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sábado, 23 de agosto de 2014

A propósito do Templo de Salomão

A primeira menção bíblica a um lugar de adoração está em Gênesis (8.20-21) e relata como Noé levantou um altar sobre o qual ofereceu holocausto. É certo que as ofertas de Caim e Abel já pressupõem um lugar determinado e esse lugar seria lato sensu um altar, mas a primeira menção formal a um altar é esta de Noé.

Na terra que lhe fora prometida, mesmo sem tomar posse dela, Abraão sempre levantava um altar no lugar em que Deus lhe aparecia, mas, o último foi levantado em lugar determinado por Deus, três dias de distância de onde morava: o Monte Moriá. Neste altar Isaque, seu filho, seria a vítima.

Os descendentes de Abraão também seguiram o costume e os altares levantados por eles eram verdadeiros marcos (com significado religioso).

Todos esses altares não passavam de montões de pedras, ajuntadas do próprio local, sobre as quais um animal (na maioria das vezes um cordeiro) era morto e queimado. Somente na época de Moisés, após instrução divina, o altar recebeu outros complementos e significados: era o Tabernáculo. Sua construção foi determinada por Deus que o detalhou e capacitou a seus construtores.

Os altares não desapareceram, nem ficaram restritos ao Tabernáculo. Josué e alguns Juízes levantaram altares também. Até mesmo Davi fez um no mesmo lugar em que, séculos antes, Abraão tinha oferecido seu filho. E, nesse mesmo lugar, anos mais tarde Salomão edificará o Templo.

As demais nações sempre tiveram altares. Na verdade, não se conhece um só povo, que não os tenha, pelo menos, uma vaga noção de um deus que recebe ofertas. Tais ofertas, sangrentos ou não, são oferecidas em lugares simples ou em complexos impressionantes, que podemos perfeitamente chamar de altares: zigurates, pirâmides egípcias, astecas, maias ou sudanesas, etc.

Mas, voltando ao Tabernáculo é necessário destacar que ele era um complexo cercado por uma estrutura de postes e panos esticados com cerca de 50m de comprimento e 25 de largura, a qual só era adentrada pelos sacerdotes e pelos respectivos ofertantes com suas vítimas.

Dentro dela ficava um braseiro de bronze (o altar propriamente dito, também chamado de altar de bronze) sobre o qual as vítimas, depois de carneadas, eram queimadas. Havia também uma bacia de bronze na qual os sacerdotes deveriam se purificar e uma tenda de peles com  quase 15m de comprimento por 5 de largura (a única parte coberta). Essa tenda era dividida em seu terço por uma cortina espessa. O terço maior era chamado de Lugar Santo e o menor de Santíssimo (ou Santo dos Santos).

No Lugar Santo ficava o candelabro de ouro (menorah), uma mesa folheada a ouro, sobre a qual se colocava pães, e um altar menor também folheado a ouro, onde se queimava incenso. Neste lugar os sacerdotes entravam, conforme a exigência da cerimônia, para apresentar a Deus o sangue de determinadas vítimas.

No Santo dos Santos, abrigo da Arca da Aliança, apenas o sumo sacerdote podia entrar. E apenas em um dia do ano!

Na verdade o Tabernáculo era uma estrutura portátil que deveria acompanhar o povo em sua peregrinação. Entretanto, depois de entrarem na Terra Prometida, permaneceu em Siló durante os quatro séculos dos Juízes e depois em Nobe e em Gibeom até sua substituição pelo Templo.

Davi, morando numa “casa de cedro” lembrou-se, com algum remorso, de que a Arca da Aliança ainda estava em uma tenda (o Tabernáculo), e decidiu preparar-lhe um lugar adequado. Deus o proibiu deixando claro que nenhuma casa seria adequada à sua presença, porém, permitiu que Salomão, seu filho, a edificasse.

E, apesar de Salomão ter dirigido a obra, lemos no Livro das Crônicas que até a planta das diversas construções que compunham o Templo foi dada por Davi. De fato, o lugar, os recursos, os materiais, os oficiantes, bem como as músicas e os instrumentos musicais foram todos preparados por Davi.

O Livro dos Reis registra: “Edificava-se a casa com pedras já preparadas nas pedreiras, de maneira que nem martelo, nem machado, nem instrumento algum de ferro se ouviu na casa quando a edificavam” (1Re 6.7).  

Salomão mandou aterrar a depressão entre os montes Moriá e Sião para criar uma grande esplanada no meio da qual edificou o Templo com dimensões iguais ao dobro das dimensões do Tabernáculo. A única parte coberta (onde ficavam o Santo e o Santo dos Santos) possuía 30m de comprimento por 10 de largura e era rodeado por depósitos para o que fosse necessário às cerimônias e ao cotidiano dos sacerdotes.

Durante quase 400 anos (de 973 a 586 a.C.) o Templo de Salomão centralizou a vida de Israel, especialmente a de Judá, até sua destruição pelos babilônios, quando levaram cativos grande parte dos judeus.

Os babilônios foram dominados pelos persas que autorizaram a volta dos judeus. E, nos dias de Neemias e Esdras, o Templo foi reedificado. Não era tão impressionante quanto o outro (Ag 2.1-4) e foi levantado com grandes dificuldades, mas era muito semelhante ao de Salomão. Em decreto, Ciro, rei dos persas, determinou as dimensões da obra (30 metros de largura e de altura), a devolução dos utensílios que Nabucodonozor havia tirado de lá, o pagamento dos construtores e dos oficiais do culto, bem como das vítimas e víveres necessários aos sacrifícios. Tudo isso com seu dinheiro. Ou seja: o culto estava sendo mantido por estrangeiros. 

Quando Salomão inaugurou o primeiro Templo, orou repetidamente: “se o teu povo, que se chama pelo teu nome...” Agora as orações do Templo deviam incluir Ciro e seus filhos!

Quando Salomão inaugurou o primeiro Templo, o equipou com utensílios maiores e mais caros do que os utensílios do Tabernáculo (mesas, candelabros, etc.), mas a Arca da Aliança era a mesma que Moisés fizera no deserto. Agora no segundo Templo, a maioria das peças foi devolvida, menos a Arca da Aliança. O Santo dos Santos ficou vazio.

Quando Salomão inaugurou o primeiro Templo, repetiu-se o que aconteceu nos dias do Tabernáculo: fogo dos céus consumiu tudo o que estava sobre o altar. Agora no segundo Templo não há registro algum dessa manifestação da aceitação divina.

No ano 168 a.C., 384 anos depois da consagração deste Templo, Antíoco, descendente de um dos generais com quem Alexandre estabeleceu seu império, o profanou: construiu um altar a Zeus em seu interior e sacrificou um porca sobre ele. Três anos depois o rededicaram e até hoje esta data é comemorada com o nome de Hanukah (a festa das luzes).

O Evangelho de João (2.20) registra os judeus afirmando a Jesus que foi gasto 46 anos para edificar o Templo. Os sinóticos são unânimes no registro de que, poucos dias antes da crucificação de Jesus, seus discípulos chamaram sua atenção para as pedras do Templo. Herodes resolvera embelezá-lo.

Aumentou o tamanho dos átrios, ampliou a esplanada (que chegou a ser 4 vezes maior do que a da Acrópolis de Atenas) e a circundou por alpendres. Elevou frontispício do lugar santo para 50 metros de altura e construiu a Torre Antônia no canto noroeste da esplanada com ótimas acomodações e com um quartel que possibilitava aos soldados saírem direto no átrio dos gentios. Era o que chamamos de Templo de Herodes.

Foi destruído pelo general romano Tito no ano 70 em uma luta tão angustiosa que a Igreja a comparou ao “fim dos tempos”.

Resumindo: Primeiro, o Tabernáculo (com 25m de largura por 50m de comprimento), feito de madeira e peles, que acompanhou Israel por cerca de 530 anos e foi montado em diversos lugares. Depois, o Templo de Salomão com o dobro das medidas (50 por 100m), feito dos melhores materiais da época, e edificado no lugar mais significativo para a história do Povo de Deus, ficou de pé cerca de 380 anos. Em terceiro lugar, após o exílio, o Templo de Zorobabel (com 30 por 60m), totalmente custeado pelo rei da Pérsia, e reformado 490 anos depois por Herodes. Finalmente o Templo de Herodes, que fez mais do que uma reforma (com cerca de 50 por 60m, mas com quase 300m por 600m de esplanada), que durou apenas 96 anos, grande parte deles em obras.

Observe que, com o passar do tempo, o tamanho aumenta, o significado para o povo também aumenta, mas o Santo dos Santos vazio aponta para o esvaziamento do significado real.

O Templo de Herodes ainda estava de pé e no dia de pentecostes e celebrava-se lá uma das mais elaboradas e caras cerimônias de então. Nesse mesmo instante, em um simples terraço, a “presença de Deus”, que havia se manifestado no Tabernáculo e no Templo de Salomão, se manifestou sobre cada um dos discípulos de Jesus. Um Templo novo estava sendo inaugurado pelo próprio Deus. Não de peles de animais, como o Tabernáculo, nem de pedras, como o Templo de Salomão, mas de pessoas consagradas pelo Senhor.

Desde então este é o verdadeiro Templo. Nele o Espírito do Senhor faz morada: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16).

