sábado, 31 de julho de 2010

Eleições

Defronte a uma grande extensão de mata atlântica, rodeada por morros, o sol só atingia a casinha no meio da manhã. Levantar cedo e acender o fogão à lenha era comprar briga com o frio, compensada imediatamente pela visão do alto da mata brilhando ao sol, e pela algazarra do bando de passarinhos no terreiro e nas árvores próximas.

Nem telefone nem internet. Só televisão. Porém, as melhores cenas não estavam nela: voavam de árvore em árvore, brilhavam com o reflexo do sol ou contra o fundo escuro da noite. Não sei descrever a beleza daquele céu estrelado ou a placidez da lua cheia.

Antes do sono o frio e o vento cortante conseguiam nos empurrar da varanda para dentro de casa e nos lembrar de que a vida continuava.

Numa dessas noites, vendo o jornal, me dei conta de três acontecimentos notáveis: Três eleições: a do Técnico da Seleção, a do Presidente da República e a dos Oficiais de nossa Igreja.

Pouco sei sobre a escolha do primeiro, mas tenho certeza de que é feita por alguns – talvez por um só – mediante critérios mais técnicos do que políticos. Afeta tanta gente que deveria ser eleição direta nacional. Afinal os brasileiros são mestres em futebol para ver rapidamente quais seriam os melhores candidatos. Com o futebol estão muito mais envolvidos e dele extraem muitas alegrias.

Sobre a eleição do Presidente da República, apesar de só ter votado em um aos 34 anos, sei um pouco mais. Muitos votarão em quem começaram a ouvir falar há pouco tempo, ou em alguém com menos experiência do que um técnico de um time de várzea. Muitos votarão contrariados ou até mesmo obrigados e o critério de outros não será a competência – como fariam se fossem escolher um técnico para a seleção – mas a melhor apresentação.

Na Igreja a escolha são bem diferentes. A competência é desejável, mas não é imprescindível. Os dotes políticos em vez de ajudar, prejudicam. Deve ser eleito aquele que melhor satisfaça as exigências da Palavra de Deus, e quase todas, com exceção de uma ou duas, dizem respeito a vida familiar. Ou seja, os oficiais da Igreja de Deus devem ser antes de tudo bons pais de família, bons maridos, bons filhos, bons irmãos e ter boa instrução na Sã Doutrina.

Deus permitiu que seu povo escolhesse seus pastores. Mas devem fazê-lo conforme os critérios dele. Fazendo assim cada um saberá o que é mais importante para Deus, atestará o que é a verdadeira fé e testificará que Deus é o senhor daquela igreja.

Já estou com saudades dos passarinhos, das manhãs frias e das noites estreladas, mas tenho certeza de que a oportunidade de escolher um diácono para a Igreja do Senhor é mais importante do que aquele deleite, como também é mais importante do que escolher os dois maiores mandatários de nosso país.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Tempo e o modo

Não há inundação sem a primeira gota de chuva. Não há tempestade sem a primeira brisa. Não há discórdia sem a primeira palavra mal dita ou mal entendida. Grandes discussões podem acabar em abraços e pequenos desentendimentos podem acabar em grandes tragédias.

Nenhum de nós, sabendo a que ponto chegaria, jamais teria contado uma determinada piada, falado uma determinada palavra ou feito o gesto que provocou toda aquela dor.

O sábio Salomão chama isso de o “grande mal que pesa sobre o homem” (Ec 8.6): desconhecer o resultado de seus atos.

Ele ensina que, como nenhum de nós conhece o que há de suceder, devemos - no único tempo sobre o qual temos algum controle, que é o momento presente - guardar a Lei de Deus. Ela nos foi dada para nos ensinar a decisão certa, a atitude correta, a palavra adequada e o tempo oportuno. Ou seja: A Lei de Deus nos ensina como viver cada instante de modo que o resultado de cada um desses instantes vividos esteja sempre de conformidade com a vontade de Deus e as conseqüências dos mesmos sejam sempre aquelas que agradem a Deus.

Nesse mesmo texto Salomão nos diz que para todas as coisas há um tempo e um modo, e que o sábio os conhece.

De fato: Às vezes vivemos o tempo certo de se fazer algo, mas não podemos fazê-lo do modo certo. Às vezes podemos fazer do modo certo, mas não estamos no tempo adequado.

Tempo e modo. Estes dois fatores precisam estar em harmonia para que tudo o que fizermos seja bem sucedido. E quem os harmoniza é a Lei de Deus.

Nosso Senhor morreu no tempo certo: Na “plenitude do tempo” como nos disse o apóstolo Paulo (Gl 4.4). Nosso Senhor morreu do modo certo: condenado injustamente, debaixo da pena que era nossa, de modo que Deus, nosso bendito Pai, lhe imputasse todos os nossos pecados.

Estou acostumado a ver quem age do modo correto estragar uma boa iniciativa por desconsiderar o tempo certo de fazer o que queria. Igualmente, já vi quem aguardou o tempo certo, mas todo atabalhoado, desprezou o modo certo e obteve os piores resultados daquilo que fez com tão boa intenção.

Minha alegria é ver alguém sábio o suficiente, que, enquanto espera o tempo certo, se prepara para executar aquilo que seu coração lhe mostra e Deus lhe permite.

Com paciência ele perscruta. Sonda. Ausculta. E realiza o que foi posto sob sua responsabilidade. E assim glorifica a Deus como bom mordomo do tempo e bom executor de seu querer.

Tudo varia. O tempo e o modo também. Mas a Palavra de Deus permanece verdadeira.

sábado, 10 de julho de 2010

O Nome

De modo geral, nos identificamos pelo nome completo, que é composto do nome próprio, sobrenome materno e paterno. A ordem, a obrigatoriedade ou o número de sobrenomes varia. Por exemplo: Os espanhóis usam primeiro o sobrenome paterno e o sobrenome materno por último. Os americanos e ingleses se contentam com o sobrenome paterno. Os húngaros, japoneses e chineses usam o sobrenome antes do nome.

Nos tempos bíblicos a identificação compunha-se geralmente de um nome próprio seguido do nome do pai, e de algum ancestral notável. Nosso Senhor é chamado por Mateus de “Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1.1).

Algumas vezes o nome próprio é seguido por um atributo pessoal: Jesus Cristo (Cristo significa o escolhido), Saulo de Tarso (Nascido em Tarso), José Barnabé (hábil em incentivar), Simão Curtidor (trabalhava com couros).

Nos primeiros anos da Igreja, com tantos, de tantas nacionalidades e culturas aderindo ao cristianismo, encontramos os mais diversos nomes. Mas é nessa época, em Antioquia, que os seguidores de Jesus passaram a ser chamados Cristãos. Talvez um modo pejorativo de designá-los, como, décadas atrás, nos chamavam de “os bíblias”.

Esse tipo de designação é mais precioso do que um sobrenome de família, de local ou de profissão. E embora designe o grupo mais do que o indivíduo, revela o que é mais notável.

Por protestarem contra várias decisões da Igreja de Roma as Igrejas que nasceram da Reforma Religiosa do Século 16, receberam o nome de Protestantes. Entretanto, ao chegarem ao Brasil preferiram se apresentar como Evangélicas. Modernamente algumas que tem muito pouco, ou nada, dessa raiz, adotaram essa mesma designação: em inglês! Gospel.

Preferimos o nome Presbiteriano, por indicar nossa forma de governo, entretanto sempre mantivemos a identificação evangélica.

Hoje, presbiterianos como eu têm uma dificuldade muito grande em se identificar. Somos Protestantes? Contra o que protestamos, se não temos qualquer vínculo com a Igreja de Roma? Somos Evangélicos? Está cada vez mais difícil agüentar as besteira que esse nome evoca. ‘Góspeis’? Deus nos livre! Além das besteiras, evoca o pernicioso comércio da fé.

