sábado, 18 de setembro de 2010

Ansiedade

“...lançando sobre ele
toda a vossa ansiedade,
porque ele tem cuidado de vós”
(1º Pedro 5.7)
Em muitos lugares as Sagradas Escrituras nos advertem sobre a dificuldade de se viver os padrões de Deus. Diferentemente do marketing feito pelos novos evangélicos as Escrituras não prometem nada além de dificuldades. Afinal, se o próprio Jesus disse que estava nos enviando como ovelhas para o meio de lobos, dizer algo diferente é, no mínimo, mentira.
As dificuldades que enfrentamos decorrem do fato de que os nossos padrões e os padrões do mundo em que vivemos estão aquém dos padrões impostos por Deus. Aliás, na grande maioria das vezes são opostos.
Creio que a maior dificuldade é aquela que estamos vivendo no momento, pois é com ela que temos de nos ocupar. Creio também que quando o Senhor Jesus disse que “basta ao dia o seu próprio mal”, nos ensinou que cada dia traz embutido em si algum tipo de dificuldade para aqueles que vivem na dependência do Pai.
Entretanto, não duvido de que, se olharmos para as dificuldades sofridas por nossos antepassados, perceberemos que a soma de todas as dificuldade pelas quais estamos passando é nada perto das que eles sofreram. Ou será que, diante de uma fogueira, ou de instrumentos de tortura, continuaríamos firmes em nossa fé?
Mas, voltando às nossas dificuldades diárias, que não incluem perseguições - pelo menos por enquanto - há um mal que nos persegue implacavelmente, pois está dentro de nós e nos acompanha todos os dias: a ansiedade.
Quem pode controlá-la?
Ela tem duas origens: disfunções de nosso organismo ou a percepção de algum tipo de ameaça futura. As disfunções orgânicas podem ser remediadas. Já temos até um nome para essa classe de remédios: ansiolíticos (de ansiedade mais a palavra grega lytikos, que significa capaz de dissolver).
Mas, e as percepções de ameaças? Fundamentadas ou não elas revelam o quanto cremos que Deus está no controle de tudo. Em síntese: elas demonstram, em maior ou menor grau, verdades sobre nossa fé.
Como Deus é misericordioso para conosco, os remédios que atuam contra a disfunção orgânica também nos ajudam naquilo que deveria ser resolvido pela robustez da fé. É como se Deus, respondendo ao pedido daquele pai citado por Marcos 9.21-27, minorasse o sofrimento que nossa pequena fé nos faz passar.
Porém, necessito fazer uma ressalva. Até aqui vimos o lado negativo da ansiedade. Paulo, em 2Co 11.28, usa a mesma palavra pra falar dos cuidados que pesam sobre ele com relação as igrejas, e bem sabemos que podemos ficar ansiosos face a algo de bom que esperamos acontecer. Não ficam ansiosos os noivos antes do casamento? Não vive ansiosa a Igreja aguardando a volta de seu Senhor?
Hoje estamos diante de presumíveis adversidades, mas também estamos diante de enormes possibilidades. Ambas podem nos deixar ansiosos. Não há o que fazer além de colocar em prática a ordem do Apóstolo Pedro e pedir que Deus tenha misericórdia de todos nós.

sábado, 11 de setembro de 2010

Eleições brasileiras

Ao longo de toda a Bíblia encontramos muitas pessoas chamadas por Deus para servir a governos de povos estranhos aos valores divinos.

Vemos também o Povo de Deus, tanto do Velho quanto no Novo Testamento, sujeitos a bons governantes e aos mais terríveis déspotas.

Entretanto o ensino bíblico não poderia ser mais claro: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas” (Rm 13.11).

O que pesa mais em meu coração - e suponho que no seu também - é que Deus constituirá nossos próximos governantes brasileiros através de nossas mãos. Pra ser mais claro através de nossos votos.

Matematicamente cada um deles não pesa muito na escolha - afinal um em 136 milhões é algo estatisticamente desprezível - mas eticamente tem um peso enorme diante de Deus, pois, com o voto, estaremos dizendo: “em nome de Deus escolho você”.

Há alguns atenuantes que nos permitem confortar um pouco nossa consciência. O principal deles é não podermos votar em quem quisermos. Teremos diante de nós um “cardápio” elaborado pelos muitos partidos políticos, através de coligações, conchavos, negociatas, pressões, e outras coisas menos nobres. Portanto escolheremos dentre o que já está pronto.

Resumindo: votaremos em quem menos nos desagrade. E Deus saberá disso.

Aliás, os candidatos que fazem parte deste “cardápio” estão ali com o consentimento divino e o modo como entraram ali certamente deporá a favor ou contra eles diante do Altíssimo.

O que não podemos é deixar de exercer o dever que o Senhor dos Senhores nos delegou. Temos de escolher alguém.

Obviamente, como pastor, que tem a tendência natural de proteger seu rebanho como um pai protege a seus filhos, eu gostaria de alertar contra um ou contra outro, mas não posso fazê-lo, pois:

Primeiro: por mais bem informado que eu esteja há pessoas mais bem informadas do que eu já que não lido com o meio político partidário.

Segundo: O Deus que envia um governante para o bem de uma nação é o mesmo Deus que levanta outro para punir conforme sua sábia e inquestionável decisão.

Terceiro: Deus não me constituiu consciência de ninguém. Se eu usurpar tal lugar estarei exorbitando da função para a qual fui chamado. Em outras palavras mais diretas: Deus não me chamou para ser cabo eleitoral.

Entretanto é meu dever deixar bem claro que ao votar você estará desempenhando uma missão divina.

Prefira então, não o candidato que discursa valores cristãos ou promete para depois de eleito viver como um cristão, mas aquele que já vive mais perto dos valores que você conhece e pelos quais luta.

sábado, 4 de setembro de 2010

Desertos

Você já se deu conta da freqüência com que a Bíblia fala de desertos? Observou que eles estão ligados tanto a más quanto a boas ocasiões. Tanto a bons quanto a maus significados? Os desertos citados na Bíblia não são apenas dunas de areia, mas também o que hoje chamaríamos, no Brasil, de serrado pedregoso ou até mesmo de caatinga.
Pelo deserto peregrinou Abraão e seus descendentes a procura de Oasis em que pudessem dessedentar seus animais e eventualmente fazer morada durante algum tempo. Para o deserto fugiu Agar, grávida de Ismael, até que o Anjo do Senhor ordenou que voltasse e se humilhasse diante de sua senhora. E anos depois, para outro deserto foi expulsa com Ismael já adolescente, após caçoarem daquele que acolheu as promessas. E ainda em outro deserto Ismael foi criado.
No deserto foi José jogado em uma cisterna e vendido por seus irmãos. Para o deserto, que tinha o monte com a sarça incendiada que não se consumia, saiu, em êxodo, o Povo de Deus e lá recebeu a sua lei e aprenderam a cultuá-lo.
No deserto foram provados e ensinados que nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus e que, até as pedras são capazes de produzir água sob sua ordem.
No deserto morreram todos os que nasceram no Egito, exceto Josué e Calebe. E, ainda no deserto, se prepararam para entrar na terra que lhes havia sido prometida desde os dias de Abraão.
No deserto escondia-se Davi quando perseguido por Saul e do deserto Salomão sonhava vir sua bem amada.
Para o deserto fugiu Elias da ira de Jezabel e Oséias desejava levar sua mulher e falar-lhe ao coração.
Isaías profetizava que a voz do Senhor clamaria no deserto e no deserto cresceu João Batista onde recebeu, com a água, os arrependidos que o buscaram querendo andar por vereda plana.
Para o deserto o Espírito Santo levou Jesus, que mesmo não tendo sequer o maná, perseverou em toda palavra que havia saído da boca de Deus.
Os desertos na Bíblia podem significar provações, mas sempre significaram também a “companhia solitária” de Deus e sua força. Cada geração de seu povo, por assim dizer, nasce e cresce no deserto. No deserto aprendem também que a maior necessidade é da presença do Senhor. Nela repousam. Nela alentam as forças.
Agradeçamos a Deus pelos desertos pelo qual ele nos obriga a passar, pois as pegadas de Deus destilam fartura, destilam sobre as pastagens do deserto, e de júbilo se revestem os outeiros. Os campos cobrem-se de rebanhos, e os vales vestem-se de espigas; exultam de alegria e cantam” (Sl 65.11-13).