No mesmo texto em que os judeus falam do tempo da reforma Jesus deixa clara a identificação do templo com seu corpo. De fato, essa relação é a chave do significado do templo: ele era um tipo de Jesus. E, assim como no passado o tabernáculo, e seus sucessores, eram tipologicamente o corpo do Senhor, hoje, todos nós, somos membros desse corpo.

O Templo feito por Herodes já havia sido honrado por Jesus, que se referiu a ele como “a casa de meu Pai”, e o purificou. O Cordeiro de Deus não foi morto em seu altar, como as vítimas que o simbolizavam, mas, julgado e condenado em suas instalações, foi imolado no mais ignominioso altar que se possa conceber: a cruz.

Assim que Jesus expirou, o véu do santuário (a cortina que separava o Santo Lugar do Santíssimo) foi rasgado. O templo estava sendo definitivamente preterido e, para que a Igreja – acostumada a reunir-se no alpendre de Salomão – o esquecesse de vez, Deus o destruiu completamente a ponto de não ficar pedra sobre pedra.

Continuar sacrificando, mesmo que simbolicamente como faz a Igreja Católica é desprezar o sacrifício de Jesus. Levantar outro templo, seja em Jerusalém, seja em São Paulo é zombar daquilo que foi finalizado pelas benditas palavras “está consumado”.

sábado, 7 de junho de 2014

Não vos deixarei órfãos

Alguns dicionários restringem o sentido da palavra “órfão” à menores de idade ou a incapazes. Àqueles que, pela falta dos pais, carecem de algum amparo ou de quem responda por eles.

Perdi meus pais após 30 anos de idade, e, se não houve o que fazer em termos legais, houve o que providenciar por mim mesmo, a fim de mitigar a falta de ambos. Lembro-me das noites em que eu orava em favor de ambos. Depois que meu pai morreu gastei certo tempo para me acostumar em agradecer pela vida dele e pedir em favor de minha mãe. Anos depois precisei me acostumar de novo: passei a agradecer pela vida dos dois.

Em termos materiais a morte deles não afetou minha vida. Mas em termos afetivos e espirituais sou completamente incapaz de descrever o que aconteceu.

Hoje, dia de pentecostes, relembraremos o cumprimento da promessa de Jesus: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo 14.18).

Embora a proteção aos órfãos seja um tema quase recorrente no Antigo Testamento, a palavra grega aqui - “orphanos” - pode ser usada para referir-se a qualquer um que perdeu seus pais, e seu uso no Novo Testamento é muito restrito (além daqui, ocorre apenas na carta de Tiago). E o sentido nos dois textos pressupõe incapacidade, ou necessidade.

Se Jesus promete não deixá-los órfãos, obviamente está se colocando na posição de pai, e colocando-os na posição de quem carece de um.

O Senhor, nos dias de sua carne, desempenhou o papel do Pai ao ponto de dizer a Filipe: “Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras” (Jo 14.9-10).

Ao reassumir a glória, que teve com o Pai desde a fundação do mundo, para que os seus não ficassem órfãos ele os enviou seu Espírito.

À implicação de que os seus não suportariam a orfandade, segue-se um desdobramento: o Espírito Santo supriria o papel de Pai que ele havia desempenhado. Portanto o remédio para a orfandade do Senhor Jesus era - e ainda é - a presença do Espírito Santo.

Mediante o Espírito Santo os seus não foram apenas capacitados a desempenhar a missão que dele receberam, mas tornaram a desfrutar de sua presença e de sua paternidade.

Capacitados e protegidos, aqueles por quem morreu, desfrutam mediante o Espírito Santo, das mesmas bênçãos que os discípulos e os apóstolos desfrutaram tempos atrás.

Essa é mais uma das grandes bênçãos que o Espírito Santo nos traz. Bênção que quase não é lembrada em nossos dias confusos.

domingo, 29 de setembro de 2013

Os adornos do Espírito

Mal saíram do Egito - escravos, fazedores de tijolos com uma terra tão ruim que exigia vegetais para dar liga à massa - Deus os reuniu aos pés do Monte Sinai. Lá deveriam se tornar um povo. Lá receberam a aliança que Abraão, séculos antes, conhecia pela fé.

De tão rudes, a aliança lhes foi resumida em tábuas de pedra. Mas, como analfabetos observariam o que estava escrito? Tudo foi sancionado então com sangue de cordeiros inocentes; depositado em uma arca de ouro e entregue a uma tribo separada para que as observassem. Finalmente, foi ordenado que fizessem uma tenda especialmente adornada onde seriam guardadas.

Os adornos dessa tenda não podiam ser produto da imaginação de qualquer um. Deus chamou dois homens para elaborar o projeto dela, treinar seus auxiliares e edificá-la, conforme a vontade dele. Tudo foi prescrito: As paredes, a cobertura, os móveis, a decoração, até mesmo a roupa que os oficiantes vestiriam enquanto estivessem dentro dela. Fariam a partir de metais, madeiras, tecidos, e especiarias. O Espírito Santo os capacitaria como marceneiros, entalhadores, ourives, bordadores, perfumistas, etc.

A tenda seria a morada das tábuas da Lei de Deus, portando da Vontade de Deus e em última análise do próprio Deus. Nada mais natural, portanto que fosse construída e ornamentada conforme seu querer e caráter.

A tenda foi erigida e consagrada: “...Então, a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do SENHOR encheu o tabernáculo. Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do SENHOR enchia o tabernáculo... De dia, a nuvem do SENHOR repousava sobre o tabernáculo, e, de noite, havia fogo nela, à vista de toda a casa de Israel, em todas as suas jornadas” (Ex 40.34-38).

Esse sinal fantástico, fogo sobre a tenda da congregação, se repetirá sobre o Templo de Salomão, mas não sobre o Templo de Zorobabel.

Muitos séculos se passaram e depois da morte, ressurreição e ascensão de Jesus perceberam que uma nova criação teve início, substituindo a que nosso pai Adão estragou. Uma pequena multidão (cento e vinte?), reunidos em uma casa, viu aquele mesmo fogo descer sobre a cabeça de cada um. Cada um era um tabernáculo em que a Lei de Deus morava. Agora ela era escrita no coração e não em tábuas de pedra, como os profetas do Senhor falaram tantas vezes.

Mas, e os adornos dos quais o Senhor fizera tanta questão no primeiro tabernáculo? Estavam todos lá.

As pedras preciosas no peito deram lugar ao que simbolizavam: boas obras. O linho branco foi substituído pelas vidas santas e estofo pela paciência e longanimidade. Etc.

Todos capacitados a fazer o que antes poucos fizeram. O Espírito agora não habitava com eles. Habitava neles. E hoje habita em nós!

No passado longínquo todas as coisas eram figuras de algo superior que se cumpriria em Jesus e seria transmitido ao seu povo. Por essa razão é que Pedro ensina que o verdadeiro adorno é “o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus” (1Pe 3.4).

(Publicado originalmente em 1/7/2011)

sábado, 17 de agosto de 2013

Pecadores inevitavelmente salvos

Espero que ao ter lido o primeiro artigo desta série (Pecadores), você tenha entendido que pecado não é um simples esbarrão em Deus do qual você possa pedir desculpas, muito menos um gesto de desobediência à vontade dele semelhante ao que fazíamos com nossos pais quando crianças. Pecado, na verdade, é um estado de rebeldia contra o Criador, que criou o homem para ser espiritualmente vivo e ele escolheu ficar espiritualmente morto para Deus.

Do segundo texto espero que você tenha compreendido que alguém que se matou espiritualmente, não é capaz de reviver-se, mas precisa de Deus – o autor da vida – para ressuscitá-lo.

Do terceiro texto espero que tenha ficado claro que o sacrifício de Jesus não foi feito apenas para criar uma possibilidade de salvação, que mortos (como se mortos pudessem fazer algo) possam aceitar ou rejeitar.

Hoje desejo deixar bem claro que ao toque salvador do Senhor, não há outra opção para os mortos além de ressuscitar.

A Bíblia nos relata que o Senhor Jesus, durante “os dias de sua carne”, ressuscitou três mortos. A filha de Jairo (Mc 5.22-24 e 35-42); o filho da viúva de Naim (Lc 7.12-15) e a Lázaro (Jo 11.43-44). Embora todos estes casos contenham os elementos que quero destacar, analisarei o de Lázaro, onde eles aparecem mais claramente.

1º Lázaro estava realmente morto. Jesus assegurou-se de que ele morreria demorando a atender a mensagem mandada pelas irmãs dele (Veja os primeiros versículos do capítulo de João 11). A própria irmã do defunto atestou seu estado de putrefação: “Então, ordenou Jesus: Tirai a pedra. Disse-lhe Marta, irmã do morto: Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias” (Jo 11.39).

2º O morto é deixado para que “... o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (Ec 12.7). Ele já não tem mais domínio de si e, inerte, nada mais faz. Porém, seu espírito está nas mãos de Deus.

3º Como Jesus ressuscitou a esses três poderia ter ressuscitado a muitos mais ou a todos seus contemporâneos. Por que não fez? Porque não quis!

Do mesmo modo que o corpo morto está sob a vontade de seus circunstantes, que podem enterrá-lo, cremá-lo, ou fazer coisa pior, o pecador morto está nas mão de Deus. É de causar admiração que deste rio de mortos, desta vala comum, ele selecione um e devolva-lhe a vida espiritual, restaurando também o corpo que já se putrefazia nos mais abjetos antros do pecado.

Entretanto a voz de comando “... sai para fora” não pode ser resistida, pois nem as trevas resistiram a essa mesma voz quanto sua ordem foi “haja luz”.

