segunda-feira, 24 de março de 2008

Figueiras folhudas

Uma das parábolas mais conhecidas do Senhor Jesus é a da figueira. Nela, ele nos manda ficar atentos para seus ramos e folhas, pois quando eles se renovam e começam a brotar o verão está próximo.

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Dois ou três dias antes, enquanto Jesus andava pela estrada que ia para Jerusalém uma figueira chamou-lhe a atenção. Renovada, ela estava folhuda. E ele estava com fome.

Diante da possibilidade de encontrar saborosos figos temporãos - ou talvez pela sugestão implícita no nome do lugar: Betfagé (casa dos figos maduros) – ele resolveu buscar alguns.

Decepção: só havia folhas. Castigo: “ninguém mais coma figos de ti”.

E a figueira secou.

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Entrando em Jerusalém dirigiu-se à outra figueira. Figueira da qual todas as demais eram símbolos: o Templo.

Examinou e o viu tão, ou mais, folhudo do que a figueira do caminho. Cheio de atividades. Verdadeira empresa moderna.

Comércio de vitimas para os viajantes de longe que não podiam trazê-las. Comércio de vítimas com pureza cerimonial pré-aprovada para poupar o tempo das filas. Até de pombas que deveriam ser as vítimas dos pobres eram vendidas!

Câmbio para que qualquer valor fosse convertido em moeda local - devia ser flutuante e sujeito às demandas das festas - mas era uma conveniência tão grande, para aqueles dias, como o chips subcutâneos o são nas “mega-churches” de hoje.

A “figueira/templo” estava folhuda mas sem frutos!

Decepção. Só havia aparências. Castigo: chicote, expulsão, imprecação: “a casa de meu Pai é a casa de oração para todos os povos e vocês a transformaram em um covil de ladrões”. Maldição: “Não ficará pedra sobre pedra”.

Anos depois o templo foi arrasado.

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A Parábola da Figueira pode até falar de realidades futuras, mas retrata realidades passadas – duas figueiras folhudas e sem frutos – e nos adverte sobre as realidades presentes: As figueiras de hoje estão mais folhudas do que nunca. Portanto, o verão está às portas. Ai delas se não tiverem os frutos que o Senhor procura nelas.

E, pode estar certo de que, ele não procura por belos conjuntos musicais, muito menos por excelentes artistas ou oradores. Ele também não procura por ouro, obras de arte ou adornos e sim por “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio”.

sexta-feira, 21 de março de 2008

O Dia da Ressurreição é o Dia da Nova Criação

Como eu poderia deixar de celebrar a ressurreição de meu Senhor? Acaso seria tão ingrato? De forma alguma. Celebrarei sim.

Entretanto me cercarei de cuidados. E o primeiro será dar-lhe exclusividade: não a confundirei com uma data qualquer.

Hoje a moda é celebrar. E, a qualquer pretexto, celebra-se qualquer coisa. Às vezes mais de uma ao mesmo tempo, e algumas até irônicas como, no mesmo dia, celebrar-se o “Dia do Circo”, o “Dia da Escola” e o “Dia do Consumidor”. Terei o cuidado de reservar esse dia com carinho: deleitar-me nele, para usar a expressão do profeta, e não celebrar nenhuma outra coisa.

Dar-lhe-ei também centralidade. Meus compromissos serão organizados a partir dela. Não me aproveitarei dela para fazer outras coisas. Não transformarei o tempo que dediquei a lembrar-me do maior evento com que fui agraciado, em meu dia de lazer.

Como o Apóstolo Paulo apressou sua viagem, não se demorando na Ásia, para poder chegar a Jerusalém a tempo do Pentecostes - que acontecia 50 dias depois da Páscoa - farei todo o possível para organizar meu tempo - até minhas viagens - de modo a estar com os meus queridos na data em que meu Senhor, vencendo a morte, nos deu vida.

Mas não celebrarei supersticiosamente, achando que isso me tornará mais santo.

Não celebrarei vulgarmente, achando que é apenas uma convenção cristã.

Não celebrarei mundanamente achando que tudo se resume a festa.

Celebrarei de joelhos. Não meramente os joelhos externos, mas aqueles outros joelhos que são infinitamente mais difíceis de serem dobrados, já que dependem de um coração contrito, de um orgulho subjugado, e mais do que de tudo dependem de se colocar o ânimo nas mãos furadas de pregos daquele que, antes de ressuscitar, morreu a mais infame e vergonhosa de todas as mortes: a morte de cruz.

Celebrarei a nova criação! O evento que Adão e Eva não souberam aproveitar. Celebrarei ter recebido o que eles teriam ganhado se tivessem obedecido ao Senhor. E que eu ganhei porque o Senhor o obedeceu por mim.

Tenho muitos motivos para celebrar!, Celebrarei sim.

sábado, 15 de março de 2008

Entradas em Jerusalém

Quase setecentos anos antes de Jesus entrar em Jerusalém, montado em um jumento, os príncipes de Nabucodonozor também entraram: em montarias de guerra.

Dois anos antes eles haviam cercado Jerusalém, e, como registrou o cronista sagrado, levantaram tranqueiras ao seu redor. Por dois anos Jerusalém suportou falta de alimentos - felizmente havia um fonte dentro dos muros - mas ninguém podia sair da cidade.

Pacientes, os babilônios trabalharam até abrir uma brecha na muralha. Abriram e puseram em fuga todos os “homens de guerra”, que logo foram alcançados e desbaratados: o rei Zedequias foi preso com sua família.

Vingativos, os babilônios mataram a todos os príncipes e a família de Zedequias. Depois furaram seus olhos. A última coisa que ele viu foi sua corte e seus queridos serem mortos.

O profeta Jeremias estava lá. As ordens do rei da Babilônia eram claras: ele deveria ser protegido. Há muito tempo ele tinha falado que a única esperança para Israel era sofrer o cativeiro, e, desde então ele foi tido por traidor, e seu próprio povo tentou matá-lo.

O que era claro para Jeremias é que não se pode fugir do castigo de Deus. O melhor que se pode fazer é recebê-lo: “por a boca ao pó”!

Hoje nos lembramos do dia em que Jesus entrou em Jerusalém. Ele não teve de cercá-la, nem de abrir uma brecha em seus muros - nem cegar suas autoridades, pois elas estavam duplamente cegas - pelo contrário: foi recebido com gritos de alegria, palmas, ramos e roupas forrando o chão em que sua humilde cavalgadura passava.

Entretanto, ao ver a cidade de longe, diferentemente dos Babilônios, chorou de compaixão e lamentou: “Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos. Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco; e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação” (Lc 19.42-44).

A situação de Jerusalém então era pior. Por um capricho, deram a João Batista um fim pior do que o de Jeremias, e agora recebiam o Filho de Deus, sem reconhecê-lo como tal. Recebiam-no como se fosse alguém um líder contra os Romanos.

Há certa semelhança com o que está acontecendo em nossos dias: Jesus tem sido recebido até com aplausos e festas, porém nunca como deveria ser. Às vezes o honram com títulos tolos, como o maior psicólogo, mestre, líder, etc. do mundo, porém nunca como o verdadeiro Deus em quem habita corporalmente a plenitude da divindade.

Hoje as palmas e as roupas que estendem por seu caminho são bajulações grosseiras e falta de respeito (para dizer pouco). Entretanto ele continua apresentando-se humilde como quem cavalga um animal de carga.

Ainda é tempo de reconciliação. O senhor ainda pode ser achado. Ainda está perto.

Não perca a oportunidade de buscá-lo.

segunda-feira, 10 de março de 2008

No tempo de Deus

Ontem à noite tentei ver a lua, mas apesar do céu limpo, todo estrelado, não consegui. Por esses dias ela deve apresentar-se em quarto crescente.

À época de Jesus esse era o sinal para que o maior turno de sacerdotes começasse os preparativos para subir à Jerusalém.

