sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sal que não salga mais

Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal;

que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade;

põem o amargo por doce e o doce, por amargo!

(Isaías 5.20).

O profeta Isaías viveu em tempos parecidos com os nossos. Nasceu no reinado de Uzias, que, considerando os poucos recursos, foi melhor administrador do que Salomão. Entretanto desatinado pelo poder quis oficiar no templo, e provavelmente Isaías tenha sido um dos oitenta “homens da maior firmeza”, que apoiaram o sacerdote Azarias em impedi-lo.

Isaías acompanhou os reinados de seu filho, Jotão, e seu neto, Acaz. Este último idólatra a ponto de sacrificar os próprios filhos à Baal. E foi na época de Isaías que a Assíria cercou o Reino do Norte e levou cativos os que sobreviveram.

Isaías viu ainda seu bisneto, Ezequias, promover o primeiro grande reavivamento em Judá. Destruiu os santuários idólatras, purificou o templo e convocou todo Israel para celebração da Páscoa, que de tão concorrida teve de autorizar os levitas a ajudarem os sacerdotes.

Jerusalém era então a capital do território da tribo de Judá e mesmo sob a repressão de Ezequias e a visão do castigo de Deus sobre as onze tribos do Norte, a superstição grassava de tal modo que era mais fácil encontrar quem buscasse auxílio nos deuses das nações vizinhas do que no Eterno. Nesse ambiente - parecido com o nosso - foi que Isaías profetizou. Veja como as palavras acima se destacam.

Após falar dos cuidados do Senhor com Israel, como os cuidados de um viticultor com sua vinha dileta, seis “Ais” são pronunciados contra os perversos de então:

O primeiro (v8 a 10), contra a ganância, vista na especulação imobiliária. O segundo (v11 a 17), contra a corrupção dos costumes, vista na bebedice e nas rodas de escárnio. E o terceiro (v18 a 19) contra a corrupção religiosa, vista no questionamento da soberania de Deus.

Já o quarto, que encabeça este artigo (v20) contra a corrupção moral é visto na relativização dos valores.

O quinto (v21) contra a arrogância, vista na autopromoção. E o sexto (v22 a 25) contra a corrupção social, vista no tráfico de influência e no suborno.

Você há de concordar comigo que todos esses temas são atualíssimos e todos devem ser estudados com vagar. Porém, há muito tempo, o quarto ecoa em meus ouvidos.

Ecoou, quando ouvi um pretenso pastor dizer que Deus estava impotente - sequer sabia! - do tsunami que matou tantos na Indonésia no final de 2004. Qual sino, não para de badalar, sempre que há uma tragédia. Pior: convence a muitos.

Ecoou e ecoa todas as vezes que vejo o nome do Eterno sendo usado como mote de comércio, pretexto de lucro ou motivo de barganha. Templos transformados em casas de leilões, recintos outrora dedicados a seu reino transformados em bancas de feira.

Como poderia falar de míseras cartilhas que ensinam a falar e a escrever errado? No máximo as crianças que aprendem “nós foi” não conseguirão empregos decentes, enquanto essas outras correm risco eterno. Porém, o erro é essencialmente o mesmo: Ao amargo chamam doce e às trevas chamam luz. Ai deles!

Entretanto, temos de cuidar de nosso meio primeiro, pois “se o sal perder o sabor para nada mais serve, se não para, lançado fora, ser pisado pelos homens”.

Ontem, enquanto aguardava na fila fui panfletado por dois travestis que divulgavam uma peça teatral protagonizada por duas missionárias, um ministro e uma obreira. Passei o tempo de fila pensando e conclui: Esse é modo como Deus está limpando sua Igreja hoje. No passado foram as perseguições pelo sangue, hoje são as perseguições pela ideologia e pelo escárnio.

Cartilha com erros gramaticais será pouco. Cartilhas piores virão, toleramos um pouco de mundanismo, estamos colhendo terrível safra.

Que Deus tenha misericórdia de nós.

sábado, 14 de maio de 2011

Destruindo fundamentos

Nosso país já teve diversas Constituições. Duas recebemos prontas: a de 1824, que nos foi outorgada por D. Pedro I, e a de 1937, que recebemos de Getúlio Vargas. As demais, de 1891, de 1934, 46 e de 88, sob a qual vivemos hoje, foram promulgadas pelo Congresso Nacional.

Podemos dizer que as que nos foram outorgadas expressam a vontade de alguém ou de um grupo e as que foram promulgadas expressam a vontade de todos nós, especialmente se os constituintes foram eleitos para fazê-las e elas não foram emendadas à força como a de 1946 o foi pelo regime militar.

Hoje, 9/5/2011, no site do Palácio do Planalto, na página da Constituição, copiei o seguinte:

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.

§ 3º - Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.

Percebeu? A Constituição de 1988 diz que o Estado deve reconhecer a união entre homem e mulher! Note que a atual Constituição, feita por congresso eleito para fazê-la, promulgada pelo mesmo congresso em nosso nome, tão emendada que é difícil de ler seu texto original, mantém intacta esta parte que transcrevi.

Como então nossos mais ilustres juízes abrigaram debaixo deste texto tão claro a união de homem com homem e mulher com mulher?

Nossa corte maior não considera preponderante a diferença anatômica dos órgãos genitais para diferençar um homem de uma mulher.

Pelo que pude ouvir enquanto os ministros liam seus respectivos votos, parece que essa qualidade objetiva, foi substituída por outras como hormônios ou coisas subjetivas como preferência ou orientação sexual.

Há mais de 15 anos, desde o curso de Linguística, ouço: “A divisão por sexo já não dá conta das complexidades modernas. O problema deve ser resolvido com a divisão por gênero”.

Não era para ser assim!

As Sagradas Escrituras dizem que Deus nos criou homem e mulher e a cada sexo seu respectivo gênero. Quando nossos primeiros pais desobedeceram ao Criador perderam a harmonia com ele e com tudo o mais que ele havia criado inclusive com aquilo que constitui suas personalidades. E nós herdamos deles essa desarmonia.

O fato de termos herdado não nos isenta de culpa, pois nós a reforçamos. Pior: no caso específico nossos legisladores até tentaram abrandar um dos erros usando a solução dada pelo próprio Criador que é o casamento entre o homem e a mulher. Mas nossos juízes maiores resolveram que nossos legisladores e o próprio Criador erraram. Os mais soberanos juízes! Aqueles que juraram defender o que os legisladores escreveram e dos quais não existe a quem recorrer!

"Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?" (Sl 11.3).

Como cidadão não sei responder a essa pergunta. A quem posso recorrer contra um erro do Supremo Tribunal Federal? Começar colher assinaturas para uma nova emenda a constituição, que proíba a interpretação subjetiva das palavras homem e mulher? Não creio que consiga. Provavelmente teria o mesmo destino da moribunda Lei da Ficha Limpa.

Entretanto, como cristão, sei responder. Temos uma Constituição que não foi promulgada por nenhum congresso humano. Sequer foi outorgada. Foi imposta pela vontade daquele que chama a si mesmo de Senhor, e que, pela sua graça, concedida em seu Filho, nos deu o privilégio de chamá-lo de Pai.

Se os fundamentos de nossa cidadania estão sendo solapados, os fundamentos de nossa fé continuam mais firmes do que nunca, e podemos dizer confiantes: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações. Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares” (Sl 46.1-2).

Devemos obediência às autoridades constituídas, pois são ministros de Deus (mesmo que não tenham sido eleitas por nós, pois quando o Apóstolo Paulo deu esta ordem, a Igreja vivia debaixo dos césares) e é nossa obrigação orar por elas com sinceridade de coração. Peçamos ao juiz maior, que tem jurisdição sobre elas, a quem prestarão contas, que lhes seja misericordioso. Afinal sua Palavra é clara: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7).

sábado, 7 de maio de 2011

As loucuras de Deus

Deus criava caso com cada coisinha! Foi a reclamação de alguém ao me cumprimentar à saída da igreja depois de eu ter pregado sobre a festa dos pães asmos.

Fiquei convencido de que preguei um péssimo sermão ou de que ele dormiu (hipótese muito provável face as qualidades soporíferas de minha voz).

Ele não entendia por que, na Antiga Aliança, Deus proibia o uso do fermento durante uma semana no ano, e eu tentei mostrar que, como sombra de coisas superiores que viriam, Deus ensinou aos judeus como se corta os vínculos com o passado que tenta dominar o presente e afetar o futuro.

Hoje podemos comprar fermento nos supermercados e nos mercadinhos. Uma amiga me disse que a mãe dela o fazia em gamela de madeira com açúcar mascavo e farinha polvilhada antes de colocar a massa do pão para repousar coberta por um pano. Entretanto, naqueles dias, fazer fermento era algo complicadíssimo.

E a primeira lição começou na saída do Egito: A páscoa era o início da Festa dos Pães Asmos. Durante sete dias não podiam comer nada levedado. Portanto, do Egito não levaram fermento.

Primeira lição: Quem sai do Egito não leva seu fermento. O apóstolo Paulo aplica esta lição ao incestuoso de Corinto: “lançai fora o velho fermento”. Nem os ídolos do Egito nem os costumes pagãos de Corinto.

O que era permitido fazer no Egito não é mais permitido no arraial peregrino. O que era comum em Corinto - apesar de ser estranho entre os pagãos - sequer deve ser visto na Igreja.

A segunda lição foi dada por nosso Senhor ao advertir seus discípulos contra o fermento dos fariseus e saduceus e explicar que estava se referindo a doutrina e a hipocrisia deles. Ou seja: Até um discípulo que priva da intimidade do Senhor pode ser afetado pelo fermento desses grupos.

Os fariseus e os saduceus eram os principais grupos políticos-religiosos da época de Jesus. Dividiam o poder com outros grupos menores. E embora concordassem em poucos pontos doutrinários foram os responsáveis pela tradição tal como Jesus a encontrou.

Mais legalistas, os fariseus, estabeleciam medidas, regras, limites e costumes. Os saduceus aproveitavam o que lhes interessavam, pois a grande maioria deles era constituída de famílias sacerdotais muito ricas e interessadas em manter o status quo.

Da oração de um fariseu (Lc 18.12) sabemos que ele - e parece que os demais - jejuava duas vezes por semana, e da ordem que o Senhor dá de fazer isso secretamente (Mt 6.17), parece que era comum alardear para atrair admiração. Entretanto a Lei só exigia um jejum por ano! Apenas no dia da expiação. Ou seja: Eles multiplicaram por 100 a exigência da lei apenas para obter a admiração dos homens.

Essa tradição hipócrita deveria ser deixada de lado pelos discípulos de Jesus.

A lição para hoje é que após nos encontrarmos com Jesus, o verdadeiro cordeiro pascal, devemos proceder como faziam nossos antepassados e queimemos o velho fermento, para que ele não contamine nem nosso presente, muito menos nosso futuro, pois somos novas criaturas.

sábado, 30 de abril de 2011

Voltando a falar de pastores

Quando se lê as sete cartas do Apocalipse, partindo da pressuposição que elas foram escritas primariamente à pastores - o que espero que você tenha feito desde que comecei tratar deste assunto - muitas coisas mudam de aspecto.

Continuarei abordá-las depois, em outra fase. Porém, não posso deixar de falar no fim desta primeira sobre algo que salta aos olhos: o que os pastores pensam de si mesmos e o que Jesus pensa deles.

Talvez o caso mais claro seja o do pastor da igreja de Laodicéia: “...pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”. Veja: Aos próprios olhos ele era rico, abastado e independente, mas o Senhor o via nu, cego, pobre e miserável. O coitado sequer sabia que era infeliz.

