sábado, 1 de setembro de 2007

A Aliança e a família

Sobre mesa estava um cordeiro inteiro, assado no espeto. Uma cesta de pães asmos, uma travessa com ervas amargas, uma tigela com água salgada, outra com uma espécie de geléia de frutas e alguns cálices de vinho.

Ao redor da mesa a família esperava que a criança mais nova perguntasse o que era aquilo, pois sua pergunta iniciaria um ritual familiar em que a recordação do que celebravam era tão importante quanto a confraternização em si.

Era a celebração da Páscoa.

Feita a pergunta, a mãe tirava tudo o que estava sobre a mesa, e o pai - sem a comida para distrair as atenções - passava a contar a história do povo Judeu de modo que a criança que perguntou pudesse entender.

Textos como o de Êxodo 13 ou de Deuteronômio 26 e alguns salmos, inspiraram tal rito, que visava cumprir a promessa cantada no Salmo 78:3-4: "O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não o encobriremos a nossos filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do SENHOR, e o seu poder, e as maravilhas que fez".

Depois de contada a história - ainda que resumidamente, mas sem esconder nenhum erro cometido pelos antepassados, e sem deixar de mostrar o quanto o Senhor tinha sido misericordioso com seu povo - as comidas eram trazidas de volta.

Com a água salgada relembravam as lágrimas derramadas no Egito e com as ervas amargas, a vida difícil e amarga que levavam lá. A geléia, quase líquida, relembrava a dificuldade da principal ocupação deles: fazer tijolos de uma terra arenosa. E os pães asmos relembravam a pressa com que saíram de lá sem tempo de esperar a fermentação a massa.

Entre uma comida e outra o vinho deveria lembrar que, daquelas dificuldades, o SENHOR os livrou. E, a cada cálice, orações de gratidão eram elevadas a Deus.

Por fim, o cordeiro mostrava que foram salvos porque uma vítima sem culpa ficou no lugar deles.

Eu nunca conseguiria, por mais que tentasse, exagerar a importância dessa celebração familiar para o povo de Deus. A família estava reunida relembrando o que Deus fez por eles desde seus antepassados. Isso os vinculava a muitas gerações anteriores: os vinculava a Moisés. Aliás, uma das frases que o pai deveria usar era: "... o SENHOR me fez, quando saí do Egito" (Ex 13.8).

Desse rito elaborado o Senhor Jesus separou o pão e o vinho e instituiu a Santa Ceia, com valor sacramental, para que a família maior - a Igreja - fosse obrigada a relembrar o passado, em sua morte, mantivesse a esperança do futuro até sua volta.

Deveríamos fazer rememorações semelhantes em nossas famílias menores. E, com esse mesmo sentimento, nossos filhos deveriam ser lembrados de seus antepassados e do que Deus lhes fez.

Porém, se já não recordamos mais do que Deus fez a nossos avós ou a nossos pais, e, até mesmo, o que ele nos fez há 10 anos atrás, como ensinaremos a nossos filhos os privilégios que eles têm como filhos da aliança?

Não é de admirar que seu ponto de referência seja o futuro. Um futuro incerto e mutável. Tão mutável quanto a moda ou as tecnologias que hoje nascem e amanhã desaparecem.

É natural esperar da geração vindoura um passo a frente da nossa. Sempre foi assim. Se dissermos que a aliança que temos com Deus é importante, mas não ligarmos para as conseqüências de desrespeitá-la, acaso nossos filhos a respeitarão também?

Uma refeição comum. Entretanto, recheada de memórias do que o SENHOR fez, e coberta por promessas daquilo que ele fará.

Não precisa ter o valor sacramental - aliás não deve pois isto é prerrogativa da refeição que tomamos na Igreja - mas precisa ser feita.

Por amor a nossas famílias precisa ser feita.

sábado, 25 de agosto de 2007

Quadro de referências

Nenhum de nós está isento de um quadro de referências. Nenhum de nós pensa ou fala qualquer coisa que já não tenha sido pensada ou falada. Os estudiosos desse fenômeno dizem que nenhum de nós possui a “fala de Adão”. Ou seja: a primeira fala. Porém, nem Adão falou de si mesmo. Falou do que aprendeu do Criador.

Entretanto esse não é o problema em si. O problema está nas fontes em que bebemos aquilo que repetimos. A isso chamamos de “quadro de referências”.

Quem tem por referência um conceito materialista da vida, dificilmente produzirá algo que supere esse nível. Quem foi criado em um ambiente torpe dificilmente se expressará com graça e sobriedade.

Não estou desprezando as qualidades inatas com que a Graça Comum nos afeta, muito menos a ação irresistível do Espírito Santo. Mas isso se dá a despeito do quadro de referências a que fomos expostos.

Não foi por acaso que Deus preparou a cultura em que se revelou. Tudo o que ele nos mostrou de si próprio e de seu modo de agir precisa ser compreendido dentro deste quadro de referências. Por exemplo: Ele usa a paternidade para falar de si: Chama-se de Pai. Porém não se referiu a paternidade conhecida pelos romanos, muito menos a que conhecemos hoje, mas a que era conhecida pelos judeus. Especificamente a que é retratada no Pai da parábola do Filho Pródigo.

Recentemente, do púlpito, um pregador exortava uma igreja a ser responsável, com a seguinte frase: “como disse o Homem-aranha: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Seu quadro de referências é uma história altamente ficcional, para não dizer mentira e engodo.

Nossa Confissão de Fé nos ensina logo em seu Primeiro Capítulo: “... para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo.”

Você reparou?

Primeiramente, as razões, pelas quais, Deus serviu-se da escrita: Preservação da verdade e segurança da Igreja. Em segundo lugar: os antigos modos de Deus revelar sua vontade cessaram.

Será que todos concordamos com isso? Não acredito. Minha experiência diz que poucos concordam (embora muitos tenham jurado diante de Deus e da Igreja defender esta Confissão).

Queremos ouvir, tocar e ver. Porém nunca através de um livro. Como Tomé preferimos perder a bem-aventurança de crer sem ver, mas queremos ver e pegar. E achamos que isso é nobre!

Infelizmente, o quadro de referências em que a maioria de nós foi criado e no qual vive e se expressa, privilegia tais experiências – mesmo que possam ser fraude ou engano – em detrimento da verdadeira Palavra de Deus da qual temos a segurança de ser verdadeira.

Preferimos o risco de um “cipoal de revelações” – na maioria das vezes completamente estapafúrdias, sem sentido, e até contrárias umas às outras – em detrimento da segurança do que Deus mesmo fez escrever com a promessa de ser capaz de dividir nossos pensamentos das nossas intenções e nos ensinar tanto sobre sua vontade quanto sobre nós mesmos.

Tão profunda e atual é sua Palavra que, mais do que a lermos, nós podemos nos ler através dela, mas preferimos receber as coisas prontas e simplesmente engolir, pois outra característica de nosso quadro de referências é não pensar muito. Apenas ver e ouvir.

De todas as coisas vivas se espera algum progresso com o passar do tempo. Dos cristãos hebreus era esperado que, atendendo ao tempo decorrido, fossem mestres. Mas eles ainda se ocupavam com princípios tão básicos que se pareceriam hoje com vestibulandos que não sabem a tabuada.

O quadro de referência deles não era muito diferente do nosso.

Deus tenha misericórdia de nós.

sábado, 18 de agosto de 2007

Presumir

Presumindo que a promessa de Deus demorava, Sara tomou sua escrava e a deu a Abraão, para que, por meio dela, Abraão tivesse seu descendente. Porém, a promessa de Deus tinha sido feita à família verdadeira.

Presumindo que Moisés não voltaria do Monte Sinai, o povo convenceu Arão a fazer um bezerro de ouro ao redor do qual passaram a celebrar a saída do Egito, embora o Senhor tenha deixado claro que fora ele quem os libertou e determinado que esperassem o retorno de Moisés.

Presumindo que, aceitando o holocausto oferecido por seu pai, Deus aceitaria também o que fizessem, Nadabe e Abiú, se atreveram a chegar perante Deus e com outro fogo diferente do que Deus havia acendido no altar ao aceitar o holocausto, embora Deus tivesse deixado claras suas tarefas.

Presumindo que Samuel não chegaria antes que o povo fosse embora – pois já o esperavam há dias – Saul tomou a iniciativa de oferecer holocausto, embora Deus tivesse deixado claro que isso era função exclusiva de seus sacerdotes.

Presumindo-se dono de seu destino, o homem rico da Parábola que o Senhor disse, depois de uma boa safra, decidiu fazer novos celeiros e tranqüilizou sua alma dizendo-lhe: “tens muito em depósito: come, bebe, regala-te”, sem saber que naquela noite sua alma seria pedida.

Presumindo que o pai demoraria a morrer, e sua parte na herança não seria bem aproveitada, o irmão caçula pediu-lhe o adiantamento da partilha, sem considerar que ao gastá-la viria a desejar comer a comida dos porcos e não o permitiriam.

Presumindo que seu Senhor demoraria o “servo infiel” passou a espancar seus companheiros e a comer e a beber com ébrios, embora o Senhor lhe tivesse ordenado que vigiasse.

*

De quantos exemplos ainda precisaremos? Será que não fazemos coisas semelhantes?

Qual Sara, nunca presumimos que as promessas do Senhor carecem de nossa ajuda? Você já reparou como já chegamos a inventar novos textos bíblicos para justificar esse tipo de atitude. Você já deve ter ouvido “faça a tua parte e eu te ajudarei” ou “a bênção dá a quem pede” (sic).

Porventura, nunca adoramos bezerros de ouro ou acendemos fogo estranho diante do Senhor para agradar um povo impaciente de novidades?

Ou nunca decidimos que é melhor contribuir em outro lugar, pois “aqui, meu dinheiro está sendo mal empregado”?

Quantas vezes encontramos mais paz no saldo do extrato bancário do que na Bíblia?

Quantas vezes planejamos nossa vida como se o Senhor nunca fosse nos pedir contas de como administramos aquilo que ele nos confiou?

Dentre as muitas origens dos pecados de cada dia aqui está uma delas: Presumir.

*

Tomamos em nossas mãos as rédeas de nossas vidas, da Igreja e até do culto ao Senhor.

Curiosamente, este pecado, cada dia, é menos notado e odiado – algumas vezes chega a ser considerado virtude – por uma sociedade ávida de resultados.

Hoje, Sara seria elogiada como esposa abnegada. Já escutei sermões elogiando o amor de Sara por Abraão.

Hoje, Saul seria visto como herói. E se você examinar o caso sob a ótica moderna concluirá que ele é um bom modelo de líder: não perdeu a oportunidade ao ver o povo reunido.

Hoje, Arão seria visto como atento às necessidades do povo e preocupado com um culto relevante às massas sedentas.

Entre nós não deve ser assim, Ao contrário “portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação, sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” 1Pe 1.17-19.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Em nossos dias

Um dos grandes malefícios que o chamado “Evangelho da Prosperidade” trouxe às verdadeiras Igrejas foi a vergonha ou, pelo menos, o escrúpulo em se falar de questões financeiras.

Eu mesmo tenho grande cuidado em abordar o assunto, pois, via de regra, ele é mal entendido e, especialmente, mal praticado.

