sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Plenitude dos tempos (1/2)

Escrevendo às igrejas da Galácia (uma região que hoje fica na Turquia), o apóstolo Paulo disse que Jesus veio “na plenitude dos tempos”.

Há quem veja nesta expressão (to pleroma tou kronou) apenas uma declaração semelhante a “quando chegou o tempo certo” ou “quando chegou o tempo determinado por Deus”, o que não deixa de ser verdade. Porém, há mais do que isso: A ideia é de que Jesus veio quando o tempo já estava completo. Ou melhor: quando as coisas que se completam com o passar do tempo já tivessem chegadas a sua plenitude. Já estivessem maduras.

Alguns veem uma alusão às profecias de Daniel, especialmente às que se referem ao tempo do fim (...Vai, Daniel, porque estas palavras estão encerradas e seladas até ao tempo do fim. Muitos serão purificados, embranquecidos e provados; mas os perversos procederão perversamente, e nenhum deles entenderá, mas os sábios entenderão” Dn 12.9-10), pois, desde o Pentecostes vivemos no período que a Bíblia chama de “os últimos dias”.

Entretanto, há quem pense em algo “mais concreto”: Os tempos estavam maduros, de muitos modos, para receber o Messias, seu Evangelho se propagasse por todos os povos e o Povo de Deus pudesse assumir a forma de Igreja com maior facilidade.

Quando Jesus nasceu o mundo ocidental estava sob o domínio político e militar dos romanos, porém a cultura dominante era a grega. E hoje, olhando retrospectivamente, vemos que, desde pequenos detalhes até grandes acontecimentos, prepararam o ambiente para a chegada de Jesus e a disseminação do Evangelho.

Dou como exemplo de um “pequeno detalhe” a crucificação. Para ser maldito de Deus Jesus teria de morrer crucificado - pois assim a lei o determinava (Dt 21.22e23) - o que jamais aconteceria entre os judeus, se eles não estivessem ocupados militarmente por romanos e se não o acusassem o Senhor de sedição contra césar, pois a pena de morte entre os judeus era o apedrejamento.

Como exemplo de um grande acontecimento cito a tradução do Antigo Testamento para o Grego, cerca de 200 aC. permitindo a preparação para o Evangelho entre os povos conquistados pelos romanos.

Longe de nos queixarmos do desenvolvimento filosófico grego deveríamos agradecer a Deus por ter preparado esta estrada por onde o pensamento cristão haveria de trilhar. Algo do que seria revelado pela fé já fora cogitado pelos filósofos gregos ao ponto de Agostinho, (Cidade de Deus 8.11), levantar a hipótese de Platão ter conhecido o Antigo Testamento.

Não se pode deixar de lado o fato de que, desde a invasão de Jerusalém pelos babilônios, os judeus tenham se espalhado pelo Egito, costa da África, Ásia Menor (hoje Turquia), Arábia e em cada lugar fundado sinagogas, que permitiram aos primeiros missionários (lembre-se do costume de Paulo) encontrarem em cada cidade pontos de contato para falar do Messias.

Digno de nota também foi a infraestrutura proporcionada pelas estradas romanas que ligavam todos os pontos do império. Embora não saibamos exatamente a extensão delas nos dias de Jesus, sabemos que em 312 aC. a Via Ápia, a primeira construída possuía apenas 300km, mas em seu auge o Império Romano chegou a contar com 150.000Km de estradas pavimentadas com pedras (o Brasil hoje possui 62.oooKm de estradas asfaltadas), com muitos túneis e pontes (alguns ainda em uso).

Era a época certa para a vinda de Jesus e ele veio.

sábado, 30 de julho de 2011

Igrejas desaparecidas

Você já notou que nenhuma das Igrejas citadas no Novo Testamento existe mais?

A menos que você reconheça a atual Igreja de Jerusalém (a Ortodoxa Grega? A Católica Romana?) como fiel substituta daquela que foi dirigida pelos apóstolos do Senhor. Ou reconheça o Vaticano como fiel substituto da Igreja para qual Febe levou sua carta de recomendação.

Onde está a Igreja de Samaria, que parece ter sido a primeira a ser organizada fora da Judéia?

Onde está a Igreja de Antioquia? Onde Paulo e Barnabé foram presbíteros? Já ouvi falar que está em uma cidade chamada Antaxa, na atual Turquia. Eu gostaria de conhecê-la pessoalmente, ver seus registros históricos (se houver algum).

A de Antioquia da Psídia, a de Icônio, a de Listra, de Derbe... Faça uma lista nome por nome. Você verá que nenhuma sobreviveu. Chipre? Talvez. Mas você há de convir comigo que a “Ortodoxia grega” da igreja de lá, está longe da Ortodoxia Bíblica.

Algumas dessas Igrejas foram ameaçadas pelo próprio Jesus. O pastor da Igreja de Éfeso recebeu uma ameaça que se estendia à Igreja que pastoreava: “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas” (Ap 2.5).

Pelo contexto o Senhor Jesus estava ameaçando mover de seu lugar a igreja. Aconteceu: Primeiro um terremoto. Depois a invasão mulçumana. Hoje o turismo atesta para o mundo inteiro que ali houve uma igreja e já não há mais.

Por que igrejas que foram tão bem doutrinadas, que contaram com a presença dos apóstolos do Senhor, que receberam cartas diretas do próprio Senhor Jesus, não existem mais?

Eu não sei dizer. Conjecturo que especificamente a Igreja de Éfeso não tenha se arrependido, nem voltado à prática das primeiras obras. Porém, será que o mesmo se pode dizer de todas as outras igrejas?

No Antigo Testamento Deus algumas vezes castigou seu povo privando-lhe do culto. A primeira vez deixou que os filisteus tomassem a Arca da Aliança, que mais tarde foi recuperada pelo Rei Davi. A segunda vez permitiu que os babilônios destruíssem o Templo de Salomão e sumissem com a Arca da Aliança.

Reconstruído o Templo há um registro, feito pelo profeta Malaquias (1.10), que à vista da corrupção, especialmente dos sacerdotes, Deus desejava que as portas do Templo fossem fechadas. Permaneceram abertas até o verdadeiro e último sacrifício - sacrifício do qual os demais são apenas tipo ou sombras - depois foi destruído totalmente.

Não seria uma pista para se entender o porquê dessas igrejas terem acabado?

Imediatamente me lembro das palavras do próprio Jesus: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda” (Jo 15.1e2).

Deus nos livre de trilharmos o mesmo caminho delas.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Batizar crianças?

Há algum tempo tenho trabalhado em um material sobre esse assunto, mas ele ainda não chegou ao ponto que eu desjo (ser claro, ter um tom pastoral e ter o tamanho costumeiro).


Minha dúvida é: Por que no último século a grande maioria das denominações não católicas deixou de batizar crianças? Desconfio que a resposta seja estatística. Neste último século as denominações pentecostais foram as que mais cresceram e elas nunca batizaram suas crianças. As denominações tradicionais, além de crescerem menos, foram tão afetadas pelo pentecostismo que algumas até deixaram esse hábito. Assim, creio que é possível se explicar essa grande mudança em pouco mais de um século.


Porém, enquanto estou em uma quinzena de férias, leia o excelente texto que o Rev. Agnaldo postou sobre o Batismo de Crianças em:  http://www.creioeconfesso.com/2011/07/o-batismo-dos-filhos-dos-crentes.html 

sábado, 9 de julho de 2011

O Sono e o despertar

Mais uma manhã. Os primeiros sons que eu percebo são de passos femininos: curtos e secos. De saltos contra o asfalto da rua. A seguir passos pesados e abafados denunciam o pequeno grupo de operários da construção próxima que logo me atualizarão sobre o mundo do futebol, mesmo que nenhum time tenha jogado na noite anterior.

Os primeiros clarões, que já invadiram a janela, da qual as alergias me roubaram a cortina, ameaçam gradualmente meus olhos, que tentam se proteger debaixo de um edredom - verdade! As manhãs estão frias o suficiente para um edredom fininho - e o cansaço do sono iniciado bem depois de meia noite me convida a virar pro outro lado. Mas, aí já é tarde: Junto com o trinado de dezenas canários e a algazarra dos pardais, chega o aroma forte e bem vindo do café. Há sono que resista?

Antes de me levantar agradeço ao Senhor, por mais um dia em que suas misericórdias se renovaram.

E se renovaram mesmo!

A preocupação com tantas coisas feitas pela metade ou por fazer; com a distância que divide a família; com o sofrimento de ovelhas doentes ou aflitas; deu lugar à confiança, e o sono que chegou agitado foi se acalmando pela certeza de que é “inútil se levantar de madrugada, trabalhar até tarde, comer o pão de lágrimas, pois aos seus amados, Deus dá enquanto dormem”.

Foram poucas horas de sono, mas foi um sono profundo e sem sonhos: reparador.

Os problemas de ontem não desapareceram, mas ganharam novas abordagens. Suas soluções podem agora ser examinadas sob novas perspectivas.

Quantas vezes fui dormir com um “problema insolúvel” e pela manhã ele parecia algo tão banal que se desfez com um simples telefonema.

Com um sono profundo Deus trouxe a nosso pai sua companheira. A bendita Jael libertou seu povo do jugo de Sísera depois dele cair em profundo sono. E por não conseguir conciliar o sono Nabuconozor conheceu a Daniel. Por não conseguirem segurar o sono os apóstolos do Senhor não conseguiram vigiar em oração com ele no Getsêmani. Vencido pelo sono Êutico caiu do apartamento no terceiro andar em que a Igreja de Trôade estava reunida.

Mas, de tudo o que as Escrituras falam sobre o sono, o que mais me impressiona é compará-lo à morte dos remidos. Sabemos muito bem que eles morreram mesmo. Mas como breve ressuscitarão, as Escrituras chamam a morte de sono. Como se da morte acordassem.

E, especulo eu: do que primeiro teremos consciência? Dos passos dos transeuntes? Da claridade do dia? Do canto dos pássaros? Do aroma do café? Não! Creio que será da bendita voz - aquela que já foi ouvida por Lázaro - “vem pra fora”!

Eu irei.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Os adornos do Espírito

Mal saíram do Egito - multidão de escravos, fazedores de tijolos de uma terra tão ruim que exigia vegetais para dar liga à massa - Deus os reuniu aos pés do Monte Sinai. Lá deveriam se tornar um povo. Lá receberam a Aliança, que Abraão, séculos antes, conhecia pela fé.

De tão rudes, a aliança lhes foi resumida em tábuas de pedra. Mas, analfabetos, para as reverenciarem, tudo foi sancionado com sangue de cordeiros inocentes aspergidos sobre as tábuas e sobre eles. E para que eles as valorizassem mais, Deus as depositou em uma arca de ouro, separou toda uma tribo para guardá-las e ordenou que fizessem uma tenda especialmente adornada para elas.

Os adornos dessa tenda não podiam ser produto da imaginação de qualquer um. Deus chamou dois homens para elaborar o projeto dela, treinar seus auxiliares e edificá-la, conforme a vontade dele. Tudo foi prescrito: As paredes, a cobertura, os móveis, a decoração, até mesmo a roupa que os oficiantes vestiriam enquanto estivessem dentro dela. Usariam metais, madeiras, tecidos, e especiarias e o Espírito Santo os capacitaria como marceneiros, entalhadores, ourives, bordadores, perfumistas, etc.

A tenda seria a morada das tábuas da Lei de Deus, portando da Vontade de Deus e em última análise do próprio Deus. Nada mais natural, portanto que fosse construída e ornamentada conforme seu querer e caráter.

