domingo, 29 de abril de 2007

A Palavra: no princípio e no fim

A Palavra dAquele que sempre existiu, sempre existiu também. Por proceder dEle, a metáfora que eles mesmos usam para darem-se a entender é a paternidade e a filiação. O Falante é o Pai. A Palavra é o Filho. E, apesar de a Palavra proceder do Falante, como um filho procede de um pai, o Falante nunca esteve só sem sua Palavra e sua Palavra sempre o acompanhou e sempre foi sua expressão. Todas as características do Falante sempre estiveram, estão e sempre estarão também em sua Palavra.

A Palavra nunca voltou para o Falante vazia. Pelo contrário, sempre fez o que lhe aprouve. Quando Ele quis que houvesse luz, bastou dizer “haja luz” e o dizer já era a Palavra e a Palavra do nada fez luz.

Impossível dissociar a Palavra do Falante. Impossível imaginar a Palavra sem o Falante. Mas, apesar de possuir tal companhia, em tudo semelhante a Si e sempre diante de Si, o Falante – só Ele sabe por que – resolveu Falar “sucessão e mudança”. A Palavra, incontinenti, criou o que chamamos de tempo. E, dentro de uma sucessão de tardes e manhãs – coisas próprias do tempo – conforme o Falante Falava, muitas mudanças ocorreram: As águas de cima – o firmamento – foram separadas das águas de baixo, que também foram separadas da parte seca: a terra.

Bastou o Falante falar “vida” e a Palavra povoou o firmamento, as águas e a terra de seres vivos adequados a esses ambientes. E, para reger a vida sujeita a “sucessão e mudança”, o Falante disse: “nossa imagem e semelhança”. Imediatamente a Palavra, do barro, fez o homem.

Tudo o que era feito trazia a marca da Palavra e conseqüentemente a marca do Falante, e os expressava como as palavras expressam aquilo a que se referem. Eram palavras menores. O homem, entretanto, expressava mais e melhor, pois sendo imagem e semelhança dEles não apenas vivia, mas compartilhava com a Palavra e com o Falante do mesmo Espírito que os unia e inseparavelmente estava com Eles desde sempre. Era uma palavra temporal maior. Como se fosse um eco da Palavra eterna, tinha em comum a mesma missão: criar, manter e reger, na “sucessão e mudança” aquilo que o Falante havia proferido.

Livre para dizer, sob as limitações do tempo, o que a Palavra eterna disse sem a limitação dele, preferiu dizer o oposto. Preferiu ter outro significado. Preferiu a efemeridade e contingência do ressoar do sino e do retinir do bronze.

Presumiu-se inalterável, apesar de alertada do contrário, e o que conseguiu foi esvaziar-se a si, e aos que regia, de seus significados originais. E, como passaram a desdizer a mensagem da Palavra eterna, o Falante também as desdisse.

Daquilo que tinham em comum com o Falante, guardaram muito pouco e, mesmo esse pouco, foi danificado: perderam a capacidade de expressar o Falante. Os trapos em que se tornaram passaram a ser expressão de sua própria rebeldia e de sua própria desgraça. Deixaram de ser ecos da Palavra eterna e encheram o mundo de ruídos sem qualquer significado que não a própria rebeldia.

Frustrariam os desígnios do Falante?

Se a Palavra eterna nunca voltou-Lhe vazia, acaso esses ruídos insignificantes continuariam a desafiar o Falante proclamando nas trevas – em que passaram a existir – sua própria rebelião em vez das virtudes dAquele que Fala desde sua maravilhosa luz? Não! Nunca! Jamais!

O Falante novamente falou. Falou ao ponto de abalar tudo o que já fizera e sua Palavra esvaziou-se de Si mesma e assumiu a natureza das palavras rebeldes. Não deixou de ser Palavra eterna, mas por poucas tardes e manhãs – coisas próprias do tempo a que agora estava sujeito – adquiriu o que restara de significativo das palavras efêmeras e rebeldes, e recebeu a desdita do Falante.

Ao retomar seu significado eterno, eternizou o que adquiriu e restaurou o significado daquelas que quis.

Tornou-se uma palavra temporal, para dar-lhes significado eterno. E deu-lhes. Tornou-se uma palavra temporal para mostrar o significado mau, soberbo e arrogante da rebeldia contra o Falante. E mostrou nas que não quis atribuir significado eterno.

Hoje as palavras que a Palavra eterna livrou da insignificância voltaram a significar aquilo para o que foram criadas. Não conseguem ainda ser como antes, pois, apesar de seu significado ter sido restaurado, sua forma ainda está danificada e nelas o ruído e a ambigüidade ainda se destacam.
Entretanto, dia-a-dia, ajudadas pela Palavra eterna, abandonando os significados errados, soberbos e arrogantes, de si mesmas ou do mundo, bendizem o Falante.

E, nas tardes e manhãs de um dia futuro – no tempo ou fora dele – bendirão melhor do que bendiziam quando foram criadas, pois, na companhia da Palavra eterna, louvarão o Falante no meio da congregação.

sábado, 21 de abril de 2007

Minha cruz

A cruz do Senhor era de madeira. O mesmo material com que ele trabalhava, e que estava acostumado a cortar em pedaços de tamanho adequado ao que pretendia fazer. Porém ele a recebeu inteira, no tamanho suficiente para suportar o peso de seu corpo.

Pregos fixaram o Senhor a cruz. Provavelmente ele também os tenha usado na fixação de um umbral ou das vigas mestras de um telhado. Naquela época os pregos eram caros e, feitos sob encomenda, demoravam a ficar prontos.

Hoje, enquanto leio este texto, penso na cruz que sou obrigado a tomar como discípulo do Senhor. Ela não é de madeira. Na maioria das vezes nem sei do que ela é feita, mas a reconheço prontamente. Nunca tive e nunca terei domínio tal sobre sua matéria de modo que eu possa cortá-la e com ela fazer algo que tenha outra serventia. Seu material parece ter sido feito exclusivamente para mim, e só serve para, pendurando-me, manter-me exposto ao escárnio de quem passa e me vê.

Hoje, sou fixado a essa cruz, por um único tipo de prego: a vontade Deus. Se ela não prevalecesse sobre a minha, há muito eu já teria descido da cruz.

O Senhor de todas as coisas foi mantido por pregos em uma cruz de madeira, mas ele estava livre de qualquer coação humana. Ficou nela porque quis: de boa-vontade, por mim.

Seu servo inútil, que sou, que sequer faço o que deveria fazer, quero distância de cruzes e pregos. Entretanto o Senhor, com terno amor, me mantém em uma – infinitamente menos dolorosa do que a que ele suportou voluntariamente – visando meu bem.

O Senhor suportou sua cruz até o fim. Quando pregado orou a favor de quem o pregava. Quando convidado ou desafiado a sair dela sequer dava ouvidos.

Seu servo inútil, que sou, à simples visão de minha cruz, debato-me, estrebucho, e às vezes pergunto: por que eu? Quando zombado envergonho-me. Quando convidado a sair dela alegro-me. Mas a cruz é meu refúgio. Lá não posso fazer meu próprio querer, não posso conformar-me à este século, e na cruz estou livre dos assaltos do inimigo.

Não fui crucificado para ser salvo, mas por que já estou salvo. Não fui crucificado como castigo, mas para minha proteção, pois não há local mais seguro.

Lá ficarei até que, mortificado, renda a Deus meu próprio eu e morra para tudo aquilo que hoje ainda me afeta e me subjuga. Então serei ressuscitado em glória, como meu Senhor o foi.

Estou em boa companhia: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”. Gl 2.20.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

ENSAIO - Educadores Cristãos

Educar é sempre um processo em que o educador se "engaja" com o bem do aluno. A forma como este engajamento acontece varia de educador para educador e de aluno para aluno. A Educação Cristã não é muito diferente. Porém, seu objetivo maior não é fazer com que cada aluno se "potencialize" ao máximo com vistas a seus próprios interesses, mas levá-lo a adequar-se cada vez mais à vontade revelada de Deus. Ou seja: a Educação Cristã não existe sem a Palavra de Deus, pois dela depende e para ela existe. Ela é seu ponto de partida e sua meta.

Fico satisfeito em dividir os Educadores Cristãos em apenas dois grupos, conforme a abordagem que eles fazem da Palavra de Deus. A variação que existe em cada um desses grupos acontece apenas na intensidade com que o Educador Cristão enfatiza seu modo de ensino

O primeiro grupo constitui-se daqueles para quem o mais importante é provar que a Bíblia é a Palavra de Deus. De certa forma eles não estão errados, mas, ao partirem da dúvida, geram em seus alunos um fruto amargo do qual eles jamais se livrarão sem o auxílio da graça divina.

Geralmente, após a leitura do texto bíblico ou do tema teológico ter sido proposto, a abordagem começa com o questionamento. Invariavelmente as perguntas visam a que o aluno tenha certeza de que aquilo de que se está tratando é relevante para sua fé e para a fé daqueles que um dia aprenderão dele. Ou seja: certificar-se de que ele não está perdendo tempo. Destaca-se:
- O que mais dá suporte ao ensino deste texto?
- Que implicações práticas esse texto tem para nossos dias?
- Como esse texto pode ser explicado à luz das novas descobertas científicas? (Note a ordem)
- Você está disposto a morrer por essa verdade?
- Esse ensino é mais precioso do que o papel que o contém? (geralmente aqui é apropriado degradar o volume bíblico, rasgando-o, jogando-o no chão, sentando-se em cima dele, ou coisas semelhantes que separem bem o continente do conteúdo, o significante do significado).

Os educandos ficam fascinados com a erudição do professor que achou suporte para todas as afirmações do texto, mostrou sua utilidade em nossos dias, discorreu sobre as novidades das ciências e da graça comum, comprometeu-se com a verdade e aprenderam que aquela verdade é tão transcendental que ela pode ser veiculada de qualquer forma, através de qualquer mídia, mesmo que seja a mais abjeta.

O segundo grupo tem abordagem oposta. Não está tão preocupado em provar que aquele texto é a Palavra de Deus, pois sabem que as ovelhas de Deus identificam sua voz. Entretanto não descuida de verificar a autenticidade histórica e formal do texto. Afinal, o modo mais eficiente de lutar contra as verdades cristãs não é negá-las, mas torcê-las.

Geralmente após o texto bíblico ter sido lido, ou o tema teológico ter sido proposto, faz-se um "recenseamento" dele. Como ele foi recebido, como nossos antepassados, especialmente os mais próximos dele, o entenderam, e, principalmente, como ele se encaixa, no ensino daquele escritor (se ele escreveu outras coisas) e no "ensino geral" das Escrituras (o que tecnicamente é chamado de 'analogia da fé').

Não degrada o veículo através do qual o texto chegou até nós, entretanto não lho adora. Simplesmente o respeita como o receptáculo e veículo daquela verdade.

Todas as questões levantadas por um representante do primeiro grupo estão contidas e automaticamente respondidas no apreço que se tem àquele texto ou ensino.

Geralmente estes professores não são tão cativantes, pois, acostumados em uma "sociedade da informação fantástica", seus alunos não vêem muita graça no processo que acabaram de testemunhar. Entretanto, como a chuva que nutre a planta, a Palavra do Senhor os faz crescer.

Qual dos sistemas é o correto? Depende do objetivo. Se o educador tem quer formar discípulos de si mesmos não há dúvida que o primeiro é mais eficaz. Mas, se quiser formar pessoas que levem os próprios pensamentos cativos para obedecer a Cristo, discípulos do Autor da Palavra, sábios, no sentido bíblico, terá de optar pelo segundo, pois "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria".

Em meus 16 anos como professor de seminário já recebi alunos que iniciaram seus estudos conforme o primeiro método. A poucos consegui transmitir o apreço e respeito devido à Palavra de Deus. O hábito da crítica e a barreira da desconfiança sempre foram obstáculos fortíssimos. Hoje a perspectiva fornecida pelos anos longe do Seminário me convenceu que o melhor é começar do zero. Se for possível.

sábado, 14 de abril de 2007

Os Inimigos da Cruz de Cristo

Será que alguém pode odiar a cruz de Cristo? Talvez ser-lhe indiferente. Mas, odiar? Infelizmente há quem a odeie, sim! Pior: nas Igrejas e muitas vezes são líderes delas.