Deixavam seus afazeres com parentes ou vizinhos e se preparavam para passar um mês morando nas dependências do templo, comendo apenas do que era consagrado - carne, produtos de trigo e vinho - e para uma rotina altamente elaborada e repetitiva.

Este turno era o mais ‘sanguinário’, pois além de ter de fazer tudo o que os demais turnos faziam (as ofertas contínuas, que consistiam no sacrifício de 2 cordeiros por dia, 4 aos sábados, e 2 touros, 7 cordeiros e 1 cabra às luas novas e todos numerosos sacrifícios que qualquer israelita trouxesse ao altar), lhes cabia imolar os muitos cordeiros pascais: milhares!

Entretanto não sabiam que no turno deles o verdadeiro Cordeiro Pascal seria imolado. Não no templo nem diretamente por eles, mas como realização do antítipo com que se afadigariam durante aquele mês.

Nas dependências do templo, enquanto eles examinavam os sinais de pureza, que qualificavam um cordeiro para o sacrifício, verificando atentamente seu corpo, os representantes de todo Israel, reunido o Sinédrio, presidido pelo príncipe dos sacerdotes, valendo-se de tortura, e testemunhas falsas, examinava os “sinais de culpa”, que qualificariam o verdadeiro cordeiro para a morte.

Fora do templo, em ironia ímpar, entregaram a verdadeira vítima a “gentios”, e longe do altar consagrado, a cruz consagrou os que “não eram povo” e a terra que não era santa.

Cumpriu-se então: “os reinos desse mundo tornaram-se do Senhor e do seu Cristo”.

Logo o crescente será substituído pela lua nova (a que hoje chamamos de cheia). Quando ela estiver brilhante lembre-se de que nesta noite, há muitos anos atrás o Senhor foi traído.

Traído não apenas por Judas, nem apenas pelos demais apóstolos que fugiram, mas por toda uma nação tirada “de um amortecido”, e mantida com a “mão forte e o braço estendido” do mesmo que substituiu o filho de Abrão pelo seu.

Nação que ano após ano, século após século, sacrificando tantas vítimas, estava suficientemente avisada sobre o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

Lembre-se também que sob a luz daquela lua, de certa forma o traímos também. Afinal os meus pecados, os seus e de todos aqueles a quem Deus chamou foram imputados a seu Filho e por ele fomos reconciliados com o Pai.

Essa é a boa nova!

sábado, 1 de março de 2008

"Antes o seu prazer está na lei do Senhor" - 2ª Tábua

Por puro prazer honre aos que Deus usou para lhe trazer à existência, e que, desde os primeiros dias - como o próprio Deus faz - se deram para que você vivesse.

Seu pai, além de semeá-lo, garantiu a estabilidade ambiente desdobrando-se em cuidados. Sua mãe, além de germiná-lo, encubou-o, formou-o e foi sua primeira morada. Alimentou-lhe de si mesma e, com dores, lhe trouxe à luz. Em seu regaço lhe aconchegou.

Por meio deles Deus lhe deu à vida biológica. Pelos seus ensinos e aliança lhe agraciou com a vida espiritual: prenúncio da vida eterna.

Por puro prazer honre seu pai e sua mãe.

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Por puro prazer empenhe-se pela vida. Não apenas pela vida biológica, mas também pela vida moral e espiritual.

Sabendo que algo, ou alguma prática, a prejudica ou mata, lute contra, ou, pelo menos, evite. Quem polui o ar, a água e o alimento, que sustentam a vida biológica, ou a ética, que alimenta a vida moral, ou o temor a Deus, que alimenta a vida espiritual, é tão assassino quanto quem, armado ou não, mata seu próximo.

Por puro prazer não mate a seu próximo nem a si mesmo.

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Por puro prazer jamais deixe de considerar que uma das mais profundas influências sobre todas as pessoas, inclusive sobre você, deve ser expressão de sua submissão a Deus.

Ao criar ele mesmo determinou que o sexo deve estar sob domínio individual, social e espiritual. Individualmente ele é expresso por órgãos biológicos especializados. Socialmente ele expressa-se com o testemunho da sociedade em que o casal passará a ter novos papéis. Espiritualmente ele é conforto para as almas dos cônjuges e um meio de expansão da família da aliança.

Por puro prazer não cometa adultério contra você mesmo nem contra seu cônjuge.

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Por puro prazer aprecie e contente-se com o modo divino de distribuição das riquezas materiais, intelectuais e espirituais sob sua administração ou de seu próximo.

Tomá-las é ir contra vontade de Deus. Concordar, ou calar-se diante de quem as toma, ou se vale de meios ilícitos para que elas cheguem a si, ou as falsifica, é o mesmo que ir contra suas deliberações.

Cada um prestará contas daquilo que Deus colocou sob sua guarda. Das capacidades e riquezas que recebeu e das que, estando sob a guarda de seu próximo, foram obtidas com fraude.

Por puro prazer não furte a si mesmo nem ao seu próximo.

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Por puro prazer empenhe-se pela verdade. Seja nas matérias, nos dizeres, ou nos projetos.

Não viva de aparências. Não omita ou aumente a verdade, nem crie expectativas falsas. Resolva tudo o que lhe foi confiado.

A mentira envolve o furto o adultério e o assassinato. Furta-se a verdade. Adultera-se a realidade. Assassina-se as expectativas e a boa fé do próximo.

Por puro prazer não diga falso testemunho: não minta.

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Por puro prazer alegre-se com a prosperidade de seu próximo. Empenhe-se para que ele e você desfrutem das bênçãos divinas.

Entristeça-se por ver seu próximo sem o que comer ou vestir, ou sem moradia, mas transforme essa tristeza em atitudes práticas conforme os poderes, e as capacidades com que Deus lhe agraciou.

Por puro prazer não cobice o que está sob a guarda de seu próximo.

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Por puro prazer use a Lei do Senhor como o guia de sua vida. E ao amar sua Lei você estará também amando o Autor dela. Ame de todas as suas forças e de toda sua alma. Mas ame também de todo seu entendimento.

Tenha por certo que enquanto você não honrar quem está junto de você - seu pai e sua mãe - jamais conseguirá, sequer, atinar com o bem de quem está tão distante que só é alcançado pela cobiça.

E lembre-se das palavras de nosso Mestre e Senhor: "O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo".

sábado, 23 de fevereiro de 2008

"... o seu prazer está na lei do Senhor" – 1ª Tábua

Por puro prazer reconheça a Deus como seu único Senhor. Aprecie-o, honre-o, adore-o. Procure agradá-lo em tudo, de todos os modos. Até mesmo com seus pensamentos. Tenha-o como seu maior deleite e não cultive outros deleites que possam crescer ao ponto de afastar você dele.

Por puro prazer não tenha outros deuses diante do SENHOR.

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Por puro prazer jamais degrade o SENHOR atribuindo-lhe qualquer forma que você possa imaginar. Mesmo a mais bela e a mais perfeita. Adore-o pela fé.

Adore-o na certeza de que Jesus, expressão exata do Altíssimo Pai, é o único que lhe possibilita um culto verdadeiro. E, sendo Jesus o único que agrada ao SENHOR, jamais tome parte em invenções humanas, por mais belas que sejam, ou honestas que pareçam, com o objetivo de agradar a Deus.

Por puro prazer jamais faça qualquer imagem do SENHOR.

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Por puro prazer jamais degrade o nome do SENHOR. Seja com interjeições, juramentos, orações fúteis, louvores da boca pra fora, ou com anúncios banais, interesseiros ou humanizados do Santo Evangelho.

Jamais deixe de exaltar o SENHOR e de reservar para ele o que de melhor você possa consagrar-lhe. O mais nobre modo de proclamar suas graças e as súplicas mais puras que puder fazer.

Por puro prazer jamais use em vão o nome do SENHOR.

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Por puro prazer, a cada dia da semana, procure resolver todas as necessidades que você tiver, para que no dia-do-SENHOR você possa desfrutar melhor sua presença em companhia de seus irmãos que se reúnem no mesmo local.