Por mal entendido, quero dizer que a Igreja muitas vezes vê a prosperidade como atestado de boa conduta. Ou seja: fulano é próspero porque ele é temente a Deus. Entretanto conheço muitos tementes a Deus que não são prósperos (materialmente falando).

Por mal praticado, quero dizer que muitos membros ainda crêem que a prosperidade é conseqüência de uma relação comercial com Deus. Ou seja: fulano é próspero porque é fiel na entrega de seus dízimos e ofertas. Entretanto conheço muitas pessoas que são fiéis na entrega de seus dízimos e ofertas e não são prósperos (materialmente falando).

Como resolver, ou entender isso?

Não podemos esquecer que a prosperidade, ou o sucesso material, é objeto dos ensinamentos bíblicos, e destaca-se na história do Povo de Deus.

Deus serviu-se da pobreza, ou da riqueza, para conduzir seu povo. Por que razão Jacó e seus filhos, os patriarcas da Antiga Aliança, foram para no Egito? Pela pobreza.

Por que razão Salomão esqueceu-se de Deus? Pela riqueza que possibilitou-lhe levar uma vida dissoluta.

Nos dias antigos era comum, e até incentivado, pedir-se a Deus prosperidade.

Se você observar a oração que Salomão faz quando o templo é dedicado, verá que grande parte dela refere-se a prosperidade. Ele fala de más colheitas, de pragas nas lavouras, de climas adversos, e pede a Deus que abençoe a todo aquele que, premido por tal situação, recorra ao Senhor desde o templo que lhe estava sendo consagrado.

Em um Salmo (144), Davi ora assim:

“Que nossos filhos sejam, na sua mocidade, como plantas viçosas, e nossas filhas, como pedras angulares, lavradas como colunas de palácio;

Que transbordem os nossos celeiros, atulhados de toda sorte de provisões;

Que os nossos rebanhos produzam a milhares e a dezenas de milhares, em nossos campos;

Que as nossas vacas andem pejadas, não lhes haja rotura, nem mau sucesso;

Nem haja gritos de lamento em nossas praças”.

Em nossos dias, embora todos dependam do fruto da terra, poucos trabalham diretamente com ele. A maioria de nós recebe o que a terra produz através do salário que ganha.

Os celeiros de nossos antepassados, são as poupanças e as “previdências” de hoje. Seus rebanhos são as mercadorias que os comerciantes vendem, ou o serviço que os profissionais liberais prestam, ou, ainda, o tempo pelo qual os operários braçais são contratados.

Mas a súplica permanece a mesma: que nada disso seja fonte de lamento. Ao contrário: fonte de bênção para nosso progresso e progresso de nossos filhos e filhas.

Portanto não é errado pedir a Deus prosperidade. Ao contrário: devemos pedir que ele abençoe as obras de nossas mãos. Errado é lutar por ela mais do que o Senhor nos permite. Errado é trocar a prosperidade da alma pela prosperidade do bolso.

Entendendo isso poderemos dizer como João disse a Gaio: “Amado, acima de tudo, faço votos por tua prosperidade e saúde, assim como é próspera a tua alma” (3Jo 1.2).

sábado, 4 de agosto de 2007

Idolatria e culto


Eu tinha 9 ou 10 anos quando vi, pela primeira vez, esta figura. Fiquei chocado. As feições destes homens me impressionaram, mas especialmente a de Moisés, que, tomado pela ira, castigava o povo pela idolatria.

Neste desenho Gustave Doré tenta representar Ex 32.19 quando Moisés recebeu de Deus as primeiras tábuas de pedra com os 10 mandamentos, e encontrou o povo dançando ao redor do bezerro de ouro.

Eu não sabia como combinar este tipo de atitude irada, com o que me ensinavam sobre a conduta de alguém temente a Deus. Mas o texto era claro. Moisés estava irado ao ponto de quebrar o único exemplar de algo escrito diretamente por Deus e depois determinar a morte de cerca de 3 mil homens.

Quando eu perguntava a alguém as explicações eram semelhantes: “isso era próprio do Antigo Testamento, mas agora é diferente”.

No Seminário, com melhores ferramentas de interpretação, foi que percebi a falácia dessas explicações, pois há um evento semelhante no Novo Testamento: Cristo purificando o templo.
Tal qual Moisés, Jesus irou-se também. Veja o relato de João: Estando próxima a Páscoa dos judeus, subiu Jesus para Jerusalém. E encontrou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas e também os cambistas assentados; tendo feito um azorrague de cordas, expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai casa de negócio. Lembraram-se os seus discípulos de que está escrito: O zelo da tua casa me consumirá. (Jo 2.13-17 )

O que há de comum entre os dois casos é a idolatria associada ao culto. No Sinai, impacientes com a demora de Moisés fizeram um Deus segundo bem entendiam e de acordo com sua própria idéia do que Deus era. No templo aproveitavam-se do culto estabelecido por Deus para lucrar.

São duas das muitas faces que a idolatria tem. E são as mais visíveis hoje: os que inventam cultos à seu bel-prazer e os que se aproveitam da credulidade dos que pensam adorar a Deus.
Moisés não tolerou no Sinai, nem Cristo no templo. Nos dois casos a ira santa do Senhor puniu os idolatras, ele mesmo diz: “não tolero iniqüidade associada a ajuntamento solene”

Que tal nunca nos aconteça.

sábado, 28 de julho de 2007

Atendendo ao tempo decorrido

De todas as coisas vivas se espera algum progresso com o passar do tempo. De uma planta se espera crescimento, folhagem e frutos. De um bebê se espera desenvolvimento físico e intelectual, crescimento, maturidade. Dos cristãos hebreus era esperado que, atendendo ao tempo decorrido, fossem mestres.

Curiosamente era esperado que fossem mestres nos assuntos concernentes ao sacerdócio de Jesus. Afinal tudo indica que eles tinham sido, no passado, sacerdotes no templo que tipificava o próprio Jesus. Mas eles ainda se ocupavam com princípios tão básicos que hoje se pareceriam com universitários que não sabem a tabuada.

O diagnóstico do escritor da Carta aos Hebreus era: tardios em ouvir. Mas afinal, o que é exatamente alguém tardio em ouvir?

Quando se traduz a Bíblia para qualquer idioma é necessário levar em conta que: 1) Uma só palavra pode ter muitos sentidos. 2) Muitas palavras podem ser nuances de um mesmo sentido.

1. A palavra grega “phroneō” pode ser traduzida por “pensar”, “julgar”, “prestar atenção a”, “fixar a mente em”, ou por “ter opinião”. O núcleo de significado é o mesmo, mas as nuances de significação podem nos levar longe.

2. As palavras gregas “dogma”, “entolē”, “parangelō”, possuem o significado básico de ordem. Porém a primeira significa “ordem escrita”, “decreto” ou “decisão que deve ser cumprida”. A segunda significa primariamente um “mandamento recebido” e a última o “ato de dar ordens”, “mandar”.

A palavra grega traduzida por tardios (disermeneutos) e só ocorre esta única vez em todo o Novo Testamento. Aliás, não só no Novo Testamento, como também na Septuaginta (o Velho testamento traduzido para o grego), nem nos escritos da época. É uma palavra solitária.

Entretanto, nós conhecemos suas partes: dis+hermenêutica. O prefixo “dis” fala de algo que “não acontece” e a palavra “hermenêutica” já é conhecida em nossa língua como a capacidade de entender e interpretar algo. Ou seja eles “desentendiam”.

Então, por conta de uma certa idéia de intensificação presente no texto, traduz-se por “lerdos”, “lentos”, “negligentes”, “difíceis”, “duros”, “tardios”, etc.

Não há paralelo com 2Tm 3.7 (...que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade), pois os Hebreus já haviam entendido algo. Mas, desidiosos, estavam tão acomodados que, se tivessem aproveitado o tempo, já seriam mestres naquele assunto.

Duas coisas, entretanto, devem ser destacadas:

1) A dificuldade de expor o assunto perdido não estava no escritor, mas em seus leitores que não tinham capacidade de entendê-lo por terem se tornados “disermeneuticos”.

2) O mais triste é que, por essa irresponsabilidade, não apenas eles ficaram privados desse ensino, mas nós também.

Ora, qual não deve ser nossa responsabilidade hoje?

Se naqueles dias, em que o saber era mais estimado, aconteceu essa tragédia, o que está acontecendo hoje? O que será que nossos filhos receberão de nós?

Ávidos por diversão, entretenimento, passa-tempos, besteirol, “non sense”, o que teremos para legar a nossos filhos?

Desesperados atrás de tudo que se auto-proclama revelação divina, que tipo de “bíblia” passaremos a eles?

Voltemos ao bom senso: “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes. Tornai-vos à sobriedade, como é justo, e não pequeis; porque alguns ainda não têm conhecimento de Deus; isto digo para vergonha vossa.” 1Co 15.33-34

domingo, 22 de julho de 2007

Chegou uma carta de Paulo! (Parte 2)

Ainda era cedo, mas a escola de Tirano já estava cheia. Era comum que no Dia do Senhor, o ambiente ficasse repleto, mas hoje estava mais cheio. A notícia da carta se espalhou e desde mais cedo havia um grupo esperando pela leitura dela.

Os presbíteros, juntamente com Tíquico, já a haviam lido durante a semana, e alguns assuntos já eram conhecidos. Dizia-se que ele falava bastante sobre família. A expectativa era grande.

Não me lembro de tudo, é claro, mas fiquei com algumas impressões muito fortes sobre o que ouvi.

A carta parecia mais uma oração.

Cada assunto que era abordado por ele, era concluído com uma oração. A própria carta já começava com uma oração em que ele agradecia por termos sido eleitos por Deus Pai, redimidos pelo Senhor Jesus e selados pelo Espírito Santo. Só então pede pela Igreja. Mas, ainda não entendi bem o que ele quis dizer com: “iluminados os olhos do coração”.

Seu primeiro assunto é garantir que fomos reconciliados com Deus e com o povo dele mediante a obra do Senhor Jesus e nos tornamos portadores dos mistérios de Deus – eu nunca havia pensado que a Igreja era tão importante assim – e em seguida faz outra oração.

Mas acho que o assunto que mais chamou a atenção de todos foi o que ele mesmo chamou de “andar de modo digno do chamado de Deus”.

Primeiro ele expôs a importância de nossos presbíteros: eles são obrigados por Deus a lutar para que deixemos de ser crianças levados de um lado para outro por todo vento de doutrina.

Depois ele disse que devemos lutar para evitar uma vida errada e para ao mesmo tempo nos enchermos do Espírito Santo.

Achei curioso ele ensinar que ficamos cheios do Espírito Santo à medida que nos lembramos sempre das Escrituras, (nem que para isso tenhamos de cantá-las de cor) e que aprendemos a nos submeter uns aos outros.

Achei que algumas coisas que ele exige de nós, só mesmo com ajuda divina, pois é muito difícil.
Por exemplo, uma série de proibições: não furte mais; não diga coisas torpes; não entristeça o Espírito de Deus; não se ache entre vocês nem cobiça, nem pornografia, nem histórias sujas; nem conversas indecentes, brincadeiras maliciosas, não desperdicem o tempo de Deus com futilidades.