Quando o Apóstolo Paulo escreveu à Igreja da cidade de Filipos disse claramente: “Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo” Fp 3.18.

Àquela época, parece que o Apóstolo tinha em mente seus patrícios que insistiam em exigir que os novos cristãos passassem pelo judaísmo, pois ele diz “o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia”, aludindo às leis alimentícias e à circuncisão.

Ainda hoje podemos ver os “que ... exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças” (1Tm 4.3). Entretanto, hoje eles apresentam uma face mais moderna.

Aos coríntios, que muito valorizavam o saber, Paulo expôs o Evangelho não com “sabedoria de palavra”, mas com “a palavra da cruz” para não anular sua mensagem.

Aos gálatas, que estavam sendo assediados por esses judaizantes, deixa claro que a intenção deles, impondo obrigações, era desviar a atenção do “escândalo da cruz”, e ostentarem-se na carne e não serem discriminados. Mas, ele, Paulo, não se gloriava em nada além da cruz, pois nela o mundo havia sido crucificado para ele e ele para o mundo.

Aos efésios, preocupados em como entender as promessas igualmente feitas aos judeus e gentios, Paulo garante que a cruz nivelou tudo. A tal ponto de que nela judeus e gentios foram reconciliados “em um só corpo com Deus”.

Aos colossenses ensinou que tudo o que devíamos a Deus, e nos prejudicava, desde a mais simples ordenança, que nunca conseguimos cumprir, Jesus encravou, pregou, (do mesmo modo como ele foi pregado) na cruz, expondo ao desprezo, triunfando sobre os rudimentos que nos mantinham debaixo de jugo.

Você entendeu? Se alguém ensinar, como é ensinado hoje, que é necessário, reencarnar-se, purgar pecados, deixar de comer isso ou aquilo, pagar tanto, ou guardar qualquer tipo de obrigação, para que ser salvo, tal pessoa é inimiga da cruz de Cristo, pois está fazendo sombra sobre ela: a maior de todas as coisas. Também está dizendo que ela não é suficiente. Zomba da sabedoria de Deus e faz pouco caso do sofrimento de Jesus.

É claro que obedecemos as ordens que o Senhor nos deu: evitamos pecar, observamos os períodos que ele mesmo estabeleceu para nos fortalecermos comunitariamente junto dele, arcamos com as despesas decorrentes disso, etc. Porém o fazemos porque já estamos salvos.
Fomos pendurados com ele naquela cruz. Somos amigos dela. Preferimos estar nela a desfrutar os maiores e melhores prazeres que o mundo nos ofereça fora dela.

Se o Senhor, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não levando em conta o quanto isso era escandaloso para os judeus e “idiota” para os gentios, acaso podemos recusá-la? Somos melhores do que ele? Temos vergonha de sua cruz? Somos inimigos dela?

Finalmente, tenho visto que para fugir desta vergonha os “neo-evangélicos” escondem-se atrás da “celebração da ressurreição de Cristo”. Tudo a pretexto de festejar e parecer mais agradável ao mundo, copiando suas músicas, seus shows, suas modas, até os chavões com que se apresentam e apresentam seus sucessos. Trocam o púlpito, onde a cruz é anunciada pelo palco onde é escondida nos bastidores ou estilizada nos cenários.

Dia desses recebi um convite cuja frase final resumia seu conteúdo: “Jesus fez tudo. Agora só nos resta celebrar”.

Deixem-me dizer claramente: nem a ressurreição aconteceria sem a cruz. Jesus tinha de morrer numa cruz. Se o inimigo tivesse conseguido matá-lo quando tentou (Herodes, os da sinagoga de Cafarnaum, ou através de qualquer outro modo que não a cruz), sua morte teria sido vã.
Ele tinha de morrer condenado por um tribunal religioso, o Sinédrio (pois assim estava sendo condenado por Deus no aspecto formal da religião), por um tribunal civil, pois assim estava sendo condenado por nós, e finalmente deveria receber a maldição divina que recebia todo aquele que ficava “pendurado no madeiro”.

Certamente, só seremos amigos da cruz de Cristo, quando dissermos e vivermos “CRUX SOLA NOSTRA TEOLOGIA”.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Os mais miseráveis de todos os homens

Quando o Apóstolo Paulo escreveu à Igreja de Corinto, ao falar sobre a ressurreição, coisa em que eles não criam, foi duro e disse: Se nossa esperança em Cristo limita-se apenas às coisas desta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. (tradução minha).

A Igreja de Corinto dizia-se cristã, como muitas hoje se dizem também. Possuía qualidades inegáveis, como algumas hoje também possuem. Tinha seus defeitos - como é próprio de qualquer ajuntamento humano - e, talvez, defeitos até mais graves do que os que são tolerados na Igrejas mais “modernas” de hoje: a presença de um incestuoso na comunidade.

Depois de exortações sobre cada um dos problemas, sua atenção volta-se para uma crença que, era uma verdadeira contradição de termos. Uma estupidez, e, pela única vez, nesta carta ele os chama de “insensatos”.

A palavra que ele usa é um pouco mais pesada do que nossas traduções deixam entender, pois também pode ser traduzida por “tolos ou ignorantes”. Seu sentido básico é “falta de capacidade de entender algo”. Não sei se poderíamos chegar ao vulgar “idiotas” ou “burros”, mas está muito perto disso.

Enquanto alguns dizem que Paulo perdeu a cabeça, ou a paciência, eu prefiro ver a mesma ira, expressa pelo Senhor Jesus quando expulsa os vendedores do templo a chicotadas.

Não era concebível que alguém que se identificava-se como “cristão” esperasse do Senhor apenas o que concerne a esta vida.

O raciocínio é tão simples que ignorá-lo prova a tal “falta de capacidade de entender algo”. Siga os passos do raciocínio:
1º Passo: Ser cristão, é o mesmo que dizer que Cristo ressuscitou, pois se ele morreu e continuou morto, o que foi que ele fez demais? O mundo não está cheio de mestres e mártires?
2º Passo: Se, como cristãos, diziam que Cristo ressuscitou, por que não acreditavam que ressuscitariam também? Afinal, ele ressuscitou pra que?
3º Passo: Se o destino do cristão é ressuscitar para estar junto de Cristo, por que a esperança deles estava limitada apenas às coisas desta vida?

Percebeu?

É uma contradição de termos dizer-se cristão e não esperar pela ressurreição.
O caso a seguir é verídico e exemplifica bem:

- Por que você veio à Igreja?
- Porque eu estava falindo e fiz um acordo com Jesus e hoje minha loja está crescendo como nunca.
- E a senhora?
- Eu estava doente e fui curada.

E assim seguiram-se muitas perguntas semelhantes no programa de rádio transmitido ao vivo.

Porém, uma senhora respondeu:
- vim para agradecer a Deus pela salvação em Cristo.
- Salvou de que? Perguntou o repórter.
- Salvou da morte eterna.
- Mas, não tem mais nada?
- Não.
- Não foi curada, o casamento não foi consertado? Insistiu.
- Não! Nunca fiquei doente e sou solteira.
- Então veio pedir um emprego?
- Também não. Meu pai me deixou uma herança boa e eu ajudo uma creche do meu bairro.

O repórter desconversou e procurou outra pessoa. Aquela não tinha nada fantástico para falar. Ela fora apenas salva. Ela tinha apenas a vida eterna.

Entendeu o que é limitar a esperança em Cristo apenas a essa vida?

Se ele quiser que sejamos sadios, prósperos ou que vivamos tranqüilos, ele certamente fará isto. Porém se não quiser já temos o mais importante: ressuscitaremos e estaremos para sempre com ele.

Não somos os mais miseráveis de todos os homens. Não temos de viver cada dia como se fosse o último dia de vida. Nossa vida não acabará nunca.

domingo, 1 de abril de 2007

As invasões de Jerusalém

Há 100 anos antes a Assíria tinha levado cativas as 11 tribos de Israel que formavam o Reino do Norte. Agora os Babilônios, que dominaram a Assíria, sitiavam Jerusalém. O cerco era total e já durava 1 ano e meio. Não fosse um aqueduto escavado na rocha já tinham capitulado.

A persistência venceu: fizeram uma brecha no muro e invadiram Jerusalém. Jeremias narrou que 7 príncipes da Babilônia entraram e sentaram-se à porta do meio.

Os homens de guerra e o Rei Zedequias fugiram à noite, mas foram alcançados. O Rei viu seus nobres serem mortos, em seguida seus filhos, e, para ficar como última imagem, furaram seus olhos e foi levado em algemas para a Babilônia.


Essa não foi a única vez que Jerusalém foi invadida. Mas, apresenta-nos um contraste notável com o que comemoramos hoje.

Diferentemente do cerco militar dos Babilônios, Jesus cercou Jerusalém de bondade. Curou, ensinou e pregou em todos os seus arredores e dentro dela. Testemunhou-lhes a vontade do Pai.

Revelou-lhes a verdadeira dimensão da lei. Criticou suas autoridades e limpou, por duas vezes, o templo em que havia de ser condenado, como condenados eram os cordeiros do sacrifício e concitou-lhes ao arrependimento.

Diferentemente dos Babilônios, não cobiçou suas riquezas, mas os encheu de oportunidades. Na verdade tornou a todos mais ricos e mais responsáveis por tesouros que sequer se deram conta de estar recebendo e muito menos entendiam a preciosidade deles: Ensinos profundos através de parábolas simples, discursos didáticos ou virulentos e milagres tão surpreendentes que um dos evangelistas registrou “hoje vimos paradoxos”.

Mas não entrou em Jerusalém pela força, muito menos em montaria de guerra. Não botou suas autoridades para fugir. Não matou seus nobres, nem cegou seu rei.

Que força poderia deter aquele que vem cumprir profecias que lhe diziam respeito? O que se pode esperar de alguém que elege um jumentinho para cavalgar até o lugar onde terríveis cavalos de guerra pisaram? Quem fugiria daquele cuja presença abalou e abalaria mais uma vez o céu e a terra? Quem seria tido por nobre diante daquele que, por possuir tudo, podia abrir mão do que quisesse desde o berço até a sepultura? Quem via nitidamente estas coisas? Já estavam cegos.

Cegos também estavam os que imaginavam que aquele homem montado em um jumentinho iria levá-los à vitória contra os invasores romanos.

A cegueira deles, entretanto foi alterada. Na sexta-feira, os que gritaram Hosana gritaram crucifica-o. Viram o próprio engano. Porém mais enganados ficaram. Mais cegos se tornaram. Sequer guardaram a imagem dos filhos sendo mortos. Gritaram: “caia seu sangue sobre nós e sobre nossos filhos”. Caiu.

Hoje, distanciados pelo tempo, vemos com clareza, mas não nos enganemos. A cegueira continua por perto.

Jesus não é nosso “chapa” e sim nosso Senhor. Chega a nós manso, mas exige nada menos que nosso coração. E aos seus pés há de se dobrar tudo o que existe.

É melhor fazermos isso hoje, para não sermos obrigados a fazer mais tarde.

Hoje, ouvindo sua voz, não endureçamos nosso coração.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Veredas da justiça

O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará.
Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma.
Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome.
Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam.
Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda.
Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre.


Excelentíssimos Senhores e Senhoras;
Conquanto nossa República seja leiga, tanto pela definição de seus diplomas legais, quanto pela sua total separação da Igreja, ou de quaisquer correntes religiosas, seus integrantes não o são. E, no administrar da “coisa-pública” fazem bem em buscar a fonte de todo o sistema de valores, que, não apenas moldou, como também expressa-se hoje no exercício da cidadania brasileira. Tal sistema tem origens remotas, mas bem definidas. Espero mostrar um pequeno vislumbre de tais origens.

