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sábado, 8 de novembro de 2014

Os que vos presidem bem

Depois do dia de Pentecostes alguns convertidos permaneceram em Jerusalém e muitos voltaram para suas cidades de origem onde estabeleceram igrejas. Este deve ter sido o início de Igrejas como a de Roma. Lucas nos informa (At 28.13-14) que encontraram “alguns irmãos” em Putéoli (próximo a atual Nápoles) e que foram recebidos pelos crentes de Roma na Praça de Ápio.

Até o fim do primeiro século temos notícias de pelo menos 50 igrejas em diversas cidades desde Jerusalém a Roma. Dentre essas, temos detalhes em Atos dos Apóstolos, das igrejas na Galácia, Filipos, Tessalônica, Corinto e Éfeso e pelas cartas de Paulo sabemos algo das igrejas em Colossos, Laodicéia e Creta. O Apocalipse fala das 7 igrejas na Ásia menor.

Portanto, em cerca de 60 anos – de 40 a 100 AD – podemos catalogar umas cinquenta igrejas diferentes, fundadas em situações diferentes, em cidades diferentes, falando idiomas diferentes, com poucas coisas em comum: todas dentro do império romano e todas usando um sistema de governo semelhante.

Sobre essa primeira característica comum, veja aqui uma análise que fiz em agosto de 2011. Quanto à segunda característica, Lucas nos diz que a Igreja de Jerusalém tinha Apóstolos (At 8.1, 11.30, 15.1, etc.) e presbíteros (At 15.1). Também tinha diáconos, pois os 7 homens (At 6.1-7) foram eleitos com missão de servir às mesas.

O ofício de Apóstolo foi tão restrito aos Doze chamados por Jesus, quanto o patriarcado foi restrito aos filhos de Jacó. Além dele temos apenas Matias e Paulo (que, como os dois filhos de José, foram agregados ao patriarcado também). Os textos em que outros são chamados apóstolos (Barnabé em At 14.14 e Tiago, o irmão do Senhor, em Gl 1.19) são claramente lato sensu. Seria como dizer que Moisés e Josué foram patriarcas de Israel. Só houve uma substituição entre os doze: Judas. Quando o último apóstolo morreu considerou-se extinta a época deles e os que ousaram identigicar-se como apóstolos foram expostos como obreiros fraudulentos, ministros de Satanás (2Co 11.4-15) e mentirosos (Ap 2.2).

Os presbíteros são explicitamente mencionados nas Igrejas de Listra, Icônio e Antioquia (At 14.21-23), Éfeso (At 20.17), Creta (Tt 1.5) e nas diversas igrejas do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1Pe 5.1 em conjunto com 5.5). A palavra presbítero basicamente significa idade mais velha, porém seu uso mais comum refere-se à maturidade. A Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) usou diversas palavras derivadas da raiz presb: velhos (Sara e Abraão), ou líderes (os auxiliares de Moisés). No Novo Testamento (NT) refere-se aos membros do Sinédrio, aos seres celestiais do Apocalipse, e principalmente a certos líderes cristãos, encarregados de supervisionar e pastorear a Igreja (At 20.28, 1Pe 5.1-3, etc.).

A palavra diácono aparece 34 vezes (5 vezes na Septuaginta) com o sentido básico de serviço (os servos no Livro de Ester, o maior no reino dos céus, os serventes na festa de Caná, etc.) Porém, em cinco lugares ela claramente refere-se a um ofício na Igreja (os que preenchem as qualificações dadas a Timóteo (1Tm 3.8-10) e aquele a quem a Carta aos Filipenses foi endereçada (Fp 1.1). Os primeiros diáconos foram eleitos na Igreja de Jerusalém (At 6.1-6).

O texto bíblico menciona bispos nas Igrejas de Éfeso e FIlipos e indiretamente na de Creta (quando Tito recebe instruções). A palavra episkopos e suas correlatas (de onde veio nossa palavra bispo) era usada desde a Grécia clássica para designar aquele que supervisiona, superintende, vela ou vigia por algo (Artemis vigiava pela fidelidade dos contratos). É mais usada na Septuaginta (14 vezes) sempre com o sentido de ter o encargo de, comandar, superintender, inspecionar, do que no NT (5 vezes) onde significa basicamente pastorear. De todas as vezes fica a impressão de um presbítero que tinha uma incumbência específica.

É notável que durante todo esse tempo, em uma área com quase 5 mil quilômetros de extensão, igrejas de nacionalidades e idiomas  tão díspares, possuíssem forma de governo tão semelhante. Não pode ter sido apenas coincidência. Creio que a Doutrina dos Apóstolos incluía também uma alusão ao sistema de governo do Antigo Testamento em que os presbíteros já estavam presentes e os diáconos possuíam missão análoga à dos levitas.

Os presbíteros, que supervisionassem bem, deveriam ser dignos de honra (ou honorários) dobrados, especialmente os que se dedicassem ao estudo da Palavra de Deus e ao ensino (1Tm 5.17). Deveriam ser tidos em alta conta, ter sempre um voto de confiança diante de denúncias isoladas (mas, quando culpados, a disciplina deveria se pública, diante de todos).

Não podemos esquecer que eles receberam exortações pungentes sobre como exercer seus ofícios: Paulo diz que eles deveriam ter vidas tão ilibadas ao ponto de não serem passíveis de qualquer repreensão. Deveriam ser maridos de uma só mulher e pais de filhos dóceis. Irrepreensíveis, também, ofício do presbiterato. Afáveis, pacíficos, generosos, hospitaleiros, sóbrios, apegados à doutrina cristã, dispostos a defendê-la e a promover sua aplicação. Pedro ordena-lhes atender o rebanho com dedicação e liberalidade sem segundas intenções, especialmente financeiras. E João diz que devem ser comprometidos com a verdade.

Todas as qualidades estão relacionadas a cuidado e nenhuma delas a desempenho. Diferentemente de hoje, os líderes do povo de Deus, não são executivos dirigindo uma empresa ao sucesso. São homens santos cuidando de um rebanho que não lhes pertence.


sábado, 13 de abril de 2013

Pastorear

O exercício desse ministério está profundamente enraizado na tradição cultural e religiosa do antigo povo de Deus e, não tenho a menor dúvida, de que Jesus tenha escolhido de propósito a figura do pastor de ovelhas, para que, por sua simplicidade, os primeiros pastores de almas encontrassem claramente, não apenas na cultura, mas especialmente nas Escrituras as diretrizes do que significa ser pastor e legassem um modelo claro de atuação a seus sucessores.

Como pastor perto dos 30 anos de ministério ordenado, percebo que hoje faço muito mais o que as circunstâncias me impõem, e o que minhas ovelhas demandam, do que aquilo que os primeiros pastores me deixaram de modelo e principalmente o que a Bíblia exige de mim. E, tenho certeza, de que outros, como eu, percebem o mesmo.

É claro que sonho com uma reforma (o verdadeiro protestante sempre abriga em seu peito o não conformismo de Rm 12.1-2), mas não é possível fazer como fazemos nos computadores: apertar um botão de reset (ou desligar e ligar). As pessoas não são assim: As mudanças vêm pelo ensino persistente da Palavra de Deus, pela paciência e até mesmo pelos ouvidos moucos com que um pastor tem de receber afrontas.

O que a Bíblia ensina sobre pastores é mais do que um artigo pode comportar, mas, em linhas gerais, partindo da figura do pastor de ovelhas, podemos resumir dizendo que ele é quem cuida de um rebanho.

A ênfase maior que o Antigo Testamento dá nesse cuidado é na alimentação do rebanho, pois a palavra que mais se repete (mais de 160 vezes) tem sua raiz nesse contexto.

A primeira vez que ela aparece é em Gn 29.7 onde é traduzida por alimentar ou por apascentar. Volta a aparecer em Gn 29.9, 30.36, 36.24 e 41.2. E embora se refira a apascentar ou alimentar diversos tipos de animais (poeticamente até gazelas em Ct 4.5) merece destacar que o supremo Pastor tenha por primeira preocupação conduzir suas ovelhas a pastos verdes e às águas tranquilas (Sl 23.1-2).

O uso poético dessa palavra e seus derivados é importantíssimo. Em Pv 15.14 “a boca dos insensatos se apascenta de estultícia”. E o profeta Isaías (44.20) diz que o idólatra “se apascenta de cinzas”. Observe que nestes textos o verbo apascentar pode ser substituído por alimentar-se como a Versão Atualizada fez em Is 65.25. Mas, certamente o uso mais rico está em Jr 3.15: Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência”.

Por falta espaço menciono apenas que outro uso no Antigo Testamento era o domínio dos povos invasores que devoravam as cidades conquistadas (Mq 5.6). Literalmente: se alimentavam delas.

Porém, o que mais me impressiona é ver que uma das funções do rei de Israel era ser “O Pastor de Israel”: Confira o contexto de 1Re 22.17 e 2Cr 18.16.