sábado, 28 de agosto de 2010

Perdoar

Todos nós sabemos o que é perdoar. Também sabemos o quanto é difícil perdoar verdadeiramente e sabemos que perdoar é muito mais do que simplesmente dizer: eu te perdôo. Mais difícil ainda é ter certeza de que perdoou de fato.

Há alguns anos aconselho pessoas que não conseguem ter certeza de que perdoaram de fato. Essa dúvida geralmente se expressa por frases do tipo: Eu perdoei! De coração eu perdoei! Mas, quando nos encontramos a primeira coisa de que me lembro é do erro que eu perdoei. Então, como posso ter perdoado se não esqueci?

Primeiro preciso deixar bem claro que perdão não tem nada a ver com memória. Perdão é algo que exige apenas três atitudes: 1) Não levar em conta o erro que perdoou ao tratar com a pessoa que foi perdoada, 2) não basear uma ajuda futura a quem perdoou no fato ocorrido e 3) não divulgar o erro que perdoou, com o intento de difamar o perdoado.

Para ficar mais claro: Eu posso até me lembrar de que Fulano, com quem convivo, fez algo errado comigo. Mas, se o perdoei de fato - e sou obrigado a fazer isso “não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete” - não deve ser tal lembrança, ainda que muito incômoda, que me atrapalhe a convivência diária com ele.

Posso até me lembrar de que Beltrano não me pagou uma dívida. Mas se eu disse, obedecendo ao Senhor, que o perdoava, não posso negar um empréstimo que ele venha a me pedir.

Posso até me lembrar de que Sicrano não cumpriu o que me prometeu. Mas se, na presença do Senhor eu o perdoei por isso, não posso espalhar pra todo mundo que ele não cumpre o que promete.

Nesse último caso, há uma observação: Se alguém está em vias de fazer um acordo com o Sicrano e esse alguém vier me pedir referências sobre ele, mesmo tendo perdoado, não posso me omitir. Ou seja: perdoar não exige que eu minta.

Romanticamente nos obrigamos a confirmar com sentimentos aquilo que afirmamos ter feito. Isso é uma grande dificuldade para quem vive pela fé. Não temos de sentir por quem perdoamos a mesma coisa que sentíamos antes. Se sentirmos, tanto melhor. Mas somos obrigados a manter as três atitudes do perdão.

Fomos perdoados de uma ofensa infinitamente maior do que qualquer coisa que pudermos imaginar. Não podemos prestar culto a Deus, orar como ele quer que oremos, ou participar da mesa de seu Filho se não perdoarmos nosso irmão. O verdadeiro crente é obrigado a perdoar de fato e não a enganar-se com sentimentos forçados.

Tampouco Deus exige que esqueçamos o que sofremos para chegar àquela atitude de perdão. Enquanto a graça de Deus não apagar o ocorrido de nossa memória (o que geralmente faz usando o tempo) todas as vezes que nos lembrarmos do mal, nos lembremos também das atitudes de perdão e coloquemos tudo aos pés da cruz. Um dia esqueceremos. Se não esquecermos, no dia eterno ele “enxugará de nossos olhos toda lágrima”.

sábado, 21 de agosto de 2010

Promessas não cumpridas

Chamado por Deus, Abraão partiu de Ur em direção a uma terra desconhecida. Literalmente: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei” (Gn 12.1). Obedeceu e passou o resto da vida peregrinando. O único pedaço do qual se apossou foi a sepultura de Sara, comprada dos heteus por um preço exorbitante. A promessa de Deus a Abraão não foi cumprida.
Chamado por Deus, Moisés, séculos depois, conduziu o povo pelo deserto em direção à mesma terra. Mas diferentemente de Abraão, que peregrinou nela, apenas a viu de longe. Moisés também não viu cumprida a promessa.
Muitos não viram a concretização da promessa e o escritor da Carta aos Hebreus registrou: “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (Hb 11.13).
Não é notável que Abraão, o homem através do qual pactuamos com Deus em graça, e Moisés, o homem através de quem recebemos sua Lei, não obtiveram a concretização das promessas que lhe foram feitas?
É Deus injusto ao prometer algo e não cumprir? Ou será que o cumprimento de suas promessas não está vinculado ao nosso tempo? Ou ainda: Será que a verdadeira promessa não é a material, como entendemos, mas a espiritual que vamos receber ao chegarmos diante dele?
Desesperados, e em pranto, muitos já me questionaram: como é que Deus promete certas coisas e não cumpre?
Já ouvi: “pastor, Jesus prometeu se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus (Mt 18.19)? Por que então ele não cura meu marido?” ou “Por que ele não traz de volta meu filho?”
Não respondo com o engodo “você está pedindo sem fé”! Digo apenas “não sei”.
Não sei por que Abraão e Moisés, “homens dos quais o mundo não era digno” não obtiveram o que lhes foi prometido por Deus. Aliás, nem sei por que passaram por problemas difíceis até de descrever. Mas de uma coisa, tenho certeza: Embora eu não mereça o que foi dito deles, meu nome está no mesmo rol, pois também peregrino sobre uma terra que não me foi dada. Vejo e a saúdo de longe uma terra mais desejável, e igualmente anseio possuí-la.
Porém, o tempo em que isso acontecerá está determinado por meu Senhor. E mesmo que nenhuma promessa, que ele tenha feito, se cumpra nesta vida, tenho certeza de que todas serão concretizadas ao seu lado.

sábado, 14 de agosto de 2010

Lutas por fora, temores por dentro.

Embora alguns não a usem com receio de serem tidos por faltos de fé ou fracos, esta frase provavelmente é uma das melhores descrições do que a grande maioria de nós passa. Com ela, o apóstolo que se recomendou à consciência dos fiéis, confessa suas dificuldades à igreja de Corinto.

Na mesma carta confessa que perdeu uma grande oportunidade, concedida pelo Senhor, em Trôade, devido a falta de tranqüilidade (2Co 2.12-13) e que chegou a desesperar-se da vida pelo tamanho das tribulações que enfrentou na Ásia (2Co 2.8).

Eu já passei por momentos assim. Já pedi ao Senhor que me levasse e nem sei contar quantas oportunidades perdi por falta de tranqüilidade. Portanto, conheço, por experiência, o que você está sentindo, se enfrenta lutas por fora e temores por dentro.