Este texto bíblico, reminiscências de Davi, o segundo rei de Israel, mistura suas lembranças de como, quando adolescente, cuidava do rebanho de seu pai, com o que via Deus fazendo dia-a-dia em sua vida e com seu dever como rei para com seu povo: seu rebanho.
Não é difícil entender a necessidade que uma ovelha tinha de ser conduzida por seu pastor à águas calmas ou a pastos verdes. Porém quando ele declara “refrigera-me a alma” não há dúvidas que ele não está mais referindo-se ao ovino, mas a si próprio e à seus súditos. Entretanto, o que nos interessa, em um momento como este, é a declaração “Guia-me pelas veredas da justiça”.

O conceito de justiça daquele tempo não era, em quase nenhum de seus muitos aspectos, idêntico ao de hoje.
Os julgamentos eram realizados pelos anciãos da comunidade às entradas das mesmas, e apenas os casos mais graves eram remetidos a um foro principal composto de 70 anciãos que representavam as 12 famílias originais.
A Justiça era essencialmente retributiva: a um dente correspondia outro, bem como a um olho ou a uma vida. Não possuíam cárceres e o cerceamento do direito de ir e vir, como penalidade, foi introduzido séculos depois destas palavras pelo império romano. Também, não possuíam carrascos: a própria comunidade exigia o cumprimento da pena e se fosse a morte era a própria comunidade que a aplicava pelo apedrejamento distribuindo a todos o dever de extirpar o mal e a responsabilidade pela aplicação do castigo. Obviamente, as chances de um erro capital eram proporcionais às condições sócio-culturais. E a reversão de tal erro era nula. Daí a justiça ser tão importante como a água, a comida e o refrigério da alma.

Por experiência própria este rei sabia o quanto a justiça é fugidia. E dentre as muitas palavras de que dispunha para apresentá-la, ele escolhe “veredas”.
Mais do que uma picada na selva fechada, menos do que um caminho, as veredas costumam desaparecer nos lajões de pedra, nos alagadiços e no areal dos desertos.
Não é assim?
Nós pais, que conhecemos a índole, e, muitas vezes, as intenções de nossos filhos, não ficamos em dúvida quando precisamos fazer juízo sobre seus atos? Nós, pastores do Rebanho do Senhor, também não ficamos em dúvida sobre determinadas atitudes das ovelhas que Deus colocou sob nosso cajado?
E os Senhores, excelentíssimos magistrados? Porventura nunca ficaram em dúvida sobre a correspondência entre os registros e fato real? Tais dúvidas decorrem da justiça andar por veredas. Ela relega as auto-estradas. Relega os caminhos planos e impõe-se como desafio aos mais hábeis em achá-la.

Qualquer pessoa pode desempenhar o nobre ofício que lhes pesa às costas? Não é necessário o treino extenuante dos estudos, a busca incessante das experiências alheias registradas na jurisprudência? Não é imprescindível a própria experiência?
Achar a “vereda da justiça” não é tarefa que se designe a qualquer um, por mais bem intencionado que seja. Achar a “vereda da justiça” torna-se menos árduo para aquele que é guiado por Deus, pois o principal interessado nela tem como uma de suas tarefas “guiar pelas veredas da justiça”.

Embora esta Procuradoria não seja uma sala de julgamentos, ela é assentada sobre os fundamentos da justiça. Fundamentos que transcendem a história e cultura de nossa República. Fundamentos que estão além da mais antiga legislação da mais antiga civilização. Fundamentos que retratam um dos atributos do “Juiz de toda terra”. Aquele mesmo que se preocupa em mostrar as “veredas da justiça” e conduzir por elas.
Como cidadão brasileiro, desejo de todo coração e como ministro do Santo Evangelho, peço ao Juiz da Instância Eterna, que esta seja a função primeira e fim último desta casa.
(Sermão pregado em 26/3/2007, por ocasião da Solenidade de Inauguração da Sede da Procuradoria da República no Município de Governador Valadares)

quinta-feira, 15 de março de 2007

Conspiração e a Cruz do Senhor

Dando continuidade ao que já vimos no Boletim passado vejamos mais este aspecto.

Outro pecado cuja conseqüência direta foi a cruz de nosso Senhor foi “o conspirar”. Por falta de uma palavra melhor usarei essa com o seguinte sentido: ajuntamento para fazer o mal usando as prerrogativas do ofício que cada um exerce.

A ressurreição de Lázaro foi “a gota d’água” para os líderes religiosos judaicos, pois, mesmo após tão grande sinal, eles, reunidos, deixaram claro qual era, na verdade a maior preocupação que tinham: “Muitos, pois, dentre os judeus que tinham vindo visitar Maria, vendo o que fizera Jesus, creram nele. Outros, porém, foram ter com os fariseus e lhes contaram dos feitos que Jesus realizara. Então, os principais sacerdotes e os fariseus convocaram o Sinédrio; e disseram: Que estamos fazendo, uma vez que este homem opera muitos sinais? Se o deixarmos assim, todos crerão nele; depois, virão os romanos e tomarão não só o nosso lugar, mas a própria nação”. (João 11:45-48).

A conspiração chegou ao mais alto nível. Saiu da “roda dos descontentes” e chegou ao Sinédrio.

O Sinédrio era a corte suprema dos judeus. Era o remanescente daqueles 70 homens que foram nomeados por Moisés, ainda no deserto, para ajudá-lo a julgar casos menores. Porém, nos dias de Jesus, eles tinham a última palavra nos casos mais difíceis. Eram a corte suprema de Israel.
Reuniam-se nas dependências do templo e estavam sujeitos a ritos processuais bem claros. Por exemplo: Não podiam fazer julgamentos noturnos. Não podiam sentenciar no mesmo dia do julgamento (só depois de uma noite de “consulta ao travesseiro”). Não podiam condenar alguém com base em sua própria confissão, mas apenas em vista do depoimento de, pelo menos, duas testemunhas.

Todos esses preceitos, e mais alguns, que não vêm ao caso, extraídos do Velho Testamento, foram desprezados no julgamento de Jesus.

Ele foi preso pela guarda do templo na quinta-feira à noite e, imediatamente após ser torturado, teve início seu julgamento. E ainda na mesma noite foi dada a sentença, que teve por base a sua própria confissão de “ser o Filho de Deus”, extraída sob conjuro pelo Deus Vivo feito pelo Sumo Sacerdote: a maior autoridade à qual um judeu estava sujeito.

Outro dispositivo processual interessante determinava que a condenação à morte mediante o voto de metade mais dois juízes. Parece que o silêncio indicou unanimidade da corte embora fizessem parte dela José de Arimatéia e Nicodemos.

Na realidade não houve um julgamento. A conspiração, e os interesses escusos, contribuíram para esse simulacro. Tanto é que para manter as aparências reuniram-se bem cedo de manhã para formalizar o que já havia sido decidido à noite, e o entregaram a Pilatos já julgado e apenado.

Quando Pilatos constatou que, à luz da justiça comum, havia uma disparidade muito grande entre a falta e a pena, trataram de acusá-lo de outro crime, que aos olhos romanos era mais grave: rebelar-se contra César.

A conspiração permeia todas as instituições humanas em maior ou em menor grau, pois ela é o sintoma de um coração mais propenso à maldade do que ao reto juízo. Ela está presente até mesmo na vida familiar e mostra, sem nuances, como o coração do homem está distorcido.

Via de regra a conspiração tem início com a murmuração, tão condenada nas Escrituras e tão detestada por Deus.

Tanto a murmuração, quanto a conspiração crescem no anonimato e são excelentes ambientes para o cultivo da mentira e da covardia.

Fujamos dela lembrando as palavra do Mestre: “que a tua palavra sim signifique sim, e a tua palavra não signifique não”

sábado, 10 de março de 2007

A inveja e cruz do Senhor

... por inveja, o tinham entregado.

Segundo as Escrituras a morte de Jesus teve diversas causas: “Jesus, o Nazareno, ... entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (At 2.22-23).

Primeiramente ele foi morto pela vontade de Deus. Porém, de forma misteriosa, houve a concorrência humana. E tal aconteceu sob diversos aspectos. Os principais foram: inveja, conspiração e traição.

É muito difícil dissociá-los, mas, analisando os autores principais de cada um desses pecados, podemos vê-los com um pouco mais de nitidez.

O terceiro ano do ministério terreno do Senhor foi muito penoso. Os estudiosos geralmente o chamam de “o ano da oposição”. O povo já não estava tão feliz com ele. Seus milagres, cada vez mais, exigiam uma postura do beneficiário e sua repetidas recusas de liderar um levante contra os romanos, desiludiram a muitos.

Há diversos invejosos que contribuíram para a morte do Senhor. Por exemplo, Judas.
Quando Maria ungiu os pés do Senhor na casa de Lázaro, Judas reclamou do desperdício de um perfume tão caro que poderia ser melhor empregado no auxílio aos pobres. João nos informa: “Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava”. Jesus o repreendeu e Marcos diz que logo após ele “foi ter com os principais sacerdotes, para lhes entregar Jesus.”

Porém a inveja é vista mais claramente nos principais sacerdotes e nos anciãos e atestado por Pilatos. Veja:
“E, sendo acusado pelos principais sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu ... Ora, por ocasião da festa, costumava o governador soltar ao povo um dos presos, conforme eles quisessem. Naquela ocasião, tinham eles um preso muito conhecido, chamado Barrabás. Estando, pois, o povo reunido, perguntou-lhes Pilatos: A quem quereis que eu vos solte, a Barrabás ou a Jesus, chamado Cristo? Porque sabia que, por inveja, o tinham entregado.”(Mt 27.12,15-18).

A inveja, desde a antiguidade, foi classificada por muitos sábios como o “vício burro”, pois dele nada se tira: “Nem mesmo o prazer pecaminoso” diziam. Nosso Senhor e Mestre nos ensinou que a inveja procede do coração e contamina o homem. Do mesmo modo que um judeu de então tornava-se religiosamente impuro se comesse com as mãos por lavar, hoje “estaremos religiosamente impuros” se, em lugar do Espírito Santo, a inveja for a “força motriz” de nossos corações.

Característica notável dos homens dos últimos dias, a inveja é uma das expressões da ira de Deus que está sendo derramada sobre a humanidade idólatra. Veja o primeiro capítulo da Carta de Paulo aos Romanos.

A ação da inveja é tão impressionante que leva o invejoso até mesmo a proclamar o Evangelho. Não o relatou Paulo aos Filipenses? E Tiago, o irmão do Senhor, sentenciou: “onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins” (Tg 3:16).

A inveja contamina e corrompe, sem qualquer comparação, as relações humanas. Por inveja, difama-se, rouba-se e mata-se. Inclusive o Filho de Deus.

Como pastor, eu já vi a inveja destruir amizades, famílias e até dividir Igrejas. Conheço Igrejas cujo início se deu sobre sentimentos invejosos.

Considerando o quão nefasto é este pecado, e vendo que foi, e será o responsável direto pelas piores atrocidades do homem, é nosso dever nos empenhar cada vez mais para que ele não mova nem domine nossos atos.

Que Deus nos ajude.

sábado, 3 de março de 2007

"Comércio de nós"

Anunciaram ter achado um caixão com os ossos de Jesus.

Pronto! Não se falou de outra coisa durante dois dias: entrevistaram arqueólogos, estudiosos, religiosos ...

Basta aproximar-se o Natal ou a Páscoa que tudo se repete. Você se lembra em que época divulgaram o evangelho de Judas? Já reparou nos assuntos que a imprensa veicula nessas ocasiões?

É sempre a mesma coisa: estamos a menos de 40 dias da semana-santa, por que este ano seria diferente?

Este é outro aspecto das Escrituras Sagradas: “movidos por avareza, farão comércio de vós” (2Pe 2.3).

Comércio mesmo! Eu ficaria surpreso se não aproveitassem essas datas.