A tenda foi erigida e consagrada: “...Então, a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do SENHOR encheu o tabernáculo. Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do SENHOR enchia o tabernáculo... De dia, a nuvem do SENHOR repousava sobre o tabernáculo, e, de noite, havia fogo nela, à vista de toda a casa de Israel, em todas as suas jornadas” (Ex 40.34-38).

Esse sinal fantástico, fogo sobre a tenda da congregação, se repetirá sobre o Templo de Salomão, mas não sobre o Templo de Zorobabel.

-*-

Mal se tornaram cônscios de que Jesus havia recomeçado uma nova criação substituindo a que nosso pai Adão estragou, uma pequena multidão (cento e vinte?), reunidos em uma casa, viram aquele mesmo fogo descer sobre a cabeça de cada um. Cada um era um tabernáculo em que a Le ide Deus morava, não em tábuas de pedra, mas no coração como os profetas do Senhor falaram tantas vezes.

Mas, e os adornos dos quais o Senhor fizera tanta questão no primeiro tabernáculo? Estavam todos lá.

Em vez de pedras preciosas no peito, boas obras, em vez de linho branco, vidas santas. Em vez de estofo, paciência e longanimidade, etc.

Todos capacitados a fazer o que poucos fizeram. O Espírito agora não habitava com eles. Habitava neles.

Habita em nós!

Tudo era figura de algo superior que se cumpriria em Jesus e nos seria transmitido. Por essa razão é que Pedro ensina que o verdadeiro adorno é “o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus” (1Pe 3.4).

sábado, 25 de junho de 2011

Descriminalização das Drogas

Fui solicitado escrever sobre a inevitável descriminalização das drogas leves em nosso país. Minha opinião, tanto como cidadão quanto como pastor, já que procuro não dissociar tais atividades, até agora é totalmente contra. Entretanto, confesso que preciso conversar com irmãos mais sábios e envolvidos no problema.

Pessoalmente creio, que até mesmo a permissão de passeatas de convencimento é um erro, pois no fundo, no mínimo tais passeatas despertam a curiosidade para experimentá-las. E enquanto houver usuários, mesmo que experimentais, haverá tráfico.

Para se ter uma ideia do que acontecerá com a legalização das drogas basta ver o que está acontecendo com a indústria legalizada do tabaco. A luta contra o tabagismo e seus males consome a sociedade. Não consome a polícia e não provoca guerra e tiroteios, mas seria muito bom ver uma estatística que comparasse as mortes silenciosas causadas pelo tabaco com as mortes da guerra do tráfico.

Ouve-se que a maconha é menos danosa do que o tabaco. Será? Veja artigos como esse: “Brain Effects of Cannabis -- Neuroimaging Findings” (Os Efeitos da Maconha no Cérebro - Achados em Neuroimagens) que pode ser lido em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462005000100016&lng=en&nrm=iso&tlng=en

Mas, a Bíblia dá alguma orientação? Diretamente eu desconheço. Porém indiretamente, mudando o que deve ser mudado, há muitas se considerarmos a bebida.

É sabido que nos tempos bíblicos já se conhecia drogas ingeríveis ou aspiráveis, porém a única menção delas na Bíblia é a mistura de vinho e mirra que Marcos nos informa terem fornecido a Jesus na cruz, o que, com toda probabilidade, seria um entorpecente, mas ele recusou-se a tomar. Mas as Sagradas Escrituras, em diversos lugares (mais de 200 vezes), registram a palavra vinho. Com vinho Jesus estabeleceu um dos sacramentos da Nova Aliança.

Registram também o uso de “bebida forte” (18 vezes), que nos tempos do Antigo testamento era alguma bebida feita de grãos fermentados e nos tempos do Novo podia se referir tanto à bebidas fermentadas quanto à destiladas.

Porém, é significativo que tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, onde o vinho é usado como parte da alimentação caseira, se encontre muitas advertências contra a embriaguez. Por exemplo: “Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus” (1Co 6.9-10).

À luz da Bíblia, ficar debaixo de outro controle que não do Espírito de Deus - que realça o domínio próprio - é um pecado grave. Lembre-se de: “E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18).

Não há como questionar o uso medicinal de qualquer substância, pois tudo o que existe foi criado por Deus e usado em prol da vida, conforme o mandato cultural recebido pelo homem diretamente do Criador, não é apenas um direito, mas um dever. Porém, ser dominado por qualquer tipo de droga é contra o propósito básico da criação.

Portanto, o uso médico de qualquer tipo de substância (leve ou pesada) é bíblico, desejável e obrigatório à consciência de qualquer cristão, mas o abuso recreativo, hedonista, escapista, irresponsável, temerário e inconsequente, deve ser condenado. Tão culpável deve ser o consumidor que não o faz por necessidade terapêutica, quanto quem o abastece clandestinamente.

sábado, 18 de junho de 2011

Pentecostes (parte 2)

No domingo passado escrevi: “há pouco mais de um século a vergonha da Igreja foi institucionalizada no movimento pentecostal”. Alguns disseram que fui rude. Acho que não. Explico:

Na primeira carta à Igreja de Corinto, Paulo gasta os capítulos 12, 13 e 14 para instruí-los a respeito dos dons espirituais e já no final do capítulo 12 ele classifica em último lugar numa lista de importância.

No capítulo 13 (que hoje é erroneamente usado como apologia ao amor romântico) ele mostra o quanto o mau uso do dom de línguas é perigoso para a igreja e o quanto ele está ligado ao comportamento infantil: “quando eu era menino falava como menino”.

No capítulo 14 a ênfase na meninice é enorme: “Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos. Na lei está escrito: Falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas constituem um sinal não para os crentes, mas para os incrédulos” (14.20-22).

Ainda, no mesmo capítulo: “Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais loucos? Porém, se todos profetizarem, e entrar algum incrédulo ou indouto, é ele por todos convencido e por todos julgado; tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós” (23-25).

Vale lembrar que Corinto era uma cidade portuária. Mais do que isso: Possuía um canal que poupava a circum-navegação da península do Peloponeso, o que, dependendo do vento, poderia levar até dois dias. Para atrair os marujos que o usavam, a cidade oferecia gratuitamente muitos templos, com prostitutas cultuais, conforme os Deuses das muitas nações, cobrando caro por outros serviços.

Como anunciar o Evangelho a falantes de tantos idiomas? O Espírito Santo capacitava os membros daquela Igreja do mesmo modo como fez no Dia de Pentecostes. Entretanto, Paulo os exorta a que tenham cuidado para não escandalizarem indoutos e incrédulos. Marujos estrangeiros que eventualmente entrassem na igreja deveriam ouvir as grandezas de Deus “ordeira e decentemente” (14.40), em grupos de “dois ou quando muito três, e isto sucessivamente” (14.40) e com interprete para que toda Igreja saiba o que se está falando.

Duas conclusões se impõem:

1ª - Você se preocupa com evangelização? Cultue a Deus ordeira e decentemente e o resultado será a proclamação de que Deus está presente: Veja os versículos 24 e 25: “... é convencido e por todos julgado; tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós”.

2ª - Repare no oposto. Na confusão instalada. Qual é o julgamento que as Sagradas Escrituras autorizam que os incrédulos façam a respeito da Igreja? Não é que estão loucos? Entendeu por que razão eu creio que o movimento pentecostal (que está fazendo 100 anos) foi a institucionalização (com a permissão divina) da vergonha sobre a Igreja?

sábado, 11 de junho de 2011

Pentecostes

Por que razão Jesus treinaria onze homens durante três anos, toleraria suas infantilidades e disputas pela proeminência no Reino dos Céus, perdoar-lhes-ia a fuga diante do perigo e até mesmo a negação do mais obsequioso?

Por que, depois de tudo isso ainda se preocuparia em convencê-los de que havia mesmo ressuscitado, como lhes havia dito?

Por que, lhes mandaria, como testemunhas dessa ressureição, pelo mundo afora, após capacitá-los, mediante seu Espírito a falar os idiomas dos respectivos povos para as quais se dirigissem?

Pra que todo esse dispêndio de tempo, sofrimento e lutas se a missão deles, afinal de contas, se resumirá em pronunciar garatujas sonoras?

Mas, dirão: “quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” (1Co 14.2). Realmente. Isso acontecia todas as vezes quando, por exemplo, um chinês passava em Corinto (cidade portuária, cujo canal encurtava em muito as viagens de então) e um cristão, com o mesmo dom recebido no dia de Pentecostes o evangelizava de igual modo.

Objetarão: “O que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetiza edifica a igreja” (1Co 14.4). É óbvio, pois tal pessoa está perdendo uma excelente oportunidade de falar no idioma que a Igreja entenda. Por essa razão o mesmo Paulo escreveu: “Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua” (1Co 14.19).

Percebeu? O que fiz foi substituir a palavra língua (desvirtuada pelos pentecostais), pela palavra idioma. Faça isso como os demais textos. Aliás, perceba que a única igreja do Novo Testamento que apresentou problemas com o dom de línguas foi a de Igreja Corinto. Veja suas peculiaridades. Veja também como Paulo a trata: no mínimo os chama de meninos.

O Espírito Santo prepara homens que falam com poder e convicção, cujas palavras reverberam a própria Palavra de Deus. O inimigo é que enche o trigal de joio: enganadores, vendedores de promessas, mercadores do sagrado e exploradores de pessoas simples!

Há pouco mais de um século a vergonha da Igreja foi institucionalizada no movimento pentecostal. Os significados de algumas de palavras foram desvirtuados e a autoridade das Escrituras Sagradas foi solapada de tal forma que nem a Igreja Romana tinha ainda conseguido fazer.

No dia de hoje celebramos a concretização da promessa de Jesus e graças a ação do Espírito Santo ainda somos capazes de servir a Deus como ele quer.

E o dom de línguas?

Está em pleno uso pelos muitos tradutores e já não são mais apenas 14 nações que ouvem as grandezas de Deus. Só os Gideões Internacionais já distribuem a Bíblia em 93 línguas diferentes, mas há quem fale que ela já foi traduzida ao longo há história, em mais de 2000 línguas diferentes.

Louvado seja o Senhor. Já estamos fazendo coisas maiores do que ele mesmo fez, para sua glória e honra.

sábado, 4 de junho de 2011

Justiça pra que?

De tudo o que já li e ouvi, aprendi que o direito brasileiro se inspirou na corrente francesa que busca a ressocialização do condenado, diferentemente da corrente anglo-germânica que busca a reparação da injustiça cometida.

Ficando no que conheço de fato, posso afirmar que a Bíblia - especialmente o Antigo Testamento, onde esse assunto é mais claro, pois a legislação mosaica incluía a lei civil de Israel - busca mais a reparação da injustiça feita.

A lei mosaica era essencialmente retributiva. Jamais passaria na cabeça de um judeu daqueles dias que privar alguém de seu direito de andar pelas ruas seria punição suficiente para um assassino, estuprador ou ladrão. Aliás, eles desconheciam essa penalidade: não tinham prisões.

O que era furtado devia ser devolvido com acréscimo. O estupro de uma mulher descomprometida obrigava o estuprador a casar-se com ela sem direito de divórcio e o de uma mulher comprometida era punido com a morte. Mas eles não tinham carrascos: a comunidade coletivamente tirava a vida do assassino.

No caso do homicídio involuntário havia a provisão das cidades de refúgio, as quais não poderiam tolerar a presença de homicidas dolosos.

A pena de morte não era inovação de Moisés. Deus já havia ordenado a Noé: “A todo aquele que derramar sangue, tanto homem como animal, pedirei contas; a cada um pedirei contas da vida do seu próximo. Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus foi o homem criado” (Gn 9.5-6 NVI).

