sábado, 13 de março de 2010

O cavalo de Saulo

Desde seminarista observo um fenômeno que, por falta de um nome melhor, chamo de “O cavalo de Saulo”.

Conhecemos o relato da conversão de Saulo. Como ele encontrou Jesus no caminho de Damasco. Apesar de ser uma narrativa simples a maioria vê nela um cavalo. Provavelmente Paulo estivesse montado, porém o texto não diz.

O mesmo ocorre com o beijo de Judas. Garanto que em todos os filme, peças, ou apresentações de classe de crianças que você já viu, Judas, ao trair Jesus, beija seu rosto. Entretanto é mais provável que, como discípulo, ele tenha beijado a mão. Veja os Evangelhos. Nenhum diz que ele beijou o rosto.

Esse fenômeno está presente também - com pequenas variações - em outros textos. Veja o caso da fé que move montanhas.

Marcos nos informa que Pedro admirou-se da figueira ter secado e Jesus disse: “Tende fé em Deus; porque em verdade vos afirmo que, se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele” (Mc 11.22-23).

Pois bem. O que é que faz alguém entender que esta promessa (de mover montanhas pela fé) foi dada a todas as pessoas de todas as épocas? Acaso o texto não é claro? Jesus está falando com quem? Não é com seus discípulos? Com que direito posso me apropriar hoje de uma promessa feita a outros, há dois mil anos, em uma circunstância completamente diferente?

E assim, muitos textos podem ser mal interpretados. Fui pastor de uma senhora que ficou zangada comigo ao ponto de sair da Igreja por eu ter dito que o Salmo 91.7 (Caiam mil ao teu lado, e dez mil, à tua direita; tu não serás atingido) era uma promessa feita a Jesus. Ela cria que o versículo lhe dava um “salvo conduto” contra balas perdidas.

Porém, o texto em que este fenômeno tem se mostrado mais danoso é o capítulo dezesseis do Evangelho de Marcos: a promessa de acompanhamento de sinais aos que cressem.

Uma leitura dos versículos 17 e 18 isoladamente, dá a impressão de que foi prometido a todos os crentes a capacidade de, em nome de Jesus, expelir demônios, falar novas línguas, pegar em serpentes, imunidade a venenos e poder para curar doentes com a imposição das mãos.

Os três primeiros versículos narram como Maria Madalena avisou aos discípulos da ressurreição de Jesus e como eles não creram. Os dois versículos seguintes contam como os que iam para Emaús avisaram também que Jesus lhes aparecera ressuscitado e novamente eles não creram.

Finalmente os versículos 14 a 18, narram como Jesus apareceu-lhes pessoalmente. Censurou-lhes por não terem acreditado em Madalena e nos outros, e mandou-lhes ir pelo mundo afora pregando o Evangelho a toda criatura. E garantiu que, aqueles que cressem, seriam credenciados pelos os sinais acima.

Minha pergunta: Como foi que uma promessa dada a um grupo de onze pessoas acabou sendo apropriada pela maioria dos cristãos de hoje? Não sei. Talvez do mesmo modo que a promessa de mover montanhas - dada ao mesmo grupo - tornou-se propriedade de quase todos os cristãos.

Realmente não sei. Mas desconfio que foi por um motivo semelhante ao que levou todos a verem Judas beijar o rosto de Jesus ou Saulo cair de um cavalo.

sábado, 6 de março de 2010

Duas festas

Dentre as muitas ceias dadas a Jesus, duas se destacam: em ambas ele foi ungido. A primeira, na casa do fariseu Simão, quando ele voltava para a Galiléia e a segunda, na casa de Lázaro, após ressuscitá-lo.

O fariseu Simão negou acintosamente a Jesus as cortesias normais da hospitalidade. Queria dar exemplo para todos o imitarem. Os irmãos Maria, Marta e Lázaro queriam apenas agradecer o milagre.

Era de se esperar que Simão recebesse a Jesus à porta de sua casa com um beijo, providenciasse água e toalha para ele se refrescar do calor e oferecesse azeite, que, emoliente, faria bem ao rosto ressecado e aos pés doloridos da caminhada. Mas acintosamente Simão negou essas simples cortesias.

Era de se esperar que os três irmãos recebessem a Jesus com a intimidade usual: que Lázaro conversasse com ele, Maria ficasse, como sempre, atenta ao seu lado, e Marta, prestimosa, se desdobrasse em preparar o que tinham de melhor. Todos fizeram assim. Fizeram com amor não por simples cortesia.

Na casa de Simão uma mulher, anônima, vendo o acinte, não se conteve. Supriu, em muito, tudo o que foi negado. Simão poderia beijar-lhe o rosto, ela beijou-lhe os pés. Simão deveria fornecer água, ela lavou-lhe os pés com suas lágrimas (a mais nobre das águas, que brota das mais profundas emoções). Simão deveria fornecer uma simples toalha, ela enxugou-lhe os pés com seus próprios cabelos. Simão deveria oferecer azeite, mas ela ofereceu o conteúdo precioso do frasquinho que mulheres como ela traziam ao pescoço para refrescar o hálito.

Na casa de Lázaro, Maria, que gostava de quedar-se aos pés de Jesus ouvindo suas palavras, trouxe cerca de trezentos gramas de bálsamo de nardo puro e o derramou nos pés do Senhor, perfumando toda a casa.

Quando o fariseu Simão viu o gesto da mulher, embora ela só tivesse tocado os pés de Jesus, pensou consigo mesmo: - Profeta ele não é. Se fosse saberia que esta mulher é uma prostituta. E na outra ceia, quando Judas viu tanto perfume precioso derramado sobre os pés do Senhor, perguntou: “por que não se usou o dinheiro deste perfume para ajudar os pobres?”

Jesus então saiu em defesa das duas. Mostrou a Simão que ela fez muito mais do que ele deveria ter feito, e isso atestava mais consciência do quanto foi perdoada, ao passo que ele, Simão, sequer se julgava devedor. Também mostrou a Judas que Maria se antecipou para seu sepultamento, pois sempre haverá a quem ajudar, mas nem sempre ele estaria ali.

Aquela que colocou sua vida aos pés do Senhor então ouviu dele: “Vai-te em paz. A tua fé te salvou”. E Maria recebeu de Jesus a garantia de que onde fosse pregado o Evangelho, o que ela fez seria lembrado para sua memória.

Não sabemos o que foi servido nas ceias, pois o que importava era registrar quem era Jesus, e quem era o verdadeiro adorador e o falso.

Dois jantares. Dois propósitos. Duas unções. Dois censores: Um em nome da religião outro em nome dos pobres. Duas mulheres muito diferentes, mas com o mesmo sentimento de gratidão e devoção. Uma só atitude do Senhor Jesus.

Hoje o Senhor Jesus não pode estar fisicamente em sua casa nos momentos de festa, mas sua presença deve orientar a alegria. Não se envergonhe dele. Unja seus pés com o que você tiver de melhor.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

À mesa com Jesus







Você já reparou a quantas festas, banquetes, jantares ou ceias os Evangelhos narram que nosso Senhor compareceu? Logo de começo há a festa do casamento em Caná, onde, da água, fez o melhor vinho.
Que alegria deve ter permeado a casa de Lázaro enquanto o Senhor ceava. Pelo menos duas vezes: uma quando Marta atribulada com as comidas reclamava de Maria quedada aos pés do Senhor e outra quando Maria o ungiu.
Que clima pesado deve ter se abatido sobre todos quando o fariseu Simão, depois de convidar Jesus pra jantar, o recebeu com desdém. Será que alguém conseguiu comer algo?
Mas, acaso podemos nos esquecer do banquete dado pelo publicano Levi, que, de tão alegre, encheu sua mesa de antigos colegas de profissão? E o que dizer da recepção na casa de Zaqueu, o chefe dos publicanos? E assim, quantas vezes o Senhor está em companhia de publicanos e pecadores – seus doentes que precisavam de médico – e quantas vezes ele foi censurado por isso? Ele mesmo estava cônscio de que o tinham por “glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores”.
Muitas vezes ensinou usando alimentos como exemplos. Com eles explicou que a impureza não está naquilo que entra pela boca, mas no que sai dela. Prometeu – mesmo sendo Senhor – servir aos servos fiéis o pão dos céus à mesa com Abraão, Isaque e Jacó.
Em uma de suas parábolas comparou o Reino de Deus a um banquete de casamento e, para ensinar sobre o perigo de se ter o coração neste mundo, contou outra parábola em que um rico satisfeito com sua colheita exorta sua alma: “come, bebe e regala-te”.
Ensinou-nos a dar banquetes a quem não os pode retribuir e criticou os escribas e fariseus por amarem o primeiro lugar neles.
Disse que seu corpo era verdadeira comida e seu sangue era verdadeira bebida, e convidou aos sedentos “se alguém tem sede, venha a mim e beba. E selou-nos a afirmação “quem de mim se alimenta, por mim viverá” repartindo o pão e o cálice e ordenando-nos a tomá-lo em sua memória.
Comeu muitos tipos de comida e a preparação de alimentos serviu-lhe de motivo para parábolas. Procurou figos temporãos e conhecia bem as estações da oliveira. Gostava de peixes: multiplicou-os duas vezes, preparou-os na brasa e os comeu com mel. E foi reconhecido pelos dois de Emaús à mesa, ao bendizer o alimento.
Participava das páscoas desde cedo, nas quais se comia desde ervas amargas até um cordeiro assado. E, da última que participou, tomou um pedaço de pão e o último cálice de vinho e, com eles despediu-se dos seus e com o mesmo pão e com o mesmo vinho alimentou Judas para sua própria perdição, agravada pelas palavras do profeta: “Aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar”.
A mesa que lhe proporcionava o prazer da companhia trouxe-lhe a tristeza da traição “O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá”. E, na cruz, em vez vinho, que deixou como recordação de si, e com o qual começou seus milagres, como bebida recebeu vinagre.
Muitas bênçãos são tipificadas na Bíblia por alimentos. A própria descrição da Terra Prometida dizia da quantidade de pastos bons e da exuberância de suas flores, que era como se dela manasse leite e mel.
Aquele que experimentou a alegria do convívio a mesa, é o mesmo que aguarda por nós, para juntos, tomarmos o “vinho novo” que ele aguarda ansiosamente para nos servir.
Vem logo Senhor Jesus.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

A ira do Cordeiro

Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos

e todo escravo e todo livre

se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes

e disseram aos montes e aos rochedos:

Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono

e da ira do Cordeiro,

porque chegou o grande Dia da ira deles;

e quem é que pode suster-se?