Mas nem sempre o texto é tão claro.

O pastor da igreja de Éfeso parece ter sido um homem íntegro que via na fidelidade às verdades recebidas, e a perseverança nelas a qualquer custo, a realização de seu ministério. Talvez fosse o que hoje chamaríamos de conservador. Jesus o elogiou por isso, mas o criticou por esquecer-se da razão pela qual isso deve ser feito: o amor. O primeiro amor. O amor que tinha quando começou a fazer tais coisas.

Invertido é o caso do pastor da igreja de Esmirna. Provavelmente diríamos hoje que ele tinha “baixa autoestima”, ou então que as condições em que vivia não o permitiam pensar muito além do que o horizonte humano deixava. Entretanto o diagnóstico do Senhor é diferente: “mas tu és rico”. A riqueza que o Senhor mede não é a que enche as carteiras, como a dos depositantes do gazofilácio, mas a que transborda de corações como da viúva ou desse pastor anônimo, que tinha de suportar blasfemos, falsos judeus e satanistas.

Sobre o pastor da igreja de Pérgamo, a despeito de conservar o nome do Senhor em meio a dificuldades inimagináveis hoje, mantinha uma postura pluralista inclusivista, pois permitia em seu rebanho balaamitas e nicolaitas. A ordem do Senhor era clara: deveria se arrepender. Isso pressupõe que ele se orgulhava de ser conciliador de opostos pois os pecados dos balaamitas eram exatamente levar seu rebanho à idolatria.

O pastor da igreja de Tiatira, a despeito de suas muitas obras, que o qualificariam hoje como um homem piedoso, tem seu pecado é claramente mostrado como o da tolerância para com o erro, pois permitia um verdadeiro “copastorado” de uma mulher que se dizia profetiza mas agia como a rainha idolatra Jezabel. A ausência de repreensão direta a ele (pastor) e a intervenção direta de Jesus no rebanho com ameaças terríveis, me dá a impressão que ele tinha o que chamamos hoje de “falta de pulso”. Talvez tivesse de si mesmo um conceito fraco. Era um trabalhador, mas era fraco como o rei Acabe. Quem sabe essa seja outra razão para o Senhor chamar essa mulher de Jezabel.

Triste sina a do pastor da igreja de Sardes, que pode ser resumida em poucas palavras. Ele se imaginava vivo, mas o Senhor o via morto.

Outro pastor misterioso é o de Filadélfia, mas pelo lado bom. Parece que ele pensava de si próprio com moderação. Sabia que tinha pouca força e o Senhor lhe atestou isso. Também era assolado por falsos judeus e satanistas, mas guardou a palavra do Senhor.

Sete pastores, sete avaliações e parece que apenas um pensava concordemente com o Senhor. Cinco pensavam de si mais do que deveriam e o Senhor os repreendeu. O de Esmirna pensava aquém e o Senhor o animou.

Ainda bem que o Senhor Jesus anda no meio das igreja e tem na mão cada pastor. Assim ele interfere em seu rebanho e no pastoreio do mesmo. Assim ele cumpre sua própria promessa: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência” Jr 3.15.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Vencendo a Morte

Uma explicação inicial

Este Blog coleciona as mensagens que escrevo às ovelhas que o Senhor me mandou pastorear. O André foi uma delas.

Quando o conheci em 2004 era uma adolescente magrinho de corpo, mas enorme de inteligênciae idéias. Meio escanteado como o gordinho Mateus, como todos os que são diferentes e todos os que confiam na graça.

Todos os anos, às vésperas da semana santa, escrevo sobre o sacrifício de nosso Senhor. Entretanto, neste ano os acontecimentos me carregaram e não consegui impor minha rotina. Pensei também em escrever sobre a tragédia do Realengo, mas me senti chovendo no molhado, pois o que eu via, alguém já tinha visto antes de mim. Agora o André me ofereceu esta pérola de texto falando da tragédia e através dela mostrando a esperança da ressurreição.

Que texto bom!

Leiam. Eu li e chorei. Chorei por que vi a graça que salvou o gordinho Mateus e a graça que conduz o André.

Folton (um pastor pela graça de Deus, que se alegra quando suas ovelhas cescem na graça divina também).

 

Vencendo a Morte

Por André Eler

"Relaxa, gordinho, eu não vou te matar." Parece piada, mas essa é a crônica que mais me emocionou nessa que foi, provavelmente, a maior tragédia em ambiente escolar no Brasil. Pode parecer específico demais, mas é válido ressaltar este aspecto: trata-se de um lugar de aprendizado e, por isso, qualquer ato, como o que matou as dez meninas e dois meninos em Realengo, toma proporções ainda mais dramáticas. Escolas, lares e igrejas deveriam ser os lugares onde qualquer pessoa - e especialmente pessoas em formação - estivessem mais protegidas na face da terra.

Deveriam. E é por isso que, por mais que se critique a espetacularização da tragédia, são esses episódios inusitados que mais causam comoção no espaço público. É exatamente por lares, escolas e igrejas serem lugares tão próprios da vida privada que um ato que lhes tira a paz plena torna-se o tema preferido da comoção pública. A família, o ensino e a fé são direitos intocáveis. É isso que mais espanta. Os escândalos nesses três âmbitos nos fazem desacreditar no mundo.

Daí, ocorre-me o testemunho de Mateus, um moleque que tem muito mais a dizer do que qualquer especialista em psicologia de psicopatas. Ele disse que o atirador do Realengo dava tiros nas cabeças dos colegas. Ele pensou que fosse morrer. Pediu a Deus para que não morresse. Começou a orar - e um pouco de atenção aos falantes brasileiros nos dá a dimensão de que Mateus foi criado em um ambiente em que a fé cristã é primordial, provavelmente um lar evangélico da Zona Oeste do Rio. E orando, ouviu sua sentença: "Relaxa, gordinho, eu não vou te matar." Só uma boa dose de monstruosidade explica um massacre de adolescentes em uma escola de um bairro pobre. Mas nada explica por que um monstro dispensa favor ao gordinho. Que monstruosidade é essa que se compadece de alguém quando o vê se entregar a Deus? Por outro lado, que fé é essa que julga e condena a todos, e se consuma com o sangue de inocentes? Que tipo de doença produzem nossos conceitos equivocados da pureza do sacrifício de Cristo?

Talvez eu tenha me identificado com o Mateus. Eu também cria, aos 12, 13 anos, que uma oração às vezes tem poder quando não há nenhuma saída. Eu era um dos poucos gordinhos da turma. E também me sentia impotente em relação ao mundo. Só que Mateus me encanta mais pela forma como o destino lhe devolveu a vida. De graça, sem explicação, num ato de misericórdia de um coração onde parecia não haver misericórdia alguma - e não se enganem achando que isso torna o atirador melhor. Para as famílias dos que morreram, para os adolescentes e pais traumatizados e para a maioria de nós, indignados, o único conceito que explica o nosso próprio Columbine é a desgraça. Alguns, no entanto, percebem que desgraçados somos todos - por sermos propensos a praticar atos selvagens como os do atirador, ou por sermos incapazes de reagir a eles, ou por reagirmos tarde demais e salvando dezenas de adolescentes, como fez o sargento Alves, carregarmos o peso de doze mortes. É a esses que percebem o quanto somos mesmo desgraçados que o testemunho e o olhar de Mateus devolvem a esperança.

sábado, 16 de abril de 2011

Pastores (2ª parte)

Um amigo observou sobre o texto anterior: a autoridade que o Senhor admite que cada pastor tenha é muito grande. E disse: “se eu tivesse metade dela, nenhum Balaão, Nicolaíta ou Jezabel sequer se aproximaria da Igreja”.

Às vezes sou propenso em concordar. Mas será que Jesus está dirigindo-se a um pastor só, ou a todos os que são pastores de determinada igreja? Veja:

A primeira carta é dirigida ao Anjo da igreja de Éfeso. Esta igreja foi fundada pelo apóstolo Paulo durante sua terceira viagem missionária. Nela permaneceu por quase três anos. Sofreu tanto ali “ao ponto de desesperar até da própria vida” (2Co 1.8).

Continuando sua viagem em direção à Macedônia procurou deixa-la em boas mãos e ao retornar, passou perto o suficiente para encontrar-se com os presbíteros dela e recomendar “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28). Repare: Ela estava sendo pastoreada, por um grupo de presbíteros a quem Paulo diz que o Espírito Santo constituiu bispos. Eles a pastoreavam coletivamente.

Anos depois, Paulo mandou Timóteo para lá: “Quando eu estava de viagem, rumo da Macedônia, te roguei permanecesses ainda em Éfeso para admoestares a certas pessoas, a fim de que não ensinem outra doutrina, nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé” (1Tm 1.3-4).

Ora, se Timóteo permaneceu lá, a carta é dirigida a ele. Entretanto, faz mais sentido, para mim, que ela seja dirigida ao mesmo grupo (não aos mesmos indivíduos) a quem Paulo exortou na praia de Mileto.

Sei de igrejas em que um só pastor é o verdadeiro dono até dos imóveis e sei de igrejas em que o pastor não passa de um empregado. Por isso, apesar de endereçadas aos pastores, as cartas sempre terminam com a frase: “quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz as igrejas”.

Nem o pastor pode dizer, “eu tentei resolver aquele problema, mas o povo é rebelde”. Nem o povo pode dizer, “o pastor nunca nos disse que o Senhor não queria que fizéssemos isso”.

O Senhor ordenou a ele com voz alta e clara para que fosse ouvida por todos, pois suas ovelhas ouvem sua voz.

Como exemplo veja a igreja de Tiatira - sobre a mulher que se dizia profetiza, mas agia como Jezabel - o que o Senhor diz: “Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição. Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita. Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras” (Ap 2.21-23).

Notou? O Senhor a disciplinou diretamente. Não usou o pastor. E o fez como exemplo para todas as igrejas. Depois falou diretamente aos membros da igreja: “Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha” (Ap 2.34-25).