A legislação brasileira atual acredita que pode ressocializar alguém que matou seus pais, seus filhos ou matou a quem não comungava de suas ideias, raça, credo, etc. Crê tanto, que se for menor de 18 anos proíbe a divulgação de sua imagem e quando chega a maioridade, por pior que seja seu “currilculum mortae” é zerado para que ele comece vida nova.

A fé na ressocialização do criminoso é tão grande que a polícia só pode algemá-lo se ele representar algum perigo no ato de detenção e sua imagem deve ser resguardada mesmo depois de condenado.

Talvez isso explique por que um homem que presidia um organismo mundial, depois de acusado, tenha sido preso e exposto algemado ao mundo como um aviso de que o país que o prendeu está mais interessado na manutenção da socialização. De fato, naquele lugar o primeiro passo para a ressocialização é a vergonha de ser exposto como um marginal qualquer.

Não creio que as leis veterotestametárias devam ser aplicadas hoje. Jesus aboliu completamente o aspecto cúltico delas e cumprimos seu aspecto moral por que já somos salvos, não para o sermos. Afinal salvação não se compra. Entretanto nossos Símbolos de Fé ensinam que o aspecto civil delas deve ser refletido nas leis dos diversos países de que somos cidadãos. Daí surge a pergunta: Estão refletidas nas leis de nosso Brasil?

sábado, 28 de maio de 2011

Fato e sentimento

Pode, acaso, o etíope mudar sua pele
ou o leopardo, suas manchas?
Então, poderíeis fazer o bem,
estando acostumados a fazer o mal?
(Jeremias 13.23).

Nos dias do profeta Jeremias, como em até poucos anos, era muito difícil mudar-se as características da própria raça. Até hoje só vi uma pessoa que o fez. O conheci pela televisão ainda criança cantando com seus irmãos. Quando ficou jovem afinou cirurgicamente os traços do rosto e, não sei como, clareou a pele.

Conheci muitos inconformados com a cor negra da própria pele. Vi quem a amaldiçoasse declarando entre lágrimas o desejo de ter nascido branco.

Igualmente conheci brancos inconformados com o que em alguns estados do nordeste é chamado de fogoió e no sul de branco azedo, desejando, pelo menos, ser morenos.

Negros, morenos ou brancos, por mais que se pinte a pele ou se faça algum tratamento radical, como fez o finado cantor a que me referi, jamais deixarão de ser negros, morenos ou brancos. Assim foram criados por Deus e assim se apresentarão diante dele.

Atendo-me ao texto do profeta Jeremias vejo que o pecado está arraigado em nossas naturezas como a cor de nossa pele. Qualquer que seja o pecado. Livrar-nos de nossa natureza pecaminosa é tão difícil quanto um etíope livrar-se da cor de sua pele ou leopardo das manchas de sua pelagem. Ou seja: o pecado faz parte do que somos.

Alguém de tendência heterossexual, que respeita os propósitos “do desenho anatômico do Criador” pode desfrutar do que o próprio Criador previu: o casamento. Pois somente dentro do casamento o sexo deve ser consumado sem ferir os propósitos estabelecidos pelo Criador.

Alguém com tendência homossexual deve pedir ao próprio Criador que mude sua tendência e se case com alguém do sexo oposto, ou lhe conceda a graça de viver em santidade. Pois tanto a concupiscência heterossexual como a concupiscência homossexual são pecados.

***

Entretanto, o texto nos leva a outras considerações.

Costumamos desdenhar de quem se envergonha de ser negro e considera os brancos membros de uma raça superior. No mínimo o julgamos digno de dó.

Apoiamos as leis que garantem igualdade de tratamento e de oportunidade especialmente aos de pele negra que historicamente tiveram seus ancestrais explorados como escravos e até hoje são discriminados e aplaudimos leis que coagem os opressores a tratarem-nos como outro qualquer cidadão brasileiro.

Mas, paradoxalmente alguns que nascem homem e se sentem mulher, ou vice versa, ultimamente tem exigido o direito, às vezes de modo afrontoso, que a sociedade os trate conforme eles se sentem. Vão mais longe: reivindicam que o Estado os conceda direitos próprios de seu sentimento de ser.

Se por um lado, coerente e corretamente o Estado deve garantir os direitos dos que são discriminados racialmente, até que ponto o Estado é obrigado garantir os direitos dos que se sentem discriminados sexualmente? Enfatizo o sentir.

Desde quando o sentir pode ser comparado ao que é? A um fato que pode ser objetivamente aferido? Não bastaria ao Estado garantir os direitos individuais de qualquer cidadão independentemente do modo como ele se sente?

Dia desses vi um documentário sobre um homem que se sentia felino. Limou os dentes, aparou as unhas, cultivou o bigode e as sobrancelhas. Fez cirurgia plástica nos olhos, tratou o conjunto lábio superior e nariz para assemelhar-se mais a um felino. Bebia leite em pires. Fiquei pensando se muitos seguissem seu exemplo e resolvessem exigir tratamento de felino nos restaurantes, nas escolas, igrejas, etc? Como se não bastasse, resolvessem criminalizar quem não os reconhecesse como felinos.

Essa é a situação que vivemos.

O Estado já assegurou o direito de se unirem com pessoas de igual sentimento sexual e tudo o que decorre de tais uniões, como pensão, herança, previdência e até adoção de filhos.

Teria o Estado o direito de impor seus costumes, agenda, e modus operandi a toda sociedade? Especialmente aos que se recusam a concordar com eles, ou não se sentem como eles?

Teria o Estado o direito de obrigar as crianças, desde pequenas, a experimentar um pouco da vida que levam a fim de prevenir uma futura discriminação?

Justiça inclemente para quem os agride por se sentirem como se sentem. Justiça inclemente para quem agride a uma criança ou um idoso, ou a qualquer semelhante. Justiça, pois o efeito da justiça é sempre paz.

Justiça aqui, pois esta é apenas sombra da que o Juiz de toda terra exerce.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sal que não salga mais

Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal;

que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade;

põem o amargo por doce e o doce, por amargo!

(Isaías 5.20).

O profeta Isaías viveu em tempos parecidos com os nossos. Nasceu no reinado de Uzias, que, considerando os poucos recursos, foi melhor administrador do que Salomão. Entretanto desatinado pelo poder quis oficiar no templo, e provavelmente Isaías tenha sido um dos oitenta “homens da maior firmeza”, que apoiaram o sacerdote Azarias em impedi-lo.

Isaías acompanhou os reinados de seu filho, Jotão, e seu neto, Acaz. Este último idólatra a ponto de sacrificar os próprios filhos à Baal. E foi na época de Isaías que a Assíria cercou o Reino do Norte e levou cativos os que sobreviveram.

Isaías viu ainda seu bisneto, Ezequias, promover o primeiro grande reavivamento em Judá. Destruiu os santuários idólatras, purificou o templo e convocou todo Israel para celebração da Páscoa, que de tão concorrida teve de autorizar os levitas a ajudarem os sacerdotes.

Jerusalém era então a capital do território da tribo de Judá e mesmo sob a repressão de Ezequias e a visão do castigo de Deus sobre as onze tribos do Norte, a superstição grassava de tal modo que era mais fácil encontrar quem buscasse auxílio nos deuses das nações vizinhas do que no Eterno. Nesse ambiente - parecido com o nosso - foi que Isaías profetizou. Veja como as palavras acima se destacam.

Após falar dos cuidados do Senhor com Israel, como os cuidados de um viticultor com sua vinha dileta, seis “Ais” são pronunciados contra os perversos de então:

O primeiro (v8 a 10), contra a ganância, vista na especulação imobiliária. O segundo (v11 a 17), contra a corrupção dos costumes, vista na bebedice e nas rodas de escárnio. E o terceiro (v18 a 19) contra a corrupção religiosa, vista no questionamento da soberania de Deus.

Já o quarto, que encabeça este artigo (v20) contra a corrupção moral é visto na relativização dos valores.

O quinto (v21) contra a arrogância, vista na autopromoção. E o sexto (v22 a 25) contra a corrupção social, vista no tráfico de influência e no suborno.

Você há de concordar comigo que todos esses temas são atualíssimos e todos devem ser estudados com vagar. Porém, há muito tempo, o quarto ecoa em meus ouvidos.

Ecoou, quando ouvi um pretenso pastor dizer que Deus estava impotente - sequer sabia! - do tsunami que matou tantos na Indonésia no final de 2004. Qual sino, não para de badalar, sempre que há uma tragédia. Pior: convence a muitos.

Ecoou e ecoa todas as vezes que vejo o nome do Eterno sendo usado como mote de comércio, pretexto de lucro ou motivo de barganha. Templos transformados em casas de leilões, recintos outrora dedicados a seu reino transformados em bancas de feira.

Como poderia falar de míseras cartilhas que ensinam a falar e a escrever errado? No máximo as crianças que aprendem “nós foi” não conseguirão empregos decentes, enquanto essas outras correm risco eterno. Porém, o erro é essencialmente o mesmo: Ao amargo chamam doce e às trevas chamam luz. Ai deles!

Entretanto, temos de cuidar de nosso meio primeiro, pois “se o sal perder o sabor para nada mais serve, se não para, lançado fora, ser pisado pelos homens”.

Ontem, enquanto aguardava na fila fui panfletado por dois travestis que divulgavam uma peça teatral protagonizada por duas missionárias, um ministro e uma obreira. Passei o tempo de fila pensando e conclui: Esse é modo como Deus está limpando sua Igreja hoje. No passado foram as perseguições pelo sangue, hoje são as perseguições pela ideologia e pelo escárnio.

Cartilha com erros gramaticais será pouco. Cartilhas piores virão, toleramos um pouco de mundanismo, estamos colhendo terrível safra.

Que Deus tenha misericórdia de nós.

sábado, 14 de maio de 2011

Destruindo fundamentos

Nosso país já teve diversas Constituições. Duas recebemos prontas: a de 1824, que nos foi outorgada por D. Pedro I, e a de 1937, que recebemos de Getúlio Vargas. As demais, de 1891, de 1934, 46 e de 88, sob a qual vivemos hoje, foram promulgadas pelo Congresso Nacional.

Podemos dizer que as que nos foram outorgadas expressam a vontade de alguém ou de um grupo e as que foram promulgadas expressam a vontade de todos nós, especialmente se os constituintes foram eleitos para fazê-las e elas não foram emendadas à força como a de 1946 o foi pelo regime militar.

Hoje, 9/5/2011, no site do Palácio do Planalto, na página da Constituição, copiei o seguinte:

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.

§ 3º - Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.

Percebeu? A Constituição de 1988 diz que o Estado deve reconhecer a união entre homem e mulher! Note que a atual Constituição, feita por congresso eleito para fazê-la, promulgada pelo mesmo congresso em nosso nome, tão emendada que é difícil de ler seu texto original, mantém intacta esta parte que transcrevi.

Como então nossos mais ilustres juízes abrigaram debaixo deste texto tão claro a união de homem com homem e mulher com mulher?

Nossa corte maior não considera preponderante a diferença anatômica dos órgãos genitais para diferençar um homem de uma mulher.

Pelo que pude ouvir enquanto os ministros liam seus respectivos votos, parece que essa qualidade objetiva, foi substituída por outras como hormônios ou coisas subjetivas como preferência ou orientação sexual.

Há mais de 15 anos, desde o curso de Linguística, ouço: “A divisão por sexo já não dá conta das complexidades modernas. O problema deve ser resolvido com a divisão por gênero”.

Não era para ser assim!

As Sagradas Escrituras dizem que Deus nos criou homem e mulher e a cada sexo seu respectivo gênero. Quando nossos primeiros pais desobedeceram ao Criador perderam a harmonia com ele e com tudo o mais que ele havia criado inclusive com aquilo que constitui suas personalidades. E nós herdamos deles essa desarmonia.