Pra falar a verdade, acho que não é apenas aqui em Éfeso que isto é difícil de ser cumprido, mas em todos os lugares.

Mas ele termina de modo incentivador: diz que está a nossa disposição uma verdadeira armadura que podemos usar para fazer frente a esses desafios e outros mais.

Que Deus nos ajude a usá-la bem.

sábado, 14 de julho de 2007

Chegou uma carta de Paulo!

Essa deve ter sido a notícia mais repetida na Igreja de Éfeso naqueles dias.

O último contato que tiveram com Paulo foi quando, voltando para Jerusalém, chamou os presbíteros a se encontrarem na praia de Mileto.

Naquela ocasião ele se despedira certo de que não se encontrariam mais. Exortou a que zelassem pelo rebanho do Senhor que estava naquela cidade e apressado partiu para Jerusalém a fim de comemorar o Pentecostes lá.

Logo depois souberam que ele estava preso em Cesaréia onde aguardava julgamento e dois anos mais tarde que ele tinha sido levado Roma pois apelara para César.

Uma carta agora deveria trazer novidades interessantes.

Paulo era muito querido naquela Igreja. A primeira vez que o viram fora há mais de quinze anos, quando ele voltava apressado de uma viagem à distante Macedônia.

Cerca de três anos depois, voltando de Jerusalém, encontrou em Éfeso seus queridos Priscila e Áquila e um grupo de judeus que pouco sabiam do Evangelho além dos ensinos de João, por quem haviam sido batizados. Então deteve-se por uma estação freqüentando a sinagoga.

Procurando persuadi-los de que o Messias que esperavam já viera não chegaram a bom termo, e Paulo alugou uma escola onde a Igreja firmou-se.

Permaneceu ali por mais de dois anos, e o Evangelho chegou a diversas cidades vizinhas.

A Igreja de Éfeso se desenvolveu muito, chegando a influenciar os costumes da cidade. Os artesãos que viviam da fabricação de miniaturas do templo de Diana – a deusa da cidade – sentiram uma queda nas vendas e revoltaram-se. Houve protestos e gritaria.

Quando foram dispersos pelas autoridade Paulo achou melhor partir: diminuiria os atritos e aproveitaria para visitar as Igrejas que fundara na Macedônia.

Agora chegava uma carta dele trazida por um de seus amigos mais próximos: Tíquico. Que novidades ela traria?

Reunida a Igreja a carta foi lida. A leitura foi rápida, afinal parecia o próprio Paulo falando, mas, os ensinos, as recomendações e as ordens demandariam bastante tempo de reflexão.

Na carta notava-se a preocupação dele com os judeus que insistem em mostrar a Igreja como se fosse uma nova fase do que eles ensinam.

Pelo contrário, Paulo explica como Deus chama, por sua graça a cada um e constitui a Igreja que é o que ele chama de “Noiva de Cristo”.

Sendo a Noiva de Cristo, a família altamente valorizada por Paulo, é algo que deve ser objeto de consideração e estima.

Mas a ele não poderia esquecer de como isso acontece na prática. Então dá ordens aos esposos, aos filhos aos servos e até os líderes da Igreja recebem incumbências específicas de como devem se portar e do que devem fazer.

Termina a carta exortando todos a que levem uma vida mais conforme essa realidade tão impressionante, e que reflita de modo mais claro as implicações do chamado de Deus em Cristo.

Ainda bem que Tíquico ia ficar por uns tempos. Vamos ter muito o que conversar.

sábado, 7 de julho de 2007

Cartas

Você já observou que o Novo Testamento é composto de cartas?

Geralmente o dividimos em Evangelhos, Livro histórico (Atos), Cartas paulinas, Cartas gerais, e Livro profético (Apocalipse). Mas, se você reparar bem, verá que com exceção de Mateus e Marcos todos os demais livros são cartas.

O Evangelho de Lucas e o Livro dos Atos dos Apóstolos formam uma unidade e a introdução de ambos revela tratar-se de cartas de Lucas à Teófilo.

O Evangelho de João, em seu final, revela ter sido escrito, após seleção de sinais, com o propósito de que o leitor venha crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e que crendo tenha vida em seu nome. Ou seja: no fundo é uma espécie de carta dirigida a quem a ler.

Quando ao Apocalipse basta se lembrar de que, de início, já é dirigido, como se fosse uma “carta circular”, às Sete Igrejas da então Ásia Menor que hoje é a Turquia.

Há cartas que tratam de um assunto só, e outras que tratam de diversos assuntos. Há cartas pessoais e outras tão gerais que sequer pressupõem um determinado tipo de leitor. Porém todas foram escritas com o propósito de resolver um ou mais problemas de alguém ou de uma Igreja.

Aliás, seria mais correto dizer que todas, sem exceção, objetivam a ensinar a Igreja e a seus membros, os desdobramentos e a aplicação da Lei na dispensação do Evangelho.

Mas me chama mais atenção é o fato de que são cartas. Foram escritas.

Explico melhor.

Quando João percebeu a ameaça do Gnosticismo sobre a Igreja escreveu seu Evangelho mostrando que Jesus era tanto homem quanto Deus.

Quando Judas pensava sobre nossa comum salvação percebeu que deveria escrever algo exortando os salvos a batalharem pela fé que, de uma vez por todas, lhes havia sido dada.

Quando o Concílio de Jerusalém chegou à solução do problema que lhe foi trazido escreveu uma carta que causou conforto e crescimento às Igrejas que a receberam.

Quando Paulo ficou inteirado do que estava acontecendo na Igreja de Corinto escreveu uma carta e ao saber das reações escreveu outra.

Podemos pensar que as distâncias de então é que exigiam essa prática. Concordo. Entretanto, chamo a sua atenção para o fato de que o Cristianismo pauta-se por atribuir o significado “sim” à palavra sim e “não” à palavra não. Ou seja: não há nada que o cristão fale ou a Igreja creia que não possa ser escrito.

Não somos um grupo secreto. Somos o que modernamente chama-se de “transparente”. Ou, pelo menos deveríamos ser. Afinal este é o exemplo (e a ordem) que temos da Palavra de Deus.

Valorizemos mais nossa herança de clareza e sinceridade e não abandonemos nossa riqueza cultural característica de quem escreve e conseqüentemente lê.

sábado, 30 de junho de 2007

Ainda sobre o Espírito Santo

Quando, no princípio, o SENHOR, criou os céus e a terra seu Espírito participou ativamente: Pairava sobre as águas, e soprou vida no barro do qual o homem foi feito.


A tudo criou e manteve desde então. Ou como diz o salmista "Se ocultas o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó (Sl 104.29)".


Criou, mantêm e os extingue: "Com o hálito de Deus perecem; e com o assopro da sua ira se consomem (Jó 4.9)” e “seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do SENHOR (Is 40.7)”.


Sopro, respiração e hálito traduzem a mesma palavra hebraica.


*


Após anos de preparação e amadurecimento da humanidade; após o juízo do dilúvio e de Babel; após a definição do pacto na linhagem de Abraão, o mesmo Espírito que participou e participa ativamente da formação, da manutenção e da extinção de indivíduos, participou da formação de um povo.


Primeiro deu-lhes senso familiar, depois senso pactual, e, por assim dizer, mais uma vez os tirou do barro, onde amassavam tijolos, e durante os 40 anos que peregrinou com eles no deserto deu-lhes senso de nação: povo.


Foram formados e mantidos miraculosamente. Sobre eles estabeleceu governo, e repartiu-lhes capacidades (dons) e atribuições específicas, conforme as situações exigiam.
Não apenas miraculosamente as deu, mas miraculosamente os capacitou a exercer: Bezalel, Oliabe, Sansão, Gideão, etc.


E como ocorre com tudo também foram extintos pelo hálito do SENHOR. Precisavam aprender que o mesmo Espírito, que do barro faz indivíduos e nações, também os extingue. E, soprando sobre indivíduos e nações, os chama de volta à existência.


*


Os anos se passaram e após um silêncio de 4 séculos, além da lei e da justiça aprenderam também a exercer misericórdia. Na verdade já a conheciam e sabiam como era preciosa, pois a viam estampada em cada vítima sacrificada e no resultado de cada sacrifício.


E no dia de Pentecostes fomos chamados de volta a existência. Renascemos. não como famílias, tribos ou nação, mas como povo daquele que, soprando instila seu Espírito e dá vida, ou murcha e seca a planta mais viçosa. E como aconteceu antes, nossa infância foi acompanhada de milagres. Miraculosamente fomos organizados, e até hoje somos mantidos.


Porém, essas verdades estão esquecidas, e hoje falar sobre o Espírito de Deus é tão banal que a ele atribui-se as coisas mais ridículas e deploráveis, e em seu nome se comete os mais graves absurdos.


Não haveríamos de temer e respeitar o tão sublime, do qual depende a vida e a morte, e contra quem o pecado não é perdoado?


Pensemos!

Ainda sobre o Espírito Santo

Quando, no princípio, o SENHOR, criou os céus e a terra seu Espírito participou ativamente: Pairava sobre as águas, e soprou vida no barro do qual o homem foi feito.

A tudo criou e manteve desde então. Ou como diz o salmista "Se ocultas o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó (Sl 104.29)".

Criou, mantêm e os extingue: "Com o hálito de Deus perecem; e com o assopro da sua ira se consomem (Jó 4.9)” e “seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do SENHOR (Is 40.7)”.

Sopro, respiração e hálito traduzem a mesma palavra hebraica.

*

Após anos de preparação e amadurecimento da humanidade; após o juízo do dilúvio e de Babel; após a definição do pacto na linhagem de Abraão, o mesmo Espírito que participou e participa ativamente da formação, da manutenção e da extinção de indivíduos, participou da formação de um povo.

Primeiro deu-lhes senso familiar, depois senso pactual, e, por assim dizer, mais uma vez os tirou do barro, onde amassavam tijolos, e durante os 40 anos que peregrinou com eles no deserto deu-lhes senso de nação: povo.

Foram formados e mantidos miraculosamente. Sobre eles estabeleceu governo, e repartiu-lhes capacidades (dons) e atribuições específicas, conforme as situações exigiam.
Não apenas miraculosamente as deu, mas miraculosamente os capacitou a exercer: Bezalel, Oliabe, Sansão, Gideão, etc.

E como ocorre com tudo também foram extintos pelo hálito do SENHOR. Precisavam aprender que o mesmo Espírito, que do barro faz indivíduos e nações, também os extingue. E, soprando sobre indivíduos e nações, os chama de volta à existência.

*

Os anos se passaram e após um silêncio de 4 séculos, além da lei e da justiça aprenderam também a exercer misericórdia. Na verdade já a conheciam e sabiam como era preciosa, pois a viam estampada em cada vítima sacrificada e no resultado de cada sacrifício.

E no dia de Pentecostes fomos chamados de volta a existência. Renascemos. não como famílias, tribos ou nação, mas como povo daquele que, soprando instila seu Espírito e dá vida, ou murcha e seca a planta mais viçosa. E como aconteceu antes, nossa infância foi acompanhada de milagres. Miraculosamente fomos organizados, e até hoje somos mantidos.