Jesus é o Senhor. Anda no meio das igrejas e tem na mão os pastores.

sábado, 9 de abril de 2011

Pastores

Quando Jesus ordenou a João que escrevesse às sete igrejas, endereçou cada carta do mesmo modo: “Ao anjo da igreja em ...”. Quem é esse anjo?
A primeira hipótese é de que se trate de um ser celestial, pois no livro há pelos menos 73 menções deles. A segunda hipótese é a personalização dos defeitos e qualidades de cada igreja, como se dissesse “Ao espírito da igreja tal”. E a terceira hipótese é de que se trate dos pastores daquelas igrejas.
Contra a primeira hipótese há muitos argumentos fortíssimos. Mas, por enquanto, basta um: se fosse um ser celestial, jamais o Senhor teria sequer algo contra ele como explicitamente tem, contra o anjo das Igrejas de Éfeso, Pergamo e Tiatira. Bastaria o que disse ao anjo de Sardes: “Não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus” e isso faria dele um demônio.
Contra a segunda hipótese também há diversos argumentos, mas também destaco um: como se haveria de admoestar, repreender ou elogiar uma tendência ou qualidade? Alguns dizem que Jesus está admoestando a igreja! Então por que dirigiu sua carta ao anjo dela?
Jesus está se referindo aos pastores (ou como se diz hoje: líderes). E aqui há o que temer e tremer.
1. Pastores podem ser zelosos de seus deveres e perseverantes nos mesmos como o foi o pastor da igreja de Éfeso. Modestos como o de Esmirna. Fiéis diante de lutas como o de Pérgamo. Perseverantes como o de Tiatira. Suficientes como o de Sardes. Eficientes como o de Filadélfia. Porém, tristemente tortos, ao ponto de provocar ânsias de vômito no Senhor Jesus, como o pastor de Laodicéia.
Cada um tem - com exceção do pastor de Laodicéia - uma qualidade destacada pelo Senhor. Em alguns de forma tão sutil, como no de Sardes, que é até difícil de ver. Noutros ela brilha com tal força que a própria modéstia, como a do pastor de Esmirna, não é capaz de cobrir. É o Senhor, com olhos como fogo que perscruta e julga. Ao de Sardes sentencia: “tens o nome de que vives e estás morto”.
2. Pastores podem ser a pior desgraça de um rebanho. Eles podem ser tolerantes. Isso soa terrível para nossos dias, mas é um dos pecados dos pastores listados aqui.
O pastor da igreja de Pérgamo tolerava os seguidores de Balaão e os nicolaítas. Já o pastor da igreja de Tiatira tolerava que uma mulher “que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos” (Ap 2.20).
O pastor da igreja de Laodicéia se julgava rico e abastado, mas era pobre, cego e nu. Morno, provocava ânsias de vômito no Senhor: deixava Jesus do lado de fora: excomungado.
Talvez o comportamento mais triste tenha sido o do pastor de Éfeso em quem a única qualidade que sobrou foi o ódio ao erro por ter esquecido de seu primeiro amor.
Deus abençoa sua igreja mediante muitas coisas e uma delas é o pastor que coloca para servi-la. Não é a toa que o apóstolo ordena: “Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil” (Hb 13.17 ERC)










sábado, 2 de abril de 2011

À Sombra do Onipotente

Ainda bem jovem, meu colega de serviço - mais velho do que eu - era um sujeito bem trapalhão. Boa pessoa, extrovertido e até bonachão, mas muito irresponsável. Certo dia fui a casa dele e fiquei surpreso com uma Bíblia aberta na mesa de centro. Ele me explicou que era uma simpatia que a esposa estava fazendo, antes que o ladrão, que entrara na casa do vizinho, entrasse na deles também.

A Bíblia estava aberta no Salmo 91. Segundo ele, pra ficar sob a sombra do Onipotente.

Anos depois, pastoreando em uma cidade pequena, após muita insistência, acedi aos pedidos de uma senhora e fui visitar seu filho quarentão, que apesar de ter sido criado na igreja, era mais conhecido pela vida devassa e blasfema. Estava internado e ia de mal a pior.

Logo que entrei no quarto fique surpreso com diversas manchas avermelhadas em seu corpo e um arranjo de almofadas na cabeceira da cama com uma Bíblia aberta, no Salmo 91.

Conversamos e concluí que eu não deveria ter visitado mesmo. Ele me ensinou a respeito do valor terapêutico de se repousar à sombra do Onipotente. E, como se eu não soubesse, se empenhou por me explicar que no Salmo 91, em hebraico, estão repetidos os quatro nomes de Deus. Sacrossantos! Discursava, para alegria da pobre mãe que o tinha por verdadeiro santo e dizia não saber por que seu filho padecia tanto na mão de uns médicos tão obtusos que não achavam a cura de seu mal.

Não saiu do hospital. Morreu lá mesmo.

Eu teria exemplos de pelo menos mais três outros usos bizarros do salmo 91.

Embora nos apropriemos indistintamente das promessas contidas neste Salmo ele foi cumprido em Jesus, e até Satanás sabe disso, pois ao tentar nosso Senhor, desafiando-o a saltar do pináculo do templo, ele citou os versículo 11 e 12 deste Salmo: “Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra”.

Não quero dizer que não devamos reafirmar nossa confiança em Deus mediante as belas e santas palavras deste Salmo, mas deploro o uso do mesmo como elemento de simpatias, magias, ou de fechamento de corpo como alguém que transcrevia o versículo 7 e o colocava por debaixo da roupa, sobre o coração, com medo de balas perdidas.

O segredo daquele que habita no esconderijo do Altíssimo está no versículo 14: Conhecer a Deus pelo nome e à ele se apegar com amor.

Conhecer a Deus pelo nome não é saber pronunciar IHWH, mas estar em Jesus Cristo, o verdadeiro Nome revelado de Deus e a manifestação completa de seu amor.

Neste Salmo há também uma figura que se realizou de forma notável em Jesus: Vendo Jerusalém, ele chorou e disse: “Quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes” (Lc 13.34).

Percebeu? Sob as asas de Jesus!

Agora veja o que o versículo 4 de nosso salmo promete: “Cobrir-te-á com as suas penas, e, sob suas asas, estarás seguro”.

Percebeu? Ficar à sombra do Altíssimo não é ficar à sombra de uma Bíblia aberta no Salmo 91, é ficar à sombra de Jesus.

sábado, 26 de março de 2011

Sobre datas e aniversários

A dificuldade para se estabelecer uma data – qualquer data – nos tempos bíblicos era muito grande. Maior ainda era a dificuldade para repeti-la anualmente.

Hoje vivemos cercados de calendários. Temos agendas eletrônicas que podem retroceder o calendário ao dia em que nascemos ou anteceder qualquer evento em anos e até fazer a conversão entre nosso calendário e o calendário chinês, o juliano, o judeu, etc.

Já não nos damos conta do quanto era complicado para um povo que não tinha sobre o que escrever, ou, se tivesse, dificilmente saberia como fazê-lo, pois, se, copiar qualquer texto já era uma tarefa difícil, imagine montar um calendário.

O calendário judeu era complicado por natureza: seus meses eram lunares, mas seu ano tinha de ser solar, pois as festas religiosas estavam ligadas ao plantio e a colheita.

A Páscoa devia ser celebrada antes do plantio do trigo e o Pentecostes após sua colheita.

Se seguissem os meses lunares jamais poderiam observar as datas estabelecidas pelo Senhor no capítulo 16 do Deuteronômio. Então, a cada dois anos, mais ou menos, em obediência às observações dos anciãos do templo, era acrescentado um mês inteiro ao calendário.

(Se hoje já brincamos com quem nasce em 29 de fevereiro, se comemorassem aniversários naquele tempo, o que fariam com quem nascesse nesse mês?)

Imagine alguém tentando calcular há quanto tempo determinada sinagoga foi inaugurada, ou quando uma família teve seu início.

As vezes fico pensando como é que alguém conseguiu calcular que o Tabernáculo foi concluído em 1º de abril de 1.461 a.C., ou que a crucificação de nosso Senhor tenha ocorrido em 15 de abril de 29. Especialmente considerando a quantidade de dias que já foram suprimidos ou acrescentados para mudarmos de calendários como mudamos, conforme já mostrei no boletim de 30/12/2005 (que pode ser lido aqui).

As datações que encontramos na Bíblia sempre são indiretas. Por exemplo: “No ano da morte do rei Uzias...” (Is 6.1), ou “No décimo oitavo ano do reinado de Josias...” (2Cr 35.19), ou ainda “E a tomaram ao fim de três anos, no ano sexto de Ezequias, que era o ano nono de Oséias, rei de Israel, quando tomaram Samaria” (2Re 18.10), simplesmente por que não havia um calendário amplamente usado como temos hoje.

Podemos dizer com alegria: hoje nossa igreja completa 43 anos desde sua organização.

Podemos até dizer que hoje, 27 de março de 2011, completamos 42 anos e 360 dias, ou 523 meses, ou ainda 15.700 dias. Nos dias bíblicos fazer isso era muito difícil.

Hoje temos a bênção de registrar com abundância e graças a Deus pudemos substituir os memoriais de pedra do passado por memoriais mais precisos e dizer: em 31 de março de 1968 um grupo de irmãos fundou na Ilha do Araújos uma igreja presbiteriana e hoje, quarenta e três anos depois, a despeito das lutas, ela continua presbiteriana, pois essa foi a identidade que recebeu e essa é a identidade que manterá até a volta de seu Senhor.

Que o Senhor continue a nos abençoar.

sábado, 19 de março de 2011

Profecias de Fim de Mundo

Sempre ouvi falar de terremotos e maremotos, mas não sei precisar a data em que ouvi a palavra tsunami.

Lembro-me de que depois de ouvi-la, pensando em seu significado (literalmente onda de porto) como sinônimo de onda de grandes proporções, imaginei que era um modismo. Afinal já conhecia maremoto. Então me explicaram que maremoto é consequência de um abalo sísmico e um tsunami pode ser causado até pela queda de um meteorito. No final de 2004 vi, através da televisão, o estrago que um tsunami pode fazer.

Lembro-me também de que quando eu era adolescente, impressionado com um livro sobre profecias, passei a pesquisar muitas estatísticas de terremotos. Eu desejava saber se o numero deles estava aumentando. Hoje vejo que o resultado, qualquer que seja, é inútil, por duas razões.

Primeira: sempre houve terremotos e tudo indica que sempre haverá. A sensação que temos de um número crescente deles decorre da maior cobertura da imprensa. Hoje temos canais de rádio e TV dedicados exclusivamente a notícias e tão ávidos por preencher pautas que divulgam até os pequenos tremores ocorridos em áreas desertas.

Ainda nessa primeira razão há que se considerar o aumento populacional. Nosso planeta possui atualmente uma população, pelo menos 6 mil vezes maior do que possuía à época em que nosso Senhor andava pelas estradas da Judéia. Portanto, um terremoto hoje é potencialmente mais letal.

A segunda razão decorre do fato de que nenhuma profecia fala do aumento da atividade sísmica, somos nós quem subentendemos isso. O discurso profético do Senhor, consistentemente anotado nos Evangelhos sinóticos fala simplesmente “haverá terremotos” ou “haverá grandes terremotos”. Não fala em aumento do número deles.

A ideia de aumento nos vem do contexto geral de tribulação a que nosso Senhor se referiu. E eu não duvido de que haja tribulação ou Grande Tribulação. Vou mais longe: não duvido de que já estejamos vivendo, há muito tempo, a Grande Tribulação. Entretanto, não consigo ver a tragédia japonesa como cumprimento de uma profecia específica.

Consigo sim ver sinais de alerta de que, a mais organizada, técnica, rica e poderosa sociedade humana representa nada diante de uma simples onda.

Consigo ver outros sinais. Por exemplo: “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; sobre a terra, angústia entre as nações em perplexidade por causa do bramido do mar e das ondas; haverá homens que desmaiarão de terror e pela expectativa das coisas que sobrevirão ao mundo; pois os poderes dos céus serão abalados” (Lc 21.25-26). Neste pequeno texto nosso Senhor destaca o efeito sobre os homens: angústia, perplexidade, terror e expectativa. E isso aumenta em nossos dias.

A tragédia japonesa, para mim, é um alerta a que consideremos nossa fragilidade. Um alerta eloquente que atingiu todos os ouvidos.

Parece Jesus dizendo: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.

sábado, 12 de março de 2011

A meretriz e a mãe

Duas mulheres se destacam no Apocalipse expressando conceitos totalmente opostos.

A meretriz que tem por montaria uma besta escarlate repleta de nomes de blasfêmia com sete cabeças e dez chifres. Veste-se de púrpura e de escarlata. Adorna-se de ouro, de pedras preciosas e de pérolas. Segura um cálice de ouro transbordante de abominações e de imundícias das suas prostituições. Na testa (uma tiara?) divulga seu nome: Babilônia, a Grande, a Mãe das Maretrizes e das Abominações da Terra. Embriaga-se com o sangue dos santos mártires de Jesus.