O fato de termos herdado não nos isenta de culpa, pois nós a reforçamos. Pior: no caso específico nossos legisladores até tentaram abrandar um dos erros usando a solução dada pelo próprio Criador que é o casamento entre o homem e a mulher. Mas nossos juízes maiores resolveram que nossos legisladores e o próprio Criador erraram. Os mais soberanos juízes! Aqueles que juraram defender o que os legisladores escreveram e dos quais não existe a quem recorrer!

"Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?" (Sl 11.3).

Como cidadão não sei responder a essa pergunta. A quem posso recorrer contra um erro do Supremo Tribunal Federal? Começar colher assinaturas para uma nova emenda a constituição, que proíba a interpretação subjetiva das palavras homem e mulher? Não creio que consiga. Provavelmente teria o mesmo destino da moribunda Lei da Ficha Limpa.

Entretanto, como cristão, sei responder. Temos uma Constituição que não foi promulgada por nenhum congresso humano. Sequer foi outorgada. Foi imposta pela vontade daquele que chama a si mesmo de Senhor, e que, pela sua graça, concedida em seu Filho, nos deu o privilégio de chamá-lo de Pai.

Se os fundamentos de nossa cidadania estão sendo solapados, os fundamentos de nossa fé continuam mais firmes do que nunca, e podemos dizer confiantes: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações. Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares” (Sl 46.1-2).

Devemos obediência às autoridades constituídas, pois são ministros de Deus (mesmo que não tenham sido eleitas por nós, pois quando o Apóstolo Paulo deu esta ordem, a Igreja vivia debaixo dos césares) e é nossa obrigação orar por elas com sinceridade de coração. Peçamos ao juiz maior, que tem jurisdição sobre elas, a quem prestarão contas, que lhes seja misericordioso. Afinal sua Palavra é clara: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7).

sábado, 7 de maio de 2011

As loucuras de Deus

Deus criava caso com cada coisinha! Foi a reclamação de alguém ao me cumprimentar à saída da igreja depois de eu ter pregado sobre a festa dos pães asmos.

Fiquei convencido de que preguei um péssimo sermão ou de que ele dormiu (hipótese muito provável face as qualidades soporíferas de minha voz).

Ele não entendia por que, na Antiga Aliança, Deus proibia o uso do fermento durante uma semana no ano, e eu tentei mostrar que, como sombra de coisas superiores que viriam, Deus ensinou aos judeus como se corta os vínculos com o passado que tenta dominar o presente e afetar o futuro.

Hoje podemos comprar fermento nos supermercados e nos mercadinhos. Uma amiga me disse que a mãe dela o fazia em gamela de madeira com açúcar mascavo e farinha polvilhada antes de colocar a massa do pão para repousar coberta por um pano. Entretanto, naqueles dias, fazer fermento era algo complicadíssimo.

E a primeira lição começou na saída do Egito: A páscoa era o início da Festa dos Pães Asmos. Durante sete dias não podiam comer nada levedado. Portanto, do Egito não levaram fermento.

Primeira lição: Quem sai do Egito não leva seu fermento. O apóstolo Paulo aplica esta lição ao incestuoso de Corinto: “lançai fora o velho fermento”. Nem os ídolos do Egito nem os costumes pagãos de Corinto.

O que era permitido fazer no Egito não é mais permitido no arraial peregrino. O que era comum em Corinto - apesar de ser estranho entre os pagãos - sequer deve ser visto na Igreja.

A segunda lição foi dada por nosso Senhor ao advertir seus discípulos contra o fermento dos fariseus e saduceus e explicar que estava se referindo a doutrina e a hipocrisia deles. Ou seja: Até um discípulo que priva da intimidade do Senhor pode ser afetado pelo fermento desses grupos.

Os fariseus e os saduceus eram os principais grupos políticos-religiosos da época de Jesus. Dividiam o poder com outros grupos menores. E embora concordassem em poucos pontos doutrinários foram os responsáveis pela tradição tal como Jesus a encontrou.

Mais legalistas, os fariseus, estabeleciam medidas, regras, limites e costumes. Os saduceus aproveitavam o que lhes interessavam, pois a grande maioria deles era constituída de famílias sacerdotais muito ricas e interessadas em manter o status quo.

Da oração de um fariseu (Lc 18.12) sabemos que ele - e parece que os demais - jejuava duas vezes por semana, e da ordem que o Senhor dá de fazer isso secretamente (Mt 6.17), parece que era comum alardear para atrair admiração. Entretanto a Lei só exigia um jejum por ano! Apenas no dia da expiação. Ou seja: Eles multiplicaram por 100 a exigência da lei apenas para obter a admiração dos homens.

Essa tradição hipócrita deveria ser deixada de lado pelos discípulos de Jesus.

A lição para hoje é que após nos encontrarmos com Jesus, o verdadeiro cordeiro pascal, devemos proceder como faziam nossos antepassados e queimemos o velho fermento, para que ele não contamine nem nosso presente, muito menos nosso futuro, pois somos novas criaturas.

sábado, 30 de abril de 2011

Voltando a falar de pastores

Quando se lê as sete cartas do Apocalipse, partindo da pressuposição que elas foram escritas primariamente à pastores - o que espero que você tenha feito desde que comecei tratar deste assunto - muitas coisas mudam de aspecto.

Continuarei abordá-las depois, em outra fase. Porém, não posso deixar de falar no fim desta primeira sobre algo que salta aos olhos: o que os pastores pensam de si mesmos e o que Jesus pensa deles.

Talvez o caso mais claro seja o do pastor da igreja de Laodicéia: “...pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”. Veja: Aos próprios olhos ele era rico, abastado e independente, mas o Senhor o via nu, cego, pobre e miserável. O coitado sequer sabia que era infeliz.

Mas nem sempre o texto é tão claro.

O pastor da igreja de Éfeso parece ter sido um homem íntegro que via na fidelidade às verdades recebidas, e a perseverança nelas a qualquer custo, a realização de seu ministério. Talvez fosse o que hoje chamaríamos de conservador. Jesus o elogiou por isso, mas o criticou por esquecer-se da razão pela qual isso deve ser feito: o amor. O primeiro amor. O amor que tinha quando começou a fazer tais coisas.

Invertido é o caso do pastor da igreja de Esmirna. Provavelmente diríamos hoje que ele tinha “baixa autoestima”, ou então que as condições em que vivia não o permitiam pensar muito além do que o horizonte humano deixava. Entretanto o diagnóstico do Senhor é diferente: “mas tu és rico”. A riqueza que o Senhor mede não é a que enche as carteiras, como a dos depositantes do gazofilácio, mas a que transborda de corações como da viúva ou desse pastor anônimo, que tinha de suportar blasfemos, falsos judeus e satanistas.

Sobre o pastor da igreja de Pérgamo, a despeito de conservar o nome do Senhor em meio a dificuldades inimagináveis hoje, mantinha uma postura pluralista inclusivista, pois permitia em seu rebanho balaamitas e nicolaitas. A ordem do Senhor era clara: deveria se arrepender. Isso pressupõe que ele se orgulhava de ser conciliador de opostos pois os pecados dos balaamitas eram exatamente levar seu rebanho à idolatria.

O pastor da igreja de Tiatira, a despeito de suas muitas obras, que o qualificariam hoje como um homem piedoso, tem seu pecado é claramente mostrado como o da tolerância para com o erro, pois permitia um verdadeiro “copastorado” de uma mulher que se dizia profetiza mas agia como a rainha idolatra Jezabel. A ausência de repreensão direta a ele (pastor) e a intervenção direta de Jesus no rebanho com ameaças terríveis, me dá a impressão que ele tinha o que chamamos hoje de “falta de pulso”. Talvez tivesse de si mesmo um conceito fraco. Era um trabalhador, mas era fraco como o rei Acabe. Quem sabe essa seja outra razão para o Senhor chamar essa mulher de Jezabel.

Triste sina a do pastor da igreja de Sardes, que pode ser resumida em poucas palavras. Ele se imaginava vivo, mas o Senhor o via morto.

Outro pastor misterioso é o de Filadélfia, mas pelo lado bom. Parece que ele pensava de si próprio com moderação. Sabia que tinha pouca força e o Senhor lhe atestou isso. Também era assolado por falsos judeus e satanistas, mas guardou a palavra do Senhor.

Sete pastores, sete avaliações e parece que apenas um pensava concordemente com o Senhor. Cinco pensavam de si mais do que deveriam e o Senhor os repreendeu. O de Esmirna pensava aquém e o Senhor o animou.

Ainda bem que o Senhor Jesus anda no meio das igreja e tem na mão cada pastor. Assim ele interfere em seu rebanho e no pastoreio do mesmo. Assim ele cumpre sua própria promessa: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência” Jr 3.15.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Vencendo a Morte

Uma explicação inicial

Este Blog coleciona as mensagens que escrevo às ovelhas que o Senhor me mandou pastorear. O André foi uma delas.

Quando o conheci em 2004 era uma adolescente magrinho de corpo, mas enorme de inteligênciae idéias. Meio escanteado como o gordinho Mateus, como todos os que são diferentes e todos os que confiam na graça.

Todos os anos, às vésperas da semana santa, escrevo sobre o sacrifício de nosso Senhor. Entretanto, neste ano os acontecimentos me carregaram e não consegui impor minha rotina. Pensei também em escrever sobre a tragédia do Realengo, mas me senti chovendo no molhado, pois o que eu via, alguém já tinha visto antes de mim. Agora o André me ofereceu esta pérola de texto falando da tragédia e através dela mostrando a esperança da ressurreição.

Que texto bom!

Leiam. Eu li e chorei. Chorei por que vi a graça que salvou o gordinho Mateus e a graça que conduz o André.

Folton (um pastor pela graça de Deus, que se alegra quando suas ovelhas cescem na graça divina também).

 

Vencendo a Morte

Por André Eler

"Relaxa, gordinho, eu não vou te matar." Parece piada, mas essa é a crônica que mais me emocionou nessa que foi, provavelmente, a maior tragédia em ambiente escolar no Brasil. Pode parecer específico demais, mas é válido ressaltar este aspecto: trata-se de um lugar de aprendizado e, por isso, qualquer ato, como o que matou as dez meninas e dois meninos em Realengo, toma proporções ainda mais dramáticas. Escolas, lares e igrejas deveriam ser os lugares onde qualquer pessoa - e especialmente pessoas em formação - estivessem mais protegidas na face da terra.

Deveriam. E é por isso que, por mais que se critique a espetacularização da tragédia, são esses episódios inusitados que mais causam comoção no espaço público. É exatamente por lares, escolas e igrejas serem lugares tão próprios da vida privada que um ato que lhes tira a paz plena torna-se o tema preferido da comoção pública. A família, o ensino e a fé são direitos intocáveis. É isso que mais espanta. Os escândalos nesses três âmbitos nos fazem desacreditar no mundo.

Daí, ocorre-me o testemunho de Mateus, um moleque que tem muito mais a dizer do que qualquer especialista em psicologia de psicopatas. Ele disse que o atirador do Realengo dava tiros nas cabeças dos colegas. Ele pensou que fosse morrer. Pediu a Deus para que não morresse. Começou a orar - e um pouco de atenção aos falantes brasileiros nos dá a dimensão de que Mateus foi criado em um ambiente em que a fé cristã é primordial, provavelmente um lar evangélico da Zona Oeste do Rio. E orando, ouviu sua sentença: "Relaxa, gordinho, eu não vou te matar." Só uma boa dose de monstruosidade explica um massacre de adolescentes em uma escola de um bairro pobre. Mas nada explica por que um monstro dispensa favor ao gordinho. Que monstruosidade é essa que se compadece de alguém quando o vê se entregar a Deus? Por outro lado, que fé é essa que julga e condena a todos, e se consuma com o sangue de inocentes? Que tipo de doença produzem nossos conceitos equivocados da pureza do sacrifício de Cristo?

