sábado, 29 de setembro de 2012

Das mãos de Deus

Uma das missões mais difíceis – talvez a mais difícil – que faz parte do ofício de um pastor de almas é mostrar a seu rebanho que o mal que nos atinge sempre vem das mãos de Deus. Ficará mais difícil quando, o pastor estiver lidando com a ovelha, em vez de rebanho. E muito mais difícil ainda, quando a ovelha estiver sofrendo prolongadamente e for alguém de vida correta, que pode ser tida como exemplo.

O que se ensina hoje é que o Diabo é o culpado por tudo o que é ruim, e, no mínimo, tal pessoa está sendo tentada para desviar-se de bons caminhos. E se for alguém de má índole, deve ter feito algum pacto com ele.

É claro que se nossos primeiros pais houvessem obedecido a ordem de Deus, o mal não haveria atingido a humanidade, mas isso é outro assunto. O que quero dizer agora é que o mal que recebemos diariamente – nosso Mestre nos ensinou, que “basta ao dia o seu próprio mal” – tem outras fontes e todas elas, em última instância, nos vem das mãos de Deus.

Primeiro: Podemos estar colhendo o que semeamos. Se levamos uma vida de hábitos saudáveis, muito provavelmente nossa velhice também será saudável e o contrário será verdadeiro. Quem poderá reclamar de uma doença sexualmente transmissível se levou um vida promíscua? Agora, repare que nestes casos, e em outros similares, é possível que os descendentes também sofram sem terem a mínima culpa por pecados cometidos pelos pais. Já está provado que muitas doenças adquiridas pelos pais são transmitidas aos filhos.

Segundo: Podemos estar sendo provados por Deus. E aqui preciso parar um pouco e esclarecer que este é um exercício divino que 1) mostra o quanto, e como, Deus acompanha nossa vida, e, 2) acima de tudo atesta o quanto estamos debaixo das instruções de nosso Mestre, que, de tempos em tempos, testa o progresso de nossa fé como o treinador de um atleta o submete periodicamente a testes para verificar o progresso de seu desempenho.

Terceiro: Podemos, de fato, estar debaixo da ira de Deus, sendo “disciplinados por ele para não sermos condenados com o mundo” (1Co 11.32).

Nos três casos porém, o sofrimento com que eventualmente somos afligidos, em última análise vem das mãos de Deus. Mesmo no primeiro caso, em que podemos argumentar em termos de causa e efeito, nunca podemos esquecer que isto ocorre por ter sido estabelecido por Deus. Ele fez assim: o efeito depende daquilo que o causa e a manutenção dessa lei não é automática.

Alguns até admitem que Deus criou tudo, mas “deu corda”, como se dava nos relógios antigos, e deixou tudo funcionando por si só. Bem, não é isso que o Senhor Jesus ensina quando nos diz: “Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E, quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados. Não temais, pois! Bem mais valeis vós do que muitos pardais” (Mt 10.29-31).

Colhemos o que plantamos por que Deus quer que seja assim: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7).

Mas, como pode vir, de um Deus de amor, sofrimento para seus filhos? Da mesma forma que nos vinha de nossos pais. Quando eles nos disciplinavam estavam mostrando o quando nos amavam e queriam o nosso bem: “Mas, se estais sem correção, de que todos se têm tornado participantes, logo, sois bastardos e não filhos. Além disso, tínhamos os nossos pais segundo a carne, que nos corrigiam, e os respeitávamos; não havemos de estar em muito maior submissão ao Pai espiritual e, então, viveremos? Pois eles nos corrigiam por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.8-10).

Você pode argumentar: Mas, de nossos pais levávamos no máximo umas palmadas ou uma surra. Se a analogia for levada ao pé da letra Deus nos castiga excessivamente, pois alguns de nós passa a vida curtindo sofrimentos.

Veja: Nossos pais nos preparavam, no máximo, ser bons cidadãos, bons maridos, bons pais, ou bons crentes. Deus está nos preparando para sermos santos. Como está no texto: “participantes da sua santidade”. Entretanto, muitas vezes resistimos as lições que poderíamos tirar daquilo que ele quer nos ensinar com o sofrimento e aquela lição se torna demorada: “Filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado; porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe” (Hb 12.5-6).

sábado, 22 de setembro de 2012

Um silêncio eloquente

Acho que foi em 1972 que assisti ao filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, eu era adolescente e não tinha 16 anos. Ainda me lembro da hora e dos sentimentos que literalmente me assaltaram. E durante muito tempo ruminei todas aquelas ideias tão maravilhosamente apresentadas, embora cada uma delas me comunicasse mais dúvidas do que respostas.

Meu pastor de então não sanou sequer a primeira dúvida – a mais simples – e ainda me deu uma bronca por perder tempo e dinheiro com essas coisas “imperialistas americanas”.

Hoje, com todas as dúvidas sanadas e com muitos reparos às bobagens que o diretor colocou lá, ainda gosto de vê-lo. Seu diretor, tirando a enormes bobagens, como macacos evoluindo e a ideia de deus-impessoal, conseguiu representar graficamente algumas coisas que as Sagradas Escrituras já haviam revelado há muito tempo. Nenhumas delas é essencial à salvação do homem, mas todas revelam a majestade da criação do verdadeiro Deus de forma grandiosa. Gostaria de falar de uma delas para que na próxima oportunidade que você verifique na próxima vez que o assistir: O silêncio eloquente.

A maior parte da história que o filme narra acontece em uma nave que está de viagem ao planeta Júpiter e na grande maioria das vezes em que a nave é filmada de um ponto externo, ou o espaço é mostrado a partir dela, o diretor faz questão de um silêncio total interrompido pela suave valsa Danúbio Azul, contrastando com as cenas que mostram as atividades dos astronautas dentro da nave nas quais se sente, mediante um efeito sonoro de notas graves, a vibração dos potentes motores.

Não deixa de ser impressionante essa comunicação não-verbal que o silêncio traz ao espectador. E ela me atingiu adolescente de uma forma que, até hoje, quando leio o Salmo 19, a associo imediatamente.

Davi declara neste Salmo que sem qualquer discurso, palavra, nem mesmo um simples som, dia após dia, noite após noite, os céus gritam, declaram, proclamam a glória de Deus e o firmamento enumera, lista, faz um inventário, daquilo que ele fez. Entretanto, se não há discurso, palavras ou um mísero som, por toda terra esse testemunho é tão evidente quanto a luz do sol que a todos atinge e da qual ninguém pode se esconder. Assim como ninguém pode dizer que não possui ideia do que seja o sol, nem mesmo um cego, pois “nada refoge ao seu calor”.

Esse bendito silêncio eloquente, que a todos proclama a existência de um Criador, das coisas que desafia os cérebros mais brilhantes a lhes dar uma explicação, faz verdadeiro inventário, de tudo o que este Criador fez e deixa os homens indesculpáveis diante dele.

Adolescente ainda, eu fiquei impressionado com os efeitos (ganhou Oscar apenas por efeitos especiais) usados pelo diretor para simular essa ideia de silêncio eloquente e solidão espacial, de que o salmista já falava a tanto tempo e que mostram a existência do Criador, mas que, segundo o filme, mostra apenas o vazio do espaço.

Olhando apenas o Salmo vemos com clareza algumas comparações: O silêncio do espaço grita tanto quanto o calor do sol que a todos atinge. O sol, percorre os céus de uma extremidade a outra da mesma forma que a “palavra silenciosa” de Deus percorre a terra de um lado a outro anunciando a todos a glória do Criador, listando a quantidade enorme das obras feitas por suas mãos.

Não é sem razão que o apóstolo Paulo ao analisar a situação dos seres humanos diante da negação do que é naturalmente óbvio escreve: “Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis” (Rm 1.19-20).

Ora, para se fazer um simples filme se recorreu a um artifício que imita o que naturalmente existe. Mas o que existe absolutamente não pode ter sido criado, pois isso pressupõe a existência de um criador. Percebeu? O filme, que imita o verdadeiro, pode ter sido criado. O que ele imita não.

“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1.22).

sábado, 15 de setembro de 2012

Nossas roças modernas

Chegaram os dias compridos quando o sol, antes do despertador, nos lembra que as misericórdias do Senhor se renovaram mais uma vez e as noites curtas, quentes e mal dormidas competem com o calor do dia dando-nos a impressão de que eles são mais compridos ainda.

Época desconfortável para quem vive nas ilhas de calor também conhecidas como cidades, mesmo para os que se refugiam nos ambientes refrigerados, pois quando precisam sair deles o choque térmico é cruel. Mas para quem ainda trabalha o solo, como nossos antepassados é uma época de desafios e de exercício da fé: é época de plantar.

Ao longo de todo Antigo Testamento encontramos o povo de Deus pedindo-lhe fartas colheitas. Na dedicação do Templo, Salomão pediu a Deus que atendesse as orações ali feitas pelos campos de modo que sempre houvesse chuvas e os estivessem livres do crestamento, da ferrugem e das larvas.

O salmista canta a quem, com os braços cheios colhe aquilo que semeou com lágrimas e pede celeiros atulhados com toda sorte de provisões. Também canta os vales vestidos de grãos e exultantes de alegria.

No Novo Testamento o Senhor Jesus, falando de colheitas, falava de abundância: trinta, sessenta e cem por um!

Já em nossos dias é difícil encontrar alguém que se alimente apenas do que planta em suas terras. Mesmo o fazendeiro, ou o agricultor, não vive apenas do que maneja. Ele vende sua produção e compra os outros víveres de que precisa. E podemos dizer que a regra geral é trabalhar no comércio, na indústria, ou no setor de serviços, e adquirir os alimentos nos mercados, mercearias, padarias, etc.

Seria errado dizer que as plantações de nossos antepassados, equivalem aos nossos balcões, equipamentos, mesas, escritórios, consultórios, etc.? Eu acho que não. A roça de um comerciante é sua loja. O campo de um industriário é sua fábrica. A plantação de um prestador de serviços é seu balcão. Se patrão seu lucro é sua colheita. Se empregado a colheita é seu salário. Seria errado orar por estes, se o próprio Deus nos manda orar por aqueles? Certamente não!

No Diretório Litúrgico elaborado pelos Confessores de Westminster, que nossa Igreja resumiu em seus Princípios de Liturgia, havia uma só ordem determinada para celebrar o culto. Esta ordem previa que o pastor antes de pregar fizesse uma oração por diversos assuntos de interesse geral da Igreja. Tais assuntos são enumerados detalhadamente (cerca de 22), e um deles é: “Por clima próprio a cada estação, e colheitas de acordo com o seu devido tempo”.

Nos dias antigos nossos pais se alimentavam do que plantavam e vendiam o excedente, ou trocavam pelo que precisavam. Nos tempos bíblicos os que plantavam cevada ou trigo reservavam o necessário para a família e trocavam parte por vinho, azeite, ovelhas, ou pelo que precisassem.

Geralmente cada um plantava frutas em seu quintal: figos, romãs, damascos, etc. Ou as comiam in natura, ou as usavam em alguns pratos. Mas principalmente as desidratavam para comê-las até a próxima estação. As uvas e as azeitonas podiam também ser cultivadas em pequena escala no quintal. Mas, se a terra era propícia plantava-se mais para fazer bons vinhos, o que demandava um lagar, ou bons azeites, o que exigia uma prensa. E por isso também oravam.

Hoje passamos o dia em fábricas, balcões ou salas. Os calos das mãos migraram para o cérebro. Se antes nossos pais aliviavam o cansaço do corpo ao se deitarem após a lida, hoje nosso sono, dores de cabeça, e dificuldade de dormir, são os frutos da preocupação com algo que ficou pela metade, ou que ainda sequer aconteceu, mas imaginamos que pode acontecer.