Após explicar a João que a besta, em quem ela monta, representa os reinos deste mundo, o anjo esclarece que a meretriz é a grande cidade que domina sobre eles.

Sempre houve uma cidade que fascina os poderosos e lhes nutre de poder e status. Talvez Babel tenha sido a primeira. Depois, até hoje, muitas formaram fila. Nos dias de João Roma era uma delas. Babilônia é apenas um arquétipo.

A meretriz vista por João é a síntese de tudo que, em todos os tempos, atrai e seduz o povo de Deus. Seduz com um cálice de ouro, como a prometer a mais deliciosa bebida, mas seu conteúdo é o próprio produto de suas prostituições: o conluio com os poderosos.

João está vendo o que ele mesmo chamou de a "concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida" (1Jo 2.16). A melhor figura: a que vende a si mesma. Ou seja: uma meretriz.

A outra mulher - que João viu antes - no céu, é uma parturiente. Ela veste-se do sol, pisa na lua, adorna-se com uma coroa de doze estrelas e grita sofrendo com dores de parto.

Enquanto ela se exaure dando à luz um filho que há de reger todas as nações, um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças diademadas e dez chifres, cuja cauda arrasta um terço das estrelas dos céus, aguarda para devorar-lhe o filho tão logo nasça. O filho nasce e é arrebatado para Deus e a mulher foge para o deserto, onde Deus lhe havia preparado refúgio.

Enquanto está segura, Miguel e seus anjos pelejaram contra o dragão e seu “um terço”. Venceram e os atiraram para a terra. Vendo-se na terra, o dragão perseguiu a mulher, que recebeu asas e voou até o deserto fora da vista do dragão.

Desde o dia em que Deus disse “porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15) até o nascimento de Jesus a principal ocupação de Satanás foi deter-se diante da linhagem da qual nasceria o Messias.

Quantos descendentes da mulher Deus arrebatou livrando-os das mãos do dragão? A família de Noé, Abraão, Isaque, Jacó, José, Moisés... Davi... O próprio Jesus da fúria de Herodes. João está vendo a luta da mulher através dos tempos e de como Deus a preservou em sua missão de mãe. Missão totalmente antagônica a missão da meretriz.

João também está vendo a luta do povo de Deus, sempre protegido por ele – alguns até mesmo arrebatados tão logo nascem – da sanha feroz do inimigo.

Mas também João vê a derrota do inimigo que arrasta consigo um terço dos anjos para lutar contra as forças de Deus. Tão logo, cumprindo a profecia ele se torne um descendente da mulher - adquira um calcanhar - o inimigo lutará para ferir mais do que isso, com todas as suas forças, antes que sua cabeça seja esmagada.

A mulher gloriosamente vestida, portanto não se trata de Maria em si, mas de todas aquelas que, durante todos os tempos – simbolizados aqui pelo sol, lua e estrelas – em meio as mais diversas dificuldades – simbolizadas aqui pelos sofrimentos do parto – conduziram seus filhos a uma vida de submissão ao Senhor em luta direta contra os ataques do dragão.

As duas mulheres apontam para a realização plena ou negação total da vontade de Deus. A mulher gloriosa a realiza inclusive concebendo filhos nos quais se materializam os planos do altíssimo. A meretriz nega a partir da subversão da maternidade e, seduz o povo de Deus a adorar àquele que se rebelou contra o Altíssimo.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Como Jesus vê suas Igrejas

O Senhor Jesus, como sacerdote e profeta, andando no meio de todas as Igrejas, determinou a João que escrevesse sete cartas a sete delas. Assim estaria escrevendo a todas, de todos os tempos e de todos os lugares, tal é a propriedade simbólica do número sete.

Entretanto, em cada uma das cartas há individualidade, pois cada igreja é conhecida intimamente.

Não há repreensão às igrejas de Esmirna e de Filadélfia, mas Jesus é claro em dizer que a única coisa que a igreja de Éfeso tinha a seu favor era o ódio que possuía aos nicolaítas. A favor da igreja de Pérgamo ele contara não lhe negar-lhe o nome, mesmo durante o martírio de Antipas. Já a igreja de Tiatira crescia em boas obras. A de Sardes possuía umas poucas pessoas que não se contaminaram. Entretanto, nada era favorável a igreja de Laodicéia. Ela era tão má que o Senhor sentia-se do lado de fora: excluído da ceia dela.

Irrepreensíveis, as igrejas de Esmirna e Filadélfia não tiveram erros apontados. Mas o erro da igreja de Éfeso foi ter abandonado seu primeiro amor. A de Pérgamo tolerou os que ensinavam as doutrinas de Balaão e dos nicolaítas. A de Tiatira deixava que uma autointitulada profetiza ensinasse e seduzisse os servos de Jesus a se prostituírem e comerem oferendas pagãs. Já a igreja de Sardes carecia de integridade no que apresentava a Deus e a de Laodicéia, de tão errada, provocava ânsias de vômito no Senhor.

A situação se inverte quanto vemos as qualidades destacadas por Jesus. Deixando de lado a Igreja de Laodicéia, em quem ele não vê qualquer uma - mas a amava ao ponto de declarar que a repreendia e disciplinava como prova de seu amor – na igreja de Éfeso ele destaca a perseverança. Na igreja de Esmirna, que se achava pobre, ele destaca a riqueza. Na igreja de Pérgamo, sediada onde estava o trono de Satanás, ele destaca firmeza, pois não negou a fé em meio a provações. Na de Tiatira viu algo a ser conservado e na igreja de Sardes, apesar de estar morta, atestou que ainda possuía algumas poucas pessoas dignas. Tendo tudo a seu favor a igreja de Filadélfia recebeu uma porta aberta diante de si que ninguém pôde nem poderá fechar.

Todas são alertadas a ouvir “o que o Espírito diz as igrejas”, mas cada uma recebe uma ameaça feita “sob medida”. A igreja de Éfeso é ameaçada de ser destruída. A de Esmirna foi advertida sobre “dez dias” de tribulação por vir. A de Pérgamo de ter seus membros infiéis perseguidos pelo próprio Jesus. A de Tiatira de ter seus membros infiéis perseguidos e mortos pelo Senhor Jesus. A de Sardes de receber uma correção surpresa do próprio Jesus. Filadélfia é admoestada a não por em risco sua coroa, e a de Laodicéia a humilhar-se e buscar nele - no próprio Jesus - riqueza, vestes e remédio para os olhos.

Muito só pode ser entendido à luz do contexto de cada igreja. Porém, o que quero colocar em destaque é: 1) Jesus tem direito de julgar se a Igreja está como ele quer. 2) A igreja tem o dever de conformar-se a vontade dele.

Nenhuma dessas igrejas existe mais. Aliás, nenhuma igreja do Novo Testamento existe mais (a menos que você considere o Vaticano como sucessor da igreja a quem Paulo escreveu a Carta aos Romanos. Se considerar tanto pior, pois ele terá muito que se corrigir para atender as demandas do Apóstolo naquela carta).

Como ameaçou a igreja de Éfeso Jesus fez à todas: Removeu o candeeiro. Destruiu!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Como João viu a Jesus

Amigo íntimo de Jesus, na última ceia João aconchegou-se a seu peito e encontrou Jesus ainda diversas vezes antes de sua ascensão, mas nunca com a mesma intimidade.

Soube do encontro de Saulo e da aparência de Jesus por ele descrita. João, anos depois, exilado em Patmos, viu a Jesus, de forma especial, pelo menos três vezes.

Na primeira vez que o viu ficou aterrorizado e se Saulo caiu cego, ele caiu como morto. João viu Jesus andando no meio de todas as igrejas, e vestindo roupas sacerdotais. Olhava de modo tão penetrante como fogo e andava descalço como todo sacerdote anda no lugar santo, porém pisava com a firmeza do bronze, e em vez de sussurrar – hábito dos sacerdotes para não revelar o nome de Deus – sua voz era como uma cachoeira e sua palavra cortante qual espada afiada. Em sua destra estavam os líderes das igrejas e seu rosto brilhava como sol em sua força. Tão logo o viu João foi ordenado escrever sete cartas às igrejas e atendeu o que lhe era ditado.

Aqui se destacam o ofício sacerdotal e o ofício profético de Jesus. Ele anda no meio das igrejas, sustenta o anjo de cada uma delas, prova, reprova, estimula, condena ou elogia a cada uma. Pode significar muito mais, porém certamente João está vendo Jesus glorificado, não quem o receberia com um abraço.

Na segunda vez João ficou surpreso. Jesus fora anunciado pelos anciãos como “o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, que venceu para abrir o livro e seus selos”, mas João viu um cordeiro. Pior: “como tendo sido morto”. Entretanto este cordeiro tinha “sete chifres, sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda terra”. Ao receber o livro da destra daquele que estava no trono, os seres celestiais e todos os salvos prostraram-se diante do cordeiro, e, com harpas e incensários repletos de orações de todos os eleitos, começaram a adorá-lo.

Nesta segunda visão se destacam o ofício real e o sacerdotal. Anuncia-se o rei, mas quem toma o livro é o sacerdote. João está vendo a encarnação do Senhor. Os selos que ele vai abrindo são suas vitórias subseqüentes bem como as tragédias sobre os vencidos.

Na terceira vez João ficou deslumbrado. Jesus estava montado num cavalo branco. Novamente seus olhos eram penetrantes como chama. Na sua cabeça havia muitos diademas e apesar de ser conhecido como Fiel e Verdadeiro, seu nome era conhecido apenas por ele mesmo e era Verbo de Deus. Sua roupa estava manchada de sangue e os exércitos do céu o seguiam vestidos de branco montados em cavalos brancos. De sua boca saía uma espada afiada com a qual feria as nações, às quais regerá com cetro de ferro e pessoalmente imporá o furor da ira de Deus. Escrito em seu manto e em sua coxa estava a frase REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES.

Nesta terceira visão o ofício profético está presente em seu nome e na arma que usa, mas o destaque maior é dado ao ofício real: ele reina sobre todos. Não apenas apascenta seu rebanho, mas impõe a ira de Deus sobre os inimigos. A mesma ira que caiu sobre ele na cruz.

Essas três visões significam muito mais. Porém, fundamentalmente dizem que o apostolo amado não viu a Jesus como o via na Judéia. Jesus não deixou sua natureza humana, mas retomou aquilo do que tinha se esvaziado quando se encarnou.

Ele não é mais aquele em quem se pode bater ou até fincar pregos. Agora ele é aquele que apenas à menção de seu nome todo joelho se dobra e toda língua diz: é o SENHOR.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cuidado Profético


No artigo da semana passada eu falei de cuidado profético como algo decorrente do ministério dos antigos profetas que ainda permanece nas águas do Rio "História da Redenção".

Ainda não me perguntaram o que quero dizer com isso, mas creio ser melhor me antecipar.

Apesar de alguns permanecerem anônimos, trinta e cinco pessoas são chamadas de profetas nas Escrituras Sagradas. Desses, apenas dezesseis deixaram profecias escritas.

Essas pessoas - e apenas eles - tiveram o privilégio de contemplar o curso deste rio (o Rio da “História da Redenção”). Deus concedeu-lhes a graça de ver antecipadamente os meandros, as cachoeiras e os remansos, e, apesar de também fazerem parte dele, integrando sua corrente, como que arrebatados ao alto, puderam vê-lo pela extensão que Deus quis mostrar.

O que viram ficou registrado nas Páginas Sagradas, e nos servem hoje de duas formas: 1) por analogia com situações semelhantes, 2) ou por terem visto até os dias de hoje ou além.