Talvez eu tenha me identificado com o Mateus. Eu também cria, aos 12, 13 anos, que uma oração às vezes tem poder quando não há nenhuma saída. Eu era um dos poucos gordinhos da turma. E também me sentia impotente em relação ao mundo. Só que Mateus me encanta mais pela forma como o destino lhe devolveu a vida. De graça, sem explicação, num ato de misericórdia de um coração onde parecia não haver misericórdia alguma - e não se enganem achando que isso torna o atirador melhor. Para as famílias dos que morreram, para os adolescentes e pais traumatizados e para a maioria de nós, indignados, o único conceito que explica o nosso próprio Columbine é a desgraça. Alguns, no entanto, percebem que desgraçados somos todos - por sermos propensos a praticar atos selvagens como os do atirador, ou por sermos incapazes de reagir a eles, ou por reagirmos tarde demais e salvando dezenas de adolescentes, como fez o sargento Alves, carregarmos o peso de doze mortes. É a esses que percebem o quanto somos mesmo desgraçados que o testemunho e o olhar de Mateus devolvem a esperança.

sábado, 16 de abril de 2011

Pastores (2ª parte)

Um amigo observou sobre o texto anterior: a autoridade que o Senhor admite que cada pastor tenha é muito grande. E disse: “se eu tivesse metade dela, nenhum Balaão, Nicolaíta ou Jezabel sequer se aproximaria da Igreja”.

Às vezes sou propenso em concordar. Mas será que Jesus está dirigindo-se a um pastor só, ou a todos os que são pastores de determinada igreja? Veja:

A primeira carta é dirigida ao Anjo da igreja de Éfeso. Esta igreja foi fundada pelo apóstolo Paulo durante sua terceira viagem missionária. Nela permaneceu por quase três anos. Sofreu tanto ali “ao ponto de desesperar até da própria vida” (2Co 1.8).

Continuando sua viagem em direção à Macedônia procurou deixa-la em boas mãos e ao retornar, passou perto o suficiente para encontrar-se com os presbíteros dela e recomendar “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28). Repare: Ela estava sendo pastoreada, por um grupo de presbíteros a quem Paulo diz que o Espírito Santo constituiu bispos. Eles a pastoreavam coletivamente.

Anos depois, Paulo mandou Timóteo para lá: “Quando eu estava de viagem, rumo da Macedônia, te roguei permanecesses ainda em Éfeso para admoestares a certas pessoas, a fim de que não ensinem outra doutrina, nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé” (1Tm 1.3-4).

Ora, se Timóteo permaneceu lá, a carta é dirigida a ele. Entretanto, faz mais sentido, para mim, que ela seja dirigida ao mesmo grupo (não aos mesmos indivíduos) a quem Paulo exortou na praia de Mileto.

Sei de igrejas em que um só pastor é o verdadeiro dono até dos imóveis e sei de igrejas em que o pastor não passa de um empregado. Por isso, apesar de endereçadas aos pastores, as cartas sempre terminam com a frase: “quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz as igrejas”.

Nem o pastor pode dizer, “eu tentei resolver aquele problema, mas o povo é rebelde”. Nem o povo pode dizer, “o pastor nunca nos disse que o Senhor não queria que fizéssemos isso”.

O Senhor ordenou a ele com voz alta e clara para que fosse ouvida por todos, pois suas ovelhas ouvem sua voz.

Como exemplo veja a igreja de Tiatira - sobre a mulher que se dizia profetiza, mas agia como Jezabel - o que o Senhor diz: “Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição. Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita. Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras” (Ap 2.21-23).

Notou? O Senhor a disciplinou diretamente. Não usou o pastor. E o fez como exemplo para todas as igrejas. Depois falou diretamente aos membros da igreja: “Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha” (Ap 2.34-25).

Jesus é o Senhor. Anda no meio das igrejas e tem na mão os pastores.

sábado, 9 de abril de 2011

Pastores

Quando Jesus ordenou a João que escrevesse às sete igrejas, endereçou cada carta do mesmo modo: “Ao anjo da igreja em ...”. Quem é esse anjo?
A primeira hipótese é de que se trate de um ser celestial, pois no livro há pelos menos 73 menções deles. A segunda hipótese é a personalização dos defeitos e qualidades de cada igreja, como se dissesse “Ao espírito da igreja tal”. E a terceira hipótese é de que se trate dos pastores daquelas igrejas.
Contra a primeira hipótese há muitos argumentos fortíssimos. Mas, por enquanto, basta um: se fosse um ser celestial, jamais o Senhor teria sequer algo contra ele como explicitamente tem, contra o anjo das Igrejas de Éfeso, Pergamo e Tiatira. Bastaria o que disse ao anjo de Sardes: “Não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus” e isso faria dele um demônio.
Contra a segunda hipótese também há diversos argumentos, mas também destaco um: como se haveria de admoestar, repreender ou elogiar uma tendência ou qualidade? Alguns dizem que Jesus está admoestando a igreja! Então por que dirigiu sua carta ao anjo dela?
Jesus está se referindo aos pastores (ou como se diz hoje: líderes). E aqui há o que temer e tremer.
1. Pastores podem ser zelosos de seus deveres e perseverantes nos mesmos como o foi o pastor da igreja de Éfeso. Modestos como o de Esmirna. Fiéis diante de lutas como o de Pérgamo. Perseverantes como o de Tiatira. Suficientes como o de Sardes. Eficientes como o de Filadélfia. Porém, tristemente tortos, ao ponto de provocar ânsias de vômito no Senhor Jesus, como o pastor de Laodicéia.
Cada um tem - com exceção do pastor de Laodicéia - uma qualidade destacada pelo Senhor. Em alguns de forma tão sutil, como no de Sardes, que é até difícil de ver. Noutros ela brilha com tal força que a própria modéstia, como a do pastor de Esmirna, não é capaz de cobrir. É o Senhor, com olhos como fogo que perscruta e julga. Ao de Sardes sentencia: “tens o nome de que vives e estás morto”.
2. Pastores podem ser a pior desgraça de um rebanho. Eles podem ser tolerantes. Isso soa terrível para nossos dias, mas é um dos pecados dos pastores listados aqui.
O pastor da igreja de Pérgamo tolerava os seguidores de Balaão e os nicolaítas. Já o pastor da igreja de Tiatira tolerava que uma mulher “que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos” (Ap 2.20).
O pastor da igreja de Laodicéia se julgava rico e abastado, mas era pobre, cego e nu. Morno, provocava ânsias de vômito no Senhor: deixava Jesus do lado de fora: excomungado.
Talvez o comportamento mais triste tenha sido o do pastor de Éfeso em quem a única qualidade que sobrou foi o ódio ao erro por ter esquecido de seu primeiro amor.
Deus abençoa sua igreja mediante muitas coisas e uma delas é o pastor que coloca para servi-la. Não é a toa que o apóstolo ordena: “Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil” (Hb 13.17 ERC)










sábado, 2 de abril de 2011

À Sombra do Onipotente

Ainda bem jovem, meu colega de serviço - mais velho do que eu - era um sujeito bem trapalhão. Boa pessoa, extrovertido e até bonachão, mas muito irresponsável. Certo dia fui a casa dele e fiquei surpreso com uma Bíblia aberta na mesa de centro. Ele me explicou que era uma simpatia que a esposa estava fazendo, antes que o ladrão, que entrara na casa do vizinho, entrasse na deles também.

A Bíblia estava aberta no Salmo 91. Segundo ele, pra ficar sob a sombra do Onipotente.

Anos depois, pastoreando em uma cidade pequena, após muita insistência, acedi aos pedidos de uma senhora e fui visitar seu filho quarentão, que apesar de ter sido criado na igreja, era mais conhecido pela vida devassa e blasfema. Estava internado e ia de mal a pior.

Logo que entrei no quarto fique surpreso com diversas manchas avermelhadas em seu corpo e um arranjo de almofadas na cabeceira da cama com uma Bíblia aberta, no Salmo 91.

Conversamos e concluí que eu não deveria ter visitado mesmo. Ele me ensinou a respeito do valor terapêutico de se repousar à sombra do Onipotente. E, como se eu não soubesse, se empenhou por me explicar que no Salmo 91, em hebraico, estão repetidos os quatro nomes de Deus. Sacrossantos! Discursava, para alegria da pobre mãe que o tinha por verdadeiro santo e dizia não saber por que seu filho padecia tanto na mão de uns médicos tão obtusos que não achavam a cura de seu mal.

Não saiu do hospital. Morreu lá mesmo.

Eu teria exemplos de pelo menos mais três outros usos bizarros do salmo 91.

Embora nos apropriemos indistintamente das promessas contidas neste Salmo ele foi cumprido em Jesus, e até Satanás sabe disso, pois ao tentar nosso Senhor, desafiando-o a saltar do pináculo do templo, ele citou os versículo 11 e 12 deste Salmo: “Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra”.

Não quero dizer que não devamos reafirmar nossa confiança em Deus mediante as belas e santas palavras deste Salmo, mas deploro o uso do mesmo como elemento de simpatias, magias, ou de fechamento de corpo como alguém que transcrevia o versículo 7 e o colocava por debaixo da roupa, sobre o coração, com medo de balas perdidas.

O segredo daquele que habita no esconderijo do Altíssimo está no versículo 14: Conhecer a Deus pelo nome e à ele se apegar com amor.

Conhecer a Deus pelo nome não é saber pronunciar IHWH, mas estar em Jesus Cristo, o verdadeiro Nome revelado de Deus e a manifestação completa de seu amor.

Neste Salmo há também uma figura que se realizou de forma notável em Jesus: Vendo Jerusalém, ele chorou e disse: “Quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes” (Lc 13.34).

Percebeu? Sob as asas de Jesus!

Agora veja o que o versículo 4 de nosso salmo promete: “Cobrir-te-á com as suas penas, e, sob suas asas, estarás seguro”.

Percebeu? Ficar à sombra do Altíssimo não é ficar à sombra de uma Bíblia aberta no Salmo 91, é ficar à sombra de Jesus.

sábado, 26 de março de 2011

Sobre datas e aniversários

A dificuldade para se estabelecer uma data – qualquer data – nos tempos bíblicos era muito grande. Maior ainda era a dificuldade para repeti-la anualmente.

Hoje vivemos cercados de calendários. Temos agendas eletrônicas que podem retroceder o calendário ao dia em que nascemos ou anteceder qualquer evento em anos e até fazer a conversão entre nosso calendário e o calendário chinês, o juliano, o judeu, etc.

Já não nos damos conta do quanto era complicado para um povo que não tinha sobre o que escrever, ou, se tivesse, dificilmente saberia como fazê-lo, pois, se, copiar qualquer texto já era uma tarefa difícil, imagine montar um calendário.

O calendário judeu era complicado por natureza: seus meses eram lunares, mas seu ano tinha de ser solar, pois as festas religiosas estavam ligadas ao plantio e a colheita.

A Páscoa devia ser celebrada antes do plantio do trigo e o Pentecostes após sua colheita.

Se seguissem os meses lunares jamais poderiam observar as datas estabelecidas pelo Senhor no capítulo 16 do Deuteronômio. Então, a cada dois anos, mais ou menos, em obediência às observações dos anciãos do templo, era acrescentado um mês inteiro ao calendário.

(Se hoje já brincamos com quem nasce em 29 de fevereiro, se comemorassem aniversários naquele tempo, o que fariam com quem nascesse nesse mês?)