Porém, essas verdades estão esquecidas, e hoje falar sobre o Espírito de Deus é tão banal que a ele atribui-se as coisas mais ridículas e deploráveis, e em seu nome se comete os mais graves absurdos.

Não haveríamos de temer e respeitar o tão sublime, do qual depende a vida e a morte, e contra quem o pecado não é perdoado?

Pensemos!

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Quando o galo canta

Dia desses alguém me lembrou da importância que o cantar do galo deveria ter para os cristãos. Eu nunca havia pensado nisso. No máximo trazia recordações da infância em que, como dizia o poeta, havia “galos, noites e quintais”.

Mas, pense bem: quantas recordações eram despertadas em Pedro sempre que ouvia um galo cantar? Pessoalmente, não creio que ele tenha se esquecido da noite em que um galo o lembrou de que estava negando o Senhor. Eu não me esqueceria. Aliás, depois que ouvi essa alusão, jamais me esquecerei da experiência de Pedro.

O canto de um galo sempre me recordará o quanto podemos ser arrogantes e presunçosos. Não foi disso que ele se lembrou?

O Senhor jamais escondeu de seus apóstolos que estava destinado a morte. Muitos viram João Batista identificá-lo como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Ora, qualquer judeu sabia que isso era feito mediante a morte do cordeiro.

Além de não esconder, o Senhor, à medida que o dia se aproximava, e seus apóstolos, presumivelmente, adquiriam uma compreensão mais profunda do que estava acontecendo, repetia mais vezes o que seria morto. Entretanto em uma dessas vezes Pedro, invertendo os papéis, declarou impensadamente que estava pronto a morrer por ele.

Devia ser repreendido, e foi. Além de que repreendido viu-se, depois, qual o profeta insensato da antiguidade, ser ensinado por um animal. É ele quem deplora essa humilhante experiência (2Pe 2.15).

Mais do que uma bravata, ele ainda não compreendera qual era a verdadeira missão do Senhor.

- Jamais cantará o galo antes que me negues três vezes (Jo 13.38). Negou as três vezes e Lucas nos informa que quando ele o fazia pela terceira vez o Senhor Jesus fixou seus olhos nele.

Posso imaginar a amargura com que Pedro chorou naqueles dias. E creio que, a partir de então, sempre que ouviu um galo cantar deve ter se lembrado do olhar perscrutador do Senhor que, mesmo sofrendo, lembrava-se dele.

Hoje eu penso no quanto de nós está retratado em Pedro. Em um momento somos capazes de dizer ao Senhor que estamos dispostos a morrer por ele e no momento seguinte escutamos o galo dizendo o quanto somos fracos.

Não creio que houvesse algo importante em ser um galo. Era apenas um modo de Jesus dizer que antes de amanhecer Pedro haveria de negá-lo. O galo era uma espécie de relógio.

Porém, como ele marcou as horas para Pedro, para mim será sempre uma lembrança de que nos momentos de maior coragem posso estar negando o Senhor. Jamais esquecerei essa lição.

sábado, 16 de junho de 2007

Mediata e imediatamente 3/3

No boletim passado escrevi: “Hoje o Espírito Santo, sob condições normais, capacita, mediante estudo e treinamento, a que as "grandezas de Deus" sejam anunciadas em diversos idiomas ou que um doente receba o tratamento adequado”. Adiantei um argumento contra meu próprio pensamento: “muitos tradutores e médicos sequer temem a Deus”, e prometi respondê-lo hoje.

Vamos lá:

O fato de uma pessoa não temer, ou sequer pensar em Deus, não a faz alheia as bênçãos de Deus. Todos - até mesmo os piores criminosos - estão constantemente recebendo bênçãos e mais bênçãos de Deus. O Senhor Jesus foi muito claro ao dizer que Deus “faz nascer seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”. A isso chamamos de graça comum, já que é comum a todos indistintamente.

Porém, essa graça é muito mais abrangente do que se pensa. O que chamamos de “opinião pública” ou “senso de valores” é produto dela: Escritura fala de “uma norma de lei gravada nos corações” mediante a qual Deus haverá de julgar a todos. Ela é tão importante na manutenção da ordem social que é responsável pela existência de autoridades que são “ministros de Deus, vingadores, para castigar o que pratica o mal”.

Temos por assente que o “mercado” (ou como dizia o economista: “a mão invisível”) é o responsável pelo equilíbrio entre as necessidades de um povo e o número de portadores de aptidões naturais que as satisfaçam. Porém, na verdade, o responsável por isso é Deus; de tal modo que o lavrador, o médico, o Engenheiro, o policial, o professor, etc. desempenham funções dadas por ele através da “Graça Comum”. É isso que torna este mundo “habitável”.

Resumindo, aquele que cura o corpo, mas não se importa com o Criador dele, peca duplamente: contra quem criou o doente e contra quem o dotou de habilidade, inteligência e conhecimento para curá-la: o mesmo Deus. E aquele que é capaz de entender um idioma diferente e não expressa nele as grandezas de Deus, ou se vale dele para espalhar aquilo que desonra o Senhor, peca da mesma forma.

E assim poderíamos analisar todas as vocações humanas. Concluiríamos que são dádivas do Espírito Santo, como também o são todos os “carismas” com os quais ele atende as necessidades dos escolhidos enquanto a Graça Comum não produz pessoas capacitadas a tanto.

Portanto, Deus atende as necessidades de seu povo, e de todas as suas criaturas, mediante sua graça. E quem é o instrumento dessa graça, sendo temente a Deus, percebe-se colaborador seu e o louva por tamanha oportunidade. Quem não percebe isto e crê que tudo foi feito pela força de seu braço ou pela sua capacidade intelectual, manifesta sua rebeldia contra o Senhor, mas nem por isso deixa de ser seu instrumento. Ambos pecadores: o primeiro um pecador redimido e o segundo um pecador rebelado.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Mediata e imediatamente 2/3

No boletim passado tentei mostrar como os idiomas manifestados pelo Espírito Santo no dia de pentecostes eram o prenúncio do que aconteceria, e, de fato, está acontecendo até o dia de hoje: as grandezas de Deus são anunciadas a todos os povos independentemente da língua que falam.

Procurei também deixar claro, que, naquela ocasião, o Espírito Santo agiu imediatamente (sem meios), diferindo tão pouco do modo como ele age hoje, quanto a multiplicação dos pães, operada também imediatamente pelo Senhor, difere de sua ação em fazer a semente germinar e multiplicar-se nas espigas que produz.

Antes de caminharmos para algumas considerações gerais a respeito desses maravilhosos dons (Charismas) com os quais Deus agraciou a Igreja, vejamos mais uma situação: a saúde.

Dos 120 discípulos que compunham a assembléia que elegeu Matias substituto de Judas, no dia de pentecostes a Igreja chegou a cerca de 3 mil pessoas, e poucos dias depois a 5 mil. Era, portanto, natural que, por mais saudáveis que fossem, houvesse entre eles algum doente.

Sabemos muito bem que a medicina daqueles dias além de, digamos, ser pouco desenvolvida, servia, quase que exclusivamente, os mais ricos. Como então suprir um grupo em que havia até necessidade de pão?

Sabemos também que naqueles dias as doenças eram popularmente vistas muito mais como castigos divinos - ou até mesmo como "pessoas" (ou entidades dotados de algum tipo de personalidade), que deviam ser repreendidas, do que como alguma disfunção orgânica. Mais ou menos como acontece hoje com aqueles que são facilmente iludíveis por falsos tratamentos e falsos curadores.

Ora, nada mais natural que o Senhor, agindo imediatamente suprisse a necessidade de tantos em pouco tempo, e concomitantemente reafirmasse a todos seu poder sobre quaisquer coisas, até mesmo sobre as doenças, capacitando aqueles que ele mesmo queria a que, quando fosse a ocasião que mais oportuna a seus desígnios, curasse aos que também ele quisesse.

Como aconteceu com os pães, cujas sementes não foram plantadas, ou com os idiomas, cujos falantes não foram neles adestrados, alguns foram extraordinariamente capacitados a curar os enfermos que Deus quis que fossem curados. Entretanto nem todos receberam tal graça: lembre-se de que Trófimo foi deixado doente por Paulo em Éfeso.

Hoje o Espírito Santo, sob condições normais, capacita, mediante estudo e treinamento, a que as "grandezas de Deus" sejam anunciadas em diversos idiomas ou que um doente receba o tratamento adequado.

Certamente você já deve ter pensado que essa explicação não é boa, pois muitos tradutores e médicos sequer temem a Deus. Há outros inconvenientes nessa explicação, mas sobre esta falarei no próximo boletim.

Pastoral sobre o Projeto de Lei a respeito de "homofobia"

Carta Pastoral à Igreja Presbiteriana da Ilha dos Araújos

Amados irmãos;

No boletim de 13 de maio, transcrevi carta do MD. Presidente do Supremo Concílio de nossa Igreja Rev. Roberto Brasileiro, em que tornava clara a posição de nossa denominação sobre a criminalização da “homofobia” e sobre a prática do Aborto.

Tais assuntos foram trazidos à pauta por declarações do Exmo. Sr. Ministro da Saúde sobre a necessidade de se examinar a atual legislação a respeito do Aborto e por um Projeto de Lei, que, aprovado na Câmara, tramita pelo Senado.

Quero chamar-lhes a atenção, como ovelhas do Senhor, entregues aos meus cuidados pastorais, para alguns fatos, que podem afetar nossa carreira como cristãos em um país onde temos, não apenas o direito, mas também o dever de participar da elaboração das leis, no mínimo elegendo nossos legisladores, mas também fazendo-lhes conhecer a opinião que temos sobre os respectivos assuntos a que estão afetos.

O Projeto de Lei PLC 122/06, é danoso a prática da vida cristã no mínimo porque: Querendo proteger de discriminação aqueles que estão em flagrante desobediência a “lei maior” do Criador, que os fez “machos e fêmeas” - como é afirmado no Livro de Gênesis, e depois reafirmado pelo nosso Senhor e Mestre, Jesus Cristo - embaraça-lhes mais a possibilidade de deixar suas práticas condenadas pelas Escrituras Sagradas, e tolhe a missão da Igreja em diversos aspectos.

1. Embaraça-lhes
a. Ao chamar de “homofobia” a aversão que muitos - cristãos e não cristãos - sentem pela manifestação pública de “afetos homossexuais” (abraços, beijos, carícias, etc), este Projeto de Lei atribui aos heterossexuais o erro de serem preconceituosos e, conseqüentemente, exime os homossexuais de perceber a situação em que se encontram, embaraçando-lhes assim uma avaliação conforme a cosmovisão cristã da antinaturalidade de seus relacionamentos bem como de ver estes mesmos relacionamentos como atestados da ira de Deus que se derrama sobre uma sociedade que esqueceu seu Criador.

Observe o quanto a Palavra de Deus é clara sobre este ponto:
Romanos 1.18-28: 18 A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; 19 porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou.

20 Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas.

Tais homens são, por isso, indesculpáveis; 21 porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. 22 Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos 23 e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.

24 Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; 25 pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!

26 Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza; 27 semelhantemente, os homens também, deixando o contacto natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro.