É neste contexto que o Apostolo Pedro nos exorta: "Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração” (2 Pe 1.19).

Observe que Pedro estava falando das Escrituras, e surpreendentemente após ter contado uma visão fantástica de Jesus glorificado, ao lado de Elias (um profeta que nada escreveu) e Moisés (primariamente legislador, mas também profeta).

O cuidado profético é, portanto o ato de verificar o que de análogo há hoje com os dias antigos, e o que, da resolução que Deus forneceu através de seus santos profetas, pode ser aplicada, e também que profecia ainda está sendo cumprida hoje.

Em suma: atender, examinar, perscrutar as Escrituras e aplicá-las ao nosso dia-a-dia, mantendo a analogia da Fé.

O Apóstolo Paulo foi bem claro ao falar desta segunda analogia quando escreveu à igreja de Roma em um período em que o Novo Testamento ainda não tinha sido formado e que, portanto o Espírito Santo servia-se das últimas nascentes do Rio História da Redenção (os profetas do Novo Testamento): “tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a analogia da fé” (Rm 12.6).

Embora nossas traduções brasileiras insistam na palavra “proporção” a ênfase deve ser dada não na quantidade, mas na correspondência entre o que o profeta da igreja primitiva falava, com o que o profeta bíblico havia escrito já que: “... não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2.19-21).

Hoje temos escritas as mensagens dos profetas (as últimas nascentes do rio “História da Redenção”) e as aplicamos. Permanecer no mesmo rio que os tem como afluentes é o que chamei de Cuidado Profético.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ainda o mesmo rio

Um rio que nasce nas montanhas, desce-as em cascatas e corredeiras, encorpa-se e muda de ambiente em grandes cachoeiras e depois deságua no oceano, de onde procede cada gota que o forma, serviu-me na semana passada de metáfora da História da Redenção.

Não usei uma figura desconhecida. A paisagem bíblica está cheia de rios. O Rio da Vida é citado no Gênesis e reaparece no Apocalipse, o salmista canta as corredeiras de um rio que alegram a cidade de Deus e a profecia de Ezequiel consuma-se num rio que nasce no templo do Senhor.

Fisicamente o Rio Jordão domina desde Josué até João Batista e não há como esquecer os rios estrangeiros: Nilo, Tigre, Eufrates e o pequeno Jaboque.

Porém há uma falha na metáfora. Enquanto o rio desce ao sabor do terreno e corre para onde a inclinação lhe favorece mais, a História de Redenção é traçada por Deus.

Aliás, até de um ponto de vista humano a história não é fortuita. Não ocorre ao acaso, nem está na mão dos homens, mas seus agentes a cumprem.

Ouvi alguém dizer que estamos vendo a história ser feita nos recentes acontecimentos do Egito. Concordo. Entretanto, o que está acontecendo lá é o desdobramento de um acontecimento menor: a reação de um vendedor de verduras na Tunísia à extorsão repetida de policiais corruptos. Tal reação se alastrou pelo norte da África como uma onda coordenada por uma mão invisível. E nós sabemos muito bem que mão é essa.

Se a história, como um rio, fluísse ao bel prazer da inclinação do terreno, tudo estaria como sempre esteve.

As águas do Rio “História da Redenção” originadas em nascentes de promessas e pactos, são engrossadas por muitos afluentes, mas especialmente pelos profetas, dos quais disse o SENHOR: “Desde o dia em que vossos pais saíram da terra do Egito até hoje, enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias; começando de madrugada, eu os enviei” (Jr 7.25).

Sempre houve profecias. E como todas as profecias procedem de Deus não existe coisa mais garantida ou certa do que uma profecia. A primeira foi dita pelo próprio Deus ao garantir que o descendente de Eva haveria de ferir a cabeça da serpente ainda que ela ferisse seu calcanhar: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15).

Deus continuou falando “muitas vezes e de muitos modos aos pais pelos profetas” e sua palavra continuou inquebrável e certa. Tão certa que falando dela o Senhor Jesus garantiu que ela era mais estável do que o céu e do que a terra. Estes poderiam passar. Ela não.

Curiosamente, não é isso que vemos em nossos dias.

Vi dois amigos se encontrando. Um cumprimentava o outro pelo sucesso obtido e o outro respondeu: “Continue profetizando. Profetize mais. Que aconteça dez por cento das profecias e estará bom”.

Veja: Profecia estava sendo tomada pelos dois como desejo de sucesso. E para os verdadeiros cristãos profecia é a certeza de algo que vai acontecer por que Deus determinou que acontecesse.

Deus mostrava ao profeta o Rio “História da Redenção” então ele podia dizer com certeza: haverá cativeiro, pois ele está vendo a “cachoeira” à frente dele. Ele podia dizer haverá tempo de paz, pois Deus o permitia ver o “traçado remansoso e caudaloso” do rio que se estendia pela planície adiante.

Profetizar, não é desejar. Profetizar não é brincar. Profetizar não é ter bons sentimentos. Jeremias sofria com o que tinha de dizer, pois Deus reservou a ele revelações amargas a dar a seus amigos e conhecidos.

Acima de tudo lembre-se de que os profetas pertenceram a um tempo próprio da História da Redenção. Não os espere encontrar hoje. Aliás, desconfie de quem se apresenta assim.

O “cuidado profético” ainda está presente no meio do Povo de Deus – afinal o rio ainda tem a mesma água que veio das nascentes – mas, como já nos aproximamos da foz e os afluentes já ficaram pra trás, a época de Elias, Isaías, Daniel, até mesmo a de João Batista, já passou.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Diversas fases de um mesmo rio

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Há quantos anos o Rio Caparaó corre por esse vale? Não tenho ideia. Certamente muitos.

Suas nascentes vão se ajuntando e quando ele passa no lugar fotografado acima, e forma esta bela corredeira, já caiu em belas cachoeiras. Mais abaixo, na cidade, encorpado e remansoso, recebe águas de ruas e até esgotos e continua correndo em direção ao Rio Itabapoana e finalmente ao mar.

Há certa analogia com a História da Redenção, que embora tenha apenas uma nascente – nosso Senhor Jesus Cristo – corre em direção à sua consumação, passando por cachoeiras, corredeiras, remansos, recebendo as sujeiras das muitas religiões e cosmovisões humanas, persiste em direção ao seu próprio autor.

Como o rio tem seus lugares bem definidos a História da Redenção também. Cachoeiras são próprias de ambientes de montanhas, de grandes variações de altitude e de quedas bruscas. Corredeiras, por sua vez, são encontradas em declives acentuados e rochosos. Já as planícies, com pouco declive, são propícias a apresentar as águas calmas.

Assim foi e continua sendo a História da Salvação. Sua nascente, na promessa feita a Adão, foi seguida de mais turbulências do que as nascentes do Rio Caparaó.

Verdadeiras quedas vertiginosas até hoje impressionam a quem lê sobre a vida dos antediluvianos, dos Patriarcas ou da peregrinação no deserto.

A partir da posse da Terra Prometida, tanto no tempo dos juízes quanto no tempo dos reis, a semelhança com corredeiras é muito grande. É nesse tempo que aparecem os profetas. Especialmente no tempo dos reis. Como se os profetas fosse a “consciência dos reis” já que estes levavam o Povo de Deus a fazer o que os povos vizinhos faziam.

De repente uma grande cachoeira – qual rio que muda de ambiente topográfico: o Povo de Deus foi levado para um cativeiro do qual só voltam 70 anos mais tarde, sem o vigor de outrora. Anos mais tarde instala-se um período remansoso de 400 amos, que passará a história com o nome de “o silêncio profético” no qual mais do que cativos serão verdadeiros joguetes de diversas nações.

De repente, outra grande cachoeira – outro ambiente totalmente novo – nasce o maior profeta: o precursor. Seis meses depois nasce o Messias. A Redenção Chegou.

Começou a nova fase do rio. A última fase. A fase em que vivemos.

Como não esperamos nascentes próximas da foz de um rio, por que razão ainda há quem pense na repetição de eventos próprios do nascedouro da História da Redenção às vésperas de sua consumação?

sábado, 15 de janeiro de 2011

Aperfeiçoado (Parte final)

Estando ele em Jerusalém,
durante a Festa da Páscoa,
muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome;
mas o próprio Jesus
não se confiava a eles,
porque os conhecia a todos.
E não precisava de que alguém
lhe desse testemunho
a respeito do homem,
porque ele mesmo sabia
o que era a natureza humana.
(João 2.23-25)

Costumamos ler este texto pensando no conhecimento divino de Jesus. Entretanto, levando em conta o que eu escrevi nestes últimos domingos, gostaria de lhe convidar a pensar que, seus sofrimentos desde o berço, a rotina de uma vida corriqueira com poucos acontecimentos dignos de nota e a incompreensão familiar, contribuíram em muito para que ele também tivesse desenvolvido o discernimento no sentido humano: aquele com que diríamos a mesma frase a respeito de alguém.

Para o Senhor deve ter sido impressionante chefiar uma família de, pelo menos, seis irmãos – se, de fato, seu Pai morreu – assumindo as necessidades de casa através do trabalho da carpintaria.

Por favor, não pense em móveis. Talvez até ele os fizesse, mas o trabalho principal de um tekton (de onde vem nossa palavra arquiteto) era construir.

Ele deve ter levantado muitas colunas e assentado muitas vergas, umbrais e vigas. Preparado muitas coberturas para receber o enchimento de barro e betume que se usava então como telhado.

Quantas casas ele fez? Quantas empreitadas o pechincharam? Quantas seu coração generoso deixou barato? Quantos calotes levou aquele que estava destinado a levar o maior calote do mundo?

A chefia da oficina – e o perdão de eventuais devedores – deve ter sido o início dos desentendimentos com seus irmãos. Chefiar, perdoar e ser incompreendido está de acordo com sua índole e com sua missão. Lembre-se de que nós mesmos - que hoje sabemos de tudo - ousamos, por vezes discordar, de suas decisões.

Não obstante, seu trabalho continua sendo o mesmo de toda eternidade: preparar-nos lugar.

O Senhor se fez servo – servo dos servos – para que nós os verdadeiros servos fôssemos feitos filhos, “por isso, é que ele não se envergonha de lhes chamar irmãos” (Hb 2.11).

Eu espero que você tenha percebido minha intenção de mostrar, nesses quatro artigos, o quando nosso Senhor foi exposto às vicissitudes desta vida e o quanto isso o levou a entender nossas dificuldades ao ponto de poder interceder perfeitamente por nós.

É a isso que o escritor da Carta aos Hebreus chama de aperfeiçoar. Não que – como alguns doidos dizem – ele não fosse perfeito. Mesmo antes de adquirir nossa natureza, Ele era perfeito em tudo, mas para ser o verdadeiro Cordeiro de Deus ele tinha de se tornar semelhante a nós, e ele nunca havia sofrido o que o sábio chamou de: “enfadonho trabalho [que] impôs Deus aos filhos dos homens, para nele os afligir” (Ec 1.13).

Ele já era o sacerdote perfeito. Tornou-se, pelos sofrimentos, a oferta perfeita.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Aperfeiçoado (Parte 3)

Recebo em aconselhamento muitas pessoas que culpam suas famílias por seus erros. Às vezes dizem: “pastor, com a família que tenho não dá pra levar uma vida cristã”.

Nosso Senhor também passou por problemas semelhantes e entende tais dificuldades. E por ter vivido tais problemas sabe até que ponto uma desculpa como essa é verdadeira.