Neste instante é que se processa o que os teólogos convencionaram chamar de regeneração (de re+gerar): Ele foi gerado de novo. Nas palavras de Jesus a Nicodemos ele nasceu da água (alusão ao derramamento do Espírito prefigurado nas águas que nascem do Templo conforme a profecia de Ezequiel) e do Espírito, pois foi o mesmo Espírito Santo que agiu: “ ... Envias o teu Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra” (Sl 104.30).

A graça deste chamado é a tal ponto irresistível, que o próprio Jesus declarou: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.” (Jo 6.37).

Quando Saulo se debatia, com o que lhe parecia escândalo e loucura, a voz do Senhor Jesus foi bem clara: “E, caindo todos nós por terra, ouvi uma voz que me dizia na língua dos hebreus: Saulo, Saulo, por que me persegues? É inútil resistires ao aguilhão.” (At 26.14 Sec.XXI).

Deus salva pecadores. Quando ele os busca não volta sem aqueles que se dispôs a salvar. O Resgate é certo.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Mãos

Uma das figuras que a Bíblia usa com mais frequência é a das mãos. Não são poucos os lugares em que as Sagradas Escrituras falam delas. Surpreendentemente, as usa não só em relação aos homens mas principalmente a Deus.

Em muitos lugares se diz que foi a mão do Senhor que deu forma a todas as coisas, e a todas fez com destreza. Moisés repete muitas vezes que Deus livrou seu povo com mão forte e com mão forte também os protegeu e os disciplinou no deserto. E não foram poucos os que se dispuseram a cumprir uma ordem do Senhor se sua mão estivesse com eles.

O salmista diz que a mão do Senhor o guiaria mesmo que ele, tomando as asas da alvorada, procurasse afastar-se de sua presença. O profeta garante que a mão de Deus não está encolhida de modo que não possa abençoar. E o próprio Senhor promete a seu povo que os tomará pela mão.

Não bastasse tantas afirmações, feitas em uma linguagem tão simples, usando uma figura mais simples ainda, que até mesmo os mais simples entenderiam, o próprio Senhor, encarnado, usa concretamente as mãos a que se referira de modo figurado.

Com elas abençoou. Com elas teceu um chicote e limpou a casa do Pai. Com elas lavou os pés de seus discípulos. E, enquanto por elas era traspassado, perdoou-nos mostrando-nos que não sabíamos o que estávamos fazendo ao pregá-las no madeiro.

Não duvide! Eu e você e todos os seus eleitos, estávamos lá pregando suas benditas mãos, através de mãos iníquas, tão pecadoras quanto as nossas.

Com suas mãos furadas instou a Tomé que cresse, e o advertiu que mais bem-aventurados seriam os que não precisariam desse testemunho terrível.

Finalmente somos informados que haveremos de reconhecê-lo por suas cicatrizes: certamente as das mãos serão uma delas.

Como precisamos desta bendita certeza!

De suas santas mãos recebemos tudo: desde o pão de cada dia até o consolo de que carecemos nas aflições. De suas santas mãos recebemos os sinais que nos orientam a fazer sua vontade: “Como os olhos dos servos estão fitos nas mãos de seu senhor e os olhos das servas nas mãos de sua senhora, os nossos permanecem fitos nas mãos de nosso Deus”.

Delas esperamos bênção. Delas esperamos orientação. Nelas nos abandonamos e sabemos que se ele deixou que elas fossem traspassadas por nós, elas não nos afligirão sem necessidade ou razão.

Mas nunca esqueçamos de que, por vezes, somos nós suas mãos. Algumas vezes, através de nós suas mãos alcançam nosso irmão necessitado ou se levantam contra o erro.

Nunca “abafemos” seu Espírito e estaremos consagrando nossas vidas, como instrumentos dóceis de execução de sua vontade: como se fôssemos verdadeiramente suas próprias mãos.

Publicado originalmente em 2/9/2006

sábado, 18 de maio de 2013

Como vento e como fogo

Ao cumprir-se o dia de Pentecostes,
estavam todos reunidos no mesmo lugar;
de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso,
e encheu toda a casa onde estavam assentados.
E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo,
e pousou uma sobre cada um deles.

Não é raro encontrarmos nas Escrituras Sagradas algumas palavras que deixam claro a dificuldade de expressar o que elas descrevem. Por exemplo: “a cidade é de ouro puro, transparente como vidro”. Ou as que Paulo ouviu e disse que além de inefáveis eram ilícitas ao homem pronunciá-las.

Lucas, na descrição da descida do Espírito Santo sobre a Igreja em Jerusalém, também enfrentou essa dificuldade. Sabemos que ele procurou informar-se com exatidão, com os que viveram os acontecimentos. Cremos que ele foi assistido pelo próprio Espírito Santo na descrição feita. Mas atente para a descrição feita.

A casa em que todos estavam reunidos não foi sacudida por vento. Mas “enchida” por um som semelhante ao som que faz um vento impestuoso. Tampouco foi incendiada. Mas línguas “como de fogo”, separadas umas da outras, apareceram e pousaram: uma sobre cada cabeça.

Estes dois símbolos são sinérgicos e não podem ser apreciados separadamente, pois falam da mesma coisa.

O som de vento, certamente lembrava a judeus o Espírito de Deus (Ruach em hebraico: que é uma onomatopéia de respiração).

Era-lhes comum a lembrança de textos como: “Então, Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o SENHOR, por um forte vento oriental que soprou toda aquela noite, fez retirar-se o mar, que se tornou terra seca, e as águas foram divididas” (Ex 14.21). Ou do profeta Samuel a quem foi mostrado “os fundamentos do mundo” quando Deus descobriu-lhe as profundezas do mar pelo “iroso resfolegar das suas narinas” (2Sm 22.16).

Para eles o vento era símbolo do Espírito de Deus: seu sopro e sua respiração, que vivifica. Mas na casa em que se aglutinavam 120 pessoas o vento se faz presente apenas pelo seu som.

Já ouvi de muitas pessoas, e eu mesmo tive a experiência, de “sentir” um ambiente - no meu caso uma igreja - “cheia de som” em que os grandes pulmões de um órgão de tubos transmitia a impressão de que se podia tocar naquela “matéria etérea” que a tudo enchia.

O fogo também fazia parte da “memória simbólica” deles. O fogo da sarça não a consumia, o fogo do tabernáculo, cheio da “presença de Deus”, não consumiu a Moisés nem o povo sobre o qual se levantava como coluna. Mas, reduziu à cinzas, como castigo terrível, os filhos desobedientes de Arão. E, como sinal de aprovação, consumiu as ofertas sobre o altar.

Porém, naquele bendito dia “eram línguas como de fogo”. Como se fossem miniaturas daquela enorme coluna que acompanhava o povo pelo deserto. João vem novamente em nosso auxílio: “Vi como que um mar de vidro mesclado de fogo” (Ap 15.2). Inefáveis experiências. Eventos indescritíveis.

Mesmo não descritos em sua totalidade, foram fatos reais, que de alguma forma foram expressos através de analogias com outros fatos semelhantes já acontecidos.

Agora, pare e pense: Os elementos vento e fogo não estavam totalmente presentes. Porém, paradoxalmente, as palavras estavam. Eram idiomas! Hoje, talvez fossem coreano, russo, finlandês, árabe, etc.

Não houve uma “tradução simultânea”. O milagre não foi no ouvir, mas no falar: verbo falar é repetido 6 vezes nesse texto. O Espírito Santo capacitou a falarem imediatamente idiomas, que, via de regra, são aprendidos depois de muito esforço e muito tempo de estudo.

Eles não falaram coisas sem sentido: evangelizaram. Proclamaram a Jesus e as “grandezas de Deus”. Finalmente podiam ir “pelo mundo inteiro e pregar o evangelho a toda criatura”. Não ficaram em Jerusalém em sons desconexos fingindo idiomas.

Certamente esse tema também estava no pensamento do Apóstolo ao advertir a Igreja de Corinto: “Deus não é de confusão” (1Co 14.33). E essa advertência vale também para nós hoje.

 

NOTA – Este texto é um republicação do mesmo dp Pentecostes de 2008

sábado, 4 de maio de 2013

A Palavra e o Espírito do Senhor

Um leitor comum da Bíblia frequentemente se depara com a expressão “palavra do Senhor” e a entende como se entenderia a expressão “palavra do Antônio” ou, no máximo, “palavra do Rei”, uma vez que “Senhor” se refere a alguém com autoridade.

Um leitor mais acostumado com a Bíblia sabe que a mesma expressão (palavra do Senhor) pode se referir tanto ao que foi dito diretamente por Deus quanto aos Textos Sagrados. Ou seja: à própria Bíblia.

Porém, se o mesmo leitor passar a anotar as nuanças de cada texto em que essa expressão é encontrada, aprenderá lições preciosas. Veja:

Primeiro exemplo: Às vezes o que foi dito pelo próprio Deus veio diretamente de sua pessoa, outras vezes através de um intermediário: um profeta.

Diretamente: Temos como exemplo Gênesis 1.1: “Disse Deus: Haja luz; e houve luz” (que o Salmo 33.6 se encarrega de colocar dentro da expressão que estamos estudando: “Os céus por sua palavra se fizeram...”).