Não há grandes mudanças no Novo Testamento. O quadro cultural e religioso continua, mas a Igreja introduz um elemento novo: O verdadeiro Pastor, do qual todos os reis de Israel e sacerdotes, eram apenas sombra, torna-se um pastor onipresente por seu Espírito em todos os corações. Porém, a lembrança concreta disso é realizada através da Comunhão dos Santos, em sua Igreja, que deve ser conduzida, por oficiais que recebem a tarefa de pastoreá-la.

Essa tarefa é dada de formas parecidas, mas com nuanças interessantes. Veja algumas:

Paulo dirigindo-se aos presbíteros da Igreja de Éfeso: “Atendei (prosecho) por vós e por todo o rebanho ...” (At 20.28).

Pedro dirigindo-se aos presbíteros de uma região enorme, que equivale atualmente à toda Turquia e a algumas regiões mais ao norte, ordena: “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, [...] pastoreai (poimaino) o rebanho de Deus que há entre vós, [...] como Deus quer;” (1Pe 5.1-2).

Por fim veja as ordens que Jesus deu a Pedro: “... perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? Ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Ele lhe disse: Apascenta (Bosko) os meus cordeiros. Tornou a perguntar-lhe pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Ele lhe respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Pastoreia (poimaino) as minhas ovelhas. Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta (Bosko) as minhas ovelhas” (Jo 21.15-17).

Temos, portanto, três palavras: Atender (prosecho), pastorear (poimaino) e apascentar (bosko).

Prosecho, além daqui (At 20.28), nas outras 23 vezes que aparece no NT pode ter pelo menos 7 sentidos correlatos: Acautelar-se (tanto da hipocrisia, quanto dos falsos profetas ou do fermento dos fariseus). Atender tanto a verdade como às palavras de Filipe ou às mentiras de Simão, o mago. Ocupar-se de mitos como Paulo proibiu aos efésios e aos cretenses. Dar-se, ao vinho ou aos espíritos enganadores. Aplicar-se à leitura, apegar-se com mais firmeza às verdades ouvidas e atender à palavra profética.

Já poimaino, em suas 11 aparições tem 5 sentidos básicos. Apascentar, como Mateus se refere a profecia de Miquéias, ou o próprio rebanho do qual se nutre. Guardar o rebanho mesmo que se refira a gado graúdo. Alimentar-se como os hereges fazem nas festas de fraternidade da Igreja. Guiar como o Cordeiro fará com os egressos da grande tribulação. E Reger como o vencedor mostrado a Igreja de Tiatira e o cavaleiro que monta o cavalo branco.

Por sua vez bosko é monossêmica e nas 9 vezes em que aparece no NT refere-se sempre a comer. Além de Jo 21.5 os sinóticos falam apenas da manada de porcos de Gadara e da vontade que as alfarrobas provocavam no filho pródigo.

Resumindo: Quando Jesus ordenou a Pedro, quando Paulo ordenou aos presbíteros de Éfeso e quando Pedro ordenou aos muitos presbíteros de um vasto território com muitas nações de culturas díspares (unificadas apenas pela fé cristã e um sistema de governo presbiteriano), estavam dando uma ordem razoavelmente clara: Cuidem, guiem e alimentem o rebanho do Senhor.

Obviamente estes verbos possuem modificadores ou predicados. E cuidar, tanto quanto guiar, ou alimentar, às vezes podem ser literais, para uma comunidade perseguida. Porém, via de regra, refere-se muito mais a necessidades da alma diante da nova fé que abraçaram.

Observe que Jesus toma figuras em profissões simples: Cerca de dois anos antes Pedro e André foram chamado por Jesus para ser “pescadores de homens” (Mt 4.18-19). Agora, Pedro é chamado a ser pastor do “rebanho do Senhor” (Jo 21.15-17).

Eu não estaria totalmente errado se dissesse que pastorear, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, é principalmente alimentar ou conduzir à alimentos. Não foi sem causa que se resumiu tudo na palavra apascentar, palavra derivada do latim pascere: “pastar”.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Precisamos de outra Reforma hoje?

Desde que fui ordenado pastor tenho feito esta pergunta a mim mesmo e a outros pastores. Confesso que minhas respostas sempre refletiram as dificuldades do momento. Já as respostas dos pastores mais experientes variaram e a dos pastores mais novos eram quase sempre iguais: começar tudo de novo como os Reformadores no Século 16 fizeram.

No fundo, desejo alguma espécie de aperfeiçoamento ou correção de rumo, que é difícil de expressar. Talvez, se eu falar dos problemas, possa, pelo menos, dizer o que mais me aflige.

Primeiro: A seriedade com os compromissos assumidos: Ainda no Seminário o livro Reformemos a Igreja, escrito pelo Dr. Klass Runia, chamou muito minha atenção sobre a frouxidão da disciplina eclesiástica e ultimamente o livro Subscrição Confessional do Rev. Dr. Ulisses Horta Simões, enfatizando a necessidade de manter os votos confessionais, mostra a desordem que atinge desde ovelhas a pastores (e até concílios) complacentes com o erro. Não há dúvida que isso precisa ser corrigido. Ou se preferirem usar o termo: reformado.

Segundo: Uma limpeza em nossos valores, especialmente no modo de vermos o culto a Deus: É preciso também uma correção (ou reforma) que vá além de usos e costumes. Ela deve atingir os valores Católicos Romanos impregnados em nossa cultura, tão evidentes em algumas cerimônias. Já avisei a minha família que não quero velório, nem culto de corpo presente. Quem quiser se despedir de mim faça enquanto eu estiver vivo (quem sabe, eu o convencerei a ansiar pelo dia em que me encontrará à mesa com o Senhor). E se outro tiver ideia de me fazer alguma homenagem – pois em nossa cultura basta morrer para virar santo – se lembre das palavras de nosso Senhor: “Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17.10).

Terceiro: É preciso também, ao contrário, lembrar que muitas práticas genuinamente cristãs, não são exclusividade da Igreja de Roma e não podem ser deixadas de lado, por que “parecem católicas”. Por exemplo: Credo Apostólico, o Pai Nosso, etc.

Quarto: Precisamos ser cuidadosos com os extremos: Alguns em nome de cumprir o Princípio Regulador do Culto não oram o Pai Nosso quando o Senhor Jesus disse “Vós orareis assim”. Outros, insistem em cantar apenas os cento e cinquenta Salmos deixando de obedecer a ordem “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Cl 3.16) e preterem ricos ensinos que podem vir do restante da Escritura.

Quinto: Deixar bem claro quem somos nós: Os excessos que vemos hoje começaram quando se deixou, na prática, a doutrina Sola Scriptura (A Bíblia é a única regra de Fé e Prática). Ao aceitar-se revelações contemporâneas, abriu-se a porta para todos os tipos de invenções e chegamos ao absurdo dos sprays contra maridos infiéis ou travesseiros ungidos para provocar sonhos proféticos. Obviamente tudo vendido e bem cobrado.

Ainda dentro desse ponto é bom lembrar que hoje se reproduz com exatidão um aspecto contra o qual a Reforma do Século XVI lutou. Uma das razões para a venda das indulgências era a construção da Capela Sistina (que celebra esses dias seus 500 anos) adornada por artistas como Rafael, Bernini, Botticelli e especialmente por Michelangelo, pintor de seu teto em ousada blasfêmia de representar Deus, mas que, nem por isso, deixa de encantar muito protestantes que se declaram contra a venda de indulgências e contra a quebra do Segundo Mandamento.

Há muitas outras coisas de menor importância, que no entanto merecem vigilância, pois podem crescer e nos afetar. Acima de tudo o que deve nos servir de norte é a Palavra de Deus. Somente ela, mas em sua totalidade.

sábado, 6 de outubro de 2012

Muito Obrigado

No distante Século XII, os nobres de Portugal recebiam o tratamento de “vossa mercê” (mercê significando graça ou concessão). Com o passar dos anos mudou-se para “vossemecê”. Anos mais tarde, “vosmecê”; até que em 1813 já se encontra registrada a forma “vosse”; e Camilo Castelo Branco (1825 - 1890) registra “você”. Durante meu período de vida já vi “ôcê” e “cê”. Sem contar com as variantes da internet “vc” e “c”.

Há não muito tempo também era costume agradecer algo, ou um favor recebido com uma expressão do tipo: “... por isso sou grato e lhe fico muito obrigado”. Hoje dizemos apenas “obrigado” (ou apenas “brigado”). Observe que a expressão de agradecimento estava na primeira parte da frase e a segunda parte era um reforço em que se garantia mais do que gratidão. Garantia um empenho, uma retribuição, uma obrigação tida para com quem fez algo que foi muito apreciado.

Neste contexto, pergunta o salmista: “Que darei ao SENHOR por todos os seus benefícios para comigo? Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do SENHOR” (Sl 116.12-13).