Nossa sina é pertencer ao crucificado. Nele fomos predestinados e crucificados para o mundo. Portanto não há como fugir: somos cristãos. Para o bem ou para o mal somos cristãos.

Não concordamos com muitas coisas que outros cristãos fazem, mas somos cristãos. E como Pedro nos ensinou devemos honrar esse nome: "Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus. Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem mas se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome" (1Pe 4.14-16).

sábado, 3 de julho de 2010

A seleção brasileira, nós e Adão

Quando a bola aproximou-se da área do gol do Brasil o comentarista interrompeu de chofre a notícia que seu colega dava sobre um acontecimento nos vestiários. A torcida no campo levantou-se de uma só vez e a torcida em casa contorceu-se. De tão absorto, houve quem derramasse a bebida que já estava nos lábios.

- Sai, sai, sai...

- Tira ela daí! Tira, tira, tira!

Pelo jeito não havia nenhum ateu na frente da TV, pois o fervor com que o nome de Deus era invocado diante do perigo de um gol superava em muito o fervor das reuniões de oração de algumas igrejas modernas especialistas na arte de expulsar demônios ou fazer curas.

Quando a bola aproximou-se da área do gol do adversário, as reações eram semelhantes. Porém, em sentido diferente. E o gol era seguido por gritos e pulos de uma alegria desenfreada em que o barulho alongado das buzinas era entrecortado pelas explosões dos mais diversos tipos de bombas e fogos de artifício. Barulho desenfreado! A última coisa em que se pensava era Deus.

Já vi o Brasil vencer e perder. Lembro-me da copa de setenta (pra mim a mais bonita). Lembro-me da decepção geral na copa de setenta e oito, quando o Peru perdeu de seis a zero para a Argentina eliminando a possibilidade de o Brasil disputar o primeiro lugar.

Percebeu?

Tanto na possibilidade ou não de um gol, quanto na lembrança de copas passadas ou na descrição da presente, é perfeitamente aceitável nos referirmos à seleção brasileira apenas como Brasil. Afinal, se ganhar foi o Brasil que ganhou. Se perder, foi o Brasil que perdeu. O gol seria do Brasil ou contra o Brasil. O Brasil está lá! A representação do Brasil é, para todos os efeitos, o Brasil.

A alegria da copa de setenta, e das demais copas vencidas, foi a alegria do Brasil. A tristeza de setenta e oito e das demais copas perdidas (dizem que não houve igual a de cincoenta, quando o Uruguai ganhou do Brasil em pleno Maracanã), foi a tristeza do Brasil.

Será que isso não dá para se ter um vislumbre de como estávamos em Adão quando ele pecou? Apenas um vislumbre, pois o que aconteceu foi um pouco mais complicado.

Ao longo de sua história a Igreja tentou explicar o que aconteceu e houve quem dissesse que “nós estávamos seminalmente em Adão”, como houve quem dissesse que Adão apenas nos representava (como a seleção brasileira representa o Brasil), e há quem diga que Deus imputou o erro de Adão a toda humanidade da mesma forma que imputou os méritos de Cristo aos seus.

Embora a analogia não seja total, de uma coisa, porém tenhamos certeza: Quando a seleção perde dizemos, com propriedade, que todos nós também perdemos. Quando a seleção ganha, podemos dizer, com a mesma propriedade, que todos nós ganhamos. Não costumamos nos gloriar de que somos penta-campeões?

Pois bem: mais certos do que isso é termos morrido em Adão e ressuscitados em Cristo.

 

Nota: Este texto foi escrito na quinta feira passada. Antes da derrota da seleção.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O coral e a vuvuzela


Provavelmente de origem zulu (fazer barulho) a vuvuzela é uma espécie de trombeta. Talvez seja versão moderna dos instrumentos que os antigos tocavam para convocar reuniões (como os shofarim do Antigo Testamento). A diferença é que enquanto aqueles eram tocados sozinhos, esta é tocada em uníssono, pela multidão, fazendo um barulho tão medonho, que me faz duvidar da física de que os ruídos não se somam.
Os repórteres usam microfones de baixo ganho, colados aos lábios, e mesmo assim parece que o aparelho de televisão está com defeito com um ronco constante e atormentador. Já ouvi alguém dizer que o inferno ganhou um novo tipo de tormento.
O contraste estabelecido por elas, a que me referi no título, me ajudou a compreender a resistência de tantos jurássicos como eu a determinados tipos de música na Igreja.
As vuvuzelas são tocadas mais para alegria de quem toca do que para o deleite de quem escuta. Expressam uma alegria irresponsável e amolecada que não liga para o que se produz, nem para os efeitos produzidos no próximo. Aliás, parece que são tocadas exatamente para produzir tais efeitos danosos.
O contraste maior que posso imaginar é com a música coral. Enquanto a vuvuzela tem um só timbre e uma só expressão musical - como o bronze que soa ou como címbalo que retine - a música coral usa palavras escandidas, bem pronunciadas e enfatizadas pelo som que lhes dá suporte.
Dentre as muitas possibilidades, podem refletir o som vocálico ou consonantal, macio ou áspero, suave ou brusco das palavras faladas, e o próprio sentido delas: fica pesado e triste quando se fala de morte e dor. Clara e leve quando se fala de alegria e paz. A vuvuzela se repete.
Sempre rico de sons, como um arco-íris é rico em cores, ou um jardim de aromas, uma voz reforça, com determinada nota musical, o significado de uma palavra e outras vozes, com notas correspondentemente harmônicas, confirmam o que foi dito conforme o texto cantado. A vuvuzela não afirma nem nega. Apenas se repete.
Enobrece o discurso. Não fala do sangue precioso de Cristo e de seu sacrifício com o pouco caso do discurso evangelical moderno, nem enaltece sua vitória com o barulho de uma torcida violenta e furiosa.
Quando se canta Um só Rebanho, as diferentes vozes transmitem a impressão de estarem juntas, tamanha é a harmonia que as envolvem. Quando se canta a Bênção Aarônica, parece que sucessivas pancadas de chuva estão caindo em uma sucessão ritmada e coordenada pela frase “Que Deus...”.
A música coral é tão dirigida ao ouvinte (daí o perigo de virar espetáculo) que muitas vezes quem canta em um, embora goste de fazê-lo, não consegue apreciar a totalidade da música produzida.
Os protestantes históricos, tão acostumados a pensar que o culto a Deus além de lógico demanda empenho e trabalho, vêem com naturalidade consagrar a Deus o melhor de seu coração, de suas almas, de suas forças e também de seu entendimento. Nada mais natural, portanto do que a aversão a simploriedade carnal e amolecada das vuvuzelas em detrimento de uma música rica em conteúdo e de expressão trabalhada.

sábado, 19 de junho de 2010

A questão homossexual

Todos nós possuímos impulsos sexuais que devem ser atendidos de conformidade com o que nosso Criador estabeleceu: no casamento. A esse respeito o apóstolo Paulo nos instruiu claramente: “Caso, porém, não se dominem, que se casem; porque é melhor casar do que viver abrasado” (1Co 7.9).

O modo estabelecido pelo Criador para o atendimento dos impulsos sexuais é o casamento. O que foi estabelecido pelo próprio Criador: o heterossexual: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.24).

O Criador não deixou espaço para o casamento homossexual. Portanto, não há como atender a impulsos homossexuais de uma forma que não seja contrária a vontade do Criador.

Os impulsos tanto do heterossexual quanto do homossexual, enquanto contidos, são pecados diante de Deus apenas. E tão somente a Deus, tanto um quanto o outro, responderão. Como o próprio Jesus nos ensinou são cometidos no coração: “qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5.28).

Mesmo que o objetivo da “comunidade homossexual” seja apenas o de se casarem - e sabemos que não é, pois as paradas nos mostram que a intenção é impor à maioria heterossexual toda uma cultura - é um objetivo pecaminoso, pois vai contra o objetivo primeiro da criação, dado ainda antes do pecado: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a” (Gn 1.27). Como um casal homossexual pode ser fecundo?