Apocalipse 6.15-17

Parece ser uma contradição de termos: Cordeiro e ira. Parece que não se encaixa no que a mentalidade moderna imagina ter sido Jesus. Entretanto o texto não poderia ser mais claro: o Cordeiro ira-se.

Já nos dias de sua carne irava-se. Talvez o episódio mais conhecido seja o da purificação do templo, mas outros episódios mostram mais claramente sua ira. Por exemplo: as discussões com os fariseus. Escute suas palavras: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (João 8.44).

Mateus, no capítulo vinte e três de seu Evangelho, narra não uma discussão, mas uma imprecação de nosso Senhor. Nesta imprecação, por sete vezes o Senhor usa a frase “ai de vós escribas e fariseus hipócritas”. Na primeira vez condena a vaidade que tinham. Na segunda condena a exploração das viúvas a pretexto de orações. Na terceira condena seu “afã missionário” que disseminava a condenação eterna.

Uma frase, que entra como pausa, revela-se terrível, pois reserva aos mesmos destinatários o título de “guias cegos” e condena a valorização que eles davam aos símbolos de culto em detrimento daquilo que simbolizavam.

Ao retornar às sentenças “ai de vós escribas e fariseus hipócritas” ele condena outros comportamentos: Na quarta condena a observação meticulosa de detalhes em detrimento dos “preceitos mais importantes da Lei: justiça, misericórdia e fé”. Na quinta condena a preocupação com a limpeza externa em detrimento da limpeza da alma. Na sexta condena o cultivo da imagem em detrimento do interior ao ponto de chamá-los sepulcros caiados: brancos por fora e pútridos por dentro. Na sétima condena a hipocrisia de fazer monumentos a justos que foram mortos por seus pais que viviam como eles também viviam. E termina em terrível condenação: Serpentes. Raça de Víboras! Como escapareis a condenação do inferno?

Há relatos do Senhor Jesus triste com a incredulidade do povo e há relatos que o mostram condoído dos que ele mesmo descreve: “Como ovelhas sem pastor”. Mas só o encontramos irado com os que deveriam zelar pela religião e não faziam.

Será que não podemos traçar algum tipo de paralelo com o que ocorre hoje? Podemos e devemos.

Tenho pena de quem procura a Deus nessas modernas fábricas de louvação e pajelança e duvido da intenção da maioria de seus líderes, pois vejo que todas as oito características condenadas por Jesus nos de sua época são encontradas neles também.

Há, entretanto um agravo: os de hoje são piores do que aqueles de quem Jesus disse que não haveriam de escapar da condenação do inferno.

Sobre aqueles, Jesus ordenou: “Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem” (Mateus 23.13). Quanto aos de hoje, não podemos imitar. Nem o que ensinam muito menos o que praticam sob o risco de nos tornarmos réus da ira do Cordeiro diante da qual “ninguém pode suster-se”.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Pedro e o futuro

Tenho a forte impressão de que todos nós gostaríamos de receber ordens diretas do Senhor. Como seria bom conhecer o que ele deseja de nós e que fim ele nos reserva. Na verdade ele já fez isso a algumas pessoas e hoje quero falar de uma delas.

Após sua ressurreição, e embora tivesse mandado uma mensagem a Pedro por Maria Madalena, e até lhe aparecido, junto com os demais discípulos, ainda não havia falado diretamente com ele. A consciência de Pedro o remoía, desde que negara a Jesus. A falta de uma palavra pessoal de Jesus o desnorteava.

Em uma madrugada, em que ele procurava esquecer-se de tudo afadigando-se no trabalho, Jesus o chamou (veja mais sobre isso). Mas não foi um chamado qualquer. Foi mais um acerto de contas.

Se três vezes ele o negara, três vezes ele seria questionado sobre seu amor. E a cada vez em que ele declarava-lhe amor o Senhor o encarregava de cuidar de suas ovelhas.

A terceira declaração de Pedro foi diferente. Não estava carregada de certezas, mas do reconhecimento da própria fraqueza e de submissão. A esta última, além da ordem de cuidar do rebanho, o Senhor acrescentou “Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres”. E João a interpreta: “Disse isto para significar com que gênero de morte Pedro havia de glorificar a Deus” (Jo 21.18-19).

Que declaração fascinante! Dada por quem sabia que isso iria acontecer, não por ter previsto, mas porque determinou.

Pedro ficou sabendo que chegaria a velhice, que sua morte não seria de causas naturais, que seria manietado e levado, contra sua vontade, ao patíbulo. Pedro teve mais informações sobre seu futuro do que temos sobre o nosso.

Após tais informações o Senhor acrescentou: “Segue-me”. Pedro obedeceu literalmente e viu que João, sem ser chamado, seguia a Jesus também. Por preocupação, ciúmes ou por qualquer outro motivo que não sabemos, ele perguntou a Jesus: “Senhor e a respeito deste?" (v21 tradução minha).

Se Jesus já tinha parecido ríspido na tríplice confrontação de Pedro, e mais ainda ao declarar seu futuro, sua rispidez aumentou: “Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu” (v22 Versão Corrigida).

Todas as vezes que falo do grande consolo que recebemos quando o Espírito Santo confirma em nosso coração o chamado de Deus, sempre alguém me interrompe: - e os coitados que não foram chamados? Deus vai deixar que todos sejam condenados?

É o comportamento de Pedro: Recebemos do Senhor a certeza bendita que fala mais alto a nossos corações do que ordens gritadas a nossos ouvidos. Mas, nossa curiosidade - especialmente se estiver associada ao ciúme - é implacável!

Quantos pedros trocam a alegria de seguir o Senhor pela curiosidade mórbida sobre seu irmão? Será que ele foi mais agraciado por Deus? Será que ele está com inveja de mim?

Nunca me esqueço de um Senhor que se orgulhava de ser humilde e fazia questão de relembrar a todos desta sua qualidade, até mesmo em suas orações.

Felizmente o Senhor não desiste dos que chama. Até os servos inúteis escutarão sua voz: “esqueça os outros e siga-me”.

Não troque a alegria de segui-lo pela maior curiosidade que sinta ou pelo maior prazer que lhe for proposto. A cruz junto dele é mil vezes preferível a qualquer riqueza, prazer ou satisfação.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Seja feita a tua vontade.

Nada é tão difícil para um cristão quanto dizer a Deus, com sinceridade “seja feita a tua vontade”. Especialmente como um pedido.

Hoje já não conhecemos o que é obedecer apenas por obedecer. Para cada preceito a que obedecemos exigimos um sentido, uma coerência lógica bem fundamentada.

Agora veja a situação: se necessitamos ser convencidos da razoabilidade daquilo a que vamos obedecer, como poderemos entender toda extensão do que significa pedir “seja feita a tua vontade”?

Talvez até estejamos dispostos a fazer tal pedido quando os resultados forem indiferentes. Como recentemente ouvi a respeito de um carro novo: “eu queria um verde claro, mas o vendedor me disse que o modelo novo só era fabricado naquele tom meio azulado. Então pensei: seja feita a vontade de Deus”.

Reparou? Será que isso é uma submissão à vontade de Deus? Aliás, não é um exemplo claro de se tomar o nome de Deus em vão?

Quando é a vida de um querido que está ameaçada, ou nosso próprio destino que está sendo definido, pensamos duas vezes antes de dizer - se dissermos - “seja feita a tua vontade”.

Fazer a vontade do Pai foi o motivo pelo qual o Senhor assumiu nossa natureza sujeitando-se às vicissitudes próprias de nosso estado. Veja o que ele mesmo diz: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou” (Jo 6.38).

Fazer a vontade do Pai era seu prazer: “Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4.34).

Às vésperas da cruz ele orou: “Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lc 22.42).

De fato, não há declaração mais difícil para um cristão dizer com sinceridade. Entretanto, da vontade de Deus, depende nossa própria existência e não apenas nossos relacionamentos, prosperidade ou saúde.

As Escrituras afirmam que o bom cônjuge é dádiva de Deus, bem como nos exortam a pedir sua bênção sobre as obras de nossas mãos. E a saúde? Acaso viria de outrem que não o próprio Criador? Ou seja: dependemos de sua vontade até para escolher com quem vamos dividir nossos dias (escolha que cremos fazer em total liberdade). Poderíamos então fugir de sua vontade?

Submeter nossa vontade à dele significa obedecer sem perguntar a razão. O que nossos pais deviam ter feito antes de pecar e o que somente os cristãos verdadeiros (aqueles em quem o Espírito Santo fez morada), conseguem fazer. Talvez esta seja a maior diferença entre um cristão e um não cristão: obedecer sem perguntar o por que.