Mas, voltando a nossa língua. Embora eu creia que cada idioma possua suas peculiaridades, o Português se destaca. Eu não possuo um censo de todos os idiomas modernos, mas desconfio que o português seja o de léxico mais amplo. A Academia Brasileira de Letras classificou em seu vocabulário ortográfico quase 390 mil palavras, o que é mais do que o Inglês (o Merrian-Webster´s Collegiate Dictionary possui 165 mil entradas); do que o Francês (o Dicionnaire de l’Academie Fraçaise a la Letre possui cerca menos de 50 mil), e descontando as palavras compostas que se pode formar na língua alemã um dicionário básico terá uma quantidade semelhante de entradas.

Não creio que essas línguas sejam lexicalmente mais pobres que o Português e apesar dessa abundância de palavras que os brasileiros tem a sua disposição nossos universitários, bem formados, dominam apenas 5 mil dessas palavras, em média. E, digo com tristeza, que um dos problemas que mais afligem a nós pastores é fazer com que as traduções bíblicas sejam corretamente entendidas. Observe, apenas como exemplo, Colossenses 1.12:

Na versão mais usada (Almeida Atualizada) lemos: “dando graças ao Pai, que vos fez idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz”. Mas, o que significa exatamente “idôneos à parte que nos cabe da herança”?

A versão Corrigida, a Corrigida Fiel, a Versão Contemporânea, bem como a Almeida Portuguesa, parecem facilitar a leitura com: “idôneos para participar da herança”. Porém complicam mais, pois tiram a idoneidade de um determinado ato e a transformam em qualidade genérica.

A Nova Versão Internacional simplifica ao extremo dizendo apenas “nos tornou dignos de participar”. E a Século XXI opta por “capacitou a participar”.

Esse é um caso em que o idioma grego, por sua natureza, exige muito mais do que o nosso é capaz de fornecer com uma simples palavra, pois a ideia vai desde o capacitar a algo, ser suficiente para alguma realização, ser adequado, ou caber, até equipar, dar poderes, investir de poderes, para que participemos da herança que está reservada a todos os santos.

Obviamente é mais do que um problema de tradução, mas atinge o infortúnio que se abate sobre nós, a respeito do qual estou tentando falar.

Se lembra de como “vossa mercê” virou “cê” e de como surgiu o simples obrigado? Este fenômeno pode ser explicado pela lei do menor esforço. Mas, paralelamente, cada vez mais, se usa uma mesma palavra, com os mais diversos significados, além de seu significado normal. Hoje qualquer dicionário trará como significado de “legal” uma coisa boa, mas antes dos anos 60 “legal” era apenas alguma coisa que estava de acordo com a lei. Em nosso caso, “obrigado”, que significava originalmente uma declaração de obrigação, hoje é uma expressão de agradecimento.

Dessa forma não é de se estranhar, que nós que professamos receber de Deus tudo pela graça, nos dirijamos a ele e digamos “Muito obrigado Senhor”!

Eu ainda acho tremendamente estranho, e teologicamente é errado, mas linguisticamente é explicável. E no fundo é um grande contrassenso que alguém que declara viver pela graça, dirija-se a Deus e lhe diga obrigado. Como obrigado? Tudo foi pago na cruz. Em que estamos obrigados? Em nada! O que temos a fazer? Apenas em receber a sua graça. Tomar o cálice de sua salvação como nos disse o salmista.

domingo, 13 de maio de 2012

Alegrias no ministério pastoral

Nenhum pastor pode dizer que seu ministério é a razão de uma vida triste. Não pastor de verdade. Que fique bem claro: não somos imunes à tristeza. Ela é bem conhecida de cada um de nós e anda sempre por perto. Porém, o que fazemos nos alegra. Conhecemos momentos de tristeza, mas Deus nos recompensa com momentos de grande alegria.

Lutar contra dificuldades materiais entristece o coração de qualquer pastor. Afinal, como marido e pai, ele deseja que sua família também esteja tão amparada quanto as famílias de seu rebanho. Mas, isso não é o mais importante, pois ele compartilha do mesmo sofrimento que o rebanho. Ou seja: Deus mostra em sua casa, na sua mesa, as necessidades que o rebanho sofre e o torna mais capaz de entender os problemas dele. O mesmo raciocínio pode ser aplicado aos problemas de saúde.

Assim como ele se entristece por um filho rebelde, ele se entristece também por um ovelha obstinada. A dor que ambos causam é semelhante. Talvez difira em intensidade. Neste aspecto, ensinar, e ver que foi vão, mesmo que o ensino tenha sido recebido com alegria e elogios, é um desses momentos de tristeza. Certamente esse é o aspecto mais doloroso do ministério pastoral.

Obviamente, o texto acima tem uma grande carga pessoal e não sei quantos pastores concordariam com ele, especialmente por que, através do contraste, eu já revelei o que mais alegra um pastor: ver a Palavra de Deus ser posta em prática. E novamente não sei quantos concordariam com isso.

À essas alturas terei de ser mais pessoal, pois nunca me esquecerei de algumas coisas dentre as quais seleciono pouquíssimas:

A Profissão de Fé de minhas filhas, que confirmou o que ensinamos a elas desde o berço certamente é o ponto de maior alegria pra mim.

Mas não posso deixar de falar da alegria que senti no abraço que a Martinha me deu quando eu recebi sua Profissão de Fé. Ela beirava 30 anos, mas era portadora de Síndrome de Down. O Conselho da Igreja percebeu nela uma belíssima fé em Jesus Cristo como seu Salvador. Percebeu também que ela possuía uma clara distinção entre o que era certo e errado, bem como um arrependimento sincero sempre que fazia algo errado. Resolveu convidá-la a publicar sua fé e tomar a Santa Ceia. Ela não gostava muito de me abraçar - dizia sempre que minha barba a espetava - mas naquele dia ela me deu um abraço apertado. Dois anos depois o Senhor a chamou para junto de seu trono.

Nunca me esquecerei de um grupo de onze crianças, entre 6 e 12 anos, que me aguardavam na sala pastoral, sentadas à mesa do Conselho, após o Culto, onde eu ia sempre trocar o manto pelo paletó, reivindicando o direito de ficarem no templo e participar do culto, pois “estavam cansadas de historinhas”.

Mas, esta semana entrou no rol das lembranças, das quais nunca me esquecerei, o gesto de um grupo de jovens da Igreja que estou pastoreando atualmente: Eles se negaram a participar da final de um campeonato por ser disputada no Dia do Senhor! Perderam para pessoas que não achavam nada demais fazer isso em um domingo.

Quando eu soube da notícia, lembrei-me do missionário Eric Lidell, que deixou de correr em sua especialidade nas olimpíadas de 1924 por ser disputada no domingo (maravilhosamente relatado no filme Carruagens de Fogo).

Certamente o troféu que esses jovens receberão, bem como seus conselheiros, que os guiaram bem, será muito melhor do que aquele troféu pífio que deixaram de ganhar, pois antes de serem atletas do mundo são atletas de Deus, e ele é claro em sua Palavra: “...o atleta não é coroado se não competir segundo as normas” (2Tm 2.5).

sábado, 30 de abril de 2011

Voltando a falar de pastores

Quando se lê as sete cartas do Apocalipse, partindo da pressuposição que elas foram escritas primariamente à pastores - o que espero que você tenha feito desde que comecei tratar deste assunto - muitas coisas mudam de aspecto.

Continuarei abordá-las depois, em outra fase. Porém, não posso deixar de falar no fim desta primeira sobre algo que salta aos olhos: o que os pastores pensam de si mesmos e o que Jesus pensa deles.

Talvez o caso mais claro seja o do pastor da igreja de Laodicéia: “...pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”. Veja: Aos próprios olhos ele era rico, abastado e independente, mas o Senhor o via nu, cego, pobre e miserável. O coitado sequer sabia que era infeliz.

Mas nem sempre o texto é tão claro.

O pastor da igreja de Éfeso parece ter sido um homem íntegro que via na fidelidade às verdades recebidas, e a perseverança nelas a qualquer custo, a realização de seu ministério. Talvez fosse o que hoje chamaríamos de conservador. Jesus o elogiou por isso, mas o criticou por esquecer-se da razão pela qual isso deve ser feito: o amor. O primeiro amor. O amor que tinha quando começou a fazer tais coisas.

Invertido é o caso do pastor da igreja de Esmirna. Provavelmente diríamos hoje que ele tinha “baixa autoestima”, ou então que as condições em que vivia não o permitiam pensar muito além do que o horizonte humano deixava. Entretanto o diagnóstico do Senhor é diferente: “mas tu és rico”. A riqueza que o Senhor mede não é a que enche as carteiras, como a dos depositantes do gazofilácio, mas a que transborda de corações como da viúva ou desse pastor anônimo, que tinha de suportar blasfemos, falsos judeus e satanistas.

Sobre o pastor da igreja de Pérgamo, a despeito de conservar o nome do Senhor em meio a dificuldades inimagináveis hoje, mantinha uma postura pluralista inclusivista, pois permitia em seu rebanho balaamitas e nicolaitas. A ordem do Senhor era clara: deveria se arrepender. Isso pressupõe que ele se orgulhava de ser conciliador de opostos pois os pecados dos balaamitas eram exatamente levar seu rebanho à idolatria.

