesmo ele torna-se um de nós. Em outras palavras: ele assume nossa vida em uma manjedoura e assume a vida celestial em um túmulo.

E como dizia o hino de Paulo sobre esse “grande mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória” 1Tm 3.16.

Cabe-nos, certos de que o túmulo está vazio, nunca nos esquecer do convite: “vamos até Belém, e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer”. Tais acontecimentos que começaram naquela manjedoura, hoje, também vazia, têm repercussão eterna, pois nos convidam meditar na vida além do túmulo.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Dezembro chegou

Dezembro chegou, e com ele nossas esperadas chuvas - graças a Deus - amoleceram a terra que já preparava as sementes nela plantadas. As que o calor não esturricou recebem agora, pela água, os nutrientes de que precisam. A germinação não tarda.

Dezembro chegou, e o calor que cozinhou as frutas dessa época, agora, mais úmido, se encarrega de amadurecê-las e depurar-lhes a doçura e o aspecto. As mangas, por exemplo, ficam amarelas, rosas ou até roxas e seu perfume atrai a passarada.

Dezembro chegou, e o calor, bem-vindo de Deus, beira ao insuportável quando misturado a algazarra promovida pelos homens, que se imbuem do tal “espírito natalino”: desculpa para aproveitar o dinheiro extra de fim-de-ano.

Dezembros também chegam às nossas vidas. Sempre chuvosos. Mas, graças a Deus, chuvas de bênçãos. As benditas sementes que o Espírito Santo plantou em nosso coração nos dias de calor e aflição, germinam e desabrocham produzindo aquilo que o Senhor semeou.

Os eventuais frutos que já temos são amadurecidos nesses dezembros. E, trazendo refrigério à nossas almas, essas benditas e divinas chuvas com que o Pai celeste rega nossas almas, depuram a doçura de nossos relacionamentos e embeleza nossos desejos e anseios. Nossa alma, com alegria indizível e cheia de glória agradece humilde ao Pai Criador e Cuidador.

Entretanto esse bendito período de gestação atrai pestes e parasitas. As pestes tentam, como gafanhotos esfomeados, devorar os brotos tão logo nasçam e os parasitas agarram aqueles que escapam. Assim esses inimigos ferozes tentam nos destruir.

Do mesmo modo como a estupidez humana transformou a bela intenção de se comemorar o nascimento do Verbo em oportunidade para lucros escorchantes, bebedices e orgias – como se o Filho de Deus se alegrasse com isso – a insensatez de muitos de seus filhos os parasita de tal forma que pouco se dão conta da idolatria que cometem ao reduzir a expressão exata do Ser do Pai a uma ceia ou a um rito vazio.

Benditos dezembros. Algumas vezes quentes ao corpo, mas sempre aquecidos e ímpares de prazeres espirituais aos corações dos que meditam no amor inefável de Deus.

Benditos dezembros: época de despertar. Época de frutificar. Época de celebrar o maior gesto do amor do Pai manifestado em uma manjedoura.

sábado, 24 de novembro de 2007

Uma tradição antiga

Nossa Igreja está hospedando o IX Congresso da Federação das Sociedades Auxiliadoras Femininas do Presbitério Médio do Rio Doce. Hospeda com alegria. Para nós é uma honra ver este congresso ser realizando aqui.

Honra, pois temos o privilégio de ver o mesmo trabalho, que sempre foi feito, sendo atualizado.

Alguns tendem a menosprezar o trabalho feminino, mas um exame atento das Escrituras deve nos levar a outra postura. Veja, por exemplo, os evangelhos:

Lucas registra: “Depois disso Jesus ia passando pelas cidades e povoados proclamando as boas novas do Reino de Deus. Os Doze estavam com ele, e também algumas mulheres ... Maria, chamada Madalena, ... Joana, mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes; Susana e muitas outras. Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens.“ (Lc 8.1-3 NVI)

Essas mulheres, que seguiam Jesus e seus apóstolos e “auxiliavam-nos” (o texto pode ser traduzido assim também) é o embrião das “Sociedades Auxiliadoras Femininas.

Repare que todas eram mulheres atarefadas. De Maria Madalena há pouco que falar face ao quanto já sabemos dela. De Joana, basta ver o encargo de seu marido para ter idéia de suas responsabilidades.

Sabemos pouco de Suzana (aportuguesamento da forma hebraica de açucena: a flor) que aparece apenas aqui.

Mas veja como elas estavam presentes até nas horas mais difíceis de nosso Senhor:
Mateus destaca: “Estavam ali muitas mulheres, observando de longe; eram as que vinham seguindo a Jesus desde a Galiléia, para o servirem; entre elas estavam Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mulher de Zebedeu”.