Não permita que aqueles que estiverem sob seus cuidados deixem de fazer isso e não delegue suas responsabilidades a outros.

Troque até o que é de maior premência, e aquilo que lhe dá mais prazer, pela alegria de comparecer ao local consagrado a cultuá-lo.

Deleite-se nesse dia e descanse de todos os cuidados, pois seu maior objetivo é desfrutar a companhia do Senhor e seus ensinos, lembrando-se sempre que Jesus, o único que agrada totalmente ao SENHOR, ressuscitou neste dia para nossa justificação, e nesse dia inaugurou a nova criação.

Por puro prazer lembre-se de santificar o dia-do-SENHOR.

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Por puro prazer use Lei do Senhor como o guia de sua vida. E ao amar sua Lei você estará também amando o Autor dela.

Ame-o de todas as suas forças e de toda sua alma. Mas ame-o também de todo seu entendimento.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Escolhidos

Jesus escolheu doze. Não os mais sábios, nem os mais influentes. Tampouco os mais cultos ou mesmo os mais ricos. Escolheu aqueles “que ele mesmo quis”.

Quatro eram pescadores por profissão. Um era coletor de impostos. E dois - se considerarmos isso como profissão - eram ativistas políticos em prol da libertação do povo judeu. Dos outros cinco pouco ou nada sabemos.

O que eles tinham em mente quando receberam o chamado do Senhor? O que Jesus queria que eles fossem ou que fizessem? As respostas a essas questões podem ser boas lições.

Naqueles dias - como ainda é possível ver hoje em menor escala ou intensidade - todos os judeus esperavam ansiosamente a chegada do Messias. O Messias os livraria do jugo romano e colocaria Israel por cabeça de todos os povos.

O Messias seria um "super-homem" aos pés do qual Alexandre, Nabucodonozor, Dario ou qualquer outro rei - até mesmo Salomão - pouco significaria. Seu saber convenceria a todos e o Reino dos Céus cobriria a terra a partir de Israel.

Não posso deixar de considerar a convicção trazida pelo chamado daquele que trouxe à luz todas as coisas, mas também não posso desconsiderar o privilégio que cada um sentiu ao ser chamado por alguém que, pelo que fazia, tinha muito do que então se esperava do Messias.

Essa "vontade egoísta" pode ser vista quando discutiam, entre eles mesmos, quem seria o maior e especialmente quando Tiago e João constrangeram sua mãe a pedir para eles um lugar especial no reino messiânico.

Não havia como resistir o chamado do Senhor. Mas havia como agasalhar no peito os próprios desejos. Afinal, até certo ponto, conforme entendiam, eram coincidentes!

Aqui está uma lição: hoje se faz o mesmo.

Do outro lado o Senhor adquirira nossa natureza para recuperar o que nosso pai Adão perdera ao deixar de obedecer incondicionalmente a Deus. Chegara a hora do cumprimento das promessas feitas a ele e da implementação total da aliança feita com Abraão: ser uma bênção para todas as nações.

A aliança com Abraão materializou-se aos poucos e tornou-se mais clara com os doze filhos de Jacó – os doze patriarcas – dos quais, descende o povo da aliança. Mas permaneceu restrita. Aliás, deveria permanecer, pois apenas dentro do seu contexto cultural e espiritual que a mensagem de Jesus seria entendida de fato uma “boa nova”.

Naquela cultura não deveria haver disputas sobre a autoridade ou sobre o significado dos oráculos de Deus, que os tempos e os usos tornaram tão relativos ao ponto de não se julgar o que é pecado pela Palavra de Deus, mas por um sentimento vago que encontramos expresso em frases como: “ah, mas eu não acho que isso seja pecado”.

Naturalmente Jesus esperava que os seus doze escolhidos, representassem para Igreja o que o doze filhos de Jacó representaram para Israel.

Entretanto, apesar da autoridade apostólica que lhes foi confiada - de ligarem na terra e o mesmo acontecer no céu, de reter ou perdoar pecados, de, com uma simples ordem, moverem montes, de serem o alicerce que, alinhados à pedra de esquina, suportariam a Igreja - eles cometeram erros, como os patriarcas também cometeram. Erros que não foram escondidos de nós para nosso próprio proveito.

A segunda lição: o que de bom eles vieram a realizar não foi por seus próprios méritos, mas pela graça de Deus.

Deus escolheu muitos para que, unidos à seu Filho pela cruz, constituíssem a Igreja e habitação de seu Espírito. Não os mais sábios, nem os mais influentes, tampouco os mais cultos ou mesmo os mais ricos, mas aqueles que ele quis: Nós.

Não desempenharemos o que quer que seja de bom, nem mesmo compreenderemos corretamente nossa missão, se não for por sua graça. A ele pois, toda glória em tudo o que somos ou em tudo o que viermos fazer.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Chuvas

Chuvas

Os Reformadores sempre recomendaram orações em favor de clima propício e estações bem definidas. Isso reflete o ensino bíblico geral de que tal equilíbrio é uma das bênçãos de Deus.

Você se lembra da promessa feita a Noé? “Enquanto durar a terra, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite” (Gn 8.22).

E da resposta a oração de Salomão? “Se eu cerrar os céus de modo que não haja chuva, ... se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra” (2Cr 7.13e14).

Considere ainda a declaração do salmista: “O SENHOR preside aos dilúvios; como rei, o SENHOR presidirá para sempre” (Sl 29.10).

Pois bem: nesta semana muitos respiraram aliviados após uma autoridade garantir que não havia mais perigo de racionamento de eletricidade: “as represas atingiram o volume de segurança”.

Embora seu serviço é afeito ao uso de eletricidade, que foi seu destaque, esse caso banal nos mostra como e verdadeira a afirmação de que cidade “esconde Deus”. Explico melhor:

O agricultor vê a falta de chuvas como uma tragédia. Mas quem mora na cidade, a princípio, desfruta algumas vantagens, e, só depois de certo tempo, sente desconforto da seca. Como a matriz energética de nosso país é baseada na hidroeletricidade, o primeiro impacto chega por aí.

O que seria de uma cidade sem iluminação pública? Hospitais, sem eletricidade? Órgãos públicos, sem comunicações?

Resumindo: o homem do campo, tão logo fique sem chuvas, lembra-se de Deus. O homem da cidade demora mais a perceber sua falta.

Foi mais ou menos o que aconteceu com aquele homem rico da parábola do Senhor Jesus, que após grande produção, precisou construir celeiros maiores. E, devido a falsa ilusão de segurança, tranqüilizou sua alma dizendo: “tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te” (Lc 12.19).

Assim, quem vive na cidade, precisa estar mais atento às bênçãos de Deus, pois o leite não é fabricado em caixinhas, nem o feijão em sacos.

Provavelmente você não tenha uma horta no quintal, onde cultive seu alimento, mas, entre você e o alimento, há necessidade de boas chuvas, tanto para encontrá-lo nas mercearias, quanto para que você receba seu salário - que, de uma forma ou de outra, depende das chuvas - e tenha capacidade de adquirir o alimento adequado a sua família.

Hoje, quando oramos pedindo a Deus um emprego, ou um salário melhor, estamos fazendo a mesma coisa que nossos antepassados faziam pedindo chuvas e estações propícias.

Hoje, quando separamos as primícias do nosso salário estamos fazendo a mesma coisa que nossos antepassados faziam ao levar à casa de Deus os primeiros frutos da colheita de seus campos.

É mais fácil ver a bênçãos de Deus no trabalho da terra do que em uma mesa de escritório. Mas, tenha certeza: elas estão lá também. E, por mais “artificial” que seja uma vida, mesmo em coma e mantida por aparelhos eletroeletrônicos, ela depende tanto de Deus, quanto quem vive no meio do mato.

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.36).