O pastor da igreja de Tiatira, a despeito de suas muitas obras, que o qualificariam hoje como um homem piedoso, tem seu pecado é claramente mostrado como o da tolerância para com o erro, pois permitia um verdadeiro “copastorado” de uma mulher que se dizia profetiza mas agia como a rainha idolatra Jezabel. A ausência de repreensão direta a ele (pastor) e a intervenção direta de Jesus no rebanho com ameaças terríveis, me dá a impressão que ele tinha o que chamamos hoje de “falta de pulso”. Talvez tivesse de si mesmo um conceito fraco. Era um trabalhador, mas era fraco como o rei Acabe. Quem sabe essa seja outra razão para o Senhor chamar essa mulher de Jezabel.

Triste sina a do pastor da igreja de Sardes, que pode ser resumida em poucas palavras. Ele se imaginava vivo, mas o Senhor o via morto.

Outro pastor misterioso é o de Filadélfia, mas pelo lado bom. Parece que ele pensava de si próprio com moderação. Sabia que tinha pouca força e o Senhor lhe atestou isso. Também era assolado por falsos judeus e satanistas, mas guardou a palavra do Senhor.

Sete pastores, sete avaliações e parece que apenas um pensava concordemente com o Senhor. Cinco pensavam de si mais do que deveriam e o Senhor os repreendeu. O de Esmirna pensava aquém e o Senhor o animou.

Ainda bem que o Senhor Jesus anda no meio das igreja e tem na mão cada pastor. Assim ele interfere em seu rebanho e no pastoreio do mesmo. Assim ele cumpre sua própria promessa: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência” Jr 3.15.

sábado, 16 de abril de 2011

Pastores (2ª parte)

Um amigo observou sobre o texto anterior: a autoridade que o Senhor admite que cada pastor tenha é muito grande. E disse: “se eu tivesse metade dela, nenhum Balaão, Nicolaíta ou Jezabel sequer se aproximaria da Igreja”.

Às vezes sou propenso em concordar. Mas será que Jesus está dirigindo-se a um pastor só, ou a todos os que são pastores de determinada igreja? Veja:

A primeira carta é dirigida ao Anjo da igreja de Éfeso. Esta igreja foi fundada pelo apóstolo Paulo durante sua terceira viagem missionária. Nela permaneceu por quase três anos. Sofreu tanto ali “ao ponto de desesperar até da própria vida” (2Co 1.8).

Continuando sua viagem em direção à Macedônia procurou deixa-la em boas mãos e ao retornar, passou perto o suficiente para encontrar-se com os presbíteros dela e recomendar “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28). Repare: Ela estava sendo pastoreada, por um grupo de presbíteros a quem Paulo diz que o Espírito Santo constituiu bispos. Eles a pastoreavam coletivamente.

Anos depois, Paulo mandou Timóteo para lá: “Quando eu estava de viagem, rumo da Macedônia, te roguei permanecesses ainda em Éfeso para admoestares a certas pessoas, a fim de que não ensinem outra doutrina, nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé” (1Tm 1.3-4).

Ora, se Timóteo permaneceu lá, a carta é dirigida a ele. Entretanto, faz mais sentido, para mim, que ela seja dirigida ao mesmo grupo (não aos mesmos indivíduos) a quem Paulo exortou na praia de Mileto.

Sei de igrejas em que um só pastor é o verdadeiro dono até dos imóveis e sei de igrejas em que o pastor não passa de um empregado. Por isso, apesar de endereçadas aos pastores, as cartas sempre terminam com a frase: “quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz as igrejas”.

Nem o pastor pode dizer, “eu tentei resolver aquele problema, mas o povo é rebelde”. Nem o povo pode dizer, “o pastor nunca nos disse que o Senhor não queria que fizéssemos isso”.

O Senhor ordenou a ele com voz alta e clara para que fosse ouvida por todos, pois suas ovelhas ouvem sua voz.

Como exemplo veja a igreja de Tiatira - sobre a mulher que se dizia profetiza, mas agia como Jezabel - o que o Senhor diz: “Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição. Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita. Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras” (Ap 2.21-23).

Notou? O Senhor a disciplinou diretamente. Não usou o pastor. E o fez como exemplo para todas as igrejas. Depois falou diretamente aos membros da igreja: “Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha” (Ap 2.34-25).

Jesus é o Senhor. Anda no meio das igrejas e tem na mão os pastores.

sábado, 9 de abril de 2011

Pastores

Quando Jesus ordenou a João que escrevesse às sete igrejas, endereçou cada carta do mesmo modo: “Ao anjo da igreja em ...”. Quem é esse anjo?
A primeira hipótese é de que se trate de um ser celestial, pois no livro há pelos menos 73 menções deles. A segunda hipótese é a personalização dos defeitos e qualidades de cada igreja, como se dissesse “Ao espírito da igreja tal”. E a terceira hipótese é de que se trate dos pastores daquelas igrejas.
Contra a primeira hipótese há muitos argumentos fortíssimos. Mas, por enquanto, basta um: se fosse um ser celestial, jamais o Senhor teria sequer algo contra ele como explicitamente tem, contra o anjo das Igrejas de Éfeso, Pergamo e Tiatira. Bastaria o que disse ao anjo de Sardes: “Não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus” e isso faria dele um demônio.
Contra a segunda hipótese também há diversos argumentos, mas também destaco um: como se haveria de admoestar, repreender ou elogiar uma tendência ou qualidade? Alguns dizem que Jesus está admoestando a igreja! Então por que dirigiu sua carta ao anjo dela?
Jesus está se referindo aos pastores (ou como se diz hoje: líderes). E aqui há o que temer e tremer.
1. Pastores podem ser zelosos de seus deveres e perseverantes nos mesmos como o foi o pastor da igreja de Éfeso. Modestos como o de Esmirna. Fiéis diante de lutas como o de Pérgamo. Perseverantes como o de Tiatira. Suficientes como o de Sardes. Eficientes como o de Filadélfia. Porém, tristemente tortos, ao ponto de provocar ânsias de vômito no Senhor Jesus, como o pastor de Laodicéia.
Cada um tem - com exceção do pastor de Laodicéia - uma qualidade destacada pelo Senhor. Em alguns de forma tão sutil, como no de Sardes, que é até difícil de ver. Noutros ela brilha com tal força que a própria modéstia, como a do pastor de Esmirna, não é capaz de cobrir. É o Senhor, com olhos como fogo que perscruta e julga. Ao de Sardes sentencia: “tens o nome de que vives e estás morto”.
2. Pastores podem ser a pior desgraça de um rebanho. Eles podem ser tolerantes. Isso soa terrível para nossos dias, mas é um dos pecados dos pastores listados aqui.
O pastor da igreja de Pérgamo tolerava os seguidores de Balaão e os nicolaítas. Já o pastor da igreja de Tiatira tolerava que uma mulher “que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos” (Ap 2.20).
O pastor da igreja de Laodicéia se julgava rico e abastado, mas era pobre, cego e nu. Morno, provocava ânsias de vômito no Senhor: deixava Jesus do lado de fora: excomungado.
Talvez o comportamento mais triste tenha sido o do pastor de Éfeso em quem a única qualidade que sobrou foi o ódio ao erro por ter esquecido de seu primeiro amor.
Deus abençoa sua igreja mediante muitas coisas e uma delas é o pastor que coloca para servi-la. Não é a toa que o apóstolo ordena: “Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil” (Hb 13.17 ERC)










sábado, 2 de agosto de 2008

O Supremo Pastor e seus cooperadores

Aquele que chamou seu povo de rebanho foi o mesmo que, nos tempos antigos, era conhecido como O Pastor de Israel. O mesmo que inspirou a Davi - seu servo e também pastor desde a infância - a chamá-lo de pastor e atribuir-lhe todas as qualidades de um bom pastor.

Portanto, ele sabe o que é ser pastor. Conhece bem a natureza de seu povo para compará-lo a um rebanho.

Aquele que, feito um de nós, vendo aos que viera resgatar como “ovelhas que não tem pastor”, supriu-lhes as necessidades materiais, espirituais e disse de si mesmo: “Eu sou o Bom Pastor”. Comparou-se a um pastor que deixa noventa e nove ovelhas em segurança e sai em resgate de uma que se perdeu. E, depois de salvá-la, carrega-a nos braços de volta ao aprisco.

Portanto, ele sabe também que a melhor figura para representar seu povo é um rebanho. Um rebanho perdido e debilitado, que precisa ser trazido de volta nos braços.

Ele então chamou diversas pessoas como seus cooperadores e os dotou com o dom fundamental que todos os pastores devem ter: o cuidado.

*.*

Numa sociedade agropastoril, como era aquela em as Sagradas Escrituras foram escritas, um rebanho era o bem mais precioso que alguém podia ter.

Dele se extraía a lã e o leite e secundariamente a carne o couro, os chifres e as unhas. Porém, no Israel bíblico o maior valor do rebanho residia em sua “capacidade de culto”.