28 E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes ...

b. Ao criminalizar o que chamam de “homofobia” criam dois pesos e duas medidas. Pois, segundo a lei, o tolhimento de qualquer “expressão de afeto homossexual” será punido. Porém, semelhante punição não será aplicada ao tolhimento das “expressões de afeto heterossexual”.

2. Tolhe a missão da Igreja
a. Nossa Igreja, que não aceita como membros heterossexuais na prática da fornicação, não poderá negá-la a homossexuais, sob o risco de punição.

b. Ensinar que a homossexualidade, mais do que pecado, já é castigo divino sobre a idolatria (como fica claro no texto bíblico transcrito acima), torna-se crime. Ora, tal ensino desdiz muito em muitas partes a Palavra de Deus, com a qual estamos comprometidos, e o púlpito fica cerceado em sua missão de luta por uma sociedade mais santa.

À luz de tudo isto, exorto aos irmãos, ovelhas do Senhor, debaixo de meus cuidados pastorais, a que escrevam ao senador em quem votaram nas últimas eleições, manifestando repúdio a esse Projeto de Lei.

Pastoralmente, do fundo de meu coração
Rev. Fôlton Nogueira



Observações úteis:

1. Onde o Projeto de Lei pode ser lido: http://www.senado.gov.br/sf/publicacoes/diarios/pdf/sf/2006/12/14122006/38854.pdf)

2. Onde encontrar o endereço do Senador em que você votou:http://www.senado.gov.br/sf/senadores/senadores_atual.asp?o=1&u=*&p=*

3. Um histórico do Projeto de Lei e uma análise profunda do mesmo veja o Parecer do Dr. Paulo Fernando de Melo em 23/5/2007 em: http://movimentodeapoio.blogspot.com/2007/05/plc-1222006-brilhante-pronunciamento-do.html

4. Endereço do Senado Federal: Senado Federal - Praça dos Três Poderes - Brasília DF - CEP 70165-900 - Fone: (61)3311-4141

Também é bom conhecer:
1. Um pouco do que revela o termo “homofobia” analisado por um filósofo Católico Romano http://www.olavodecarvalho.org/semana/070523dce.html

2. Quadro geral acompanhado por uma psicóloga evangélica
http://movimentodeapoio.blogspot.com/

sábado, 2 de junho de 2007

Mediata e imediatamente 1/3

O SENHOR opera através de meios ou sem eles. No primeiro caso dizemos que ele operou mediatamente e no segundo imediatamente.

Foi assim desde o princípio. Quando do nada fez a luz, ele estava operando imediatamente.

Quando do barro fez o homem, ele estava operando mediatamente: usava o barro como meio.

O Filho, a segunda Pessoa da Trindade também agiu assim, não apenas antes de encarnar-se, quando "agente executivo" da vontade do Pai (a Palavra que não volta para ele vazia, mas faz tudo o que lhe apraz), mas também "nos dias de sua carne". Quando disse "Lázaro, vem para fora" e o defunto Lázaro obedeceu, ele agiu imediatamente. Entretanto quando aplicou lama aos olhos do cego e mandou que os lavasse no tanque de Siloé para ficar bom, ele o curou servindo-se de meios: mediatamente.

Por semelhante modo o Espírito Santo, a terceira Pessoa da Trindade, ao manifestar-se no dia de pentecostes o fez imediatamente: capacitou aos primeiros cristãos a que falassem as "grandezas de Deus" em 14 idiomas diferentes. Idiomas que não eram conhecidos deles, nos quais eles nunca se expressaram, nem foram treinados para fazê-lo. Entretanto, na mesma ocasião, considerando outro ângulo do mesmo acontecimento, os demais que ouviram a mensagem foram atingidos através de um meio, pois não ouviram diretamente do Espírito Santo, mas daqueles que ele capacitou para tanto.

O princípio é o mesmo: Deus intervém. A forma como ele procede essa intervenção pode variar.

Todos os dias vemos a semente germinar e produzir muitas outras, mas não chamamos a isso de “multiplicação dos pães” – embora, em última análise, seja – nem sequer dizemos ser algo sobrenatural, embora seja um milagre tão óbvio quanto o que o Senhor Jesus fez na Galiléia.

Parece que é sempre assim: todos os começos demandam algum tipo de ação imediata que se estabiliza depois, através de meios que se repetem, e, pelo costume, acabamos chamando-os de naturais; mesmo que saibamos o quão “sobrenaturais” sejam.

Não foi assim na criação? Não foi assim no início da Antiga Aliança? Não foi assim na aplicação da Nova Aliança no dia de pentecostes?

No início era necessária uma capacitação imediata de falantes de muitas línguas. Hoje, esse mesmo milagre é realizado, pelos que aprendem uma língua, inventam sua representação gráfica, sistematizam-na em uma gramática, traduzem para ela as histórias contadas por seus falantes, ensinam tais falantes a “ouvir” tal língua a partir dos sinais grafados e reconhecer suas histórias. E, a partir de então, “para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo”, traduzem para ela as Sagradas Escrituras, já que “aqueles antigos modos de Deus revelar sua vontade ao mundo cessaram”.

Não poderíamos dizer algo semelhante sobre as habilidades de cura? Mas isso fica para a próxima semana.

sábado, 26 de maio de 2007

Pentecostes: A presença do Bom Pastor

Ao retomar a glória que tinha junto do Pai antes que houvesse mundo, o Senhor assumiu a tarefa de interceder por nós e, como fazia antes - e fez durante os dias de sua carne - retomou também a tarefa de construtor: está preparando-nos lugar.

Porém, não nos deixou órfãos. Pelo contrário, nos enviou seu Espírito que "é sobre todos, age por meio de todos e está em todos", e, portanto, está onipresentemente conosco.

Sua natureza humana, glorificada, está à destra do Pai. Seu Espírito está conosco. E porque seu Espírito está conosco temos o conforto (cum+fortius = com força) de sua presença, lembrando-nos de tudo o que disse, fazendo-nos ver claramente sua vontade, querê-la e realizá-la.

Ele não está ocioso nos céus e tampouco nos deixou ociosos na terra: seu Espírito capacita-nos a trabalhar em prol de seu reino, dando-nos conhecimento, discernimento e disposição necessária para tanto. E o ato inicial desta tarefa aconteceu 10 dias após sua volta aos céus, no dia de Pentecostes.

Naqueles dias precisávamos ser convencidos de que a tarefa que ele nos dera, destinava-se mesmo a todas as nações e que tínhamos condições de realizá-la. A falta dos meios não seria obstáculo, pois ele mesmo supriria. Tudo isso ocorreu de uma só vez.

Todos eram judeus e sabiam que as manifestações do SENHOR sempre eram sinalizadas, sendo o fogo um dos principais sinais que ele usava. Foi assim no Sinai, quando o Tabernáculo foi consagrado, quando o primeiro Sumo-sacerdote (Arão) foi ungido, quando o Templo de Salomão foi dedicado, etc. Nada mais natural, portanto, que ele usasse o mesmo sinal. E usou: sobre cada um apareceu o que Lucas descreveu com as palavras: "línguas como de fogo".

Para deixar claro que a ordem que dera referia-se a todas as nações, o ato seguinte foi capacitá-los – sem quaisquer meios ordinários – a falar idiomas de outros povos. Se desde Babel eles eram um empecilho, agora não eram mais.

Para deixar claro que as condições para cumprir a missão seriam supridas o fogo atestava simbolicamente que o mesmo poder conferido aos agentes da Antiga Aliança estava sendo conferido à cada um deles. Eram, por assim dizer, novos tabernáculos em que o Senhor residiria e novos sacerdotes que conduziriam muitos ao Senhor.

O Pentecostes atesta a vitória e exaltação de Cristo, sua presença conosco, e marca o início da nova formação do povo de Deus, que não está mais adstrito a uma nação, tampouco a um lugar, muito menos a um idioma.

E sua promessa continua: “eis que estou convosco, todos os dias, até a consumação do século”.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Ascensão

Quando o Senhor encarnou-se, assumindo a natureza humana, esvaziou-se de alguns dos atributos que tinha como Deus. Era Deus conosco. Maria, esclarecida do que estava acontecendo pelo anjo Gabriel, soube que desde aquele primeiro momento estava carregando em seu ventre o Filho de Deus.

Os dias, biologicamente determinados, se completaram e Maria entregou à luz um menino. Novamente, os anjos – agora um verdadeiro exército deles – se encarregaram de esclarecer o que estava acontecendo a uns pastores que daquelas redondezas.

Durante trinta anos o Deus-conosco "aprendeu pela obediência" o que era ser descendente de Adão. Como criança foi submisso a seus pais terrenos. Como adolescente foi estudioso das coisas do Pai celeste a ponto de impressionar os terrenos. Como adulto foi construtor, como sempre foi seu Pai celeste e como aprendeu de seu pai terreno.

Trinta e três anos depois o Deus-conosco esvaziou-se ainda mais: morreu. Em vez de um útero aquecido, foi recebido por um túmulo frio. Ambos virgens. Em vez de 9 meses, três dias. Em vez de crescimento físico, espera incorruptível.

Os dias, profeticamente determinados, se completaram, e no primeiro dia da semana, saiu à luz: ressuscitou. Recebeu de volta a vida biológica da qual se esvaziara. E, como aconteceu ao nascer, anjos testemunharam sua ressurreição, esclarecendo a Madalena e a outros discípulos o que estava acontecendo.

Durante quarenta dias, aquele que aprendeu sobre o "reino dos homens" ensinou aos seus a respeito do "Reino dos céus". Então recebeu de volta tudo aquilo de que se esvaziara ao encarnar-se. E, novamente os anjos se encarregaram de explicar o que estava acontecendo enquanto ele ascendia aos céus.

A maldição imposta a Adão e a seus descendentes foi revogada através do novo Adão com novo tipo de descendência: a fé.

Os descendentes do velho Adão nasceram espiritualmente mortos fora do Paraíso de onde ele fora expulso. Os descendentes do novo Adão são aqueles que, espiritualmente ressuscitados, anseiam pela volta, e tem certeza dela, pois afinal o primeiro deles já está lá.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Adorar um homem?

O Senhor escolheu 12 homens, a quem chamou Apóstolos e lhes deu autoridade, sobre muitas coisas. Até sobre reter ou perdoar pecados. Porém, eles nunca se deixaram adorar. Ao contrário, não há uma só narrativa em que alguém tenha tentado fazer isto e eles não o impedissem.

Temos e devemos ter alegria e prazer naqueles que alcançaram maior entendimento e virtude na vida de busca pela semelhança com Cristo. Porém, adorá-los é demais. Servir-se deles, como intercessores junto ao Pai, é o mesmo que vilipendiar quem “é o único mediador entre Deus e os homens”: Jesus Cristo.

Então, baseado em qual argumento, em que silogismo, ou debaixo de qual autoridade - ou qualquer coisa semelhante - um filho de Adão, morto em "delitos e pecados", carecente da graça de Deus e da intermediação de Jesus Cristo, arroga-se a autoridade de declarar que outro filho de Adão, sujeito às mesmas fraquezas e necessidades, deve ser adorado?

A Igreja Católica Romana merece nosso aplauso pela luta aberta que trava contra a prática do aborto, em favor de uma moral sexual mais sadia.