Através de um intermediário: É até difícil de fazer uma lista, pois explicitamente há mais de trezentos lugares em que encontramos algo como “veio a mim a palavra de Deus”, ou “então a palavra de Deus veio a...”. Mas, há um texto interessante que nos mostra o perigo de se ousar dizer o que ele não disse: “Então, veio a palavra do SENHOR a Jeremias, dizendo: Manda dizer a todos os exilados: Assim diz o SENHOR acerca de Semaías, o neelamita: Porquanto Semaías vos profetizou, não o havendo eu enviado, e vos fez confiar em mentiras, assim diz o SENHOR: Eis que castigarei a Semaías, o neelamita, e à sua descendência; ele não terá ninguém que habite entre este povo e não verá o bem que hei de fazer ao meu povo, diz o SENHOR, porque pregou rebeldia contra o SENHOR” (Jr 29.30-32)

Segundo exemplo: Às vezes a expressão “palavra de Deus” designa o próprio Deus, ou um enviado divino, que não há como deixar de concluir que se trate do próprio Jesus antes de sua encarnação.

Certamente você se lembra do diálogo inicial do Livro de Jeremias no capítulo 1. Repare bem nos versículos 4 a 9. O profeta declara: “A mim me veio, pois, a palavra do SENHOR, dizendo: Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações”. Porém, o que é mais notável é que ele continuou argumentando com a “Palavra”. Observe:

Então, lhe disse eu: ah! SENHOR Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança. Percebeu? Ele chama de “SENHOR Deus” (e SENHOR é a tradução do Nome sagrado de Deus que os antigos não pronunciavam) aquilo de que inicialmente foi dito ser a “palavra de Deus que lhe veio”.

E a réplica da “palavra” é contundente: Mas o SENHOR me disse: Não digas: Não passo de uma criança; porque a todos a quem eu te enviar irás; e tudo quanto eu te mandar falarás. Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o SENHOR. Depois, estendeu o SENHOR a mão, tocou-me na boca e o SENHOR me disse: Eis que ponho na tua boca as minhas palavras Note bem: O SENHOR o repreende, o exorta, o anima, promete-lhe sua total assistência, e – inusitado – diz: “agora coloco minhas palavras na tua boca”.

Percebeu? Jeremias argumentou, com a “Palavra de Deus”, que, por fim acabou colocando palavras em sua boca!

Há muitos outros casos emblemáticos, mas eu não posso deixar de lembra-lo de outro que conhecemos desde nossa infância: o de Samuel. Podemos encontrar sua história no livro que leva seu nome, mas destacarei os eventos do capítulo 3.

Samuel foi fruto das orações de sua mãe que ansiava por um filho. Como prometido, após desmamá-lo o levou para o templo como oferta ao SENHOR. De início o capítulo 3 declara: “Naqueles dias, a palavra do SENHOR era mui rara; as visões não eram frequentes” (1Sm 3.1). Aqui temos o fim do período do Juízes, no qual houve pouquíssimas revelações diretas de Deus (Gideão, Sansão...) e um total esquecimento do ensino da Lei de Moisés, apesar da obrigação dos levitas de a ensinarem as famílias a que se agregassem. O que mais caracteriza este período são as declarações de Jz 17.6 e Jz 21.25: “...cada qual fazia o que achava mais reto.

À noite, ao dormir, o SENHOR chamou Samuel, que imaginando ter sido chamado pelo Sacerdote Eli, seu tutor, foi apresentar-se a ele. O texto explica assim a confusão de Samuel: “Samuel ainda não conhecia o SENHOR, e ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do SENHOR” (1Sm 3.7). Observe que até aqui “palavra do SENHOR” pode ser sinônimo do que se refere o v1: visões. Já que os levitas haviam deixado de exercer a missão que lhes fora designada e a Lei de Moisés sequer era estudada.

Ao ser chamado pela terceira vez, Eli presumiu que Samuel estava sendo chamado pelo SENHOR e o instruiu sobre o que fazer. Ele fez. O que temos é impressionante: “Então, veio o SENHOR, e ali esteve, e chamou como das outras vezes: Samuel, Samuel! Este respondeu: Fala, porque o teu servo ouve. Disse o SENHOR a Samuel: Eis que vou fazer uma coisa em Israel, a qual todo o que a ouvir lhe tinirão ambos os ouvidos” (1Sm 1.10-11). Você percebeu? Veio o SENHOR. Ali esteve e falou com Samuel. Agora por favor. Releia o v7: “Samuel ainda não conhecia o SENHOR, e ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do SENHOR” (1Sm 3.7).

Samuel se encontrou com a Palavra do SENHOR.

A Palavra do Senhor, que cria a luz, os céus e todo o exército deles, (Sl 33.6), que troveja que está sobre as muitas águas, que é poderosa, que é cheia de majestade, que quebra e despedaça os cedros e despede chamas de fogo, faz tremer o deserto, faz dar cria às corças e desnuda os bosques (Sl 29.3-9) e que não volta vazia (Is 55.11)!

A Palavra do SENHOR age. Por isso a chamamos de Verbo (em nosso idioma é a classe de palavras que melhor expressa a ação).

A Palavra do Senhor encarnou-se e foi reconhecida em figura humana. Assumiu nossa natureza. Recebeu sobre si nossas enfermidades e nossa maldição.

Finalmente a Palavra do Senhor não nos deixou órfãos e sem ouvi-la. Inscreveu-se para não ser deturpada e vivifica-se em nossos corações mediante seu Espírito para não ficar na letra morta.

Ao Pai de quem procede a Palavra seja a glória. À Palavra que procede do Pai seja a mesma glória, pois é a expressão exata dele. E ao Espírito, que procede do Pai e da Palavra, e vivifica em nossos corações a obra do Pai e a expressão da Palavra, seja a mesmíssima glória, por toda eternidade. Amém.

sábado, 1 de setembro de 2012

Estêvão

A narrativa dos acontecimentos imediatos ao apedrejamento de Estêvão nos dão certeza de que jamais lhe passou pela mente rogar clemência. Sequer quando era arguido diante do Sinédrio nem quando executado fora da cidade. Diante da corte ele fez um discurso que mais se parecia com uma aula de história e fora da cidade rogou a Deus que perdoasse seus algozes.

Não há dúvidas de que os gestos de Estêvão nos impõem mais do que simples admiração e respeito. Ele cumpriu a ordem de nosso Mestre e Senhor e perdoou seus assassinos: “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44).

Seu exemplo afetou tão profundamente a Igreja de Jerusalém que ecoa nas instruções que Pedro dá aos demais cristãos: “santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós...” (1Pe 3.15). E não tenho dúvida de que nele também se cumpriram: “Quando, pois, vos levarem e vos entregarem, não vos preocupeis com o que haveis de dizer, mas o que vos for concedido naquela hora, isso falai; porque não sois vós os que falais, mas o Espírito Santo” (Mc 13.11).

O conteúdo do discurso de Estêvão, é até hoje fonte de grandes ensinamentos para nós. Sua estrutura é extremamente simples e lembra o que um pai de família judeu deveria fazer antes da celebração da páscoa: contar toda história de Israel sem esconder nenhum pecado.

Estêvão fala de muitos antepassados, mas destaca dois, Abraão e Moisés, e os compara a Jesus.

De Abraão destaca sua fé e de como as promessas a ele feitas só se cumpriram muito tempo depois, através de Moisés que foi rejeitado com rebeliões apesar de Deus o haver confirmado como o libertador. Portanto, o primeiro ponto de Estêvão em seu discurso é mostrar que a rebeldia dos pais ainda podia ser vista nos filhos: “...assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis. Qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos, vós que recebestes a lei por ministério de anjos e não a guardastes” (At 7.51-53).

Ou seja: Vocês estão completando o pecado que vossos pais iniciaram.

Mas, a razão dessa rebeldia, é que me parece ter sido a gota final: o Templo.

Pelo raciocínio de Estêvão o ideal de Deus era o Tabernáculo, que fora feito conforme Deus havia mostrado a Moisés: “O tabernáculo do Testemunho estava entre nossos pais no deserto, como determinara aquele que disse a Moisés que o fizesse segundo o modelo que tinha visto” (At 7.44). O Templo, erigido por Salomão, foi “tolerado” por Deus por amor a Davi (como tolerou que Israel fosse dirigido por uma monarquia): “...até aos dias de Davi. Este achou graça diante de Deus e lhe suplicou a faculdade de prover morada para o Deus de Jacó. Mas foi Salomão quem lhe edificou a casa. Entretanto, não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas; como diz o profeta: O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso? Não foi, porventura, a minha mão que fez todas estas coisas?” (At 7.45-50).

(Esta tese de Deus tolerar certas atitudes com as quais não concorda é corroborada pelas palavras de Jesus a respeito do casamento: “Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio” (Mt 19.8).)

Ao falar do Templo, Estêvão tocou em um assunto melindroso para judeus e cristãos. Vemos o quanto os judeus ficaram furiosos quando nosso Senhor foi acusado de dizer que destruiria o Templo e só não o condenaram por isso por falta de testemunhas unânimes. Não creio que fosse apenas uma questão de zelo religioso. Talvez o que pesasse mais fosse a importância política e econômica que ele tinha para Jerusalém, e para todo Israel. Temos um vislumbre quando o Senhor expulsou os comerciantes lá instalados com a participação societária das autoridades daquela casa.