Nenhum de nós está livre de lutas. Aliás, elas são tão necessárias à saúde nossa fé como uma atividade física é útil à saúde de nosso corpo. Para ser mais exato, o Senhor Jesus disse que elas fariam parte de nosso caminhar, quando nos mandou tomar, cada dia, a nossa cruz e segui-lo.

As lutas definem o caráter e fortalecem a fé.

Nenhum de nós também está livre de temores. Temores pela saúde, pelo trabalho, pela família, pelo futuro de nosso país, até mesmo pelo que está acontecendo com a igreja. Sempre vejo adolescentes ou jovens temendo um vestibular ou uma entrevista de emprego, pais receando pela companhia de seus filhos e anciãos preocupados com o último dia.

Os temores estimulam o exercício da fé.

Na própria carta Paulo cita duas razões pelas quais um filho de Deus enfrenta coisas assim: aprender amar a Deus sobre todas as coisas e aprender amar ao próximo como a si mesmo.

Ele aprende a amar a Deus quando as lutas e temores lhe mostram que é apenas um vaso de barro e que a excelência do que conseguiu fazer veio de Deus. Nas palavras do próprio Paulo: “De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (2Co 12.9).

Ele aprende a amar seu próximo quando percebe que as lutas e temores passados e superados lhe ensinaram a confortar (cum+fortius=com força) ou consolar (obra primária do Paracletos) a quem enfrenta tal situação: “É ele [Deus] que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus” (2Co 1.4).

Nos dias atuais, além de não ser conveniente confessar tais problemas, considera-se feliz aquele que os supera com os próprios esforços. Isso não é um valor cristão. O verdadeiro cristão entende que a bem-aventurança consiste em ser consolado por Deus e aos pés dele depõe suas lutas e temores.

Hoje prega-se um cristianismo que traz prosperidade, saúde, realizações e vitórias. Desconfie! A principal mensagem do cristianismo é pregada à sombra de uma cruz. Lá está a verdadeira vitória. Lá cessam todas as lutas e dissipam-se todos os temores.

sábado, 7 de agosto de 2010

Aborto e palmadas. Filhos e pais.

Qual será o pensamento que orienta nosso governo?

De algumas leis e projetos de leis defendidos pelo nosso governo deduzo que se poderá matar, sob tortura, uma criança, desde que ela ainda não tenha nascido. Mas, depois de nascida, ela não pode levar sequer uma palmada que lhe seja benéfica.

Só posso entender admitindo que a criança antes de nascer não esteja viva, ou se sua vida for igual a de um vegetal, pois nem a insetos se mata desmembrando como ocorre em alguns processos de aborto.

Mas falando da criança já nascida, acho que pressupõem que, desde bebê, tenha a capacidade de entender coisas como não colocar a mão no fogo ou não levar à boca o enfeite de mesa - ou coisas piores - e principalmente de obedecer.

Pressupõem que uma criança ativa domine seu espírito desbravador e entenda que os pais têm razão ao impedi-la de entrar debaixo do brinquedo no parquinho, ou de subir nas prateleiras da geladeira para puxar um pudim delicioso, ou de não tomar o brinquedo novo que o coleguinha ganhou.

Parece coisa de quem não teve filhos ou nunca observou os filhos dos outros.

O que falar das crianças maiores ou dos pré-adolescentes que não ficam quietos? Creio que além de não ter filhos, o autor desse projeto, nunca deu aula: nunca “gestou o caráter” de alguém. Ou tem tanta maldade no coração quanto quem não vê problema algum em matar uma criança cujo corpo ainda está sendo gestado.

Uma nova dimensão aparece se compararmos a criança não educada - ou não disciplinada - com o adulto infrator.

O destino mais óbvio para as crianças não educadas por seus pais é o de menores ou adultos infratores e depois o de criminosos. Pois bem: nosso governo diz estar empenhado em políticas que diminuam a população carcerária. Como? Impedindo o uso dos instrumentos de educação à disposição dos pais?

Veja bem: não estou defendendo espancamentos. O que estou dizendo é que a criança deve ser educada. Para tanto é necessário que ela entenda o que os pais querem lhe ensinar e a linguagem que a criança pequena entende não é o discurso verbal.

A criança deixa de por a mão no fogo quando entende a associação entre a chama e a dor da queimadura, ou à dor menor da palmada do pai. Não é um discurso que convencerá uma criança de que não se pode brincar com fogo.

Quanto aos espancamentos já temos leis boas o suficiente para prender pessoas como aquela senhora que espancava a criança que pretendia adotar.

Ao disciplinar, com a pequena dor da palmada o pai evita a dor maior da queimadura ou do cárcere, mas acima de tudo impõe freio ao erro e respeito a autoridade.

Seria melhor se o governo se empenhasse na formação de pais. Da mesma forma que se preocupa com a formação de motoristas deveria se preocupar com a formação de pais e mães responsáveis.

sábado, 31 de julho de 2010

Eleições

Defronte a uma grande extensão de mata atlântica, rodeada por morros, o sol só atingia a casinha no meio da manhã. Levantar cedo e acender o fogão à lenha era comprar briga com o frio, compensada imediatamente pela visão do alto da mata brilhando ao sol, e pela algazarra do bando de passarinhos no terreiro e nas árvores próximas.

Nem telefone nem internet. Só televisão. Porém, as melhores cenas não estavam nela: voavam de árvore em árvore, brilhavam com o reflexo do sol ou contra o fundo escuro da noite. Não sei descrever a beleza daquele céu estrelado ou a placidez da lua cheia.

Antes do sono o frio e o vento cortante conseguiam nos empurrar da varanda para dentro de casa e nos lembrar de que a vida continuava.

Numa dessas noites, vendo o jornal, me dei conta de três acontecimentos notáveis: Três eleições: a do Técnico da Seleção, a do Presidente da República e a dos Oficiais de nossa Igreja.

Pouco sei sobre a escolha do primeiro, mas tenho certeza de que é feita por alguns – talvez por um só – mediante critérios mais técnicos do que políticos. Afeta tanta gente que deveria ser eleição direta nacional. Afinal os brasileiros são mestres em futebol para ver rapidamente quais seriam os melhores candidatos. Com o futebol estão muito mais envolvidos e dele extraem muitas alegrias.

Sobre a eleição do Presidente da República, apesar de só ter votado em um aos 34 anos, sei um pouco mais. Muitos votarão em quem começaram a ouvir falar há pouco tempo, ou em alguém com menos experiência do que um técnico de um time de várzea. Muitos votarão contrariados ou até mesmo obrigados e o critério de outros não será a competência – como fariam se fossem escolher um técnico para a seleção – mas a melhor apresentação.

Na Igreja a escolha são bem diferentes. A competência é desejável, mas não é imprescindível. Os dotes políticos em vez de ajudar, prejudicam. Deve ser eleito aquele que melhor satisfaça as exigências da Palavra de Deus, e quase todas, com exceção de uma ou duas, dizem respeito a vida familiar. Ou seja, os oficiais da Igreja de Deus devem ser antes de tudo bons pais de família, bons maridos, bons filhos, bons irmãos e ter boa instrução na Sã Doutrina.

Deus permitiu que seu povo escolhesse seus pastores. Mas devem fazê-lo conforme os critérios dele. Fazendo assim cada um saberá o que é mais importante para Deus, atestará o que é a verdadeira fé e testificará que Deus é o senhor daquela igreja.