Eles oravam por chuvas na lavoura. Por que não oramos também pelo equivalente nas nossas roças modernas? Eles pediam boas colheitas. Por que não pedimos que Deus nos conduza a bons resultados em nossos negócios? Por que não pedimos ao Senhor que promova o reconhecimento de nossos esforços dobrados através de salários melhores?

Não podemos esquecer de Deus em nosso dia a dia. Ele mesmo nos ensinou através de seu servo a pedir-lhe “confirma a obra de nossas mãos”.

sábado, 8 de setembro de 2012

A família de Zebedeu

Este nome de som curioso nos chegou através de sua forma grega Zebedaiou, mas era largamente usado na forma hebraica Zebadias, na qual há pelo menos nove personagens bíblicos. Significa “O SENHOR é minha porção”.

O Zebedeu, de quem o Novo Testamento destaca os filhos, deve ter sido um homem abastado, pois possuía empregados em sua empresa de pesca (Mc 1.20). Empresa familiar, algo parecido com o que hoje chamamos de cooperativa, pois além de incluir seus filhos incluía Simão Pedro (veja Lc 5.10).

Marcos (15.40) nos diz que Maria Madalena, Maria (mãe de Tiago) e Salomé acompanharam a crucificação do Senhor. Mateus (27.55-56) cita a mesma ocasião, mas fala de Maria Madalena, Maria (mãe de Tiago e José) e da mulher de Zebedeu. Seria Salomé, citada por Marcos, a mulher de Zebedeu, citada por Mateus? Tradicionalmente aceita-se que sim.

Relatando ainda a mesma ocasião, João escreve: “E junto à cruz estavam a mãe de Jesus, e a irmã dela, e Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena (Jo 19.25). Desse texto tem-se inferido que Salomé era irmã de Maria, mãe de Jesus. Isso implica que os filhos de Zebedeu seriam primos de Jesus.

Tradicionalmente tem-se concluído que, Zebedeu era o dono de uma pequena empresa de pesca. Era pai de Tiago e João. Casado com Salomé (forma feminina do nome Salomão) e cunhado de Maria, a mãe de Jesus, e portanto tio materno dele.

Tiago e João foram apelidados por Jesus de Boanerges, filhos do trovão (Mc 3.17), pelo gênio esquentado que os caracterizava. Podemos ver um exemplo disso quando os dois pedem autorização a Jesus para mandarem descer fogo dos céus e consumir uma vila de samaritanos que lhe negaram hospedagem (Lc 9.54), ou quando submeteram a própria mãe ao vexame de pedir ao Senhor que seus filhos se assentassem ao seu lado (Mt 20.20-24), ou ainda quando João proibiu certo homem, que não seguia a Jesus, de expelir demônios em nome dele e foi repreendido pelo Senhor (Lc 9.49). Apesar disso foram enviados pelo Senhor para preparar a refeição pascal (Lc 22.8).

Tiago provavelmente era o irmão mais velho, pois os Evangelhos sinóticos consistentemente sempre falam “Tiago e João”, nesta ordem (veja: Mt 4.21, 10.2, 17.1, Mc 1.29, 9.2, 10.35e41, 13.3, 14.33, Lc 5.10, Lc 6.14 e 9.54). E quando João é mencionado sozinho, acrescenta-se “irmão de Tiago” ou “João, seu irmão” (Veja: Mt 4.21, 10.2, Mc 1.19, 3.17 e 5.37).

No ano 44 Herodes Agripa mandou matá-lo (At 12.2).

De João sabemos que foi chamado por Jesus junto com seu irmão, e pelas peculiaridades de seu Evangelho, podemos notar que ele presenciou privilegiadamente alguns fatos:

- Só ele cita o milagre acontecido no casamento em Caná, especialmente a conversa de Jesus com sua mãe.

- Por ser conhecido do sumo sacerdote foi admitido ao pátio de sua casa onde testemunhou o julgamento do Senhor e a negação de Pedro.

- Foi o único dos apóstolos a permanecer aos pés da cruz (Jo 19.26). E a seus cuidados Jesus deixou sua mãe, apesar de ela ter outros quatro filhos e pelo menos duas filhas (veja Mc 6.3).

- Quando Maria Madalena avisou a ele e a Pedro que o túmulo do Senhor estava vazio, eles correram para lá. Como era mais jovem do que Pedro chegou antes, mas só entrou depois de Pedro.

- A respeito dele divulgou-se um boato que não morreria até que Jesus voltasse, fruto de uma má interpretação das palavras do Senhor, que ele mesmo corrige em seu Evangelho.

- Trabalhou com Pedro no início da Igreja em Jerusalém e o vemos atuante na cura miraculosa de um paralítico que ficava à Porta Formosa do Templo, na prisão ordenada pelo Sinédrio, na verificação dos acontecimentos em Samaria. Depois disso as únicas informações que a Bíblia nos dá sobre ele são indiretas: Paulo o chama de uma das colunas da Igreja de Jerusalém (Gl 2.9), e ele chama a si mesmo de Presbítero em sua carta à Kíria (em português traduzida como senhora eleita) (2Jo 1.1) e a Gaio (3Jo 1.1).

- Seu nome aparece ligado a cinco livros do Novo Testamento: Três cartas, o Apocalipse e o quarto Evangelho.

Duas coisas chamam a atenção de quem estuda a vida deste filho de Zebedeu:

1ª – Suas mudanças:

- De Boanerges (segundo Jesus) para Discípulo do Amor conforme se depreende de suas cartas (as quais não deixam de repreender).

- Por ocasião da Ceia com Jesus sua intimidade com ele era tão grande que estava recostado em seu peito. Trinta anos depois, quando o vê na Ilha de Patmos, já glorificado, João cai aos pés do Senhor “como morto”!

2ª – A grande confusão estabelecida pela tradição: Modernamente há uma corrente afirmando que ambos os filhos de Zebedeu foram mortos por Herodes. Entretanto a tradição mais aceita é que João, tomando Maria, a mãe de Jesus mudou-se para Éfeso onde viveu até os dia de Trajano, que foi césar de 98-117.

O problema com as duas tradições é que a primeira desdiz claramente a Bíblia, que atesta apenas a morte de Tiago, e mostra João em atividade após ela. E o problema com a segunda é a autoria do Apocalipse. Ele mesmo diz que o escreveu (veja Ap 1.1, 4, 9 e 22.8). Se ele morava em Éfeso e escreveu o Apocalipse como é que ele poderia escrever uma carta repreendendo o pastor da Igreja de lá? Era natural que sendo apóstolo ele fosse o responsável pela igreja, porem ele diz que seu pastor esqueceu seu primeiro amor e o exorta, como ameaças, a voltar a prática das primeiras obras! (Veja Ap 2.4-5).

Cada um dos integrantes da família de Zebedeu pode dar lições preciosas sobre dificuldades enfrentadas e superadas. Cabe a nós meditar sobre eles.

sábado, 1 de setembro de 2012

Estêvão

A narrativa dos acontecimentos imediatos ao apedrejamento de Estêvão nos dão certeza de que jamais lhe passou pela mente rogar clemência. Sequer quando era arguido diante do Sinédrio nem quando executado fora da cidade. Diante da corte ele fez um discurso que mais se parecia com uma aula de história e fora da cidade rogou a Deus que perdoasse seus algozes.

Não há dúvidas de que os gestos de Estêvão nos impõem mais do que simples admiração e respeito. Ele cumpriu a ordem de nosso Mestre e Senhor e perdoou seus assassinos: “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44).

Seu exemplo afetou tão profundamente a Igreja de Jerusalém que ecoa nas instruções que Pedro dá aos demais cristãos: “santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós...” (1Pe 3.15). E não tenho dúvida de que nele também se cumpriram: “Quando, pois, vos levarem e vos entregarem, não vos preocupeis com o que haveis de dizer, mas o que vos for concedido naquela hora, isso falai; porque não sois vós os que falais, mas o Espírito Santo” (Mc 13.11).

O conteúdo do discurso de Estêvão, é até hoje fonte de grandes ensinamentos para nós. Sua estrutura é extremamente simples e lembra o que um pai de família judeu deveria fazer antes da celebração da páscoa: contar toda história de Israel sem esconder nenhum pecado.

Estêvão fala de muitos antepassados, mas destaca dois, Abraão e Moisés, e os compara a Jesus.

De Abraão destaca sua fé e de como as promessas a ele feitas só se cumpriram muito tempo depois, através de Moisés que foi rejeitado com rebeliões apesar de Deus o haver confirmado como o libertador. Portanto, o primeiro ponto de Estêvão em seu discurso é mostrar que a rebeldia dos pais ainda podia ser vista nos filhos: “...assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis. Qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos, vós que recebestes a lei por ministério de anjos e não a guardastes” (At 7.51-53).

Ou seja: Vocês estão completando o pecado que vossos pais iniciaram.

Mas, a razão dessa rebeldia, é que me parece ter sido a gota final: o Templo.

Pelo raciocínio de Estêvão o ideal de Deus era o Tabernáculo, que fora feito conforme Deus havia mostrado a Moisés: “O tabernáculo do Testemunho estava entre nossos pais no deserto, como determinara aquele que disse a Moisés que o fizesse segundo o modelo que tinha visto” (At 7.44). O Templo, erigido por Salomão, foi “tolerado” por Deus por amor a Davi (como tolerou que Israel fosse dirigido por uma monarquia): “...até aos dias de Davi. Este achou graça diante de Deus e lhe suplicou a faculdade de prover morada para o Deus de Jacó. Mas foi Salomão quem lhe edificou a casa. Entretanto, não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas; como diz o profeta: O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso? Não foi, porventura, a minha mão que fez todas estas coisas?” (At 7.45-50).

(Esta tese de Deus tolerar certas atitudes com as quais não concorda é corroborada pelas palavras de Jesus a respeito do casamento: “Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio” (Mt 19.8).)

Ao falar do Templo, Estêvão tocou em um assunto melindroso para judeus e cristãos. Vemos o quanto os judeus ficaram furiosos quando nosso Senhor foi acusado de dizer que destruiria o Templo e só não o condenaram por isso por falta de testemunhas unânimes. Não creio que fosse apenas uma questão de zelo religioso. Talvez o que pesasse mais fosse a importância política e econômica que ele tinha para Jerusalém, e para todo Israel. Temos um vislumbre quando o Senhor expulsou os comerciantes lá instalados com a participação societária das autoridades daquela casa.

No que concerne aos cristãos é ainda mais complicado, pois já se passara uns cinco anos e eles ainda obedeciam a agenda do Templo, mesmo sabendo que o Santo dos Santos fora exposto pelo véu rasgado (cortina tão espessa que demorava anos para ser tecida novamente) e, pior: viram o verdadeiro Cordeiro ser morto! Como é que eles ainda sequer iam lá?

Estêvão, se não foi o primeiro a perceber, foi o primeiro a expor publicamente a desgraça que o Templo judeu atraía sobre a Igreja. Deus ainda tolerou cerca de trinta anos e como a Igreja não se corrigiu destruiu totalmente aquele lugar para que entendessem que estavam livres da lei cerimonial. Mas, será que entenderam mesmo?

“E apedrejavam Estêvão, que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras, adormeceu. E Saulo consentia na sua morte. Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria” (At 7.59 – 8.1).

Após a morte de Estêvão, no mesmo dia começou a primeira grande perseguição contra a Igreja. Felipe foi para Samaria e lá desenvolveu um ministério abençoado. Tiago, o meio irmão de Jesus, escreveu a carta que temos na Bíblia. A morte de Estêvão foi uma das sementes usadas por Deus que frutifica até hoje.

sábado, 25 de agosto de 2012

Não era pra ser assim

Dia desses numa fila de banco, desprevenido de um bom livro, me vi aborrecido entre uma discussão sem fim de três torcedores que não se cansavam de elogiar as virtudes de seus respectivos times e as queixas de duas senhoras contra suas balanças, até que ouvi algo inusitado: feijoada diet! Saí de lá rindo de tamanho disparate, para depois descobrir que existe. Parece uma contradição de termos, mas existe!