Marcos enfatiza o auxílio que elas prestavam ao Senhor (inclusive em sua última viagem a Jerusalém): “Estavam também ali algumas mulheres, observando de longe; entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé; as quais, quando Jesus estava na Galiléia, o acompanhavam e serviam; e, além destas, muitas outras que haviam subido com ele para Jerusalém”.

Lucas nos dá a impressão de que eram muitas: “Entretanto, todos os conhecidos de Jesus e as mulheres que o tinham seguido desde a Galiléia permaneceram a contemplar de longe estas coisas. ... Era o dia da preparação, e começava o sábado. As mulheres que tinham vindo da Galiléia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado. Então, se retiraram para preparar aromas e bálsamos”.

E João, o único apóstolo que testemunhou de perto a crucificação, enfatiza: “E junto à cruz estavam a mãe de Jesus, e a irmã dela, e Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena”.

Também no dia da ressurreição, quando elas iam embalsamá-lo, embora Mateus e Marcos deixem-nos a impressão de uma ou duas, Lucas fornece-nos mais detalhes: “Mas, no primeiro dia da semana, alta madrugada, foram elas ao túmulo, levando os aromas que haviam preparado. E encontraram a pedra removida do sepulcro ... Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; também as demais que estavam com elas confirmaram estas coisas aos apóstolos”.

Há um grupo que se destaca, mas há uma quantidade muito maior que auxilia anonimamente. No primeiro texto lemos “muitas outras”. No texto da crucificação Mateus diz “muitas mulheres”. Marcos diz “e além destas, muitas outras”. E as expressões de Lucas nos trazem a certeza de que eram muitas. Releia o texto.

Entretanto, as mulheres de nossos dias, não peregrinam mais com o Senhor pela Judéia. Peregrinam por todo Brasil, e, especialmente aqui, vemos as que têm por ambiente o vale central do Rio Doce.

Não trazem comida ou vestes para o Senhor, como suas antigas colegas faziam. Porém preocupadas com a situação que vivemos, trazem suas famílias – com os dilemas e dificuldades que sofrem – e os colocam aos pés do Senhor. Ou seja: consagram-nas ao Senhor como suas antigas companheiras faziam também.

Portanto, não é de menos importância hospedar quem tem uma tarefa tão difícil e quer cumpri-la da melhor forma possível.

Por tudo isso e pela preocupação em serem relevantes ao ponto de surpreenderem com a manutenção de uma tradição tão antiga temos a obrigação de orar por elas e com elas.

Que as sementes deste congresso frutifiquem para a glória do Senhor.

sábado, 17 de novembro de 2007

A propósito da eleição de Oficiais (Parte 3)

No boletim passado resumi os pré-requisitos que Deus estabelece para quem almeja ser presbítero em sua Igreja, os quais foram registrados pelo Apóstolo Paulo em suas cartas a Tito e a Timóteo. Entretanto, suprimi as razões pelas quais eles são exigidos. Vamos destacá-las hoje.

Na carta à Tito, lemos:

5Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi: 6alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados. 7Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância; 8antes, hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, que tenha domínio de si, 9apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem. 10Porque existem muitos insubordinados, palradores frívolos e enganadores, especialmente os da circuncisão. 11É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância” (Tt 1:5-11).

Este texto deixa claro porque os presbíteros devem ter tais qualidades e porque Tito deveria constituí-los.

Tito deveria constituí-los para “por em ordem o restante das coisas”, e devido a “existência de muitos insubordinados” que pervertiam “casas inteiras” apenas por ganância.

Isso já indica alguns aspectos da missão de um presbítero: Por em ordem e proteger a igreja de insubordinados gananciosos.

Porém, para isso ele deve ser irrepreensível como despenseiro (no original ‘ecônomo’ que significa também mordomo) de Deus e possuir uma lista de características pessoais (não arrogante, não irascível, etc.), que, pelo contexto exprime características de vida em família.

Na carta enviada a Timóteo lemos:

2... seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; 3não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento; 4e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito 5(pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?); 6não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo. 7Pelo contrário, é necessário que ele tenha bom testemunho dos de fora, a fim de não cair no opróbrio e no laço do diabo” (1Tm 3:2-7).

Observe que a ênfase é colocada no desempenho familiar. O texto começa exigindo que seja “marido de uma só mulher” (bom esposo) e termina exigindo que saiba criar seus “filhos sob disciplina com todo respeito” (bom pai). E argumenta: se não souber “governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus”?

Daqui já pode-se concluir que a seleção dos presbíteros deve ser feita entre os pais. A casa é o campo de prova na qual a igreja pode reconhecer se alguém é apto, ou não, a ser um presbítero conforme os critérios de Deus.

Há muitos anos atrás vi alguém defender uma candidatura com as seguintes palavras: “Indico o irmão fulano, pois todos sabem de sua importância como empresário bem sucedido que começou do zero e hoje destaca-se dentre muitos, inclusive na dedicação à igreja”.