Já estou com saudades dos passarinhos, das manhãs frias e das noites estreladas, mas tenho certeza de que a oportunidade de escolher um diácono para a Igreja do Senhor é mais importante do que aquele deleite, como também é mais importante do que escolher os dois maiores mandatários de nosso país.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Tempo e o modo

Não há inundação sem a primeira gota de chuva. Não há tempestade sem a primeira brisa. Não há discórdia sem a primeira palavra mal dita ou mal entendida. Grandes discussões podem acabar em abraços e pequenos desentendimentos podem acabar em grandes tragédias.

Nenhum de nós, sabendo a que ponto chegaria, jamais teria contado uma determinada piada, falado uma determinada palavra ou feito o gesto que provocou toda aquela dor.

O sábio Salomão chama isso de o “grande mal que pesa sobre o homem” (Ec 8.6): desconhecer o resultado de seus atos.

Ele ensina que, como nenhum de nós conhece o que há de suceder, devemos - no único tempo sobre o qual temos algum controle, que é o momento presente - guardar a Lei de Deus. Ela nos foi dada para nos ensinar a decisão certa, a atitude correta, a palavra adequada e o tempo oportuno. Ou seja: A Lei de Deus nos ensina como viver cada instante de modo que o resultado de cada um desses instantes vividos esteja sempre de conformidade com a vontade de Deus e as conseqüências dos mesmos sejam sempre aquelas que agradem a Deus.

Nesse mesmo texto Salomão nos diz que para todas as coisas há um tempo e um modo, e que o sábio os conhece.

De fato: Às vezes vivemos o tempo certo de se fazer algo, mas não podemos fazê-lo do modo certo. Às vezes podemos fazer do modo certo, mas não estamos no tempo adequado.

Tempo e modo. Estes dois fatores precisam estar em harmonia para que tudo o que fizermos seja bem sucedido. E quem os harmoniza é a Lei de Deus.

Nosso Senhor morreu no tempo certo: Na “plenitude do tempo” como nos disse o apóstolo Paulo (Gl 4.4). Nosso Senhor morreu do modo certo: condenado injustamente, debaixo da pena que era nossa, de modo que Deus, nosso bendito Pai, lhe imputasse todos os nossos pecados.

Estou acostumado a ver quem age do modo correto estragar uma boa iniciativa por desconsiderar o tempo certo de fazer o que queria. Igualmente, já vi quem aguardou o tempo certo, mas todo atabalhoado, desprezou o modo certo e obteve os piores resultados daquilo que fez com tão boa intenção.

Minha alegria é ver alguém sábio o suficiente, que, enquanto espera o tempo certo, se prepara para executar aquilo que seu coração lhe mostra e Deus lhe permite.

Com paciência ele perscruta. Sonda. Ausculta. E realiza o que foi posto sob sua responsabilidade. E assim glorifica a Deus como bom mordomo do tempo e bom executor de seu querer.

Tudo varia. O tempo e o modo também. Mas a Palavra de Deus permanece verdadeira.

sábado, 10 de julho de 2010

O Nome

De modo geral, nos identificamos pelo nome completo, que é composto do nome próprio, sobrenome materno e paterno. A ordem, a obrigatoriedade ou o número de sobrenomes varia. Por exemplo: Os espanhóis usam primeiro o sobrenome paterno e o sobrenome materno por último. Os americanos e ingleses se contentam com o sobrenome paterno. Os húngaros, japoneses e chineses usam o sobrenome antes do nome.

Nos tempos bíblicos a identificação compunha-se geralmente de um nome próprio seguido do nome do pai, e de algum ancestral notável. Nosso Senhor é chamado por Mateus de “Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1.1).

Algumas vezes o nome próprio é seguido por um atributo pessoal: Jesus Cristo (Cristo significa o escolhido), Saulo de Tarso (Nascido em Tarso), José Barnabé (hábil em incentivar), Simão Curtidor (trabalhava com couros).

Nos primeiros anos da Igreja, com tantos, de tantas nacionalidades e culturas aderindo ao cristianismo, encontramos os mais diversos nomes. Mas é nessa época, em Antioquia, que os seguidores de Jesus passaram a ser chamados Cristãos. Talvez um modo pejorativo de designá-los, como, décadas atrás, nos chamavam de “os bíblias”.

Esse tipo de designação é mais precioso do que um sobrenome de família, de local ou de profissão. E embora designe o grupo mais do que o indivíduo, revela o que é mais notável.

Por protestarem contra várias decisões da Igreja de Roma as Igrejas que nasceram da Reforma Religiosa do Século 16, receberam o nome de Protestantes. Entretanto, ao chegarem ao Brasil preferiram se apresentar como Evangélicas. Modernamente algumas que tem muito pouco, ou nada, dessa raiz, adotaram essa mesma designação: em inglês! Gospel.

Preferimos o nome Presbiteriano, por indicar nossa forma de governo, entretanto sempre mantivemos a identificação evangélica.

Hoje, presbiterianos como eu têm uma dificuldade muito grande em se identificar. Somos Protestantes? Contra o que protestamos, se não temos qualquer vínculo com a Igreja de Roma? Somos Evangélicos? Está cada vez mais difícil agüentar as besteira que esse nome evoca. ‘Góspeis’? Deus nos livre! Além das besteiras, evoca o pernicioso comércio da fé.

Nossa sina é pertencer ao crucificado. Nele fomos predestinados e crucificados para o mundo. Portanto não há como fugir: somos cristãos. Para o bem ou para o mal somos cristãos.

Não concordamos com muitas coisas que outros cristãos fazem, mas somos cristãos. E como Pedro nos ensinou devemos honrar esse nome: "Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus. Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem mas se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome" (1Pe 4.14-16).

sábado, 3 de julho de 2010

A seleção brasileira, nós e Adão

Quando a bola aproximou-se da área do gol do Brasil o comentarista interrompeu de chofre a notícia que seu colega dava sobre um acontecimento nos vestiários. A torcida no campo levantou-se de uma só vez e a torcida em casa contorceu-se. De tão absorto, houve quem derramasse a bebida que já estava nos lábios.

- Sai, sai, sai...

- Tira ela daí! Tira, tira, tira!

Pelo jeito não havia nenhum ateu na frente da TV, pois o fervor com que o nome de Deus era invocado diante do perigo de um gol superava em muito o fervor das reuniões de oração de algumas igrejas modernas especialistas na arte de expulsar demônios ou fazer curas.

Quando a bola aproximou-se da área do gol do adversário, as reações eram semelhantes. Porém, em sentido diferente. E o gol era seguido por gritos e pulos de uma alegria desenfreada em que o barulho alongado das buzinas era entrecortado pelas explosões dos mais diversos tipos de bombas e fogos de artifício. Barulho desenfreado! A última coisa em que se pensava era Deus.

Já vi o Brasil vencer e perder. Lembro-me da copa de setenta (pra mim a mais bonita). Lembro-me da decepção geral na copa de setenta e oito, quando o Peru perdeu de seis a zero para a Argentina eliminando a possibilidade de o Brasil disputar o primeiro lugar.

Percebeu?

Tanto na possibilidade ou não de um gol, quanto na lembrança de copas passadas ou na descrição da presente, é perfeitamente aceitável nos referirmos à seleção brasileira apenas como Brasil. Afinal, se ganhar foi o Brasil que ganhou. Se perder, foi o Brasil que perdeu. O gol seria do Brasil ou contra o Brasil. O Brasil está lá! A representação do Brasil é, para todos os efeitos, o Brasil.