Que mundo o nosso! Tomamos café sem cafeína e leite sem lactose. Comemos pão sem glúten, geleias sem açúcar, carnes feitas de soja e agora um prato gordo sem gordura.

Qualquer um que já tenha lido as Sagradas Escrituras com um pouquinho de atenção deve se lembrar de textos como o seguinte: “O SENHOR dos Exércitos dará neste monte a todos os povos um banquete de coisas gordurosas, uma festa com vinhos velhos, pratos gordurosos com tutanos e vinhos velhos bem clarificados” (Is 25.6).

Todos os povos comerão as carnes gordas e beberão os vinhos especiais. Você está preparado? Seu colesterol permite?

Quando Deus criou nossos pais deu sua primeira ordem: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1.28). Não é bem isso que vemos hoje.

As políticas públicas já declararam guerra aberta as altas taxas de fecundidade a tal ponto que quando ouvimos alguém dizer que quer uma família numerosa, estranhamos. Já é proibitivo até andar em um carro convencional: como instalar quatro cadeirinhas no banco de trás? E como andar com crianças sem cadeirinhas?

Agrava-se, ou pelo menos aumenta a proporção do problema, quando examinamos o restante do versículo: Enchei a terra e dominai sobre tudo o que nela habita.

Há um consenso geral, cada vez mais disseminado de que o planeta terra já está cheio. Slogans do tipo “Lotação Esgotada” longe de ser algo sensacionalista e local revela a mentalidade que percorre o mundo em documentos oficiais da ONU que falam do excesso populacional e mostram a razão da busca a planetas colonizáveis.

Pior ainda é o verbo dominar. O contexto em que Deus confere ao homem domínio sobre suas obras, não admite a exploração deletéria que assistimos. O termo dominar está associado à ideia de cuidar: “Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gn 2.15).

O que aconteceu então? Deus nos criou para um propósito e vivemos outro totalmente diferente. Sequer podemos chamar de jardim o meio em que vivemos e muito menos podemos exercer qualquer domínio que não acabe sendo destrutivo. Nós, cristãos chamamos isso de Queda.

Nossos pais podiam ter tantos filhos quantos quisessem, mas antes que tivessem o primeiro, o inimigo de nossas almas os levou a duvidar de Deus e desobedecer a uma ordem simples que ele lhes havia dado. Essa desconfiança e desobediência os afastou de Deus e as consequência foram as piores possíveis: Tudo sobre o que eles deveriam ter domínio estava agora em revolta contra eles como eles estavam em revolta contra Deus.

- Sua biologia e seus relacionamentos pessoais foram danificados: “Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16).

- O meio ambiente e o relacionamento do homem com ele também foi danificado: “...maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo. No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3.17-19).

Não é preciso muita imaginação para perceber que isso foi o começo de tudo o que vemos hoje. De perfeitamente harmonizados com a criação de Deus estamos em conflito. Perdemos até a gerência de nossos próprios corpos e já não podemos desfrutar totalmente das bênçãos daquilo que Deus criou. Chegamos ao ponto de celebrar a Ceia de seu Filho com suco de uvas para não despertar o alcoolismo latente em muitos irmãos que lutam contra esse vício desgraçado.

Não era pra ser assim. Mas é. O pecado interferiu em tudo e ainda interfere. Ainda prejudica. Ainda escraviza. E com o apóstolo dizemos: “Porque, no que diz respeito ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos membros do meu corpo outra lei guerreando contra a lei da minha mente e me fazendo escravo da lei do pecado, que está nos membros do meu corpo. Desgraçado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.22-24)

Qual é a solução então? Hoje estamos livres do pecado pelo sacrifício de Cristo, mas não de suas consequências. Delas só ficaremos totalmente livre no último dia. Por essa razão vivemos hoje em total confiança diante de Deus, apesar de tristes pelo estado presente daquilo que enfrentamos. Mas, isso só nos faz levantar os nossos olhos em esperança e dizer com alegria: Volta logo Senhor Jesus!  

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Adorar a Jesus

Você já reparou que Jesus nunca recusou ser adorado? Examine as Escrituras Sagradas: sempre que alguém tenta adorar um anjo ele recusa a adoração e manda que a pessoa adore a Deus. Por exemplo: “Então, me falou o anjo: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E acrescentou: São estas as verdadeiras palavras de Deus. Prostrei-me ante os seus pés para adorá-lo. Ele, porém, me disse: Vê, não faças isso; sou conservo teu e dos teus irmãos que mantêm o testemunho de Jesus; adora a Deus. Pois o testemunho de Jesus é o espírito da profecia” (Ap 19.9-10).

Ainda bebê, com menos de dois anos, o Senhor Jesus foi adorado por uns magos que vieram do oriente: “Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra” (Mt 2.11).

Explicitamente os evangelhos narram que Jairo, o chefe da sinagoga de Cafarnaum, e pai cuja filha estava à morte foi suplicar por ela a Jesus e o adorou (Mc 9.18). Também a mulher canaanita, cuja filha estava endemoninhada, ao suplicar pela criança o adorou (Mt 15.25). Marcos diz que em Gadara um endemoninhado, que se flagelava pelos sepulcros sem descanso, ao vir Jesus correu ao seu encontro e o adorou suplicando que não o atormentasse (Mc 5.1-14).

Você deve ter notado que nestes últimos casos todos o adoraram antes de pedir alguma coisa. Diferentemente do cego que depois de curado, quando o reconheceu, o adorou agradecido (Jo 9.38).

Porém, sem usar explicitamente a palavra adorar, podemos ver claramente gestos de adoração em várias ocasiões.

Na casa do fariseu Simão, quando a pecadora cobriu os pés de Jesus com lágrimas, beijos e unguento precioso (Lc 7.36-50) fornecendo-lhe muito mais do que lhe fora negado pelo hospedeiro. Na casa de Maria, Marta e Lázaro quando a própria Maria derramou sobre a cabeça de Jesus um perfume tão caro que valia um ano de salário (Jo 12.3-5). E um dos dez leprosos curados prostrou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus (Lc 17.15-16).

Não deixa de ser curioso ver que tantas pessoas se aproximaram de Jesus com pedidos e poucas com gratidão. O caso dos dez leprosos é um exemplo. Mais curioso ainda é que os que adoraram o Senhor Jesus antes de lhe pedir algo são mais numerosos do que aqueles que o adoraram em gratidão pelo que receberam.

Além dos textos já citados há outros três que não podem deixar de ser lembrados:

Quando Jesus ascendeu aos céus seus discípulos o adoraram (Lc 24.51-52). Certamente estavam convictos de sua divindade e já não tinham qualquer sobre o que acontecera ou sobre o que estava acontecendo.

Escrevendo aos Filipenses, que estavam fascinados por uma ideia estranha sobre Deus, o apóstolo Paulo, trata de mostrar-lhes o que Deus fez por nós através de Cristo e como nele tudo se inicia e se concretiza: “Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.9.11).

E quando se refere a terra e céus é imperativo destacar: “E, novamente, ao introduzir o Primogênito no mundo, diz: E todos os anjos de Deus o adorem” (Hb 1.6).

Ora, certamente nós, cristãos, não temos dúvidas de que devemos adorar a nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que, no dizer de um de nossos Credos, é “o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, de uma só substância com o Pai; pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, e foi feito carne pelo Espírito Santo da Virgem Maria, e foi feito homem; e foi crucificado por nós sob o poder de Pôncio Pilatos. Ele padeceu e foi sepultado; e no terceiro dia ressuscitou conforme as Escrituras; e subiu ao céu e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e seu reino não terá fim”.

Há algo de misterioso em se adorar um bebê. Há algo de misterioso em se adorar um homem. Porém, mais misterioso é Deus se fazer um de nós. Assumir nossa natureza por toda eternidade. E ele o fez. Glórias pois a ele.

domingo, 5 de agosto de 2012

Pensando sobre a ficção

Nos últimos vinte anos tenho pensado muito a respeito desse assunto, pois não vejo a ficção como algo neutro, que nem faça bem nem faça mal, e quanto mais penso, mais me inquieto.

Qualquer obra de ficção é uma criação de quem a fez. Seu autor se torna um criador de um universo, com tempo, espaço e vidas próprias. Paradoxalmente é um universo que não existe, que, entretanto, pode influenciar as vidas reais, muito mais do que muitos estudos ou exortações sobre a realidade.

Tome qualquer novela, dessas que passam na televisão de sua casa. Primeiro: O enredo dela sempre se baseará sobre algum tipo de engano. Ou um engano honesto ou cometido por um vilão. Geralmente os enganos cometidos por vilões atraem mais, especialmente se forem sobre a paternidade de alguém ou sobre algum assassinato. Elas nunca variam muito. O que mudam são apenas os locais, os nomes dos personagens, os atores, os instrumentos do engano, as armas do vilão, etc. Sua história sempre é a história da superação de um, ou de muitos enganos. Obviamente há outros gêneros, mas uma pesquisa (pois não sou um aficionado) revelou-me que as novelas que começaram com outro gênero, precisaram se adaptar a esse para garantir audiência.

Segundo: Preste atenção no legado que ela deixa. A moda que ela lança, as músicas que se tornam (ou voltam a ser) sucessos e até os nomes dos personagens que migram para os pobres bebês que nascem durante o período em que ela está no ar.

Terceiro: Os padrões de comportamento que passam a ser, no mínimo, discutidos. Esses padrões, que muitas vezes pensamos terem sido escolhidos por estarem na moda, às vezes são forçados por um escritor, ou um pequeno grupo deles, que quer implanta-los. Depois de repeti-los em muitas ocasiões eles passam a ser tidos como aceitáveis.

A ficção nos lança em um mundo inexistente, cujas as fronteiras com o mundo real, em alguns lugares, são difíceis de perceber. Se na ficção existe um herói que voa e isso claramente não existe - embora alguns com mentes débeis ou fragilizadas por drogas já tentaram imitar e morreram - uma obra pode mostrar alguém de vida totalmente normal, que almoça, janta e dorme como todas as pessoas, mas aprendeu a possibilidade de fazer algo novo, com um personagem que não existe senão na cabeça de seu criador humano, que é pecador e totalmente depravado pelo pecado.

Agrava-se o fato de que os autores ficcionais dificilmente são limitados por algum tipo de “cerceamento moral” já que a competitividade os obriga a ser cada vez mais criativos em mostrar novos modos de matar alguém, ou de praticar atos libidinosos ou qualquer outra coisa que choque, ou pelo menos atraia uma plateia e lhes garanta o título efêmero de “o mais criativo”.

Eu pertenço a uma geração que viu o primeiro beijo heterossexual da TV, depois da descoberta gradual do corpo feminino finalmente o primeiro nu frontal e alguns anos atrás o primeiro beijo homossexual. No cinema, embora a velocidade tenha sido mais rápida, as coisas também foram progressivas. Numa entrevista recente, um ator, cujo nome prefiro não dizer, confessava que todos tinham como dever testar os limites da censura da época, como têm o dever de testar o que a sociedade aceita hoje.

Repare o quanto isso valida a expressão “A vida imita a arte”.

Um texto mínimo como este não pode pretender ser um ensaio sobre algo tão extenso. Deixando de lado as possibilidades filosóficas e até teológicas (como C. S. Lewis conseguiu fazer tão bem) e ficando em nossa ficção cotidiana dá pra perceber alguns valores que se repetem, como se repetem os instrumentos do enredo.