No que concerne aos cristãos é ainda mais complicado, pois já se passara uns cinco anos e eles ainda obedeciam a agenda do Templo, mesmo sabendo que o Santo dos Santos fora exposto pelo véu rasgado (cortina tão espessa que demorava anos para ser tecida novamente) e, pior: viram o verdadeiro Cordeiro ser morto! Como é que eles ainda sequer iam lá?

Estêvão, se não foi o primeiro a perceber, foi o primeiro a expor publicamente a desgraça que o Templo judeu atraía sobre a Igreja. Deus ainda tolerou cerca de trinta anos e como a Igreja não se corrigiu destruiu totalmente aquele lugar para que entendessem que estavam livres da lei cerimonial. Mas, será que entenderam mesmo?

“E apedrejavam Estêvão, que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras, adormeceu. E Saulo consentia na sua morte. Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria” (At 7.59 – 8.1).

Após a morte de Estêvão, no mesmo dia começou a primeira grande perseguição contra a Igreja. Felipe foi para Samaria e lá desenvolveu um ministério abençoado. Tiago, o meio irmão de Jesus, escreveu a carta que temos na Bíblia. A morte de Estêvão foi uma das sementes usadas por Deus que frutifica até hoje.

sábado, 26 de maio de 2012

O Espírito Santo nos capacita entender a Lei

As palavras de nosso Senhor “até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra” (Mt 5.18) apontavam para a cruz, pois antes ele tinha sido bem claro: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17). Você já se deu conta de que Jesus estava sujeito à Lei?

Na cruz, ponto central de sua perfeita obediência ao Pai, Jesus cumpriu totalmente a Lei. Agora nada nos separa de Deus. Nem a Lei. Jesus já resolveu esse problema e fez mais: Aboliu a antiga forma de cultuar a Deus, pois era apenas sombra de sua cruz. Então, pela incomensurável graça de Deus, mediante seu sacrifício, os is e os tis da lei já estão perfeitamente resguardados.

Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? (Rm 6.1-2).

- Se Jesus cumpriu a lei, o que ainda é pecado?

- Transgredir a vontade de Deus ainda é pecado. Por exemplo, voltar ao culto abolido pela cruz é pecado.

- Então, há ordens no Antigo Testamento cujo o cumprimento delas é pecado?

- Sim. E o Novo Testamento nos dá exemplos claros. Veja a desavença entre os apóstolos. Pedro estava pecando não apenas por hipocrisia, mas por tentar impor a cristãos gentios uma dieta judaica e Paulo o repreendeu: “Quando, porém, Cefas chegou a Antioquia, eu o enfrentei abertamente, pois merecia ser repreendido. Porque antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele estava comendo com os gentios; mas, quando eles chegaram, Cefas foi se retirando e se separando deles, por temer os que eram da circuncisão. E os outros judeus também fizeram como ele, a ponto de até Barnabé se deixar levar pela hipocrisia deles. Mas, quando vi que não agiam corretamente, conforme a verdade do evangelho, disse a Cefas na frente de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como os judeus, por que obrigas os gentios a viver como judeus?” (Gl 2.11-14 - Almeida Sec. XXI).

- Como então posso saber o que, do Antigo Testamento, devo me abster e o que ainda representa a vontade de Deus?

- Pelos quatro usos da lei de que falei no domingo passado. O uso cúltico (ou cerimonial) está abolido e voltar a ele é blasfemar contra o sacrifício do Senhor. Os demais usos (o teológico, que nos mostra o quanto somos pecadores; o civil, que está presente nas leis de nossos respectivos países; e o “revelador da vontade de Deus”, que nos ensina o modo como Deus quer que nos relacionemos com ele e com nosso próximo) estão em vigência. Não nos afligem com maldição, da qual estamos livres, mas expressam a vontade de nosso Senhor.

- Mas como saber qual é o uso da lei que determinado texto está fazendo?

- Lendo-o, sob a iluminação do Espírito Santo! Ao celebramos hoje seu derramamento sobre a Igreja, também nos lembramos: “…quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir” (Jo 16.13).

Há textos no AT que são muito difíceis. Por exemplo, o capítulo 19 de Levítico, em que todos os usos da lei estão presentes, e a cada ordem repete-se: “Eu sou o SENHOR”.

Os 2 versículos iniciais obrigam à santidade. O versículo 3 obriga a honrar o pai e a mãe e a guardar o dia de descanso. O versículo 4 proíbe a idolatria. Aqui a Lei mostra qual é a vontade Deus.

No versículo 5 até o 8 há uma série de disposições sobre o que fazer por ocasião da oferenda de um sacrifício pacífico. Obviamente já foi abolido, pois faz parte do culto antigo.

Nos versículos 9 e 10 há instruções a respeito de como fazer a colheita de um campo com vistas a beneficiar os pobres e os estrangeiros. Essas disposições estão em vigor, mas incorporadas pelas leis de nossos países.

Os versículos 11 e 12 proíbem furtar, mentir, usar de falsidade com o próximo e jurar pelo nome do SENHOR. Mostram-nos a vontade de Deus.

Dos versículos 13 a 18 vemos uma série de leis cujo objetivo é a boa convivência social: Não oprimir nem roubar o próximo, não retardar o pagamento dos salários. Não amaldiçoar o surdo, nem colocar tropeço diante do cego, mas temer a Deus. Não julgar a favor do pobre, por ele ser pobre, nem atender os interesses do rico por ele ser rico. Não fofocar. Não colocar em risco a vida do próximo. Não compactuar com os segredos pecaminosos do próximo, mas repreendê-lo de modo a não levar seu pecado. Não vingar-se de seu próximo, mas amá-lo como a si mesmo. Novamente a lei está mostrando-nos a vontade de Deus.

O versículo 19 é um mistério. Versa sobre a mistura de animais e sementes de espécie diversa, bem como sobre tecidos feitos com fibras animais e vegetais (lã e linho). Se a razão para não misturar é garantir a higiene dos rebanhos e campos, esta lei está em vigor nas leis de nossos países. Entretanto se a razão foi manter Israel isolado, o que explicaria também a roupa, essa lei foi abolida pela ordem de ir mundo afora. Nossa defesa agora não é mais o isolacionismo, mas a intercessão de Jesus: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal”.

Do versículo 20 a 22 há uma disposição sobre a fornicação com uma escrava. O princípio, que mostra a vontade de Deus, continua em vigor: a relação sexual fora do casamento é pecado, mesmo com um objeto de sua posse como eram considerados os escravos naquela época.

Os versículos 23 a 25 apresentam dois usos da Lei: O uso civil: não comer do fruto nos três primeiros anos da planta, e o uso cúltico: entregar as primícias ao Senhor. O uso civil continua em vigor absorvido pelas nossas leis. Sobre a oferta das primícias, que alguns a ligam ao uso cúltico e, portanto, abolida, há discussão: O Livro de Hebreus mostra claramente que a Lei dos Dízimos existia antes de Moisés e hoje entregamos os nossos ao próprio Jesus, a quem Abraão, e todos os Levitas, também os entregaram.

Os versículos 26 a 28 proíbem comer carne com sangue, agourar, adivinhar, cortar o cabelo em redondo, aparar a barba, autoflagelar-se, mesmo em sinal de dor por um morto, ou fazer tatuagens. Certamente todos esses preceitos visavam isolar Israel dos povos ao redor. Parece que apenas a carne com sangue obriga os cristãos quando estiverem em contato com judeus (veja At 15). (Nunca encontrei um observador desse ponto que reclamasse de uma picanha pingando).

O versículo 29 não só é atualíssimo como traz uma advertência sobre a propagação do erro.

O versículo 30 está abolido por seu uso cúltico e Estêvão foi morto por mostrar como a parte final dele tinha sido abolida.

Do versículo 32 ao 34 encontramos disposições sobre os velhos e sobre os estrangeiros. Certamente nossas leis as incorporaram.

Os versículos 35 ao 37 versam sobre o comércio. Mais especificamente sobre justiça nas medidas de comprimento, peso e volume de atacado e varejo.

Assim é todo Antigo Testamento. Demanda um olhar novo sob uma perspectiva nova. Retrospectiva: a partir da cruz.

Não foi sem razão que os apóstolos providenciaram diáconos para atender as necessidades materiais da Igreja. Em At 6.2 eles dizem “Não tem sentido abandonar a palavra de Deus para servir às mesas” e no v4 “nos dedicaremos à diaconia da palavra”. Se o v4 transmite mais a ideia de ensino, o v2 transmite a de estudo. E era isso o que certamente faziam, desde que Jesus lhes mostrou como vê-lo nas Escrituras (Lc 24.44-45).

Façamos o mesmo sob a luz do Santo Espírito.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Missões II

Eu já tinha dado este assunto por encerrado e cria piamente ter deixado claro que, como o Senhor Jesus recebeu todo o poder e ordenou a seus discípulos que pregassem o evangelho ao mundo inteiro não havia o que questionar. Pequei. Fui presunçoso.

O mínimo que aconteceu foi uma questão que está no blog, perguntando se há, de fato, diferença entre ter autoridade e ter poder.

Pois bem: ter autoridade não é a mesma coisa que ter poder. As vezes quem detém o poder não é quem tem a autoridade. Pense no caso de um sequestro de um avião ou de um motim. A autoridade foi usurpada por quem tem poder. De pouco adianta um magistrado ter autoridade se não tiver poder para exercê-la.