Como toda família de então a família de Jesus esperava que ele, como filho primogênito resgatado aos quarenta dias quando seus pais o levaram ao templo, se casasse e constituísse sua própria família, para que os irmãos mais novos fizessem o mesmo.

Com a morte de seu pai - o que parece ter acontecido no início de sua juventude - isso era verdadeira obrigação, pois ao primogênito cabia cuidar da mãe e das irmãs solteiras. Afinal, para isso é que ele recebia metade da herança.

Entretanto, Jesus chegou solteiro aos 30 anos, abandonou a oficina, saiu de casa e foi morar em Cafarnaum. Marcos registra: “Então, ele foi para casa. Não obstante, a multidão afluiu de novo, de tal modo que nem podiam comer. E, quando os parentes de Jesus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si” (Mc 3.20-21).

A atividade de Jesus causava certa vergonha a seus familiares. E se há dúvida sobre quem eram os parentes que vieram prender a Jesus, o restante do texto esclarece: “Nisto, chegaram sua mãe e seus irmãos e, tendo ficado do lado de fora, mandaram chamá-lo. Muita gente estava assentada ao redor dele e lhe disseram: Olha, tua mãe, teus irmãos e irmãs estão lá fora à tua procura. Então, ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos? E, correndo o olhar pelos que estavam assentados ao redor, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mc 2.31-35).

Percebeu? Os parentes eram sua mãe (silêncio sobre seu pai), seus irmãos e irmãs.

João, o evangelista, cuja família tinha parentesco com a de Jesus, é mais explícito sobre essas lutas familiares: “Dirigiram-se, pois, a ele os seus irmãos e lhe disseram: Deixa este lugar e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque ninguém há que procure ser conhecido em público e, contudo, realize os seus feitos em oculto. Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. Pois nem mesmo os seus irmãos criam nele” (Jo 7.3-5).

As lutas familiares se intensificaram com a morte de José e com a recusa de Jesus em assumir o papel tradicional que era esperado dele. Seus irmãos o viam como um simples “magico” em busca de fama e a família se desestruturou a tal ponto que, na cruz, o Senhor deixou sua mãe aos cuidados de João.

Entretanto, parece que a história acaba bem: Paulo diz que Tiago era irmão de Jesus (Gl 1.19), e que foi convertido pelo próprio Jesus após ressuscitar (1Co 15.7), embora ele mesmo apresente-se apenas como “servo de Deus e do Senhor Jesus”.

Judas – o outro irmão de Jesus - também se apresenta como “servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago”. Quanto a José e a Simão, os outros irmãos nomeados por Mateus e Marcos, a Bíblia nada fala sobre eles muito menos sobre as irmãs.

Mas a melhor de todas as notícias é que ele sabe, por experiência própria, o que é desentendimento familiar. E hoje podemos compreender melhor a afirmação bíblica: “Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna” (Hb 4.15).

domingo, 2 de janeiro de 2011

Aperfeiçoado (2ª Parte)

Hoje, domingo, tradicionalmente relembramos o dia da circuncisão do Senhor, e Lucas a descreve atestando assim sua participação neste sacramento da Antiga Aliança: “Completados oito dias para ser circuncidado o menino, deram-lhe o nome de JESUS, como lhe chamara o anjo, antes de ser concebido” (Lc 2.21). Porém, Lucas dá mais ênfase a um acontecimento posterior: Seus pais o perderam em uma peregrinação à Jerusalém.

Todo judeu devia comparecer a uma das três grandes festas anuais: Páscoa, Pentecostes ou Tabernáculos e Lucas diz: “anualmente iam seus pais a Jerusalém, para a Festa da Páscoa. Quando ele atingiu os doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa.” (Lc 2.41-42).

No sabath imediatamente posterior à data em que o rapaz fazia 13 anos e um dia, lhe era - e ainda é - concedido o privilégio de ler, na sinagoga, a Torah (o que nós protestantes chamamos de Pentatêuco). Quando isso acontecia, aquele adolescente passava a ser considerado um “Filho do Mandamento” (em hebraico um Bar Mitzvah).

Ao fim da leitura o pai erguia os braços e dizia “Bendito és tu Senhor do céu e da terra que tiraste de mim a responsabilidade deste menino”. A partir de então o garoto já era considerado homem e tinha quase todos os direitos e deveres de um adulto, especialmente de compor o miniam (quórum de 10 pessoas necessário a uma reunião judaica).

Então, era comum o pai levar seu filho às páscoas precedentes para que ele se acostumasse. Provavelmente foi o que aconteceu a Jesus.

As conversas que com outros garotos devem ter atraído a atenção de rabinos que buscavam alunos e ele logo se envolveu em debates com rabinos doutos na lei. Enquanto isso seus pais voltavam supondo que ele estivesse com amigos.

Não é difícil imaginar o desespero de Maria ao perceber sua falta. Primeiro procurou entre “os parentes e conhecidos; e não o tendo encontrado voltaram a Jerusalém”. Foi a primeira vez em que Maria o perdeu por três dias.

Encontraram-no assentado no meio dos rabinos doutos na Lei ouvindo, interrogando, respondendo e causando admiração por sua inteligência. A admiração, causada também nos pais, foi superada pela indignação de Maria: - Por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos estávamos a tua procura.

E Jesus mostrou que já tinha conhecimento de quem era e da missão que tinha, pois refere-se, na frente de seu pai José, ao outro Pai: - Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?

Lucas encerra este episódio - que certamente ouviu de Maria - com as seguintes palavras: “Não compreenderam, porém, as palavras que lhes dissera. E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso. Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas no coração. E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (2.50-52). Esta é a última vez que ouvimos falar de José.

José deve ter vivido tempo suficiente para ensinar-lhe o ofício de construtor (como eu prefiro traduzir tektonos), mas tenho a impressão de que, à exemplo do que ocorreu na cruz - quando Jesus cortou seus vínculos filiais com Maria entregando-a aos cuidados de João - os laços de paternidade humana com José foram quebrados nessa ocasião. Sendo essa uma das razões para Lucas narrar tal episódio, já que o Bar Mitzvah de Jesus seria um ou dois anos depois.

Quando me perguntam por que os Evangelhos deixam lacunas tão grandes na biografia de Jesus, geralmente eu respondo: por que a vida dele foi normal. Tirando esses pequenos episódios foi corriqueira (aquela que todos vivemos e que aperfeiçoa nosso caráter) ao ponto de, mais tarde, espantar seus vizinhos: “Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto?” (Mt 13.55-56).

domingo, 26 de dezembro de 2010

Aperfeiçoado

... tendo sido aperfeiçoado,
tornou-se o autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem... (Hebreus 5.9)

O Senhor não nasceu em 25 de dezembro. Afinal, por lá, essa é uma época de frio e o evangelho fala de pastores e rebanhos em atividades próprias de noites quentes.

Provavelmente ele tenha nascido na primavera.

Estremeço só em pensar que a multidão que o deixou sem hospedagem tenha sido de peregrinos para uma páscoa. O que acontecia na primavera.

Um recenseamento dificilmente atrairia uma multidão a Belém, mas uma páscoa em Jerusalém, que fazia com que sua população subisse de 25 mil para uns 300 mil, certamente afetava as cidades vizinhas, como Belém que ficava a pouco mais de 15 quilômetros ao sul.

Hoje é o dia seguinte ao dia em que convencionamos comemorar seu nascimento. Então aproveito para pensar no que aconteceu no verdadeiro dia seguinte.

A improvisação da noite passada na estrebaria deve ter sido corrigida ou pelo menos aliviada. As faixas que o enrolaram na noite anterior e a manjedoura que lhe serviu de berço devem ter sido substituídas.

Mas, não convém ir pensando em um macaquinho de lã ou em um pagãozinho como os que vemos hoje. Pouco sabemos sobre o corte das roupas dos adultos de então, muito menos das crianças, e menos ainda dos bebês, mas tudo indica que eram pedaços de pano. Não deviam ser trapos ou tiras rasgadas e improvisadas em cueiros.

Como também não convêm ir pensando em um móvel gradeado, como são os berços de hoje. Talvez uma caixa, semelhante à que era usada para medir cereais (o alqueire), que mantinha o bebê protegido dos pequenos animais domésticos que circulavam pela casa.

Se não ficaram abrigados na hospedaria, devem ter achado um parente. De dia é mais fácil de procurar. E como tudo indica que oito dias depois ele foi circuncidado em Belém mesmo, é de se imaginar que pelo menos algum conhecido que contratasse um mohel pra circuncidá-lo.

O que eu quero pintar neste segundo dia de vida de nosso Senhor é que tudo tendia a voltar ao normal. E voltou. O único sobressalto veio depois - quase dois anos depois - quando uma caravana vinda do oriente procurou pelo menino em Jerusalém, na capital, onde pressupunham morasse o Rei dos Judeus, cuja profecia, datada por uma estrela, era conhecida por eles.

Creio que eram descendentes dos discípulos de Daniel, que, cerca de 500 anos antes, foi feito chefe dos magos da babilônia por Nabucodonosor (Dn 5.11) e que previu a vinda do Messias para 490 anos mais tarde (Dn 9.24-26).

Não se esqueça de que os calendários da época eram marcados pela posição das estrelas, e que a “Estrela de Belém” certamente foi uma estrela como outra qualquer, pois Herodes teve de perguntar aos magos quando foi que eles a viram.

Com a caravana vieram também os ciúmes e a ira de Herodes. Ele já havia matado dois filhos e a esposa por suspeitar de complô para tomar-lhe o trono, agora, sabendo que os magos viram a estrela dois anos atrás, resolveu matar as crianças daquela região, menores de 2 anos.

Fugiram para o Egito e lá ficaram por uns 3 a 5 anos.

Até os 12 anos, viveu vida normal, aprendendo a ser um de nós, para poder compadecer-se perfeitamente de nós.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Mais do que pedimos ou pensamos

Ora, àquele que é poderoso
para fazer infinitamente mais
do que tudo quanto
pedimos ou pensamos...
Efésios 3.20

Por dever de ofício tenho de acompanhar algumas pessoas em situações difíceis até de descrever, e algumas vezes tenho de tolerar outras que, para não ficar muito bravo, é necessário pedir a Deus dose extra de paciência.

Ainda me lembro do brilho no rosto de Dona Joselita quando me aproximei de seu leito: “Graças a Deus! O senhor veio me buscar”. Falou com os olhos marejados e fôlego curto.

A dignidade dos seus oitenta anos, estampada na pele vincada e brunida pelo sol, estava sendo abalada de forma mais humilhante do que a tosse e o pigarro nojento dos muitos cigarros de palha faziam, pois num leito duma enfermaria lotada e quente, onde, apesar de dois ventiladores de teto soprarem tudo o que era leve, muitas moscas aborreciam a todos. E ela estava coberta apenas por um lençol, que, de tão vagabundo, permitia ver que vestia apenas uma fralda geriátrica.

Antes de terminar de recitar aos seu ouvido o Salmo 23 ela já repetia com todas as forças que seu fôlego lhe permitia: “Pastor, leva eu! Leva eu, pastor! Leva eu, leva eu, leva eu...”.

Fiz das tripas coração e orei as poucas palavras que consegui. Eu sabia que quem a levaria seria o verdadeiro pastor. Aquele do qual sou apenas o servo. Dois dias depois a levou.

Ainda me lembro de um noivo, que, empolgado com o casamento do príncipe inglês – há muito tempo atrás – insistia em se casar vestido com uma farda semelhante a dele.