Sempre os personagens declaram ser, acima de tudo, fiéis a si mesmos. E essa fidelidade justifica tudo. Para ser fiel a si mesma uma mãe abandona seus filhos e segue uma amante mundo afora. Um avô deixa sua família, trabalho e amigos para viver uma aventura verdadeira com uma jovenzinha que lhe traz a juventude de volta. Muitas vezes a fidelidade a si mesmo é mostrada como uma virtude: honestidade (mesmo que para isso tenha de ser desonesto para com os outros). É como a novela que mostrou um rapaz que não encontrava nenhum trabalho de que gostasse até que experimentou ser assassino (como se um jovem já tivesse experimentado todos os demais tipos de trabalho).

Um segundo valor se impõe para validar o primeiro: o encontro com a felicidade (sem que haja uma verdadeira definição do que seja felicidade, mas admitindo que todos a reconheçam tão logo a encontrem). O encontro com ela justifica tudo. Tudo mesmo.

Você há de convir comigo que nunca teria feito determinadas coisas se não as visse primeiro nos meios de comunicação de massa. Isso é altamente provado pela propaganda, que passa a vender um produto do qual nunca se ouviu falar antes. Pois bem: São exatamente esses meios os mais comprometidos com a ficção a tal ponto de tornarem a própria verdade numa espécie de ficção.

Obviamente a ficção não deixa de ser um instrumento útil nas mãos de um mestre. Veja, por exemplo as parábolas de nosso Senhor e as lições que se pode tirar delas. Entretanto, todas elas possuem um compromisso total com Deus e com os valores da realidade, pois sobretudo vivemos em um mundo real.

Creio que é por esta razão que o apóstolo Paulo, escrevendo aos filipenses, destaca a importância de se considerar a realidade em detrimento da ficção ou fantasia, como algo importante para a solidificação da vida espiritual: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp 4.8).

domingo, 29 de julho de 2012

À mesa com Jesus

Sempre que podia, nosso Senhor participava de festas ou banquetes independentemente de quem o convidava ou estava lá. Isso era notável especialmente para o povo judeu, pois para eles assentar-se em uma roda, como exortava o Salmo 1, deveria ser algo criterioso, especialmente se fosse para comer, uma vez que ao se compartilhar alimentos havia uma espécie de celebração tácita de uma aliança de amizade.

Os Evangelhos sinóticos registram o chamado de Mateus ou Levi e são unânimes em notar que os fariseus questionaram o comportamento de Jesus, estranhando que um mestre comesse com publicanos e pecadores.

A resposta de Jesus, registrada igualmente pelos três evangelistas, foi: “Não vim chamar justos mas pecadores ao arrependimento”. Ou seja: ao confraternizar-se Jesus estava fazendo o mesmo que fez ao tocar os leprosos, ou ao tocar o cadáver, ou ao deixar-se tocar pela prostituta. Paulo entendeu tão bem que registrou: Deus “o fez pecado por nós” (2Co 5.21).

Mateus e Lucas registraram que Jesus desabafou, imprecando contra sua geração, com as seguintes palavras: “A que, pois, compararei os homens desta geração? A que são semelhantes? São semelhantes a crianças que, sentadas nas praças, gritam umas às outras: Tocamos flauta para vós, e não dançastes; cantamos lamentações, e não chorastes. Porque João Batista veio, não comendo pão nem bebendo vinho, e dizeis: Tem demônio; e veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizeis: É um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores” (Lc 7.31-34).

Lucas registra que antes do Senhor Jesus contar a Parábola da Ovelha Perdida “Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles” (Lc 15.1-2).

No banquete oferecido por Levi, onde havia publicanos e pecadores, na casa de Zaqueu, reputado como pecador por ser o principal publicano daquela região, ou em uma refeição mais caseira, como as que tomou em tantas casas, como na de Maria e Marta, certamente era um privilégio dividir os alimentos e a conversa com Jesus, mas curiosamente só há um relato, que eu me lembre agora, dessas conversas à mesa com Jesus. Aconteceu na casa do fariseu Simão.

Simão o convidou para jantar, mas o recebeu desdenhosamente esperando com isso ser imitado pelos demais sobre os quais tinha influência. Permitiu até que uma prostituta entrasse em sua casa, pois assim mostraria que tipo de profeta era Jesus (Lc 7.36-50). Nesse contexto ocorre o diálogo. Na realidade uma agressão inusitada: Jesus agride seu hospedeiro, mostrando-lhe e a todos o quanto ele era pior do que a prostituta apesar de julgar-se melhor do que ela.

Mas houve uma refeição especial, à qual Jesus só permitiu a presença de seus discípulos: sua última ceia:

“Jesus, pois, enviou Pedro e João, dizendo: Ide preparar-nos a Páscoa para que a comamos. Eles lhe perguntaram: Onde queres que a preparemos? Então, lhes explicou Jesus: Ao entrardes na cidade, encontrareis um homem com um cântaro de água; segui-o até à casa em que ele entrar e dizei ao dono da casa: O Mestre manda perguntar-te: Onde é o aposento no qual hei de comer a Páscoa com os meus discípulos? Ele vos mostrará um espaçoso cenáculo mobilado; ali fazei os preparativos. E, indo, tudo encontraram como Jesus lhes dissera e prepararam a Páscoa. Chegada a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhes: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes do meu sofrimento. Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus” (Lc 22.8-16).

Observe o cuidado que Jesus tomou com este momento. Jesus a preparou meticulosamente: 1) Judas não soube antecipadamente o lugar em que ela aconteceria, pois Jesus não queria ser interrompido. 2) Dela não participou sequer os donos da casa. Apenas seus discípulos. Era sua última aula e esta precisava ficar para sempre na mente de todos, especialmente daqueles que nos últimos dias discutiam quem seriam o maior. 3) Dela participaram os dois que haveriam de negá-lo: Pedro e Judas. Pedro, participou com o coração quebrantado. Errou, mas recebeu forças para superar seu erro mesmo que o tenha chorado amargamente. Judas recebeu a ceia pensando em como trair o Senhor: recebeu indignamente. Recebeu para condenação.

João relata pelo menos duas ou três horas de conversa intima e intensa com seus apóstolos: Lavou-lhes os pés, ordenando que fizessem o mesmo uns aos outros, providenciou a saída de Judas e passou a dar-lhes instruções finais: sobre como cumprir sua vontade permanecendo nele tal qual o ramo permanece na videira e sobre a missão do Espírito Santo. Finalmente orou por eles.

Não era uma refeição qualquer. Era um antegosto da verdadeira que esperamos, celebrar com ele no dia eterno. Aliás, ele espera também: “A seguir, tomou Jesus um cálice e, tendo dado graças, o deu aos seus discípulos; e todos beberam dele. Então, lhes disse: Isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança derramado em favor de muitos. Em verdade vos digo que jamais beberei do fruto da videira, até àquele dia em que o hei de beber, novo, no reino de Deus” (Mc 14.23-25).

sábado, 21 de julho de 2012

Cada dia

As misericórdias do SENHOR
são a causa de não sermos consumidos,
porque as suas misericórdias não têm fim;
renovam-se cada manhã

Lamentações de Jeremias 3.22-23

Não há como fazer uma lista que sequer possa dar uma pálida ideia da extensão do significado dessas palavras. Provavelmente o único vislumbre que possamos ter venha através da expressão “cada manhã”.

O apóstolo Pedro registra na sua Segunda Carta (2.8) que Ló, a quem chama de justo, tinha sua alma atormentada, cada dia, pelo que via e ouvia na cidade de Sodoma e o Senhor o livrou do procedimento ímpio daqueles insubordinados.

À cada dia o Senhor estava presente com seu povo que peregrinava pelo deserto e de dia lhes providenciava sombra com nuvens e de noite lhes alumiava o caminho com fogo. Cada dia lhes alimentava com o maná em uma porção suficiente apenas para aquele dia. E, para deixar bem claro que cada dia estava junto deles, estabeleceu uma série de sacrifícios que deveriam ser feitos diariamente.

Porém, temos sempre de nos lembrar que essa sucessão de dias a que nos referimos com a expressão “cada dia” só existe pra nós, pois aos olhos de Deus todos os nossos dias estão tão expostos quanto o tempo de vida dos personagens de uma história estão expostos diante de um escritor: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139. 16).

Nós estamos sujeitos a este constante devenir em que, a cada instante, o futuro se transforma no presente, que, por sua vez, vira passado.

Sobre o futuro nada podemos fazer: ele ainda não está ao nosso alcance. O passado já está congelado e imutável. E, se não agirmos diligentemente, o pequeno instante, diante de nós, a que chamamos presente, se esvai e apenas o contemplamos sem exercer qualquer tipo de ação sobre ele.

Essa pequena partícula de tempo a que me refiro, é mostrada pelas Escrituras através de expressões como “cada dia” ou, no caso de nosso texto, “cada manhã”. Com isso o Senhor nos garante que, sobre esse pequeno instante, sobre o qual ele nos deu autoridade, ele nos dará também sabedoria e forças para molda-lo conforme sua santa vontade.

É por essa razão que nosso Mestre e Senhor nos proibiu andar ansiosos. Afinal, quem pode “acrescentar um côvado ao curso de sua vida?”. Ou seja: Quem pode determinar o futuro. Ou, em última análise: Quem pode trabalhar hoje naquilo em que ainda não aconteceu?

É por essa mesma razão que ele nos manda pedir apenas o pão de cada dia. Observe como o Senhor, a quem muitos creem não se importar com as coisas materiais, nos ordena a pedir pelo mais básico, e também cuida de nossas necessidades menores e mais simples como sombra no calor e luz na escuridão.

Mas, é conveniente lembrar que ele mesmo nos adverte que cada dia traz o seu próprio mal (Mt 6.34) , portanto não devemos ter pressa em resolver hoje os problemas de amanhã, “pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado” (Hb 3.13).

Assim, como cada dia o Senhor nos cobre com suas misericórdias, somos exortados a viver cada dia para glória dele e para o bem de nosso irmão.

Um dia, será o último dos dias e estaremos diante do Senhor. Chegará finalmente o “dia eterno”. Então não caberá mais o uso de expressões como “cada dia” ou “cada manhã”, pois se cumprirão todas as alusões a “para todo sempre” ou “eternamente”.

Amém!

sábado, 14 de julho de 2012

Quando olho para os teus céus…

Mais de quatrocentos anos antes de nosso Senhor adquirir nossa natureza, dois gregos, Leucipo e Demócrito, imaginavam o que aconteceria a um objeto sucessivamente dividido pela metade. Concluíram que se chegaria a um ponto em que não se poderia dividi-lo mais. A esse ponto, ou partícula, deram o nome de: “o que não pode ser dividido”. Em grego: “átomo”.

Com poucas variações essa ideia foi a que permaneceu até 1911, quando o neozelandês Ernest Rutherford demonstrou em laboratório, que aquilo a que se chamava de átomo era composto por elementos de cargas elétricas diferentes. Portanto, o indivisível podia ser dividido.

Dois anos depois, em 1913, o dinamarquês, Niels Bohr, propôs o que até hoje é imaginado como sendo a estrutura formal do átomo: Um núcleo ao redor do qual orbitam elétrons. Com o passar do tempo concluiu-se que o núcleo é composto de prótons (eletricamente positivos), nêutrons (eletricamente neutros) e elétrons (eletricamente negativos). Mas, descobriu-se também que a divisão de um átomo produz uma enorme quantidade de energia. Começava a era nuclear.

Começava também o estudo das partículas que compõem o átomo. Hoje já se conhece dezenas delas, dentre as quais os Férmions, os Hádrons e os Bósons (batizados assim em homenagem ao físico indiano Satyendra Nath Bose, cooperador de Albert Einstein) e se teoriza a existência de muitas outras.