Imagine alguém tentando calcular há quanto tempo determinada sinagoga foi inaugurada, ou quando uma família teve seu início.

As vezes fico pensando como é que alguém conseguiu calcular que o Tabernáculo foi concluído em 1º de abril de 1.461 a.C., ou que a crucificação de nosso Senhor tenha ocorrido em 15 de abril de 29. Especialmente considerando a quantidade de dias que já foram suprimidos ou acrescentados para mudarmos de calendários como mudamos, conforme já mostrei no boletim de 30/12/2005 (que pode ser lido aqui).

As datações que encontramos na Bíblia sempre são indiretas. Por exemplo: “No ano da morte do rei Uzias...” (Is 6.1), ou “No décimo oitavo ano do reinado de Josias...” (2Cr 35.19), ou ainda “E a tomaram ao fim de três anos, no ano sexto de Ezequias, que era o ano nono de Oséias, rei de Israel, quando tomaram Samaria” (2Re 18.10), simplesmente por que não havia um calendário amplamente usado como temos hoje.

Podemos dizer com alegria: hoje nossa igreja completa 43 anos desde sua organização.

Podemos até dizer que hoje, 27 de março de 2011, completamos 42 anos e 360 dias, ou 523 meses, ou ainda 15.700 dias. Nos dias bíblicos fazer isso era muito difícil.

Hoje temos a bênção de registrar com abundância e graças a Deus pudemos substituir os memoriais de pedra do passado por memoriais mais precisos e dizer: em 31 de março de 1968 um grupo de irmãos fundou na Ilha do Araújos uma igreja presbiteriana e hoje, quarenta e três anos depois, a despeito das lutas, ela continua presbiteriana, pois essa foi a identidade que recebeu e essa é a identidade que manterá até a volta de seu Senhor.

Que o Senhor continue a nos abençoar.

sábado, 19 de março de 2011

Profecias de Fim de Mundo

Sempre ouvi falar de terremotos e maremotos, mas não sei precisar a data em que ouvi a palavra tsunami.

Lembro-me de que depois de ouvi-la, pensando em seu significado (literalmente onda de porto) como sinônimo de onda de grandes proporções, imaginei que era um modismo. Afinal já conhecia maremoto. Então me explicaram que maremoto é consequência de um abalo sísmico e um tsunami pode ser causado até pela queda de um meteorito. No final de 2004 vi, através da televisão, o estrago que um tsunami pode fazer.

Lembro-me também de que quando eu era adolescente, impressionado com um livro sobre profecias, passei a pesquisar muitas estatísticas de terremotos. Eu desejava saber se o numero deles estava aumentando. Hoje vejo que o resultado, qualquer que seja, é inútil, por duas razões.

Primeira: sempre houve terremotos e tudo indica que sempre haverá. A sensação que temos de um número crescente deles decorre da maior cobertura da imprensa. Hoje temos canais de rádio e TV dedicados exclusivamente a notícias e tão ávidos por preencher pautas que divulgam até os pequenos tremores ocorridos em áreas desertas.

Ainda nessa primeira razão há que se considerar o aumento populacional. Nosso planeta possui atualmente uma população, pelo menos 6 mil vezes maior do que possuía à época em que nosso Senhor andava pelas estradas da Judéia. Portanto, um terremoto hoje é potencialmente mais letal.

A segunda razão decorre do fato de que nenhuma profecia fala do aumento da atividade sísmica, somos nós quem subentendemos isso. O discurso profético do Senhor, consistentemente anotado nos Evangelhos sinóticos fala simplesmente “haverá terremotos” ou “haverá grandes terremotos”. Não fala em aumento do número deles.

A ideia de aumento nos vem do contexto geral de tribulação a que nosso Senhor se referiu. E eu não duvido de que haja tribulação ou Grande Tribulação. Vou mais longe: não duvido de que já estejamos vivendo, há muito tempo, a Grande Tribulação. Entretanto, não consigo ver a tragédia japonesa como cumprimento de uma profecia específica.

Consigo sim ver sinais de alerta de que, a mais organizada, técnica, rica e poderosa sociedade humana representa nada diante de uma simples onda.

Consigo ver outros sinais. Por exemplo: “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; sobre a terra, angústia entre as nações em perplexidade por causa do bramido do mar e das ondas; haverá homens que desmaiarão de terror e pela expectativa das coisas que sobrevirão ao mundo; pois os poderes dos céus serão abalados” (Lc 21.25-26). Neste pequeno texto nosso Senhor destaca o efeito sobre os homens: angústia, perplexidade, terror e expectativa. E isso aumenta em nossos dias.

A tragédia japonesa, para mim, é um alerta a que consideremos nossa fragilidade. Um alerta eloquente que atingiu todos os ouvidos.

Parece Jesus dizendo: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.

sábado, 12 de março de 2011

A meretriz e a mãe

Duas mulheres se destacam no Apocalipse expressando conceitos totalmente opostos.

A meretriz que tem por montaria uma besta escarlate repleta de nomes de blasfêmia com sete cabeças e dez chifres. Veste-se de púrpura e de escarlata. Adorna-se de ouro, de pedras preciosas e de pérolas. Segura um cálice de ouro transbordante de abominações e de imundícias das suas prostituições. Na testa (uma tiara?) divulga seu nome: Babilônia, a Grande, a Mãe das Maretrizes e das Abominações da Terra. Embriaga-se com o sangue dos santos mártires de Jesus.

Após explicar a João que a besta, em quem ela monta, representa os reinos deste mundo, o anjo esclarece que a meretriz é a grande cidade que domina sobre eles.

Sempre houve uma cidade que fascina os poderosos e lhes nutre de poder e status. Talvez Babel tenha sido a primeira. Depois, até hoje, muitas formaram fila. Nos dias de João Roma era uma delas. Babilônia é apenas um arquétipo.

A meretriz vista por João é a síntese de tudo que, em todos os tempos, atrai e seduz o povo de Deus. Seduz com um cálice de ouro, como a prometer a mais deliciosa bebida, mas seu conteúdo é o próprio produto de suas prostituições: o conluio com os poderosos.

João está vendo o que ele mesmo chamou de a "concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida" (1Jo 2.16). A melhor figura: a que vende a si mesma. Ou seja: uma meretriz.

A outra mulher - que João viu antes - no céu, é uma parturiente. Ela veste-se do sol, pisa na lua, adorna-se com uma coroa de doze estrelas e grita sofrendo com dores de parto.

Enquanto ela se exaure dando à luz um filho que há de reger todas as nações, um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças diademadas e dez chifres, cuja cauda arrasta um terço das estrelas dos céus, aguarda para devorar-lhe o filho tão logo nasça. O filho nasce e é arrebatado para Deus e a mulher foge para o deserto, onde Deus lhe havia preparado refúgio.

Enquanto está segura, Miguel e seus anjos pelejaram contra o dragão e seu “um terço”. Venceram e os atiraram para a terra. Vendo-se na terra, o dragão perseguiu a mulher, que recebeu asas e voou até o deserto fora da vista do dragão.

Desde o dia em que Deus disse “porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15) até o nascimento de Jesus a principal ocupação de Satanás foi deter-se diante da linhagem da qual nasceria o Messias.

Quantos descendentes da mulher Deus arrebatou livrando-os das mãos do dragão? A família de Noé, Abraão, Isaque, Jacó, José, Moisés... Davi... O próprio Jesus da fúria de Herodes. João está vendo a luta da mulher através dos tempos e de como Deus a preservou em sua missão de mãe. Missão totalmente antagônica a missão da meretriz.

João também está vendo a luta do povo de Deus, sempre protegido por ele – alguns até mesmo arrebatados tão logo nascem – da sanha feroz do inimigo.

Mas também João vê a derrota do inimigo que arrasta consigo um terço dos anjos para lutar contra as forças de Deus. Tão logo, cumprindo a profecia ele se torne um descendente da mulher - adquira um calcanhar - o inimigo lutará para ferir mais do que isso, com todas as suas forças, antes que sua cabeça seja esmagada.

A mulher gloriosamente vestida, portanto não se trata de Maria em si, mas de todas aquelas que, durante todos os tempos – simbolizados aqui pelo sol, lua e estrelas – em meio as mais diversas dificuldades – simbolizadas aqui pelos sofrimentos do parto – conduziram seus filhos a uma vida de submissão ao Senhor em luta direta contra os ataques do dragão.

As duas mulheres apontam para a realização plena ou negação total da vontade de Deus. A mulher gloriosa a realiza inclusive concebendo filhos nos quais se materializam os planos do altíssimo. A meretriz nega a partir da subversão da maternidade e, seduz o povo de Deus a adorar àquele que se rebelou contra o Altíssimo.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Como Jesus vê suas Igrejas

O Senhor Jesus, como sacerdote e profeta, andando no meio de todas as Igrejas, determinou a João que escrevesse sete cartas a sete delas. Assim estaria escrevendo a todas, de todos os tempos e de todos os lugares, tal é a propriedade simbólica do número sete.

Entretanto, em cada uma das cartas há individualidade, pois cada igreja é conhecida intimamente.

Não há repreensão às igrejas de Esmirna e de Filadélfia, mas Jesus é claro em dizer que a única coisa que a igreja de Éfeso tinha a seu favor era o ódio que possuía aos nicolaítas. A favor da igreja de Pérgamo ele contara não lhe negar-lhe o nome, mesmo durante o martírio de Antipas. Já a igreja de Tiatira crescia em boas obras. A de Sardes possuía umas poucas pessoas que não se contaminaram. Entretanto, nada era favorável a igreja de Laodicéia. Ela era tão má que o Senhor sentia-se do lado de fora: excluído da ceia dela.

Irrepreensíveis, as igrejas de Esmirna e Filadélfia não tiveram erros apontados. Mas o erro da igreja de Éfeso foi ter abandonado seu primeiro amor. A de Pérgamo tolerou os que ensinavam as doutrinas de Balaão e dos nicolaítas. A de Tiatira deixava que uma autointitulada profetiza ensinasse e seduzisse os servos de Jesus a se prostituírem e comerem oferendas pagãs. Já a igreja de Sardes carecia de integridade no que apresentava a Deus e a de Laodicéia, de tão errada, provocava ânsias de vômito no Senhor.

A situação se inverte quanto vemos as qualidades destacadas por Jesus. Deixando de lado a Igreja de Laodicéia, em quem ele não vê qualquer uma - mas a amava ao ponto de declarar que a repreendia e disciplinava como prova de seu amor – na igreja de Éfeso ele destaca a perseverança. Na igreja de Esmirna, que se achava pobre, ele destaca a riqueza. Na igreja de Pérgamo, sediada onde estava o trono de Satanás, ele destaca firmeza, pois não negou a fé em meio a provações. Na de Tiatira viu algo a ser conservado e na igreja de Sardes, apesar de estar morta, atestou que ainda possuía algumas poucas pessoas dignas. Tendo tudo a seu favor a igreja de Filadélfia recebeu uma porta aberta diante de si que ninguém pôde nem poderá fechar.

Todas são alertadas a ouvir “o que o Espírito diz as igrejas”, mas cada uma recebe uma ameaça feita “sob medida”. A igreja de Éfeso é ameaçada de ser destruída. A de Esmirna foi advertida sobre “dez dias” de tribulação por vir. A de Pérgamo de ter seus membros infiéis perseguidos pelo próprio Jesus. A de Tiatira de ter seus membros infiéis perseguidos e mortos pelo Senhor Jesus. A de Sardes de receber uma correção surpresa do próprio Jesus. Filadélfia é admoestada a não por em risco sua coroa, e a de Laodicéia a humilhar-se e buscar nele - no próprio Jesus - riqueza, vestes e remédio para os olhos.