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O mundo e o amor ao mundo

Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo.
Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele;
porque tudo que há no mundo,
a concupiscência da carne,
a concupiscência dos olhos
e a soberba da vida,
não procede do Pai, mas procede do mundo.
Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência;
aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente.
1João 2.15-17

Infiéis,
não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus?
Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.
Tiago 4.4

Como não amar o mundo nem as coisas que há nele, se, mesmo após o pecado, Deus o amou? Não foi o próprio João quem disse “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu filho unigênito ...”? Será que, neste texto, João está se referindo a outro mundo diferente do que somos proibidos amar?

De fato: o mundo que nós estamos proibidos de amar é o mundo que brota da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da soberba da vida. Não é o mundo criado por Deus e sim o mundo criado pelo homem. Aliás, pelo homem pecador.

Não é o mundo de realidades e de objetos que podem ser estudados e expressos pelas ciências e pelo engenho humano, pois este foi criado por Deus. Mas o mundo nascido dos desejos (concupiscência) e da vanglória (soberba).

Ao falar em concupiscência João a situa na carne e nos olhos. Dentre os muitos significados que a palavra traduzida por carne tem nas Escrituras (pelo menos 12), João aqui está usando o mais animal de todos os sentidos. O mesmo pode ser dito dos olhos: a cobiça.

Ao falar de soberba da vida, João mostra o quanto fugimos, ou pelo menos tentamos fugir, da dura realidade “com que Deus afligiu os filhos dos homens debaixo do sol”.

E nós sabemos bem do que João está falando. Ou nunca ouvimos o poeta? Ou nunca pensamos em algo parecido com esses versos?

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

O amor de Deus não está em quem ama a esse tipo de mundo, criado pelas suas próprias concupiscências e fantasias. Ou seja: Deus não tem prazer em tal pessoa, que como nos diz o salmista é “inimigo de fato”.

Como tornar isso mais claro? Não sei!

Entretanto é bom você começar a perscrutar seu próprio coração. E estes dias são muito oportunos para isso. Repare bem:

Há como não o cristão deixar de assumir uma posição bem clara na atual situação que vivemos?

Podemos amar um mundo que premia, dentre muitos animais enjaulados em uma casa eletrônica, o que demonstra ser mais concupiscente e soberbo? Podemos nos deleitar em uma multidão que grita “carne vale”? Podemos deixar de reprovar os adultos que não se envergonham dançar nem de levar suas crianças à “dança do créu”?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Servo dos servos do Senhor

Qual mineiro, que procura pepitas, o servo dos servos do Senhor busca incansavelmente aquelas que a Palavra de Deus oferece. Por vezes pega-as na superfície - há muitas catas produtivas - mas, geralmente ele cava. Cava e atinge a camada original onde encontra grande variedade delas.

Diferentemente dos que sequer olham as catas, nem evitam o “ouro de tolo”, ele enriquece a muitos. Quem convive com ele, ou simplesmente está por perto, de nenhum tipo de preciosidade fica privado.

Pouco recebe comparado ao tanto que ele dá. Alguns, sem a riqueza que dele receberam, hoje andariam descaminhos, mas pouquíssimos se dão conta disso.

Seu prêmio o aguarda. Ele o receberá não dos que enriqueceu, mas do dono das riquezas.

 

Qual pai que conhece seus filhos o servo dos servos do Senhor divide proporcional e adequadamente o alimento de que precisam, manejando bem o verdadeiro pão dos céus.

Diferentemente dos que dão pedras por pães, e cobras por peixes, ele multiplica pães e peixes - como seu Senhor o ensinou a fazer - e alimenta a todos. Esse alimento, que é precioso como as pepitas - comparado a ouro depurado - por ser doce como mel atrai também os que procuram apenas o prazer. Mas, estes se enfastiam logo, desacostumados a tão grande doçura.

Só sentem seu valor quando ficam sem alimento e o espírito de cada um começa a definhar. Raramente ele recebe reconhecimento pela colheita, pelo preparo ou, sequer, por servir o alimento.

Sua mesa entretanto o aguarda. Lá, aquele que deveria, ao vê-lo chegar do trabalho, ser servido primeiro, fará questão de servi-lo.

 

Qual pastor de ovelhas, que as conduz aos pastos mais verdes e às águas mais tranqüilas, o servo dos servos do Senhor não faz experiências com seu rebanho em novas paragens. Se necessário ele as leva através do vale da sombra da morte, mas as conduz ao local certo.

Diferentemente dos mercenários que fogem espantados com o perigo, ou não ligam para o estado do rebanho, ele cuida até da harmonia dentro dele. Separa as brigas e protege as ovelhas mais fracas.

Como o rebanho não lhe pertence, a lã e o leite que ele produz é todo entregue ao dono. As crias também.

Sua recompensa não falhará. Tendo sido fiel no pouco será colocado sobre o muito, tão logo compareça à presença de seu Senhor.

 

Mas os tempos são maus, e, atribulado, o Povo de Deus anda trocando seu direito de primogenitura por sopa de lentilhas, ouro depurado por pirita, águas tranqüilas por cisternas rotas e a voz do Bom Pastor pela voz dos mercenários. Ou, como as ovelhas gordas de que fala Ezequiel, dão marradas nas mais fracas.

A culpa, entretanto, não é apenas dos dias maus e da tribulação (que, graças a Deus, por amor dos eleitos, será abreviada). Cada um que abandona os meios de graça, ou que, amando o mundo, torna-se cada vez mais inimigo de Deus, é, tanto, ou mais, culpado por esse estado.

Se o espírito está pronto, mas a carne é fraca, o que esperar de quem enfraquece também o próprio espírito? Não é isso que está sendo feito?

Deus queira nos ajudar, despertando nossos olhos e dando-nos vontade para querer e força para fazer o que lhe agrada. Ensinando-nos, por fim, a aproveitar os meios que ele mesmo colocou à nossa disposição. Especialmente as fadigas dos servos de seus servos.

sábado, 19 de janeiro de 2008

João Batista e Elias

Se você for convidado para comemorar a Páscoa em casa de judeus - convite raríssimo a um gentio - você verá um cálice diferente dos demais sobrando à mesa.

O jantar obedecerá a uma ordem meticulosa com muitas orações, leituras, cerimônias e que cada comida simbolizará alguma coisa.

Após a quarta rodada de vinho, o dono da casa encherá parcialmente aquele cálice e o passará de mão em mão. Cada participante derramará nele um pouco do vinho de seu próprio cálice até que ele fique cheio. Uma criança então abrirá a porta da casa.

Há muitos outros detalhes de como eles celebram hoje a festa que nosso Senhor cumpriu na cruz e da qual usou apenas o pão e o vinho nos ordenando que os tomássemos em sua memória, mas estes são suficientes para o que me proponho falar.

Os judeus ainda esperam o Messias, e acreditam que ele será precedido por Elias. Aquele cálice especial é o Cálice de Elias, e ele recebe um pouco do cálice de cada um, simbolizando que, cada um, de alguma forma, é responsável pela inauguração da Era Messiânica que ele trará. Exatamente por isso a porta é aberta, para que Elias entre sem embaraços naquele lar.

Para eles a profecia de que Elias precederá o Messias, ainda aguarda seu cumprimento.

Elias lhes é como uma espécie de “segundo Moisés”. Moisés recebeu a Lei de Deus no Sinai, e Elias escutou a voz de Deus no silêncio daquele mesmo monte (que em sua época era chamado também de Horebe). A morte de Moisés não foi testemunhada e Elias não morreu: foi levado aos céus por uma carruagem de fogo. Moisés deixou Josué como seu sucessor e Elias deixou a Eliseu, e ambos evidenciaram a autoridade que receberam dividindo as águas do Rio Jordão.

Essa esperança - da vinda de Elias - era comum nos dias de Jesus: “Mas os discípulos o interrogaram: Por que dizem, pois, os escribas ser necessário que Elias venha primeiro? Então, Jesus respondeu: De fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer nas mãos deles. Então, os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista.” (Mt 17.10-13)

O que há de comum então entre Elias e João Batista?