Se ele tivesse ficado na última frase – dedicação a igreja – restaria compará-lo com sua dedicação à família. Se fosse equivalente não haveria mais o que questionar.

Entretanto, cada vez mais os valores mundanos, sejam empresariais, sejam circenses, são vistos como pré-requisitos para quem assume a liderança da igreja: deve ser bom administrador ou bom animador. Ou seja: satisfazer aos eleitores e não necessariamente a Deus, contrariando o ensino bíblico que os eleitores devem escolher o candidato que mais atenda a prescrições divinas.

*

Um segundo assunto, específico da carta a Timóteo, é o perigo a que o presbítero está sujeito: a ação do diabo. Esta pode acontecer de duas formas: levando-o a se orgulhar da posição a que foi elevado e incorrendo no mesmo erro que o diabo incorreu, ou, nas palavras de Calvino: “exposto à reprovação pública, endureça cada vez mais o coração e se entregue mais livremente à toda iniqüidade, o que equivale a colocar-se debaixo das armadilhas do demônio. Pois, que esperança resta a quem peca sem sentir vergonha?”

*

Excelente obra é o presbiterato, porém de tão pesada só pode ser desempenhada na dependência total da graça de Deus.

sábado, 10 de novembro de 2007

A propósito da eleição de Oficiais (Parte 2)

Paulo promoveu eleição de presbíteros mesmo em circunstâncias adversas, como quando foi apedrejado ao ponto de ser dado por morto, pois entendia que a existência deles era vital: um presente de Deus à sua Igreja como ele escreveu aos efésios: “para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.”

Além de promover, ordenou que se fizesse. Essa foi a missão específica de Tito em Creta: "Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros...”.

Porém, veja os pré-requisitos, “... Conforme te prescrevi”: 1) Irrepreensível, 2) marido de uma só mulher, 3) que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados, 4) não arrogante, 5) não irascível, 6) não dado ao vinho, 7) nem violento, 8) nem cobiçoso de torpe ganância, 9) hospitaleiro, 10) amigo do bem, 11) sóbrio, 12) justo, 13) piedoso, 14) que tenha domínio de si e 15) apegado à palavra fiel.

Timóteo também tinha o mesmo dever com pré-requisitos semelhantes: 1) irrepreensível, 2) esposo de uma só mulher, 3) temperante, 4) sóbrio, 5) modesto, 6) hospitaleiro, 7) apto para ensinar; 8) não dado ao vinho, 9) não violento, 10) cordato, 11) inimigo de contendas, 12) não avarento; 13) que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito, 14) não seja neófito e 15) tenha bom testemunho dos de fora.

Podemos resumir os pré-requisitos em obrigações e proibições:

Obrigações:
1º. Irrepreensível aparece nas duas listas e diz respeito ao modo como vive depois da conversão.
2º. Marido de uma só mulher também aparece nas duas listas e diz respeito a uma vida casta e monogâmica.
3º. Bom pai (item 3 na lista de Tito e 13 na de Timóteo), fala do exercício da boa paternidade, bem como da boa chefia da família.
4º. Hospitaleiro aparece nas duas listas.
5°. Amigo do bem aparece na lista de Timóteo como inimigo de contendas. Diz respeito a uma atitude pacífica diante de confrontos.
6°. Sóbrio também aparece nas duas listas e significa mais do que “não bêbado”: sobriedade no falar, no vestir, no gesticular ... etc.
7º. Justo e piedoso aparecem apenas na lista de Tito, embora estejam latentes na de Timóteo. Justiça caracteriza quem sabe distinguir as diferenças e tratá-las correspondentemente, e piedade caracteriza quem quer viver de modo santo (não confunda com o derivado “ter piedade”).
8º. Domínio de si aparece em Timóteo como temperante. Embora não seja a mesma palavra grega (em Tito significa literalmente “dominar o eu” e em Timóteo “vigiar os próprios desejos”), refere-se mais ou menos a mesma atitude.
9º. Apegado a palavra fiel aparece em Timóteo como apto para ensinar. Apesar de as expressões sequer serem as mesmas, o objetivo é. Transmissão de conteúdos doutrinariamente sadios.
10º. E finalmente em Timóteo aparece modesto, cordato, e bom testemunho dos de fora.

Proibições:
1º. Arrogante (literalmente: “auto-bastante”).
2º. Irascível. Conhecemos hoje como “estourado” ou “pavio curto”.
3º. Dado ao vinho. Proibição comum às duas listas.
4º. Violento. Proibição comum às duas listas.
5º. Cobiçoso de torpe ganância, que na lista de Timóteo é mais ou menos equivalente a avarento.
6º. Novo na fé (neófito).

Tais pré-requisitos, dificilmente podem ser totalmente encontrados em uma só pessoa. Uma mesma pessoa pode possuir alguns em maior quantidade e qualidade do que de outra. Porém isso não é motivo para que deixamos de escolher alguém. Devemos comparar quem almeja o ofício – lembre-se: excelente obra almeja – e escolher aquele que melhor atenda os pré-requisitos de Deus.