Não me surpreenderia se aparecesse algum “Diário de Caifás” contando os bastidores do julgamento de Jesus. Que editor não o publicaria?

Imagine o estardalhaço se aparecesse um texto de uma mulher, ou de uma criança, nascida na casa vizinha a de Jesus?

Alguns de nós, de tão acostumados, já nem percebem: Quantos livros foram escritos propondo uma revisão na história?

Quantas Bíblias foram editadas propondo uma nova abordagem dos acontecimentos? Já vi nas livrarias Bíblia de Promessas (como se a maior parte do texto canônico não fosse de advertências), da Criança, da Mulher, do Executivo ... Mas a “Bíblia do Mendigo” dificilmente será editada. Quem vai comprá-la?

Também não me surpreenderia com um DVD - agora mais acessível - da mesma cantata, que já foi gravada em vinil, em CD, em VHS, e dada como brinde a quem assinou uma revista de fofoca.

Nem me assustaria se os novos evangélicos, que foram destaque no último carnaval, apresentando algum show, ou coisa semelhante, com a promessa de que seu filho curtirá melhor a “mais fantástica história cristã”.

Essa é a natureza do comércio: adaptar-se a qualquer situação para tirar lucro dela.

O Natal foi e a Páscoa receberam já símbolos e praxes que apelam diretamente ao consumo: o Papai Noel, o Ovo e outros tantos. Precisam de novos a fim de que novos ramos comerciais participem, ou, no mínimo, chamar a atenção para a data. Isso é função da imprensa, que acaba comercializando também assuntos tão pertinentes quanto um ovo de coelho feito de chocolate é para a páscoa.

Chega!

Nunca respeitaram e não será agora que respeitarão o Senhor Jesus.

A última semana do Senhor, para nós, transcende a todas essas sandices. Ela representa de modo condensado toda extensão de seu ministério. Fala de desilusão, perseverança e vitória.

Desilusão dos coitados, arraigados neste mundo, interessados em milagres, ou em um pedaço de pão.

Desilusão de israelitas sinceros que aguardavam a restauração do Reino de Davi, sem sequer imaginar uma restauração espiritual.

Desilusão semelhante a que houve no monte da transfiguração, quando, de tão maravilhoso, se desejava ficar acampado ali, sem pensar nas trevas ameaçadoras lá de baixo.

Fala-nos também de perseverança em realizar a vontade de Deus apesar de amigos e de inimigos, de circunstâncias favoráveis ou da adversidades. Apesar de uma cruz.

Mas a semana termina em vitória. Não em uma cruz, e sim em um túmulo. Vazio.

E esta semana nos mostra tanto a justiça como o amor de Deus , pois justiça e amor levaram Jesus à cruz mas não o retiveram no túmulo, “Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles. Pois, tanto o que santifica como os que são santificados, todos vêm de um só. Por isso, é que ele não se envergonha de lhes chamar irmãos, dizendo: A meus irmãos declararei o teu nome, cantar-te-ei louvores no meio da congregação. E outra vez: Eu porei nele a minha confiança. E ainda: Eis aqui estou eu e os filhos que Deus me deu”. (Hb 2.10-13)

Esqueçamos os “atrativos” que o comércio nos propõe e mantenhamos firmes nossa fé. Ela não pode ser comercializada: é impagável.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Duas Comissões

Voltamos do acampamento de carnaval com ânimo novo. Lá nos divertimos e descansamos, mas também pensamos sobre a Palavra de Deus e sobre nossas responsabilidades.

Seria difícil dizer o que falou mais ao meu coração, porém, de tão oportuna, vale a pena registrar, para os irmãos que não puderam ir, uma das palestras feita pelo Rev. Carlos del Pino, baseada no texto da grande comissão conforme foi registrado por Mateus.

Ele chamou nossa atenção para a posição em que o relato do suborno da guarda do túmulo de Jesus está colocado.

Abra sua Bíblia e veja: é o último capítulo. Nos 10 primeiros versículos Mateus conta como se deu a ressurreição de Jesus. Na última porção do capítulo Mateus narra o encontro de Jesus com os 11, e o que conhecemos como a “Grande Comissão”.

Porém, entre a ressurreição do Senhor e sua Comissão, os guardas, sem que ninguém os mande, vão avisar as autoridades judaicas que ele ressuscitara.

Esses dois anúncios da ressurreição do Senhor podem ser contrastados sob diversas formas:

1. O Anúncio da ressurreição do Senhor pelos guardas corresponde em um primeiro aspecto ao mesmo anúncio feito pelas mulheres, mas em um segundo aspecto corresponde também à mensagem central da Igreja de então: “...davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus”.

2. Ninguém ordenou que os guardas anunciassem a ressurreição do Senhor. A Igreja, porém, recebeu tal ordem, e depois da diligência inicial, foi preciso sofrer perseguição para sair mundo afora.

3. Era de se esperar que os guardas fossem anunciar a seus oficiais superiores, não às principais autoridades religiosas judaicas. Mas, isso seria uma confissão de dever não cumprido - cuja penalidade era a morte - e avisando aos mais interessados na derrota do Mestre, eles além de fazerem uma ameaça velada de tornar pública sua vitória sobre a morte, vislumbravam alguma recompensa para ficarem calados.

Duas formas de se anunciar a mesma verdade. Uma em obediência ao Senhor. Outra por “sórdida ganância”. Uma sofrendo pela verdade. Outra, esperando, firmemente a menor desculpa, para contar uma mentira.

Francamente, tenho visto com grande regularidade a “grande comissão do guardas”, mas peço a Deus, de todo coração que ele não nos deixe quietos. Pelo contrário, apesar de tantos falsos divulgadores do Evangelho, não deixemos de cumprir a verdadeira Grande Comissão do Senhor.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Inversão de valores

A morte do garoto João Hélio trouxe a tona medo, revolta, idéias sobre penalidades mais severas, mas não uma discussão sobre o papel do Estado como “Agente Vingador de Deus”.

Hoje o Estado é o que “O Legislador” determinou. Entretanto, “O Legislador” representa quem o elegeu e carrega em si seus valores ao ponto de vermos nas casas legislativas, em escala menor, tanto as mazelas como as qualidades de seus eleitores.

Temos de considerar também que “O legislador” não é um só, e sim a mistura de um número enorme de interesses, desde os mais nobres aos mais escusos, desde os mais sensatos aos mais casuísticos.

Portanto, o que ele produz reflete tanto o que ele é quanto o que seus eleitores são. E na luta para agradar “gregos e goianos”, nada mais normal do que buscar uma legislação mais neutra possível, mais isenta de valores religiosos que se consiga, pois nem todos os eleitores são religiosos e, além do mais, é melhor não ferir religião qualquer.

O problema é que todos os nossos conceitos, mesmo os que pareçam menos religiosos, são frutos de uma sociedade formada dentro de valores religiosos cristãos. E, um dos valores do cristianismo, por exemplo, é a “não vingança”.

Hoje dizemos que esta é uma das marcas de uma sociedade avançada, onde reina a justiça. Porém, é um valor cristão.

Mas infelizmente paramos aí - não vos vingueis - enquanto a instrução total é: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12.19).

Ou seja: Deus reivindica para si a administração da vingança. Mas, paradoxalmente, a delega ao Estado: “Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus. Por isso quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. Porque os magistrados não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas para os que fazem o mal. Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela; porquanto ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador em ira contra aquele que pratica o mal”. (Rm 13.1-4).

Esse texto foi escrito quando Nero estava no poder, que conquistou através dos meios mais escusos que se possa imaginar. Porém ele “vinha de Deus”, “foi ordenado por Deus”, “era ministro de Deus” e não trazia a espada por enfeite.

Esta instrução do Novo Testamento é rejeitada porque Nero matou muitos cristãos, que fizeram o bem e não “tiveram louvor dele”. Mas isso não anula o princípio. Como governante mau ele prestou contas a Deus e seus próprios erros serão vingados por Deus em atendimento as orações dos mártires que clamam por vingança, mesmo acolhidos debaixo do trono divino (Veja Ap 6.10).

A aplicação da justiça, pura e simples – para um olho, um olho; para um dente, um dente; e para uma vida, uma vida – não é sinal de barbárie, mas de obediência a Deus. O Estado não pode eximir-se deste papel, pois é sua obrigação.

Hoje, como cidadãos modernos, não falamos mais em vingança, mesmo que Deus tenha estabelecido um vingador. E, refletindo nossa vontade “O legislador” isentou o Estado dessa obrigação: a quem Deus determinou a missão de vingador transformamos em educador.
Resultado: 1) o crime fica impune, 3) a ressocialização não ocorre, e 3) a família, que recebeu a missão de educar, as vezes, age como vingador.

Tenho consciência de que esse assunto é muito mais complexo. Porém, do mesmo modo que Deus proíbe que nos vinguemos, e nos obriga a preparar nossos filhos para viver em sociedade, proíbe ao Estado deixar impune o criminoso.

Essa morte tão bárbara nos alerta a educar melhor nossos filhos e ao Estado a não abrir mão de sua obrigação.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

A que compararei o Reino de Deus?

No segundo ano de seu ministério o Senhor, ensinando através de parábolas, pergunta: “A que compararei o Reino dos Céus? A que é semelhante?”

Não é uma pergunta retórica – daquelas que se faz quando se quer ouvir uma determinada resposta – e sim a dificuldade de expor realidades espirituais para quem nasceu e continua em pecado, em rebelião contra Deus.

Como haveriam de entender se os olhos estavam cegos, os ouvidos surdos e o coração endurecido? Era preciso recobrar-lhes a vista, restaurar-lhes a audição e falar-lhes ao coração. E a voz que disse “haja luz” e houve luz, passa a apresentar o que ele mesmo chamou de “mistérios do Reino”: seu Espírito Santo levará a mensagem dos ouvidos ao coração de cada ovelha de seu Rebanho: aquelas que ouvem sua voz e o seguem.

Um dos mistérios do Reino é ter aparência fraca como a semente ou como o fermento. A semente de mostarda. A menor de todas. Porém, forte bastante para brotar sozinha, sem que o semeador saiba como. Forte também para se tornar a maior de todas as hortaliças e suportar aves em seus galhos. Explicando, ele diz que a semente é a Palavra de Deus.

O fermento sempre em pitadas, no entanto leveda a tudo com que entra em contato.

Outro mistério é ser altamente desejável para os que o conhecem. Como um tesouro escondido no campo, ou como uma pérola de grande preço.

Outro mistério ainda é ser como uma rede de pesca, que a tudo pega, porém, assim como a semente, jogada nos quatro tipos de campo, só vingou em dois e só frutificou em um, assim também apenas alguns peixes são selecionados.

Aproximando-se da morte e sendo cada vez mais questionado, as parábolas, através das quais o Senhor falava do Reino dos Céus, ganham cores mais fortes. Passam a falar de perdão e recompensas no Reino.

Em uma o Reino dos Céus é comparado a um rei que resolveu ajustar as contas com seus servos. Como não podiam pagar perdoou-lhes as dívidas. Mas em seguida toma vingança do que lhe devia mais e que se recusava a perdoar uma pequena dívida de um conservo.

Noutra, compara o Reino dos Céus a um “dono de casa” que sai de madrugada, na metade da manhã, ao meio dia, na metade da tarde e ao entardecer, e contrata trabalhadores para sua vinha. Aos contratados de madrugada prometeu um denário, aos demais prometeu o que for justo. Entretanto, para o desapontamento dos primeiros que esperavam mais, ele pagou a todos igualmente.

E, por fim, as cores fortes assumem ares dramáticos quando ele passa a falar de castigo. Compara o Reino dos Céus a um rei que celebrou as bodas de seu filho, que, indignado com o pouco caso que os convidados fizeram de seu convite e do tratamento dado a seus servos que levaram o convite, enviou suas tropas, exterminou a todos e queimou-lhes a cidade.