Esta é a base para se entender a posição do cristianismo conservador para com a homossexualidade: A expressão dela é sempre pecaminosa!

Daí, e sobre esta raiz, cresce uma verdadeira árvore, que possui tantos ramos quantas são os pecados decorrentes da prática homossexual, que já é condenável desde sua raiz e não produz nada que não seja pecado.

Obviamente há também inúmeros pecados relacionados a heterossexualidade, porém há a provisão divina para que ela se expresse de forma sadia e santa: no casamento. A esse respeito as Escrituras nos ensinam: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros” (Hb 13.4).

Antes mesmo de ordenar a reprodução, o Criador viu o quanto a solidão era má. E, não encontrando dentre o que já fora criado nada que pudesse mitigá-la, criou alguém sob medida para tanto: “Deu nome o homem a todos os animais domésticos, às aves dos céus e a todos os animais selvagens. Para o homem, todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea. Então, o SENHOR Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o SENHOR Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada” (Gn 2.20-23).

O casamento heterossexual foi estabelecido por Deus tanto para companhia e conforto de suas criaturas, quanto para a multiplicação.

Peca contra os primeiros desígnios do Criador quem busca companhia e conforto na homossexualidade, da mesma forma que nela não há a possibilidade de reprodução.

A imagem de Deus, apesar de deteriorada pelo pecado, ainda pode ser vista naquilo que ele criou, do modo como ele criou. Afastar-se de seus planos originais é o mesmo que afastar-se cada vez mais de sua imagem.

sábado, 12 de junho de 2010

Falsidade

Quando as Escrituras Sagradas nos advertem repetidas vezes contra os falsos profetas, falsos mestres, falsos apóstolos, e pastores que a si mesmo se apascentam, deixam claro que eles sempre existiram dentro do Povo de Deus e enganam muito bem, pois os mesmos alertas do passado se repetem para o futuro.

Quem professa conscientemente a Fé Reformada está isento de ser enganado por falsos profetas ou falsos apóstolos, pois uma de suas características é crer que tanto apóstolos quanto profetas, em seu sentido mais estrito, pertencem a um determinado período da história que não se repete mais; e em seu sentido mais amplo não obrigam a qualquer tipo de obediência.

Todos eles possuem como característica básica a falsidade, afirmando ser o que não são. Pecado muito condenado. Como suavizamos a hediondez desse pecado devo destacar alguns de seus aspectos mais perniciosos.

Não há dúvida de que o primeiro aspecto a ser destacado, do qual tudo se origina, é a falta de temor a Deus.
Falar ou agir em nome de outra pessoa é algo que reprovamos até nas coisas mais simples, e quando envolve negócios exigimos um instrumento legal: a procuração. Falar em nome de Deus deveria causar temor no falante e desconfiança no ouvinte. Entretanto, parece que isso não acontece.

Um homem, muito bem casado, foi procurado por uma moça, dizendo ter recebido uma revelação de que ele deveria separar-se e casar-se com ela. Percebeu? Ela não temeu quebrar uma proibição expressa de Deus, sequer mentir em seu nome.

A segunda característica nefanda é a ganância. Tito foi alertado a esse respeito: “... existem muitos insubordinados, faladores frívolos e enganadores ... é preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância” (Tt 1.10-11). Os gananciosos estão desqualificados para a liderança da Igreja: 1Tm 3.8.

Há uma frase emblemática que traduz muito bem essa característica, sobre a qual já escrevi (1) e (2): “movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias” (2Pe 2.3).

O que mais me assusta, por ser tanto visível quanto tolerada, é a irresponsabilidade. Ainda adolescente conheci uma “profetiza” que revelou a quatorze casais que eles tinham se casado na carne e os convenceu a consertar o erro. Na primeira igreja que pastoreei conheci, vendendo molduras de retratos, um ex-empresário que, atendendo a uma revelação, entregou tudo o que possuía. Há poucos meses ouvi de uma senhora que, quando moça, foi convencida a romper o noivado e atendendo uma revelação casou-se com outro. Seu “casamento espiritual” durou cerca de doze anos e três filhos. Acabou-se em traição e hematomas.

Atendendo ao pedido de um moribundo, tive que exortar sua esposa a parar de trazer “irmãos e irmãs de oração forte”. Eles o lambuzavam de óleo e, quais pajés, entre grunhidos e gritos de “sai!”, raspavam a doença com mão em concha.

Mandar alguém parar uma quimioterapia alegando ter recebido uma revelação de sua cura é, no mínimo, irresponsabilidade. Quem faz isso não é um santo é um criminoso.

As únicas obrigações que recebemos de Deus estão na Bíblia, e, para entendermos algumas, precisamos de uma exegese consistente e sadia, amparada pela analogia da fé.

Tenho aconselhado ao rebanho sobre o qual o Senhor Jesus me constituiu pastor a se afastar de qualquer um que ousar a apresentar-se com uma revelação de Deus. Reafirmo o conselho.

Peço a Deus que nos livre desses que, imitando os profetas dos dias de Jeremias, dizem “paz, paz, quando não há paz”.

sábado, 5 de junho de 2010

Água, sangue e vinho.

Para redimir o povo de Deus do Egito, Moisés credenciou sua demanda com dez sinais: pragas sobre faraó e sobre seu povo. A primeira delas foi converter água em sangue.

Para redimir o povo de Deus de todos os seus pecados, Jesus fez muitos sinais: bênçãos sobre crentes e incrédulos. A primeira dessas bênçãos foi converter água em vinho.

Primeiro elemento criado por Deus, sobre o qual seu Espírito já pairava antes mesmo que ele chamasse a luz à existência, a água está presente física ou simbolicamente ao longo de toda história da redenção.

Através da água o povo antigo passou a pé enxuto para a liberdade e sobre ela o Senhor Jesus andou em busca dos seus.

A água brotada de uma rocha no deserto dessedentou os que vagavam a procura de uma pátria. E a água vertida da Verdadeira Rocha na cruz atestou a seus algozes que o Senhor havia morrido e a seu povo a completa redenção.

*

Após as 10 pragas, no deserto, o povo de Deus pactuou com sangue uma Aliança na qual a lei escrita os ensinava como cultuar a Deus e como viver para seu agrado. Foram ordenados a manterem-se isolados dos demais povos. Esse isolamento contribuiu para a preservação dos escritos da lei até a plenitude dos tempos.

Após os muitos sinais, em um cenáculo, o povo de Deus, representado pelos apóstolos do Senhor, celebrou nova Aliança com vinho. Aliança que foi ratificada pelo Mediador com sangue. O verdadeiro sangue do qual todos os demais foram apenas sombras e que continua a ser visto no vinho quando rememoramos a mesma aliança.

O isolamento foi então transformado em ordem de ir pelo mundo. E a capacidade de se expressarem nos idiomas dos povos aos quais falassem veio daquele que pairava sobre as águas.

A preservação dos escritos passou a ser garantida pelo isolamento de corações consagrados, e a divulgação de como adorar a Deus e viver para o seu agrado foi confirmada pela água do batismo e derramou-se como rios de águas vivas pelo verdadeiro deserto: o mundo.

*

O sangue, no qual o Criador disse residir a vida, permeia toda história da redenção a tal ponto que é difícil selecionar os eventos mais significativos em que ele está presente.

Mas destaca-se o sangue que, aspergido sobre os umbrais, protegeu o povo de Deus da última praga trazida por Moisés. Noite terrível que tipificava a escuridão mais pavorosa em que o verdadeiro Cordeiro ensangüentaria não simples umbrais, mas uma cruz hedionda ao abrigo da qual estão protegidos os primogênitos e todos os nascidos da água e do Espírito.

E, entre a água convertida em sangue por Moisés, e o sangue separado da água, vertido na cruz, o Senhor Jesus nos oferece o vinho como símbolo de uma Aliança superior em que pragas e sacrifícios - mesmo o da cruz - são realidades passadas.