Tampouco é motivo para mudar os pré-requisitos estabelecidos por Deus. Tenho visto que outros pré-requisitos estão gradualmente substituindo esses. Mas isto é assunto para outro artigo.

domingo, 4 de novembro de 2007

A propósito da eleição de Oficiais

Quando, como cidadãos, votamos em alguém para o exercício de algum cargo público, esperamos que ele se comporte, decida ou legisle de acordo com nosso ponto de vista. Afinal de contas ele é nosso representante.

Tal acontece porque vivemos, como cidadãos, em um país onde prevalece o texto constitucional: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ...”. Por definição o estado brasileiro deve ser um “espelho” da sociedade brasileira.

Os pré-requisitos para que alguém seja eleito no Brasil, são os mínimos: nacionalidade, alfabetização mínima, regularidade eleitoral, filiação partidária, e idades mínimas (35 anos para Presidente e Senador, 30 para Governador, 21 para Deputado, Prefeito e Juiz de Paz, e 18 para vereador).

*

Quando, como ovelhas do rebanho de Deus, votamos em alguém, devemos esperar que ele se comporte, decida ou legisle, de acordo com o ponto de vista de Deus. Afinal de contas ele é, “lato sensu”, representante de Deus.

Tal acontece porque, vivemos, como ovelhas do Senhor, em um rebanho comprado por seu sangue. Por definição a Igreja deve ser espelho da vontade de Deus.

A priori, há tantos pré-requisitos para alguém ser eleito à algum ofício na Igreja, que é praticamente impossível encontrar alguém que atenda plenamente a todas as exigências. Curiosamente, todas essas exigências dizem respeito a sua vida familiar (mais tarde escreverei sobre esse assunto).

*

Dessas observações conclui-se que:

1. O voto civil é totalmente diferente do voto na Igreja. Enquanto o voto civil expressa nosso gosto, nossa vontade, nossa ideologia, o voto na Igreja deve expressar as determinações do Senhor da Igreja.

2. O eleito para algum cargo público está preso a vontade de seus eleitores ao passo que o eleito para um ofício na Igreja está preso às ordens do Senhor da Igreja (muitas vezes contra seus eleitores).

3. Os eleitos na vida civil são representantes do povo para fazer o que lhes foi delegado pelo voto popular. Os eleitos na Igreja são representantes do povo diante de Deus. Ou seja: são, os que mais se aproximam - dentre os que se congregam naquele rebanho local – do padrão estabelecido por Deus.

*

A pergunta obvia é: por que razão Deus delega as ovelhas de seu rebanho a tarefa de escolherem alguém que cumpra a vontade dele e não, necessariamente, a vontade delas?

A resposta é dupla:

1) Devido a docilidade do rebanho e sua natureza fácil de ser manipulada (como vemos ser manipulada por auto-intitulados bispos, apóstolos, profetas e que tais), Deus não permite a Igreja outro meio de escolha de seus oficiais regulares, que não o voto.

2) Para que o Rebanho seja responsabilizado, diante de Deus, por um eventual descaminho - mesmo que tenha sido seduzido por líderes maus - por não ter obedecido os critérios divinos para escolha.

*

Ao votar, portanto, a ovelha está dizendo: reconheço que fulano é o que mais se aproxima do que Deus determina como padrão para tal ofício.

Tenho certeza de que aqui está a maior razão da falta de identidade das Igrejas de nossos dias: o oficial porta-se como um político pressuroso em atender as exigências de seus eleitores e não como um servo de Deus em que a maioria das ovelhas viu e atestou a existência do chamado divino para o exercício do ofício que lhe foi confiado.

sábado, 27 de outubro de 2007

A Reforma Protestante e o movimento missionário

O primeiro modelo de evangelização praticado pela Igreja apareceu depois do pentecostes, quando muitos daqueles sobre os quais o Espírito Santo havia sido derramado, voltaram para suas cidades de origem e organizaram igrejas locais: Roma, Antioquia, etc.

Um segundo modelo foi implantado através de viagens com o fim específico de anunciar o Evangelho. Paulo e Barnabé foram seus pioneiros.

A Igreja precisou esconder-se de perseguições, mas três séculos depois, Constantino, percebeu o grande número de cristãos em seu império e aderiu ao cristianismo. Isso levou ao processo de torná-la igreja oficial e favoreceu um terceiro meio: a guerra.

Em nome de se pregar o Evangelho ou cristianizar um povo, se fazia guerra e obrigava o rei deles a tornar-se cristão. Então todos os seus súditos eram obrigados ao batismo.

Não se sabe quando o estado fazia guerra para que a religião fosse disseminada ou quando a religião fornecia o propósito, e os guerreiros, para que o estado, guerreando, crescesse mais ainda pela anexação de territórios.