Mas o desfecho, a última parábola, registrada por Mateus, sobre esse assunto, compara o Reino dos Céus a dez virgens, que saem para encontrarem-se com o noivo. Cinco delas, prudentemente, levam suprimento de reserva para suas lâmpadas e à meia-noite encontram-se com o noivo, enquanto as outras cinco, néscias, procuravam azeite para suas lâmpadas que se apagavam.

De tão rico o Reino dos Céus, só pode ser descrito, em seus muitos aspectos àqueles que esperam por ele. Que anseiam por ele. E mesmo para esses, o Reino é mostrado por figuras. Figuras que vão de sua formação, como a semeadura, até sua consumação: o castigo dos que desdenharam dele e o encontro dos súditos prudentes com o rei.

Semelhante a muitas coisas que conhecemos, mas diferente de outras tantas. Principalmente daquilo que gostaríamos que ele fosse. Pois, afinal, o Reino dos Céus não é uma democracia, onde os governantes são tão bons quanto seus governados e refletem suas peculiaridades e mazelas.

O Reino dos Céus, que já está presente no coração de seus súditos, ainda não se manifestou visivelmente a todos. Questão de tempo. Logo ele se manifestará.

Nos preparemos para recebê-lo.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Obras de justiça

No boletim de domingo passado, comparando os dois sermões de nosso Senhor, precisei usar a expressão, “obras de justiça” para esclarecer as palavras do Senhor a respeito de oração, jejum e esmolas.

Os judeus conheciam justiça como conhecemos hoje. Ou seja: agir de modo igual quando diante de opções iguais e agir de modo diferente quando diante de opções diferentes. Conheciam também os diversos “níveis” em que isso ocorria.

O nível formal, equivalente ao que hoje chamaríamos de justiça comum, se dava mediante reunião dos mais velhos à porta da cidade: o local mais público, onde todos eram obrigados a passar.

Você se lembra do marido da mulher virtuosa do Livro dos Provérbios? Ele se assentava com os anciãos à porta. Isso quer dizer que ele era um dos juizes da comunidade em que vivia.

Julgavam as questões triviais e as flagrantes. Quando o caso era mais difícil enviava-se ao Sinédrio – órgão originado naqueles 70 homens que ajudavam Moisés e que condenou o Senhor à morte – que funcionava no dia-a-dia com 21 membros, mas em caso de pena capital demandava quorum sobre os setenta.

Já o nível informal era muito semelhante ao que conhecemos e exercemos hoje: pais julgando queixas de filhos, chefes de subalternos, etc.

Porém havia um aspecto, mais antigo, que também era chamado de justiça, para o qual não temos paralelo hoje. Foi a ele que o Senhor se referiu.

Para o judeu daqueles dias, o que hoje chamaríamos de exercer cidadania era o mesmo que “justiçar” a sociedade. Justiçar no sentido de torná-la mais justa, de corrigir suas injustiças. Um pouco menos abrangente do que o conceito cristão de justificação, mas já relacionado.

Essa idéia fica mais clara quando vemos o caso de Abraão: “Acaso destruirás o justo com o ímpio”? Ele pergunta ao SENHOR. Após longa barganha o SENHOR lhe declara que pouparia Sodoma e Gomorra se lá houvesse 10 justos. Parece que só havia o “justo Ló” (como é chamado por Pedro) e a destruição foi total.

Dentro do conceito judeu, portanto, as obras de 10 justos, aos olhos de Deus, valiam mais, eram mais importantes, suplantavam, do que os pecados de cidades como essas.

Muito provavelmente tenha sido nessa experiência que se estabeleceu o "Minnian", quorum necessário a qualquer reunião religiosa judaica, que foi reduzido por nosso Senhor quando declarou que estaria presente onde houvesse 2 ou 3 reunidos em seu nome.

Mas, voltando ao assunto; para o judeu, portanto, orar, jejuar e dar esmolas era algo que aumentava o “grau de justiça” de uma comunidade diante de Deus. Eram obras de justiça.

Ora, a advertência de nosso Senhor ganha outro relevo quando notamos que todos os que faziam questão de “exercer justiça” diante dos homens, na verdade estavam louvando-se a si próprios ao deixarem subentendido que Deus ainda tolerava aquele lugar devido as obras de justiça que eles praticavam. Daí a ordem para fazê-las em secreto.

Entretanto, as palavras do Senhor não são apenas para judeus. Seu sermão exprime a vontade do Pai para todos. Porém ele próprio é quem atribuirá justiça, redimindo a criação com o sacrifício de si mesmo.

Isto serve-nos de consolo, pois jamais, por mais puras que sejam nossas devoções, ou “atos de justiça” jamais justificaríamos, diante de Deus, sequer a nós mesmos, quanto mais a comunidade em que vivemos. Porém, torna-se interessante saber que, ao fazermos o que hoje chamamos de hora devocional como louvor secreto ao nosso Pai Celeste, estamos imitando o Senhor como filhos amados.

domingo, 28 de janeiro de 2007

Do monte ao templo

Durante seu ministério nosso Senhor encontrou-se com os mais variados tipos de pessoas, e o evangelista João disse que “não precisava de que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem, porque ele mesmo sabia o que era a natureza humana.”

Um dia, cercado de gente, subiu para uma posição mais alta da encosta do monte em que estavam, e ali mesmo, ao ar livre, mostrou quem são os súditos de seu reino.

Primeiramente os caracterizou como bem-aventurados por serem humildes de espírito, por chorarem, serem mansos, sentirem fome e sede de justiça, serem misericordiosos, serem limpos de coração, pacificadores e perseguidos por seus “atos de justiça”. Não obstante, como o sal e a luz, influenciam sem serem influenciados.

Em segundo lugar, mostrou a que lei estão sujeitos: à que é mais estável e duradoura do que os céus e a terra e está escrita nos corações: Eles sequer pensam em matar ou adulterar ou dizer sim quando querem dizer não. E, como imitadores de Deus, fazem o bem a seus perseguidores.
Em terceiro lugar, descreveu seus “atos de justiça”: Jamais dão esmolas, oram ou jejuam para que os outros vejam. Fazem-no em segredo, e este segredo também louva a Deus.

Em quarto lugar, relacionou o que eles não fazem: não juntam tesouros sobre a terra, não andam ansiosos pela própria vida, não julgam temerariamente, nem desperdiçam os dons de Deus com quem desdenha deles.

Em quinto lugar, sucintamente, disse o que eles fazem: gastam-se em oração, preferem o caminho estreito de Deus e acautelam-se dos falsos profetas.

E, finalmente, constroem suas vidas sobre estes ensinos.

Tempos depois, no templo, próximo da morte, rodeado por muitos inimigos, ele substituiu as “bem-aventuranças” por “ais”.

Dirigindo-se aos escribas e fariseus, do mesmo modo que caracterizou seus súditos pela fronte (a fé, ou doutrina em que crêem) e pela mão direita (a ética, ou prática do dia-a-dia), passa a caracterizá-los como súditos de outro reino: o reino das trevas. Ai deles, pois:

Trocaram a bem-aventurança diante de Deus pela admiração diante dos homens. Dizem o que os outros devem fazer, mas, eles mesmos, não fazem. E, se porventura fizerem, fazem com o objetivo de “serem vistos pelos homens”, pois amam os lugares de destaque, e serem exaltados.

Tomaram nas mãos – como se pudessem – o reino de Deus. Não entram nem deixam entrar.

Exploram os carentes usando o engano das orações compridas e pomposas.

Fazem missões em países distante, mas ensinam o erro que leva duas vezes mais rápido ao inferno.

Garantem que respeitam a Deus. Entretanto desrespeitam o que é consagrado a ele.

São dizimistas fidelíssimos, mas negligenciam a justiça, a misericórdia e a fé. Coam mosquitos e engolem camelos.

Preocupam-se mais com a aparência de santidade do que com uma vida realmente santa.

Não perdem uma oportunidade de homenagear ou bajular, mesmo que isso mostre seus erros.

No monte, os que nada são aos olhos do mundo. Mas, como são cidadãos do reino de Deus, não fazem sua própria vontade. Constroem suas casas sobre a pedra.

No templo, os que recebem a admiração do povo pois sabem como enganá-los com a belas casas construídas na facilidade da areia, conforme a própria vontade.

Se não conseguem fugir do olhar penetrante de Deus como escaparão “da condenação do inferno”?

Ai deles!

domingo, 21 de janeiro de 2007

Continuaremos calados?

Recebi, juntamente com diversos pastores, um texto escrito pelo Pastor Batista Isaltino Gomes em que ele se mostra espantado com o "silêncio sepulcral" dos evangélicos brasileiros, frente à prisão do apóstolo e da bispa.

Ele tem razão. Estamos errados em ficar calados.

Tempos depois de fundada pelo Apóstolo Paulo, a Igreja de Éfeso recebeu do próprio Senhor, através da pena do Apóstolo João, uma carta com a reclamação: “esqueceste o teu primeiro amor” e uma ordem: "levanta-te de onde caíste, arrepende-te e volta a prática das primeiras obras". A mesma carta, continha também alguns elogios, e, dentre eles, um se destaca: “puseste a prova os que a si mesmo se declaram apóstolos e não são, e os achastes mentirosos”.
Será que nós, evangélicos brasileiros, estamos em pior situação do que a Igreja de Éfeso? Será que a um elogio como este fazemos jus?

Por que razão ficamos calados diante dos absurdos soltos em nosso meio? Vendem fronhas ungidas que garantem sonhos proféticos, o direito de se trocar de anjo da guarda, kits de beleza da rainha Ester. O que mais? Há fim nessa lista?

Não foram práticas como essas que geraram 7 malas cheias de dinheiro (afinal, em que deu isso?)? Não foram esses absurdos que levaram às práticas pelas quais, agora, o outro ministro de Deus, seu vingador, o magistrado civil, ameaça com prisão? Mas, principalmente, não foi por coisas semelhantes que nossos irmãos do Século 16 resolveram protestar?

Diriam em contrário: “Mas hoje ainda se vê em tais lugares vestígios do Evangelho de Cristo”. Também se via na igreja do século 16, não obstante nossos pais não se conformaram nem ficaram calados.

Diriam ainda: “Eu tenho amigos lá e lá estão meus filhos”. Mais uma razão para falar, pois nossos mais queridos estão sendo enganados com nossa conivência silenciosa.

Ousemos discordar. Não sejamos coniventes com o erro. Mais importante do que o evangélicos serem um grupo politicamente coeso é serem um grupo que faz a vontade daquele que o remiu com seu sangue. Toda a proteção que eventualmente a política der ao povo evangélico será nada se nos encontrarmos desprotegidos diante daquele que não tolera iniqüidade associada a ajuntamento solene.

Voltemos a simplicidade dos Evangelhos. Abandonemos essas praticas sincréticas que são verdadeiros ‘caldos de cultura’ onde prolifera toda espécie de superstição, e nos lembremos de como o Senhor nos advertiu sobre falsos profetas e falsos mestres: Eles se disfarçariam de ovelhas ao ponto de lhe jogarem na face terem feito, milagres, profecias e expulsado demônios em seu santo nome.

Fizeram. Fizeram tudo isto e muito mais: com palavras fictícias fizeram comércio do rebanho dele.

O cristianismo, desde suas origens, está umbilicalmente ligado à palavra escrita. Na antiga aliança era obrigação de cada família ter em casa um descendente de Levi a fim de ensinar-lhes a lei de Deus. Uma em doze tribos não tinha herança. Vivia entre seus irmãos para cumprir este mister. Era como se cada família possuísse um professor particular.

A ignorância é uma das maiores inimigas do povo de Deus. Alicerçado nela, inventando visões, e coisas semelhantes, é que os falsos mestres, profetas e apóstolos dominam o rebanho. Dominando, vendem-no. Vendendo-o, devoram-no.

sábado, 13 de janeiro de 2007

Do deserto ao jardim

Aos 30 anos, antes de iniciar seu ministério público, nosso Senhor foi levado pelo Espírito Santo ao deserto para ser tentado.