A busca pelo descobrimento da essência do que, de tão pequeno não se pode ver, levou a muitas teorias e experiências. Diversas estão sendo feitas ao mesmo tempo. As notícias mais recentes vem de uma organização fundada em 1954: A Organização Europeia para Pesquisa Nuclear, mais conhecida como CERN.

A imprensa está fascinada pelas experiências do LHC (Large Hadron Collider), ou Grande Colisor de Hadrons (ou Máquina do Fim do Mundo, como ficou conhecida quando foi ligada em setembro de 2008). No fundo o LHC é apenas um acelerador de partículas, como tantos outros, só que é gigantesco: Foi montado em um túnel de 27km de diâmetro, a 100m de profundidade, sob a fronteira franco-suíça (a um custo de 8 bilhões de dólares). Apesar de sua localização, conta com a colaboração de 35 países, 120 instituições e mais de 1300 pesquisadores do mundo todo.

Tenho até medo de escrever isso, mas parece que o único objetivo dessa máquina fantástica é fazer com que uma partícula se choque contra outra em uma velocidade muito próxima da velocidade da luz, para que se registre o que resulta dessa pancada.

Em um informativo público do CERN há um gráfico com a seguinte explicação (está em http://public.web.cern.ch/public/Welcome.html - Acessado em 10/7/2012 às 17:48h): “Colisão próton-próton em uma experiência do ‘Compact Moun Solenoid’ produziu quatro muons de alta energia. Este evento mostra características consistentes com a deterioração de um Boson de Higgs, mas também consistente com os modelos padrões da física” (tradução minha).

Pois bem: Há 2400 anos da interação aluno-professor, com recursos que dificilmente passariam da conversa e anotações em pergaminho, concluiu-se que todas as coisas eram formadas por partículas indivisíveis. Há 100 anos houve necessidade de um laboratório, material radiativo e lâmina de ouro para se descobrir apenas o início de um caminho que, no dia 4 de julho passado aventa a possibilidade de se ter descoberto uma das muitas partículas propostas pelos modelos matemáticos necessários para explicar os diversos comportamentos observados de um átomo.

“A glória de Deus é encobrir as coisas,
mas a glória dos reis é esquadrinhá-las”
(Provérbios 25.2).

Em um reles grão de areia há um verdadeiro universo e ainda há quem creia que isso tudo é obra do acaso!

Quando Leucipo e Demócrito discutiam a natureza do átomo imaginaram também que nem todos eles poderiam ser iguais. Pensaram que os da água seriam redondos, para que ela fluísse, e os dos sólidos seriam cúbicos, para que fossem rígidos. Hoje o problema é com os componentes do átomo. Por exemplo, os que, como a luz, que se comporta tanto como onda quanto como matéria (Einstein ganhou seu Nobel ao mostrar isso).

Ainda me lembro das experiências do colégio em que acendíamos uma lanterna contra uma tira de papel alumínio, e a tira de papel se mexia como se a luz a impelisse, a exemplo do que o acontece com a vela de um barco soprada pelo vento. Como é que a luz consegue empurra-la sem possuir matéria? Ninguém sabe, mas esse efeito (chamado fotoelétrico) controla desde as portas dos elevadores, até máquinas mais perigosas. Isso é parte do mistério que o físico britânico Peter Higgs se propôs resolver matematicamente em 1964.

Será que finalmente, depois de tanto esforço e tanto custo, conseguiram? Ainda manterão a crença de que estas maravilhas foram resultado casual de uma explosão?

Esses homens abençoados por Deus com inteligência extraordinária, estão fazendo aquilo para o que foram criados: descobrir as grandezas de Criador. Que situação embaraçosa será para os que negam sua existência, quando se encontrarem com ele e perceberem que se tornaram mais indesculpáveis ainda, pois conhecem muito mais as maravilhas de sua criação?

Quanto a mim, parodiando o salmista, digo: Quando olho os teus grãos de areia...

sábado, 7 de julho de 2012

Lugares

“Tu certamente os pões
em lugares escorregadios”
Salmo 73.18

Ao longo da Bíblia uma figura se repete ao se descrever a situação do salvo e do perdido: o local onde eles pisam.

O perdido está em um poço de lama, na realidade um tremedal, um lamaceiro onde o que está debaixo de seus pés treme e foge à pressão dos mesmos: “livra-me do tremedal, para que não me afunde; seja eu salvo dos que me odeiam e das profundezas das águas” (Sl 69.14).

Outros textos transmitem a ideia de que o próprio pecador, mesmo tentando melhorar, agrava seu estado. Por exemplo: “Abre, e aprofunda uma cova, e cai nesse mesmo poço que faz” (Sl 7.15).

Mas as vezes sua pisada é em um buraco. Ao descrever sua situação de abandono por Deus - figura do abandono do Messias - o salmista também mostra a situação futura do pecador: “Puseste-me na mais profunda cova, nos lugares tenebrosos, nos abismos” (Sl 88.6).

Fica pior quando descreve a situação daquele que já teve uma oportunidade, como Judas, de conhecer, de se envolver, de participar do Sagrado Ministério e depois o abandonou de caso pensado. Tal pessoa apesar de ter firmeza para os pés, não pisa. Espezinha: “De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça?” (Hb 10.29).

Em franco contraste, o salvo é descrito como quem está sobre uma rocha e com possibilidade de andar a passos firmes: “Tirou-me de um poço de perdição, de um tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos” (Sl 40.2).

Não apenas uma rocha, mas um verdadeiro local de abrigo, onde pode se refugiar, habitar, viver e progredir em seus caminhos: “O SENHOR é a minha rocha, a minha cidadela, o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo em que me refugio; o meu escudo, a força da minha salvação, o meu baluarte” (Sl 18.2) e “Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza; por causa do teu nome, tu me conduzirás e me guiarás” (Sl 31.3).

É interessante ver outro aspecto paralelo: uma rocha espaçosa que permite movimentos desembaraçados. E esse conceito é importante, pois geralmente a vida cristã é descrita como restritiva, muitas vezes é comparada a uma clausura e até vivida em uma. Ao passo que a vida do ímpio é mostrada como uma vida de total liberdade. Mas a Bíblia ensina exatamente o inverso: “ ...e não me entregaste nas mãos do inimigo; firmaste os meus pés em lugar espaçoso” (Sl 31.8).

A liberdade de que o perdido aparentemente goza é na realidade um laço: “Os meus olhos se elevam continuamente ao SENHOR, pois ele me tirará os pés do laço” (Sl 25.25).

Transcrevi todos estes textos para mostrar como a Bíblia vê o homem perdido em seus pecados e homem que já foi salvo, apesar de aos nossos olhos o primeiro às vezes se encontrar em uma situação muito melhor do que o segundo.

De fato, as vezes a opulência do ímpio e a dureza da vida do justo parece contradizer as promessas de Deus que haveria de abençoar seus filhos. Asafe percebe isso de forma magistral e descreve, no Salmo 73, os perdido com as seguintes qualificações:

Materialmente prósperos e sem problemas; possuem força e saúde; não sofrem atribulações do dia a dia, ostentam a soberba como quem usa um colar e a violência como roupa; seus olhos estão sempre voltados para o lucro e o coração para as vantagens que podem tirar dele. Zombam, falam malícias e com arrogância ameaçam ao próximo e até os céus e ficam sempre com a última palavra de modo que o povo os tem por modelo e se enche deles como quem bebe água. Chegam a por em dúvida a sabedoria de Deus!

Entretanto veja como Asafe, no mesmo Salmo, descreve o fim deles: Deus os coloca em “lugares escorregadios”. Basta isso.

De modo totalmente diferente diz do salvo: “tu me seguras com a mão direita”. Reflita bem no contraste: Lugares escorregadios e seguro pela mão direita de Deus!

Esse foi o quadro que o Senhor Jesus usou como pano de fundo na Parábola do Rico e do Lázaro. Aquele que regalava-se esplendidamente nesta vida veio a suplicar por uma gota de água e o que tinha suas feridas lambidas pelos cães foi recebido no seio de Abraão.

Escapismo protestante! Dirão alguns. Especialmente os que de tão imersos no quadro de valores marxistas já não conseguem vê-los mais, assim como o peixe não vê a água em que nada. Entretanto eu prefiro chamar de cosmovisão cristã.

sábado, 30 de junho de 2012

A Biblioteca de Deus

Você já reparou no quanto as Sagradas Escrituras falam de livros diante de Deus? Veja:

O mais comentado de todos (nove vezes), e o que aparece primeiro na Bíblia, no Êxodo, quando Moisés, intercedendo pelo povo, pede a Deus que lhes perdoe, ou risque seu nome “do livro”, Deus admite possuir tal livro: “Então, disse o SENHOR a Moisés: Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim” (Exodo 32.33). Parece ser um livro com o nome de todos os salvos. Uma espécie de Rol de Membros da Igreja Invisível. É mencionado no Salmo 69.28, em Daniel 12.1, em Filipenses 4.3, e em Apocalipse 3.5, 13.8, 17.8, 20.15 e 21.27.

No Salmo 139.16 Davi fala de outro livro, no qual o conteúdo de seus dias foram registrados antecipadamente, antes mesmo que seu corpo adquirisse forma no ventre materno.

O profeta Ezequiel (2.9) menciona um livro, cujo conteúdo é cheio de lamentações, suspiros e ais. Foi ordenado comê-lo, muito semelhantemente ao que aconteceu ao apóstolo João no Apocalipse (10.8-11). Se cada um deles comeu um livro diferente (lembre-se de que naqueles dias livro nada mais era do que uma tira larga de couro enrolado), ou se o que aconteceu ao profeta e ao apóstolo é uma metáfora de se apropriar do conteúdo de um determinado livro, só saberemos no futuro.

Um anjo mandou Daniel (12.4) selar o livro que escrevera até o tempo do fim, quando muitos haveriam de o esquadrinhar e o saber se multiplicaria. Tudo indica que além da profecia de Daniel, por extensão, temos aqui a própria Bíblia, que tem sido cada vez mais esquadrinhada, e à medida que é esquadrinhada seu conteúdo se torna mais claro e o conhecimento que temos dela se multiplica. Vale a pena notar que seu conhecimento cresceu muito exatamente neste período que foi chamado por Pedro, em seu sermão do dia de Pentecostes, de últimos dias.

O escritor de Hebreus (10.7) menciona outro livro no qual o Senhor Jesus diz ter trechos escritos a seu respeito, e pelo contexto não parece se referir à Bíblia. Provavelmente é a este livro que se refere o capítulo 5 de Apocalipse, onde não se encontra ninguém digno de romper os selos de um livro selado por dentro e por fora, e o Leão de Judá aparece em forma de Cordeiro para fazer isso, provocando intenso louvor na multidão de remidos.

Mas, há um livro precioso para todo aquele cuja esperança está em Deus. Ele é mencionado no Salmo 56. Neste livro são inventariadas as lágrimas derramadas e recolhidas por Deus: “Contaste os meus passos quando sofri perseguições; recolheste as minhas lágrimas no teu odre; não estão elas inscritas no teu livro?” (Salmo 56.8).

Finalmente, no Apocalipse (20.12) menciona-se diversos livros, cujo número é impossível determinar: “Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros”. O texto dá a impressão de que há livros (não diz quantos) em que se anota as obras dos que não se encontram registrados no Livro da Vida para fins de julgamento e que serão abertos naquele dia e cotejados com o Livro da Vida.

Seria como se os que não se encontram no Rol da Igreja Invisível tivessem seus arquivos de maldades anotadas diante de Deus.

Alguém pode objetar dizendo que isso é politicamente incorreto. Isso é espionagem contra os pobres danados.