A maior parte dos ritos do culto deles consistia no oferecimento da vida de um cordeiro - o que prefigurava o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Mas não poderia ser qualquer cordeiro: devia ser primogênito, em seu primeiro ano de vida, sem qualquer tipo de defeito ou mancha: Uma matriz.

Levando em conta que as ofertas contínuas no templo chegavam a 800 cordeiros por ano, era necessário que os rebanhos “produzissem a milhares e a dezenas de milhares” para obterem outras matrizes.

Ora, se um rebanho tinha tanto valor assim para seu dono, o que dizer do rebanho do Bom Pastor? Aquele pelo qual ele não hesita em dar sua própria vida?

Nessa época, mesmo um pequeno rebanho, cuidado por seu próprio dono, demandava auxiliares. E, se o rebanho fosse grande, os próprios pastores rodiziavam-se nos cuidados diretos e indiretos, essenciais para a manutenção do pastoreio.

*.*

Ter cuidado com as ovelhas era fundamental, para o pastor que olhava para cada uma e distinguia tanto eventuais enfermidades como qualidades necessárias para servirem de culto.

Ter cuidado com os perigos era fundamental ao pastor que rodeava o rebanho atento ao que se aproximava.

Ter cuidado consigo mesmo era fundamental ao pastor que havia de passar a noite ao relento, e ser hábil no cajado com que acolheria a ovelha e no bordão que espantaria o lobo.

*.*

Hoje nossa Igreja recebe novos pastores. Todos terão por missão cuidar do rebanho em suas necessidades mais básicas. O farão lembrando-se sempre que o rebanho não lhes pertence e que o dono do rebanho o tem em tão grande valor que deu sua vida por ele. São pastores, e melhores pastores serão, se imitarem o Supremo Pastor.

Os três cuidados que citei ainda estão em vigor. Mas é necessário adaptá-los, pois as ovelhas de antes eram apenas tipos das novas ovelhas que o Senhor reuniu em sua Igreja.

Os lobos de outrora eram nada comparados à nova raça de hoje (geneticamente modificada nos laboratórios mais sórdidos dos corações pecaminosos e dos demônios mais hábeis).

E as necessidades pessoais não se limitam a suportar uma simples noite ao relento, mas os séculos de uma noite tenebrosa “até que o dia clareie e a estrela da alva nasça”.

Portanto, pastores da Igreja Presbiteriana da Ilha dos Araújos, sejam os que ministram às mesas, sejam os que se dedicam a oração e a palavra, “atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28).

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Escolhidos

Jesus escolheu doze. Não os mais sábios, nem os mais influentes. Tampouco os mais cultos ou mesmo os mais ricos. Escolheu aqueles “que ele mesmo quis”.

Quatro eram pescadores por profissão. Um era coletor de impostos. E dois - se considerarmos isso como profissão - eram ativistas políticos em prol da libertação do povo judeu. Dos outros cinco pouco ou nada sabemos.

O que eles tinham em mente quando receberam o chamado do Senhor? O que Jesus queria que eles fossem ou que fizessem? As respostas a essas questões podem ser boas lições.

Naqueles dias - como ainda é possível ver hoje em menor escala ou intensidade - todos os judeus esperavam ansiosamente a chegada do Messias. O Messias os livraria do jugo romano e colocaria Israel por cabeça de todos os povos.

O Messias seria um "super-homem" aos pés do qual Alexandre, Nabucodonozor, Dario ou qualquer outro rei - até mesmo Salomão - pouco significaria. Seu saber convenceria a todos e o Reino dos Céus cobriria a terra a partir de Israel.

Não posso deixar de considerar a convicção trazida pelo chamado daquele que trouxe à luz todas as coisas, mas também não posso desconsiderar o privilégio que cada um sentiu ao ser chamado por alguém que, pelo que fazia, tinha muito do que então se esperava do Messias.

Essa "vontade egoísta" pode ser vista quando discutiam, entre eles mesmos, quem seria o maior e especialmente quando Tiago e João constrangeram sua mãe a pedir para eles um lugar especial no reino messiânico.

Não havia como resistir o chamado do Senhor. Mas havia como agasalhar no peito os próprios desejos. Afinal, até certo ponto, conforme entendiam, eram coincidentes!

Aqui está uma lição: hoje se faz o mesmo.

Do outro lado o Senhor adquirira nossa natureza para recuperar o que nosso pai Adão perdera ao deixar de obedecer incondicionalmente a Deus. Chegara a hora do cumprimento das promessas feitas a ele e da implementação total da aliança feita com Abraão: ser uma bênção para todas as nações.

A aliança com Abraão materializou-se aos poucos e tornou-se mais clara com os doze filhos de Jacó – os doze patriarcas – dos quais, descende o povo da aliança. Mas permaneceu restrita. Aliás, deveria permanecer, pois apenas dentro do seu contexto cultural e espiritual que a mensagem de Jesus seria entendida de fato uma “boa nova”.

Naquela cultura não deveria haver disputas sobre a autoridade ou sobre o significado dos oráculos de Deus, que os tempos e os usos tornaram tão relativos ao ponto de não se julgar o que é pecado pela Palavra de Deus, mas por um sentimento vago que encontramos expresso em frases como: “ah, mas eu não acho que isso seja pecado”.

Naturalmente Jesus esperava que os seus doze escolhidos, representassem para Igreja o que o doze filhos de Jacó representaram para Israel.

Entretanto, apesar da autoridade apostólica que lhes foi confiada - de ligarem na terra e o mesmo acontecer no céu, de reter ou perdoar pecados, de, com uma simples ordem, moverem montes, de serem o alicerce que, alinhados à pedra de esquina, suportariam a Igreja - eles cometeram erros, como os patriarcas também cometeram. Erros que não foram escondidos de nós para nosso próprio proveito.

A segunda lição: o que de bom eles vieram a realizar não foi por seus próprios méritos, mas pela graça de Deus.

Deus escolheu muitos para que, unidos à seu Filho pela cruz, constituíssem a Igreja e habitação de seu Espírito. Não os mais sábios, nem os mais influentes, tampouco os mais cultos ou mesmo os mais ricos, mas aqueles que ele quis: Nós.

Não desempenharemos o que quer que seja de bom, nem mesmo compreenderemos corretamente nossa missão, se não for por sua graça. A ele pois, toda glória em tudo o que somos ou em tudo o que viermos fazer.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Servo dos servos do Senhor

Qual mineiro, que procura pepitas, o servo dos servos do Senhor busca incansavelmente aquelas que a Palavra de Deus oferece. Por vezes pega-as na superfície - há muitas catas produtivas - mas, geralmente ele cava. Cava e atinge a camada original onde encontra grande variedade delas.

Diferentemente dos que sequer olham as catas, nem evitam o “ouro de tolo”, ele enriquece a muitos. Quem convive com ele, ou simplesmente está por perto, de nenhum tipo de preciosidade fica privado.

Pouco recebe comparado ao tanto que ele dá. Alguns, sem a riqueza que dele receberam, hoje andariam descaminhos, mas pouquíssimos se dão conta disso.

Seu prêmio o aguarda. Ele o receberá não dos que enriqueceu, mas do dono das riquezas.

 

Qual pai que conhece seus filhos o servo dos servos do Senhor divide proporcional e adequadamente o alimento de que precisam, manejando bem o verdadeiro pão dos céus.

Diferentemente dos que dão pedras por pães, e cobras por peixes, ele multiplica pães e peixes - como seu Senhor o ensinou a fazer - e alimenta a todos. Esse alimento, que é precioso como as pepitas - comparado a ouro depurado - por ser doce como mel atrai também os que procuram apenas o prazer. Mas, estes se enfastiam logo, desacostumados a tão grande doçura.

Só sentem seu valor quando ficam sem alimento e o espírito de cada um começa a definhar. Raramente ele recebe reconhecimento pela colheita, pelo preparo ou, sequer, por servir o alimento.

Sua mesa entretanto o aguarda. Lá, aquele que deveria, ao vê-lo chegar do trabalho, ser servido primeiro, fará questão de servi-lo.

 

Qual pastor de ovelhas, que as conduz aos pastos mais verdes e às águas mais tranqüilas, o servo dos servos do Senhor não faz experiências com seu rebanho em novas paragens. Se necessário ele as leva através do vale da sombra da morte, mas as conduz ao local certo.

Diferentemente dos mercenários que fogem espantados com o perigo, ou não ligam para o estado do rebanho, ele cuida até da harmonia dentro dele. Separa as brigas e protege as ovelhas mais fracas.

Como o rebanho não lhe pertence, a lã e o leite que ele produz é todo entregue ao dono. As crias também.

Sua recompensa não falhará. Tendo sido fiel no pouco será colocado sobre o muito, tão logo compareça à presença de seu Senhor.