Este tipo de obediência, que poucos cristãos conseguem e nenhum não cristão é capaz sequer de entender, as vezes machuca. Mas a dor é de pronto recebida como amiga pois é o mesmo tipo de dor que o Senhor sofreu. Junto com ela vem grande consolo espiritual que excede a todo entendimento e nos faz crescer no conhecimento e na graça daquele que sofreu por nós apenas para tornar concreto seu pedido ao Pai: “seja feita a tua vontade”.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Teu Pai que vê em secreto

Em secreto nosso Senhor Jesus via “como” se ofertava. Ele não estava invisível ou escondido, mas assentado olhando o movimento. Secretos eram seus juízos e suas intenções.

Como ele já ensinara a respeito da atitude do Pai, para com as esmolas, orações e jejuns, ele olhava e julgava secretamente.

Se porventura alguém soubesse o que estava para acontecer nos últimos dias daquela semana certamente o acusaria de desperdício de tempo. Afinal na sexta feira ele seria morto e já era terça. Era preciso deixar-nos claro qual era o verdadeiro valor de uma oferta.

Não lhe interessava quanto cada um ofertava, mas como o fazia. Verificava se a oferta era o sobejo, mesmo que fosse grande, ou expressão de amor, mesmo que fosse tão pequena que somada não atingisse a um quarto do valor mais comum.

Em secreto ele avaliou a quantos viu e recompensou o mais dedicado elogiando-o diante de seus discípulos e que nos serve até hoje de exemplo.

Provavelmente não tenha sido assim, mas desde pequeno imagino essa viúva relutante em chegar-se aos vasos em que as ofertas eram colocadas. Criança ainda eu pensava em como alguém colocaria naqueles gargalos estreitos as “grandes quantias” a que Marcos se refere e imaginava a viúva envergonhada jogar rapidamente suas moedinhas dentro do vaso de metal.

* * *

Em secreto nosso Pai nos vê e avalia nosso compromisso com ele. E, como seu Filho fez, nos premia diante daqueles que ele mesmo seleciona para saber o que fizemos.

Em secreto ele vê nossa verdadeira intenção ao contribuir. Não se interessa pelo tamanho da contribuição, mas pelo modo como ela é feita.

Desgosta fazermos com segundas intenções e nos abandona ao elogio público (efêmero por natureza) quando tal intenção é receber reconhecimento ou elogios de nossos semelhantes.

Em secreto ele vê nossa verdadeira intenção ao orar. Não lhe interessa o que pedimos, pois ele nos dará o de que necessitamos, nunca o que nossa natureza pecaminosa deseja. Também não vê se nossas súplicas são meritórias ou não, pois os únicos méritos que contam são os de seu Filho.

Abomina ver seu Nome tomado em vão especialmente em orações feitas para que se perceba “como somos piedosos e dedicados” a ele.

Abomina nossa prática de invocar o Nome de seu Filho e orarmos de nós para nós mesmos, mostrando nossa erudição e qualidades e abandona-nos ao reconhecimento e ao louvor dos que nunca souberam e nunca saberão quem ele é.

Abomina os discursos longos e as repetições enfadonhas de que nos valemos, em substituição da fé, para termos certeza de que ele atenderá favoravelmente nossos pedidos.

Em secreto ele vê nossos jejuns. Sabe quando estamos negando alimento a uma natureza inquieta e dispersa com o fim de dominá-la e reduzi-la a servidão para que não estorve o espírito que, na realidade, está pronto, mas precisa de um meio obediente para executar sua prontidão.

Abomina divulgarmos isso para nos promovermos como mais santos e abandona-nos ao elogio mundano dos que sem percepção admiram hipócritas assim.

Nosso Pai nos vê em secreto. Mas, em vez de nos afligir, lamenta nossas propensões pecaminosas e constantemente nos aponta seu Filho como modelo a seguirmos, pois ele tudo fez unicamente para o louvor do Pai. E, dos homens, a única recompensa que recebeu foi ser antecipadamente ungido por uma mulher para seu sepultamento.

sábado, 23 de janeiro de 2010

A âncora da alma

Os arrecifes formavam com a praia uma grande enseada de águas calmas. Neles as ondas se quebravam e dentro da enseada pequenas ondas eram formadas pelo vento forte que soprava do nordeste.

Uns nadavam, outros se contentavam em olhar o fundo através da água transparente, e outros, alugando pequenos barquinhos de uma vela, navegavam de cá pra lá, até que, cansados de ir e vir, ou de abaixarem-se para não levar uma pancada da retranca quando o vento enfunava a vela para o outro lado, paravam.

Mas, como manter parado um barco tão leve, em um local onde a corrente marinha era bem sentida e os ventos impulsionavam tão bem a vela maior do que o próprio barco? Jogavam a âncora!

Quando vi, pela primeira vez, me admirei com o tamanhozinho da âncora. Mas foi suficiente: o barquinho ficou parado e alinhou-se ao vento e por mais que este soprasse, ou que a corrente marinha ou a própria maré vazante tentasse levá-lo em direção aos arrecifes, ele permanecia parado.

Minha atenção variava entre o barquinho ancorado e outro, que insistia em ir e vir perpendicularmente ao nordeste. O primeiro permanecia parado e o segundo vagava entre as ordens de seu capitão inexperiente e os caprichos dos elementos.

Parando ao lado e igualmente jogando ao mar uma âncora pequena, perfilou-se ao primeiro pela força do vento e da água.

Também era interessante vê-los parados: agitavam-se sincronizados e juntos respondiam às lufadas. Mas, unânimes, permaneciam ancorados.

Na figura dos dois barquinhos ancorados eu li “... forte alento tenhamos nós que já corremos para o refúgio, a fim de lançar mão da esperança proposta; a qual temos por âncora da alma, segura e firme e que penetra além do véu, onde Jesus, como precursor, entrou por nós, tendo-se tornado sumo sacerdote para sempre...” (Hb 6.18-20) e entendi um pouco mais sobre a esperança. O texto a compara com âncora que segura o barco.

Que figura maravilhosa! O barco está sujeito aos elementos, mas permanece firme porque a âncora, penetrando a água apóia-se em terra firme. E porque ela está em terra firme o barco permanece no lugar, mesmo sofrendo as sacudidelas do vento ou a força das correntes e da maré.

Certamente os ventos que empurram nossas vidas são muito mais fortes do que aquele suave e fresco vento nordeste que tanto prazer trazia em dia de calor.

Certamente as forças submersas que nos empurram para frente ou para trás, para um lado ou para outro, são mais temíveis do que as correntes marinhas e a maré.

Mas, não deixamos de ser como aquele barquinho que sofre todas essas influências. Aliás, influências maiores e mais danosas. E como o barquinho, temos de nos manter sobre a água, sem que a água entre em nossas vidas.

Se não estivermos bem ancorados, o vento nos sopra, a maré e as correntes nos empurram e corremos o risco de encalhar na praia ou pior: sermos jogados contra os arrecifes.

Mas temos uma grande vantagem sobre o barquinho. Enquanto ele é mantido por uma âncora que pode ser movida (afinal não é tão grande), nossa esperança - âncora de nossa alma - é firmada pelo eterno e inamovível Jesus.

Vivemos sujeitos a ventos e ondas. Corremos o risco de soçobrar, encalhar, ou sermos atirados contra arrecifes. Entretanto nossa esperança, qual âncora, já está com Jesus. Percebeu? Nossa esperança - uma parte de nós - já está com o Senhor.

Bendita âncora!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Agulhas

O que é que leva alguém a enfiar agulhas no corpo de uma criança? Perguntaram-me diversas vezes nesses últimos dias.

E, como se não bastasse, para fechar o ano, já se tem notícia de outra criança e de uma mulher. O Estadão de 19/12 diz sobre a segunda criança: a polícia suspeita de que ela tenha sido “vítima de um ritual de magia negra”.

Eu não duvido da atuação dos demônios, porém duvido menos ainda da terrível maldade do coração humano. Explico:

A crença geral é a de que todos os homens possuem coração bom. Os maus fazem coisas assim por terem sofrido algum tipo de desvio na educação ou na socialização. Entretanto, não é bem isso que a Bíblia ensina. O que ela nos diz é que todos nascem com o coração “desesperadamente corrupto”.

Nosso pai Adão foi criado com o coração livre e sem qualquer tipo de propensão. Entretanto, após haver desobedecido a Deus, (desobedecido em uma exigência tão simples, que ele poderia perfeitamente ter cumprido, e que, de tão simples, mostrava apenas se ele obedeceria ou não, sem outro motivo além da própria obediência) seu universo se desequilibrou. Desequilibrou-se a tal ponto que se tornou propenso apenas para o mal.

Agostinho dizia que antes nele havia o “posso não pecar” e depois passou a existir o “não posso não pecar”.

Esta propensão para o mal atingiu também tudo aquilo sobre o que o Criador lhe colocara, e, como aconteceu antes do nascimento de seus filhos, tudo que lhe era sujeito e todos os seus descendentes herdaram tal propensão.

De tal modo que hoje, todos nós, descendentes de Adão, temos um coração tão propenso ao mal que, se não for a graça de Deus, qualquer um de nós pode espetar agulhas em um bebê sem qualquer tipo de remorso.

A Graça de Deus, a que faz “nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mateus 5.45), é a mesma que minora o mal e coíbe as mais perversas formas de bestialidade e imoralidade entre os seres humanos. Pois, na verdade, o coração do homem sem Deus não é muito diferente do coração dos demônios.

Quando neste “coração manjedoura” nasce o Senhor Jesus, ocorrem muitas mudanças. A primeira é uma verdadeira luta que se estabelece entre as propensões herdadas de Adão e a vontade do “novo morador da manjedoura”. E essa luta é fruto de uma graça que já não é mais comum a todos.