A alegria da copa de setenta, e das demais copas vencidas, foi a alegria do Brasil. A tristeza de setenta e oito e das demais copas perdidas (dizem que não houve igual a de cincoenta, quando o Uruguai ganhou do Brasil em pleno Maracanã), foi a tristeza do Brasil.

Será que isso não dá para se ter um vislumbre de como estávamos em Adão quando ele pecou? Apenas um vislumbre, pois o que aconteceu foi um pouco mais complicado.

Ao longo de sua história a Igreja tentou explicar o que aconteceu e houve quem dissesse que “nós estávamos seminalmente em Adão”, como houve quem dissesse que Adão apenas nos representava (como a seleção brasileira representa o Brasil), e há quem diga que Deus imputou o erro de Adão a toda humanidade da mesma forma que imputou os méritos de Cristo aos seus.

Embora a analogia não seja total, de uma coisa, porém tenhamos certeza: Quando a seleção perde dizemos, com propriedade, que todos nós também perdemos. Quando a seleção ganha, podemos dizer, com a mesma propriedade, que todos nós ganhamos. Não costumamos nos gloriar de que somos penta-campeões?

Pois bem: mais certos do que isso é termos morrido em Adão e ressuscitados em Cristo.

 

Nota: Este texto foi escrito na quinta feira passada. Antes da derrota da seleção.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O coral e a vuvuzela


Provavelmente de origem zulu (fazer barulho) a vuvuzela é uma espécie de trombeta. Talvez seja versão moderna dos instrumentos que os antigos tocavam para convocar reuniões (como os shofarim do Antigo Testamento). A diferença é que enquanto aqueles eram tocados sozinhos, esta é tocada em uníssono, pela multidão, fazendo um barulho tão medonho, que me faz duvidar da física de que os ruídos não se somam.
Os repórteres usam microfones de baixo ganho, colados aos lábios, e mesmo assim parece que o aparelho de televisão está com defeito com um ronco constante e atormentador. Já ouvi alguém dizer que o inferno ganhou um novo tipo de tormento.
O contraste estabelecido por elas, a que me referi no título, me ajudou a compreender a resistência de tantos jurássicos como eu a determinados tipos de música na Igreja.
As vuvuzelas são tocadas mais para alegria de quem toca do que para o deleite de quem escuta. Expressam uma alegria irresponsável e amolecada que não liga para o que se produz, nem para os efeitos produzidos no próximo. Aliás, parece que são tocadas exatamente para produzir tais efeitos danosos.
O contraste maior que posso imaginar é com a música coral. Enquanto a vuvuzela tem um só timbre e uma só expressão musical - como o bronze que soa ou como címbalo que retine - a música coral usa palavras escandidas, bem pronunciadas e enfatizadas pelo som que lhes dá suporte.
Dentre as muitas possibilidades, podem refletir o som vocálico ou consonantal, macio ou áspero, suave ou brusco das palavras faladas, e o próprio sentido delas: fica pesado e triste quando se fala de morte e dor. Clara e leve quando se fala de alegria e paz. A vuvuzela se repete.
Sempre rico de sons, como um arco-íris é rico em cores, ou um jardim de aromas, uma voz reforça, com determinada nota musical, o significado de uma palavra e outras vozes, com notas correspondentemente harmônicas, confirmam o que foi dito conforme o texto cantado. A vuvuzela não afirma nem nega. Apenas se repete.
Enobrece o discurso. Não fala do sangue precioso de Cristo e de seu sacrifício com o pouco caso do discurso evangelical moderno, nem enaltece sua vitória com o barulho de uma torcida violenta e furiosa.
Quando se canta Um só Rebanho, as diferentes vozes transmitem a impressão de estarem juntas, tamanha é a harmonia que as envolvem. Quando se canta a Bênção Aarônica, parece que sucessivas pancadas de chuva estão caindo em uma sucessão ritmada e coordenada pela frase “Que Deus...”.
A música coral é tão dirigida ao ouvinte (daí o perigo de virar espetáculo) que muitas vezes quem canta em um, embora goste de fazê-lo, não consegue apreciar a totalidade da música produzida.
Os protestantes históricos, tão acostumados a pensar que o culto a Deus além de lógico demanda empenho e trabalho, vêem com naturalidade consagrar a Deus o melhor de seu coração, de suas almas, de suas forças e também de seu entendimento. Nada mais natural, portanto do que a aversão a simploriedade carnal e amolecada das vuvuzelas em detrimento de uma música rica em conteúdo e de expressão trabalhada.

sábado, 19 de junho de 2010

A questão homossexual

Todos nós possuímos impulsos sexuais que devem ser atendidos de conformidade com o que nosso Criador estabeleceu: no casamento. A esse respeito o apóstolo Paulo nos instruiu claramente: “Caso, porém, não se dominem, que se casem; porque é melhor casar do que viver abrasado” (1Co 7.9).

O modo estabelecido pelo Criador para o atendimento dos impulsos sexuais é o casamento. O que foi estabelecido pelo próprio Criador: o heterossexual: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.24).

O Criador não deixou espaço para o casamento homossexual. Portanto, não há como atender a impulsos homossexuais de uma forma que não seja contrária a vontade do Criador.

Os impulsos tanto do heterossexual quanto do homossexual, enquanto contidos, são pecados diante de Deus apenas. E tão somente a Deus, tanto um quanto o outro, responderão. Como o próprio Jesus nos ensinou são cometidos no coração: “qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5.28).

Mesmo que o objetivo da “comunidade homossexual” seja apenas o de se casarem - e sabemos que não é, pois as paradas nos mostram que a intenção é impor à maioria heterossexual toda uma cultura - é um objetivo pecaminoso, pois vai contra o objetivo primeiro da criação, dado ainda antes do pecado: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a” (Gn 1.27). Como um casal homossexual pode ser fecundo?

Esta é a base para se entender a posição do cristianismo conservador para com a homossexualidade: A expressão dela é sempre pecaminosa!

Daí, e sobre esta raiz, cresce uma verdadeira árvore, que possui tantos ramos quantas são os pecados decorrentes da prática homossexual, que já é condenável desde sua raiz e não produz nada que não seja pecado.

Obviamente há também inúmeros pecados relacionados a heterossexualidade, porém há a provisão divina para que ela se expresse de forma sadia e santa: no casamento. A esse respeito as Escrituras nos ensinam: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros” (Hb 13.4).

Antes mesmo de ordenar a reprodução, o Criador viu o quanto a solidão era má. E, não encontrando dentre o que já fora criado nada que pudesse mitigá-la, criou alguém sob medida para tanto: “Deu nome o homem a todos os animais domésticos, às aves dos céus e a todos os animais selvagens. Para o homem, todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea. Então, o SENHOR Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o SENHOR Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada” (Gn 2.20-23).

O casamento heterossexual foi estabelecido por Deus tanto para companhia e conforto de suas criaturas, quanto para a multiplicação.

Peca contra os primeiros desígnios do Criador quem busca companhia e conforto na homossexualidade, da mesma forma que nela não há a possibilidade de reprodução.