Lá, sozinho, após quarenta dias de jejum, sofreu três investidas do Maligno. Todas visavam incutir-lhe dúvidas sobre sua natureza divina propondo satisfações peculiares à sua natureza humana.

Diferentemente de Adão que, saciado, em um jardim, sucumbiu à primeira investida com o oferecimento de uma fruta (que em si era como outra qualquer, mas que representaria muito bem sua obediência implícita às ordens do Criador), o Senhor, no deserto, faminto, venceu a todas investidas com o auxílio das Sagradas Escrituras.

Três anos depois, no Jardim do Getsêmani, apesar de ter levado consigo seus Apóstolos mais íntimos, ele estava novamente sozinho: o sono deles era mais forte. Lá ele ficou em angústia por algumas horas. Lá quem o atacou não foi o inimigo. Foi o pavor.

Esvaziado de alguns de seus atributos divinos, ele temeu a ira do Pai que breve cairia sobre si em toda intensidade. Ele sabia que teria de enfrentá-la sozinho. Afinal seria a ira do único com quem contava, do único cuja vontade lhe era mais agradável do que comida ou bebida.

No deserto, fez o que Adão deixou de fazer: obedeceu. Tornou-se na prática o segundo Adão, no qual todos aqueles que o Pai lhe deu estão representados. No Jardim fez o que homem algum poderia fazer: submeteu-se: “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres (Mt 26.9)”. O Pai não o passou. Ele o sorveu até as escórias. Porém, o cálice não era dele. Era meu.

Curiosamente o escritor da Carta aos Hebreus diz que ele foi atendido. O Pai o atendeu, não suprimindo-lhe a cruz, mas dando-lhe vitória sobre ela ao ressuscitá-lo.

No deserto ou no jardim fez a vontade do Pai. No deserto fez o que Adão não conseguiu, no jardim, preparou-se para fazer, na cruz, o que era devido a todos os que o Pai lhe deu.

No deserto, fome, solidão e as três investidas do inimigo. No jardim, após a última ceia, solidão (dos que, no espírito estavam prontos, mas, na carne, eram fracos), dor, medo e pavor de, feito pecado por nós, da horrível coisa que é “cair nas mãos do Deus vivo”.

Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor (Hb 12.28e29).

sábado, 6 de janeiro de 2007

"Do Egito chamei meu Filho"

Há algumas coisas no Evangelho escrito por Mateus, que me impressionam. Por exemplo, os textos paralelos. O primeiro assunto que ele aborda é a genealogia de Jesus e o último é sua “grande comissão”. No primeiro está latente a idéia “desde o início até hoje” e no segundo “de hoje até a consumação dos séculos”.

Mas não para aí. O segundo assunto é o nascimento de Jesus. Mas, diferentemente de que Lucas fez, Mateus não descreve os acontecimentos. Ele apenas diz: Jesus nasceu. E o penúltimo assunto, como um reflexo em um espelho, também não detalha, mas garante: ele ressuscitou.

Mateus é o único evangelista a falar dos magos, que trouxeram presentes para testemunhar o nascimento de Jesus. Mateus é também o único evangelista a falar dos guardas que recebem suborno para não testemunharem que ele ressuscitou.

Aos perigos que levaram Jesus a morte Mateus contrapõe aos perigos que o levaram ao exílio no Egito. E aqui aborda-se indiretamente um assunto tão rico como resumido: “e lá ficou até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por intermédio do profeta: Do Egito chamei o meu Filho” Mt 2.15.

Milhares de anos antes, por diversas causas, mas especialmente por sonhos, José, filho de Jacó, para não ser morto por seus próprios irmãos, foi vendido como escravo às caravanas que iam para o Egito. Agora, outro José, o pai de Jesus, para seu filho não ser morto por Herodes, advertido em sonhos, leva-o para o Egito.

O primeiro José vai para lá ainda jovem e morre lá depois de tornar-se o braço direito do Faraó. O segundo José volta logo que Herodes morreu. Se levou o menino com quase 2 anos o trouxe de volta aos 5 ou 6 anos.

Do primeiro José sabemos muitas coisas. Inclusive que os descendentes de seu Pai de 70 transformaram-se em, no mínimo, 1.500.000 pessoas. Peregrinaram 40 anos no deserto guiados por Moisés e tomaram posse da terra que Deus havia prometido a Abraão: o ancestral maior.

De José, pai de Jesus, nada sabemos do que aconteceu lá. Apenas que voltou sigilosamente e não pode morar em sua própria terra pois era governada por um filho de Herodes.

Toda nação de Israel, seu sofrimento no Egito, sua peregrinação no deserto, foi interpretado por Mateus como um tipo do que aconteceria ao Redentor: do Egito chamei meu filho.

A própria essência do que é a verdadeira profecia é revelada aqui. Deus não deixou que o profeta visse antecipadamente o que fatalmente aconteceria ou ele faria quando chegasse o tempo certo, mas disse antecipadamente ao profeta como é que ele construiria o futuro.

Impérios são formados e extintos, povos crescem, dominam, diminuem e desaparecem, milhões nascem e milhões morrem, nações como gotas que caem de um balde de água, ilhas são tidas como pó, a humanidade como a erva que de manhã viceja e floresce e de tarde murcha e seca. Ou seja: Passa-se o céu, passa-se a terra, mas a Palavra do Senhor permanece eternamente.

Sua Palavra encarnou-se. Tomou nossa natureza. Sendo assim o próprio mundo passa, bem como sua concupiscência, mas o que faz a vontade do Senhor permanece para sempre.

Permanece para sempre porque sua Palavra assim o diz. Aleluia!

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Bons Princípios

No distante ano de 1978, quando fui viver em São Paulo, me assustei com a campainha do portão tocando logo cedo. Eu já estava acordado: Seu Mário, meu vizinho, havia gritado tão alto com alguém, que acordei assustado pois ele era a calma em pessoa.

Como a campainha continuava a ser tocada, saí de casa e desci os três lances de escada até o portão. Encontrei uns três ou quatro meninos falando ao mesmo tempo.

- Tio, me deseja bons princípios!

Entendi os gritos de Seu Mário, cuja casa também tinha escadas e ainda era bem cedo de 1º de janeiro de 1979.

Nunca havia sido chamado de tio – sou filho único – nem sabia o que era “desejar bons princípios”.

Inocentemente disse aos meninos: - Bons princípios!

- Não! Gritaram. - Dá um trocadinho.

- Ah! Bons princípios é a mesma coisa que um trocadinho?

- Claro! Respondeu o mais esperto – que não era o maior – como é que a gente vai começar bem sem dinheiro?

Fazia sentido. O que não fazia sentido era ter sido acordado poucas horas depois de ter ido dormir por um bando de pirralhos pedindo dinheiro. Disse que não podia dar: - Quem sabe no próximo ano.

No fundo esses garotos estavam pondo em prática algo que aprenderam em casa, e, que, querendo ou não, todos nós concordamos. Lembra-se da música? “Adeus ano velho, feliz ano novo ... muito dinheiro no bolso...”.

Hoje pedimos a Deus que nos dê mais dinheiro. E ainda que alguns não gostem de fazê-lo, não há a menor diferença entre isso e o que nossos antepassados faziam ao orar por boas safras, bom clima e por estações bem definidas (Aliás o Diretório Litúrgico de Westminster, que nossa Igreja resumiu nos Princípios de Liturgia, obrigava os pastores orar por esse assunto em todos os cultos).

Eles viviam diretamente da terra, e da terra tiravam diretamente o que ia para suas mesas.

Nós, precisamos de um intermediário: o dinheiro. Sem ele não compramos o produto da terra.

Mas, por que no começo do ano?

Tem algo a ver com a idéia de começar bem. Idéia que não é totalmente anti-bíblica, pois na Antiga Aliança consagrávamos ao SENHOR, os primogênitos e as primícias, e Deus nos ensina através do Apóstolo Paulo que “se forem santas as primícias da massa, igualmente o será a sua totalidade; se for santa a raiz, também os ramos o serão”. (Romanos 11.16)

Portanto, desejo a todos um bom princípio de ano. Não como aqueles garotos inoportunos que procuravam a caridade alheia, mas debaixo das bênçãos do Senhor.

Estou certo de que a importância de ser o começo do ano é mais simbólica do que real.

Entretanto, espero também que não fiquemos apenas com a esperança e as “boas resoluções” do primeiro dia do ano novo. Pelo contrário: trabalhemos em cada dia de 2007 buscando em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça.

domingo, 24 de dezembro de 2006

O Rei, os magos e os guardas

Sempre gostei de escutar as histórias do Elias. Apesar de nossos encontros serem tão curtos, como duas páginas, ele gostava de chamar-se peregrino. Acho que era por outro motivo.

Um dia ele me lembrou de que, quando menino soube de um grande confusão. Jerusalém ficou repentinamente alvoroçada com uma caravana que entrava.

Caravana grande, das que atravessam o deserto e alguns se destacavam como líderes: "magoi", como diziam aqueles que arranhavam a língua grega.

Eles eram descendentes dos antigos alunos de Daniel, que há séculos fora levado ainda jovem para Babilônia, onde, por ter mostrado grande sabedoria, havia sido nomeado chefe deles. Eles sabiam contar o tempo olhando o movimento das estrelas.

Esse Daniel era aquele que, adivinhando e interpretando um sonho do Rei Nabucodonozor, salvou a vida de seus companheiros e dos que já eram chamados "magoi" antes dele, e que, por tentarem enganar o rei, haviam sido condenados a morte.

Foi nessa época que Daniel profetizou quando o Messias havia de vir, e marcou nos calendários deles a época em que isso ocorreria: Uma estrela em determinado posição no céu.

Tão logo a estrela apareceu, os que ainda lembravam dessa profecia, começaram as conversas sobre o que fazer. Depois de algum tempo decidiram ir conhecer o menino e homenageá-lo com presentes. Daí a caravana.

O Elias não sabia bem quanto tempo levaram para atravessar o deserto. Mas atravessaram. E quando chegaram a Jerusalém falando que o rei dos judeus havia nascido o alvoroço se instalou. Não fazia muito tempo, Herodes, que reinava em Jerusalém, havia matado a própria mulher e um filho por suspeitar que conspiravam para tomar o trono.

Raposa velha, Herodes não demorou a saber dos próprios conselheiros onde, especificamente, as profecias diziam ser o lugar do nascimento. Ele também conhecia a profecia, mas não sua data. Belém: foi a resposta unânime.

“Vão adorá-lo e depois me digam onde é para eu ir também”. Disse Herodes aos “magoi” enquanto pensava: jogada de mestre. Depois pego todo mundo.

O Senhor Deus não permitiu que ele chegasse a tanto. Porém, todos souberam que os estrangeiros estavam mais atentos aos tempos de Deus do que os sacerdotes de sua própria casa.

Ouvi o Elias com atenção.

Eu sempre escutara falar dessa história, mas com o passar do tempo ela tinha se tornado tão fantasiosa que já se falava que apenas 3 homens haviam atravessado o deserto com tantos presentes. Três tipos de presentes. Quem sabe a confusão não tenha começado aí.

De fato. Quando o Senhor assumiu nossa natureza, estrangeiros vieram de longe atestar seu nascimento trazendo-lhe presentes. Curiosamente, quando ele ressuscitou, outros estrangeiros, que, a exemplo dos primeiros, não tiveram seus nomes registrados e sequer sabemos quantos eram, receberam bastante dinheiro para ficar calados sobre sua ressurreição.

Que ironia. Uns correm risco de vida e dão do que possuem para dizer bem alto: O Messias nasceu. Outros, com medo da morte e fascinados pelo dinheiro, calam-se diante de algo muito mais difícil – afinal que provas o menino tinha de ser o Rei do Judeus? Nenhuma. Só a estrela, que sequer foi percebida em Jerusalém, pois Herodes teve de perguntar aos "magoi" a data precisa em que ela aparecera.