Porém, a mudança total do “coração manjedoura” só ocorrerá quando estivermos na presença do Senhor. Por isso, até quem possui essa nova natureza é também capaz de fazer coisas hediondas. Mas as faz por exceção, não por regra. Não permanece fazendo-as nem deixa de sentir a maior tristeza por ser capaz de fazê-las.

Estamos iniciando mais um ano e olhando para o que ficou. Temos muito do que nos arrepender. Mesmo que não tenhamos praticado coisas hediondas, bestiais e imorais, diante de Deus, qualquer pecado é mortal, pois exige a morte de seu filho. Arrependamo-nos confiados em sua graça e tementes do que nossa natureza ainda é capaz de fazer. Porém, não deixemos de ser gratos.

Sejamos gratos, primeiramente pelo sacrifício de seu Filho que nos assegura o perdão. E nos lembremos de agradecer pela sua ajuda nesta luta terrível, contra nossa própria natureza.

Sigamos a ordem do apóstolo: ”não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos” (Gálatas 6.9). O que é um bom conselho não apenas para 2010, mas para todos os anos a frente.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A região da sombra da morte



O povo que andava em trevas
viu grande luz,
e aos que viviam na região da sombra da morte,
resplandeceu-lhes a luz.
Isaías 9.2


Não sei se Isaías conhecia o Salmo 23. Talvez conhecesse, pois além da transmissão oral entre os músicos do templo, um dos trabalhos dos escribas de Salomão era registrar a história e os escritos do próprio Salomão e de seu pai, que muitas vezes chegou a especificar, quem devia cantar determinado Salmo, em que dia, com que música, com que instrumento e em qual afinação.
Também não sei se Isaías conhecia o Livro de Jó. Mas sei que a expressão “sombra da morte”, que foi escolhida no texto acima para designar o lugar em que o Messias haveria de nascer, também foi usada diversas vezes por Jó.
Antes de Isaías falar da “região da sombra da morte”, onde o Messias haveria de nascer, Davi já a cantava. E, do que impressionava pelo terror ao patriarca Jó, Davi dizia que não o amedrontaria, pois a Bom Pastor estaria a seu lado.

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À sombra da morte moravam os que viviam na região que foi repartida por Deus à Zebulom e à Naftali. A mesma região, que o Senhor tornou desprezível, testemunharia o aparecimento da verdadeira Luz.
À sombra da morte sofriam sob cetro opressor, curvavam-se sob jugo pesado e a vara lhes machucava os ombros. Viviam tão aflitos quanto seus antepassados viveram debaixo do jugo dos midianitas.
À sombra da morte se acostumaram ao tumulto da batalha, ao som medonho das botas dos guerreiros e às roupas ensangüentadas.
À sombra da morte as únicas alegrias eram as do trabalho honesto e árduo da ceifa ou da desgraça do despojo.
À sombra da morte estavam todos aqueles sobre quem o “zelo do SENHOR dos exércitos” ainda não tinha resplandecido sua maravilhosa Luz.
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Mas a região da sombra da morte é descrita hoje por todos os jornais e vista em todos os noticiários. Se faz presente nos lugares mais inesperados e amedronta a pobres e ricos.
A única luz que dissipa a sombra da morte é aquela que “vindo ao mundo, alumia todo homem”. Aquela que é característica do Maravilhoso Conselheiro. Que é indomável, pois vem do Deus forte. Perene, pois procede do Pai da Eternidade. Benfazeja, pois expressa o amor do Príncipe da Paz.
A luz que dissipa a sombra da morte “resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela”.
À sombra da morte ainda vivem aqueles, que, mesmo desfrutando das benesses das regiões mais ricas e nobres da terra ainda não viram a verdadeira Luz.
À sombra da morte também vivemos nós os que andamos pelo vale com o Bom Pastor. Entretanto, diferentemente dos outros, a verdadeira Luz brilha sobre nós e, sendo lâmpada para nossos pés, nos mostra o caminho para fora deste vale tenebroso.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O que senti e do que estou certo

Vi luzes feéricas, enfeites - os mais coloridos - vi presentes lindos. Vi papéis picados forrando o chão e algodão imitando neve. Vi árvores muito verdes - sempre verdes - e até um presépio animado. Mas não vi a menor recordação do quanto nosso Senhor abriu mão para se fazer um de nós.

Ouvi belas músicas - daquelas que enchem os olhos de lágrimas - ouvi outras feias, com letras absurdas e melodias tolas. Ouvi cumprimentos, discursos e até sermões. Mas não ouvi a menor lembrança de que o Senhor se encarnou para salvar-nos de nós mesmos fazendo-nos justiça de Deus.

Senti cheiros mais doces do que incenso. Cheiro de chocolate quente e de pães recheados de frutas. Experimentei frutas de que só ouvira falar e outras que só aparecem no fim do ano. Mas, só de falar em cheiro de estrebaria, quem estava ao meu lado me chamou de chato.

Apalpei tecidos macios, peles fofas e sedas lisas. Mas o que veio a minha mente foi o pano grosseiro das faixas que enrolaram meu Senhor.

Contemplei paisagens lindas: nevadas, radiantes e estreladas. Contemplei pinturas, gravuras e belos desenhos. Mas nenhuma delas tirou de minha mente a lembrança de que a noite que recebeu meu Senhor foi tão comum que Herodes teve de indagar sua data.

Muitas lendas e muitos contos. Pouca, ou nenhuma, verdade. O verdadeiro significado de separar-se um dia para se comemorar “Deus conosco”, partilhando de nossa natureza, foi soterrado pelos interesses mais sórdidos de ganância e lucro.

Seja feliz (dizem, escrevem, cantam), compre aqui! Como se comprar fosse o caminho da felicidade. Que embuste!

Quero trazer à memória o que me dá esperança: A Misericórdia do Senhor - sem a qual todos nós seríamos consumidos, e, da qual, todas as demais, que se renovam a cada manhã, são apenas figuras - nasceu numa estrebaria e foi deitado numa manjedoura: seu primeiro passo em direção a cruz.

Quero trazer à memória o que me dá a certeza de que juntamente com ele tenho vida na presença do Pai.

Quero trazer à sua memória a mais forte das lembranças que eu puder reavivar: não uma história qualquer, mas a notícia de que Deus se fez homem para que nós fôssemos feitos seus filhos. Não apenas filhos de seu poder criador, mas, filhos de seu amor.

Feliz Natal!

Ao adquirir nossa natureza
o Senhor foi preservado do pecado.

Porém, a natureza que ele adquiriu
não foi a de Adão antes de ter pecado,
muito menos a que Adão teria se não houvesse pecado.
Mas aquela natureza a que nosso pai foi reduzido
após rebelar-se contra Deus.
A mesma com que nascemos
e a mesma que nos faz inimigos de Deus.
Aquela da qual se diz: “éramos, por natureza, filhos da ira”.

Ele não hesitou tomá-la por amor dos seus,
como não se envergonha de ser chamado nosso irmão.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A manjedoura e a cruz

Entre a manjedoura e a cruz não houve muita diferença. As duas são os símbolos máximos da humilhação do Senhor: na manjedoura ele experimentou nossa natureza e dores análogas às que a maldição do Criador impôs à mulher. Na cruz ele experimentou os tormentos do inferno em favor daqueles que o Pai lhe deu.

A manjedoura fala de extrema pobreza. Pobreza que se contentou com o conforto que o lugar onde os animais se alimentam pôde proporcionar a quem saiu do aconchego do ventre materno e, de súbito, foi exposto a um meio hostil.

A cruz fala de maldição. Para ela iam os piores criminosos e os mais reles escravos: os malditos dos homens. Agrava-se, pois o Pai prometera que também consideraria maldito todo aquele que nela fosse dependurado.

A manjedoura fala do começo da vida comum a todos os descendentes de Adão. Vida maculada pelo pecado: biologicamente sujeita ao envelhecimento, às dores, à morte e à decomposição. Espiritualmente, sujeita àquele e àquilo que é mau. Pior: sujeita ao “eu” (tirano implacável de todos os descendentes de Adão). Porém, dessa sina desgraçada - a contaminação do pecado - ele foi preservado.

A cruz fala do fim da vida física comum a todos os descendentes de Adão: a morte. Vitória da entropia que a tudo desliga pondo fim a energia que anima o cérebro - expressão física da alma - ou cadencia o coração - responsável pelo transporte de alimento e pelo coleta do lixo de cada parte do corpo. Disso ele não foi poupado.

Mas a cruz também fala da separação da alma de seu corpo. E aqui está a maior diferença entre a manjedoura e a cruz, pois a esse respeito ele prevaleceu inaugurando uma nova criação, não sujeita a carne ou sangue, mas ao Espírito vivificante.

Na cruz está latente a manjedoura e na manjedoura já pode ser vista a sombra da cruz.

Como se não bastasse o homem já ser indesculpável perante Deus, ele ainda comemora o Natal. E provavelmente não encontraremos um que não tenha pelo menos uma idéia do que ele representa.

Mas, ao comemorar não comemora-se apenas uma possível idéia alegre anunciada pela manjedoura, comemora-se também as tristezas da cruz, que fazendo sombra sobre o menino envolto em faixas, faz bendita sombra também sobre todo aquele que nesse menino encontra o Pai e terrível escuridão sobre quem não a toma sobre si.

Ao encontrarmos a manjedoura esbarramos na cruz. Ao encontrarmos o menino que foi agasalhado no seio de Maria, encontramos também o homem que teve seu lado traspassado por nós.