A imagem de Deus, apesar de deteriorada pelo pecado, ainda pode ser vista naquilo que ele criou, do modo como ele criou. Afastar-se de seus planos originais é o mesmo que afastar-se cada vez mais de sua imagem.

sábado, 12 de junho de 2010

Falsidade

Quando as Escrituras Sagradas nos advertem repetidas vezes contra os falsos profetas, falsos mestres, falsos apóstolos, e pastores que a si mesmo se apascentam, deixam claro que eles sempre existiram dentro do Povo de Deus e enganam muito bem, pois os mesmos alertas do passado se repetem para o futuro.

Quem professa conscientemente a Fé Reformada está isento de ser enganado por falsos profetas ou falsos apóstolos, pois uma de suas características é crer que tanto apóstolos quanto profetas, em seu sentido mais estrito, pertencem a um determinado período da história que não se repete mais; e em seu sentido mais amplo não obrigam a qualquer tipo de obediência.

Todos eles possuem como característica básica a falsidade, afirmando ser o que não são. Pecado muito condenado. Como suavizamos a hediondez desse pecado devo destacar alguns de seus aspectos mais perniciosos.

Não há dúvida de que o primeiro aspecto a ser destacado, do qual tudo se origina, é a falta de temor a Deus.
Falar ou agir em nome de outra pessoa é algo que reprovamos até nas coisas mais simples, e quando envolve negócios exigimos um instrumento legal: a procuração. Falar em nome de Deus deveria causar temor no falante e desconfiança no ouvinte. Entretanto, parece que isso não acontece.

Um homem, muito bem casado, foi procurado por uma moça, dizendo ter recebido uma revelação de que ele deveria separar-se e casar-se com ela. Percebeu? Ela não temeu quebrar uma proibição expressa de Deus, sequer mentir em seu nome.

A segunda característica nefanda é a ganância. Tito foi alertado a esse respeito: “... existem muitos insubordinados, faladores frívolos e enganadores ... é preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância” (Tt 1.10-11). Os gananciosos estão desqualificados para a liderança da Igreja: 1Tm 3.8.

Há uma frase emblemática que traduz muito bem essa característica, sobre a qual já escrevi (1) e (2): “movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias” (2Pe 2.3).

O que mais me assusta, por ser tanto visível quanto tolerada, é a irresponsabilidade. Ainda adolescente conheci uma “profetiza” que revelou a quatorze casais que eles tinham se casado na carne e os convenceu a consertar o erro. Na primeira igreja que pastoreei conheci, vendendo molduras de retratos, um ex-empresário que, atendendo a uma revelação, entregou tudo o que possuía. Há poucos meses ouvi de uma senhora que, quando moça, foi convencida a romper o noivado e atendendo uma revelação casou-se com outro. Seu “casamento espiritual” durou cerca de doze anos e três filhos. Acabou-se em traição e hematomas.

Atendendo ao pedido de um moribundo, tive que exortar sua esposa a parar de trazer “irmãos e irmãs de oração forte”. Eles o lambuzavam de óleo e, quais pajés, entre grunhidos e gritos de “sai!”, raspavam a doença com mão em concha.

Mandar alguém parar uma quimioterapia alegando ter recebido uma revelação de sua cura é, no mínimo, irresponsabilidade. Quem faz isso não é um santo é um criminoso.

As únicas obrigações que recebemos de Deus estão na Bíblia, e, para entendermos algumas, precisamos de uma exegese consistente e sadia, amparada pela analogia da fé.

Tenho aconselhado ao rebanho sobre o qual o Senhor Jesus me constituiu pastor a se afastar de qualquer um que ousar a apresentar-se com uma revelação de Deus. Reafirmo o conselho.

Peço a Deus que nos livre desses que, imitando os profetas dos dias de Jeremias, dizem “paz, paz, quando não há paz”.

sábado, 5 de junho de 2010

Água, sangue e vinho.

Para redimir o povo de Deus do Egito, Moisés credenciou sua demanda com dez sinais: pragas sobre faraó e sobre seu povo. A primeira delas foi converter água em sangue.

Para redimir o povo de Deus de todos os seus pecados, Jesus fez muitos sinais: bênçãos sobre crentes e incrédulos. A primeira dessas bênçãos foi converter água em vinho.

Primeiro elemento criado por Deus, sobre o qual seu Espírito já pairava antes mesmo que ele chamasse a luz à existência, a água está presente física ou simbolicamente ao longo de toda história da redenção.

Através da água o povo antigo passou a pé enxuto para a liberdade e sobre ela o Senhor Jesus andou em busca dos seus.

A água brotada de uma rocha no deserto dessedentou os que vagavam a procura de uma pátria. E a água vertida da Verdadeira Rocha na cruz atestou a seus algozes que o Senhor havia morrido e a seu povo a completa redenção.

*

Após as 10 pragas, no deserto, o povo de Deus pactuou com sangue uma Aliança na qual a lei escrita os ensinava como cultuar a Deus e como viver para seu agrado. Foram ordenados a manterem-se isolados dos demais povos. Esse isolamento contribuiu para a preservação dos escritos da lei até a plenitude dos tempos.

Após os muitos sinais, em um cenáculo, o povo de Deus, representado pelos apóstolos do Senhor, celebrou nova Aliança com vinho. Aliança que foi ratificada pelo Mediador com sangue. O verdadeiro sangue do qual todos os demais foram apenas sombras e que continua a ser visto no vinho quando rememoramos a mesma aliança.

O isolamento foi então transformado em ordem de ir pelo mundo. E a capacidade de se expressarem nos idiomas dos povos aos quais falassem veio daquele que pairava sobre as águas.

A preservação dos escritos passou a ser garantida pelo isolamento de corações consagrados, e a divulgação de como adorar a Deus e viver para o seu agrado foi confirmada pela água do batismo e derramou-se como rios de águas vivas pelo verdadeiro deserto: o mundo.

*

O sangue, no qual o Criador disse residir a vida, permeia toda história da redenção a tal ponto que é difícil selecionar os eventos mais significativos em que ele está presente.

Mas destaca-se o sangue que, aspergido sobre os umbrais, protegeu o povo de Deus da última praga trazida por Moisés. Noite terrível que tipificava a escuridão mais pavorosa em que o verdadeiro Cordeiro ensangüentaria não simples umbrais, mas uma cruz hedionda ao abrigo da qual estão protegidos os primogênitos e todos os nascidos da água e do Espírito.

E, entre a água convertida em sangue por Moisés, e o sangue separado da água, vertido na cruz, o Senhor Jesus nos oferece o vinho como símbolo de uma Aliança superior em que pragas e sacrifícios - mesmo o da cruz - são realidades passadas.

Virá o dia em que o segundo e o terceiro anjo derramarão sobre o mar e sobre as fontes suas taças transformando-os novamente em sangue. Entretanto, o vinho que recebemos à Mesa do Senhor testifica-nos hoje o dia eterno em que, livre desses horrores, beberemos juntos com o Senhor um vinho novo no reino do Pai.

sábado, 29 de maio de 2010

Cartas

Você já notou que o Novo Testamento é formado basicamente de cartas? Tradicionalmente aprendemos que ele é formado por 4 Evangelhos, 1 livro histórico, 13 cartas de Paulo, 8 cartas gerais e 1 livro profético.

Porém, pense comigo: Lucas e Atos compõem uma carta dirigida a Teófilo. O Evangelho de João, apesar de não estar em forma de carta possui o caráter de uma na medida em que o próprio João declara: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.30-31). Ou seja: ele é escrito como uma carta de convencimento ao leitor.