Recentemente fui hóspede de um que me contou que em uma cidade do interior um juiz de paz viu-se obrigado a dar voz de prisão a um coronel e aconteceu o seguinte diálogo:
- teje preso!
- Num tejo!
- Eu sou autoridade e tô dizendo: teje preso!
- Nun tejo. E quero vê quem é que vai me prender!

Entre o primeiro e o segundo “teje preso” os dois guardas que acompanhavam o juiz já tinham virado a esquina.

Então pra não ter uma ordem contrafeita o juiz deu outra:
- Então fique aí mesmo seu teimoso!

Percebeu? O Juiz tinha autoridade (aliás, nem sei se um juiz de paz tem tal autoridade. Décadas atrás talvez tivesse), mas o coronel tinha o poder de intimidar os guardas.

O Senhor Jesus não apenas tem autoridade como também poder para regenerar o coração daqueles que ele quer. Daquele que são seus. Do mesmo modo que ele chamou Lázaro para fora do túmulo e Lázaro atendeu, ele chama quem está morto em seus delitos e pecados e tal defunto não fica no túmulo.

Ora, defuntos não ouvem, portanto é forçoso admitir que a voz que atingiu os ouvidos de Lázaro é a mesma voz que no princípio de tudo disse “haja luz e houve luz”.

Mas alguns objetam que essa voz não fala hoje. Com a Fé Reformada eu creio que fala sim! Fala através da pregação do autêntico pregador que prega o autêntico evangelho. É a voz de Jesus, que via de regra é rejeitada, como sua própria voz, nos dias de sua carne, foi rejeitada também, ao ponto de ser crucificado. Porém, quando um verdadeiro filho de Deus a escuta... Não é necessário qualquer enfeite (que, aliás, só atrapalham): “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.27-28).

Note bem: A fé arminiana, que deposita no homem a iniciativa de buscar a Deus, acha que Jesus tem a autoridade e o homem tem o poder, pois é o homem que decide se aceita ou não. Eles pregam que é o homem que possui a chave de seu próprio coração.

O evangelicalismo moderno, com o evangelho contextualizado, em que não se deve falar de pecado, ou se deve evitar coisas que pressupostamente quem ouve não compreende - ou a explicação é enfadonha, como sacrifício vicário - não nega a autoridade de Jesus, mas divide o poder: uma pequena parte está no ouvinte, que tem de se decidir, e a maior parte está no modo como o evangelho é apresentado: relevantemente ou não. Aí vale até se vestir de palhaço.

Curiosamente, quando o Espírito Santo tornou os discípulos de Jesus capazes de ir mundo afora e cumprir a ordem que receberam, os dotou apenas com duas coisas: intrepidez e capacidade de falar novos idiomas. Só isso! Lembre-se que naqueles dias o teatro e as seis artes já eram conhecidas!

Pregar o evangelho é apenas falar as grandezas de Deus. Só isso. O Espírito Santo faz o resto.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Os adornos do Espírito

Mal saíram do Egito - multidão de escravos, fazedores de tijolos de uma terra tão ruim que exigia vegetais para dar liga à massa - Deus os reuniu aos pés do Monte Sinai. Lá deveriam se tornar um povo. Lá receberam a Aliança, que Abraão, séculos antes, conhecia pela fé.

De tão rudes, a aliança lhes foi resumida em tábuas de pedra. Mas, analfabetos, para as reverenciarem, tudo foi sancionado com sangue de cordeiros inocentes aspergidos sobre as tábuas e sobre eles. E para que eles as valorizassem mais, Deus as depositou em uma arca de ouro, separou toda uma tribo para guardá-las e ordenou que fizessem uma tenda especialmente adornada para elas.

Os adornos dessa tenda não podiam ser produto da imaginação de qualquer um. Deus chamou dois homens para elaborar o projeto dela, treinar seus auxiliares e edificá-la, conforme a vontade dele. Tudo foi prescrito: As paredes, a cobertura, os móveis, a decoração, até mesmo a roupa que os oficiantes vestiriam enquanto estivessem dentro dela. Usariam metais, madeiras, tecidos, e especiarias e o Espírito Santo os capacitaria como marceneiros, entalhadores, ourives, bordadores, perfumistas, etc.

A tenda seria a morada das tábuas da Lei de Deus, portando da Vontade de Deus e em última análise do próprio Deus. Nada mais natural, portanto que fosse construída e ornamentada conforme seu querer e caráter.

A tenda foi erigida e consagrada: “...Então, a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do SENHOR encheu o tabernáculo. Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do SENHOR enchia o tabernáculo... De dia, a nuvem do SENHOR repousava sobre o tabernáculo, e, de noite, havia fogo nela, à vista de toda a casa de Israel, em todas as suas jornadas” (Ex 40.34-38).

Esse sinal fantástico, fogo sobre a tenda da congregação, se repetirá sobre o Templo de Salomão, mas não sobre o Templo de Zorobabel.

-*-

Mal se tornaram cônscios de que Jesus havia recomeçado uma nova criação substituindo a que nosso pai Adão estragou, uma pequena multidão (cento e vinte?), reunidos em uma casa, viram aquele mesmo fogo descer sobre a cabeça de cada um. Cada um era um tabernáculo em que a Le ide Deus morava, não em tábuas de pedra, mas no coração como os profetas do Senhor falaram tantas vezes.

Mas, e os adornos dos quais o Senhor fizera tanta questão no primeiro tabernáculo? Estavam todos lá.

Em vez de pedras preciosas no peito, boas obras, em vez de linho branco, vidas santas. Em vez de estofo, paciência e longanimidade, etc.

Todos capacitados a fazer o que poucos fizeram. O Espírito agora não habitava com eles. Habitava neles.

Habita em nós!

Tudo era figura de algo superior que se cumpriria em Jesus e nos seria transmitido. Por essa razão é que Pedro ensina que o verdadeiro adorno é “o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus” (1Pe 3.4).

sábado, 18 de junho de 2011

Pentecostes (parte 2)

No domingo passado escrevi: “há pouco mais de um século a vergonha da Igreja foi institucionalizada no movimento pentecostal”. Alguns disseram que fui rude. Acho que não. Explico:

Na primeira carta à Igreja de Corinto, Paulo gasta os capítulos 12, 13 e 14 para instruí-los a respeito dos dons espirituais e já no final do capítulo 12 ele classifica em último lugar numa lista de importância.

No capítulo 13 (que hoje é erroneamente usado como apologia ao amor romântico) ele mostra o quanto o mau uso do dom de línguas é perigoso para a igreja e o quanto ele está ligado ao comportamento infantil: “quando eu era menino falava como menino”.

No capítulo 14 a ênfase na meninice é enorme: “Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos. Na lei está escrito: Falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas constituem um sinal não para os crentes, mas para os incrédulos” (14.20-22).

Ainda, no mesmo capítulo: “Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais loucos? Porém, se todos profetizarem, e entrar algum incrédulo ou indouto, é ele por todos convencido e por todos julgado; tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós” (23-25).

Vale lembrar que Corinto era uma cidade portuária. Mais do que isso: Possuía um canal que poupava a circum-navegação da península do Peloponeso, o que, dependendo do vento, poderia levar até dois dias. Para atrair os marujos que o usavam, a cidade oferecia gratuitamente muitos templos, com prostitutas cultuais, conforme os Deuses das muitas nações, cobrando caro por outros serviços.

Como anunciar o Evangelho a falantes de tantos idiomas? O Espírito Santo capacitava os membros daquela Igreja do mesmo modo como fez no Dia de Pentecostes. Entretanto, Paulo os exorta a que tenham cuidado para não escandalizarem indoutos e incrédulos. Marujos estrangeiros que eventualmente entrassem na igreja deveriam ouvir as grandezas de Deus “ordeira e decentemente” (14.40), em grupos de “dois ou quando muito três, e isto sucessivamente” (14.40) e com interprete para que toda Igreja saiba o que se está falando.

Duas conclusões se impõem:

1ª - Você se preocupa com evangelização? Cultue a Deus ordeira e decentemente e o resultado será a proclamação de que Deus está presente: Veja os versículos 24 e 25: “... é convencido e por todos julgado; tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós”.

2ª - Repare no oposto. Na confusão instalada. Qual é o julgamento que as Sagradas Escrituras autorizam que os incrédulos façam a respeito da Igreja? Não é que estão loucos? Entendeu por que razão eu creio que o movimento pentecostal (que está fazendo 100 anos) foi a institucionalização (com a permissão divina) da vergonha sobre a Igreja?

sábado, 11 de junho de 2011

Pentecostes

Por que razão Jesus treinaria onze homens durante três anos, toleraria suas infantilidades e disputas pela proeminência no Reino dos Céus, perdoar-lhes-ia a fuga diante do perigo e até mesmo a negação do mais obsequioso?

Por que, depois de tudo isso ainda se preocuparia em convencê-los de que havia mesmo ressuscitado, como lhes havia dito?

Por que, lhes mandaria, como testemunhas dessa ressureição, pelo mundo afora, após capacitá-los, mediante seu Espírito a falar os idiomas dos respectivos povos para as quais se dirigissem?

Pra que todo esse dispêndio de tempo, sofrimento e lutas se a missão deles, afinal de contas, se resumirá em pronunciar garatujas sonoras?

Mas, dirão: “quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” (1Co 14.2). Realmente. Isso acontecia todas as vezes quando, por exemplo, um chinês passava em Corinto (cidade portuária, cujo canal encurtava em muito as viagens de então) e um cristão, com o mesmo dom recebido no dia de Pentecostes o evangelizava de igual modo.