Portanto, não nos alegremos com o Natal se não estivermos dispostos a receber a cruz que o segue.

 

Na manhã da ressurreição
um anjo convidou as mulheres
a entrar na sepultura em que o Senhor estivera.

Na noite de seu nascimento,
após a mensagem dos anjos,
os pastores se convidaram mutuamente: “vamos até Belém”.

Esses dois convites ainda são feitos
e constituem-se na essência do Evangelho.

Tão importante quanto ver o túmulo vazio
é ver a manjedoura habitada.
É impossível crer em um sem crer na outra.
Enquanto a manjedoura nos fala de Deus habitando conosco,
o túmulo vazio nos fala de nossa habitação com ele.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Orações pecaminosas

Você ficou chocado com o vídeo que mostra algumas pessoas orando agradecidos pelo dinheiro recebido no esquema que a imprensa está chamando de “O novo mensalão”? Apesar de já ter visto coisas semelhantes, eu também fiquei.

No início de meu ministério – no milênio passado – vi uma senhora, viúva há poucos anos, orar diante da igreja, grata pela grande bênção que havia recebido: só teve de gastar 500 cruzados (dinheiro de então) com gorjetas para regularizar o espólio de seu marido que não estava completamente documentado.

O que é que leva alguém a agradecer por algo ilícito? Eu não tenho certeza, mas desconfio que seja a grande importância que tal pessoa dá ao mundo. Para ela o mundo é seu objetivo. Para ela o importante é ter. E o matérial se torna tão importante que Deus lhe está obrigado a dar não apenas o de que necessita, mas também aquilo que vier a desejar.

Esse absurdo deixa claro uma das grandes dificuldades que os pastores sério enfrentam nos dias de hoje: Nenhum pastor desestimula a prática da oração. Entretanto, esse tipo de oração, que coloca Deus como servo, ou que está a serviço do pecado, pode ser muito danosa à vida de qualquer crente em nosso Senhor Jesus Cristo. Neste caso é melhor não orar.

Jesus foi claro ao determinar que nossas orações fossem breves, quando nos advertiu que não é pelo muito falar que seríamos ouvidos. Também deixou claro que não devemos orar em busca de reconhecimento, pois quem o faz já recebeu sua recompensa: ser reconhecido.

Em uma de suas parábolas - talvez a mais irônica delas - ele usa dois personagens: um fariseu (a maior autoridade religiosa de sua época) e um publicano (a pessoa mais odiosa que podia haver, pois cobrava imposto dos seus patrícios em favor dos invasores romanos), representando dois tipos de pessoas que buscam a Deus em oração. O fariseu aproveitava sua oração para elogiar a si próprio e o publicano, contrito, pedia perdão por sua vida errada. Jesus declara que o publicano foi ouvido e o alto religioso, cuja função era cuidar dos assuntos divinos, foi rejeitado.

O apóstolo Paulo explicou que, por não sabermos orar como convêm, o Espírito Santo nos ajuda, sofrendo conosco, nos mostrando pelo que devemos interceder e o que devemos pedir. Hoje isso é feito através da iluminação que ele nos proporciona pra entendermos as Santas Escrituras por ele mesmo escritas.

E a razão de tal cuidado que o Espírito Santo tem conosco é muito simples: Se nossas orações não forem acompanhadas pela leitura de suas Escrituras, corremos o risco de acabar decidindo nós mesmos pelo que orar. E nosso coração pecaminoso colocará na nossa frente necessidades tolas ou aberrações como a de agradecer pelo pecado cometido.

Não devemos orar sem ler a Bíblia. Ao ler sabemos quais são os valores de Deus e pelo que devemos nos empenhar. Só assim oraremos adequadamente e nossos pedidos em si mesmos já serão atos de louvor, pois serão feitos conforme a vontade de Deus. Então fará sentido a recomendação do Salmista: “Agrada-te do SENHOR, e ele satisfará os desejos do teu coração” (Salmo 37.4).

Alguém cunhou uma expressão que se tornou verdadeiro provérbio entre os evangélicos brasileiros: “Muita oração, muito poder. Pouca oração, pouco poder”. Poder pra quê? Pra ficar rico? Pra ganhar eleições? Pra oprimir o pobre? Só fará sentido termos poder para fazer a vontade daquele de quem somos servos. O poder que eventualmente possuamos deve ser colocado a seus pés e ser exercido de conformidade com sua lei.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A tempestade e os catecúmenos

A escuridão da noite escondeu as nuvens carregadas e o grande calor do dia nos fez mais gratos pelas gotas da chuva que chegava. Chegou com relâmpagos, trovões e muito vento.

As gotas esparsas ajuntaram-se e os relâmpagos rasgavam o céu bem acima e iluminavam rápido alguns detalhes que a luz artificial não dava conta de mostrar.

O vento atravessava as casas, janela a janela, batia as portas com força e sacudia as árvores como que acordando-as da modorra da tarde abafada e quente.

A tempestade formara-se sobre nossas cabeças e a gratidão pelo refrigério com que a noite era inaugurada começou a dar lugar aos sustos provocados pelos estalos rasgados dos raios seguidos do ribombar dos trovões rolando à distância.

De repente as lâmpadas piscaram. Piscaram mais vezes e se escurecem. A memória substituiu então a visão, e a conversa, entrecortada por estalos mais fortes, continuou no escuro.

Se, em uma casa às antigas, se buscaria - com a dificuldade do pouco uso - uma vela, em uma conversa com adolescentes a solução vem rápida e surpreendente: celulares acesos.

Mais acesa do que os celulares estava a fé dos jovens catecúmenos que era examinada pelos anciãos nos quais ela já fizera morada há muito tempo e que, responsáveis por mantê-la acesa, verificavam a existência dela naqueles que desejavam professá-la diante do povo de Deus.

Nunca, em meus muitos anos de pastorado, vi uma reunião de Conselho tão significativa.

A tempestade varria as ruas lá fora, enquanto adolescentes e anciãos conversavam calmamente.

A escuridão da noite era rasgada por raios e a escuridão das dúvidas era iluminada pela segurança de respostas solidificadas na fé de quem, tão cedo na vida, já tem o verdadeiro norte no coração.

O vento que sacudia as árvores era imitado pelas perguntas que sacudiam as convicções. E, como nas árvores só ficavam as folhas verdes, os corações adolescentes eram também varridos das convicções mortas pela Palavra mais escaldante do que o sol que matara as folhas.

Lá fora a tempestade que limpava os ramos que já não estavam tão ligados aos seus troncos. Aqui dentro, à sombra da Casa consagrada ao Senhor, outra tempestade testava os novos rebentos que desabrochavam para a vida.

Como colocar tudo em palavras? Não sou escritor tão destro, nem observador tão perspicaz. Mas, do mesmo modo que nunca me esquecerei dos rostos sorridentes - sorrisos que não eram vistos do outro lado da sala escura, mas eram sentidos na doçura das palavras e no frescor da fé que o hálito de cada sílaba trazia brilhando mais intensamente do que os relâmpagos - também não esquecerei da fé que neles era representada.

Que Deus as conserve brilhantes, mesmo debaixo das piores tempestades que assolam noites mais escuras e mais tempestuosas: as noites da vida.

sábado, 14 de novembro de 2009

Abel continua falando

Já chamei sua atenção para o paradoxo de Abel: Não há registro de qualquer palavra que ele tenha dito, entretanto o escritor da Carta aos Hebreus disse que ele ainda fala. Quem nos diz que ele ainda fala é também quem nos diz que a fé é o veículo através do qual ouvimos sua voz.

Porém Deus também ouviu sua voz: “A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim” (Gn 4.10).

Note: não é Abel que fala e sim algo dele. A nós, segundo o escritor da Carta aos Hebreus, sua fé. A Deus, segundo o próprio Deus, seu sangue.

Aqui é necessário fazer uma observação: a palavra sangue, no original hebraico, está no plural. Alguns acham que, para os Hebreus, a palavra sangue só tinha a forma plural (como, em português, lápis, férias, núpcias, óculos, etc.). Porém, quando Deus proíbe o uso do sangue como alimento (Gn 9.4) a forma usada é a singular.

Então, quais são os “sangues” de Abel que, da terra, clamavam ao Senhor? Pluralizar a palavra seria apenas uma figura de linguagem ou significaria algo que nosso idioma não nos permite ver?

Costumamos dizer - corretamente - que a morte entrou na terra após a queda. Dizemos também - erroneamente - que a primeira morte foi a de Abel e antes dela não se sabia o que era morrer. Há até quem diga que Caim não tinha a menor idéia do que aconteceria a seu irmão.

Porém a Bíblia é clara: a morte de Abel foi a primeira de um ser humano. A morte já havia sido introduzida no solo sagrado do jardim: o próprio Deus matou os animais dos quais tirou peles para cobrir a nudez de nossos primeiros pais.

Ao sacrificar um cordeiro Abel comete a segunda morte. E, fora do jardim, sangue é novamente derramado sobre a terra.

Se o sangue das vítimas que forneceram a Deus suas peles, já era um tipo do sangue de nosso Senhor derramado em favor dos seus, podemos entender melhor por que a palavra sangue está no plural: O sangue do próprio Abel, derramado por seu irmão e assassino e o sangue do sacrifício oferecido por Abel, clamavam ao Senhor.

Nenhum de nós, que tem a Bíblia como sua regra de fé, duvida de que o sangue derramado sobre a terra clama ao Senhor por justiça.

Os próprios glorificados, que aguardam o Dia do Senhor, testificam isso: “Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (Ap 6.10).