Muito só pode ser entendido à luz do contexto de cada igreja. Porém, o que quero colocar em destaque é: 1) Jesus tem direito de julgar se a Igreja está como ele quer. 2) A igreja tem o dever de conformar-se a vontade dele.

Nenhuma dessas igrejas existe mais. Aliás, nenhuma igreja do Novo Testamento existe mais (a menos que você considere o Vaticano como sucessor da igreja a quem Paulo escreveu a Carta aos Romanos. Se considerar tanto pior, pois ele terá muito que se corrigir para atender as demandas do Apóstolo naquela carta).

Como ameaçou a igreja de Éfeso Jesus fez à todas: Removeu o candeeiro. Destruiu!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Como João viu a Jesus

Amigo íntimo de Jesus, na última ceia João aconchegou-se a seu peito e encontrou Jesus ainda diversas vezes antes de sua ascensão, mas nunca com a mesma intimidade.

Soube do encontro de Saulo e da aparência de Jesus por ele descrita. João, anos depois, exilado em Patmos, viu a Jesus, de forma especial, pelo menos três vezes.

Na primeira vez que o viu ficou aterrorizado e se Saulo caiu cego, ele caiu como morto. João viu Jesus andando no meio de todas as igrejas, e vestindo roupas sacerdotais. Olhava de modo tão penetrante como fogo e andava descalço como todo sacerdote anda no lugar santo, porém pisava com a firmeza do bronze, e em vez de sussurrar – hábito dos sacerdotes para não revelar o nome de Deus – sua voz era como uma cachoeira e sua palavra cortante qual espada afiada. Em sua destra estavam os líderes das igrejas e seu rosto brilhava como sol em sua força. Tão logo o viu João foi ordenado escrever sete cartas às igrejas e atendeu o que lhe era ditado.

Aqui se destacam o ofício sacerdotal e o ofício profético de Jesus. Ele anda no meio das igrejas, sustenta o anjo de cada uma delas, prova, reprova, estimula, condena ou elogia a cada uma. Pode significar muito mais, porém certamente João está vendo Jesus glorificado, não quem o receberia com um abraço.

Na segunda vez João ficou surpreso. Jesus fora anunciado pelos anciãos como “o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, que venceu para abrir o livro e seus selos”, mas João viu um cordeiro. Pior: “como tendo sido morto”. Entretanto este cordeiro tinha “sete chifres, sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda terra”. Ao receber o livro da destra daquele que estava no trono, os seres celestiais e todos os salvos prostraram-se diante do cordeiro, e, com harpas e incensários repletos de orações de todos os eleitos, começaram a adorá-lo.

Nesta segunda visão se destacam o ofício real e o sacerdotal. Anuncia-se o rei, mas quem toma o livro é o sacerdote. João está vendo a encarnação do Senhor. Os selos que ele vai abrindo são suas vitórias subseqüentes bem como as tragédias sobre os vencidos.

Na terceira vez João ficou deslumbrado. Jesus estava montado num cavalo branco. Novamente seus olhos eram penetrantes como chama. Na sua cabeça havia muitos diademas e apesar de ser conhecido como Fiel e Verdadeiro, seu nome era conhecido apenas por ele mesmo e era Verbo de Deus. Sua roupa estava manchada de sangue e os exércitos do céu o seguiam vestidos de branco montados em cavalos brancos. De sua boca saía uma espada afiada com a qual feria as nações, às quais regerá com cetro de ferro e pessoalmente imporá o furor da ira de Deus. Escrito em seu manto e em sua coxa estava a frase REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES.

Nesta terceira visão o ofício profético está presente em seu nome e na arma que usa, mas o destaque maior é dado ao ofício real: ele reina sobre todos. Não apenas apascenta seu rebanho, mas impõe a ira de Deus sobre os inimigos. A mesma ira que caiu sobre ele na cruz.

Essas três visões significam muito mais. Porém, fundamentalmente dizem que o apostolo amado não viu a Jesus como o via na Judéia. Jesus não deixou sua natureza humana, mas retomou aquilo do que tinha se esvaziado quando se encarnou.

Ele não é mais aquele em quem se pode bater ou até fincar pregos. Agora ele é aquele que apenas à menção de seu nome todo joelho se dobra e toda língua diz: é o SENHOR.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cuidado Profético


No artigo da semana passada eu falei de cuidado profético como algo decorrente do ministério dos antigos profetas que ainda permanece nas águas do Rio "História da Redenção".

Ainda não me perguntaram o que quero dizer com isso, mas creio ser melhor me antecipar.

Apesar de alguns permanecerem anônimos, trinta e cinco pessoas são chamadas de profetas nas Escrituras Sagradas. Desses, apenas dezesseis deixaram profecias escritas.

Essas pessoas - e apenas eles - tiveram o privilégio de contemplar o curso deste rio (o Rio da “História da Redenção”). Deus concedeu-lhes a graça de ver antecipadamente os meandros, as cachoeiras e os remansos, e, apesar de também fazerem parte dele, integrando sua corrente, como que arrebatados ao alto, puderam vê-lo pela extensão que Deus quis mostrar.

O que viram ficou registrado nas Páginas Sagradas, e nos servem hoje de duas formas: 1) por analogia com situações semelhantes, 2) ou por terem visto até os dias de hoje ou além.

É neste contexto que o Apostolo Pedro nos exorta: "Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração” (2 Pe 1.19).

Observe que Pedro estava falando das Escrituras, e surpreendentemente após ter contado uma visão fantástica de Jesus glorificado, ao lado de Elias (um profeta que nada escreveu) e Moisés (primariamente legislador, mas também profeta).

O cuidado profético é, portanto o ato de verificar o que de análogo há hoje com os dias antigos, e o que, da resolução que Deus forneceu através de seus santos profetas, pode ser aplicada, e também que profecia ainda está sendo cumprida hoje.

Em suma: atender, examinar, perscrutar as Escrituras e aplicá-las ao nosso dia-a-dia, mantendo a analogia da Fé.

O Apóstolo Paulo foi bem claro ao falar desta segunda analogia quando escreveu à igreja de Roma em um período em que o Novo Testamento ainda não tinha sido formado e que, portanto o Espírito Santo servia-se das últimas nascentes do Rio História da Redenção (os profetas do Novo Testamento): “tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a analogia da fé” (Rm 12.6).

Embora nossas traduções brasileiras insistam na palavra “proporção” a ênfase deve ser dada não na quantidade, mas na correspondência entre o que o profeta da igreja primitiva falava, com o que o profeta bíblico havia escrito já que: “... não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2.19-21).

Hoje temos escritas as mensagens dos profetas (as últimas nascentes do rio “História da Redenção”) e as aplicamos. Permanecer no mesmo rio que os tem como afluentes é o que chamei de Cuidado Profético.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ainda o mesmo rio

Um rio que nasce nas montanhas, desce-as em cascatas e corredeiras, encorpa-se e muda de ambiente em grandes cachoeiras e depois deságua no oceano, de onde procede cada gota que o forma, serviu-me na semana passada de metáfora da História da Redenção.

Não usei uma figura desconhecida. A paisagem bíblica está cheia de rios. O Rio da Vida é citado no Gênesis e reaparece no Apocalipse, o salmista canta as corredeiras de um rio que alegram a cidade de Deus e a profecia de Ezequiel consuma-se num rio que nasce no templo do Senhor.

Fisicamente o Rio Jordão domina desde Josué até João Batista e não há como esquecer os rios estrangeiros: Nilo, Tigre, Eufrates e o pequeno Jaboque.

Porém há uma falha na metáfora. Enquanto o rio desce ao sabor do terreno e corre para onde a inclinação lhe favorece mais, a História de Redenção é traçada por Deus.

Aliás, até de um ponto de vista humano a história não é fortuita. Não ocorre ao acaso, nem está na mão dos homens, mas seus agentes a cumprem.

Ouvi alguém dizer que estamos vendo a história ser feita nos recentes acontecimentos do Egito. Concordo. Entretanto, o que está acontecendo lá é o desdobramento de um acontecimento menor: a reação de um vendedor de verduras na Tunísia à extorsão repetida de policiais corruptos. Tal reação se alastrou pelo norte da África como uma onda coordenada por uma mão invisível. E nós sabemos muito bem que mão é essa.

Se a história, como um rio, fluísse ao bel prazer da inclinação do terreno, tudo estaria como sempre esteve.

As águas do Rio “História da Redenção” originadas em nascentes de promessas e pactos, são engrossadas por muitos afluentes, mas especialmente pelos profetas, dos quais disse o SENHOR: “Desde o dia em que vossos pais saíram da terra do Egito até hoje, enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias; começando de madrugada, eu os enviei” (Jr 7.25).

Sempre houve profecias. E como todas as profecias procedem de Deus não existe coisa mais garantida ou certa do que uma profecia. A primeira foi dita pelo próprio Deus ao garantir que o descendente de Eva haveria de ferir a cabeça da serpente ainda que ela ferisse seu calcanhar: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15).

Deus continuou falando “muitas vezes e de muitos modos aos pais pelos profetas” e sua palavra continuou inquebrável e certa. Tão certa que falando dela o Senhor Jesus garantiu que ela era mais estável do que o céu e do que a terra. Estes poderiam passar. Ela não.

Curiosamente, não é isso que vemos em nossos dias.

Vi dois amigos se encontrando. Um cumprimentava o outro pelo sucesso obtido e o outro respondeu: “Continue profetizando. Profetize mais. Que aconteça dez por cento das profecias e estará bom”.

Veja: Profecia estava sendo tomada pelos dois como desejo de sucesso. E para os verdadeiros cristãos profecia é a certeza de algo que vai acontecer por que Deus determinou que acontecesse.

Deus mostrava ao profeta o Rio “História da Redenção” então ele podia dizer com certeza: haverá cativeiro, pois ele está vendo a “cachoeira” à frente dele. Ele podia dizer haverá tempo de paz, pois Deus o permitia ver o “traçado remansoso e caudaloso” do rio que se estendia pela planície adiante.

Profetizar, não é desejar. Profetizar não é brincar. Profetizar não é ter bons sentimentos. Jeremias sofria com o que tinha de dizer, pois Deus reservou a ele revelações amargas a dar a seus amigos e conhecidos.

Acima de tudo lembre-se de que os profetas pertenceram a um tempo próprio da História da Redenção. Não os espere encontrar hoje. Aliás, desconfie de quem se apresenta assim.

O “cuidado profético” ainda está presente no meio do Povo de Deus – afinal o rio ainda tem a mesma água que veio das nascentes – mas, como já nos aproximamos da foz e os afluentes já ficaram pra trás, a época de Elias, Isaías, Daniel, até mesmo a de João Batista, já passou.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Diversas fases de um mesmo rio

DSCF1005 (800x450)

Há quantos anos o Rio Caparaó corre por esse vale? Não tenho ideia. Certamente muitos.

Suas nascentes vão se ajuntando e quando ele passa no lugar fotografado acima, e forma esta bela corredeira, já caiu em belas cachoeiras. Mais abaixo, na cidade, encorpado e remansoso, recebe águas de ruas e até esgotos e continua correndo em direção ao Rio Itabapoana e finalmente ao mar.

Há certa analogia com a História da Redenção, que embora tenha apenas uma nascente – nosso Senhor Jesus Cristo – corre em direção à sua consumação, passando por cachoeiras, corredeiras, remansos, recebendo as sujeiras das muitas religiões e cosmovisões humanas, persiste em direção ao seu próprio autor.