Ambos eram impulsivos: Caniços agitados pelo vento. Ambos “gostavam” dos desertos. Vestiam-se de modo peculiar e ficaram famosos pela alimentação: Elias foi alimentado por corvos e por uma viúva de cuja panela nunca faltou comida nos anos de seca e João alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Ambos enfrentaram situações parecidas: decadência religiosa do povo governado por um rei fraco com uma mulher má.

“Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.” (Mt 17.5). Quando Pedro propôs fazer tendas para cada um deles, como se fossem iguais, esta foi a ordem de Deus. Elias e Moisés estavam então falando com Jesus transfigurado. Portanto, para nós, cristãos, apesar de Elias representar todos os profetas, como Moisés representa a Antiga Aliança, e terem nosso mais alto respeito e consideração, nossa obediência deve ser dada apenas a Jesus: “A ele ouvi”.

As palavras do Senhor sobre João esclarecem que, como Elias, ele lutava para restabelecer o verdadeiro culto em Israel. Elias enfrentou os profetas de Baal e João Batista as “víboras” hipócritas disfarçados de religiosos ao ponto de fingir arrependimento.

João Batista nos dá duas outras lições: 1) Mesmo se tivermos de “clamar no deserto” não desistamos, e 2) nossa posição deve ser sempre expressa pelo que ele disse: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30).

Seja esse nosso desejo sincero.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Nos braços de Simeão

Quarentas dias após haver nascido o Senhor foi levado, por seus pais, a Jerusalém. Foi sua primeira visita àquela cidade.

Iam purificar Maria e resgatar seu primogênito. As leis levíticas eram muito claras: A mulher era impura 40 dias após o parto e todos os primogênitos deveriam ser consagrados a Deus a menos que fossem resgatados.

O sacrifício de purificação, usualmente feito com um cordeiro, podia ser feito com dois pombinhos ou duas rolinhas, se a família não tivesse posses. Foi o caso deles.

O resgate do primogênito não precisava ser feito no templo (bastava pagar 5 shekalim a um sacerdote), mas já que eles iam passar por lá ... De Belém à Jerusalém a viagem era pequena - uns 10 quilômetros - e já era o começo da volta à Nazaré, de onde vieram.

Lá encontraram dois anciãos: Simeão e Ana (que são mencionados apenas aqui). Há muitas informações sobre Ana, e poucas sobre Simeão. Talvez, como Ana, ele fosse um velho Judeu, que a idade dispensara da obrigação de ir ao Templo, mas insistia em fazê-lo.

Apesar de outras opiniões, eu prefiro imaginá-lo como um sacerdote ‘jubilado’ que dedicava-se a ajudar a rotina do templo, como permitido. Que encerrara seus dias de ofício, triste com o que via. Mas fora agraciado pelo Espírito Santo com a certeza de que veria o Messias antes de morrer.

O texto diz que o Espírito Santo o levou ao templo na hora certa - talvez, naquele dia, seu encargo fosse receber os resgates dos primogênitos - e deu fim a sua espera. Tomou a criança nos braços e orou: - Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra, porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste diante de todos os povos, luz para revelação aos gentios e para glória do teu povo de Israel.

Simeão viu os mistérios de Deus. E como João veria anos depois e todos os profetas viram no passado, Simeão acabara de ver o Conselho de Deus, sua Vontade, Planos e Decretos. Viu em um bebê. Em um bebê aconchegado em seus braços. Já podia morrer em paz.

Que privilégio inaudito: tomar nos braços o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Que privilégio ver que a luz, que Israel já possuía, se estenderia à todos os povos. Que privilégio ver que aquele bebê manifestaria os pensamentos de muitos corações, seria alvo de contradições e a causa do engrandecimento de alguns e da ruína de outros.

Quantos textos devem ter sido lembrados por Simeão. Ele segurava em seus braços o Descendente da mulher que haveria de esmagar a cabeça da serpente, o Cordeiro de Deus que substituiu Isaque, o Anjo do Senhor que lutou com Jacó na travessia rasa do rio Jaboque, o Leão de Judá, o Profeta infalível referido por Moisés, o Guerreiro do Altíssimo que lutou ao lado de Josué contra Jericó, a Raiz de Davi ... Simeão se dera conta de que estava vendo o início da eternidade, o Reino de Deus entre os homens. O Emanuel.

A partir de então nada seria mais o mesmo. A partir de então aquela pobre família, sem posses até para um sacrifício, seria assolada por dores. Dores tais que a alma da mãe sentir-se-ia traspassada por espada.

A partir de então a luz que dissipa todas as trevas brilharia no coração de quem o Pai dera àquele pequeno que estava em seus braços.

Mas, a partir de então as trevas se levantariam com tal força, que embora não pudessem prevalecer contra luz - pois é da natureza da luz sempre vencer as trevas - obscureceriam ainda mais os corações dos que não pertencessem àquele bebê.

"Veio para os seus, mas os seus não o receberam". Como isso deveria doer em Simeão. Seus sentimentos se misturavam: sentia alegria por ter nos braços o Senhor, e sentia tristeza porque seu povo colocaria o Senhor nos braços de uma cruz.

Benditos braços de Simeão! Quisera eu estar lá!

sábado, 5 de janeiro de 2008

Um novo tempo, uma nova história

Eu não saberia dizer se ele era baixinho ou tinha poucos recursos, mas era conhecido como “Dionísio, o exíguo” (ou simplesmente Dionísio exíguo). Era monge. Nascera na Romênia em 470, mas vivia em Roma desde 500 d.C. Era considerado como o mais sábio a serviço da Cúria Vaticana.

Traduziu, do grego para o latim, os diversos Decretos dos Concílios de Nicéia, de Constantinopla e de Calcedônia além de muitas outras obras, e conhecia bem as matemáticas e de astronomia.

Seu ofício o levava a escrever muitas correspondências as quais tinha de datar, como era costume - porém, cada vez mais a contra gosto - em função do ano em que o Imperador Romano Diocleciano tinha assumido o trono.

Um dia ele escreveu a um bispo: “Prefiro contar e indicar os anos a partir da encarnação de nosso Senhor, de forma a fazer a fundação de nossa esperança melhor conhecida e a causa da redenção do homem mais destacada”.

Como ele chegou à data em que Cristo nasceu não se sabe, mas errou. Errou por 4 ou 7 anos. Mateus afirma que Jesus nasceu nos dias de Herodes, e Herodes morreu no que seria o ano 4 do calendário de Dionísio, e, quando Lucas refere-se ao “primeiro recenseamento, ... feito quando Quirino era governador da Síria”, fornece-nos um período que se estende do ano 4 até o ano 7 do mesmo calendário.

Até hoje há discussões. A maioria dos estudiosos concorda que Jesus nasceu no período que vai do ano 4 ao ano 5 do calendário de Dionísio. Isso significa para nós que não estamos 2.008 anos distantes do nascimento do Senhor Jesus, mas 2012 (ou talvez 2015).

Mas o que importa mesmo foi que sua prática legou-nos o hábito de ver a história dividida em “Antes de Cristo e Depois de Cristo” inaugurando o que chamamos de “Era Cristã” e cada vez mais se chama de “Era Comum”.

A idéia de que Jesus dividiu a história humana é muito simpática aos cristãos, e faz todo sentido com sua cosmovisão, pois tudo que foi registrado nas Sagradas Escrituras antes da vinda de Cristo aponta para um Messias que havia de vir.

Pessoas como Isaque, José, Moisés e todos aqueles que estão listados no capítulo 11 da carta aos Hebreus, possuíam sempre, pelo menos, dois traços comuns: a esperança de um Messias e a certeza de que seus feitos eram apenas “sombra” de feitos maiores.