Porém os guardas estavam diante de um sepulcro vazio, selado com uma pedra muito grande e foram testemunhas de um evento que os deixou assombrados – como mortos – mas o vil metal, que cala a maioria dos homens, calou a deles também, e ninguém gritou: O crucificado ressuscitou!

Magos e guardas... quando me encontrar com o Elias já temos o que conversar.


* Agradeço ao Rev. Elias Medeiros sua pesquisa sobre os 'magoi'.

sábado, 16 de dezembro de 2006

Quando as palavras já não significam o que significavam

Com tanto para falar sobre a encarnação do Senhor e de como ele se tornou um de nós, preciso falar hoje sobre o caminho em que peregrinamos. Então, vamos lá.

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Há uma semana recebi um cartaz para colocar no mural. Azul claro, com um desenho estilizado de uma pomba no canto superior esquerdo, dá toda ênfase às palavras FRUTO DO ESPÍRITO escritas em estilo Vivaldi com letras douradas, bem rebuscadas.

Logo veio a minha mente a Carta aos Gálatas. Afinal, ali estava uma pomba (tradicional símbolo bíblico para o Espírito Santo desde o Batismo de Jesus) e, como na Bíblia, a palavra estava no singular: Fruto! Não frutos.

“Amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio”? Não: Ballet, Jazz, Circo, Street Dance e Dança Contemporânea. Que podem até ser frutos de um espírito amante das artes, mas nunca serão o FRUTO DO ESPÍRITO de quem assumiu nossa natureza.

Preciosismo lingüístico? Não. Alerta contra a polissemia das palavras que, fora de seu sentido, passam a servir de recursos de marketing. Bem intencionado? Pode ser. Blasfemo? Sem dúvida.

-*-
Duas semanas atrás, após uma série de curvas na estrada que leva à BH, duas crianças, que brincavam alegres durante toda a viagem, ficaram repentinamente quietas. Pai experiente de duas, tratei logo de puxar minha mala para o outro lado. Não demorou muito e as golfadas de vômito vieram. Vieram acompanhadas das imprecações da avó, que até então cuidou deles com desvelo.

As golfadas eram acompanhadas por exclamações assim: “ô bênção”, “esse menino(a) é uma bênção”, “o sangue de Jesus tem poder”, “ah, Jeová, tem piedade”, etc.

Saí desolado: O cheiro nauseante do vômito e meus sapatos pisando nele, eram nada perto do que ecoava e repetia-se em meus ouvidos.

Perdi a paciência: “Minha senhora, pelo simples vomitado das crianças a senhora invoca o sangue de Cristo e chama de bênção aquilo que no fim a senhora queria chamar de outra coisa”?
“Melhor do que dizer palavrão”, respondeu ela.

“Mas a Senhora os disse. E disse pior. Pecou duas vezes, pois além de dizê-los ainda os fez com o nome do Senhor. Seria melhor não dizer nada. Toda criança, sob essas circunstâncias, costuma vomitar”.

Exercício explícito de “chatice”? Não. Absolutamente não: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!”

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Queremos ser mais motivados a vir às reuniões da Igreja! Dizia, do alto de sua idade, uma senhora crente, de cuja piedade já me servi muitas vezes como exemplo. Talvez saudosa das estrelinhas que ganhávamos quando criança, todas as vezes que trazíamos a revista e a Bíblia à Escola Dominical, ou, quem sabe, precisasse daquele ânimo dos comerciais “seus problemas acabaram”, que repetem à exaustão as qualidades de um produto, sempre entrecortado pelo refrão “ligue já” ou “se você ligar agora...”.

Eu não sabia o que responder – as vezes fico abestalhado diante de algumas situações – e acho que não respondi. Mas fiquei pensando em como as comunicações entre as pessoas estão se deteriorando: lança-se mão dos textos sagrados para se fazer propaganda. Reclama-se de vômito de criança chamando-o de bênção. Confunde-se a tarefa de quem Deus chamou para expor sua Palavra com a de um publicitário.

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Nossa peregrinação está chegando ao fim. Dizíamos “passarinhos, belas flores, querem me encantar”, mas refutávamos, “adeus terrestres esplendores”. Hoje temos de dizer que quizílias e exemplos mundanos nos impedem de ir mais rápido, de subir às montanhas da fé, de onde avistamos os muros fulgurantes da Jerusalém celeste.

Irmãos: lançamos mão de um arado. Não olhemos para trás.

sábado, 9 de dezembro de 2006

Entre a Manjedoura e o Túmulo (b)

Para nascer na manjedoura nosso Senhor esvaziou-se de si mesmo. Deixou de lado, voluntariamente, alguns dos atributos que o caracterizavam como Deus - por exemplo, a onipresença - e se fez carne. Passou a compartilhar a natureza do que ele mesmo criara. Passou a sujeitar-se ao que ele mesmo estabelecera.

Para repousar no túmulo nosso Senhor abriu mão, voluntariamente, de certos atributos que caracterizam os homens - por exemplo, o apego à vida - e a si mesmo se entregou. Injusta e passivamente sofreu a aplicação do castigo que era devido àqueles que o Pai lhe deu, e, finalmente, voluntariamente, rendeu seu espírito.

Sua manjedoura, emprestada de animais domésticos, teve suas palhas forradas pelas faixas em que foi envolto, mas não o reteve por muito tempo: quarenta dias depois foi levado à casa terrestre de seu Pai, onde, contemplado por fiéis, foi apresentado. Já havia recebido em seu corpo a única marca que era permitida a um judeu.

Seu túmulo, emprestado de um homem rico, recém cavado na rocha, também foi forrado - com o lençol de linho que outro José usou para amortalhá-lo - e também não o reteve por muito tempo. Novamente, quarenta dias depois compareceu à casa do Pai. Desta vez à casa celeste. Desta vez, além da própria marca da Aliança, apresentou ao Pai todas as marcas que adquirira dos que ele mesmo representou.

Entre a manjedoura e o túmulo fez muitas coisas. Aprendeu com seu pai terrestre a arte de trabalhar a madeira, e a trabalhou. O que fez nessa época ainda saberemos, porém temos certeza de que não foi sem motivo que ficou conhecido como “construtor”.

Entre a manjedoura e o túmulo, quando completou os 30 anos necessários, chamou a si aqueles que ele mesmo quis e os treinou para completar o que ele iniciou de uma vez por todas: os fez alicerces de sua nova construção.

Entre a manjedoura e o túmulo outras madeiras e outros pregos não lhe foram instrumentos dóceis, porém eram parte importante dessa construção maior: a casa eterna: verdadeira cidade para todos aqueles por quem morreu.

Enquanto as festas deste mês de dezembro nos lembram a manjedoura, não esqueçamos que para apreciá-la precisamos entender corretamente o significado do túmulo. Ela foi apenas o início.

O brilho característico da tradição natalina será falso, supersticioso e indigno do Senhor de todas as coisas, se ele não tiver nascido em nosso coração (que pode ser tão acanhado como uma manjedoura, afinal, ele não liga pra isso) nem estivermos dispostos a dividir com ele seu túmulo: mortos com ele para o mundo, mas vivos, com ele, para Deus.

Indizível alegria! Nos alegremos muito! Afinal ele trilhou, antes de nós, o caminho entre a manjedoura e o túmulo e nesse caminho há uma cruz. Quando ela nos parecer pesada, ou o caminho se mostrar árduo, lembremos das benditas palavras: “não temerei mal algum, pois tu estás comigo. O teu bordão e o teu cajado me consolam”.

Glórias a Deus. Manjedoura que é, meu coração recebeu o Senhor!

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Do jardim à cidade

E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden,
na direção do Oriente,
e pôs nele o homem que havia formado.
Gênesis 2:8


O homem recebeu de Deus um jardim. Não era um matagal, pois a palavra jardim já indica certa organização das plantas, porém, com certeza carecia de cuidados.

A revolta do homem contra Deus prejudicou o jardim, pois o castigo que Deus impôs sobre ele afetou também tudo aquilo sobre o tinha recebido domínio.

Embora haja muitas definições do que seja cultura, eu ainda prefiro pensar o seguinte: um rio intacto é obra divina, já um mero canal, ou um represamento mínimo é expressão de cultura. Ou seja: produto da cultura humana é qualquer interferência na criação divina. Não limito cultura às artes (como as entendemos hoje), ou às criações intelectuais. Na obra do artesão (quem aplica a arte com os dedos ou com ferramentas que vão da enxó ao bisturi) se vê a presença de conceitos culturais.

O homem interferiu na criação divina antes do pecado ao dar nome aos animais. Porém, a maior parte de suas ações culturais aconteceu após pecar.

Lembre-se de que nos primeiros tempos a interferência humana foi tão danosa, que Deus agiu drasticamente diversas vezes: dilúvio, Babel, etc.

Não posso concordar com quem diz que a cultura é neutra, pois, manchada pelo pecado, tudo o que deriva dela traz essa mancha. Eis a razão porque o jardim confiado ao homem nunca poderá ficar de acordo com o gosto de seu dono: Deus. Porém, essa impossibilidade não exime o homem de sua obrigação: Ele TEM de cuidar do jardim de Deus. Ele TEM de lutar contra os cardos e os abrolhos.

Essa obrigação tem duas razões: a primeira é a obediência a Deus e a segunda é não esquecer que seu melhor, diante de Deus, não passa de “trapos de imundícia”.

A maior prova é que o Filho de Deus, ao assumir nossa natureza, tornou-se também um “agente cultural” como nós o somos. Porém, apesar de agir sobre um meio cultural afetado pelo pecado, ele, de si próprio, não tinha seu agir impregnado pela nossa cultura pecaminosa. Viveu como artesão. Conheceu a matéria prima, as ferramentas, os produtos que eram próprios da época, e atuou com habilidade.

Mas, você já se deu conta de que tudo o que Deus criou, quando for redimido, virá afetado pela cultura? Deus nos deu um jardim, mas no último dia receberemos uma cidade! A cidade é o aperfeiçoamento do jardim, e, como vimos o aperfeiçoamento é feito através da aplicação da cultura.

Entretanto a cidade que receberemos não é a cidade produzida por nossa cultura manchada pelo pecado, mas a produzida pelo supremo artesão. Aquele que prepara-nos lugar!

Não esqueça: é uma cidade – há bons aspectos na cultura – mas não é uma cidade qualquer. Não é feita por nós. Acaso teríamos tal capacidade? Ela não é diferente apenas em seus materiais constitutivos. Difere, acima de tudo, por sua execução. A tal ponto agrada a Deus que é chamada de Noiva.

Recebemos um jardim e não demos conta de cuidar dele, nem daremos. Vivemos na esperança de receber uma cidade. O conceito que transforma o jardim em uma cidade, por assim dizer, é nosso. Porém, não foi executado por qualquer de nós, mas pelo melhor de nós. Aquele cujas mãos jamais fizeram coisa alguma que desagradasse ao Pai. Aquele que manteve a pureza da capacidade cultural delegada ao homem e a usou para glorificar ao supremo autor de todas as coisas.

Bendito seja seu nome.

sábado, 25 de novembro de 2006

Ócio no céu

Recentemente alguém me perguntou: “lá no céu vamos ficar voando de nuvem em nuvem, com harpinhas nas mãos, fazendo nada?”

Preciso dividir a resposta. Primeiro devo chamar sua atenção para a necessidade de entendermos bem nosso destino após a morte.

O que vulgarmente chamado de “céu” é um local provisório em que as almas de todos os que morrem antes da volta do Senhor ficam aguardando a ressurreição de seus corpos: são aquelas pessoas mencionados no “quinto selo” do Apocalipse.

No último dia, na volta do Senhor, ressuscitados todos os que morreram e transformados todos os que ele encontrar vivos, iremos morar com ele em um lugar que as Escrituras chamam de: Jerusalém Celeste, Novo Céu e Nova Terra, etc.

Segundo, não há um só texto das Escrituras Sagradas que abone a idéia do “ócio celeste”, ao contrário: tanto direta como indiretamente pressupõe-se atividade.