Não podemos concordar com ela que o único papel do sexo seja a procriação, e que, portanto, todos os meios anticoncepcionais devam ser evitados. Devemos evitar, sim, os meios “anti-natais” (que visem o nascimento de um ser, mesmo que ainda seja um pequeno aglomerado de células. Porém, os meios naturais que impeçam a fecundação não são imorais, ou criminosos em si, e, usados com fim legítimo, não devem ser tolhidos.

Entretanto, como é que se luta a favor de uma conscientização clara desses problemas e ao mesmo tempo se incentiva a ingestão de pílulas cujo conteúdo é apenas papel e tinta?

Admira-me a luta em favor do bem. Espanta-me a manutenção da credulidade naquilo que não recebe qualquer apoio das Sagradas Escrituras.

Quando comemoramos 100 anos do presbiterianismo, debaixo de acusações de sermos maus brasileiros, pois não acatávamos as disposições da “igreja mãe”, contou-se muito um hino, que, dirigido ao povo brasileiro instava-se a um arrazoado. Por oportuno, transcrevo abaixo a parte da qual me lembro dele através do canto de minha mãe.


Pobre gente piedosa e sincera
Que não abre seus olhos à luz
Que confunde a massa do trigo
Com o celeste e divino Jesus.

(coro)
Oh! Não confundas a pátria terrestre
Com os fulgores da pátria da fé.
No Brasil quem com fé repele o erro
Brasileiro sincero é que é (bis).

Pobre gente que julga nas mãos
O seu Deus conduzir num andor
Não sabendo que mãos de mortais
Não manejam o céu do Senhor.

domingo, 6 de maio de 2007

Quando o Senhor nos espera na praia

Ontem, a lua já estava alta e não se refletia mais nas águas do Rio doce, mas ainda insistia em vencer a claridade das lâmpadas da rua, me lembrou dos dias narrados na Escritura em que o Senhor, depois de ressuscitado, manifestou-se diversas vezes a seus discípulos.

Sempre tive a impressão que ele só fez isso aos domingos: Às mulheres, que foram ao sepulcro com a intenção de embalsamar seu corpo, manifestou-se logo após ressuscitar. Aos dois que viajavam para Emaús, manifestou-se ainda no mesmo dia. E, João nos informa que era o mesmo dia quando ele apareceu aos demais em uma casa com as portas trancadas. Entretanto Tomé teve de esperar uma semana para vê-lo.

João, dá-nos impressão de ter passado um bom tempo até aquela manhã em que eles foram recebidos na praia pelo Senhor. Isso justificaria melhor a desolação de Pedro: “vou pescar”.
Não creio que Pedro, pescador de profissão, naquela noite estivesse interessado nos peixes, ou no lucro que a venda deles lhe daria, mas em aliviar a angústia de ter negado seu Senhor, ter sido lembrado por ele logo que ressuscitou e já tê-lo visto pelo menos duas vezes sem a liberdade de falar-lhe como falava antes.

A lua cheia de ontem me lembrou que talvez aquela noite tivesse sido assim, pois “noite de lua é boa pra pesca”.

Todos foram com Pedro. Até os que não eram pescadores de profissão: também estavam desolados e uma pescaria sempre faz bem. Mas “naquela noite nada apanharam”.

A lua cheia de ontem também me mostrou outros desolados. Não estavam em um barco no Rio Doce. Vagavam pelas ruas vindo de simulacros de igrejas que prometem todo sucesso material, amoroso e espiritual.

Tal qual aqueles pescadores, passavam a noite (ou parte dela) tentando conseguir algo. Algo que nem eles mesmos sabem o que é, mas que estão certos de reconhecer tão logo tenham.

“Mas, ao clarear da madrugada, estava Jesus na praia”. Porém, nenhum peixe no barco e nenhum peixe nas redes.

Apesar de terem ido pescar apenas pela pescaria, seria bom ter pegado algo: o bom da pescaria não é a recompensa da luta com o peixe depois da espera?

Abençoados: encontram Jesus. Não bastasse, receberam dele a informação certa que os conduziu ao sucesso natural de uma pescaria, que mesmo quando é feita “para espairecer”, causa alegria se coroada de êxito.

Pedro entendeu muito bem o respeito que devia ao Senhor e vestiu-se.

Não bastasse, ao chegarem a praia foram recebidos com o calor de um braseiro, peixes sobre as brasas e pão.

O convite de quem sabe o que é passar uma noite em claro, “vinde, comei”, é completado quando o próprio Senhor lhes serviu pão e peixe.

E Pedro?

Afoito, não desfizera de seus irmãos garantindo que, mesmo se eles negassem ao Senhor, jamais o faria? “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros?”

Afoito, não levara o Senhor à parte para repreendê-lo sobre aquela história de ser morto? “Simão, filho de João, tu me amas?”

Medroso, diante de servos, não havia negado seu Senhor três vezes? “Simão, filho de João, tu me amas?”

De nada adiantou chorar amargamente. De nada adiantou, estressado, ir pescar. De nada adiantou vestir-se diante do Senhor (somos transparentes ao seu olhar). “Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo”.

Não sei se era noite de lua. Talvez fosse. Sei que era época de frio. E naquela noite diversos tipos de frio açoitaram aquele homens. O mais simples deles foi debelado com o braseiro. O outro foi debelado pelo amor e gentileza do Senhor. O pior deles, o que rasgava o coração de Pedro, somente sua Palavra o fez.

Querido irmão: não vague atrás da Palavra do Senhor por esses lugares escusos. Ela não está lá. Tire-a de sua estante. Devore-a com sofreguidão. Encha seu coração com ela. Ela iluminará seus caminhos com claridade maior que a da lua cheia e o aquecerá melhor do que um braseiro.

domingo, 29 de abril de 2007

A Palavra: no princípio e no fim

A Palavra dAquele que sempre existiu, sempre existiu também. Por proceder dEle, a metáfora que eles mesmos usam para darem-se a entender é a paternidade e a filiação. O Falante é o Pai. A Palavra é o Filho. E, apesar de a Palavra proceder do Falante, como um filho procede de um pai, o Falante nunca esteve só sem sua Palavra e sua Palavra sempre o acompanhou e sempre foi sua expressão. Todas as características do Falante sempre estiveram, estão e sempre estarão também em sua Palavra.

A Palavra nunca voltou para o Falante vazia. Pelo contrário, sempre fez o que lhe aprouve. Quando Ele quis que houvesse luz, bastou dizer “haja luz” e o dizer já era a Palavra e a Palavra do nada fez luz.

Impossível dissociar a Palavra do Falante. Impossível imaginar a Palavra sem o Falante. Mas, apesar de possuir tal companhia, em tudo semelhante a Si e sempre diante de Si, o Falante – só Ele sabe por que – resolveu Falar “sucessão e mudança”. A Palavra, incontinenti, criou o que chamamos de tempo. E, dentro de uma sucessão de tardes e manhãs – coisas próprias do tempo – conforme o Falante Falava, muitas mudanças ocorreram: As águas de cima – o firmamento – foram separadas das águas de baixo, que também foram separadas da parte seca: a terra.

Bastou o Falante falar “vida” e a Palavra povoou o firmamento, as águas e a terra de seres vivos adequados a esses ambientes. E, para reger a vida sujeita a “sucessão e mudança”, o Falante disse: “nossa imagem e semelhança”. Imediatamente a Palavra, do barro, fez o homem.

Tudo o que era feito trazia a marca da Palavra e conseqüentemente a marca do Falante, e os expressava como as palavras expressam aquilo a que se referem. Eram palavras menores. O homem, entretanto, expressava mais e melhor, pois sendo imagem e semelhança dEles não apenas vivia, mas compartilhava com a Palavra e com o Falante do mesmo Espírito que os unia e inseparavelmente estava com Eles desde sempre. Era uma palavra temporal maior. Como se fosse um eco da Palavra eterna, tinha em comum a mesma missão: criar, manter e reger, na “sucessão e mudança” aquilo que o Falante havia proferido.

Livre para dizer, sob as limitações do tempo, o que a Palavra eterna disse sem a limitação dele, preferiu dizer o oposto. Preferiu ter outro significado. Preferiu a efemeridade e contingência do ressoar do sino e do retinir do bronze.

Presumiu-se inalterável, apesar de alertada do contrário, e o que conseguiu foi esvaziar-se a si, e aos que regia, de seus significados originais. E, como passaram a desdizer a mensagem da Palavra eterna, o Falante também as desdisse.

Daquilo que tinham em comum com o Falante, guardaram muito pouco e, mesmo esse pouco, foi danificado: perderam a capacidade de expressar o Falante. Os trapos em que se tornaram passaram a ser expressão de sua própria rebeldia e de sua própria desgraça. Deixaram de ser ecos da Palavra eterna e encheram o mundo de ruídos sem qualquer significado que não a própria rebeldia.

Frustrariam os desígnios do Falante?

Se a Palavra eterna nunca voltou-Lhe vazia, acaso esses ruídos insignificantes continuariam a desafiar o Falante proclamando nas trevas – em que passaram a existir – sua própria rebelião em vez das virtudes dAquele que Fala desde sua maravilhosa luz? Não! Nunca! Jamais!

O Falante novamente falou. Falou ao ponto de abalar tudo o que já fizera e sua Palavra esvaziou-se de Si mesma e assumiu a natureza das palavras rebeldes. Não deixou de ser Palavra eterna, mas por poucas tardes e manhãs – coisas próprias do tempo a que agora estava sujeito – adquiriu o que restara de significativo das palavras efêmeras e rebeldes, e recebeu a desdita do Falante.

Ao retomar seu significado eterno, eternizou o que adquiriu e restaurou o significado daquelas que quis.

Tornou-se uma palavra temporal, para dar-lhes significado eterno. E deu-lhes. Tornou-se uma palavra temporal para mostrar o significado mau, soberbo e arrogante da rebeldia contra o Falante. E mostrou nas que não quis atribuir significado eterno.

Hoje as palavras que a Palavra eterna livrou da insignificância voltaram a significar aquilo para o que foram criadas. Não conseguem ainda ser como antes, pois, apesar de seu significado ter sido restaurado, sua forma ainda está danificada e nelas o ruído e a ambigüidade ainda se destacam.
Entretanto, dia-a-dia, ajudadas pela Palavra eterna, abandonando os significados errados, soberbos e arrogantes, de si mesmas ou do mundo, bendizem o Falante.

E, nas tardes e manhãs de um dia futuro – no tempo ou fora dele – bendirão melhor do que bendiziam quando foram criadas, pois, na companhia da Palavra eterna, louvarão o Falante no meio da congregação.

sábado, 21 de abril de 2007

Minha cruz

A cruz do Senhor era de madeira. O mesmo material com que ele trabalhava, e que estava acostumado a cortar em pedaços de tamanho adequado ao que pretendia fazer. Porém ele a recebeu inteira, no tamanho suficiente para suportar o peso de seu corpo.

Pregos fixaram o Senhor a cruz. Provavelmente ele também os tenha usado na fixação de um umbral ou das vigas mestras de um telhado. Naquela época os pregos eram caros e, feitos sob encomenda, demoravam a ficar prontos.