Virá o dia em que o segundo e o terceiro anjo derramarão sobre o mar e sobre as fontes suas taças transformando-os novamente em sangue. Entretanto, o vinho que recebemos à Mesa do Senhor testifica-nos hoje o dia eterno em que, livre desses horrores, beberemos juntos com o Senhor um vinho novo no reino do Pai.

sábado, 29 de maio de 2010

Cartas

Você já notou que o Novo Testamento é formado basicamente de cartas? Tradicionalmente aprendemos que ele é formado por 4 Evangelhos, 1 livro histórico, 13 cartas de Paulo, 8 cartas gerais e 1 livro profético.

Porém, pense comigo: Lucas e Atos compõem uma carta dirigida a Teófilo. O Evangelho de João, apesar de não estar em forma de carta possui o caráter de uma na medida em que o próprio João declara: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.30-31). Ou seja: ele é escrito como uma carta de convencimento ao leitor.

Não há o que argumentar sobre as cartas. Mas sobre o Apocalipse minha tese aplica-se apenas às 7 cartas ou ao restante do livro? Pessoalmente creio que, à luz de seu final, é possível aplicar ao restante do livro: “Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro; e, se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das coisas que se acham escritas neste livro. Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente, venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus! A graça do Senhor Jesus seja com todos” (Ap 22.18-21).

Resumindo: Creio que o Novo Testamento é todo composto de cartas com exceção dos Evangelhos de Mateus e Marcos.

Mas, qual a importância disso? É simples e depende de outra observação: Você já notou que nenhum dos livros do Antigo Testamento tem característica de carta?

Embora grande parte dele seja de caráter doutrinário todo o seu pano de fundo é histórico. O que mais se parece com uma carta é o diálogo entre o autor e o leitor que pode ser encontrado em Provérbios e Eclesiastes.

O Antigo Testamento é a revelação feita por Deus “outrora, ... muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais...” (Hb 1.1). Através do Antigo Testamento podemos saber quais são as respostas de Deus sobre questões próprias do cotidiano. Mas, veja bem: tais respostas foram dadas em um ambiente cultural extremamente fechado. Bem diferente do ambiente cultural em que a Igreja vive.

Todo o Novo Testamento, especialmente as cartas, mostra como aplicar as respostas de Deus, dadas naquele ambiente fechado, ao ambiente aberto em que vive a Igreja.

Como aplicar o Não adulterarás diante de um mundo tão permissivo? Paulo nos responde: “Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros; refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras; pois, neste caso, teríeis de sair do mundo. Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais” (1Co 5.9-11).

O mesmo com o Não furtarás: “Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado” (Ef 4.28).

E assim, com a agilidade própria de uma carta, diante de problemas concretos, os princípios estabelecidos por Deus se renovam e são aplicados a Igreja.

O Antigo Testamento, visto através do Novo, adquire a relevância necessária e imprescindível para que se entenda a vontade de Deus. E se ele já apontava pra o Messias que havia de vir, agora seu sentido fecha-se mediante a revelação do Messias que se manifestou. Recebemos então o consolo de estar agradando a Deus em nosso viver.

sábado, 22 de maio de 2010

Poluição

Ave na baia da Guanabara no vazamento do Tarik Em dezembro de 1952 a umidade, o frio e aos altos teores de dióxido de enxofre na atmosfera causaram a morte de cerca de 12 mil pessoas em Londres. Houve dias com 900 mortos. Este acidente é considerado um marco no registro das catástrofes ambientais modernas.

Em 1984 um vazamento de gás em Bhopal, na Índia, matou 27 mil pessoas. Em fins de abril de 1896, um vazamento de radiação em Chernobil, na Ucrânia, contaminou milhares, contaminou 4 mil e matou 56 pessoas. Em setembro de 1987, em Goiânia, a capsula de um aparelho de Raios X, desmontada em ferro velho, contaminou mais de 100 pessoas, levando 4 delas à morte, e deixou uma herança maldita de 13 toneladas de lixo atômico que precisa ficar guardado por quase 200 anos.

Em 1978 o Amoco Cadiz derramou 230 mil toneladas de petróleo no litoral da França. Em 1989 o Exxon Valdez derramou uma quantidade menor na costa do Alaska, mas até hoje é considerado o pior desastre ambiental devido a circunstâncias locais. Em 1975, o Tarik Ibn Ziyad derramou 6 milhões de litros de óleo na Baía da Guanabara. A foto acima é desse desastre. E como estes, mais de 30 outros acidentes com navios petroleiros engrossarão uma pesquisa rápida.

Nas últimas 4 semanas cerca de 800 mil litros de petróleo vazaram todos os dias no Golfo do México e não há certeza de que o vazamento tenha sido estancado.

Listei alguns dos muitos casos de poluição atmosférica e marítima, mas tenho certeza de que você conhece um rio, uma lagoa ou uma represa poluída. E, se não se recorda de terra poluída, procure saber de Santo Amaro da Purificação na Bahia.

Hoje falamos não apenas de poluição do ar, da água e da terra. Expandimos o conceito para poluição sonora, visual, etc. Vou mais longe: Sem alterar os critérios creio que poderíamos estender o mesmo conceito às coisas da alma.

Na verdade a primeira poluição foi a da alma e dela derivam-se as demais. Por poluir sua própria alma o homem degradou também o jardim de Deus: o meio ambiente.

Os poluentes da alma são mais sutis e vazam com a aquiescência de algum e para o deleite de outros. Entretanto a lista de mortes causadas por eles é muito maior do que a soma de todas que se possa fazer dos desastres ambientais.

O senhor Jesus se referiu a eles como tendo origem no coração: “Mas o que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem. Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mt 15.18-19), e o apóstolo Paulo entendeu isso com clareza ímpar e o aplicou à própria igreja ao dizer “as más conversações corrompem os bons costumes” (1Co 15.33).

Somos poluidores por natureza. Mesmo redimidos poluímos tanto o meio físico quanto o espiritual. E, a exemplo da lista de desastres ambientais com que abri este artigo, há como fazer muitas outras de desastres em que muitas almas foram vitimadas. O Senhor já advertia: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt 23.15).

Missionários ou poluidores? Disseminadores do verdadeiro Evangelho ou das piores desgraças que habitam os recônditos de uma alma poluída? Acaso você não tem visto defensores de adultérios ou prostituição disfarçados de pastores? Nunca percebeu tal “teologia da prosperidade” quando não é uma apologia do furto é uma disseminação de blasfêmias? No mínimo você há de concordar que há uma multidão de pregadores de “maus desígnios”.

Não é sem razão que “toda criação geme e suporta angústias até agora” e que nós “igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a redenção de nosso corpo” na esperança do fim deste cativeiro, do qual a poluição é apenas um aspecto.

sábado, 15 de maio de 2010

Coisas importantes

Nova Imagem (5)

Pronto: a Pátria está de chuteiras! Os jogadores que disputarão a copa do mundo já estão escolhidos e, salvo algum percalço, não haverá mudança. Os noticiários já se voltaram de tal forma para o assunto que hoje se falava sobre a nova dança que alguns estão ensaiando para comemorar os gols.

Acabei de saber - sem procurar - a biografia de diversos jogadores que eu não conhecia de nome nem de apelido. Agora conheço detalhes da chuteira de um, da infância sofrida de outro e até da potência do chute de fulano e da “alegria” com que sicrano joga (também, com tantos milhões de reais por jogo, qualquer um joga alegre).

Por muitas razões, que não vem ao caso, e cuja explicação é muito longa, não gosto de futebol. Até assisto. Mas os momentos de real interesse em um jogo são tão poucos que, além das tais razões, fico impaciente e procuro algo mais emocionante como ler um dicionário.