Não há o que argumentar sobre as cartas. Mas sobre o Apocalipse minha tese aplica-se apenas às 7 cartas ou ao restante do livro? Pessoalmente creio que, à luz de seu final, é possível aplicar ao restante do livro: “Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro; e, se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das coisas que se acham escritas neste livro. Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente, venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus! A graça do Senhor Jesus seja com todos” (Ap 22.18-21).

Resumindo: Creio que o Novo Testamento é todo composto de cartas com exceção dos Evangelhos de Mateus e Marcos.

Mas, qual a importância disso? É simples e depende de outra observação: Você já notou que nenhum dos livros do Antigo Testamento tem característica de carta?

Embora grande parte dele seja de caráter doutrinário todo o seu pano de fundo é histórico. O que mais se parece com uma carta é o diálogo entre o autor e o leitor que pode ser encontrado em Provérbios e Eclesiastes.

O Antigo Testamento é a revelação feita por Deus “outrora, ... muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais...” (Hb 1.1). Através do Antigo Testamento podemos saber quais são as respostas de Deus sobre questões próprias do cotidiano. Mas, veja bem: tais respostas foram dadas em um ambiente cultural extremamente fechado. Bem diferente do ambiente cultural em que a Igreja vive.

Todo o Novo Testamento, especialmente as cartas, mostra como aplicar as respostas de Deus, dadas naquele ambiente fechado, ao ambiente aberto em que vive a Igreja.

Como aplicar o Não adulterarás diante de um mundo tão permissivo? Paulo nos responde: “Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros; refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras; pois, neste caso, teríeis de sair do mundo. Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais” (1Co 5.9-11).

O mesmo com o Não furtarás: “Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado” (Ef 4.28).

E assim, com a agilidade própria de uma carta, diante de problemas concretos, os princípios estabelecidos por Deus se renovam e são aplicados a Igreja.

O Antigo Testamento, visto através do Novo, adquire a relevância necessária e imprescindível para que se entenda a vontade de Deus. E se ele já apontava pra o Messias que havia de vir, agora seu sentido fecha-se mediante a revelação do Messias que se manifestou. Recebemos então o consolo de estar agradando a Deus em nosso viver.

sábado, 22 de maio de 2010

Poluição

Ave na baia da Guanabara no vazamento do Tarik Em dezembro de 1952 a umidade, o frio e aos altos teores de dióxido de enxofre na atmosfera causaram a morte de cerca de 12 mil pessoas em Londres. Houve dias com 900 mortos. Este acidente é considerado um marco no registro das catástrofes ambientais modernas.

Em 1984 um vazamento de gás em Bhopal, na Índia, matou 27 mil pessoas. Em fins de abril de 1896, um vazamento de radiação em Chernobil, na Ucrânia, contaminou milhares, contaminou 4 mil e matou 56 pessoas. Em setembro de 1987, em Goiânia, a capsula de um aparelho de Raios X, desmontada em ferro velho, contaminou mais de 100 pessoas, levando 4 delas à morte, e deixou uma herança maldita de 13 toneladas de lixo atômico que precisa ficar guardado por quase 200 anos.

Em 1978 o Amoco Cadiz derramou 230 mil toneladas de petróleo no litoral da França. Em 1989 o Exxon Valdez derramou uma quantidade menor na costa do Alaska, mas até hoje é considerado o pior desastre ambiental devido a circunstâncias locais. Em 1975, o Tarik Ibn Ziyad derramou 6 milhões de litros de óleo na Baía da Guanabara. A foto acima é desse desastre. E como estes, mais de 30 outros acidentes com navios petroleiros engrossarão uma pesquisa rápida.

Nas últimas 4 semanas cerca de 800 mil litros de petróleo vazaram todos os dias no Golfo do México e não há certeza de que o vazamento tenha sido estancado.

Listei alguns dos muitos casos de poluição atmosférica e marítima, mas tenho certeza de que você conhece um rio, uma lagoa ou uma represa poluída. E, se não se recorda de terra poluída, procure saber de Santo Amaro da Purificação na Bahia.

Hoje falamos não apenas de poluição do ar, da água e da terra. Expandimos o conceito para poluição sonora, visual, etc. Vou mais longe: Sem alterar os critérios creio que poderíamos estender o mesmo conceito às coisas da alma.

Na verdade a primeira poluição foi a da alma e dela derivam-se as demais. Por poluir sua própria alma o homem degradou também o jardim de Deus: o meio ambiente.

Os poluentes da alma são mais sutis e vazam com a aquiescência de algum e para o deleite de outros. Entretanto a lista de mortes causadas por eles é muito maior do que a soma de todas que se possa fazer dos desastres ambientais.

O senhor Jesus se referiu a eles como tendo origem no coração: “Mas o que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem. Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mt 15.18-19), e o apóstolo Paulo entendeu isso com clareza ímpar e o aplicou à própria igreja ao dizer “as más conversações corrompem os bons costumes” (1Co 15.33).

Somos poluidores por natureza. Mesmo redimidos poluímos tanto o meio físico quanto o espiritual. E, a exemplo da lista de desastres ambientais com que abri este artigo, há como fazer muitas outras de desastres em que muitas almas foram vitimadas. O Senhor já advertia: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt 23.15).

Missionários ou poluidores? Disseminadores do verdadeiro Evangelho ou das piores desgraças que habitam os recônditos de uma alma poluída? Acaso você não tem visto defensores de adultérios ou prostituição disfarçados de pastores? Nunca percebeu tal “teologia da prosperidade” quando não é uma apologia do furto é uma disseminação de blasfêmias? No mínimo você há de concordar que há uma multidão de pregadores de “maus desígnios”.

Não é sem razão que “toda criação geme e suporta angústias até agora” e que nós “igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a redenção de nosso corpo” na esperança do fim deste cativeiro, do qual a poluição é apenas um aspecto.

sábado, 15 de maio de 2010

Coisas importantes

Nova Imagem (5)

Pronto: a Pátria está de chuteiras! Os jogadores que disputarão a copa do mundo já estão escolhidos e, salvo algum percalço, não haverá mudança. Os noticiários já se voltaram de tal forma para o assunto que hoje se falava sobre a nova dança que alguns estão ensaiando para comemorar os gols.

Acabei de saber - sem procurar - a biografia de diversos jogadores que eu não conhecia de nome nem de apelido. Agora conheço detalhes da chuteira de um, da infância sofrida de outro e até da potência do chute de fulano e da “alegria” com que sicrano joga (também, com tantos milhões de reais por jogo, qualquer um joga alegre).

Por muitas razões, que não vem ao caso, e cuja explicação é muito longa, não gosto de futebol. Até assisto. Mas os momentos de real interesse em um jogo são tão poucos que, além das tais razões, fico impaciente e procuro algo mais emocionante como ler um dicionário.

Voltando a falar sério... Não condeno quem gosta. Até admiro quem consegue se envolver tanto com algo tão fugaz. O que me deixa irritado é a desproporção entre a importância real e a atenção recebida. Explico:

Hoje, pela manhã - quinta-feira - eu estava preparando outro texto, cujo assunto tem tomado minha atenção desde a noite de domingo passado, e para concluí-lo resolvi examinar como estava o vazamento de petróleo no Golfo do México. Nenhum dos principais jornais de circulação nacional trazia o assunto em destaque, mas a seleção estava destacada em todos.

Até a copa, muitos assuntos importantes serão preteridos. Assuntos importantes como a Lei da Ficha Limpa ou a tal “Lei Heterofóbica” receberão cada vez menos destaque e correm o risco de passar despercebidos.