Nosso Senhor e mestre é muito mais incisivo: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar” (Mt 23.33-35).

Então fica clara a afirmação: “Mas tendes chegado a [...] Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel.” (Hb 12.22-24).

O sangue de Abel clama por justiça ao “juiz de toda a terra” e é tipo do sangue de todos os que foram martirizados por sua fé.

O sangue derramado por Abel clama, até hoje, testificando qual é o verdadeiro significado de uma fé obediente.

O Sangue de nosso Senhor, tipificado por ambos, fala de coisas superiores: perdão para os ‘cains’, que insistem em cultuar a Deus com o produto de uma terra corrompida pelo pecado, e, que, quando percebem que Deus não se agrada de suas obras, matam seus irmãos. Irmãos que, pela fé, cultuam obedientemente ao Senhor.

sábado, 7 de novembro de 2009

Depois de morto ainda fala

Na terça-feira passada a frase “mesmo depois de morto ainda fala”, prendeu minha atenção. Nem me lembro mais quem a disse, nem do que falávamos, mas ela ficou muito tempo martelando minha cabeça por um motivo simples: Não há registro de qualquer fala de Abel.

Minha primeira providência foi certificar-me de que a frase refere-se mesmo a Abel. Está.

Depois reli a história do primeiro assassinato e tirei a dúvida: ao contrário de Caim, seu irmão e assassino, que questiona o próprio Deus, Abel não fala palavra alguma.

Como então: “depois de morto ainda fala”?

Será que esse “ainda” foi acrescentado por nossos tradutores? Não. Não foi. Ele está livre de qualquer dúvida textual em todas as versões gregas que possuo.

Ainda fala! Como? Se nunca falou. Ou melhor: Como ainda fala, se não temos registro de qualquer palavra dita por ele?

Seu ato ainda fala!

Mas, veja bem: o único ato de Abel registrado foi um ato de adoração a Deus: Pela fé ele apresentou a Deus um culto mais excelente do que o culto de seu irmão. O qual, enciumado por Deus ter preferido o culto de Abel, o matou.

Observe que este é um dos poucos lugares em que Deus faz distinção baseado na qualidade da coisa em si. Geralmente, pela sua grande misericórdia, ele aceita nossas oferendas sem olhar para a qualidade delas. Em outras palavras: Aqui, a base para a aceitação do culto não está na misericórdia de Deus, mas na qualidade do culto.

A fé de Abel - aquela que o permite falar a nós hoje - o levou a oferecer a Deus um cordeiro. Caim tentou compensar sua falta de fé oferecendo a Deus um culto muito mais trabalhoso: teve, no mínimo, o trabalho de plantar, de colher e de transportar. Mas isso não comoveu a Deus.

A fé de Abel lhe mostrou que não poderia aproximar-se de Deus como seus pais o fizeram. O próprio Deus já cometera as primeiras mortes no jardim: os animais dos quais tirou peles. E será o próprio Deus que matará o verdadeiro cordeiro.

A fé de Abel lhe mostrou que desagradaria ao Criador se desconsiderasse seu ato.

Isso é contra o que popularmente se diz: “se for feito com fé Deus aceita qualquer coisa”. A assertiva correta é: “se for feito com fé, não faremos qualquer coisa!”

A falta de fé de Caim o fez repetir o gesto errado de seus pais, com o agravo de, inventando algo novo, oferecer os vegetais no altar. Note que Deus já os recusara como simples vestes.

A falte de fé de Caim levou-lhe a preferir a imaginação e a criatividade como substitutos para a obediência.

A falta de fé de Caim o levou a odiar a obediência na pessoa do obediente matando seu irmão. Do mesmo modo que os novos adoradores rotulam de mortos os que cultuam em espírito e em verdade.

Mas o texto destaca Abel. Seu ato e sua fé. Sem palavras, ainda nos fala: Deus não aceita cultos - por mais elaborados que sejam - inventados pela imaginação e criatividade dos ‘cains’, mas deleita-se quando, reconhecendo a Cristo, o verdadeiro Cordeiro de Deus, lhe cultuamos em fé.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Os perigos de se ver Deus face a face

Os mais velhos se lembram das aulas de Escola Dominical sobre Deus rejeitar o pedido de Moisés para vê-lo face a face, e alguns se lembram de um hino que usa como analogia nossa impossibilidade de olhar diretamente para o sol para explicar por que só podemos ver a Deus através das figuras que ele mesmo escolheu para se fazer conhecido.

No artigo passado mostrei como algumas correntes dentro do evangelicalismo brasileiro estimulam essa impossibilidade e adicionam toques eróticos a esse encontro da alma com Deus. Hoje espero deixar claro a impossibilidade do pecador, mesmo redimido, ver a Deus face a face. E, se conseguisse, o quão terrível seria para ele.

Em primeiro lugar, há o problema da finitude. Somos criaturas e Deus é o Criador. Somos finitos e Deus é infinito. Como abraçar o infinito? É possível colocar o oceano em um copo? Como nosso pequeno cérebro conteria aquele que o criou? Os místicos argumentam que é a alma que o recebe e que visão é apenas força de expressão. Mas o mesmo pode ser dito da alma. Acaso ela é infinita?

Em segundo lugar, estamos em rebeldia contra Deus. Nossos pais nos legaram tal estado: nascemos rebeldes. Aprendemos com facilidade a pensar, falar e fazer o mal. Como as mães testemunham: “se fosse coisa boa não fazia, mas como é ruim não precisou ser ensinado”!

Quando recebemos Jesus em nossas vidas somos declarados, pelo Pai, filhos amados. Totalmente justos diante dele que nos sela com o Espírito Santo o qual nos ensinará a renegar as paixões características dessa velha natureza e nos conduzirá em todas as decisões. Entretanto não perdemos nossa natureza pecaminosa. Ela nos acompanhará à sepultura.

Somos tidos por Deus como seus filhos, apenas por estarmos em seu Filho. E esse é o ponto ao qual eu queria chegar: seu Filho se fez um de nós para que fôssemos feitos um com ele!

Você já reparou que Jesus foi o único “pecador” que se encontrou com Deus face a face? Percebeu qual é o destino dos que vêem Deus face a face? Entendeu por que Deus não atendeu o pedido de Moisés? Ou será que você já esqueceu? “Respondeu-lhe: Farei passar toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o nome do SENHOR; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer. E acrescentou: Não me poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá” (Ex 33.19-20).

Jesus viu Deus face a face para não termos de fazê-lo.

Então nunca veremos a Deus? Veremos sim: em Cristo. Que além de ser a expressão exata do Ser de Deus é quem sustenta todas as coisas pela sua palavra. Também nele habita corporalmente a plenitude da Divindade. Leia Hebreus 1.1-4 e Colossenses 2.8-9) e nunca se esqueça de que Emanuel significa “Deus conosco”.

Esqueça o engodo de nossos poetas e as tolices que assolam nossos dias e escute as palavras do próprio Senhor: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras (Jo 14.9-10)”.

sábado, 24 de outubro de 2009

“... sadios na fé” (Tt 2.2)

Dentre as muitas correntes de pensamento e comportamento do evangelicalismo brasileiro, uma me impressiona há muito tempo. Ela diminui e cresce obedecendo a um ritmo que desconheço. Algumas vezes chega a tornar-se quase onipresente nos sermões, publicações e especialmente músicas. Costumo chamá-la (por falta de um nome melhor) de corrente místico/erótica.

Você já deve ter ficado incomodado, ou pelo menos pensativo, com declarações do tipo “estou apaixonado por Jesus”. É a esse tipo de coisa que me refiro.

Não é nova. Tem a idade dos movimentos místicos e, antes do protestantismo se instalar no Brasil, já se manifestava dentro do catolicismo romano.

De modo geral é possível dizer que os pensadores místicos usam esse tipo de expressões para caracterizar seu relacionamento com Deus. Parece que esse apelo erótico decorre da necessidade de se falar sobre um relacionamento mais íntimo com Deus. Como se a fé não bastasse.

Os relacionamentos mundanos, tidos hoje como os mais profundos, são usados como modelo do relacionamento que devemos ter com Jesus (ou para alguém, alardear o quanto se é íntimo dele). Dentro desse contexto é que essas expressões vulgares aparecem. Porém, não há maior incoerência do que fazer isso.

No contexto bíblico, especialmente no Novo Testamento, paixão é a total negação do Fruto do Espírito. Pathos (etimologia grega da palavra paixão, de onde também procede as palavras patologia ou doença) é a negação absoluta da falta de ordem esperada na fé e na prática. Especialmente no culto.

O apóstolo Paulo verificava, mesmo à distância, a “boa ordem” da fé da igreja de Colossos (Cl 2.5). Determinou a igreja de Corinto que se empenhasse por um culto feito com “ordem e decência” (1Co 14.40). Chegou a deixar Tito como seu representante em Creta para colocar “em ordem” o governo das igrejas de lá (Tt 1.5). Ordem é um valor cristão.

Essa tendência “erótica” foi documentada no meio protestante brasileiro desde seu início. O Dr. André Bieller, pensador reformado, fundador da Escola de Sociologia da USP, chega a se queixar, em seu livro “O Protestantismo Brasileiro”, da quantidade de vezes em que nosso hinário fazia referências a sentimentos em lugar da fé. Constantemente a fé era substituída pelo tocar, sentir ou gozar. Por exemplo: “ao sentir-te perto nada temerei”. E se não sentir? Temerá? Então para onde foi a fé?