Voltando a falar sério... Não condeno quem gosta. Até admiro quem consegue se envolver tanto com algo tão fugaz. O que me deixa irritado é a desproporção entre a importância real e a atenção recebida. Explico:

Hoje, pela manhã - quinta-feira - eu estava preparando outro texto, cujo assunto tem tomado minha atenção desde a noite de domingo passado, e para concluí-lo resolvi examinar como estava o vazamento de petróleo no Golfo do México. Nenhum dos principais jornais de circulação nacional trazia o assunto em destaque, mas a seleção estava destacada em todos.

Até a copa, muitos assuntos importantes serão preteridos. Assuntos importantes como a Lei da Ficha Limpa ou a tal “Lei Heterofóbica” receberão cada vez menos destaque e correm o risco de passar despercebidos.

Aliás, você viu a declaração de que aborto não é questão de foro íntimo, mas de saúde pública? Só faltou dizer - na verdade disse - que o aborto deve ser obrigatório para o bem da sociedade. Mas os critérios do técnico de nossa seleção foram tão amplamente divulgados que poucos sabem quem disse esse absurdo.

E assim, distraídos, não me admiraria se a CPMF voltasse.

E assim, envolvidos, não me admiraria se alguém propusesse mudar os horários dos cultos de nossa Igreja, que cometessem a afronta de chocarem-se com o horário de algum jogo.

E assim, cativados, cada vez mais seremos campeões de um título efêmero e perdedores de coisas que são realmente importantes.

Torcerei para que o Brasil ganhe a copa, mesmo achando que se ele for hexa-campeão pode desestimular os que não ganharam sequer uma vez. Porém, a tristeza de ver nosso país esquecido de tudo, dedicando sua preciosa atenção e energia ao que não lhe traz qualquer crescimento econômico, cultural, muito menos espiritual, amarga minha alma.

sábado, 8 de maio de 2010

Joana

Lucas é o único evangelista que fala de Joana. Talvez ela tenha sido uma das testemunhas oculares que o ajudaram na acurada investigação feita por ele antes de escrever seu evangelho.

Lucas a menciona duas vezes. Logo no início do capítulo 8, de seu evangelho, e no capítulo 24.

A primeira menção é feita ao relacionar diversas mulheres que seguiam Jesus e lhe prestavam assistência com seus bens. Daqui ficamos sabendo que Joana havia sido curada por Jesus e que seu marido, Cuza, era procurador de Herodes.

A segunda menção nos informa que Joana era uma das mulheres que foram, domingo pela manhã, ao sepulcro do Senhor, embalsamá-lo, e encontraram-se com os anjos que anunciaram sua ressurreição.

Ser um procurador na corte de Herodes, ainda que fosse apenas um intendente ou mordomo (o texto permite tais traduções), não era algo de menor importância e certamente recaía sobre a esposa de Cuza os deveres naturais que o cargo de seu marido lhe impunha. Entretanto, ela seguia a Jesus e o auxiliava com seus bens.

Não perca de vista que, no caso dela, seguir a Jesus era algo muito diferente do significado que damos hoje a essa expressão. Ela o seguia literalmente.

Sabemos que o Senhor fez diversas viagens pela terra prometida e até mesmo pelos países vizinhos. Não sabemos se Joana participou de todas, mas certamente, participou de viagens em que o pernoite era feito sob as estrelas e as refeições em acampamentos improvisados.

Quando o texto diz que elas o ajudavam com seus bens, podemos entender que, pelo menos os alimentos, eram providenciados por essas mulheres que os compravam, traziam e preparavam.

Tudo indica que ela seguia o Senhor por pura gratidão. E o fato de assisti-lo com seus bens, atesta que Cuza, seu marido, concordava com o que ela fazia.

Não sabemos se ela tinha filhos. Mas, sem dúvida, se não os tinha de si, ganhou muitos e ganha até hoje: filhos de seu exemplo. Exemplo que ainda é imitado por tantas senhoras que muitas vezes sacrificam sua vida pessoal e servem ao Senhor em meio a grandes dificuldades.

Joana é uma mulher que deve ser contada com as heroínas da fé.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Memórias do passado e do futuro

Eis como esquadrinhei minha memória em tua procura, Senhor: não me foi possível encontrar-te fora dela.
Nada encontrei de ti que não fosse lembrança, e nunca me esqueci de ti desde que te conheci.
Onde encontrei a verdade, aí encontrei a meu Deus, que é a própria verdade;
e desde que aprendi a conhecer a verdade, nunca mais a esqueci.
Por isso, desde que te conheço, permaneces em minha memória.
É lá que te encontro quando me lembro de ti e quando sou feliz em ti.

Estas são as santas delicias que me deste em tua misericórdia, olhando para minha pobreza.
(Santo Agostinho)

Dentre as muitas lembranças que minha memória guarda as mais antigas são cheiros, sons e sabores. Acho que a mais antiga de todas é o cheiro de minha mãe. Era o último perfume do dia e o primeiro da manhã (as mães de outrora se perfumavam docemente com pó de arroz). Como cheirava bem! O perfume de minha mãe me inspirava segurança e anunciava sua presença protetora. Nunca o esquecerei.

Nunca me esquecerei também do sabor e do cheiro das mangas maduras, dos melões (parece que os melões de então eram mais cheirosos), das tangerinas ou do café com cuscuz pela manhã.

E o canto dos sabiás, das rolinhas e dos guriatãs? A algazarra dos bem-te-vis e das maritacas? As cantigas de roda (o cravo brigou com a rosa...) e os saraus na varanda? Há como esquecer? A beleza coloria os ouvidos e pacificava a alma.

Lembro-me da claridade das manhãs ensolaradas e da escuridão das noites estreladas. Do lusco-fusco do fogão de lenha na cozinha, fatiando a penumbra dos dias chuvosos, repleta de aromas do almoço, aguardado ao gosto de biscoitos de polvilho.

Essas e muitas outras lembranças, que me transportam ao passado (um passado de alegrias e de segurança), residem em minha memória. Foram colocadas lá pela experiência e atingiram o local mais nobre de minha personalidade, pois parte do que sou hoje é o resultado delas.

Porém, como Santo Agostinho, tenho certeza de que é em minha memória que residem também as coisas da fé. É lá, mas é lá que as encontro.

Lá estão impressões criadas pela certeza do que não vi, mas que, com forte convicção, aguardo. Aguardo e desejo. Não é como a memória do passado, que nasceu das experiências da infância. Nasce do porvir. Nasce de uma espécie de futuro realizado, de tão palpáveis que são.

Na memória do passado a maioria das imagens é de meus pais e de outros queridos. Na memória do futuro - daquele futuro realizado - há também sons, cheiros, e gostos, e muitas imagens. Imagens amplas, claras, espaçosas e iluminadas como pastos verdejantes. Vivas, brilhantes, solenes e calmas como águas tranqüilas.
Sons claros, límpidos, amplos, majestosos como o som de muitas águas, ao mesmo tempo íntimos como um cicio suave. Plenos, qual som de um órgão de tubos. Bem definidos como o som de uma flauta.

Os cheiros são aromas suaves e vão do doce ao acre. Matizados como um arco-íris ou como os sabores de uma salada de frutas. Surpreendentes como o sabor de um pedaço de mamão bem maduro sobre o arroz com feijão fumegante.

Nas memórias do futuro - daquele futuro realizado - encontro meu pai, minha mãe e muitos outros queridos. E, como se fosse um dia ensolarado, depois de uma chuva de verão, em que o ar lavado e mais fino faz com que tudo pareça mais claro, a fé torna tais imagens cada vez mais vívidas, enquanto as impressões do passado se esmaecem qual fotografia.