 

Mas os tempos são maus, e, atribulado, o Povo de Deus anda trocando seu direito de primogenitura por sopa de lentilhas, ouro depurado por pirita, águas tranqüilas por cisternas rotas e a voz do Bom Pastor pela voz dos mercenários. Ou, como as ovelhas gordas de que fala Ezequiel, dão marradas nas mais fracas.

A culpa, entretanto, não é apenas dos dias maus e da tribulação (que, graças a Deus, por amor dos eleitos, será abreviada). Cada um que abandona os meios de graça, ou que, amando o mundo, torna-se cada vez mais inimigo de Deus, é, tanto, ou mais, culpado por esse estado.

Se o espírito está pronto, mas a carne é fraca, o que esperar de quem enfraquece também o próprio espírito? Não é isso que está sendo feito?

Deus queira nos ajudar, despertando nossos olhos e dando-nos vontade para querer e força para fazer o que lhe agrada. Ensinando-nos, por fim, a aproveitar os meios que ele mesmo colocou à nossa disposição. Especialmente as fadigas dos servos de seus servos.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Púlpito deitado

Já haviam me falado dele, mas o conheci aposentado. Aposentou-se e dedicou-se a “plantar” igrejas. De vez em quando vinha passar uns dias com a família e sentava-se nos últimos bancos da Igreja que eu pastoreava. Não demorou muito para que nosso conhecimento se estreitasse em amizade e para que eu o convidasse a expor a Palavra de Deus.

Como era bom ouvi-lo! Os solecismos impostos pela gramática da vida, não eram barreira à exposição do Evangelho. Uma verdadeira correnteza de textos bíblicos ligados com propriedade, beleza e acerto deixavam suas palavras mais doces e mais fortes. Memória prodigiosa: as citações vinham sempre acompanhadas do assunto certo.

Me lembrava muito meu pai, só que era baixo e atarracado, mas tinha um sorriso fácil e palavras suaves. Atendia pelo nome de Fortunato. E apesar de já ter sido ordenado todos o conheciam como Seu Fortunato.

Era viúvo, pai de uma família bonita. Avô amoroso, mas firme. Respeitado por todos. À medida que os anos se sucediam ele vinha, cada vem mais, à capital buscando tratamentos para os males próprios da idade agravados por uma aposentadoria distante dos aposentos.

Conversávamos sobre amigos comuns, textos bíblicos, experiências do pastorado: alegrias, tristezas e cicatrizes.

Finalmente as doenças o retiveram em casa. Depois na cama. Seus filhos se rodiziavam nos cuidados. Uma vez, depois de duas semanas sem vê-lo, ele me disse: “hoje tenho certeza de que não verei mais minha Igreja. Recebi de Deus meu último púlpito: esta cama”.

Até hoje não sei se minhas lágrimas eram de dor ou de alegria. Daquele púlpito deitado ele falou a muitos. Foi amável com alguns e duro com outros. Especialmente duro com os pastores que estavam levando o Rebanho do Senhor para águas turvas e pastos secos.

Depois de alguns meses seu púlpito foi relocado para um hospital. Finalmente o enviado de Deus que aos poucos lhe tirava a lucidez, o levou. Levou sem impedir uma bênção sobre cada querido e um sorriso para mim. Sorriso significador, pois dois ou três dias antes ele havia se despedido de mim com a frase: “nos encontraremos na mesa do Senhor. Espero que ele me dê a honra de lhe apresentar Abraão, Isaque e Jacó, já que eu os conhecerei primeiro”.

Se o céu já era desejado, no ano de 1999 ficou mais.

Hoje sei que não é a aposentadoria nem a doença, nem o hospital, nem qualquer outra coisa que impede o filho de Deus de anunciar seu Evangelho, de elogiar os bons, de repreender os maus e de sentir alegria em meio a dores.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Pastores e Rebanhos

Dentre as muitas formas como a Bíblia fala do Povo de Deus a figura de um rebanho se destaca, tanto pela expressividade quanto pela quantidade de vezes. Certamente precisamos ter em mente um rebanho dos dias antigos, pois tal figura já era usada desde o Velho Testamento.

Há muitas opiniões sobre a razão de seu uso, entretanto, o que eu quero destacar é o fato de que todas as vezes que a Bíblia se refere ao Povo de Deus como um Rebanho, pressupõe, direta ou indiretamente, o trabalho de um pastor. Aliás, o próprio Deus é chamado de Pastor, e todos os pastores são mostrados como seus tipos (no sentido mais estrito).

Hoje, nossa Igreja, atendendo as diretrizes estabelecidas pelo próprio Deus, reconheceu em alguns homens esta capacitação divina: pastorear seu rebanho aqui; e os chamou, votando-lhes os ofícios de Diáconos e Presbíteros.

Certamente, por mais nobres que sejam, nossos irmãos eleitos, e os demais, não são perfeitos. Só Jesus, o Supremo Pastor, o é. Porém, na medida do dom com que foram agraciados por Deus, recebem sobre si o reconhecimento e a enorme tarefa de cuidar do Rebanho do Senhor.

Como Diáconos se atarefarão das necessidades materiais do Rebanho sem perder de vista as necessidades espirituais. Como Presbíteros, velarão pelas necessidade espirituais, sem, tampouco, deixar de considerar as materiais. Ou seja, uma não é superior a outra. Cada uma expressa a natureza dos dois únicos ministérios que a Igreja possui e exercita conforme a multiforme graça de Deus: ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Tais ministérios, “da Mesa” e “da Palavra e Oração”, nunca foram esquecidos pela verdadeira Igreja de Deus, e enquanto ela estiver neste mundo, será tão fiel a sua missão quanto mais fielmente desempenhá-los. Será tão evangelizadora, tão adoradora, tão profética, quanto melhor exercitar o cuidado para com os necessitados e quanto mais se dedicar à Palavra e Oração.

Para isso esses irmãos nunca poderão esquecer que o rebanho não lhes pertence. Eles devem zelar por conduzi-lo à águas tranqüilas e à pastos verdejantes com a mesma intensidade que devem lutar para afastá-los dos maus pastos e das más águas.

Não lhes é permitido arrastar o rebanho, atrás de si, como aqueles faladores, sobre quem o Apóstolo advertiu os Presbíteros da Igreja de Éfeso (At 20.30). Também não podem empurrar o rebanho como carroceiros apressados. Mas, no meio do Rebanho, servindo de modelo, andar, ensinar, curar, cuidar... enfim: apascentar.

Os ministérios aos quais estão afetos, pressupõem, também que amem mais o Senhor do Rebanho do que o próprio Rebanho. E, como o Senhor exigiu de Pedro, só poderão receber suas ordens para apascentar o Rebanho após declararem seu amor por aquele a quem eventualmente tenham negado.

A ordem é simples: “apascenta o meu rebanho”. Mas nela estava embutida as exigências “não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho”.

Por outro lado, a ordem dada ao Rebanho, também não podia ser mais simples: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros”. (Hb 13.17)

Que Deus tenha misericórdia de seus pastores, como tem de seu rebanho.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

Os oficiais da Igreja (Parte 3)

À luz de tudo o que já vimos, os oficiais da Igreja, hoje, têm por função dar continuidade a obra de Cristo nos moldes em que ela foi “formatada” por seus Apóstolos e dentro da “cosmovisão histórica” revelada através de seus profetas. Por isso a Igreja é única: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2.19-20).

Por “formatada” deve ser entendido que ela é governada conforme moldes muito peculiares que atendem ao que os Aspóstolos do Senhor aprenderam dele.

A importância destes moldes poder ser avaliada: em sua primeira viagem missionária, depois de passar por diversas cidades o Apóstolo Paulo foi apedrejado na última, e, dado como morto, foi jogado da cidade. Socorrido pelos irmãos, já no dia seguinte ele começou o caminho de volta passando pelas mesmas cidades em que fora perseguido preocupado em eleger presbíteros em cada Igreja. À luz disso poderiamos menosprezar as funções dos oficiais da Igreja? Nos atreveríamos a substituir este tipo de governo?

Por “cosmovisão histórica” dos profetas deve ser entendido que o Senhor da história a dirige linearmente em direção a um ponto. E que tudo o que aconteceu no passado visou preparar seu povo para a plenitude dos tempos em que a revelação seria dada pelo seu próprio Filho em pessoa, no qual além de habitr corporalmente a plenitude da divindade é a expressção exata de seu ser.

Portanto a verdadeira obrigação dos oficiais da Igreja não é com o rebanho, mas com o Senhor do Rebanho.

Devem atender as ovelhas na medida e conforme sua santa vontade, sem buscarem outro norte a não ser sua Palavra, sem se importarem com qualquer outra coisa que não o atinjir a “estatura de Cristo”.

Ser oficial da Igreja, portanto, é uma honra que o Senhor concede, mas ao mesmo tempo é a maior prova de obediência que o Senhor exige de seus filhos.

terça-feira, 11 de julho de 2006

Os oficiais da Igreja (Parte 2)

No Boletim de domingo passado mostrei que os oficiais da Igreja são presentes dados por Deus a seu povo. Hoje chamo sua atenção para que, ao dar tais presentes, Deus tem intenções determinadas: são “presentes úteis”.