A esperança perpassou a Antiga Aliança: Aos patriarcas materializava-se em uma descendência numerosa. Aos peregrinos do êxodo no estabelecimento de uma nação. Aos súditos do reino de Israel na vinda do reino eterno.

A esperança materializou-se em Jesus. O Reino chegou. Chegou para todos os povos. Não é mais a história da esperança é a história do cumprimento das promessas e das profecias.

Por isso se exorta tanto a “cantar um cântico novo”. O velho, com seus verbos no tempo futuro ou no modo subjetivo, canta a esperança. O novo canta o que aconteceu e o que está acontecendo. Vivemos uma nova história.

Na realidade já vivemos a eternidade. Ainda estamos em sua ante-sala, mas o primeiro de nossa raça já entrou lá e nos aguarda. E quando chegarmos lá olharemos para trás e perceberemos que sempre estivemos naquele bendito lugar.

Dionísio errou a data, mas acertou no "discernimento dos tempos".

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Feliz 2008

Ao desejar a você e aos seus queridos um bom ano de 2008, desejo, de todo meu coração, que seja realmente um bom ano. Porém, corro o risco de ser mal entendido, pois, como eu tenho muitos amigos, e boa parte deles têm horror a que se faça distinção entre dia e dia (mesmo que a façamos para o Senhor) especialmente se fizermos a tal distinção como conseqüência de algo arbitrado pela Igreja de Roma.
Mas, só de chamar o próximo ano pelo nome de 2008 já estou concordando com uma decisão de um Papa. Pior: Estou dizendo que estamos há 2 mil e 8 anos do nascimento do Senhor Jesus Cristo, quando na verdade já estamos, pelo menos, há 2013 anos.
Tudo começou em 531, com um monge chamado Dionísio (conhecido como Dionísio Exíguo, talvez, por ser baixinho). Ele observou que todos os documentos eram datados a partir do ano em que o Imperador Diocleciano assumiu o trono – ano que hoje chamaríamos de 284 a.D. Ele Escreveu: “Prefiro contar e indicar os anos a partir da encarnação de nosso Senhor, de forma a fazer a fundação de nossa esperança melhor conhecida e a causa da redenção do homem mais conspícua”.
Seus cálculos - não tão precisos - tiveram a enorme conseqüência de introduzir a idéia de “Antes de Cristo e Depois de Cristo” na datação dos anos. Mas, como ainda não se conhecia o ‘zero’, o primeiro desta nova datação foi chamado de ano 1 da era cristã.
Houve resistências:
1. O calendário dos judeus sempre foi lunar – não diz o Salmo 104 “Fez a lua para marcar o tempo”? – mas, a cada 3 anos, precisavam inserir outro mês antes de Nisan e periodicamente fazer outras correções para que houvesse correspondência com o calendário solar, pois, afinal é por este último que “se regula as estações do ano”.
2. Próximos às tradições dos judeus, os mulçumanos chegaram a fazer da lua crescente seu símbolo, e mantêm até hoje – a despeito de todas as complicações comerciais com o ocidente – um rígido calendário lunar
3. Como o Concílio de Nicéia determinou que a Páscoa sempre seria celebrada no dia seguinte ao equinócio da primavera - que é marcado pelo calendário solar (cujo ano é 11 dias maior do que o ano do calendário lunar) - até hoje a Igreja Grega, para quem a festa da Páscoa é de grande importância, usa também um calendário lunar. De fato: rejeitou novamente a troca pelo gregoriano em 1971.
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Mateus afirma que Jesus nasceu nos dias de Herodes. E sabemos que Herodes morreu no que seria o ano 4 do calendário de Dionísio.
Quando Lucas cita o censo feito por Quirino na Síria fornece-nos indícios de que Jesus nasceu no ano 6 ou 7, pois ele nasceu durante um recenseamento.
Até hoje há discussões. E os anos mais aceitos pelos estudiosos como prováveis para o nascimento de Jesus são 4 ou 5 a.C. Ou seja: não estamos 2.008 anos distantes do nascimento do Senhor Jesus, mas 2012 ou talvez 2015.
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Depois de muitos anos de aperfeiçoamentos os cálculos de Dionísio foram reconhecidos por Roma, o Papa Gregório XIII, que em 1582, decretou seu uso, após remover 10 dias (5 a 14 de outubro de 1582) do calendário então vigente. Entre 1582 e 1584 a maioria das nações ligadas a Roma passaram a adotar o Calendário Gregoriano.
4. Alguns reformadores menores hesitaram em aceitar esse novo calendário - exatamente por proceder de Roma - e a maior reação que se conhece foi de Scaliger (1540-1609), astrônomo calvinista famoso pela elaboração de uma cronologia histórica, que acabou tendo de basear-se no Calendário Gregoriano.
A Alemanha foi o primeiro país protestante a aceitá-lo (1700), mas gastou 75 anos para aceitá-lo em todo seu território.
A Inglaterra (e as colônia americanas) só o aceitaram em 1752. E para isso precisaram eliminar 11 dias. “Foram dormir em 3 de setembro e acordaram em 13 de setembro de 1752”.
Curiosamente o Japão só o aceitou em 1873, a Rússia em 1917, e a China em 1949.
Portanto, no melhor “estilo conciliar” ...
Considerando que:
1. O ano lunar é composto de 12 meses de 29 dias, 12 horas, 44 minutos e 2,9 segundos (mais ou menos 354 dias).
2. O ano solar (a volta completa da terra em torno do sol) é composto de 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 45 segundos (sendo que a cada século essa velocidade diminui em ½ segundo).
3. O ano atômico é igual a 290.091.200.500.000.000 oscilações de um átomo de césio (e padrão oficial da terra desde 1972).
4. Logo após a meia noite de 31 de dezembro de 2007 (sem a correção de 1 segundo que “tivemos” de fazer em nossos relógios na virada de 2005 para 2006) passaremos a nos referir, para todos os efeitos, ao tempo como 1 de janeiro de 2008, diferentemente do que se fazia há cerca de 300 anos, quando essa virada era no começo da primavera do hemisfério norte.
Decido que:
1. Quer você goste ou não, vou desejar que esse período seja todo passado por você, e por mim, na presença de Deus.
2. Quer você goste ou não, receba meus votos de Feliz Ano Novo.

Abraços, ou melhor Sala das Sessões ... ou melhor ainda quarto do computador de minha filha, 31 de dezembro de 2007.
Fôlton

sábado, 29 de dezembro de 2007

De geração em geração

“Senhor, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração”. Quando leio esse texto penso que Moisés estava meditando em como Deus protegera a José - a quem sucedera como líder desse povo que agora ele conduzia pelo deserto - como protegera a Jacó, a Isaque e a Abraão através de tantos descaminhos. Um verdadeiro refúgio de geração em geração.

Talvez, antes deles, Moisés já tivesse isso em mente ao perceber que Abraão tinha mais de 50 anos quando Noé morreu. E Noé, por sua vez, conviveu com Lameque. O mesmo Lameque que nasceu uns 50 anos antes do próprio Adão morrer.

Às vezes penso nos registros que Moisés deve ter lido na maior biblioteca de então no Egito. Porém logo me lembro das palavras do Senhor Jesus: “Moisés ... escreveu a meu respeito” (Jo 5.46). Afinal, Moisés registrou detalhes da história que só o próprio Deus sabia.

Tudo o que aconteceu no Éden, o castigo de Babel, o dilúvio, o chamado de Abraão. Tudo isso, desfilava diante de seus olhos e ele escreveu: “Pois mil anos, aos teus olhos, são como o dia de ontem que se foi e como a vigília da noite. Tu os arrastas na torrente, são como um sono, como a relva que floresce de madrugada; de madrugada, viceja e floresce; à tarde, murcha e seca”.