Objetarão: “O que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetiza edifica a igreja” (1Co 14.4). É óbvio, pois tal pessoa está perdendo uma excelente oportunidade de falar no idioma que a Igreja entenda. Por essa razão o mesmo Paulo escreveu: “Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua” (1Co 14.19).

Percebeu? O que fiz foi substituir a palavra língua (desvirtuada pelos pentecostais), pela palavra idioma. Faça isso como os demais textos. Aliás, perceba que a única igreja do Novo Testamento que apresentou problemas com o dom de línguas foi a de Igreja Corinto. Veja suas peculiaridades. Veja também como Paulo a trata: no mínimo os chama de meninos.

O Espírito Santo prepara homens que falam com poder e convicção, cujas palavras reverberam a própria Palavra de Deus. O inimigo é que enche o trigal de joio: enganadores, vendedores de promessas, mercadores do sagrado e exploradores de pessoas simples!

Há pouco mais de um século a vergonha da Igreja foi institucionalizada no movimento pentecostal. Os significados de algumas de palavras foram desvirtuados e a autoridade das Escrituras Sagradas foi solapada de tal forma que nem a Igreja Romana tinha ainda conseguido fazer.

No dia de hoje celebramos a concretização da promessa de Jesus e graças a ação do Espírito Santo ainda somos capazes de servir a Deus como ele quer.

E o dom de línguas?

Está em pleno uso pelos muitos tradutores e já não são mais apenas 14 nações que ouvem as grandezas de Deus. Só os Gideões Internacionais já distribuem a Bíblia em 93 línguas diferentes, mas há quem fale que ela já foi traduzida ao longo há história, em mais de 2000 línguas diferentes.

Louvado seja o Senhor. Já estamos fazendo coisas maiores do que ele mesmo fez, para sua glória e honra.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O resgate dos mineiros chilenos e o meu

Como aqueles mineiros chilenos eu também estava enterrado. Não apenas a 700 metros abaixo da superfície, mas, como disse o salmista, “no mais profundo abismo”.

Como aqueles mineiros chilenos eu não recebi apenas uma proposta de salvação. Fui objeto de uma missão de resgate. Uma missão infalível e determinada a me tirar daquele lugar terrível, custasse o que custasse. E custou a vida de meu Senhor.

Diferentemente daqueles mineiros chilenos, nenhum semelhante meu poderia alcançar-me. Ninguém, a não ser meu Criador, teria poder de achar-me e de resgatar-me.

Diferentemente daqueles mineiros chilenos, eu não tinha como mandar sequer um bilhete avisando que estava vivo, pois na verdade eu estava morto. Nas palavras do apóstolo “morto em meus delitos e pecados”.

Diferentemente daqueles mineiros chilenos, para que eu fosse salvo, Deus, não apenas mandou uma missão de resgate, mas fez-se semelhante a mim e me deu vida compartilhando comigo seu próprio Espírito. Vivificou-me ao ponto de fazer-me ansiar pelo bendito resgate, e me alegrar por hoje estar em uma capsula apertada, subindo por um túnel bem estreito, vivo e em direção à vida real.

Diferentemente daqueles mineiros chilenos, se tivesse como escolher eu jamais escolheria o resgate - ele não faria qualquer sentido - meu prazer seria continuar no mais profundo abismo. Além do mais eu teria ódio mortal de meu resgatador e meu orgulho jamais me permitiria entrar em uma cápsula tão apertada. Eu me debateria ao ponto de precisar ser compelido por um aguilhão.

Fui resgatado, sim! Jamais poderia salvar-me.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Mais uma conseqüência do Pentecostes

A igreja, na verdade,
tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria,
edificando-se e caminhando no temor do Senhor,
e, no conforto do Espírito Santo,
crescia em número.
At 9.31

Como podemos entender esta declaração? Como a Igreja podia ter paz se enfrentava tantos problemas? Veja quantos problemas (Lucas até alterna problemas internos e externos).

  • Pouco tempo depois de Pentecostes, Pedro e João haviam sido presos e só foram soltos após ameaçados pelo mesmo Sinédrio que havia condenado o Senhor Jesus.
  • Não demorou muito tempo para que Ananias e sua esposa Safira expusessem o maior problema que afligia e sempre afligirá todas as igrejas: mentir ao Espírito Santo!
  • Logo em seguida todos os apóstolos foram presos e açoitados por anunciarem o nome de Jesus.
  • Com o crescimento numérico apareceram os necessitados. Isso os levou à escolha dos primeiros diáconos.
  • Um desses diáconos que foi apedrejado, com o consentimento do fariseu Saulo, foi o estopim para uma grande perseguição que espalhou a Igreja de Jerusalém pelas cidades da Judéia e de Samaria. Enquanto isso Saulo literalmente “assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere” (At 8.3).
  • Como acontece hoje com os mercadores da fé, Simão, o mago, tentou comprar o poder de conceder o Espírito Santo mediante a imposição de mãos.

Como uma igreja, sujeita a todas essas circunstâncias - e provavelmente outras que não foram relatadas por Lucas - em cerca de 5 ou 6 anos, podia ter paz?

O próprio versículo nos dá a resposta: o conforto do Espírito Santo.

Quando Jesus prometeu o Espírito Santo aos seus discípulos ele o chamou de Consolador (em grego: Paracletos). Agora Lucas se serve da mesma palavra para descrever o que em português lemos “conforto”. Ou seja: A igreja tinha paz, ao ponto de crescer em número, mediante a “paraclesis” do Espírito Santo.

Nossa tradução por “conforto” não é ruim. Talvez a dificuldade de se entender esteja na mudança de significado que esta palavra sofreu.

Hoje, para muito de nós, o significado de conforto está entre aconchego e comodidade. Dizemos que cadeiras, casas e outras coisas, ou situações, são confortáveis, quando elas nos proporcionam sensação de bem-estar. Entretanto o primeiro significado desta palavra deriva do latin “cum+fortius” (com força).

Eles tinham paz mediante a força que o Espírito Santo lhes concedia, ao ponto de, com tantos, e tão grandes problemas, não comprometerem o viver na presença de Deus.

O mesmo Espírito, que os capacitou a falar nos idiomas das nações para as quais iriam, os capacitou também a viver em paz, apesar dos problemas pelos quais passavam.

Mas não esqueça: Essa paz não era desperdiçada. Eles a aproveitavam para edificarem-se caminhando no temor do Senhor e nessa “paraclesis” do Espírito Santo.

Não há melhor descrição dessa paz do que a que, anos depois seria feita por quem antes lutava contra ela: “... a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus (Fp 4.7).

terça-feira, 23 de junho de 2009

Outras conseqüências do Pentecostes

Ao formar o povo da Antiga Aliança Deus seguiu determinada ordem: 1) os libertou do cativeiro egípcio pelo sangue do cordeiro aspergido nos umbrais das casas, 2) em meio a fogo e vento outorgou-lhes, em tábuas de pedra, suas leis, transformando-os em um povo com identidade nacional, 3) conduziu-os pelo deserto até a terra prometida a seus pais, e 4) os assentou nela com ordens expressas de não fazerem contato com nenhum povo vizinho.

Ao formar o povo da Nova Aliança Deus seguiu ordem semelhante: 1) os libertou do cativeiro espiritual mediante o verdadeiro sangue derramado na cruz, 2) em meio a fogo e vento escreveu sua lei no coração de cada um, transformando-os num povo independente de barreiras nacionais 3) e até hoje os conduz por caminhos mais perigosos do que os do deserto, com ordens de contatarem as nações divulgando estes acontecimentos, antes de entrarem na verdadeira terra tipificada pela anterior.

Observe que o esquema é o mesmo, mas cada evento é mais profundo, pois na Antiga Aliança se trabalhava com as sombras do que de fato aconteceria na Nova.

- * -

A Igreja não foi libertada de um cativeiro comum, mas do “império das trevas”, da “potestade de Satanás”, das “forças espirituais do mal”.

Os acontecimentos do Sinai, selados com sangue de cordeiros, repetiram-se no dia de pentecostes (curiosamente, ainda hoje, os judeus, neste dia comemoram a entrega da Lei por Moisés). O vento e o fogo no cenáculo não foram tão terríveis quanto no Sinai, mas estavam lá também. E lá ao contrário do Sinai, eles apontavam para o mundo. O isolacionismo determinado no Sinai, que tinha por objetivo preservar a semente da qual nasceria o Redentor, foi completamente abolido. Isso fica claro quando o novo povo de Deus recebe a capacidade de falarem pelo menos 14 idiomas.

Há muito nas comparações entre o período no deserto e o período em que vivemos. O Apóstolo Paulo, destaca seis semelhanças do que acontece conosco com o que aconteceu no deserto: 1) todos foram batizados, 2) “todos comeram de um só pão” e todos “beberam da mesma fonte espiritual”. Entretanto, Deus não se agradou da maioria deles, pois, como acontece hoje, eles foram: 3) idólatras, 4) imorais, 5) murmuradores e 6) lhe desrespeitaram.

No deserto, pessoas que há quatrocentos anos eram escravos, cujo maior conhecimento tecnológico era fazer tijolos de terra arenosa, foram ordenados a erigir um Tabernáculo, onde o SENHOR seria cultuado, que demandava trabalhos em tecidos, perfumes, pedras preciosas, marcenaria, fundição de metais, desenhos, e outros trabalhos de artífices especializados. O que fazer?