Pior! Veja o que o profeta Malaquias (3.16) diz sobre os eleitos: “Então, os que temiam ao SENHOR falavam uns aos outros; o SENHOR atentava e ouvia; havia um memorial escrito diante dele para os que temem ao SENHOR e para os que se lembram do seu nome”.

Sete livros (se bem que um deles pode ter muitos volumes) e um memorial estão diante de Deus. Em pelo menos quatro deles há nomes registrados: 1) No livro da Vida; 2) No livro de que fala o Salmo 139.16; 3) No inventário das lágrimas; 4) Nos muitos volumes de registro das obras dos maus. Em qual deles está seu nome? Peço a Deus que esteja no Livro da Vida, com um bela nota memorial como um dos que temem ao SENHOR.

sábado, 23 de junho de 2012

Jesus e as riquezas

Em seu Sermão do Monte nosso Senhor Jesus nos proibiu terminantemente de fazer quatro coisas: 1) Ajuntar tesouros sobre a terra; 2) Andar ansiosos; 3) Julgar e 4) Jogar pérolas aos porcos. Vou examinar a primeira proibição.

Ao nos proibir de ajuntar tesouros sobre a terra o Senhor se vale de cinco metáforas.

A primeira delas ocorre com o uso da palavra tesouro, no grego, ‘thesauros’, que tanto pode ser o recipiente quanto o bens guardados dentro dele. Obviamente ele está falando de coisas preciosas, que mereçam ser entesouradas, que são disputadas por ladrões.

A segunda ocorre quando ele destaca mais o local em que elas são entesouradas do que propriamente o possuí-las. Proíbe entesoura-las na terra e ordena que as entesouremos no céu. Ele parte da pressuposição de que seus discípulos sabem como tomar algo que pode ser roubado e, em vez de enterrá-lo (o cofre da época), depositá-lo no céu.

A terceira é uma explicação do por quê depositá-lo nos céu: O tesouro atrai o coração de seu dono, e é melhor que o coração seja atraído para o céu.

A quarta na realidade é uma parábola na qual os olhos são mostrados como a parte externa da alma, que, neste caso, é o mesmo que o coração atraído pelo tesouro. Os olhos denunciam exteriormente tal atração, que, se for pelo tesouro depositado na terra, será má. O mais interessante é a afirmação de que se a contaminação já chegou aos olhos/alma quão grande ela é!

A quinta também é outra parábola na qual Jesus mostra que há mais um nível a que as riquezas podem sujeitar o homem além de contaminar sua alma: podem torna-lo escravo. E neste caso elas passam a competir com Deus de tal forma que o discípulo de Jesus está impedido de servi-lo, pois ninguém pode servir a dois senhores.

Você deve ter observado que ao falar de riquezas ele usa em níveis crescentes:

Primeiro, como algo que merece ser guardado, e que desde o começo já merecia o cuidado de ser guardado no lugar certo.

Segundo, como algo que prende o coração (daí a necessidade de estar guardado no lugar certo).

Terceiro, como algo que contamina a alma a tal ponto que se faz notar nos olhos tornando-os maus. Note que isso pode acontecer até com pequenas quantias: Os trabalhadores na vinha, que ganharam o salário de apenas um dia, reclamaram da generosidade do patrão que pagou o mesmo tanto aos que trabalharam o dia todo e aos que trabalharam apenas uma hora. Observe na resposta do patrão como é destacada a maldade nos olhos: “Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?” (Mt 20.15).

Quarto, como algo que assume o senhorio sobre o homem. Aqui vale a pena observar que a palavra usada por Jesus, traduzida por riquezas, foi mamom. No Novo Testamento esta palavra é usada aqui e na Parábola do Mordomo Infiel, e em Grego é ‘mammona’. Embora alguns estudiosos creiam que ela venha do hebraico ‘matmon’, que significa ‘tesouro’, a maior probabilidade etimológica é que se derive da palavra siríaca ‘mámóna’ que significa apenas ‘riquezas’, e não se tem conhecimento de nenhum deus siríaco com esse nome.

A lição que Jesus está nos dando é que quando julgamos possuir algo, mantendo-o sob nossa posse, gerenciando-o conforme nossos interesses, essa coisa toma nosso coração, contamina nossa alma e torna-se nosso senhor (no caso, uma espécie deus). O discípulo de Jesus, ao contrário, ao possuir algo, gerencia-o de tal forma que os interesses de Deus são os que prevalecem. Como se tal coisa fosse depositada nos céus.

Para Jesus o importante não ser rico ou não, mas o uso que se faz de um centavo ou de toda a riqueza do mundo.

sábado, 16 de junho de 2012

Guerras

As Sagradas Escrituras falam de três tipos de guerra: Guerra de Conquista, Guerra pelo Poder e Guerra Civil.

A Guerra de Conquista é a que se faz para tomar território, como Josué tomou todas as terras que Deus prometera a Abraão. Geralmente pensamos que esse tipo de guerra é coisa do passado, entretanto em 1982 a Argentina e a Inglaterra guerrearam pelas ilhas Falklands/Malvinas e até hoje a Argentina pugna nos órgãos internacionais pela posse delas. O conflito atual entre a Índia e o Paquistão, que a ONU não chama de guerra, embora se arraste por 30 anos e já tenha causado 29 mil mortes, tem como motivo principal o domínio da região da Caxemira.

E, francamente, quando vejo traficantes lutando por seus territórios, mesmo que seja dentro de um Estado legítimo, como o Brasil ou o México, não consigo ver muita diferença prática.

Embora os livros técnicos não façam essa distinção, me atrevi distinguir a Guerra pelo Poder da Guerra Civil. Um exemplo do que eu chamo de Guerra pelo Poder é guerra de Absalão contra seu pai (2Sm 15-18) onde o objetivo foi claramente tomar o governo central a qualquer preço. E um exemplo do que eu chamo de Guerra Civil é a revolta contra os benjamitas devido a concubina do levita (Jz 19-21), onde não houve disputa pelo poder, mas uma luta interna para extirpar um mal cometido.

Esses dois tipos de guerra estão presentes em nossos dias, mas é muito difícil encontrar o segundo tipo. Tanto é que ambas são chamadas de Guerras Civis.

Modernamente criamos uma figura interessante: a revolução (armada), que, a meu ver, nada mais é do que uma guerra dentro do próprio país, portanto, contra o governo vigente, para a qual se acha justificativas éticas, seja de opressão, seja de corrupção ou até de ideologia.

A guerra tem um único objetivo: dominar o adversário e impor-lhe a vontade. Mas possui muitas características, das quais duas se destacam: a estratégia e a violência. Essas duas caraterísticas estão presentes em todas as guerras.

Os governos totalitários são os mais suscetíveis à guerras internas, pois quando o poder é detido por uma só pessoa a cobiça desperta as demais.

A transição para os governos democráticos, embora se diga que foi um forma de evitar que um só domine sobre todos, na realidade foi também uma tentativa de acabar com o segunda característica das Guerras pelo Poder.

A disputa pelo poder continua, porém tem a vantagem de ser validada, aberta e conhecida de todos. Os grupos que disputam o poder continuam se aglomerando em torno de alguém que melhor os lidere e os conduza a vitória. Os financiamentos dessas empreitadas é tão caro quanto o financiamento de um exército e, às vezes, são tolerados acordos escusos como se toleraria em uma guerra. Mas houve uma mudança: As armas - característica da violência - foram substituídas pelos votos.

Entretanto a estratégia continua presente e mais importante do que nunca. Vale tudo para se tomar o poder e qualquer coisa que possa ser usada a favor ou contra o inimigo deve fazer parte do plano estratégico.

Analisando por este aspecto o estado democrático é um estado que vive em guerra. Uma guerra “domesticada” mas, aos olhos de Deus, não menos violenta, pois se não há assassinatos, o sexto mandamento é sempre quebrado através das difamações e das calúnias que já consideramos parte do processo eleitoral.

Mas, e a violência tradicional, que é inerente à constituição humana, especialmente após o pecado?

Infelizmente os “guerreiros” aparecem nos maus tratos impingidos ao próximo (lembre-se de como Jesus disse que o sexto mandamento é quebrado apenas ao chamarmos nosso irmão de tolo) e na criminalidade crescente. Porém, mais infelizmente ainda, a violência está institucionalizada nas competições esportivas e suas torcidas, nas paradas e nas marchas. É a válvula de escape necessária à governabilidade das massas.

Não preciso falar do quanto qualquer torcida pode ser violenta, mas você já percebeu no quanto os campeonatos esportivos internacionais se assemelham a guerras em que cada país é enaltecido com ufanismo?

Nas paradas e nas marchas se processa um pensamento triunfalista. Só se marcha sobre um território vencido e quem marcha exibe seu poder à quem o vê. A marcha é uma exibição de vitória.

Todos esses comportamentos, a que geralmente não damos muito valor, tem em comum o desprezo pelo próximo que foi conquistado pela violência, seja militar, como nas guerra antigas, seja democrática, como nas atuais.

Há outra forma de viver? Enquanto estivermos debaixo da herança do pecado, não! Quando nosso Senhor nos libertar da tirania dele, viveremos para o que fomos criados e a violência já não fará mais parte de nossa natureza.

sábado, 26 de maio de 2012

O Espírito Santo nos capacita entender a Lei

As palavras de nosso Senhor “até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra” (Mt 5.18) apontavam para a cruz, pois antes ele tinha sido bem claro: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17). Você já se deu conta de que Jesus estava sujeito à Lei?

Na cruz, ponto central de sua perfeita obediência ao Pai, Jesus cumpriu totalmente a Lei. Agora nada nos separa de Deus. Nem a Lei. Jesus já resolveu esse problema e fez mais: Aboliu a antiga forma de cultuar a Deus, pois era apenas sombra de sua cruz. Então, pela incomensurável graça de Deus, mediante seu sacrifício, os is e os tis da lei já estão perfeitamente resguardados.

Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? (Rm 6.1-2).

- Se Jesus cumpriu a lei, o que ainda é pecado?

- Transgredir a vontade de Deus ainda é pecado. Por exemplo, voltar ao culto abolido pela cruz é pecado.

- Então, há ordens no Antigo Testamento cujo o cumprimento delas é pecado?

- Sim. E o Novo Testamento nos dá exemplos claros. Veja a desavença entre os apóstolos. Pedro estava pecando não apenas por hipocrisia, mas por tentar impor a cristãos gentios uma dieta judaica e Paulo o repreendeu: “Quando, porém, Cefas chegou a Antioquia, eu o enfrentei abertamente, pois merecia ser repreendido. Porque antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele estava comendo com os gentios; mas, quando eles chegaram, Cefas foi se retirando e se separando deles, por temer os que eram da circuncisão. E os outros judeus também fizeram como ele, a ponto de até Barnabé se deixar levar pela hipocrisia deles. Mas, quando vi que não agiam corretamente, conforme a verdade do evangelho, disse a Cefas na frente de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como os judeus, por que obrigas os gentios a viver como judeus?” (Gl 2.11-14 - Almeida Sec. XXI).

- Como então posso saber o que, do Antigo Testamento, devo me abster e o que ainda representa a vontade de Deus?

- Pelos quatro usos da lei de que falei no domingo passado. O uso cúltico (ou cerimonial) está abolido e voltar a ele é blasfemar contra o sacrifício do Senhor. Os demais usos (o teológico, que nos mostra o quanto somos pecadores; o civil, que está presente nas leis de nossos respectivos países; e o “revelador da vontade de Deus”, que nos ensina o modo como Deus quer que nos relacionemos com ele e com nosso próximo) estão em vigência. Não nos afligem com maldição, da qual estamos livres, mas expressam a vontade de nosso Senhor.

- Mas como saber qual é o uso da lei que determinado texto está fazendo?

- Lendo-o, sob a iluminação do Espírito Santo! Ao celebramos hoje seu derramamento sobre a Igreja, também nos lembramos: “…quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir” (Jo 16.13).