Hoje, enquanto leio este texto, penso na cruz que sou obrigado a tomar como discípulo do Senhor. Ela não é de madeira. Na maioria das vezes nem sei do que ela é feita, mas a reconheço prontamente. Nunca tive e nunca terei domínio tal sobre sua matéria de modo que eu possa cortá-la e com ela fazer algo que tenha outra serventia. Seu material parece ter sido feito exclusivamente para mim, e só serve para, pendurando-me, manter-me exposto ao escárnio de quem passa e me vê.

Hoje, sou fixado a essa cruz, por um único tipo de prego: a vontade Deus. Se ela não prevalecesse sobre a minha, há muito eu já teria descido da cruz.

O Senhor de todas as coisas foi mantido por pregos em uma cruz de madeira, mas ele estava livre de qualquer coação humana. Ficou nela porque quis: de boa-vontade, por mim.

Seu servo inútil, que sou, que sequer faço o que deveria fazer, quero distância de cruzes e pregos. Entretanto o Senhor, com terno amor, me mantém em uma – infinitamente menos dolorosa do que a que ele suportou voluntariamente – visando meu bem.

O Senhor suportou sua cruz até o fim. Quando pregado orou a favor de quem o pregava. Quando convidado ou desafiado a sair dela sequer dava ouvidos.

Seu servo inútil, que sou, à simples visão de minha cruz, debato-me, estrebucho, e às vezes pergunto: por que eu? Quando zombado envergonho-me. Quando convidado a sair dela alegro-me. Mas a cruz é meu refúgio. Lá não posso fazer meu próprio querer, não posso conformar-me à este século, e na cruz estou livre dos assaltos do inimigo.

Não fui crucificado para ser salvo, mas por que já estou salvo. Não fui crucificado como castigo, mas para minha proteção, pois não há local mais seguro.

Lá ficarei até que, mortificado, renda a Deus meu próprio eu e morra para tudo aquilo que hoje ainda me afeta e me subjuga. Então serei ressuscitado em glória, como meu Senhor o foi.

Estou em boa companhia: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”. Gl 2.20.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

ENSAIO - Educadores Cristãos

Educar é sempre um processo em que o educador se "engaja" com o bem do aluno. A forma como este engajamento acontece varia de educador para educador e de aluno para aluno. A Educação Cristã não é muito diferente. Porém, seu objetivo maior não é fazer com que cada aluno se "potencialize" ao máximo com vistas a seus próprios interesses, mas levá-lo a adequar-se cada vez mais à vontade revelada de Deus. Ou seja: a Educação Cristã não existe sem a Palavra de Deus, pois dela depende e para ela existe. Ela é seu ponto de partida e sua meta.

Fico satisfeito em dividir os Educadores Cristãos em apenas dois grupos, conforme a abordagem que eles fazem da Palavra de Deus. A variação que existe em cada um desses grupos acontece apenas na intensidade com que o Educador Cristão enfatiza seu modo de ensino

O primeiro grupo constitui-se daqueles para quem o mais importante é provar que a Bíblia é a Palavra de Deus. De certa forma eles não estão errados, mas, ao partirem da dúvida, geram em seus alunos um fruto amargo do qual eles jamais se livrarão sem o auxílio da graça divina.

Geralmente, após a leitura do texto bíblico ou do tema teológico ter sido proposto, a abordagem começa com o questionamento. Invariavelmente as perguntas visam a que o aluno tenha certeza de que aquilo de que se está tratando é relevante para sua fé e para a fé daqueles que um dia aprenderão dele. Ou seja: certificar-se de que ele não está perdendo tempo. Destaca-se:
- O que mais dá suporte ao ensino deste texto?
- Que implicações práticas esse texto tem para nossos dias?
- Como esse texto pode ser explicado à luz das novas descobertas científicas? (Note a ordem)
- Você está disposto a morrer por essa verdade?
- Esse ensino é mais precioso do que o papel que o contém? (geralmente aqui é apropriado degradar o volume bíblico, rasgando-o, jogando-o no chão, sentando-se em cima dele, ou coisas semelhantes que separem bem o continente do conteúdo, o significante do significado).

Os educandos ficam fascinados com a erudição do professor que achou suporte para todas as afirmações do texto, mostrou sua utilidade em nossos dias, discorreu sobre as novidades das ciências e da graça comum, comprometeu-se com a verdade e aprenderam que aquela verdade é tão transcendental que ela pode ser veiculada de qualquer forma, através de qualquer mídia, mesmo que seja a mais abjeta.

O segundo grupo tem abordagem oposta. Não está tão preocupado em provar que aquele texto é a Palavra de Deus, pois sabem que as ovelhas de Deus identificam sua voz. Entretanto não descuida de verificar a autenticidade histórica e formal do texto. Afinal, o modo mais eficiente de lutar contra as verdades cristãs não é negá-las, mas torcê-las.

Geralmente após o texto bíblico ter sido lido, ou o tema teológico ter sido proposto, faz-se um "recenseamento" dele. Como ele foi recebido, como nossos antepassados, especialmente os mais próximos dele, o entenderam, e, principalmente, como ele se encaixa, no ensino daquele escritor (se ele escreveu outras coisas) e no "ensino geral" das Escrituras (o que tecnicamente é chamado de 'analogia da fé').

Não degrada o veículo através do qual o texto chegou até nós, entretanto não lho adora. Simplesmente o respeita como o receptáculo e veículo daquela verdade.

Todas as questões levantadas por um representante do primeiro grupo estão contidas e automaticamente respondidas no apreço que se tem àquele texto ou ensino.

Geralmente estes professores não são tão cativantes, pois, acostumados em uma "sociedade da informação fantástica", seus alunos não vêem muita graça no processo que acabaram de testemunhar. Entretanto, como a chuva que nutre a planta, a Palavra do Senhor os faz crescer.

Qual dos sistemas é o correto? Depende do objetivo. Se o educador tem quer formar discípulos de si mesmos não há dúvida que o primeiro é mais eficaz. Mas, se quiser formar pessoas que levem os próprios pensamentos cativos para obedecer a Cristo, discípulos do Autor da Palavra, sábios, no sentido bíblico, terá de optar pelo segundo, pois "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria".

Em meus 16 anos como professor de seminário já recebi alunos que iniciaram seus estudos conforme o primeiro método. A poucos consegui transmitir o apreço e respeito devido à Palavra de Deus. O hábito da crítica e a barreira da desconfiança sempre foram obstáculos fortíssimos. Hoje a perspectiva fornecida pelos anos longe do Seminário me convenceu que o melhor é começar do zero. Se for possível.

sábado, 14 de abril de 2007

Os Inimigos da Cruz de Cristo

Será que alguém pode odiar a cruz de Cristo? Talvez ser-lhe indiferente. Mas, odiar? Infelizmente há quem a odeie, sim! Pior: nas Igrejas e muitas vezes são líderes delas.

Quando o Apóstolo Paulo escreveu à Igreja da cidade de Filipos disse claramente: “Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo” Fp 3.18.

Àquela época, parece que o Apóstolo tinha em mente seus patrícios que insistiam em exigir que os novos cristãos passassem pelo judaísmo, pois ele diz “o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia”, aludindo às leis alimentícias e à circuncisão.

Ainda hoje podemos ver os “que ... exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças” (1Tm 4.3). Entretanto, hoje eles apresentam uma face mais moderna.

Aos coríntios, que muito valorizavam o saber, Paulo expôs o Evangelho não com “sabedoria de palavra”, mas com “a palavra da cruz” para não anular sua mensagem.

Aos gálatas, que estavam sendo assediados por esses judaizantes, deixa claro que a intenção deles, impondo obrigações, era desviar a atenção do “escândalo da cruz”, e ostentarem-se na carne e não serem discriminados. Mas, ele, Paulo, não se gloriava em nada além da cruz, pois nela o mundo havia sido crucificado para ele e ele para o mundo.

Aos efésios, preocupados em como entender as promessas igualmente feitas aos judeus e gentios, Paulo garante que a cruz nivelou tudo. A tal ponto de que nela judeus e gentios foram reconciliados “em um só corpo com Deus”.

Aos colossenses ensinou que tudo o que devíamos a Deus, e nos prejudicava, desde a mais simples ordenança, que nunca conseguimos cumprir, Jesus encravou, pregou, (do mesmo modo como ele foi pregado) na cruz, expondo ao desprezo, triunfando sobre os rudimentos que nos mantinham debaixo de jugo.

Você entendeu? Se alguém ensinar, como é ensinado hoje, que é necessário, reencarnar-se, purgar pecados, deixar de comer isso ou aquilo, pagar tanto, ou guardar qualquer tipo de obrigação, para que ser salvo, tal pessoa é inimiga da cruz de Cristo, pois está fazendo sombra sobre ela: a maior de todas as coisas. Também está dizendo que ela não é suficiente. Zomba da sabedoria de Deus e faz pouco caso do sofrimento de Jesus.

É claro que obedecemos as ordens que o Senhor nos deu: evitamos pecar, observamos os períodos que ele mesmo estabeleceu para nos fortalecermos comunitariamente junto dele, arcamos com as despesas decorrentes disso, etc. Porém o fazemos porque já estamos salvos.
Fomos pendurados com ele naquela cruz. Somos amigos dela. Preferimos estar nela a desfrutar os maiores e melhores prazeres que o mundo nos ofereça fora dela.

Se o Senhor, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não levando em conta o quanto isso era escandaloso para os judeus e “idiota” para os gentios, acaso podemos recusá-la? Somos melhores do que ele? Temos vergonha de sua cruz? Somos inimigos dela?

Finalmente, tenho visto que para fugir desta vergonha os “neo-evangélicos” escondem-se atrás da “celebração da ressurreição de Cristo”. Tudo a pretexto de festejar e parecer mais agradável ao mundo, copiando suas músicas, seus shows, suas modas, até os chavões com que se apresentam e apresentam seus sucessos. Trocam o púlpito, onde a cruz é anunciada pelo palco onde é escondida nos bastidores ou estilizada nos cenários.

Dia desses recebi um convite cuja frase final resumia seu conteúdo: “Jesus fez tudo. Agora só nos resta celebrar”.

Deixem-me dizer claramente: nem a ressurreição aconteceria sem a cruz. Jesus tinha de morrer numa cruz. Se o inimigo tivesse conseguido matá-lo quando tentou (Herodes, os da sinagoga de Cafarnaum, ou através de qualquer outro modo que não a cruz), sua morte teria sido vã.
Ele tinha de morrer condenado por um tribunal religioso, o Sinédrio (pois assim estava sendo condenado por Deus no aspecto formal da religião), por um tribunal civil, pois assim estava sendo condenado por nós, e finalmente deveria receber a maldição divina que recebia todo aquele que ficava “pendurado no madeiro”.

Certamente, só seremos amigos da cruz de Cristo, quando dissermos e vivermos “CRUX SOLA NOSTRA TEOLOGIA”.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Os mais miseráveis de todos os homens

Quando o Apóstolo Paulo escreveu à Igreja de Corinto, ao falar sobre a ressurreição, coisa em que eles não criam, foi duro e disse: Se nossa esperança em Cristo limita-se apenas às coisas desta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. (tradução minha).