Essas e muitas outras lembranças, que me transportam ao futuro - pleno de esperanças e alegrias - também residem em minha memória. Foram colocadas lá pelas Sagradas Escrituras e são vivificadas pelo Espírito Santo. Completam o que sou e apontam para o que serei. Não deixam saudades. Ao contrário: aumentam as esperanças e me transportam ao futuro. A um futuro de alegrias e de segurança.

sábado, 24 de abril de 2010

Palavras irresponsáveis e falsidade

Há um ou dois anos, ouvindo uma palestra sobre a vida no lar, tive meu primeiro contato com um novo sentido em que a palavra “profecia” está sendo usado. A palestrante disse: "Na minha casa acontece esse tipo de problema também. E eu resolvo com oração. Mas tem dias em que parece que tudo dá errado. Então, nesses dias, eu “rodo a baiana” e profetizo: Em nome de Jesus, sai prá lá espírito de confusão"!

Poucos dias atrás recebi um pequeno filme de uma “cantora gospel” de renome, em que ela dizia já ter ido a Barretos levando o Apóstolo Fulano, e, segurando na ferradura, profetizou que Jesus é o dono daquela arena.

Quando ouvi a primeira declaração, perguntei a amigos e eles me disseram que era apenas um modo de falar. Entretanto, depois dessa outra concluí que este modo de falar está enraizado em uma visão de mundo completamente diferente do que as Escrituras nos mostram.

O que as duas frases possuem em comum é a palavra profecia. Na primeira frase o que é chamado de profecia é uma espécie de esconjuração. A frase equivale a “sai daqui coisa ruim”. A única diferença é que quem a proferiu usou o nome do Senhor Jesus para tornar essa esconjuração mais aceitável aos ouvidos evangélicos. Tanto é que cometeu um lapsus linguæ: “rodo a baiana”.

Na segunda frase a tal “cantora gospel” assumiu um papel, muito semelhante aos profetas da velha aliança, inclusive o “pegar na ferradura”, pois muitos deles intensificaram suas palavras proféticas com exemplos, gestos e objetos.

As duas frases, além de banalizar um termo tão sublime como profecia, pecam por falsidade.

São profecias falsas sim. Na primeira frase a expressão “nesses dias” deixa claro que ela foi “profetizada” repetidas vezes. Neste caso específico, embora a palestrante seja academicamente qualificada para não fazê-lo, provavelmente estejamos diante de um mau uso do termo “profetizar”. Pois, por definição bíblica, a verdadeira profecia se cumpre. Se isso não acontecesse o profeta deveria ser morto. Veja Deuteronômio 18.19-22.

Na segunda declaração a cantora já profetizou que o dono daquela arena é Jesus. De fato: Jesus é o dono daquela arena, como é dono de todas as coisas. Ou seja, ela profetizou que acontecerá algo que já aconteceu.

Se alguém disser que ela se expressou mal, e quis dizer apenas que a arena está sob o domínio do usurpador, a torna culpada de pecado maior (como se pudesse haver pecado maior), pois afirmou ter profetizado juntamente com um apóstolo.

Os verdadeiros Apóstolos tinham autoridade delegada diretamente de Deus para fazer coisas materiais com conseqüências eternas. Lembre-se de: “O que ligares na terra será ligado no céu” (Mt 18.18). Também de: “...Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para serem castigados, a fim de não mais blasfemarem” (1Tm 1.20).

Não se esqueça de que os apóstolos possuíam tal poder: “Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!” (At 3.6).

Um Apóstolo estava no primeiro grau de autoridade (1Co 12.28). O que um Apóstolo falava acontecia. Entretanto, que eu saiba, até hoje não houve qualquer modificação na festa de Barretos. Concluo então que além da falsa profetisa apareceu também um falso apóstolo.

Somos constantemente alertados pelas Escrituras contra os falsos apóstolos e profetas, mas parece que eles estão proliferando. Talvez até tenhamos culpa, pois banalizamos o significado das palavras. Especialmente o significado do que é um profeta ou um apóstolo. Usamos com irresponsabilidade essas palavras, seus significados e suas funções. As conseqüências disso não são boas: Um dos verdadeiros profetas, nos advertindo contra a irresponsabilidade, disse: “... semeiam ventos e colherão tempestades” (Os 8.7).

sábado, 17 de abril de 2010

Vida

Embora não saibamos exatamente como definir o que é vida todos nós sabemos a que estamos nos referindo quando usamos esta palavra. Discordo, entretanto de quem diz que viver é a capacidade de existir autonomamente, pois as pedras existem e não estão vivas, e nós, que estamos vivos, dependemos do ar, do sol, dos alimentos. Ou seja: dependemos de tantas outras coisas, que podemos ser tudo, menos autônomos.

Aliás, essa é uma característica da vida: Mais do que dependente, ela é, por assim dizer, extremamente egocêntrica. Qual máquina, ela consome seus combustíveis a qualquer preço: cegamente. Não se pode convencer um ente vivo a gastar menos oxigênio, e o limite mínimo de suas necessidades calóricas é bem definido.

Fazemos parte de uma “cadeia alimentar”. Nos alimentamos e servimos de alimento. Comemos vegetais ou animais, e através deles recebemos os minerais que não podemos comer in natura e alimentaremos a muitos após nossa morte.

Fazemos parte de um tecido social mais ou menos semelhante. Jamais podemos afirmar que não dependemos de ninguém, ou que ninguém depende de nós. Dependemos do seio de nossas mães, da casa de nossos pais e do amparo de nossos filhos. Do seio recebemos o alimento e o conforto. Da casa, o conforto e a orientação para o futuro. Dos filhos a honra e o consolo de uma vida completa. Mas não se esqueça: os papéis se invertem. Começamos a vida como filhos e a terminamos como pais.

Ao adquirir nossa natureza o Senhor Jesus sujeitou-se a essa “roda”. Como qualquer um de nós dependeu de sua mãe e de seu pai e apesar de sua inteligência precoce, atestada pelos doutores de Jerusalém, aprendeu com seus irmãos e amigos também. O escritor da Carta aos Hebreus nos diz que ele aprendeu aquilo que nunca teve de fazer: obedecer. Não teve filhos biológicos, mas deu sua vida pelos filhos espirituais, rompendo assim o círculo em que, no fim da vida, os pais passam a depender dos filhos.

O mais precioso é saber que ele mantém nossa natureza e que nunca se apartará dela. Entretanto ele a corrigiu. Ela voltou a ser o que deveria ter sido se nossos pais não pecassem. A marca do “egocentrismo” de que falei - da vida comportar-se como máquina que devora seu combustível - para ele já é coisa do passado, pois o princípio vital não é mais “carne ou sangue”, mas o poder de Deus.

Os filhos de Jesus, aqueles com os quais ele comparece diante do Pai (Hb 1.13), “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.13).

E serão cumpridas as palavras do Profeta Zacarias:

“Se alguém lhe disser: Que feridas são essas nas tuas mãos? responderá ele: São as feridas com que fui ferido na casa dos meus amigos.

Desperta, ó espada, contra o meu pastor e contra o homem que é o meu companheiro, diz o SENHOR dos Exércitos; fere o pastor, e as ovelhas ficarão dispersas; mas volverei a mão para os pequeninos. Em toda a terra, diz o SENHOR, dois terços dela serão eliminados e perecerão; mas a terceira parte restará nela. Farei passar a terceira parte pelo fogo, e a purificarei como se purifica a prata, e a provarei como se prova o ouro; ela invocará o meu nome, e eu a ouvirei; direi: é meu povo, e ela dirá: O SENHOR é meu Deus (Zc 13.6-9).

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A cruz de Jesus e a nossa

Embora não saibamos ao certo se a cruz que o Senhor Jesus carregou já estava montada ou era apenas a trave horizontal, temos certeza de que era pesada.

Jesus era carpinteiro e, apesar de usar boa parte das ferramentas de um carpinteiro de hoje, não contava com as mesmas facilidades. Se muito, encontrava um madeireiro. Porém, é mais provável que tivesse de derrubar e trazer a árvore.

Embora até pudesse confeccionar móveis o carpinteiro de então trabalhava mais com a construção de casas. Era quem escolhia as vigas de sustentação da cobertura, que geralmente era feita de barro sobre uma estrutura muito parecida com a que hoje usamos para o estuque. Assentava as vergas e os umbrais das portas e das janelas.