E assim continuou pelos tempos. Assim chegaram às Américas. Assim dizimaram povos e levaram enormes riquezas a seus países de origem. A religião justificava saques, mortes e a escravidão.

Padre Vieira dizia ser preferível ao africano ser escravo no Brasil, onde podia conhecer o evangelho, do que ficar na África onde fatalmente morreria pagão.

É claro que sempre houve também a presença de missionários abnegados, que, muitas vezes por conta própria, dirigiam-se a outros povos com o fim de anunciarem as boas novas de salvação.

Porem, poucos foram os casos em que tais missionários não acabaram logo trocados ou “auxiliados” por tropas militares.

Enquanto as Américas eram descobertas, a Reforma Protestante grassava a Europa. Com a Reforma vinha a idéia da conversão individual, e, apesar de Países serem declarados de “Fé Reformada”, tal só acontecia mediante a adesão de seu rei ou de seus governantes, muitas vezes para fugir a tirania de Roma.

Com a reforma também voltou-se a pratica do missionar com o único interesse de se divulgar o evangelho. A idéia missionária foi tão forte que a Igreja de Genebra chegou a sustentar 280 deles. Não só na Europa. Quatorze chegaram ao Brasil.

Não sou ingênuo ao ponto de dizer que a partir da Reforma Protestante o ato de missionar tornou-se impoluto. Não. De forma alguma. Muitos problemas acompanharam e ainda acompanham os missionários e as missões, e são transportados ao povo alvo daquela missão junto com a santa mensagem de Salvação que o Senhor nos mandou levar ao mundo inteiro.

O que estou tentando mostrar é que o mal de um missionar feito a partir de uma igreja imperial tornou-se, pelo menos, mais simples. Os missionários perderam a obrigação de levar também os interesses do grupo que os enviava.

Não há dúvida que o anúncio do Evangelho pressupõe um mínimo de anúncio de valores típicos da cultura na qual ele manifestou-se e da integridade da cosmovisão bíblica do que é o homem e de quem é Deus. Porém, não pode ser acompanhado de segundas intenções de dominação daquele território ou das riquezas contidas nele.

Porém, graças Deus, hoje após a Reforma Protestante a luta do missionar é levar o Evangelho, simples como ele é e como deve ser anunciado, ao homem como um todo. Os missionários após exaustivo treinamento teológico, cultural, lingüístico, sociológico – e do que necessário – visando a conseguirem distinguir cada vez mais os conteúdos humanos e divinos da santa mensagem.

As agências e organizações missionárias pesquisam e buscam informações sobre os povos e etnias, suas línguas e costumes a fim de atingir do melhor modo possível os que ainda não possuem a Bíblia em seu idioma.

A Reforma Protestante fez ressurgir o espírito missionário dos primórdios da Igreja.
Nós, como igreja local, devemos nos imbuir desse espírito e buscar do Senhor seu plano de ação missionária para a nossa igreja.

Oremos, pedindo-lhe instrução, capacitação e direção e, se necessário, correção.

Rev. Fôlton Nogueira
Rev. Marcos Agripino

sábado, 20 de outubro de 2007

Uma "fé razoável"

A mesma razão - nossa principal diferença dos animais, que, aliás, chamamos de irracionais, por serem desprovidos de razão - pode ser exercida de dois modos diferentes se considerarmos parte das informações que recebemos ou a totalidade delas.

Quando consideramos parte, nos limitamos àquilo que atinge nossos sentidos, ou que possa ser repetido, deliberadamente sob condições controladas, de qual repetição possamos extrair conclusões mesmo que não atinjam nossos sentidos.

Quando consideramos o total, levamos em conta que o mundo em que vivemos foi criado e quem o criou não está sujeito a ele. Além dos processos repetitivos, dos quais extraímos conhecimento, há possibilidades infinitas de intervenção do Criador em qualquer coisa que ele tenha criado.

Tais intervenções, como fogem da rotina de causa e efeito, são vulgarmente chamadas de milagres. Entretanto, se chamamos de milagre algo que ocorre esporadicamente, mas foi feito pelo Criador, por que não chamamos de milagres ao que ocorre dia-a-dia, e que igualmente foi feito por ele?

Semeamos três grãos. Deles nascem várias espigas com muitos grãos dos quais podemos fazer muitos pães. A essa multiplicação, que se repete, chamamos de ação natural.

Nosso Senhor, o Criador habitando conosco, tomou 5 pães e os multiplicou. Ele queimou etapas. Não semeou. Não colheu. Não os panificou. Porém os multiplicou como sempre faz. Não devemos ver a presença do Criador apenas no segundo evento. Ele está presente também no primeiro. É por causa dele que há germinação de tudo o que é plantado.