1. São úteis para a Igreja: Deus visa o bem de seu rebanho como um todo. Devem ser capazes de levar o rebanho à águas tranqüilas e à pastos verdes. Devem ser capazes de afugentar os lobos vorazes e não fugir deles como fazem os mercenários. Como nos ensinou nosso Senhor e Mestre:
“O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado com as ovelhas (Jo 10.11-13).

É claro que o Senhor estava falando de si mesmo, mas este é o modelo para aqueles que tem sob seus cuidados o rebanho de Deus.

Porém, são úteis também na repreensão aos erros que se propagam no rebanho. Às vezes devem “curar” uma doença que já contaminou grande parte do rebanho.

2. São úteis para as ovelhas individualmente: Espera-se dos oficiais que pastoreiam o rebanho do Senhor, que saibam cuidar também de cada ovelha. Afinal o que quer dizer com “apto para ensinar”? Ou por que é que exige-se que ele governe bem sua própria casa? Que traga seus filhos sob controle?

Como acontece à coletividade, a repreensão e a disciplina dos pastores deve chegar a cada ovelha em particular: corrigir as que ainda podem ser corrigidas e isolar as que podem transmitir infecções ao restante do rebanho.

Entretanto, a utilidade dos oficiais esbarra na:
1. A frouxidão do exercício das obrigações. Apesar de advertidos da maldição de Deus sobre os que fazem sua obra relaxadamente, tem sido cada vez mais difícil ver um que ame a Deus mais do que às ovelhas. E por amá-las tanto tolera seus erros, contemporiza suas desobediências e algumas vezes até elogia a ovelha que, de caso pensado, rebela-se contra a vontade do dono do rebanho.

Deve ser diferente: “prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas".

Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério. (2 Ti 4.2-5).

2. A “dura cerviz” do rebanho: Como parece ser fácil, muitos querem ser oficiais. “Excelente obra almejam”! Porém é necessário que preencham uma série de qualidades (veja todas em 1Tm 3).

Como organização sui generis a Igreja parece as vezes com uma associação, outras vezes com uma empresa ou com um clube. Entretanto ela não pode ser dirigida assim. Seu único propósito é adorar a Deus. Sua única força reside no poder do Espírito. Seu único manual de operações é a Bíblia.

Você está disposto a fazer a vontade de Deus? Permita que seus irmãos reconheçam em você alguém chamado e apto para pastorear o rebanho do Senhor. E pastoreie-o!

domingo, 2 de julho de 2006

Os oficiais da Igreja (Parte 1)

Aprofundando mais o estudo da obra do Espírito Santo, e aproveitando que nossa igreja aproxima-se da data em que elegeremos oficiais, achei por bem escrever, durante alguns domingos, sobre esse tema.

“Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei.” Estas foram as palavras do Senhor Jesus a seus Apóstolos: a vinda do Espírito Santo estava condicionada à sua volta aos céus.

“Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo”. Segundo nosso Senhor e Mestre essa é sua missão direta em relação ao mundo.

“Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido ... Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar.” Sua função primária, em relação à Igreja, é dar continuidade a obra do Senhor.

O Senhor, por sua morte, remiu todos os que o Pai lhe deu (aqueles cujos nomes estão escritos no livro da vida: a que chamamos de “Igreja invisível”). Porém era necessário que ele voltasse aos céus.

Para que seus remidos pudessem se estimular mutuamente, enquanto aguardam sua volta, (formando o que chamamos de “Igreja visível”) ele não os deixa órfãos, mas envia-lhes o Consolador com a missão de uni-los em um grupo totalmente diferente de todos os agrupamentos próprios do homem: a Igreja.

A Igreja (visível) caracteriza-se por reunir aqueles por quem o Senhor morreu e também outros: desde simpatizantes até “inimigos da cruz de Cristo”. Apesar de remidos, todos ainda são pecadores e, portanto, mais propensos a impor suas próprias vontades, do que a fazer a vontade daquele que formou e mantém a Igreja.

Para corrigir este comportamento “ele mesmo concedeu ... outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé ... para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro”.

Esses pastores e mestres a que o texto se refere (se refere também a outras dádivas de Deus) são os oficiais ordenados.

Os pastores - todos os oficiais de um modo geral - têm a tarefa de levar o rebanho a águas tranqüilas e a pastos verdes: zelam pelo bem estar geral do rebanho.

Os diáconos pelo “servir as mesas”: atender às necessidades do rebanho.

Os presbíteros pela disciplina, administração e representação conciliar da Igreja.

Os mestres são os presbíteros que “se afadigam na palavra e no ensino” para que a Palavra de Deus tenha preeminência.

Detalharei melhor esses ofícios nos próximos boletins. Porém, como introdução, posso dizer que a missão deles, apesar de ser de difícil realização, é de fácil compreensão. Paradoxalmente, aí reside um dos grandes problemas que a Igreja enfrenta hoje: compreender o que significa, para Deus, pastorear seu rebanho.

Finalizando: eles nunca podem se esquecer que são presentes de Deus para o rebanho. Deus é quem dita o que eles devem fazer.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

E plantou um jardim

Pacientemente o jardineiro cuida do jardim. Apara o gramado, poda as roseiras, limpa os hibiscos, enfim: mantém tudo com aspecto viçoso e cuidado.

Meio jardim, meio pomar, onde as flores das laranjeiras, mangueiras, figueiras e de outras prenunciam frutos saborosos. Em flor ou carregadas de frutos, perfumam, atraem pássaros e alegram a vista.

Ele sabe que não é o primeiro jardineiro a trabalhar ali. Sabe também que o jardim já foi muito mais bonito. Naquela época não havia espinheiros nem ervas daninhas e o primeiro jardineiro só precisava cuidar das plantas. Agora é necessário também, limpar ao redor delas, adubá-las e arrancar os parasitas. A terra também já não é boa como antes.

Tempos atrás outros jardineiros, não conseguiam fazer o que ele faz hoje. Tiravam apenas a subsistência. Mesmo assim a produção mirrada não era suficiente nem para atender as necessidade, nem para alegrar a quem via o jardim.

Nesses dias, o dono do jardim mandou alguns para um lugar fértil. Terra boa. Tanto pasto e tantas flores que parecia até que a própria terra produzia leite e mel.

Apesar de uma preparação de 40 anos no deserto, imposta pelo dono, esperando que valorizassem mais o jardim, eles logo se apaixonaram pela criação de urtigas dos vizinhos. Sentiam saudades dos cactos e não demoraram a cultivar tiriricas e carrapichos.

Não adiantava. Por mais que fossem ensinados a gostar das plantas das quais o dono gostava, eles criam ter o direito, não apenas de ter suas próprias plantações de espinhos, mas de espalhá-las pelo jardim afora. Afinal eram mais fáceis de cuidar: praticamente cresciam sozinhos.

Para recuperar seu jardim, o dono mandou muitos mensageiros que foram odiados e mortos. Por fim, mandou seu filho com objetivo de mudar o pensamento e o gosto desses jardineiros, que, para uma terra tão boa e protegida, traziam o pior que nascia nos desertos e nos locais insalubres.

Porém, quem disse que os jardineiros gostaram da idéia? - Esse local é nosso. Diziam. Vamos plantar aqui o que nossos pais já plantavam e o que nós gostamos de plantar.

Além de não ouvir o filho, resolveram se livrar dele. Afinal, não viam as coisas como o dono via. Não tinham o interesse que o dono tinha. Eram posseiros. Tinham raiva de quem tinha outros planos para aquela terra.

Zangado, o dono chamou os que eram marginalizados pelos posseiros. Mostrou-lhes seu filho. Determinou-lhes que fizessem o que ele faria.

Começaram em umas terrinhas desprezadas: às vezes massapé terrível, às vezes piçarra dura. Mas as plantas preferidas pelo dono vingaram. Cresceram. Floriram. Frutificaram.

É claro que, mesmo entre os que foram mandados pelo dono, havia quem, por costume ou por gosto, levasse sementes ruins, e o jardim que começou tão bem, está hoje cheio de ervas daninhas. Mas as boas plantas estão lá. Só é preciso cuidar delas.


Portanto, pacientemente o novo jardineiro se afadiga com prazer. Ele sabe que não está só. Muitos, como ele também conhecem o gosto do dono e sabem que o jardim não lhes pertence.

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

Doenças da alma

Por dever de ofício visito pessoas com diversos tipos de enfermidades. Algumas graves - às vezes terminais - outras nem tanto. Algumas contagiosas, outras não. Umas, fruto de descuido, outras de acidentes.

Por dever de ofício encontro almas doentes. Já vi almas em estado terminal e já vi almas que passam apenas por um período: como se fosse um resfriado.

Se há uma variedade muito grande de doenças do corpo - e parece que a cada dia surge uma nova - há também grande diversidade de doenças da alma. Como há níveis de gravidade em um caso, há também no outro.