As figuras bíblicas foram exageradas e levadas as últimas conseqüências. As “Bodas do Cordeiro com a Igreja” tornaram-se um encontro amoroso entre o fiel e Jesus. Na maioria das vezes é o fiel que pede a Jesus seu toque, carinho e palavras amorosas. O fiel é o sedento de amor e Jesus é o amante que precisa ser chamado e lembrado da carência do fiel ou dos fiéis. Neste caso não se hesita em pedir “incendeia a tua noiva”.

É um relacionamento tão complexo que às vezes se inverte: O fiel possui a Jesus ou Deus e aparecem declarações como “Deus é tão fofinho”. Ou a do bispo: “Deus é uma coisinha quentinha e gostosinha”.

Os ensinos bíblicos sobre os perigos de se encontrar face a face com Deus são postos de lado e a palavra de ordem é aproveitar que, como Jesus já pagou tudo, só nos resta celebrar carnavalescamente ou “gozar a intimidade no jardim”.

Não relevo a alegria que a alma do cristão desfruta na bondade do Senhor. Entretanto, deploro o uso de imagens eróticas, as vezes de mau gosto ou mesmo pornográficas, para descrever esse bendito sentimento.

Há que vigiar nosso vocabulário, nossos cânticos e o culto que oferecemos a Deus. Há que corrigir nossos hinos. Mas primeiramente há que pensar em nossos valores e examinar se não estamos trazendo valores mundanos para dentro da Igreja.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Olimpíadas 2016

Como brasileiro fiquei alegre ao saber que nosso país sediará os jogos olímpicos de 2016.

Concordo que deixamos muito a desejar na área de saúde, educação, e segurança, e em outras, mas creio que este evento possibilita alavancar recursos diretos e indiretos que beneficiem também estas áreas.

Concordo também com os que alertam para a grande oportunidade de desvios de verbas, corrupção e coisas do gênero. Entretanto, a possibilidade disso acontecer é semelhante a de acontecer em qualquer outro evento.

Porém, não concordo com a afirmação de nosso presidente que finalmente resgatamos nossa cidadania mundial. Aliás, pra falar a verdade, nem sei mais ao que a nossos políticos se referem quando usam a palavra cidadania. Muito menos cidadania mundial. Se com isso ele quis dizer que finalmente outros países nos vêem como um país que pode se responsabilizar por um evento de tal magnitude, fico mais triste. Preferia receber tal atestado da OMS ou da UNESCO, do que do COI.

Entretanto, como pastor, lamento algumas coisas.

Primeiro: Fatalmente o Dia do Senhor será profanado. Profanado por quem participará como atleta e por quem se envolverá como espectador ou telespectador. O deleite, que as Escrituras reclamam para tal dia, não será no Senhor, mas nas vitórias que certamente nossos atletas alcançarão.

Segundo: Por mais que vejamos nos jogos olímpicos apenas uma ocasião de congraçamento, eles são, na realidade, um soerguimento do velho paganismo contra quem nossos pais lutaram até a morte. A pira olímpica é um culto aos deuses do Olimpo. Isso é triste.

Terceiro: Desde já começará a haver debates dentro de nossos rebanhos sobre cancelar, adiar ou remarcar horário do culto que prestamos a Deus com o fim de não atrapalhar o acompanhamento das competições. E, pode ter certeza: seja qual for a decisão que vier a ser tomada pelos Conselhos de nossas Igrejas, isso trará amarguras para dentro do rebanho.

Conheço todos os argumentos que se usa a favor do apoio cristão aos esportes e até do envolvimento de Igrejas com eles. Conheço os textos bíblicos que se valem da disciplina dos atletas como modelo da disciplina que a vida cristã demanda. Até concordo com quem diz que o apóstolo Paulo devia ser apreciador dos esportes em sua época. E, embora eu não seja tão atlético, as vezes aprecio também algum tipo de competição. Entretanto, minha dor será pelo que elas acarretarão. Peço a Deus que nos faça sábio e ponderados de modo a resolvermos bem os problemas que chegarão aos nossos apriscos.

sábado, 3 de outubro de 2009

Dubiedade

Uma das coisas mais condenadas nas Escrituras Sagradas é a dubiedade ou a falta de clareza na conduta. Veja:

Mesmo antes de entrar na Terra Prometida, Josué já advertia o povo: “Porém, se vos parece mal servir ao SENHOR, escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR” (Js 24.15).

Nos dias do idólatra rei Acabe, o povo de Deus foi exortado pelo profeta: “Então, Elias se chegou a todo o povo e disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o. Porém o povo nada lhe respondeu” (1Re 18.21).

O profeta Isaías não deixa por menos: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” (Is 5.20).

O Senhor Jesus é muito claro: “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno” (Mt 5.37).

O apóstolo Paulo nos adverte a respeito disso dizendo: “A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova” (Ro 14.22).

Tiago adverte que um comportamento resoluto é condição básica para Deus conceder sabedoria: “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida. Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento. Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa; homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos” (Tg 1.5-8). Como também declara que isso é sujeira do coração: “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração” (Tg 4.8).

Nos casos de Josué e de Elias o povo estava sendo conclamado a definir no que criam, para não chegar ao ponto em que chegaram: “De maneira que temiam o SENHOR e, ao mesmo tempo, serviam aos seus próprios deuses, segundo o costume das nações dentre as quais tinham sido transportados” (2Re 17.33).

Já o profeta Isaías e o Senhor Jesus falam de um comportamento perverso que leva a pessoa a chamar algo pelo seu oposto. Nosso Senhor é claro: isso procede do maligno.

O apóstolo Paulo nos adverte contra agirmos ao contrário de nossas convicções e Tiago fala do homem de “psique dupla” (ânimo dobre).

Esses exemplos mostram que, seja por má fé, tibiez, ou falta de resolução, o comportamento dúbio ou irresoluto é condenado. E, não é difícil encontrá-lo. Pior: precisamos vigiar a nós mesmos para não agirmos assim também, já que o pensamento de nossos dias nos empurra para isso.

Por exemplo: Há quem defenda a vida de um assassino perverso e ao mesmo tempo seja favorável a tirá-la dos que ainda estão no ventre de suas mães e é muito comum encontrar quem lute contra a corrupção política e defenda a corrupção sexual. Estou cansado de ver quem jurou ser a Bíblia sua única e suficiente regra de fé correndo atrás de revelações.

Há uns dez anos ganhei um livro ensinando esse tipo de conduta dúbia. Classificava-a “cientificamente” como um tipo de inteligência: a emocional. Segundo o livro a pessoa sábia é aquela que se conforma ao meio que vive. Como cristãos não podemos ser assim.

A ordem é clara: “não vos conformeis com este século”. E o diagnóstico é preciso: “Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca ... A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento” (Tg 3.15-17).

sábado, 26 de setembro de 2009

Os últimos dias

Em seu discurso, na manhã de pentecostes, o apóstolo Pedro deixou claro que estamos vivendo os “últimos dias”. Ou seja: O período de tempo que estende-se do nascimento do Senhor Jesus à sua volta (o “último dia”).

O Senhor Jesus alertou-nos que esses “últimos dias” se caracterizariam por um aumento gradual das dificuldades com o surgimento de falsos cristos e falsos profetas operando milagres com o objetivo de enganar os eleitos de Deus. Tal período terá fim com eventos cósmicos notáveis e com sua volta.

O apóstolo Paulo, chama os “últimos dias” de tempos difíceis e explica que, egoísmo, avareza, vanglória, arrogância, blasfêmia, desobediência aos pais, ingratidão, irreverência, desafeição, falta de perdão, calúnia, desregramento, crueldade, inimizade ao bem, traição, atrevimento, vaidade, hedonismo, ateísmo e hipocrisia serão as marcas da sociedade desses dias.

Paradoxalmente o escritor da Carta aos Hebreus, afirma que nesses dias a revelação divina será a expressão exata do ser de Deus: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser... ” (Hb 1.1-3).

Não tenho espaço suficiente para escrever tudo o que as Escrituras dizem sobre este período. Que nós vivemos estes “últimos dias” não tenho a menor dúvida, mas estamos perto do fim deles ou não?

Todas as gerações que nos antecederam pensavam que seriam a última. O próprio apóstolo Paulo julgava-se tão próximo que esperava ver a volta do Senhor.

Mas nossa geração tem direito a algum destaque: Nunca a população de nosso planeta foi tão grande. As reservas de subsistência - água e alimentos - já foram ameaçadas diversas vezes, porém nunca de forma tão violenta. Sempre houve problemas de saúde, às vezes atingindo mais de um povo, entretanto nunca em escala planetária, muito menos na velocidade de propagação que vemos hoje.

Nunca o mundo esteve tão conectado. Não só pelos meios de comunicação como especialmente pela economia. E finalmente todos os países e nações passaram a ter um inimigo comum (talvez o primeiro passo em direção a um governo mundial): as mudanças climáticas.

Provavelmente nossa geração não seja a última, mas certamente é uma geração sui generis.

Fica-nos, ainda hoje, a advertência do apóstolo Pedro:

Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento. Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas.

Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os elementos abrasados se derreterão.

Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça (2Pe 3.9-13).

sábado, 19 de setembro de 2009

Obreiros da Iniquidade

Acaso, não entendem todos os obreiros da iniqüidade,
que devoram o meu povo, como quem come pão,
que não invocam o SENHOR?

Salmo 14.4

O termo “obreiros da iniqüidade”, usado acima pelo salmista Davi, é consistentemente repetido, dentro de contextos semelhantes, em dois outros Salmos: o 36 e o 53.

Nestes três Salmos o contexto geral é a humanidade perdida em rebeldia contra Deus, insensatamente duvidando até de sua existência.