Repare bem que sobre os dois processos, podemos igualmente arrazoar, e apenas quando consideramos os dois sob uma mesma perspectiva é que aprendemos mais. Do primeiro podemos aprender o mecanismo mediante o qual as sementes se multiplicam. Do segundo podemos aprender o porque delas se multiplicarem.

Este é o limite de quem usa a razão apenas sobre parte das informações de que dispõe: jamais fica sabendo o porque!

Nosso Senhor e Mestre sempre usou a razão. Há muitos contextos em que ela aparece nitidamente. Porém, um contexto surpreendente ocorre quando ele quis incentivar seus discípulos a terem fé.

Você se lembra? Ele mandou que arrazoassem como o Criador cuida de coisas insignificantes e concluiu: se o Pai cuida dos pássaros e das flores, não cuidaria deles também?

Isaías, no Antigo Testamento, já convidava: “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã.” (Is 1.18)

Paulo, no Novo Testamento, pregava o evangelho assim: “Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus. Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, arrazoou com eles acerca das Escrituras, expondo e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos; e este, dizia ele, é o Cristo, Jesus, que eu vos anuncio.” (At 17.1-3)

Assim também somos obrigados cultivar a fé daqueles que ainda estão se iniciando nela: “Quanto aos moços, de igual modo, exorta-os para que, em todas as coisas, sejam criteriosos.” (Tt 2.6).

De igual modo devemos tratar os que são maduros na fé: “Ora, o fim de todas as coisas está próximo; sede, portanto, criteriosos e sóbrios a bem das vossas orações.” (1Pe 4.7).

Essa abordagem da fé, via razão, parece hoje em dia algo fora de propósito, pois para muitos a fé se opõe a razão. Isso não é verdade. A fé vem do entender (raciocinar, exercer a razão) as Promessas e o Poder do Criador. É impossível uma fé sadia sem o exercício da razão naquilo que o Criador revelou sobre si mesmo.

“Não pense! Creia!” É o que mais se ouve a título de Evangelho. É o que menos respeita a mensagem do Evangelho, que hoje pode ser ouvida em poucos lugares.

Necessitamos viver mais comprometidamente com os valores cristãos. Necessitamos falar cada vez mais que “Deus não é Deus de confusão”. Ou como já disse a muito tempo John Stott: Crer é também pensar.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Os ímpios não são assim

Por ser feliz ele não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores.

Mas os ímpios não são assim: Pelo contrário, aconselham-se e seguem seus próprios “macetes”. Não apenas imitam a conduta dos pecadores como isolam quem não segue a moda que eles mesmos ditam. E com prazer assentam-se em roda para rir e contar como com esperteza saíram ganhando.


Sua satisfação é contemplar a riqueza da lei do Senhor e deleitar-se em sua doçura. À cada acontecimento, seja de dia, seja de noite, ele a compara, e dela aprende como agir em cada caso.

Mas os ímpios não são assim: Geralmente não querem saber de leis. Menos ainda da lei do Senhor. E se à cada acontecimento comparam algum tipo de lei o fazem procurando um meio de contorná-la e tirar proveito do acontecido.


Como a uma árvore plantada junto a um rio - que se mantém frondosa e na ocasião própria fica carregada de frutos - a ele todos procuram. E os que o procuram são revigorados pelo sabor de suas palavras e pelo frescor de sua companhia. Sempre há proveito naquilo em que se empenha.

Mas os ímpios não são assim: São como palha que o vento leva. Sempre inconstantes, levados por todas as dicas, imitam todos os modismos. E tão logo ouvem um falastrão gabando-se e escarnecendo de algo, mudam de opinião e seguem aquele novo vento. Nunca se pode aproveitar o que deles sai. Pelo contrário eles é que se aproveitam dos incautos que se aproximam.

Por serem como palha, os ímpios jamais resistirão ao julgamento daquele que é “fogo consumidor”. Porém finalmente compreenderão sua lei. Por serem como palha, os ímpios também não resistem as dificuldades inerentes ao ajuntamento dos justos: daqueles que se preocupam em como viver a lei do Senhor.

E, por todas essas razões o Senhor envolve-se com os justos em todos os seus caminhos ao ponto de conhecer intimamente seus passos. Mas o caminho dos ímpios não é assim: É como trilha que se perde no varrer do vento e desaparece no desprezo do Senhor.

sábado, 6 de outubro de 2007

Mães que jogam seus filhos no lixo

Em um período de mais ou menos um ano fomos estarrecidos pela notícia de duas mães que jogaram seus filhos na água. Uma em uma lagoa e outra em um verdadeiro esgoto.

Eventualmente poderíamos compará-las a Joquebede que, às águas confiou seu pequeno Moisés. Mas teríamos dificuldade em manter a comparação, pois esta além de colocá-lo em um pequeno cesto que flutuava, confiou na vigilância atenta de sua filha Miriam visando a salvação do pequeno. Mas aquelas além de colocá-los em sacos de lixo esperavam ficar livres de um incômodo.