Aliás, você viu a declaração de que aborto não é questão de foro íntimo, mas de saúde pública? Só faltou dizer - na verdade disse - que o aborto deve ser obrigatório para o bem da sociedade. Mas os critérios do técnico de nossa seleção foram tão amplamente divulgados que poucos sabem quem disse esse absurdo.

E assim, distraídos, não me admiraria se a CPMF voltasse.

E assim, envolvidos, não me admiraria se alguém propusesse mudar os horários dos cultos de nossa Igreja, que cometessem a afronta de chocarem-se com o horário de algum jogo.

E assim, cativados, cada vez mais seremos campeões de um título efêmero e perdedores de coisas que são realmente importantes.

Torcerei para que o Brasil ganhe a copa, mesmo achando que se ele for hexa-campeão pode desestimular os que não ganharam sequer uma vez. Porém, a tristeza de ver nosso país esquecido de tudo, dedicando sua preciosa atenção e energia ao que não lhe traz qualquer crescimento econômico, cultural, muito menos espiritual, amarga minha alma.

sábado, 8 de maio de 2010

Joana

Lucas é o único evangelista que fala de Joana. Talvez ela tenha sido uma das testemunhas oculares que o ajudaram na acurada investigação feita por ele antes de escrever seu evangelho.

Lucas a menciona duas vezes. Logo no início do capítulo 8, de seu evangelho, e no capítulo 24.

A primeira menção é feita ao relacionar diversas mulheres que seguiam Jesus e lhe prestavam assistência com seus bens. Daqui ficamos sabendo que Joana havia sido curada por Jesus e que seu marido, Cuza, era procurador de Herodes.

A segunda menção nos informa que Joana era uma das mulheres que foram, domingo pela manhã, ao sepulcro do Senhor, embalsamá-lo, e encontraram-se com os anjos que anunciaram sua ressurreição.

Ser um procurador na corte de Herodes, ainda que fosse apenas um intendente ou mordomo (o texto permite tais traduções), não era algo de menor importância e certamente recaía sobre a esposa de Cuza os deveres naturais que o cargo de seu marido lhe impunha. Entretanto, ela seguia a Jesus e o auxiliava com seus bens.

Não perca de vista que, no caso dela, seguir a Jesus era algo muito diferente do significado que damos hoje a essa expressão. Ela o seguia literalmente.

Sabemos que o Senhor fez diversas viagens pela terra prometida e até mesmo pelos países vizinhos. Não sabemos se Joana participou de todas, mas certamente, participou de viagens em que o pernoite era feito sob as estrelas e as refeições em acampamentos improvisados.

Quando o texto diz que elas o ajudavam com seus bens, podemos entender que, pelo menos os alimentos, eram providenciados por essas mulheres que os compravam, traziam e preparavam.

Tudo indica que ela seguia o Senhor por pura gratidão. E o fato de assisti-lo com seus bens, atesta que Cuza, seu marido, concordava com o que ela fazia.

Não sabemos se ela tinha filhos. Mas, sem dúvida, se não os tinha de si, ganhou muitos e ganha até hoje: filhos de seu exemplo. Exemplo que ainda é imitado por tantas senhoras que muitas vezes sacrificam sua vida pessoal e servem ao Senhor em meio a grandes dificuldades.

Joana é uma mulher que deve ser contada com as heroínas da fé.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Memórias do passado e do futuro

Eis como esquadrinhei minha memória em tua procura, Senhor: não me foi possível encontrar-te fora dela.
Nada encontrei de ti que não fosse lembrança, e nunca me esqueci de ti desde que te conheci.
Onde encontrei a verdade, aí encontrei a meu Deus, que é a própria verdade;
e desde que aprendi a conhecer a verdade, nunca mais a esqueci.
Por isso, desde que te conheço, permaneces em minha memória.
É lá que te encontro quando me lembro de ti e quando sou feliz em ti.

Estas são as santas delicias que me deste em tua misericórdia, olhando para minha pobreza.
(Santo Agostinho)

Dentre as muitas lembranças que minha memória guarda as mais antigas são cheiros, sons e sabores. Acho que a mais antiga de todas é o cheiro de minha mãe. Era o último perfume do dia e o primeiro da manhã (as mães de outrora se perfumavam docemente com pó de arroz). Como cheirava bem! O perfume de minha mãe me inspirava segurança e anunciava sua presença protetora. Nunca o esquecerei.

Nunca me esquecerei também do sabor e do cheiro das mangas maduras, dos melões (parece que os melões de então eram mais cheirosos), das tangerinas ou do café com cuscuz pela manhã.

E o canto dos sabiás, das rolinhas e dos guriatãs? A algazarra dos bem-te-vis e das maritacas? As cantigas de roda (o cravo brigou com a rosa...) e os saraus na varanda? Há como esquecer? A beleza coloria os ouvidos e pacificava a alma.

Lembro-me da claridade das manhãs ensolaradas e da escuridão das noites estreladas. Do lusco-fusco do fogão de lenha na cozinha, fatiando a penumbra dos dias chuvosos, repleta de aromas do almoço, aguardado ao gosto de biscoitos de polvilho.

Essas e muitas outras lembranças, que me transportam ao passado (um passado de alegrias e de segurança), residem em minha memória. Foram colocadas lá pela experiência e atingiram o local mais nobre de minha personalidade, pois parte do que sou hoje é o resultado delas.

Porém, como Santo Agostinho, tenho certeza de que é em minha memória que residem também as coisas da fé. É lá, mas é lá que as encontro.

Lá estão impressões criadas pela certeza do que não vi, mas que, com forte convicção, aguardo. Aguardo e desejo. Não é como a memória do passado, que nasceu das experiências da infância. Nasce do porvir. Nasce de uma espécie de futuro realizado, de tão palpáveis que são.

Na memória do passado a maioria das imagens é de meus pais e de outros queridos. Na memória do futuro - daquele futuro realizado - há também sons, cheiros, e gostos, e muitas imagens. Imagens amplas, claras, espaçosas e iluminadas como pastos verdejantes. Vivas, brilhantes, solenes e calmas como águas tranqüilas.
Sons claros, límpidos, amplos, majestosos como o som de muitas águas, ao mesmo tempo íntimos como um cicio suave. Plenos, qual som de um órgão de tubos. Bem definidos como o som de uma flauta.

Os cheiros são aromas suaves e vão do doce ao acre. Matizados como um arco-íris ou como os sabores de uma salada de frutas. Surpreendentes como o sabor de um pedaço de mamão bem maduro sobre o arroz com feijão fumegante.

Nas memórias do futuro - daquele futuro realizado - encontro meu pai, minha mãe e muitos outros queridos. E, como se fosse um dia ensolarado, depois de uma chuva de verão, em que o ar lavado e mais fino faz com que tudo pareça mais claro, a fé torna tais imagens cada vez mais vívidas, enquanto as impressões do passado se esmaecem qual fotografia.

Essas e muitas outras lembranças, que me transportam ao futuro - pleno de esperanças e alegrias - também residem em minha memória. Foram colocadas lá pelas Sagradas Escrituras e são vivificadas pelo Espírito Santo. Completam o que sou e apontam para o que serei. Não deixam saudades. Ao contrário: aumentam as esperanças e me transportam ao futuro. A um futuro de alegrias e de segurança.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...