Há textos no AT que são muito difíceis. Por exemplo, o capítulo 19 de Levítico, em que todos os usos da lei estão presentes, e a cada ordem repete-se: “Eu sou o SENHOR”.

Os 2 versículos iniciais obrigam à santidade. O versículo 3 obriga a honrar o pai e a mãe e a guardar o dia de descanso. O versículo 4 proíbe a idolatria. Aqui a Lei mostra qual é a vontade Deus.

No versículo 5 até o 8 há uma série de disposições sobre o que fazer por ocasião da oferenda de um sacrifício pacífico. Obviamente já foi abolido, pois faz parte do culto antigo.

Nos versículos 9 e 10 há instruções a respeito de como fazer a colheita de um campo com vistas a beneficiar os pobres e os estrangeiros. Essas disposições estão em vigor, mas incorporadas pelas leis de nossos países.

Os versículos 11 e 12 proíbem furtar, mentir, usar de falsidade com o próximo e jurar pelo nome do SENHOR. Mostram-nos a vontade de Deus.

Dos versículos 13 a 18 vemos uma série de leis cujo objetivo é a boa convivência social: Não oprimir nem roubar o próximo, não retardar o pagamento dos salários. Não amaldiçoar o surdo, nem colocar tropeço diante do cego, mas temer a Deus. Não julgar a favor do pobre, por ele ser pobre, nem atender os interesses do rico por ele ser rico. Não fofocar. Não colocar em risco a vida do próximo. Não compactuar com os segredos pecaminosos do próximo, mas repreendê-lo de modo a não levar seu pecado. Não vingar-se de seu próximo, mas amá-lo como a si mesmo. Novamente a lei está mostrando-nos a vontade de Deus.

O versículo 19 é um mistério. Versa sobre a mistura de animais e sementes de espécie diversa, bem como sobre tecidos feitos com fibras animais e vegetais (lã e linho). Se a razão para não misturar é garantir a higiene dos rebanhos e campos, esta lei está em vigor nas leis de nossos países. Entretanto se a razão foi manter Israel isolado, o que explicaria também a roupa, essa lei foi abolida pela ordem de ir mundo afora. Nossa defesa agora não é mais o isolacionismo, mas a intercessão de Jesus: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal”.

Do versículo 20 a 22 há uma disposição sobre a fornicação com uma escrava. O princípio, que mostra a vontade de Deus, continua em vigor: a relação sexual fora do casamento é pecado, mesmo com um objeto de sua posse como eram considerados os escravos naquela época.

Os versículos 23 a 25 apresentam dois usos da Lei: O uso civil: não comer do fruto nos três primeiros anos da planta, e o uso cúltico: entregar as primícias ao Senhor. O uso civil continua em vigor absorvido pelas nossas leis. Sobre a oferta das primícias, que alguns a ligam ao uso cúltico e, portanto, abolida, há discussão: O Livro de Hebreus mostra claramente que a Lei dos Dízimos existia antes de Moisés e hoje entregamos os nossos ao próprio Jesus, a quem Abraão, e todos os Levitas, também os entregaram.

Os versículos 26 a 28 proíbem comer carne com sangue, agourar, adivinhar, cortar o cabelo em redondo, aparar a barba, autoflagelar-se, mesmo em sinal de dor por um morto, ou fazer tatuagens. Certamente todos esses preceitos visavam isolar Israel dos povos ao redor. Parece que apenas a carne com sangue obriga os cristãos quando estiverem em contato com judeus (veja At 15). (Nunca encontrei um observador desse ponto que reclamasse de uma picanha pingando).

O versículo 29 não só é atualíssimo como traz uma advertência sobre a propagação do erro.

O versículo 30 está abolido por seu uso cúltico e Estêvão foi morto por mostrar como a parte final dele tinha sido abolida.

Do versículo 32 ao 34 encontramos disposições sobre os velhos e sobre os estrangeiros. Certamente nossas leis as incorporaram.

Os versículos 35 ao 37 versam sobre o comércio. Mais especificamente sobre justiça nas medidas de comprimento, peso e volume de atacado e varejo.

Assim é todo Antigo Testamento. Demanda um olhar novo sob uma perspectiva nova. Retrospectiva: a partir da cruz.

Não foi sem razão que os apóstolos providenciaram diáconos para atender as necessidades materiais da Igreja. Em At 6.2 eles dizem “Não tem sentido abandonar a palavra de Deus para servir às mesas” e no v4 “nos dedicaremos à diaconia da palavra”. Se o v4 transmite mais a ideia de ensino, o v2 transmite a de estudo. E era isso o que certamente faziam, desde que Jesus lhes mostrou como vê-lo nas Escrituras (Lc 24.44-45).

Façamos o mesmo sob a luz do Santo Espírito.

sábado, 19 de maio de 2012

O Antigo Testamento ainda nos obriga?

Qualquer leitor do Antigo Testamento (AT) dirá que algumas coisas que estão lá ainda são importantíssimas, como a proibição de matar ou de roubar. Porém nem todos concordam que a obrigação de honrar os pais, dizer sempre a verdade e não cobiçar sejam tão importantes assim. E pouquíssimos - talvez apenas os protestantes mais tradicionais - concordem com a importância da proibição do adultério, da idolatria, de se observar o Dia do Senhor, e de não se tomar seu Nome em vão.

Entretanto, até mesmo um protestante tradicional fica embaraçado diante de certos textos.

Dia desses me vi no meio de uma discussão sobre chouriço e galinha ao molho pardo. Meu oponente alegava que além do AT proibir carne de porco e sangue, o parecer de Tiago estabeleceu: “...escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, bem como das relações sexuais ilícitas, da carne de animais sufocados e do sangue” (At 15.19-20). O chouriço é feito do sangue de porco e o molho pardo com sangue da galinha que é morta por sufocação.

Que leis nos sujeitam? As leis relativas às vestes? À alimentos? À votos? Não disponho de muito espaço, mas, como exemplo...

1. O AT proíbe o uso de vestes cujo tecido seja produzido com lã e linho (mistura de fibras animais e vegetais), bem como o plantio de sementes híbridas.

2. Quanto a alimentação as coisas são ainda mais complicadas: Só permite comer animais ruminantes de unhas fendidas. Da lista de aves que permite comer deduzo que são vedadas as de rapinas e as que comem carniça. Só é permitido comer peixes que tenham escamas e barbatanas. Surpreendentemente permite comer qualquer inseto da família dos gafanhotos, mas proíbe comer qualquer réptil.

3. Quem toma um voto está proibido não apenas de beber vinho como também de comer uvas e cortar os cabelos.

Será que todas essas leis obrigam os cristãos? Então, que critério se usa para dizer que as outras obrigam e essas não? O parecer de Tiago? É melhor examinar o aspecto geral. E o quadro geral nos mostra as leis sob quatro usos bem delineados:

1º - O uso cerimonial ou cúltico: Destaca-se pelos ritos do culto e pelos costumes cotidianos.

Embora muitos povos possuíssem cultos com sacrifícios, nenhum deles era sujeito à regras minuciosas como as que Deus havia estabelecido, mas conduziam seus cultos pela euforia e pelo êxtase.

E para garantir que o Culto, a Lei e a Linhagem da qual o Messias haveria de nascer, permanecessem intocados pelas práticas dos povos ao redor, Deus estabeleceu as leis dietéticas e comportamentais que garantisse o isolacionamento de seu povo.

A cruz aboliu esse culto juntamente com tudo aquilo que lhe era correlato: sacrifícios e sacrificantes. Por fim o próprio Deus se encarregou de destruir o templo.

Os cristãos entenderam então, que haviam de mudar até o dia da maior celebração: o último dia da semana. E o substituíram pelo primeiro dia deixando bem claro que as sombras acabaram e agora cultuam o verdadeiro.

Com a ordem de Jesus de ir pelo mundo inteiro as leis de segregação estavam também abolidas.

2º - O uso teológico. Mostra o quanto somos pecadores e o quanto precisamos da graça de Deus. Por esta razão que Jesus agravou o sentido da lei ao estabelecer que todo o que intencionar quebrar a lei, de fato já a quebrou.

3º - O uso civil. Devemos sempre nos lembrar de que Israel era um país e como tal precisava de leis. Muito do que Deus prescreveu eram leis civis. Elas não estavam consolidadas em Estatutos e Códigos, mas nelas encontramos o equivalente. Veja exemplos: 1º) Leis referentes a construção: Dt 22.8. 2º) Leis referentes ao comércio: Dt 25.13-16. 3º) - Lei referentes a guerra: Dt 20.5-6 e 10-15, 20.19, 23.9, 24.5. 4º) Leis trabalhistas: Dt 24.14e15 e Lv 19.13: “Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás; o pagamento do diarista não ficará contigo até a manhã seguinte”.

Todas essas leis inspiraram as nossas leis atuais, que refletirão mais ou menos os princípios divinos na medida que lhes forem mais ou menos fiéis. Portanto, devemos obediência a um simples Código de Obras Municipal, em último caso, por ele refletir a vontade de Deus, que tempos atrás, já determinou que nossas casas não podem ser feitas sem qualquer cuidado de segurança.

4º - O uso revelador da vontade de Deus: Se o uso cerimonial (como culto e seus derivados) está totalmente abolido, os outros usos estão em vigor. Porém, é necessário deixar bem claro: a maldição que decorria do não cumprimento da lei caiu sobre Jesus. Estamos livres dela! Surge então o quarto uso da lei: Como filhos que amam a seu Pai buscamos entender qual é sua vontade sobre esses assuntos e a cumprimos com prazer.

Concluindo. Para nós agora está mais do que claro o quanto dependíamos e dependemos de Jesus. Como disse o apóstolo Paulo dizemos nós também: “a lei é espiritual”, pois mostra a vontade de Deus, e o que Jesus fez por nós.

domingo, 13 de maio de 2012

Alegrias no ministério pastoral

Nenhum pastor pode dizer que seu ministério é a razão de uma vida triste. Não pastor de verdade. Que fique bem claro: não somos imunes à tristeza. Ela é bem conhecida de cada um de nós e anda sempre por perto. Porém, o que fazemos nos alegra. Conhecemos momentos de tristeza, mas Deus nos recompensa com momentos de grande alegria.

Lutar contra dificuldades materiais entristece o coração de qualquer pastor. Afinal, como marido e pai, ele deseja que sua família também esteja tão amparada quanto as famílias de seu rebanho. Mas, isso não é o mais importante, pois ele compartilha do mesmo sofrimento que o rebanho. Ou seja: Deus mostra em sua casa, na sua mesa, as necessidades que o rebanho sofre e o torna mais capaz de entender os problemas dele. O mesmo raciocínio pode ser aplicado aos problemas de saúde.

Assim como ele se entristece por um filho rebelde, ele se entristece também por um ovelha obstinada. A dor que ambos causam é semelhante. Talvez difira em intensidade. Neste aspecto, ensinar, e ver que foi vão, mesmo que o ensino tenha sido recebido com alegria e elogios, é um desses momentos de tristeza. Certamente esse é o aspecto mais doloroso do ministério pastoral.

Obviamente, o texto acima tem uma grande carga pessoal e não sei quantos pastores concordariam com ele, especialmente por que, através do contraste, eu já revelei o que mais alegra um pastor: ver a Palavra de Deus ser posta em prática. E novamente não sei quantos concordariam com isso.

À essas alturas terei de ser mais pessoal, pois nunca me esquecerei de algumas coisas dentre as quais seleciono pouquíssimas:

A Profissão de Fé de minhas filhas, que confirmou o que ensinamos a elas desde o berço certamente é o ponto de maior alegria pra mim.