Nem reservista ele era. Havia ficado no excesso de contingente, mas seu sonho, que embaraçava a noiva e mostrava sua infantilidade era aquele. Insistiu no sonho e nem a noiva o quis mais.

No versículo transcrito acima, o Apóstolo Paulo se refere a coisas mais profundas do que as necessidades desta vida. Mesmo que seja fôlego.

Leia o texto todo e veja que ele se “colocou de joelhos” para que possamos compreender o amor de Cristo e sermos tomados de toda plenitude de Deus.

Isso se tornou possível a partir da encarnação de nosso Senhor.

No artigo passado eu falei que o Verbo de Deus, assumindo nossa natureza, tornou-se a última Palavra de Deus. Não há outra. Hoje quero enfatizar que ele tornou possível a verdadeira comunicação com Deus. Se tornou a única possibilidade de nos comunicarmos com ele.

Em que sentido então ele faz mais do que pensamos ou pedimos?

A maioria de nossas preocupações são semelhantes às do rapaz que desejava casar-se vestido de príncipe. Quando temos problemas reais, oramos desesperados pedindo fôlego.

Pois bem: Ele faz mais do que isso. Ele nos dá fôlego eterno e “... o Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão pelos séculos dos séculos” (Ap 22.5).

domingo, 12 de dezembro de 2010

Tristezas e alegrias próprias de dezembro

Dezembro é prenúncio de férias e de festas, bem como certeza de calor e correria.

Com a expectativa das férias o ânimo se renova e aparece novo fôlego para aguentar um pouco mais de um ano que, passou tão rápido, mas pareceu tão comprido e penoso.

Com a expectativa das festas as listas de presentes chegam aos pais, que precisam balancear-lhes o peso com o de seus salários e com o peso da montanha de impostos e despesas que os espreitam na esquina de janeiro.

Você conhece combinação pior do que calor com correria? Geralmente ela se associa à impaciência, que também aparece do nada nas filas, mais comuns e mais lentas, em dezembro.

Para mim, dezembro é um mês difícil. Difícil e triste.

Mas não tire conclusões precipitadas. Não estou reclamando, tampouco maldizendo, e apesar do que me entristece – e que explicarei no final – dezembro também me traz muitas alegrias.

Os diversos relatórios que tenho de examinar, resumir e divulgar, me alegram. Afinal, eles mostram o quanto o rebanho, sobre o qual o Senhor me constituiu pastor, trabalhou durante o ano.

Os próprios relatórios que tenho de fazer também me alegram. Eles mostram o quanto fiz e o quanto deixei de fazer e sugerem estratégias para o próximo ano.

Fico alegre também em presentear. São poucos presentes que posso dar. Especialmente se comparado aos muitos queridos com que Deus me presenteou. E esses poucos são mais utilidades do que regalos. Mas fico alegre em presentear.

Fico alegre em ver minha família reunida. A mesa farta de coisas saborosas, de conversas descontraídas e alegres e especialmente de gratidão a Deus.

Mas, acima de tudo, me alegro por que esse dia foi reservado – dentre muitos – para trazer à memória o fato mais impressionante e incompreendido de toda história: o Verbo se fez carne. A Palavra de Deus – aquela que não lhe volta vazia, mas faz tudo o que lhe apraz – assumiu nossa natureza, e nunca mais se separará dela.

A palavra de Deus, agora, é Jesus. E Paulo nos ensina que nele há o “sim” de Deus.

Reunidos, nos convidemos mutuamente: “Ó vinde fiéis triunfantes e alegres ... Nasceu vosso rei o Messias prometido: ó vinde adoremos a nosso Senhor!” Nada é tão importante.

Mas... E a tristeza de dezembro?

Fico triste em ver que todos – os que acreditam nessa verdade ou não – estão atestando, sem se dar conta, a veracidade desse fato. Em outras palavras: minha alegria vem de tudo o que meu Senhor fez por mim e minha tristeza vem de tudo o que fazem contra ele.

Amontoam sobre si condenação sobre condenação. E pior: transformam o que deveria ser um simples ato de gratidão por ele ter adquirido nossa natureza em uma verdadeira festa pagã e em pretexto para libertinagem e coisas piores.

Entretanto, apesar dessa tristeza, jamais deixarei de me alegrar por tal maravilha. Então canto com alegria: “Nasce Jesus! Eis a mensagem celeste! Raia a luz da salvação, triunfante vem! Salve ó Cristo! Firma teu justo império! Gratos louvores anjos e homens deem!”

sábado, 4 de dezembro de 2010

Sobre o Rio de Janeiro e sobre Tiririca

Embora Nero fosse o Cesar quando o apóstolo Paulo escreveu aos Romanos, ele não evitou o ensino claro que permeia todas as Escrituras Sagradas: O Governo também é ministro de Deus. Paulo chega a dizer que “não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus” (Rm 13.1-2).

Devemos agradecer a Deus pelo que estamos vendo no Rio de Janeiro, pois, no mínimo, começam-se a cumprir as palavras do salmista: “O cetro dos ímpios não permanecerá sobre a sorte dos justos, para que o justo não estenda a mão à iniquidade”. Que os governantes de lá continuem com essa missão divina: abater os maus.

Exorto a Igreja a que sirvo como pastor que agradeça a Deus pelo alívio dos moradores de lá e pelo aumento da segurança de nossos filhos que estudam lá. Entretanto, exorto também que peça a Deus pela consolidação do processo, pois alguns amigos que lá residem há muito tempo me informam que ainda há muito o que fazer.

De fato. Se a quantidade de drogas bem como o enorme arsenal apreendido pertencia apenas ao que já foi foi conquistado, imagine o que pode haver nos demais redutos nos quais o governo não se fez presente.

Nos aproximamos do final do ano e não podemos abafar esse clamor por uma sociedade mais justa e ordeira com o fugaz e enganoso clima natalino. Devemos nos lembrar do antigo provérbio latino: ora et labora.

 

Tiririca

Antes de ontem alguém me enviou uma foto do deputado eleito Francisco Everardo Silva, o Tiririca, segurando um cartaz onde estava escrito “paçei!”.

Enquanto ria, me lembrei de Ambrósio.

Na época de seminário eu gostava de ler o historiador Justo Gonzalez. Ele descreveu a eleição de Ambrósio como bispo de Milão assim:

O ano era 373 quando a morte do bispo de Milão veio turbar a paz desta grande cidade. Auxêncio, o bispo falecido, tinha sido posto neste cargo por um imperador ariano, que tinha enviado para o exílio o bispo anterior. Agora a sede estava vaga, e a eleição ameaçava transformar-se em um tumulto que poderia ser sangrento, pois tanto os arianos como os nicenos estavam decididos a fazer com que um dos seus fosse eleito.

Para evitar derramamento de sangue, Ambrósio, o governador da cidade, foi pessoalmente à igreja onde seria realizada a eleição. Seu governo justo e eficiente lhe tinha conquistado as simpatias do povo. Natural de Tréveris, Ambrósio era filho de um alto funcionário do Império, e por isto esperava que sua carreira política o levasse a posições cada vez mais elevadas.

Mas para que sua carreira não fosse arruinada era necessário evitar uma desordem violenta na eleição do novo bispo de Milão.

Com isto em mente Ambrósio foi à igreja, pediu a palavra e começou a exortar o povo com a eloquência que mais tarde o faria famoso. À medida que Ambrósio falava a multidão se acalmava, dando a impressão de que os esforços do governador teriam bom êxito.

De repente um menino gritou: “Ambrósio bispo!” Inesperadamente o povo também começou a gritar: “Ambrósio bispo! Ambrósio bispo! Ambrósio! Ambrósio! Ambrósio!”

Para Ambrósio este grito da multidão podia significar o fim da sua carreira política. Por isto ele abriu passagem entre o povo, foi até o pretório e condenou diversos presos à tortura, na esperança de perder sua popularidade. O populacho, porém, o seguia e não se deixava convencer. Então o jovem governador mandou trazer para sua casa mulheres de má fama, para assim destruir a opinião que o público tinha dele. Mas o povo continuava na frente de sua casa, e continuava gritando que queria que Ambrósio fosse seu bispo. Duas vezes ele tentou fugir da cidade ou se esconder, mas seus esforços fracassaram. Por fim, rendendo-se à insistência do povo e à ordem imperial, ele concordou com ser bispo de Milão.

Ambrósio, todavia, nem sequer tinha sido batizado…

Depois, no transcurso de uma semana, ele foi feito sucessivamente leitor, exorcista, acólito, subdiácono, diácono e presbítero, até que foi consagrado bispo oito dias depois, no dia primeiro de dezembro de 373.

Ambrósio não tinha as qualificações eclesiásticas para ser bispo, e alguns acham que Tiririca não tem as qualificações legais para ser deputado da República do Brasil.

Ambrósio foi exposto ao vexame diante de uma cidade de alguns milhares de habitantes. Tiririca o foi diante de milhões.

Ambrósio não queria ser bispo e acabou sendo um dos melhores. Tiririca ansiou ser deputado Federal. Espero – e peço a Deus - que se torne um dos melhores deputados.

domingo, 28 de novembro de 2010

Chuvas abençoadas

A chuva que caiu à noitinha espantou o calor e trouxe uma aragem fresca do rio, que além de prometer uma noite sem o ruído monótono do ventilador, embalaria o sono com o chiado agradável das corredeiras.

Naquele dia o sol ardido da manhã já havia sido substituído pelo mormaço sufocante da tarde. E, de repente, chuva. Não a que se anuncia com respingos, mas a que cai de uma vez.

Que bom! Apenas uma chuva mudou o dia. As ruas foram lavadas, a grama encharcada, o ar ficou mais leve e a temperatura muito mais baixa.

Agradeci a Deus. E enquanto o sono arredio não chegava, lembrei-me novamente do Estudo Bíblico comparando as duas cartas escritas a Timóteo.

Na primeira, exuberante, Paulo o instrui a respeito de como enfrentar os problemas que viriam sobre a igreja de Éfeso, onde fora deixado. Minuciosamente detalha até como cumprimentar as mulheres idosas e as moças.

Na segunda, vendo o final de sua vida, escreve: “...o tempo da minha partida é chegado” (2Tm 4.6).

Ao contrário do dia, que começou abrasante e terminou fresco, o ministério do apóstolo Paulo, concluído com seu martírio, gradualmente tornou-se pesado e sufocante. Veja:

Procura vir ter comigo depressa. Porque Demas, tendo amado o presente século, me abandonou e se foi para Tessalônica; Crescente foi para a Galácia, Tito, para a Dalmácia. Somente Lucas está comigo.

Toma contigo Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério. Quanto a Tíquico, mandei-o até Éfeso.

Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, bem como os livros, especialmente os pergaminhos.

Alexandre, o latoeiro, causou-me muitos males; o Senhor lhe dará a paga segundo as suas obras. ...

Na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; antes, todos me abandonaram. Que isto não lhes seja posto em conta! Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de forças, para que, por meu intermédio, a pregação fosse plenamente cumprida, e todos os gentios a ouvissem; e fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém! ...

Apressa-te a vir antes do inverno (2Tm 4.9-21).

Percebeu? Paulo esperava por mudanças maiores do que as que são trazidas por uma chuva: “o Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará a salvo para o seu reino celestial”.

Essa é nossa esperança também. Nisso pomos nossa confiança e por isso vivemos.

Nessa vida, os dias quentes se tornam suportáveis pelas benditas chuvas de verão. Mas, e a vida como um todo, que apesar de ser a maior dádiva de Deus, é uma verdadeira coleção dos desacertos que cometemos e das expectativas frustradas?