A Igreja de Corinto dizia-se cristã, como muitas hoje se dizem também. Possuía qualidades inegáveis, como algumas hoje também possuem. Tinha seus defeitos - como é próprio de qualquer ajuntamento humano - e, talvez, defeitos até mais graves do que os que são tolerados na Igrejas mais “modernas” de hoje: a presença de um incestuoso na comunidade.

Depois de exortações sobre cada um dos problemas, sua atenção volta-se para uma crença que, era uma verdadeira contradição de termos. Uma estupidez, e, pela única vez, nesta carta ele os chama de “insensatos”.

A palavra que ele usa é um pouco mais pesada do que nossas traduções deixam entender, pois também pode ser traduzida por “tolos ou ignorantes”. Seu sentido básico é “falta de capacidade de entender algo”. Não sei se poderíamos chegar ao vulgar “idiotas” ou “burros”, mas está muito perto disso.

Enquanto alguns dizem que Paulo perdeu a cabeça, ou a paciência, eu prefiro ver a mesma ira, expressa pelo Senhor Jesus quando expulsa os vendedores do templo a chicotadas.

Não era concebível que alguém que se identificava-se como “cristão” esperasse do Senhor apenas o que concerne a esta vida.

O raciocínio é tão simples que ignorá-lo prova a tal “falta de capacidade de entender algo”. Siga os passos do raciocínio:
1º Passo: Ser cristão, é o mesmo que dizer que Cristo ressuscitou, pois se ele morreu e continuou morto, o que foi que ele fez demais? O mundo não está cheio de mestres e mártires?
2º Passo: Se, como cristãos, diziam que Cristo ressuscitou, por que não acreditavam que ressuscitariam também? Afinal, ele ressuscitou pra que?
3º Passo: Se o destino do cristão é ressuscitar para estar junto de Cristo, por que a esperança deles estava limitada apenas às coisas desta vida?

Percebeu?

É uma contradição de termos dizer-se cristão e não esperar pela ressurreição.
O caso a seguir é verídico e exemplifica bem:

- Por que você veio à Igreja?
- Porque eu estava falindo e fiz um acordo com Jesus e hoje minha loja está crescendo como nunca.
- E a senhora?
- Eu estava doente e fui curada.

E assim seguiram-se muitas perguntas semelhantes no programa de rádio transmitido ao vivo.

Porém, uma senhora respondeu:
- vim para agradecer a Deus pela salvação em Cristo.
- Salvou de que? Perguntou o repórter.
- Salvou da morte eterna.
- Mas, não tem mais nada?
- Não.
- Não foi curada, o casamento não foi consertado? Insistiu.
- Não! Nunca fiquei doente e sou solteira.
- Então veio pedir um emprego?
- Também não. Meu pai me deixou uma herança boa e eu ajudo uma creche do meu bairro.

O repórter desconversou e procurou outra pessoa. Aquela não tinha nada fantástico para falar. Ela fora apenas salva. Ela tinha apenas a vida eterna.

Entendeu o que é limitar a esperança em Cristo apenas a essa vida?

Se ele quiser que sejamos sadios, prósperos ou que vivamos tranqüilos, ele certamente fará isto. Porém se não quiser já temos o mais importante: ressuscitaremos e estaremos para sempre com ele.

Não somos os mais miseráveis de todos os homens. Não temos de viver cada dia como se fosse o último dia de vida. Nossa vida não acabará nunca.

domingo, 1 de abril de 2007

As invasões de Jerusalém

Há 100 anos antes a Assíria tinha levado cativas as 11 tribos de Israel que formavam o Reino do Norte. Agora os Babilônios, que dominaram a Assíria, sitiavam Jerusalém. O cerco era total e já durava 1 ano e meio. Não fosse um aqueduto escavado na rocha já tinham capitulado.

A persistência venceu: fizeram uma brecha no muro e invadiram Jerusalém. Jeremias narrou que 7 príncipes da Babilônia entraram e sentaram-se à porta do meio.

Os homens de guerra e o Rei Zedequias fugiram à noite, mas foram alcançados. O Rei viu seus nobres serem mortos, em seguida seus filhos, e, para ficar como última imagem, furaram seus olhos e foi levado em algemas para a Babilônia.


Essa não foi a única vez que Jerusalém foi invadida. Mas, apresenta-nos um contraste notável com o que comemoramos hoje.

Diferentemente do cerco militar dos Babilônios, Jesus cercou Jerusalém de bondade. Curou, ensinou e pregou em todos os seus arredores e dentro dela. Testemunhou-lhes a vontade do Pai.

Revelou-lhes a verdadeira dimensão da lei. Criticou suas autoridades e limpou, por duas vezes, o templo em que havia de ser condenado, como condenados eram os cordeiros do sacrifício e concitou-lhes ao arrependimento.

Diferentemente dos Babilônios, não cobiçou suas riquezas, mas os encheu de oportunidades. Na verdade tornou a todos mais ricos e mais responsáveis por tesouros que sequer se deram conta de estar recebendo e muito menos entendiam a preciosidade deles: Ensinos profundos através de parábolas simples, discursos didáticos ou virulentos e milagres tão surpreendentes que um dos evangelistas registrou “hoje vimos paradoxos”.

Mas não entrou em Jerusalém pela força, muito menos em montaria de guerra. Não botou suas autoridades para fugir. Não matou seus nobres, nem cegou seu rei.

Que força poderia deter aquele que vem cumprir profecias que lhe diziam respeito? O que se pode esperar de alguém que elege um jumentinho para cavalgar até o lugar onde terríveis cavalos de guerra pisaram? Quem fugiria daquele cuja presença abalou e abalaria mais uma vez o céu e a terra? Quem seria tido por nobre diante daquele que, por possuir tudo, podia abrir mão do que quisesse desde o berço até a sepultura? Quem via nitidamente estas coisas? Já estavam cegos.

Cegos também estavam os que imaginavam que aquele homem montado em um jumentinho iria levá-los à vitória contra os invasores romanos.

A cegueira deles, entretanto foi alterada. Na sexta-feira, os que gritaram Hosana gritaram crucifica-o. Viram o próprio engano. Porém mais enganados ficaram. Mais cegos se tornaram. Sequer guardaram a imagem dos filhos sendo mortos. Gritaram: “caia seu sangue sobre nós e sobre nossos filhos”. Caiu.

Hoje, distanciados pelo tempo, vemos com clareza, mas não nos enganemos. A cegueira continua por perto.

Jesus não é nosso “chapa” e sim nosso Senhor. Chega a nós manso, mas exige nada menos que nosso coração. E aos seus pés há de se dobrar tudo o que existe.

É melhor fazermos isso hoje, para não sermos obrigados a fazer mais tarde.

Hoje, ouvindo sua voz, não endureçamos nosso coração.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Veredas da justiça

O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará.
Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma.
Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome.
Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam.
Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda.
Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre.


Excelentíssimos Senhores e Senhoras;
Conquanto nossa República seja leiga, tanto pela definição de seus diplomas legais, quanto pela sua total separação da Igreja, ou de quaisquer correntes religiosas, seus integrantes não o são. E, no administrar da “coisa-pública” fazem bem em buscar a fonte de todo o sistema de valores, que, não apenas moldou, como também expressa-se hoje no exercício da cidadania brasileira. Tal sistema tem origens remotas, mas bem definidas. Espero mostrar um pequeno vislumbre de tais origens.

Este texto bíblico, reminiscências de Davi, o segundo rei de Israel, mistura suas lembranças de como, quando adolescente, cuidava do rebanho de seu pai, com o que via Deus fazendo dia-a-dia em sua vida e com seu dever como rei para com seu povo: seu rebanho.
Não é difícil entender a necessidade que uma ovelha tinha de ser conduzida por seu pastor à águas calmas ou a pastos verdes. Porém quando ele declara “refrigera-me a alma” não há dúvidas que ele não está mais referindo-se ao ovino, mas a si próprio e à seus súditos. Entretanto, o que nos interessa, em um momento como este, é a declaração “Guia-me pelas veredas da justiça”.

O conceito de justiça daquele tempo não era, em quase nenhum de seus muitos aspectos, idêntico ao de hoje.
Os julgamentos eram realizados pelos anciãos da comunidade às entradas das mesmas, e apenas os casos mais graves eram remetidos a um foro principal composto de 70 anciãos que representavam as 12 famílias originais.
A Justiça era essencialmente retributiva: a um dente correspondia outro, bem como a um olho ou a uma vida. Não possuíam cárceres e o cerceamento do direito de ir e vir, como penalidade, foi introduzido séculos depois destas palavras pelo império romano. Também, não possuíam carrascos: a própria comunidade exigia o cumprimento da pena e se fosse a morte era a própria comunidade que a aplicava pelo apedrejamento distribuindo a todos o dever de extirpar o mal e a responsabilidade pela aplicação do castigo. Obviamente, as chances de um erro capital eram proporcionais às condições sócio-culturais. E a reversão de tal erro era nula. Daí a justiça ser tão importante como a água, a comida e o refrigério da alma.

Por experiência própria este rei sabia o quanto a justiça é fugidia. E dentre as muitas palavras de que dispunha para apresentá-la, ele escolhe “veredas”.
Mais do que uma picada na selva fechada, menos do que um caminho, as veredas costumam desaparecer nos lajões de pedra, nos alagadiços e no areal dos desertos.
Não é assim?
Nós pais, que conhecemos a índole, e, muitas vezes, as intenções de nossos filhos, não ficamos em dúvida quando precisamos fazer juízo sobre seus atos? Nós, pastores do Rebanho do Senhor, também não ficamos em dúvida sobre determinadas atitudes das ovelhas que Deus colocou sob nosso cajado?
E os Senhores, excelentíssimos magistrados? Porventura nunca ficaram em dúvida sobre a correspondência entre os registros e fato real? Tais dúvidas decorrem da justiça andar por veredas. Ela relega as auto-estradas. Relega os caminhos planos e impõe-se como desafio aos mais hábeis em achá-la.

Qualquer pessoa pode desempenhar o nobre ofício que lhes pesa às costas? Não é necessário o treino extenuante dos estudos, a busca incessante das experiências alheias registradas na jurisprudência? Não é imprescindível a própria experiência?
Achar a “vereda da justiça” não é tarefa que se designe a qualquer um, por mais bem intencionado que seja. Achar a “vereda da justiça” torna-se menos árduo para aquele que é guiado por Deus, pois o principal interessado nela tem como uma de suas tarefas “guiar pelas veredas da justiça”.

Embora esta Procuradoria não seja uma sala de julgamentos, ela é assentada sobre os fundamentos da justiça. Fundamentos que transcendem a história e cultura de nossa República. Fundamentos que estão além da mais antiga legislação da mais antiga civilização. Fundamentos que retratam um dos atributos do “Juiz de toda terra”. Aquele mesmo que se preocupa em mostrar as “veredas da justiça” e conduzir por elas.
Como cidadão brasileiro, desejo de todo coração e como ministro do Santo Evangelho, peço ao Juiz da Instância Eterna, que esta seja a função primeira e fim último desta casa.
(Sermão pregado em 26/3/2007, por ocasião da Solenidade de Inauguração da Sede da Procuradoria da República no Município de Governador Valadares)

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...