Mas não posso deixar de falar da alegria que senti no abraço que a Martinha me deu quando eu recebi sua Profissão de Fé. Ela beirava 30 anos, mas era portadora de Síndrome de Down. O Conselho da Igreja percebeu nela uma belíssima fé em Jesus Cristo como seu Salvador. Percebeu também que ela possuía uma clara distinção entre o que era certo e errado, bem como um arrependimento sincero sempre que fazia algo errado. Resolveu convidá-la a publicar sua fé e tomar a Santa Ceia. Ela não gostava muito de me abraçar - dizia sempre que minha barba a espetava - mas naquele dia ela me deu um abraço apertado. Dois anos depois o Senhor a chamou para junto de seu trono.

Nunca me esquecerei de um grupo de onze crianças, entre 6 e 12 anos, que me aguardavam na sala pastoral, sentadas à mesa do Conselho, após o Culto, onde eu ia sempre trocar o manto pelo paletó, reivindicando o direito de ficarem no templo e participar do culto, pois “estavam cansadas de historinhas”.

Mas, esta semana entrou no rol das lembranças, das quais nunca me esquecerei, o gesto de um grupo de jovens da Igreja que estou pastoreando atualmente: Eles se negaram a participar da final de um campeonato por ser disputada no Dia do Senhor! Perderam para pessoas que não achavam nada demais fazer isso em um domingo.

Quando eu soube da notícia, lembrei-me do missionário Eric Lidell, que deixou de correr em sua especialidade nas olimpíadas de 1924 por ser disputada no domingo (maravilhosamente relatado no filme Carruagens de Fogo).

Certamente o troféu que esses jovens receberão, bem como seus conselheiros, que os guiaram bem, será muito melhor do que aquele troféu pífio que deixaram de ganhar, pois antes de serem atletas do mundo são atletas de Deus, e ele é claro em sua Palavra: “...o atleta não é coroado se não competir segundo as normas” (2Tm 2.5).

sábado, 5 de maio de 2012

Salmodia exclusiva

Vez por outra me questionam como mantenho minha confissão de fé reformada sem ser adepto de uma salmodia exclusiva. Pra falar a verdade eu gostaria de ser. Mas não vejo como.

Sei que Calvino contratou um poeta para metrificar os 150 Salmos e sei que a Assembleia de Westminster também o fez. Mas, sem desmerecer esses gigantescos feitos nenhum deles conseguiu reproduzir as melodias.

Mas, antes de falar das melodias há alguns pontos que devem ficar claros com relação às letras:

1º - As metrificações empobrecem os conteúdos e ao tentar enriquecê-los cai-se fatalmente na paráfrase. Correndo o risco de dizer um absurdo: ou se faz uma transcriação poética ou se canta em hebraico, pois metrificação nenhuma conseguirá fazer justiça ao conteúdo de um Salmo. Para isso é que existe a pregação!

2º - Eu não conheço todos os Saltérios existentes, mas tenho acompanhado os esforços feitos em nosso país para se cantar os Salmos e talvez o mais consistente ainda seja “Salmos e Hinos” que metrificou 44 Salmos. Mas, por exemplo, não posso dizer que o texto do Salmo 1 esteja totalmente contemplado em sua metrificação correspondente. Pior: em lugar algum do Salmo se fala da volta de Jesus descendo dos céus, como vemos na estrofe 7 da metrificação. Ou seja: houve mais do que uma interpretação.

No outro extremo pude ver os esforços de Vencedores por Cristo, que anos atrás tentou cantar diversos Salmos, tão fielmente quanto possível fosse à Edição Revista e Atualiza de Almeida, e cito como exemplo o Salmo 145.1-2 que resultou no cântico conhecido como “Exaltar-te-ei ó Deus meu e rei”, que, não sei por qual razão o emendaram com o Salmo 24.7-10: “Levantai ó portas as vossas cabeças”.

Desconheço um trabalho que faça jus integralmente aos Salmos. Note: não estou dizendo que não exista. Mas, aqui entre nós, duvido que se consiga fazer.

3º - A necessária cristianização dos Salmos. Todos os Salmos foram escritos antes da plenitude dos tempos. Antes de nosso Senhor se fazer um de nós. Dificilmente haverá um Salmo que não esteja escrito no tempo futuro ou não manifeste uma intenção ou uma cosmovisão que expresse um Messias esperado. Entretanto a Igreja vive em outra dispensação: Para nós o Messias já veio. Não há mais sentido em cantar “Eu te louvarei Senhor ...”, pois agora já o louvamos. Agora cantamos “Eterno Pai teu povo congregado, alegre entoa teu louvor aqui” ou “Estamos reunidos aqui Senhor por que temos conhecido teu amor”. Agora já cantamos aquele cântico novo que era tão esperado pelos antigos.

Com cântico novo não estou me referindo à forma, mas ao ângulo com que vemos a história. Àquilo que Jesus falou a seus discípulos: “... muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não ouviram” (Mt 13.17).

No que diz respeito às melodias, é necessário atender a alguns valores Bíblicos. Um pequeno exemplo: solenidade (Sl 92.3), agradáveis, reverentes e cheias de santo temor (Hb 12.28). Isso contrasta com os valores de muitas melodias atuais, que vão desde a irreverência mais grossa e absurda dos pagodes, funks e raps, até a frivolidade de se cantar algo tremendo como a volta do Senhor (que exige uma melodia pungente) com uma cantiga de roda em “Então se verá o Filho do Homem”.

Por fim, tenho visto um silogismo que alguns atribuem a Agostinho, outros a Calvino e outros a algum teólogo do passado, e até agora não descobrir o verdadeiro autor, apesar de ter pesquisado muito, mas, é mais ou menos o seguinte: “Somente a palavra inspirada por Deus é digna de ser cantada em seu louvor”.

Eu não posso concordar com essa afirmação. Se concordasse eu só poderia orar o Pai Nosso, ou outra oração registrada na Bíblia. Se tenho total liberdade de dirigir-me a ele em oração, com minhas próprias palavras, por que razão devo me ater ao texto sagrado ao cantar? E se argumentarem que ao cantar um hino estou usando as palavras de outra pessoa, replico com Jonathan Edwards: “não é o que fazemos quando acompanhamos a oração de alguém?”

Finalmente, como posso restringir os cânticos da Igreja aos 150 Salmos, se Israel não estava restrito a eles? Você está lembrado do cântico que Deus mandou Moisés compor e que devia servir de memória para as gerações futuras? Não era um Salmo, era o que os hebreus chamavam de “shir” e foi traduzido para o grego por “ode”. Leia Deuteronômio 31 e 32. Pois bem: Esse cântico não faz parte dos 150 Salmos e conhecemos bem o único Salmo de Moisés que está naquela coleção, que é o 90. Entretanto, ele será relembrado por ninguém menos que o Senhor Jesus. Veja Apocalipse 15.1-3. Repito: Coerentemente, o Senhor Jesus está cantando um hino (ode) e não um Salmo (Mizmor).

Concluindo, eu gostaria de cantar mais Salmos. Mas gostaria de cantar também mais coisas boas.

sábado, 28 de abril de 2012

Redes Sociais

Duas ou três vezes comecei a escrever algo e desisti, pois achei que os textos estavam muito pessoais. Desta vez, cheguei a conclusão que não há outra abordagem possível, pois, de tão novo, não há distanciamento suficiente para se assumir uma posição crítica, e me sinto obrigado a dizer algo ao rebanho que Deus colocou sob meus cuidados ou corro o risco de omissão.

Nunca fui e dificilmente serei um usuário aficionado. Mas tentei acompanhar quatro das maiores redes sociais. Fiz isso por achar que era extensão de minhas obrigações como pastor. Passei momentos gratificantes, fiquei decepcionado com a futilidade de alguns amigos e, sendo bem sincero, passei por momentos maus.

Começando pelos gratificantes: Encontrei pessoas cujo contato já havia perdido há muitos anos. Encontrei fotos de amigos e lugares que jamais encontraria. Recebi, em abundância, informações muito boas.

É uma fonte de atualização excelente tanto de notícias familiares quanto profissionais e culturais. Até agora, não sei (apenas desconfio) o que estimula alguns a compartilhar ou escrever coisas tão bonitas nas redes e não fazer o mesmo através dos e-mails, já que o trabalho é exatamente o mesmo, e possui a vantagem de se poder responder diretamente, ou não, ao remetente sem que ninguém mais veja, ao passo que a rede social é necessariamente intermediária e exibicionista.

Porém, devo falar também da parte má. E tenho de fazer isso com cautela, pois isso não pode ser generalizado. Aliás, que fique bem claro: estou relatando a minha experiência.

Primeiro: O tempo gasto. Eu raramente gastava menos de 3 horas por dia!

Pela manhã, só no FaceBook com menos de 150 amigos, (configurado para que no máximo os amigos de meus amigos lessem o que eu escrevi e apenas meus amigos pudessem me responder) eu gastava entre uma e duas horas lendo o que foi escrito depois de 23h, que era a última vez que eu o olhava na noite anterior.

Dependendo do dia, das polêmicas surgidas e de minha interação, facilmente gastava meia hora antes do almoço, meia hora à tarde e outra antes de dormir.

Um dia li a seguinte frase: “a maior virtude das redes sociais é que ninguém poderá escusar-se diante do Senhor de que não tinha tempo para orar ou ler a Bíblia”. É a mais pura verdade, pois dentro dessas três ou quatro horas diárias, poucas foram as produtivas de fato. Aquela em que percebi que meus conselhos valeram ou em que fui edificado.

Quem reprendi por boca suja continuou escrevendo palavrões e eu o deletei. Uma adolescente, de dócil trato pessoal, me deletou com um palavrão pior dos que falava antes, pelos quais eu a havia exortado.

Poucas vezes li algo edificante além de “hoje Deus vai me abençoar”, ou “Tudo posso naquele que me fortalece”. Na grande maioria das vezes se repetiram os comentários sobre partidas de futebol, ou sobre acontecimentos que a televisão já havia mostrado.

Curiosamente não é difícil agrupar alguns comportamentos característicos:

Os que escrevem o que não se comentaria pessoalmente. Que postam fotos desabonadoras. Que compartilham piadas sujas sem qualquer pejo. Frases que não cabe nas bocas que anunciam o santo Evangelho saem dos teclados. Ainda estou tentando entender a frase: “Êta joguinho ruim! Se eu tivesse ido a igreja tinha ganhado mais”.

Os que postam muitas coisas seguidas. Tive de bloquear uns que todos os dias postavam seis, dez, às vezes, quinze coisas (!) sobre os assuntos mais diversos. Desde receitas de omelete até fotos bobas que eles achavam engraçadas. A impressão que eu tinha é de que eles não viam a hora de compartilhar algo. E eu pensava: onde arranjam tanto tempo (e tanta besteira)?

Os que usam para publicar coisas boas. Tive acesso a diversas bibliotecas e a diversas obras em domínio público. Novamente eu pensava: Como conseguem navegar por tantas partes?

Apesar das coisas boas, cheguei a conclusão que as redes sociais são um meio vil. Contém verdadeiras pérolas, mas perde-se muito em privacidade e em boa imagem dos amigos. Nos encontros físicos os vemos bem vestidos e perfumados. Lá eles se mostram como são na intimidade.

Saí.

Certo dia, após repreender uma de minhas ovelhas por uso de palavrões, um amigo dos amigos dela (que teoricamente não poderia me responder, já que a segurança do site não permite isso) entrou em minha página e postou uma foto pornográfica que não consegui apagar. Copiei-a. Mandei para as autoridades competentes. Para a empresa proprietária do site com uma reclamação. Mandei também para todos os meus amigos com uma explicação do que estava acontecendo e encerrei a conta.

Ganhei 4 horas para estudar, orar e aproveitar a companhia de minha família.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...