As Escrituras são comedidas ao falar da vida futura, e, o Apóstolo Paulo, chega mesmo a mencionar a existência de coisas que, além de inefáveis, não são lícitas ao homem o referir-se a elas (2Co 12.4). Você está lembrado de que João ia escrever o que ouviu “dos trovões” e foi impedido? Ou da expressão “o que de Deus se pode conhecer...” (Rm 1.19)?

Geralmente ao lermos as Escrituras ficamos apenas com aquilo que nos agrada mais. E, é claro que, as belezas relacionadas à vida futura chamam nossa atenção. Nos lembramos facilmente de palavras como alegria, prazer, júbilo, bondade, água, fontes, festa, luz, pão, casas, mesa, vinho, justiça, graça, glória, verdade, honra, incorruptibilidade, imarcessibilidade, santidade, misericórdia. Porém, encontramos também, responsabilidade, fidelidade, competência, serviço, e, principalmente, a relação mais clara entre o servo e o Senhor.

Não ficaremos ociosos, pelo contrário, receberemos das próprias mãos do Senhor as tarefas necessárias à manutenção de seu Jardim, então restaurado e redimido.

Lembre-se: antes de nossos pais pecarem o Criador os colocara em um jardim com a incumbência de lavrar a terra - certamente o trabalho seria mais leve, pois algumas maldições conseqüentes do pecado foram a fadiga, o suor do rosto para se obter o pão e o nascimento de cardos e abrolhos - e no jardim restaurado? Não haveríamos de ter responsabilidades também?

As responsabilidades que receberemos lá serão proporcionais ao desempenho com que executamos as nossas hoje. Pense na sentença do Senhor: “Servo bom e fiel. Tu foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei”. Teremos aquilo que Adão teria se não tivesse se rebelado contra Deus.

Finalmente!

Nosso trabalho será avaliado pelo mais justo Senhor.

Não trabalharemos para o proveito de espertos.

Nosso trabalho por mais simples que vier a ser, será em cumprimento da vontade mais perfeita que existe.

Senhor! Apresse este dia!

sábado, 18 de novembro de 2006

Conhecerei como sou conhecido

Nos anos 40 ou 50 do século passado, havia um programa de rádio em que um “pastor” respondia perguntas a respeito da Bíblia. Tirava dúvidas. Um dia ele leu uma carta cujo teor podia ser resumido na seguinte frase: “como poderei ter alegria no céu se souber que meu filho está no inferno?”

A essa pergunta, infelizmente, ele ‘sugeriu’ 4 respostas. Na realidade, apenas uma poderia ser considerada resposta, pois, com tantas, ele semeou dúvidas que, até hoje, propagam-se com tal perniciosidade que as tenho como o cumprimento de Atos 20: “...dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas”.

Como já são objeto de debate público, muito a contra gosto, repetirei as 3 aqui, na esperança de firmar a verdadeira resposta.
1ª – “Na vida futura não nos lembraremos de nada do que aconteceu nesta vida”.
2ª – “Na vida futura não nos lembraremos das coisas ruins que nos aconteceram nesta vida”.
3ª – “Na vida futura não guardaremos, entre nós, os mesmos laços de relacionamento que guardamos nesta vida”.

A primeira “resposta/dúvida” é totalmente contrária ao ensino geral das Escrituras (a analogia da fé), pois, quão fútil seria comparecermos ante o tribunal de Cristo para respondermos por algo que foi apagado de nossa memória. Lembre-se: não há condenação, mas haveremos de prestar contas daquilo que ele nos confiou. Veja:

Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo. 2 Coríntios 5:10

Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Romanos 14:10

E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas. Hebreus 4:13

Compare ainda com as seguintes palavras do Senhor: “Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus”

Como saberíamos a importância de Abraão, seu filho e seu neto, ao ponto de termos por honra partir o pão com eles, se não nos lembrarmos de coisa alguma, e, conseqüentemente, deles?


A segunda parece que foi feita após se pensar nos argumentos contrários à primeira. Ou seja: nos lembraremos de Abraão e seus descendentes, mas não nos lembraremos das coisas ruins.

Porém, acaso poderíamos lembrar da fé de Abraão sem lembrar do sacrifício de Isaque? Nos lembraríamos de Jacó sem lembrar que o Senhor o amou e aborreceu a seu irmão Esaú? Eles teriam importância para nós, figurariam no capítulo 11 da carta aos Hebreus, sem as provações pelas quais passaram?

Aliás, você teria a maturidade espiritual que tem sem as dificuldades pelas quais o Senhor fez você passar?

Irmãos, será que no Reino de Deus seríamos privados de nos lembrar da Bíblia onde ninguém tem seus defeitos escondidos?

A terceira, parte da pressuposição de que na eternidade amaremos a todos igualmente, por isso, vínculos familiares, que causam perdas dolorosas, não existirão. Porém, é apenas uma tentativa de, através do que as Escrituras não dizem, resolver um problema que já foi resolvido.

A única resposta é: Lá, na vida futura, nos lembraremos de tudo com mais clareza. Nos lembraremos dos fatos obscuros, que memorizamos conforme nosso ponto de vista, com a certeza que não é possível se ter nesta vida. Lá nosso conhecimento de todas as coisas será tal, que se cumprirá finalmente: “conhecerei como também sou conhecido”.

Então ficaremos tristes? Não! Absolutamente não! Nosso Mestre e Senhor nos declarou:
São estes os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro, razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima. Apocalipse 7.14-17

Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima. Apocalipse 21.3-4

Haveria tristeza se não fosse o supremo consolo de Deus: O Consolador!

Essa é a esperança do cristão verdadeiro.

sábado, 11 de novembro de 2006

Duas casas

Na casa em que moro sou acordado logo cedo pela algazarra alegre de muitos passarinhos. Pra falar a verdade, se não me obrigar a levantar, a cantiga deles, reforçada pelo cheiro das flores com primeiros raios de sol, aumentam a vontade de continuar na cama.

Na casa em que moro, nos dias mais quentes, costuma vir uma brisa do rio. Às vezes tenho de fechar a cortina por causa do sol e cortar a brisa pela metade, mas ela continua insistindo em enfunar o tecido leve e entrar pelo escritório refrescando os instantes de trabalho matinal.

Na casa em que moro, depois do almoço, o canto da rolinha “Fogo-pagou” convida a uns instantes de repouso, e fica difícil sair para as obrigações da tarde, que vai refrescando na medida que o sol desce atrás da casa vizinha.

Na casa em que moro, apesar de pernilongos e do abafamento normal das cidades cortadas por rios, as tardes são quietas. Os meninos saem da escola vizinha em tropel, mas o sol poente doura o Pico da Ibituruna.

Na casa em que moro, o cheiro das mangueiras floradas no começo da primavera e das mangas no verão entram no quarto e enquanto caem de maduras, a brisa do rio, aproveitando o silêncio da noite, traz, como se fosse um acalanto, o barulho das corredeiras.

E na casa em que morarei? Se nem olhos, nem ouvidos, nem a imaginação podem ter idéia do que me espera, que pensamentos poderei ter dela?

A casa em que morarei foi projetada pelo melhor arquiteto. Está sendo preparada pelo melhor construtor. Será adornada pelo “primeiro” jardineiro.

Se as manhãs daqui são doces e calmas, as de lá serão muito mais. Que aromas fabulosos superarão o das flores, ou o do café recém-coado? Que sabores substituirão o do pão de queijo ainda fumegante?

Se aqui a conversa com os sábios vem pela leitura, como será conversar pessoalmente com os que estarão lá?

Se as melodias daqui dependem de eletricidade e são a repetição mecânica de um som gravado, como será ouvir grandes cantores e músicos, com arte e competência, executarem na hora aquilo que a imaginação, livre dos limites, lhes proporcionará?

Se as tardes, iluminadas pelo vermelho do poente são arrebatadoras, como serão as tardes de um lugar que não necessita de Sol? Aliás, haverá tardes ou será um eterno amanhecer?

Se a brisa e o som que vem de um rio barrento, já enchem de paz e alegria a noite, como serão as brisas que virão do Rio da Vida? Como será o perfume da Árvore cujas folhas curará as nações?

Se hoje, cada manga que cai, qual relógio de parede, sem compromisso com a hora certa, faz lembrar a infância com suas aventuras e mistura as saudades do que foi com as saudades do que será, como serão as lembranças de lá? Cantamos nos lembrar das horas suaves de oração.

Certamente nos lembraremos de muito mais, e as lembranças que trouxerem lágrimas serão plenamente consoladas pela Santa Presença.

Fui plenamente convencido de que os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória que há de ser revelada. Hoje, creio, que muito menos os prazeres os serão.

sábado, 4 de novembro de 2006

Você já pensou no futuro hoje?

Conta-se que a Ferrari já havia ganhado fama, quando um fazendeiro comprou uma e logo depois veio reclamar da embreagem. O próprio Enzo ouviu e o despachou dizendo que ele só entendia de embreagem de tratores. Com raiva e com vontade de fazer algo melhor, ele montou uma concorrente que, até hoje, produz artesanalmente seus carros após encomenda. Seu nome era Lamborghini.

Há algum tempo atrás um amigo muito querido, me confessou que passou uma noite insone, ansioso para pegar seu carro novo de manhã. É um excelente carro, mas não é uma Ferrari, muito menos uma Lamborghini. Fiquei pensando que se ele estivesse esperando por uma dessas ... acho que já teria feito o ofício fúnebre dele.

Na idade média houve uma coleção tão grande de relíquias, que, se juntássemos todas, provavelmente, teríamos diversas cruzes, muitos pregos, muitas túnicas, etc. Houve quem garantisse possuir um pouco do leite que alimentou o Senhor nos braços de sua mãe. Valiam muitíssimo! Tanto que se cobrava ingresso para admirá-las. A simples visita a uma delas em Roma “garantia perdão de pecados”.

Há algumas ainda hoje. A mais conhecida delas é o suposto lençol com que José de Arimatéia amortalhou nosso Senhor: o chamado Santo Sudário. Apesar da datação de seu tecido remonta à idade média, há uma igreja em sua homenagem e não há preço para ele.

Convencionou-se pensar que o Senhor, como carpinteiro fazia móveis. Talvez até os fizesse, mas a palavra que traduzimos por carpinteiro (tekton, de onde vem arquiteto) refere-se muito mais a construtor. Provavelmente ele tenha feito mais colunas, vigas, marcos de portas, madeiramento para estuque de cobertura, do que cadeiras como sugere um filme recente.

Vamos admitir que ele tenha feito pelo menos um tamborete, daqueles de três pernas. Você já imaginou o preço que isso teria hoje?

Observe: Meu amigo ansioso por seu carro, pessoas dispostas a pagar ingressos para ver um suposto pedaço da cruz e o valor que teria um eventual móvel que o Senhor tivesse fabricado. Entretanto, vivemos em um mundo cheio de coisas, “fabricadas” pelo Senhor e não damos a elas o valor que deveríamos dar.

Porém, o que eu quero mesmo é chamar sua atenção para o fato de que você vai morar em uma casa feita pelo Senhor: o verdadeiro construtor, do qual todos os demais, por mais grandiosas que tenham sido suas obras, são apenas tipos pálidos. Você anseia por esta casa? Passa noites mal dormidas esperando por ela?

Já me disseram que os carros são antecipadamente conhecidos, e as casas daqui, geralmente acompanhadas desde a planta. Mas a casa futura é um mistério, pois, ninguém voltou para descrever a sua.

Em parte é verdade. Entretanto o Senhor, que morreu, voltou e nos assegurou que não devemos temer, pois estaremos com ele. Nossa chegada lá será marcada pelas palavras “Servo bom e fiel. Tu foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei. Entra no gozo do teu Senhor”. Logo em seguida tomaremos assento, à mesma mesa com Abraão, Isaque e Jacó, partiremos o pão juntos e beberemos um vinho que o Senhor espera para beber conosco.

Será que não é motivo para dizermos com o Apóstolo que estar com Cristo é incomparavelmente melhor?

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...