No Salmo 14 Davi impreca contra os que devoram o povo de Deus como quem come pão. No Salmo 36 Davi os vê tombados e derruídos sem poderem se levantar. E no Salmo 53 o mesmo Davi altera apenas algumas frases do 14, de modo a estendê-lo também ao Povo de Deus que estava sitiado, pois no outro ele falava da linhagem dos justos sendo ridicularizada.

Em um Salmo os obreiros da iniqüidade ridicularizam a linhagem dos justos, no outro sitiam o povo de Deus e no outro Davi os vê derruídos.

Quando o Livro dos Salmos foi traduzido para o grego, o termo hebreu para obreiros da iniqüidade (que também pode ser traduzido por fazedores de tristezas, causadores de problemas) foi consistentemente vertido pelo que seria literalmente “obreiros sem lei”. Entretanto permite enxergar traços de outros sentidos: Os que investem na ilegalidade ou pessoas que praticam o que a lei proíbe. É claro que a lei a que se refere é a Lei de Deus.

Porém, o bem mais precioso que essa tradução legou-nos foi cunhar um termo que será repetido por nosso Senhor Jesus em um contexto prático: “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.22-23): “Praticantes da iniqüidade”.

Observe que o significado tornou-se mais determinado. Davi, o primeiro rei de Israel segundo o coração de Deus, o usou para caracterizar aqueles que “metiam a ridículo a linhagem do justo” ou “sitiavam o povo de Deus”, e os via derruídos. Jesus, a Raiz de Davi, o último rei de Israel, o real Coração de Deus, usa o mesmo termo para referir-se àqueles que alegam merecer seu favor, por terem a capacidade de, em seu nome, profetizar, expelir demônios e fazer muitos milagres.

Observe que o Senhor Jesus não disse que eles não faziam o que alegavam fazer. Observe também que eles convenceram si próprios de que, por fazerem tais coisas, possuíam algum tipo de familiaridade com Jesus. Tanto é que não hesitam em lançar na face dele que agiram em seu nome. Porém para Jesus eles eram o que Davi já havia denominado: “obreiros da iniqüidade”.

Finalmente veja uma constante: em todos os textos é dito deles que são traidores do povo de Deus. Nos Salmos 14 e 53 são descritos como quem devora o povo de Deus com a naturalidade de quem come um pedaço de pão. No Salmo 36 são descritos como o pé insolente que procura calcar e a mão ímpia que tenta repelir. E no Sermão do Monte o Senhor Jesus os descreve como lobos que se vestem de ovelhas.

A conclusão parece óbvia: Os obreiros da iniqüidade estão dentro do povo de Deus. Dentro o suficiente para devorá-los. Acham tão natural as peles de ovelha que vestem, que enganam-se a si mesmos, alimentam-se do povo de Deus como alimentam-se de pão. Devoram as ovelhas do Senhor como lobos roubadores que são. A ordem do Senhor Jesus não podia ser mais clara: Acautelai-vos deles.

sábado, 12 de setembro de 2009

Tempo de plantar

Broto de Uva Setembro chegou e com ele o calor se anuncia e as chuvas já ameaçam cair. Aproxima-se o tempo de plantar.

Nesta época a terra, qual forno, aquece e quebra as sementes. As chuvas as refrescam e as fartam de nutrientes. Logo nascerão plantas novas. As mangueiras já estão florindo, breve as manguinhas, e as demais frutas da época estarão prontas para ser colhidas.

Os frutos podem ser consumidos in natura, ou preservados. Alguns serão secos, outros serão cozidos em compotas e outros ainda serão prensados, fermentados ou destilados, nos mais variados líquidos.

Para compensar o desconforto do calor muitos aromas invadem a noite e o sono e nos renova a certeza de que o Amado de nossa alma nos provê daquilo que não conseguiríamos mesmo levantando de madrugada, dormindo tarde e penosamente nos afadigando sob o sol.

Para compensar a noite mal dormida ele nos acordar ao som dos passarinhos que nos certificam - como a pomba certificou a Noé que as águas haviam baixado - que suas misericórdias se renovaram naquela manhã.

Essa bendita variação do tempo nos traz muito mais do que sabores, aromas e sons agradáveis: renovam a certeza de que, o Pacto feito com Noé ainda vigora e pode ser por nós desfrutado.

É a graça. Todas essas coisas são mantidas pela graça divina e sem ela nada se renova.

Dia desses vi diversas mudas prontas para formar um vinhedo - essas que estão na foto - e observei que algumas já estavam brotando. Lembrei-me da mangueira frondosa vizinha de meu quarto e que, no final do ano, marcava a passagem da noite com baques surdos das mangas mais maduras derrubadas pela brisa cálida vinda do rio e lembrei-me também das palavras de nosso Senhor: “todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele (o Pai) corta e o lança fora”.

A igreja de Antioquia - aquela que enviou Paulo e Barnabé na primeira viagem missionária que as Escrituras registram - sofreu esta sanção. Dela hoje só temos uma caverna com ares de impostura para turismo. E as demais igrejas? Você já reparou que nenhuma igreja mencionada no Novo Testamento continua de pé? A menos que você considere de pé a igreja de Roma.

Aguardo ver um broto no tronco que sobrou da mangueira, como vi aquele broto da vinha. Entretanto, temo que os dias estejam mais para a missão de Isaías que ao se voluntariar com “eis-me aqui, envia-me a mim”, recebeu a dura missão de falar a santa mensagem até sobrar apenas o toco. Toco como o da mangueira de meu vizinho.

Temo que as palavras de João estejam se cumprindo “E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Lc 3.9).

É tempo de plantar. Tanto nos campos quanto em nossas vidas. Plantemos na confiança de boas colheitas de cereais e frutas, mas principalmente do único fruto que se entesoura para a vida eterna.

domingo, 6 de setembro de 2009

Por que a Igreja de vocês não se moderniza?

“Por que a Igreja de vocês não se moderniza?” Foi com esta pergunta que um senhor bem vestido e perfumado encerrou nossa conversa aborrecido por eu não consentir com a apresentação de “seu cantor” no culto de nossa igreja.

Eu já havia argumentado que em um culto cristão não há apresentações e sim louvor, ao que ele respondeu: “Mas é só louvor, ele não vai cantar música do mundo”. Tentei explicar que o louvor em um culto não significa apenas o tipo de música, mas principalmente a intenção com que ela é cantada. “Mas ele vai fazer apenas uma apresentação dos últimos sucessos para que os membros da Igreja possam cantar músicas novas depois”.

Cada argumento meu era rebatido por ele.

Mantive-me dentro dos elementos bíblicos do culto e ele enfatizou o quanto perdíamos não recebendo seu cantor: “ele canta bem, vai limitar seu repertório ao que é usual nas igrejas presbiterianas conservadoras, e ...”. Daí entendi que havia um repertório para outras denominações bem como para as presbiterianas não conservadoras.

E os 15 minutos pedidos por ele me pareciam uma eternidade. Seu último argumento foi: “O rapaz ainda é novo mas canta tão bem que o pastor dele já o ungiu ministro de música: um levita ...”.

Não me contive: “Um levita? Como no templo de Salomão?”

Diante da confirmação me esqueci dos 15 minutos, e do restante da rotina matinal. Tentei mostrar-lhe o anacronismo, - pra não dizer a bobagem - que ele estava falando. Tentei, mas não consegui, pois ele levantou-se furioso e soltou a pergunta que encabeça esta narrativa: “Por que a Igreja de vocês não se moderniza?”

Ele não referia-se a nossas instalações, ou a beleza de nosso templo, muito menos a funcionalidade das salas de aula ou de nosso escritório, do contrário eu teria respondido de pronto: “Por falta de recursos”.

Sua pergunta era retórica. Ele, na verdade, protestava contra uma organização que tinha por superada.

Depois, pensando no acontecido, imaginei que possa haver quem pense assim também. Alguns irmãos confirmaram que existe. Resolvi então tornar público o assunto e responder a tal pergunta.

Em um assunto como esse a Igreja não pode “se modernizar”, pois contrariará a Bíblia. Um exame na história do povo de Deus mostra que ele passou por fases bem determinadas. Houve o tempo dos patriarcas, o tempo dos juízes, o tempo dos reis e hoje o tempo do “sacerdócio universal”.

Nesses primeiros tempos os oficiais representavam os seus diante de Deus. Hoje cada um se representa diante de Deus. Ou seja: cada um é sacerdote de si mesmo, perante o sumo-sacerdote Jesus. Portanto o Povo de Deus presta culto. Não assiste, nem é mediado diante de Deus. Cultua. Cultua em Espírito e em verdade.

No culto cristão os cânticos apesar de importantes, não são essenciais. Na realidade não têm importância alguma diante de uma vida de culto. Mesmo que não se cante coisa alguma, se dois ou três estiverem reunidos em nome do Senhor Jesus ele garante que estará com eles. Entretanto o inverso não é verdadeiro.

Não é o cântico que faz o louvor. É uma vida de louvor que se expressa em cânticos.

O cântico sem respaldo de uma vida consagrada é abominação diante de Deus, e uma vida consagrada não precisa de cânticos, embora na maioria das vezes faz com que os lábios abram-se em cânticos, que, mesmo desafinados, são agradáveis a Deus por que procedem de quem o honra.

Mas, e a apresentação? Essas são apenas shows. Jamais alcançam um status de culto. Seja a mais bela cantata de Bach ou a performance mais leonina da mais conceituada artista. E, show por show, é melhor assistir aos profissionalmente bem feitos.


BH 6/9/2009

Ainda sobre Carnaval

Nesta semana que passou a internet “viralizou” um vídeo de um carnavalesco comparando um desfile de uma escola de samba com um despacho de m...