A palavra carpinteiro aparece no Evangelho de Mateus, referindo-se a profissão de seu pai José e no Evangelho de Marcos referindo-se a sua própria profissão. Em ambos traduz a palavra grega tekton, de onde vem nossa palavra arquiteto. Ou seja: Construtor. E isso se coaduna bem com sua declaração “vou preparar-vos lugar”.

O Verbo de Deus, sem cuja participação nada foi feito, ao tomar nossa natureza, toma também a profissão de construtor. E, voltando à casa do Pai, deixa-nos sua promessa de continuar construindo. Agora, a nossa casa.

Não devemos imaginar-lhe com o porte quase feminino retratado na maioria dos filmes. Ele era tão musculoso quanto os trabalhadores braçais de então. Isaías falando dele disse que ele era: “homem de dores e que sabe o que é padecer”.

Homem forte e acostumado a esforços, entretanto não conseguiu carregar a cruz que lhe foi posta aos ombros. Pelo menos não conseguia carregá-la com a velocidade que os soldados romanos impunham e foi ajudado por Simão Cireneu. Por que?

Desde a noite anterior ele estava sofrendo de muitas maneiras. Primeiro a falta de amigos que não conseguiam permanecer acordados. Depois as traições: o beijo de Judas, a negação de Pedro e a sublevação daqueles que deveriam zelar pela religião: seus levitas, armados de varas e porretes, o prenderam e espancaram. Seus sacerdotes e os demais membros do Sinédrio montaram um julgamento fraudado. Condenaram-no e o entregaram nas mãos de ímpios.

E o que dizer da tortura e das zombarias?

Mesmo que fosse apenas a parte horizontal da cruz, era pesada. Tão pesada que ele, acostumado a trabalhar com vigas, vergas, traves e aduelas, precisou da ajuda de Simão.

Não podemos esquecer também que junto com aquele pedaço de madeira, que pesava sobre as costas do Senhor, pesava também os nossos pecados. E este peso Simão, mesmo que fosse muito forte, não conseguiria agüentar. Simão levou a parte leve da cruz.

Apesar de não ser como a que Simão ajudou a carregar nem ter o mesmo propósito da que somente Jesus carregou, cada um de nós recebeu também uma cruz. Elas não salvarão ninguém, nem a nós mesmos. Mas nos manterão crucificados para o mundo e vivos para Deus.

Elas atestam quem é o nosso Senhor: “os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” (Gálatas 5.24).

sábado, 27 de março de 2010

A estrada de Jerusalém a Jericó

Na estrada sinuosa e íngreme, que liga Jerusalém a Jericó, diversas pessoas devem ter sido assaltadas com prejuízo até de suas próprias vidas. A parábola do Bom Samaritano foi entendida de pronto, indicando que sua periculosidade era conhecida.

Era uma estrada muito inclinada: descia mil metros em vinte e quatro quilômetros.

Jericó é, até hoje, o local habitado de mais baixa altitude do planeta: cerca de duzentos e cinqüenta metros abaixo do nível do Mediterrâneo. Situa-se em uma planície ao lado do Jordão, próximo ao Mar Morto, e seu clima é razoavelmente quente. Herodes possuía um palácio lá para fugir do frio de Jerusalém, que fica na região montanhosa a uns oitocentos metros acima do nível do Mediterrâneo.

Dois mundos diferentes ligados por essa estrada. Jerusalém estabelecida para adoração do Senhor desde os tempos de Melquisedeque e Jericó fundada como altar de adoração a lua.

Essa foi a estrada que Jesus usou para chegar a Jerusalém onde seria crucificado. Parou em seu trecho final. Em Betânia. E ali hospedou-se na casa de seus amigos, Lázaro, Maria e Marta.

Não se sabe ao certo quantos dias ele ficou lá, mas quando saiu, tomou a direção de Jerusalém. Pouco mais a frente, na altura de Betfagé, deu instruções a seus discípulos sobre o jumentinho que emprestariam.

No trecho final, pouco depois das plantações de figos, ainda na região de Betfagé, foi que as multidões de peregrinos, que também subiam a Jerusalém para celebrar a páscoa, o encontraram e o aclamaram. Segundo João, alguns o tinham visto ressuscitar a Lázaro e ainda estavam maravilhados.

Quando a estrada termina sua ascensão em uma passagem por uma das montanhas que cercam Jerusalém, perto do Monte das Oliveiras, Jesus viu mais do que a cidade em si. Viu seu futuro. E pela segunda e última vez é dito que ele chorou: “Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou e dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos. Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco; e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação” (Lc 19.41-44).

Chorou antes por seu amigo Lázaro e agora chora por Jerusalém.

No ano setenta, a mesma estrada, como as demais estradas que chegam a Jerusalém por todos os lados, ficaram cheias. Não de viajantes, mas de soldados romanos. Jerusalém foi sitiada e arrasada a ponto de não ficar pedra sobre pedra, pois não havia reconhecido seu tempo oportuno.

Mas afinal, como se reconhecer o “tempo oportuno”? Há séculos todos os Judeus cantavam o que hoje chamamos de Salmo 95 exortando-se mutuamente: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o coração”. O tempo oportuno é hoje!

Atendamos nós também a exortação.

sábado, 13 de março de 2010

O cavalo de Saulo

Desde seminarista observo um fenômeno que, por falta de um nome melhor, chamo de “O cavalo de Saulo”.

Conhecemos o relato da conversão de Saulo. Como ele encontrou Jesus no caminho de Damasco. Apesar de ser uma narrativa simples a maioria vê nela um cavalo. Provavelmente Paulo estivesse montado, porém o texto não diz.

O mesmo ocorre com o beijo de Judas. Garanto que em todos os filme, peças, ou apresentações de classe de crianças que você já viu, Judas, ao trair Jesus, beija seu rosto. Entretanto é mais provável que, como discípulo, ele tenha beijado a mão. Veja os Evangelhos. Nenhum diz que ele beijou o rosto.

Esse fenômeno está presente também - com pequenas variações - em outros textos. Veja o caso da fé que move montanhas.

Marcos nos informa que Pedro admirou-se da figueira ter secado e Jesus disse: “Tende fé em Deus; porque em verdade vos afirmo que, se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele” (Mc 11.22-23).

Pois bem. O que é que faz alguém entender que esta promessa (de mover montanhas pela fé) foi dada a todas as pessoas de todas as épocas? Acaso o texto não é claro? Jesus está falando com quem? Não é com seus discípulos? Com que direito posso me apropriar hoje de uma promessa feita a outros, há dois mil anos, em uma circunstância completamente diferente?

E assim, muitos textos podem ser mal interpretados. Fui pastor de uma senhora que ficou zangada comigo ao ponto de sair da Igreja por eu ter dito que o Salmo 91.7 (Caiam mil ao teu lado, e dez mil, à tua direita; tu não serás atingido) era uma promessa feita a Jesus. Ela cria que o versículo lhe dava um “salvo conduto” contra balas perdidas.

Porém, o texto em que este fenômeno tem se mostrado mais danoso é o capítulo dezesseis do Evangelho de Marcos: a promessa de acompanhamento de sinais aos que cressem.

Uma leitura dos versículos 17 e 18 isoladamente, dá a impressão de que foi prometido a todos os crentes a capacidade de, em nome de Jesus, expelir demônios, falar novas línguas, pegar em serpentes, imunidade a venenos e poder para curar doentes com a imposição das mãos.

Os três primeiros versículos narram como Maria Madalena avisou aos discípulos da ressurreição de Jesus e como eles não creram. Os dois versículos seguintes contam como os que iam para Emaús avisaram também que Jesus lhes aparecera ressuscitado e novamente eles não creram.