Agora a incredulidade daqueles que viram o mar se abrir os condenara a vagar pelo deserto. Uma geração inteira tinha de morrer no ermo. Todos os que nasceram no Egito, com exceção de Josué e Calebe, jamais poriam os pés na terra da promessa. E, meditando nisso ele escreve: “somos consumidos pela tua ira e pelo teu furor, conturbados. Diante de ti puseste as nossas iniqüidades e, sob a luz do teu rosto, os nossos pecados ocultos. Pois todos os nossos dias se passam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um breve pensamento”.

Moisés, que já estava com mais de 90 anos, podia falar que depois dos oitenta o melhor de seus dias fora canseira e enfado. Estava cansado.

Estava cansado, mas não desanimava nem desacreditava da misericórdia do Senhor: “Volta-te SENHOR. Sacia-nos de manhã com a tua benignidade, para que cantemos de júbilo e nos alegremos todos os nossos dias. Alegra-nos por tantos dias quantos nos tens afligido, por tantos anos quantos suportamos a adversidade”.

Estava cansado, mas sentia vontade de ainda fazer alguma coisa: “Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; confirma sobre nós as obras das nossas mãos, sim, confirma a obra das nossas mãos”.

E hoje? Não podemos ver com muito mais detalhes como o SENHOR tem sido nosso refúgio de geração em geração? Além da sarça, não vemos aquele que a fazia arder? Acaso Babel não foi invertida? Do dilúvio não fomos salvos? Acaso já não ante-vivemos a verdadeira terra da promessa?

Ah! Senhor; tem misericórdia de nós que esbanjamos muito mais prodigamente nossos dias e ensina-nos a contá-los com coração sábio. Ensina-nos a usar melhor o tempo que tu nos destes. Abençoa as obras de nossas mãos: hoje, em 2008, e até o dia eterno.

Amém.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Não sou ingênuo

Não sou ingênuo ao ponto de achar que Papai Noel representa o Natal, e que sem o Papai Noel não há como relembrar do Natal. Mas também não sou ingênuo ao ponto de achar que ele me impede de comemorar a encarnação do Verbo Divino.

Não sou ingênuo ao ponto de crer que com poesias, peças de teatro, festas, ou uma audição do Messias de Haendel - ou de outro oratório de natal qualquer - terei comemorado o Natal. Jamais! Eles podem até trazer a impressão de que me esforcei bastante. Mas se eu não me esvaziar de mim mesmo, como o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores o fez, mesmo que a manjedoura seja o prenúncio da cruz, jamais terei sequer atinado com o verdadeiro motivo que o trouxe ao tabernáculo que vivo.

Não sou ingênuo ao ponto de achar que em 25 de dezembro comemorarei 2007 anos do nascimento de Jesus. Sei que a data não é essa. Porém não sou ingênuo ao ponto de achar que, por não saber a data exata, tudo que eu fizer, alegrando-me pelo seu nascimento, será errado e incorrerei no seu desagrado.

Não sou ingênuo ao ponto de achar que ele ficará tanto mais alegre comigo quanto mais exageros eu fizer, mais trabalhos eu tiver, e mais - dos recursos que ele mesmo me deu - eu gastar, para presentear e festejar seu nascimento, e depois viver o ano todo como se ele não existisse.

Não. Não sou ingênuo.

Sou, na verdade, culpado. Culpado de levar meu Senhor a tanto para me resgatar. Porém, vou celebrar sim. Celebrar com gratidão ele ter adquirido minha natureza.

E, como sei que ele se agrada mais de um coração contrito, do que de qualquer outra coisa, no momento de maior alegria, terei cuidado de colocar aos pés da cruz, ou melhor, ao lado da manjedoura, toda minha gratidão. Então, ela será tão preciosa quanto o ouro, e tão especial quanto o incenso e a mirra.

sábado, 15 de dezembro de 2007

O natal e o nascimento de Jesus

Quem comemora apenas o natal, comemora a possibilidade de gastar um pouco mais. Afinal o tal “espírito natalino de generosidade” é apenas uma faceta a mais do velho e perverso consumismo.

Quem comemora o nascimento do Deus-Homem, comemora o inusitado, o inaudito: Deus fazendo-se semelhante à suas criaturas para, redimindo-as, fazê-las cumprir o propósito original para que foram criadas.

 

Quem comemora apenas o natal, completa o tal “espírito natalino de generosidade” entregando-se, com dissolução, a uma alegria efêmera vinda da comida e da bebida, ou de coisas piores. E declara, sem dar-se conta do que está confirmando debochadamente, que o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores - diante de quem se dará de toda palavra frívola (Mt 12.36) - nasceu.

Quem comemora o nascimento do “Deus-Conosco” alegra-se na esperança de que a maior festa que possa fazer será nada, comparada com a que celebrará, com ele e com todos os queridos que já estão com ele. Porém não deixa de ser um antegozo, se feita para seu louvor.

 

Quem comemora apenas o natal, degrada o sacrifício eterno, que não se limitou à cruz, mas começou na manjedoura, exatamente com um comportamento oposto às pompas, luxo, usura e devassidão com que uma mídia insensata e uma multidão supersticiosa a tratam.

Quem comemora o nascimento daquele que é a “expressão exata do Pai” dobra-se ajoelhado diante de tal mistério e de tal pessoa, e, sem saber como, mas crendo na promessa e na misericórdia - essência de seu proceder - oferta o ouro de suas posses, o incenso de seu louvor e a mirra de sua vontade alquebrada, aos pés de seu Senhor, ao dispor de sua vontade.

 

Quem comemora apenas o natal, faz sua própria vontade, atende seus próprios desejos, gasta para promover-se, presenteia para ser lembrado ou para receber outros em retribuição, ou, ainda, para acalmar uma consciência cheia de cicatrizes de remorso pelo que não fez de bom o ano inteiro.

Quem comemora o nascimento daquele em quem “habita a plenitude da divindade” esvazia-se de si mesmo, como ele fez, e presenteia mais com o coração do que com bolso. Mais com o amor mais do que com o interesse. Mais de si mesmo do que daquilo que o dinheiro pode adquirir.

 

Quem comemora apenas a natal, entrega-se a símbolos supersticiosos e comerciais de coisas que nunca fizeram parte daquele momento sublime e chega a idolatrá-las e as vezes a impô-las.

Quem comemora o nascimento daquele que “não se envergonha de ser chamado nosso irmão” - apesar de sermos menos do que nada, e muitas vezes desonrarmos sua amizade - tem os motivos certos para alegrar-se, festejar, e depositar tudo aos pés do Rei dos reis e Senhor dos senhores.

 

Que neste natal tenhamos a sabedoria de, nos momentos mais efusivos, manter nosso pensamento em seu real significado, e sermos gratos. Gratos, pelo grande amor como que fomos e somos amados.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Dois convites

Bem cedo um anjo do Senhor removeu a pedra que selava o sepulcro onde jazia seu corpo. Tão fantástica e tão assustadora era seu aspecto que os guardas romanos, apavorados, "ficaram como se estivessem mortos".

O anjo se dirigiu às mulheres, e sua primeira palavra foi "não temais". Depois de afirmar que o Senhor havia ressuscitado, lhes convidou a sanar a dúvida dizendo: "vinde ver o lugar onde ele jazia".

Cerca de trinta e quatro anos antes, um anjo do Senhor apareceu, tarde da noite, a uns pastores, que cuidavam de seus rebanhos nos campos. Sua primeira palavra a eles também foi "não temais". Porém continuou: "eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura".

Mal acabou de falar e uma enorme quantidade de anjos - literalmente: o exército celestial - respondeu em uníssono: "Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem".

Bradaram e desapareceram.

Atônitos os pastores concluíram "Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer".

Na manhã de sua ressurreição o anjo convidou as mulheres a entrar na sepultura em que o corpo do Senhor estivera. Na noite de seu nascimento, após a mensagem dos anjos, os pastores se convidaram mutuamente: “vamos até Belém”.

Esses dois convites ainda são feitos e constituem-se na essência do Evangelho. Tão importante quanto ver o túmulo vazio é ver a manjedoura habitada. É impossível crer em um sem crer na outra. Enquanto a manjedoura nos fala de Deus habitando conosco, o túmulo vazio nos fala de nossa habitação com ele.