Talvez, como a aversão que Amnon sentiu por Tamar (maior do que o desejo que o levou a forçá-la), a aversão que elas sentiram pelo fruto de seus ventres passou a ser maior do que o desejo que as levara a concebê-lo.

Doença, dizem alguns. Talvez. Porém podemos dizer com certeza? Quantas doentes sentiram vontade de matar o filho que deram à luz e não o fizeram?

Há alguns anos uma jovem mãe insistiu que eu orasse com ela: “Estou endemoninhada pastor”. Insistia mais. “Não tenho paciência com minha filha, e, de vez enquanto, me pego pensando em como matar meu bebê”. E concluiu: “Tem de ser demônio”.

De nada adiantaram minhas tentativas de explicar o que era depressão pós-parto e quais seus efeitos. Ela insistia em dizer-se endemoninhada. Chegou a contar a todos da Igreja os terríveis sentimentos que escondia desde o primeiro parto, só para avisá-los que eu tinha recusado “exorcizá-la”.

A loucura dessas duas, que jogaram seus filhos no lixo, não é característica exclusiva de nossos dias. Sabemos disso pela própria Bíblia. Você está lembrado do que aconteceu quando a Síria cercou a Samaria? Releia:

Algum tempo depois, Ben-Hadade, rei da Síria, mobilizou todo o seu exército e cercou Samaria. O cerco durou tanto e causou tamanha fome que uma cabeça de jumento chegou a valer oitenta peças de prata, e uma caneca de esterco de pomba, cinco peças de prata.

Um dia, quando o rei de Israel inspecionava os muros da cidade, uma mulher gritou para ele: “Socorro, majestade!” O rei respondeu: “Se o SENHOR não a socorrer, como poderei ajudá-la?

Acaso há trigo na eira ou vinho no tanque de prensar uvas?” Contudo ele perguntou: “Qual é o problema?”

Ela respondeu: “Esta mulher me disse: ‘Vamos comer o seu filho hoje, e amanhã comeremos o meu’. Então cozinhamos o meu filho e o comemos. No dia seguinte eu disse a ela que era a vez de comermos o seu filho, mas ela o havia escondido”. Quando o rei ouviu as palavras da mulher, rasgou as próprias vestes. 2Re 6.24-30

Entretanto, esse tipo de coisa é tão desnatural que o SENHOR através do profeta Isaías pergunta: “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Pode uma mulher não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? Mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria jamais” Is 49.15.

Deus não se esquece de nós!

Mas repare bem: Se nos indignamos com o que aconteceu não é o caso de nos indignarmos também contra quem faz a mesma coisa a filhos mais novos? Qual é a diferença entre matá-los depois que saem do útero e de matá-los dentro dele? Não estão igualmente vivos? Não terão por destino as águas poluídas de algum esgoto?

Pensando um pouco mais: Quem comete maior pecado? Quem, abortando, priva seu filho do “nascimento”? Quem provoca um parto e depois joga seu filho nas águas sujas de um esgoto?

Ou, ainda, quem, depois de um parto abençoado por Deus, e acompanhado com alegria pela família, expõe seu filho a um ambiente cuja poluição não é para se comparar à poluição das águas do mais pútrido esgoto, já que infecta não apenas o corpo mas o espírito da criança?

Por colostro essas crianças tiveram as águas imundas dos esgotos. Quantas por “colostro espiritual” recebem as influências mais infames do pecado?

“... se meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me acolherá” (Sl 27.10). O SENHOR não se esquece de nós!

Afinal, além de nos ter feito, nos chamou à luz com dores superiores às de uma mãe. Nosso nascimento custou-lhe a separação de seu amado Filho. Nossa vida custou-lhe amaldiçoar aquele a quem eternamente gerou.

Mesmo que vivamos em uma época em que se torne comum as mães jogarem seus filhos no lixo, o SENHOR jamais nos abandonará.

sábado, 22 de setembro de 2007

O papel dos porcos na vida de oração

Enquanto olhava os porcos comendo aquelas vagens sem sabor ele se lembrava de quando podia comer os pratos mais saborosos acompanhado das melhores companhias que o dinheiro podia atrair ou comprar.

A fome sentida era tão intensa que as alfarrobas pareciam apetitosas, ou pelo menos a voracidade com que os porcos as comiam dava essa impressão. Mas ele não podia come-las também. O patrão pagava muito por uma porção delas.
Provavelmente a algazarra do chiqueiro lhe tenha lembrado a algazarra que os servos de seu pai faziam no galpão em que ele raramente ia.

- Que qu’eu to fazendo aqui? Na casa de meu pai até os servos tem pão com fartura e eu aqui não posso comer a comida dos porcos? Vou-me embora! Vou pedir perdão a meu pai e me vender como escravo. Pelo menos a fome eu mato.