Chuva nenhuma resolve. Aragem alguma suaviza, sono nenhum ameniza. Somente a graça do Senhor que a redime da sombra da morte é capaz de torná-la em verdadeira vida. A vida para a qual fomos criados.

domingo, 21 de novembro de 2010

Figuras da proteção divina

As Sagradas Escrituras usam formas humanas para falar de Deus. Em um só lugar o profeta Isaías fala de suas mãos e ouvidos: “Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido, para não poder ouvir” (Is 59.1).

As Sagradas Escrituras também usam sentimentos humanos com o mesmo objetivo: “A zelos me provocaram com aquilo que não é Deus; com seus ídolos me provocaram à ira; portanto, eu os provocarei a zelos com aquele que não é povo; com louca nação os despertarei à ira” (Dt 32.21). Neste texto Deus, através de Moisés, diz sentir zelo - ciúmes - e ira.

E assim, muitos outros textos em que, tanto formas, quanto sentimentos humanos são atribuídos a Deus permeiam as páginas da Bíblia.

E não poderia ser diferente. Afinal como poderíamos entender o que Deus é sem comparar com o que somos? Certamente ele não possui mãos, mas que figura evocaria mais o Senhor abençoando seu povo do que a figura de um pai colocando as mãos sobre seu filho? Como entenderíamos o que ele sente ao ver seu povo em plena idolatria se não compararmos ao que sente um marido ao flagrar sua mulher em pleno adultério?

Além desses textos diretos há outros também, que, embora indiretos, revelam, de forma preciosa e profunda, relacionamentos mais intensos e de difícil descrição.

Você já leu com calma o Salmo 131? Aquele em que Davi diz que fez calar e sossegar sua alma como uma criança desmamada (literalmente, que acabou de mamar) se aquieta nos braços de sua mãe? A figura que está em destaque é a da criança aquietada nos braços maternos depois de ter sido saciada por seu leite. E essa é a lição que o salmista quis nos transmitir: nossa alma deve se aquietar nos braços de Deus.

Entretanto você já reparou que tal figura só se sustenta se admitirmos que Deus é representado pela mãe que agasalha o bebê que recém-alimentou?

De fato. Em muitos lugares, sob muitas formas, o Senhor mostra que alimenta seu povo. E, de fato, o alimentou. No deserto, na multiplicação dos pães, depois de uma noite de pesca infrutífera e especialmente quando tomou o pão e o cálice e o partiu e mandou que isso fosse feito até sua volta.

Não há para o cristão maior consolo do que este: o Senhor o alimenta e o sustenta. Isso deve ser a base de nossa tranqüilidade, do sossego de nossa alma. E, qual crianças saciadas pelo Senhor, devemos descansar em seus braços.

Certamente você há de concordar comigo que esta é uma das maiores necessidade que temos em nossos dias atribulados.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Carta Pastoral à Igreja Presbiteriana da Ilha dos Araújos

Novamente sobre a "Lei da Homofobia"

Irmãos;

No boletim de 6 de junho de 2007, publiquei uma Carta Pastoral (que pode ser lida aqui), sobre o que ocorria então em conseqüência do Projeto de Lei 122.

Nela fiz alusão à carta que do Rev. Roberto Brasileiro, Presidente do Supremo Concílio de nossa Igreja, que foi encartada em nosso Boletim Dominical e postei diversos links: para o referido Projeto de Lei no Senado Federal e para algumas análises dele feitas por autoridades em diversas áreas do saber.

Pois bem. Em 2007, decorrente da carta do Rev. Roberto, a Universidade Mackenzie, também se pronunciou, mutatis mutandi, à semelhança do que fizemos aqui.

Somente agora, em 2010, aproveitando comemorações afins, grupos gays resolveram se servir dessa carta para usar aquela universidade como exemplo. Não houve um dia nesta semana que não se repetisse em algum meio de comunicação de massa algum tipo de notícia difamatória e caluniosa contra aquela instituição e/ou contra seus dirigentes.

A posição da Igreja Presbiteriana do Brasil, conseqüentemente a nossa e a de todas as Igrejas por ela federadas, bem como a de suas instituições ainda é a mesma: somos contra o PL122.

Que seja mais uma vez repetido: o verdadeiro cristão não discrimina, muito menos agride, por quaisquer meios, um homossexual. Mas do mesmo modo que respeita a opção feita por ele e, no máximo se reserva o direito de criticá-la e dizer que é pecado, também demanda que os grupos homossexuais respeitem e não exijam que sigamos seus valores e sua agenda. Podem continuar nos chamado de retrógrados, ultrapassados e até mesmo de errados, mas nos não igualem a assassinos e a espancadores, nem nos imponham seus valores ou cultura, como querem fazer com o PL122.

Exorto, portanto a Igreja à qual sirvo como pastor, que coloque os joelhos no chão em oração a favor dos que estão sendo perseguidos por manterem-se fiéis aos preceitos bíblicos. Orem também para que, os que presos a conceitos e comportamentos homossexuais, recebam de Deus a graça de se livrarem como os crentes de Corinto se livraram (1º Coríntios 1.9-11). Finalmente, orem também pelo grande grupo de simpatizantes, que muitas vezes, por solidariedade e amor genuínos, fazem muito mais mal do que bem, não confrontando algo que é contrário a própria natureza com que Deus criou o ser humano: “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Gênesis 1.27 - Edição Revista e Corrigida).

sábado, 13 de novembro de 2010

Politicamente correto

Nas últimas semanas acompanhamos o debate sobre a proibição nas escolas públicas de um clássico da literatura infantil, que descreve a Tia Anastácia com termos que foram considerados racistas.

Nem quero entrar no mérito da questão, mas não deixei de rir quando um repórter reclamou que, desse jeito, ele teria de se referir ao Negrinho do Pastoreio como o Afro-descendente do Pastoreio.

Não há dúvida de que o racismo é algo deplorável contra o qual devemos estar alertas. Afinal o racista quebra o nono mandamento. Mas não creio que uma instituição governamental possa extingui-lo, pois ele está intimamente ligado à constituição da personalidade de cada um.

Entretanto há que se fazer diferença entre o racismo, condenável em todos os seus aspectos, e o modismo do politicamente correto, que, em minha opinião, foi o que mais pesou na tal proibição.

Em nossos dias não é politicamente correto chamar um cego de cego. Deve-se dizer que ele é deficiente visual. Como se deve chamar um aleijado de deficiente físico, ou (contra todas as normas de derivação da língua portuguesa) de cadeirante.

Um surdo deve ser chamado de deficiente auditivo e um gordo de obeso (ainda prefiro gordo). Um velho deve ser chamado de idoso ainda que muitos respondam: “idoso é seu avô”.

Estes melindres aparecem, geração após geração. Causam muitas situações embaraçosas, cômicas e, algumas vezes, trágicas. E curiosamente aparecem até na Igreja.

Temos em nosso hinário uma bela composição que exorta os jovens, os homens (no sentido de adultos), e os velhos a trabalhar. Cada uma de suas três estrofes destaca as peculiaridades de cada faixa etária. Dos jovens destaca a força, dos adultos o vigor e aos velhos exorta a considerar que “breve chega o fim”. A última edição que encontrei dedicada aos velhos foi a de 1975 (ainda Salmos e Hinos). Desde então se dirige a “todos”.

Precisamos ser gentis na hora de falar. Precisamos ser polidos e corteses. Porém, há um limite entre a cortesia e o eufemismo. Especialmente o eufemismo que tira a substância da comunicação autêntica. Corremos o perigo de, por não denominar corretamente as coisas, deixarmos de enquadrar os pecados nos respectivos mandamentos que ferem.

Por exemplo: até que ponto “um apropriador indébito” está quebrando o mandamento “não furtarás”? Ou, como cumpriremos a ordem bíblica de nos levantar diante das cãs se elas já não são nominadas, ou, por vergonha, são até escondidas?

Do mesmo modo que pecamos quando dizemos sim ao querermos dizer não, pecamos ao chamar de luz as trevas. Isaías já nos alertou sobre isso: Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo! (5.20).

Percebeu? Uma coisa é pecar por racismo ou por falta de cortesia. Outra é arriscar-se a pecar por perverter o significado das palavras.

sábado, 6 de novembro de 2010

O efêmero e o eterno

Após 30 anos, os inventores pararam de fabricar os pequenos walkmans. Gravei muitas coisas neles. Desde minhas aulas de grego e hebraico, que ouvia no ônibus em que ia para o seminário, até o maior número de músicas possíveis a fim de tornar mais confortável uma viagem longa.

Eu vi essa tecnologia nascer e morrer. E essa é uma das características de nossos dias: ver o nascimento e a morte das tecnologias. Nossos pais raramente viam isso.

Quantas gerações conviveram com relógios de sol? A Bíblia faz menção de um nos dias de Ezequias (2Re 20.11). Não se sabe ao certo quando, mas depois vieram os relógios de areia (ampulhetas) e de água (clepsidras) e só na idade média apareceram os relógios mecânicos a corda. Finalmente, no século XX apareceram os relógios automáticos e os digitais. Todos possuíam a mesma função: medir o tempo. Mas faziam isso usando tecnologias diferentes. E apenas nossa geração viu o relógio de corda, o relógio automático e o digital. Os demais relógios sobreviveram muitas gerações.

Após a escrita o homem conseguiu armazenar mais eficientemente o conhecimento, de modo a não precisar passar por todos os erros de seus pais. Ele já encontrava a fórmula pronta. Bastava segui-la.
Quem dominava uma técnica nova, especialmente que garantisse vantagem sobre seus adversários, tentava escondê-la, lucrar com ela, ou impor, através dela, seu domínio.

Observe como dominar a tecnologia do ferro foi importante: “Esteve o SENHOR com Judá, e este despovoou as montanhas; porém não expulsou os moradores do vale, porquanto tinham carros de ferro” (Jz 1.19). E: “Clamaram os filhos de Israel ao SENHOR, porquanto Jabim tinha novecentos carros de ferro e, por vinte anos, oprimia duramente os filhos de Israel” (Jz 4.3).


Assim age o mundo moderno. Os países detentores de tecnologia de ponta impõem sua agenda aos demais, pois o conhecimento de como fazer vale mais do que o material do qual o produto em questão é feito. Entretanto isto não é novo. Veja: “Importava-se, do Egito, um carro por seiscentos siclos de prata ... nas mesmas condições, as caravanas os traziam e os exportavam para todos os reis dos heteus e para os reis da Síria” (1Re 10.29).


Devemos ter, pelo menos, dois cuidados para que isso não envolva nosso modo de viver:

1º Não devemos permitir que nossos valores morais se tornem tão descartáveis quanto nossas tecnologias (note que sequer falei de objetos descartáveis que nos rodeiam como lenços, fraldas, giletes, canetas, etc.), pois infelizmente essa tendência está presente. Veja as estatísticas crescentes de divórcio que mostram como o casamento está ficando descartável.

2º Devemos sempre nos lembrar de que, apesar do possuidor de uma nova tecnologia ter grande poder, isso não o torna onipotente. O inimigo oprimia o povo de Deus com 900 carros de ferro, mas não dominava o clima. Deus atolou seus carros na lama depois de chuva torrencial.

A tecnologia é de grande ajuda. Apenas isso. Ela muda. Passa. Sempre mudou e sempre mudará. Sempre passou e sempre passará. Aliás, “o mundo passa, com tudo o que as pessoas cobiçam; porém aquele que faz a vontade de Deus vive para sempre” (1Jo 2.17 NTLH).

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...