Como o rio tem seus lugares bem definidos a História da Redenção também. Cachoeiras são próprias de ambientes de montanhas, de grandes variações de altitude e de quedas bruscas. Corredeiras, por sua vez, são encontradas em declives acentuados e rochosos. Já as planícies, com pouco declive, são propícias a apresentar as águas calmas.

Assim foi e continua sendo a História da Salvação. Sua nascente, na promessa feita a Adão, foi seguida de mais turbulências do que as nascentes do Rio Caparaó.

Verdadeiras quedas vertiginosas até hoje impressionam a quem lê sobre a vida dos antediluvianos, dos Patriarcas ou da peregrinação no deserto.

A partir da posse da Terra Prometida, tanto no tempo dos juízes quanto no tempo dos reis, a semelhança com corredeiras é muito grande. É nesse tempo que aparecem os profetas. Especialmente no tempo dos reis. Como se os profetas fosse a “consciência dos reis” já que estes levavam o Povo de Deus a fazer o que os povos vizinhos faziam.

De repente uma grande cachoeira – qual rio que muda de ambiente topográfico: o Povo de Deus foi levado para um cativeiro do qual só voltam 70 anos mais tarde, sem o vigor de outrora. Anos mais tarde instala-se um período remansoso de 400 amos, que passará a história com o nome de “o silêncio profético” no qual mais do que cativos serão verdadeiros joguetes de diversas nações.

De repente, outra grande cachoeira – outro ambiente totalmente novo – nasce o maior profeta: o precursor. Seis meses depois nasce o Messias. A Redenção Chegou.

Começou a nova fase do rio. A última fase. A fase em que vivemos.

Como não esperamos nascentes próximas da foz de um rio, por que razão ainda há quem pense na repetição de eventos próprios do nascedouro da História da Redenção às vésperas de sua consumação?

sábado, 15 de janeiro de 2011

Aperfeiçoado (Parte final)

Estando ele em Jerusalém,
durante a Festa da Páscoa,
muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome;
mas o próprio Jesus
não se confiava a eles,
porque os conhecia a todos.
E não precisava de que alguém
lhe desse testemunho
a respeito do homem,
porque ele mesmo sabia
o que era a natureza humana.
(João 2.23-25)

Costumamos ler este texto pensando no conhecimento divino de Jesus. Entretanto, levando em conta o que eu escrevi nestes últimos domingos, gostaria de lhe convidar a pensar que, seus sofrimentos desde o berço, a rotina de uma vida corriqueira com poucos acontecimentos dignos de nota e a incompreensão familiar, contribuíram em muito para que ele também tivesse desenvolvido o discernimento no sentido humano: aquele com que diríamos a mesma frase a respeito de alguém.

Para o Senhor deve ter sido impressionante chefiar uma família de, pelo menos, seis irmãos – se, de fato, seu Pai morreu – assumindo as necessidades de casa através do trabalho da carpintaria.

Por favor, não pense em móveis. Talvez até ele os fizesse, mas o trabalho principal de um tekton (de onde vem nossa palavra arquiteto) era construir.

Ele deve ter levantado muitas colunas e assentado muitas vergas, umbrais e vigas. Preparado muitas coberturas para receber o enchimento de barro e betume que se usava então como telhado.

Quantas casas ele fez? Quantas empreitadas o pechincharam? Quantas seu coração generoso deixou barato? Quantos calotes levou aquele que estava destinado a levar o maior calote do mundo?

A chefia da oficina – e o perdão de eventuais devedores – deve ter sido o início dos desentendimentos com seus irmãos. Chefiar, perdoar e ser incompreendido está de acordo com sua índole e com sua missão. Lembre-se de que nós mesmos - que hoje sabemos de tudo - ousamos, por vezes discordar, de suas decisões.

Não obstante, seu trabalho continua sendo o mesmo de toda eternidade: preparar-nos lugar.

O Senhor se fez servo – servo dos servos – para que nós os verdadeiros servos fôssemos feitos filhos, “por isso, é que ele não se envergonha de lhes chamar irmãos” (Hb 2.11).

Eu espero que você tenha percebido minha intenção de mostrar, nesses quatro artigos, o quando nosso Senhor foi exposto às vicissitudes desta vida e o quanto isso o levou a entender nossas dificuldades ao ponto de poder interceder perfeitamente por nós.

É a isso que o escritor da Carta aos Hebreus chama de aperfeiçoar. Não que – como alguns doidos dizem – ele não fosse perfeito. Mesmo antes de adquirir nossa natureza, Ele era perfeito em tudo, mas para ser o verdadeiro Cordeiro de Deus ele tinha de se tornar semelhante a nós, e ele nunca havia sofrido o que o sábio chamou de: “enfadonho trabalho [que] impôs Deus aos filhos dos homens, para nele os afligir” (Ec 1.13).

Ele já era o sacerdote perfeito. Tornou-se, pelos sofrimentos, a oferta perfeita.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Aperfeiçoado (Parte 3)

Recebo em aconselhamento muitas pessoas que culpam suas famílias por seus erros. Às vezes dizem: “pastor, com a família que tenho não dá pra levar uma vida cristã”.

Nosso Senhor também passou por problemas semelhantes e entende tais dificuldades. E por ter vivido tais problemas sabe até que ponto uma desculpa como essa é verdadeira.

Como toda família de então a família de Jesus esperava que ele, como filho primogênito resgatado aos quarenta dias quando seus pais o levaram ao templo, se casasse e constituísse sua própria família, para que os irmãos mais novos fizessem o mesmo.

Com a morte de seu pai - o que parece ter acontecido no início de sua juventude - isso era verdadeira obrigação, pois ao primogênito cabia cuidar da mãe e das irmãs solteiras. Afinal, para isso é que ele recebia metade da herança.

Entretanto, Jesus chegou solteiro aos 30 anos, abandonou a oficina, saiu de casa e foi morar em Cafarnaum. Marcos registra: “Então, ele foi para casa. Não obstante, a multidão afluiu de novo, de tal modo que nem podiam comer. E, quando os parentes de Jesus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si” (Mc 3.20-21).

A atividade de Jesus causava certa vergonha a seus familiares. E se há dúvida sobre quem eram os parentes que vieram prender a Jesus, o restante do texto esclarece: “Nisto, chegaram sua mãe e seus irmãos e, tendo ficado do lado de fora, mandaram chamá-lo. Muita gente estava assentada ao redor dele e lhe disseram: Olha, tua mãe, teus irmãos e irmãs estão lá fora à tua procura. Então, ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos? E, correndo o olhar pelos que estavam assentados ao redor, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mc 2.31-35).

Percebeu? Os parentes eram sua mãe (silêncio sobre seu pai), seus irmãos e irmãs.

João, o evangelista, cuja família tinha parentesco com a de Jesus, é mais explícito sobre essas lutas familiares: “Dirigiram-se, pois, a ele os seus irmãos e lhe disseram: Deixa este lugar e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque ninguém há que procure ser conhecido em público e, contudo, realize os seus feitos em oculto. Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. Pois nem mesmo os seus irmãos criam nele” (Jo 7.3-5).

As lutas familiares se intensificaram com a morte de José e com a recusa de Jesus em assumir o papel tradicional que era esperado dele. Seus irmãos o viam como um simples “magico” em busca de fama e a família se desestruturou a tal ponto que, na cruz, o Senhor deixou sua mãe aos cuidados de João.

Entretanto, parece que a história acaba bem: Paulo diz que Tiago era irmão de Jesus (Gl 1.19), e que foi convertido pelo próprio Jesus após ressuscitar (1Co 15.7), embora ele mesmo apresente-se apenas como “servo de Deus e do Senhor Jesus”.

Judas – o outro irmão de Jesus - também se apresenta como “servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago”. Quanto a José e a Simão, os outros irmãos nomeados por Mateus e Marcos, a Bíblia nada fala sobre eles muito menos sobre as irmãs.

Mas a melhor de todas as notícias é que ele sabe, por experiência própria, o que é desentendimento familiar. E hoje podemos compreender melhor a afirmação bíblica: “Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna” (Hb 4.15).

domingo, 2 de janeiro de 2011

Aperfeiçoado (2ª Parte)

Hoje, domingo, tradicionalmente relembramos o dia da circuncisão do Senhor, e Lucas a descreve atestando assim sua participação neste sacramento da Antiga Aliança: “Completados oito dias para ser circuncidado o menino, deram-lhe o nome de JESUS, como lhe chamara o anjo, antes de ser concebido” (Lc 2.21). Porém, Lucas dá mais ênfase a um acontecimento posterior: Seus pais o perderam em uma peregrinação à Jerusalém.

Todo judeu devia comparecer a uma das três grandes festas anuais: Páscoa, Pentecostes ou Tabernáculos e Lucas diz: “anualmente iam seus pais a Jerusalém, para a Festa da Páscoa. Quando ele atingiu os doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa.” (Lc 2.41-42).

No sabath imediatamente posterior à data em que o rapaz fazia 13 anos e um dia, lhe era - e ainda é - concedido o privilégio de ler, na sinagoga, a Torah (o que nós protestantes chamamos de Pentatêuco). Quando isso acontecia, aquele adolescente passava a ser considerado um “Filho do Mandamento” (em hebraico um Bar Mitzvah).

Ao fim da leitura o pai erguia os braços e dizia “Bendito és tu Senhor do céu e da terra que tiraste de mim a responsabilidade deste menino”. A partir de então o garoto já era considerado homem e tinha quase todos os direitos e deveres de um adulto, especialmente de compor o miniam (quórum de 10 pessoas necessário a uma reunião judaica).

Então, era comum o pai levar seu filho às páscoas precedentes para que ele se acostumasse. Provavelmente foi o que aconteceu a Jesus.

As conversas que com outros garotos devem ter atraído a atenção de rabinos que buscavam alunos e ele logo se envolveu em debates com rabinos doutos na lei. Enquanto isso seus pais voltavam supondo que ele estivesse com amigos.

Não é difícil imaginar o desespero de Maria ao perceber sua falta. Primeiro procurou entre “os parentes e conhecidos; e não o tendo encontrado voltaram a Jerusalém”. Foi a primeira vez em que Maria o perdeu por três dias.

Encontraram-no assentado no meio dos rabinos doutos na Lei ouvindo, interrogando, respondendo e causando admiração por sua inteligência. A admiração, causada também nos pais, foi superada pela indignação de Maria: - Por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos estávamos a tua procura.

E Jesus mostrou que já tinha conhecimento de quem era e da missão que tinha, pois refere-se, na frente de seu pai José, ao outro Pai: - Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?

Lucas encerra este episódio - que certamente ouviu de Maria - com as seguintes palavras: “Não compreenderam, porém, as palavras que lhes dissera. E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso. Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas no coração. E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (2.50-52). Esta é a última vez que ouvimos falar de José.

José deve ter vivido tempo suficiente para ensinar-lhe o ofício de construtor (como eu prefiro traduzir tektonos), mas tenho a impressão de que, à exemplo do que ocorreu na cruz - quando Jesus cortou seus vínculos filiais com Maria entregando-a aos cuidados de João - os laços de paternidade humana com José foram quebrados nessa ocasião. Sendo essa uma das razões para Lucas narrar tal episódio, já que o Bar Mitzvah de Jesus seria um ou dois anos depois.

Quando me perguntam por que os Evangelhos deixam lacunas tão grandes na biografia de Jesus, geralmente eu respondo: por que a vida dele foi normal. Tirando esses pequenos episódios foi corriqueira (aquela que todos vivemos e que aperfeiçoa nosso caráter) ao ponto de, mais tarde, espantar seus vizinhos: “Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto?” (Mt 13.55-56).

Ainda sobre Carnaval

Nesta semana que passou a internet “viralizou” um vídeo de um carnavalesco comparando um desfile de uma escola de samba com um despacho de m...