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Geralmente, como desculpa, ouço argumentos assim: “Se Deus sabe de todas as coisas para que orar?”

Adianta muito pouco dizer: oramos porque Deus nos manda orar e pronto. Embora isso seja verdade, essa resposta nos priva de uma grande lição sobre Deus e sobre nós mesmos.

Você já parou para pensar por que razão o pai deixou seu filho sair de casa? Está lembrado? Não há sequer uma tentativa de dissuadi-lo. O filho pede sua parte na herança e, sem discutir, o pai reparte seus bens. O filho transforma tudo em dinheiro e vai para uma terra distante e o pai permaneceu calado.

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Pelo caminho de volta o filho vem ensaiando a desculpa que daria ao pai. Tinha de ser boa. Precisava prometer algo que pudesse cumprir, pois o que ele havia feito era o mesmo que considerar morto seu pai.

A distância era tão grande que ele teve tempo de preparar mais do que uma desculpa. Ele preparou uma súplica: Pequei. Não sou digno. Aceita-me como um escravo.
Se o pai não o tivesse deixado na situação de desejar comer a comida dos porcos, ele jamais faria essa oração.

Essa oração demonstra que ele aprendeu a se conhecer. Nela ele confessa que havia afrontado o pai, que havia se tornado indigno de ser seu filho e que valia menos do que um escravo.

Essa oração demonstra também que ele aprendeu a conhecer o pai, pois apesar de tê-lo afrontado ele sabia que seu pai era misericordioso. Misericordioso até com os escravos.

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O maior beneficiado com nossas orações não é Deus. Ele não precisa nem gosta de bajulação. E ao contrário do que esses doidos de plantão afirmam, ele não está carente e sequer precisa de elogios.

Nós mesmos somos os maiores beneficiados com nossas próprias orações. Uma oração sincera é produto de um coração aberto. Uma oração verdadeira só é dita por quem conhece seu próprio estado e ao mesmo tempo confia na misericórdia de Deus: o pai.

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Resta-nos pensar: “será que Deus terá de permitir que eu, na minha insensatez, chegue a situação de desejar a comida dos chiqueiros para então aprender a orar”?

Não seja esse nosso destino.

sábado, 15 de setembro de 2007

No vale da sombra da morte

Ao referir-se ao vale da sombra da morte, Davi poderia estar falando de um lugar qualquer, famoso por sua periculosidade. Há quem pense que ele falava da estrada que liga Jerusalém a Jericó.

Conhecida como "Ladeira do Sangue", essa estrada era um caminho sinuoso e íngreme, que descia 1200 metros em apenas 27 quilômetros, com muitos vales estreitos de cujos lados, em cavernas escavadas, malfeitores espreitavam e emboscavam os viajantes. Foi o cenário que o Senhor usou na Parábola do Bom Samaritano.

Hoje, distante do deserto da Judéia, o vale da sombra da morte pode representar nossas aflições mais graves. Quantas vezes já passamos por esse vale ou vimos um de nossos queridos passar? Tantas vezes quantas a morte nos fez sombra.

Ao nos aproximamos desse vale, nosso primeiro sentimento ainda continua sendo o medo. Porém a visão do cajado - com que o Bom Pastor nos puxa para junto de si - e a visão de seu bordão - com que ele coloca os agressores em fuga - nos acalma.

No vale da sombra da morte é que aprendemos de fato a conhecer o Bom Pastor e o que ele pode fazer. Ele nunca fica longe de nós. Mas, apenas o terror que aquele lugar nos infunde, faz com que sintamos mais vividamente sua presença protetora. Dificilmente poderíamos dizer "não temerei mal algum, porque tu estás comigo" se já não tivéssemos alguma vez em nossa vida passado por esse vale.

O vale da sombra da morte fica antes dos pastos verdes e das águas tranqüilas às quais o Bom Pastor nos leva. Ele até poderia usar outro caminho, mas o que passa por esse vale terrível faz com que valorizemos mais o destino a que somos levados.

O vale da sombra da morte torna a maior bênção que uma ovelha recebe do Bom Pastor se, como Jó, ao sair dele, ela possa dizer: “...meus olhos agora te vêem”. E, tenha certeza: o vale da sombra da morte é uma passagem obrigatória para toda ovelha do Bom Pastor. Às vezes, a passos curtos, ele nos parece longo. Às vezes o vencemos correndo. Porém, dificilmente passamos por ele apenas uma vez. Ele é o caminho rotineiro dos que precisam aprender a permanecer bem juntos do Bom Pastor.

Não nos assustemos com o vale da sombra da morte se estivermos nele agora. Ao contrário, extraiamos dele todos as lições possíveis - mesmo que fiquemos exaustos - pois, ao sairmos, encontraremos refrigério para nossas almas e uma mesa posta.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...