Finalmente os versículos 14 a 18, narram como Jesus apareceu-lhes pessoalmente. Censurou-lhes por não terem acreditado em Madalena e nos outros, e mandou-lhes ir pelo mundo afora pregando o Evangelho a toda criatura. E garantiu que, aqueles que cressem, seriam credenciados pelos os sinais acima.

Minha pergunta: Como foi que uma promessa dada a um grupo de onze pessoas acabou sendo apropriada pela maioria dos cristãos de hoje? Não sei. Talvez do mesmo modo que a promessa de mover montanhas - dada ao mesmo grupo - tornou-se propriedade de quase todos os cristãos.

Realmente não sei. Mas desconfio que foi por um motivo semelhante ao que levou todos a verem Judas beijar o rosto de Jesus ou Saulo cair de um cavalo.

sábado, 6 de março de 2010

Duas festas

Dentre as muitas ceias dadas a Jesus, duas se destacam: em ambas ele foi ungido. A primeira, na casa do fariseu Simão, quando ele voltava para a Galiléia e a segunda, na casa de Lázaro, após ressuscitá-lo.

O fariseu Simão negou acintosamente a Jesus as cortesias normais da hospitalidade. Queria dar exemplo para todos o imitarem. Os irmãos Maria, Marta e Lázaro queriam apenas agradecer o milagre.

Era de se esperar que Simão recebesse a Jesus à porta de sua casa com um beijo, providenciasse água e toalha para ele se refrescar do calor e oferecesse azeite, que, emoliente, faria bem ao rosto ressecado e aos pés doloridos da caminhada. Mas acintosamente Simão negou essas simples cortesias.

Era de se esperar que os três irmãos recebessem a Jesus com a intimidade usual: que Lázaro conversasse com ele, Maria ficasse, como sempre, atenta ao seu lado, e Marta, prestimosa, se desdobrasse em preparar o que tinham de melhor. Todos fizeram assim. Fizeram com amor não por simples cortesia.

Na casa de Simão uma mulher, anônima, vendo o acinte, não se conteve. Supriu, em muito, tudo o que foi negado. Simão poderia beijar-lhe o rosto, ela beijou-lhe os pés. Simão deveria fornecer água, ela lavou-lhe os pés com suas lágrimas (a mais nobre das águas, que brota das mais profundas emoções). Simão deveria fornecer uma simples toalha, ela enxugou-lhe os pés com seus próprios cabelos. Simão deveria oferecer azeite, mas ela ofereceu o conteúdo precioso do frasquinho que mulheres como ela traziam ao pescoço para refrescar o hálito.

Na casa de Lázaro, Maria, que gostava de quedar-se aos pés de Jesus ouvindo suas palavras, trouxe cerca de trezentos gramas de bálsamo de nardo puro e o derramou nos pés do Senhor, perfumando toda a casa.

Quando o fariseu Simão viu o gesto da mulher, embora ela só tivesse tocado os pés de Jesus, pensou consigo mesmo: - Profeta ele não é. Se fosse saberia que esta mulher é uma prostituta. E na outra ceia, quando Judas viu tanto perfume precioso derramado sobre os pés do Senhor, perguntou: “por que não se usou o dinheiro deste perfume para ajudar os pobres?”

Jesus então saiu em defesa das duas. Mostrou a Simão que ela fez muito mais do que ele deveria ter feito, e isso atestava mais consciência do quanto foi perdoada, ao passo que ele, Simão, sequer se julgava devedor. Também mostrou a Judas que Maria se antecipou para seu sepultamento, pois sempre haverá a quem ajudar, mas nem sempre ele estaria ali.

Aquela que colocou sua vida aos pés do Senhor então ouviu dele: “Vai-te em paz. A tua fé te salvou”. E Maria recebeu de Jesus a garantia de que onde fosse pregado o Evangelho, o que ela fez seria lembrado para sua memória.

Não sabemos o que foi servido nas ceias, pois o que importava era registrar quem era Jesus, e quem era o verdadeiro adorador e o falso.

Dois jantares. Dois propósitos. Duas unções. Dois censores: Um em nome da religião outro em nome dos pobres. Duas mulheres muito diferentes, mas com o mesmo sentimento de gratidão e devoção. Uma só atitude do Senhor Jesus.

Hoje o Senhor Jesus não pode estar fisicamente em sua casa nos momentos de festa, mas sua presença deve orientar a alegria. Não se envergonhe dele. Unja seus pés com o que você tiver de melhor.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

À mesa com Jesus







Você já reparou a quantas festas, banquetes, jantares ou ceias os Evangelhos narram que nosso Senhor compareceu? Logo de começo há a festa do casamento em Caná, onde, da água, fez o melhor vinho.
Que alegria deve ter permeado a casa de Lázaro enquanto o Senhor ceava. Pelo menos duas vezes: uma quando Marta atribulada com as comidas reclamava de Maria quedada aos pés do Senhor e outra quando Maria o ungiu.
Que clima pesado deve ter se abatido sobre todos quando o fariseu Simão, depois de convidar Jesus pra jantar, o recebeu com desdém. Será que alguém conseguiu comer algo?
Mas, acaso podemos nos esquecer do banquete dado pelo publicano Levi, que, de tão alegre, encheu sua mesa de antigos colegas de profissão? E o que dizer da recepção na casa de Zaqueu, o chefe dos publicanos? E assim, quantas vezes o Senhor está em companhia de publicanos e pecadores – seus doentes que precisavam de médico – e quantas vezes ele foi censurado por isso? Ele mesmo estava cônscio de que o tinham por “glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores”.
Muitas vezes ensinou usando alimentos como exemplos. Com eles explicou que a impureza não está naquilo que entra pela boca, mas no que sai dela. Prometeu – mesmo sendo Senhor – servir aos servos fiéis o pão dos céus à mesa com Abraão, Isaque e Jacó.
Em uma de suas parábolas comparou o Reino de Deus a um banquete de casamento e, para ensinar sobre o perigo de se ter o coração neste mundo, contou outra parábola em que um rico satisfeito com sua colheita exorta sua alma: “come, bebe e regala-te”.
Ensinou-nos a dar banquetes a quem não os pode retribuir e criticou os escribas e fariseus por amarem o primeiro lugar neles.
Disse que seu corpo era verdadeira comida e seu sangue era verdadeira bebida, e convidou aos sedentos “se alguém tem sede, venha a mim e beba. E selou-nos a afirmação “quem de mim se alimenta, por mim viverá” repartindo o pão e o cálice e ordenando-nos a tomá-lo em sua memória.
Comeu muitos tipos de comida e a preparação de alimentos serviu-lhe de motivo para parábolas. Procurou figos temporãos e conhecia bem as estações da oliveira. Gostava de peixes: multiplicou-os duas vezes, preparou-os na brasa e os comeu com mel. E foi reconhecido pelos dois de Emaús à mesa, ao bendizer o alimento.
Participava das páscoas desde cedo, nas quais se comia desde ervas amargas até um cordeiro assado. E, da última que participou, tomou um pedaço de pão e o último cálice de vinho e, com eles despediu-se dos seus e com o mesmo pão e com o mesmo vinho alimentou Judas para sua própria perdição, agravada pelas palavras do profeta: “Aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar”.
A mesa que lhe proporcionava o prazer da companhia trouxe-lhe a tristeza da traição “O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá”. E, na cruz, em vez vinho, que deixou como recordação de si, e com o qual começou seus milagres, como bebida recebeu vinagre.
Muitas bênçãos são tipificadas na Bíblia por alimentos. A própria descrição da Terra Prometida dizia da quantidade de pastos bons e da exuberância de suas flores, que era como se dela manasse leite e mel.
Aquele que experimentou a alegria do convívio a mesa, é o mesmo que aguarda por nós, para juntos, tomarmos o “vinho novo” que ele aguarda ansiosamente para nos servir.
Vem logo Senhor Jesus.

Ainda sobre Carnaval

Nesta semana que passou a internet “viralizou” um vídeo de um carnavalesco comparando um desfile de uma escola de samba com um despacho de m...