Nesse contexto foi que o Santo Espírito capacitou a Bezalel e a Oliabe a fazerem tudo isso e a ensinar seus auxiliares. Observe a descrição no Livro do Êxodo em seus capítulos 31 a 38.

Na Nova Aliança, não precisam mais de um Tabernáculo, pois Deus fez morada no coração de seu povo, mas possuem necessidades materiais: saúde, socorro financeiro, capacidade de anunciar a Boa Nova a estrangeiros, etc. Quantas eram as necessidades não resolvidas normalmente, tantos eram os dons concedidos pelo Espírito Santo. Semelhantemente ao que fez a Bezalel.

E como aconteceu quando Jesus multiplicou os pães, não houve sementeira nem colheita; muito menos preparo. O Senhor “queimou etapas” e com pães já prontos, fez o que faz todos os dias, quando semeamos a terra: multiplicou o grão em espiga.

À uma multidão de peregrinos, sem recursos para permanecer mais tempo em Jerusalém, ele levantou homens como Barnabé que vendiam tudo o que possuíam e depositavam o valor aos pés dos Apóstolos. Ou credenciou o novo anúncio das grandezas de Deus mediante milagres, inclusive de curas.

E, quando a barreira era a língua, quem trazia as boas notícias era capacitado a falar das grandezas de Deus no idioma de quem deveria ouvi-las.

O Espírito Santo sempre acompanhará seu povo e suprirá suas necessidades. Entretanto não lhe imaginemos ingênuo ao ponto de levar alguém a falar coisas sem sentido a pessoas que usam o mesmo idioma que nós.

“Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos” (1Co 14.20).

sábado, 6 de junho de 2009

Presbíteros e diáconos

As primeiras capacitações concedidas à Igreja a partir do Pentecostes foram anunciar as grandezas de Deus em outros idiomas e a intrepidez para fazê-lo.

Não custa repetir, apesar de ser óbvio, que eles necessitariam falar outros idiomas, quando saíssem mundo afora, cumprindo a Grande Comissão recebida do Senhor Jesus. Isso foi suprido.

Também, não custa repetir o quando era difícil para alguém nascido na Galiléia, sequer pensar em ir a outros países, e, pior, anunciar uma mensagem completamente descontextualizada.

Talvez isso explique a razão de muitos se aferrarem ao ambiente judaico ao ponto de terem por necessário primeiro tornar-se judeu para depois tornar-se cristão. Eram os judaizantes, que tantos problemas causaram à Igreja a ponto de obrigarem-na a deixar de lado, por algum tempo, sua missão natural e reunir-se em Concílio.

Entre esses dois momentos - o Dia de Pentecostes, e o Concílio de Jerusalém - vemos, no relato de Lucas, que surgiram os oficiais que até hoje são objeto dos cuidados da Igreja de Cristo.

A princípio havia apenas apóstolos. Parece que contavam com alguns auxiliares. Por exemplo: o sepultamento de Ananias e de Safira foi feito por quem Lucas chama de apenas de “moços”. Entretanto, quando houve necessidade de uma assistência mais consistente, promoveram a escolha de 7 homens: os diáconos.

A primeira menção do termo presbítero - tecnicamente falando, pois essa palavra pode também ser traduzida por ancião - acontece em Atos 11.30 quando a igreja de Antioquia resolve “enviar socorro aos irmãos que moravam na Judéia; o que eles, com efeito, fizeram, enviando-o aos presbíteros por intermédio de Barnabé e de Saulo”.

Em sua primeira viagem missionária, Paulo, não obstante tenha deixado igrejas em diversas cidades, foi maltratado em quase todas, e na última foi apedrejado e arrastado para fora da cidade, dado como morto. Entretanto recuperou-se. E, apesar de estar próximo de onde começara sua viagem, voltou passando pelas cidades hostis e em cada uma promoveu a eleição de presbíteros.

No Concílio de Jerusalém as igrejas dos diversos lugares foram representadas por presbíteros, os quais foram recebidos pelos presbíteros da igreja de Jerusalém e ambos participaram dos debates e da decisão do concílio em pé de igualdade com os Apóstolos.

Os presbíteros de Éfeso receberam a ordem de pastorearem o rebanho de Deus, e a instrução de que Deus os colocou por bispos.

Timóteo é instruído sobre os presbíteros que se “afadigam na palavra e no ensino”.

Tito é enviado por Paulo às igrejas de Creta com o objetivo de por as coisas em ordem e em cada cidade constituir presbíteros.

Tiago encarrega os presbíteros de visitarem os doentes. Orarem por eles e os medicarem.

Pedro e João, reconhecidamente apóstolos, identificavam-se em cartas como presbíteros.

No dia de Pentecostes o Espírito Santo já encontrou os apóstolos escolhidos pelo Senhor Jesus e os capacitou a desempenharem suas respectivas missões. Mas, à medida que a Igreja se estruturava, espalhando-se mundo afora, sem contar com a presença dos apóstolos todo o tempo em todos os lugares, o mesmo Espírito suscitou homens que a pastoreasse: diáconos e presbíteros.

Os diáconos sempre aparecem mais relacionados com as necessidades materiais e com suas respectivas igrejas. À exceção de Estêvão e Felipe.

Os presbíteros recebem o encargo de visitação de enfermos, de afadigar-se na palavra e no ensino, e de supervisionarem (episcopado). Portanto, contextos mais abrangentes.

Sobre ambos pesa a responsabilidade enorme dada pelo Senhor da Igreja: “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada: pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe 5.1-3).

Sobre ambos pesa, muitas vezes, o desânimo que vem com a desconfiança e a rebeldia natural de corações pecaminosos que se esquecem das ordens do Senhor da Igreja: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros” (Hb 13.7).

sábado, 30 de maio de 2009

Cenáculos benditos

“Façamos-lhe, pois, em cima, um pequeno quarto, obra de pedreiro, e ponhamos-lhe nele uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candeeiro; quando ele vier à nossa casa, retirar-se-á para ali” (2Re 4.10). E assim aquela família rica de Suném fez para o profeta Eliseu o que nos tempos de Jesus chamou-se cenáculo.

A palavra cenáculo vem do latim (cænaculu deriva-se de cœna ceia) e refere-se ao lugar em que a família ceava. Infelizmente traz aos falantes de português a ilusão de cenário: nada mais distante. A palavra grega significa simplesmente quarto alto.

Embora nas casas ricas houvesse uma espécie de mezanino designado pelo mesmo nome, o mais comum era o cenáculo externo, com acesso por uma escada na lateral da casa, em que, nos dias quentes, se usava até como local de dormir.

Em um cenáculo Jesus instituiu a Santa Ceia quando celebrou a páscoa com seus discípulos. Em outro, em Jope - muitos anos mais tarde - Pedro ressuscitou Dorcas. De outro, em Trôade, durante o sermão de Paulo, que prolongou-se até meia noite, Êutico caiu de uma janela. E, foi para um cenáculo que os discípulos voltaram logo após o Senhor ter subido aos céus. Mas veja bem o texto: “Então, voltaram para Jerusalém, ... Quando ali entraram, subiram para o cenáculo...” (At 1.12-13). Não era qualquer um. Era “o cenáculo”.

Gosto de pensar que era o mesmo em que Jesus serviu a Santa Ceia. Imagino que ele fosse parcialmente aberto, pois creio que também foi lá que o Espírito Santo foi derramado.

De Atos 2.1 ficamos sabendo que “Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar”. O contexto imediato que explica a expressão “mesmo lugar” é a reunião em que Matias foi escolhido, que - tudo indica - aconteceu no mesmo cenáculo e revela o hábito recém-criado de reunirem-se lá.

Em Atos 2.6 lemos “Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua”. Ora, se tudo aconteceu em um cenáculo semi aberto, fica fácil de se entender como a multidão de peregrinos judeus, que veio a Jerusalém celebrar a festa de pentecostes, teve conhecimento do que estava ocorrendo.

Às 9 horas da manhã, foram imediatamente habilitados a falar o idioma de um dos grupos lingüísticos ali representados.

Saíram às ruas. E, à medida em que “as grandezas de Deus” eram anunciadas na língua da pessoa a quem falavam, iam se dirigindo ao único lugar de Jerusalém que comportava uma multidão da qual três mil foram batizados: o pátio do templo.

Bendita casa que abrigou o Senhor Jesus durante a páscoa da qual ele disse ter “desejado ansiosamente comer” com seus discípulos antes de seu sofrimento.

Bendita casa que recebeu de volta os onze e os demais discípulos, em suas primeiras reuniões, serviu de local para a escolha de Matias e finalmente foi o lugar preferido pelo Espírito Santo, em detrimento da pompa, riqueza e do cerimonial que acontecia no templo, para derramar-se sobre os seus.

Bendita casa em que o Evangelho começou a ser proclamado até chegar a nós, que vivemos nos confins do mundo.

Benditas sejam também as nossas casas onde o Espírito Santo manifesta seu poder produzindo seu divino fruto em cada um de seus moradores, os verdadeiros “santo-dos-santos” onde habita o Senhor.

Benditos cenáculos, onde qualquer pessoa - de qualquer cultura, língua ou nação - nascido “não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus mediante o lavar regenerador de seu Espírito” - o qual “de pedras suscita filhos a Abraão” - repetem a última ceia do Senhor esperando pela primeira a ser celebrada nas casas que ele disse que iria preparar.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...