Os pastores convidaram-se mutuamente, pois um nascimento é coisa corriqueira, já uma ressurreição é algo tão fantástico que o anjo mesmo insistiu no convite. Eles deveriam procurar pelo menino que estava lá. As mulheres deveriam constatar que aquele mesmo menino, agora crescido, não estava mais lá.

Entretanto os lugares que deveriam ser visitados eram notáveis: uma manjedoura e um sepulcro. No sepulcro ele deixa a vida conforme nós a conhecemos e inaugura um “novo e vivo caminho” para a vida mais plena. A vida da qual esta é apenas sombra. Na manjedoura, esvaziado de si mesmo ele torna-se um de nós. Em outras palavras: ele assume nossa vida em uma manjedoura e assume a vida celestial em um túmulo.

E como dizia o hino de Paulo sobre esse “grande mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória” 1Tm 3.16.

Cabe-nos, certos de que o túmulo está vazio, nunca nos esquecer do convite: “vamos até Belém, e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer”. Tais acontecimentos que começaram naquela manjedoura, hoje, também vazia, têm repercussão eterna, pois nos convidam meditar na vida além do túmulo.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Dezembro chegou

Dezembro chegou, e com ele nossas esperadas chuvas - graças a Deus - amoleceram a terra que já preparava as sementes nela plantadas. As que o calor não esturricou recebem agora, pela água, os nutrientes de que precisam. A germinação não tarda.

Dezembro chegou, e o calor que cozinhou as frutas dessa época, agora, mais úmido, se encarrega de amadurecê-las e depurar-lhes a doçura e o aspecto. As mangas, por exemplo, ficam amarelas, rosas ou até roxas e seu perfume atrai a passarada.

Dezembro chegou, e o calor, bem-vindo de Deus, beira ao insuportável quando misturado a algazarra promovida pelos homens, que se imbuem do tal “espírito natalino”: desculpa para aproveitar o dinheiro extra de fim-de-ano.

Dezembros também chegam às nossas vidas. Sempre chuvosos. Mas, graças a Deus, chuvas de bênçãos. As benditas sementes que o Espírito Santo plantou em nosso coração nos dias de calor e aflição, germinam e desabrocham produzindo aquilo que o Senhor semeou.

Os eventuais frutos que já temos são amadurecidos nesses dezembros. E, trazendo refrigério à nossas almas, essas benditas e divinas chuvas com que o Pai celeste rega nossas almas, depuram a doçura de nossos relacionamentos e embeleza nossos desejos e anseios. Nossa alma, com alegria indizível e cheia de glória agradece humilde ao Pai Criador e Cuidador.

Entretanto esse bendito período de gestação atrai pestes e parasitas. As pestes tentam, como gafanhotos esfomeados, devorar os brotos tão logo nasçam e os parasitas agarram aqueles que escapam. Assim esses inimigos ferozes tentam nos destruir.

Do mesmo modo como a estupidez humana transformou a bela intenção de se comemorar o nascimento do Verbo em oportunidade para lucros escorchantes, bebedices e orgias – como se o Filho de Deus se alegrasse com isso – a insensatez de muitos de seus filhos os parasita de tal forma que pouco se dão conta da idolatria que cometem ao reduzir a expressão exata do Ser do Pai a uma ceia ou a um rito vazio.

Benditos dezembros. Algumas vezes quentes ao corpo, mas sempre aquecidos e ímpares de prazeres espirituais aos corações dos que meditam no amor inefável de Deus.

Benditos dezembros: época de despertar. Época de frutificar. Época de celebrar o maior gesto do amor do Pai manifestado em uma manjedoura.

sábado, 24 de novembro de 2007

Uma tradição antiga

Nossa Igreja está hospedando o IX Congresso da Federação das Sociedades Auxiliadoras Femininas do Presbitério Médio do Rio Doce. Hospeda com alegria. Para nós é uma honra ver este congresso ser realizando aqui.

Honra, pois temos o privilégio de ver o mesmo trabalho, que sempre foi feito, sendo atualizado.

Alguns tendem a menosprezar o trabalho feminino, mas um exame atento das Escrituras deve nos levar a outra postura. Veja, por exemplo, os evangelhos:

Lucas registra: “Depois disso Jesus ia passando pelas cidades e povoados proclamando as boas novas do Reino de Deus. Os Doze estavam com ele, e também algumas mulheres ... Maria, chamada Madalena, ... Joana, mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes; Susana e muitas outras. Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens.“ (Lc 8.1-3 NVI)

Essas mulheres, que seguiam Jesus e seus apóstolos e “auxiliavam-nos” (o texto pode ser traduzido assim também) é o embrião das “Sociedades Auxiliadoras Femininas.

Repare que todas eram mulheres atarefadas. De Maria Madalena há pouco que falar face ao quanto já sabemos dela. De Joana, basta ver o encargo de seu marido para ter idéia de suas responsabilidades.

Sabemos pouco de Suzana (aportuguesamento da forma hebraica de açucena: a flor) que aparece apenas aqui.

Mas veja como elas estavam presentes até nas horas mais difíceis de nosso Senhor:
Mateus destaca: “Estavam ali muitas mulheres, observando de longe; eram as que vinham seguindo a Jesus desde a Galiléia, para o servirem; entre elas estavam Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mulher de Zebedeu”.

Marcos enfatiza o auxílio que elas prestavam ao Senhor (inclusive em sua última viagem a Jerusalém): “Estavam também ali algumas mulheres, observando de longe; entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé; as quais, quando Jesus estava na Galiléia, o acompanhavam e serviam; e, além destas, muitas outras que haviam subido com ele para Jerusalém”.

Lucas nos dá a impressão de que eram muitas: “Entretanto, todos os conhecidos de Jesus e as mulheres que o tinham seguido desde a Galiléia permaneceram a contemplar de longe estas coisas. ... Era o dia da preparação, e começava o sábado. As mulheres que tinham vindo da Galiléia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado. Então, se retiraram para preparar aromas e bálsamos”.

E João, o único apóstolo que testemunhou de perto a crucificação, enfatiza: “E junto à cruz estavam a mãe de Jesus, e a irmã dela, e Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena”.

Também no dia da ressurreição, quando elas iam embalsamá-lo, embora Mateus e Marcos deixem-nos a impressão de uma ou duas, Lucas fornece-nos mais detalhes: “Mas, no primeiro dia da semana, alta madrugada, foram elas ao túmulo, levando os aromas que haviam preparado. E encontraram a pedra removida do sepulcro ... Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; também as demais que estavam com elas confirmaram estas coisas aos apóstolos”.

Há um grupo que se destaca, mas há uma quantidade muito maior que auxilia anonimamente. No primeiro texto lemos “muitas outras”. No texto da crucificação Mateus diz “muitas mulheres”. Marcos diz “e além destas, muitas outras”. E as expressões de Lucas nos trazem a certeza de que eram muitas. Releia o texto.

Entretanto, as mulheres de nossos dias, não peregrinam mais com o Senhor pela Judéia. Peregrinam por todo Brasil, e, especialmente aqui, vemos as que têm por ambiente o vale central do Rio Doce.

Não trazem comida ou vestes para o Senhor, como suas antigas colegas faziam. Porém preocupadas com a situação que vivemos, trazem suas famílias – com os dilemas e dificuldades que sofrem – e os colocam aos pés do Senhor. Ou seja: consagram-nas ao Senhor como suas antigas companheiras faziam também.

Portanto, não é de menos importância hospedar quem tem uma tarefa tão difícil e quer cumpri-la da melhor forma possível.

Por tudo isso e pela preocupação em serem relevantes ao ponto de surpreenderem com a manutenção de uma tradição tão antiga temos a obrigação de orar por elas e com elas.

Que as sementes deste congresso frutifiquem para a glória do Senhor.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...