Há doenças crônicas tanto no corpo quanto na alma, como também há casos agudos. E, já percebi que do mesmo modo que algumas doenças ficam incubadas no corpo, algumas demoram a aparecer na alma apesar de já estarem lá.

Há doenças que só se manifestam no corpo e outras que só se manifestam na alma, embora sempre que o corpo sofra, a alma fique abatida e vice-versa. Mas algumas atuam em ambos e às vezes não se pode dizer qual deles sofre mais.

Meu contato maior é com as doenças da alma. Essas desfilam diante de mim e as vejo em crianças, adolescentes, jovens, adultos e velhos. Seus sintomas, sempre físicos, são secreções verbais purulentas, olhares dissimulados e inquietos, curiosidade exarcebada, irritações superficiais, ou até estados febris com agitações histéricas.

Como ocorre com as doenças físicas há também a transmissão pelo contágio. Já vi crianças terem suas almas contaminadas por seus próprios pais. Já vi adolescentes e jovens expondo-se aos agentes transmissores mais virulentos como se nadassem em rios poluídos de esgoto. Já vi adultos e velhos, que, carcomidos, deixam cair pedaços necrosados da alma enquanto passam.

O contágio nunca se dá pela ingestão. Pelo contrário ele acontece através dos sentidos - as janelas da alma - e especialmente através da palavra.

Às vezes é apenas o doente quem as sofre, às vezes atingem a família e os amigos. Outras vezes alastram-se pela Igreja e contaminam quem está mais debilitado.

Fazer um catálogo das doenças da alma não é uma tarefa fácil, mas diferentemente das físicas, que parecem não ter limite em sua etiologia, elas, que podem aparentar muitos aspectos, originam-se sempre em dez princípios bem conhecidos agrupáveis em dois grandes tipos.

Há três fatos que surpreendem a quem estuda as doenças da alma. Primeiro, poucos doentes admitem que o são, e, muitas vezes, só procuram tratamento quando, de alguma forma, as doenças da alma passam a prejudicar seus interesses materiais: seja a saúde financeira, familiar ou física (quase sempre nessa ordem).

O segundo é que poucos têm o mesmo apreço pela saúde da alma como têm pela saúde do corpo. Muitos pagam prontamente convênios, ou até mantêm alguma importância reservada para eventualidades. Escolhem casas, escolas, academias, restaurantes, e outras coisas, levando em conta a salubridade do corpo. Entretanto, quase ninguém se preocupa com a salubridade da alma. Nunca vi ninguém procurar vacinas para as doenças da alma e quando tento aplicá-las sou mais repudiado do que os agentes do Dr. Oswaldo Cruz.

E o terceiro, é que geralmente se busca cura em outros doentes. Via de regra nos doentes mais graves que não apenas podem fazer muito pouco como contaminam ainda mais a alma doente.

Por dever de ofício trato tais doentes - antigamente chamavam meu ofício de Cura d'Almas - que na maioria das vezes demandam, como condição básica, uma alimentação saudável, balanceada e rica em nutrientes para a alma debilitada e os remédios adequados a cada caso. Porém, diferentemente do que ocorre com a maioria das doenças físicas, os remédios não agem por si. Não fazem efeito sozinhos. Eles exigem a participação do doente, que quase sempre se julga sadio, não nota o perigo que corre, nem o perigo que oferece aos demais.

Como está sua alma? Já fez um check-up? Já a examinou à luz do “manual” de quem fabricou você?

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

Tempos de refrigério

Enquanto o sol de rachar, que obrigara muitos pedestres a atravessar a rua procurando uma sombra, declinava no poente, um mormaço quente abafava a respiração e uma cigarra escandalosa parecia que ia explodir de tanto cantar.

O suor teimava em escorrer pelo corpo, que já tendo sido refrescado por três vezes no chuveiro frio, e prometia ser o companheiro de cama que afastaria a bem amada para a outra extremidade do colchão, encharcaria o forro e obrigaria os lençóis a ficarem no guarda-roupa.A porta da sala aberta, na esperança de canalizar qualquer brisa que entrasse pela cozinha, reforçada pelo ventilador de teto ligado em sua maior velocidade, pouca diferença fazia, pois o eventual ar que circulava era quente: parecia o sopro de um secador de cabelos.

A noite seria longa.

De repente, sem que se avisasse ou se esperasse, um relâmpago brilhou bem longe surpreendente. Não demorou muito, uma vários clarões davam certeza de tempestade.

As gotas esparsas foram apenas uma introdução, seguidas de um aguaceiro violento. Com a chuva veio o vento e aproximaram-se os raios e trovões: A cada clarão um estrondo que parecia sacudir o ambiente. Chovia torrencialmente. As ruas ficaram alagadas. Os respingos trazidos pelo vento por maior que fosse o beiral incomodava a alguns, mas satisfazia a maioria que ainda porejava suor.

Entretanto, curiosamente, o calor continuava. Não tão forte, mas estava lá. A chuva que lavava as ruas e o ar, ainda demoraria a esfriar as paredes.

Mais uma lição de nossa Ilha.

Você já reparou o quanto as Escrituras falam negativamente a respeito do calor? Ele é uma das ameaças do Senhor em Deuteronômio 28.22, e um dos flagelos divinos em Apocalipse 16.8e9. Entretanto o homem que teme ao Senhor não o receia (Jeremias 17.7e8).

Contrariamente a sombra é uma bênção prometida em Isaías 4.5e6, e de Isaías 25.4, cantamos que o Senhor é como sombra no calor.

Sua maior força, entretanto, é como metáfora da vida espiritual. O Apóstolo Pedro, em At 3.20, promete tempos de refrigério aos arrependidos e um dos cuidados do Bom Pastor é refrigerar alma de suas ovelhas.

O que é refrigério para a alma? Somente cada um pode responder a si próprio. Alguns atormentados pela dúvida serão refrigerados pela certeza. Outros com a consciência abrasada por um pecado renitente, ou por uma pré-disposição pecaminosa são refrigerados pela graça e vitória. E, ainda outros, que nas palavras de Tiago (3.6), a língua colocou em "chamas toda a carreira da existência humana, como também é posta ela mesma em chamas pelo inferno", encontrarão refrigério nas Palavras Sagradas.

Espero que a situação em que você se encontra não seja tão desesperadora. Mas se for não se esqueça: pouco adiantará a chuva mais torrencial. Ela pode até refrescar. Mas o calor continuará presente. Só o Bom Pastor refrigera a alma.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Reformemos a Igreja


Quando Martinho Lutero divulgou suas 95 teses o ”ambiente” já estava preparado para recebê-las. Havia uma grande revolta contra as condições impostas pelos governantes, cujo poder derivava de acordos políticos-familiares-religiosos, e já havia um sentimento de nacionalidade.

As famílias mais poderosas e com melhores alianças políticas, unidas ao poder papal, que possuía cerca de um terço das terras européias, determinavam o que queriam. A religião “legitimava” as decisões tomadas. Sob certos aspectos há grande semelhança com o que ocorre hoje em nosso país.

A descoberta chave de Lutero foi a Bíblia. Ele estava sujeito às decisões mais arbitrárias. Alguns queriam-no como professor desde que ensinasse o que lhes era útil. A Igreja o tinha como doutor de verdades ensinadas pela própria Igreja, e, se ele as questionasse recebia como resposta que foi uma “comunicação de Deus diretamente ao Papa” que estabeleceu tal dogma.

A Bíblia o libertou.

Logo ele descobriu que somente as Sagradas Escrituras são a única coisa que deve prevalecer sobre a consciência do Cristão.

E nesse aspecto a semelhança com o que ocorre no meio evangélico brasileiro é maior. Se naqueles dias havia a autoridade papal que falava em nome de Deus, hoje há revelações. Se naqueles dias havia quem se valesse da ignorância de analfabetos para esconder deles as verdades bíblicas, hoje há inescrupulosos que falseiam o sentido das Escrituras e não apenas escondem as mesmas verdades, mas deturpam a autoridade delas.

Naqueles dias havia grupos que sinceramente queriam melhorar o estado da Igreja. Entretanto, não precisavam apenas de uma “injeção de ânimo”, ou como chamamos hoje de avivamento, precisavam de uma Reforma.

E a reforma veio.

Em lugar de palavras de homens, a Bíblia tomou o centro e a preeminência. Em lugar de devaneios místicos a Bíblia passou a ser estudada. Em lugar da emoção gerada pelas grandes solenidades, a pregação sistemática da Palavra de Deus.

Precisamos hoje de outra reforma. Não sou o primeiro a declarar isso. Muitos já o fizeram antes de mim. A Bíblia está cada vez mais escondida. Cada vez mais se escuta “testemunhos”, conselhos baseados no que “aconteceu comigo”. Convites simpáticos, shows impressionantes, e coisas do gênero.

É preciso trazer a Bíblia para o centro.

Que ela afaste os “simpatizantes” e atraia os eleitos, pois ela é a porta que fecha o Reino de Deus aos impenitentes e abre aos que reconhecem a voz do Bom Pastor e vivem por ela.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...