sábado, 26 de julho de 2014

Os Evangelhos e o Jesus histórico

No início do século 20, Albert Schweitzer escreveu um livro que resumia os esforços na busca de quem foi Jesus: A busca do Jesus Histórico. Sempre houve quem duvidasse do que os Evangelhos dizem a respeito de Jesus, mas, naquela época – como acontece hoje – quem duvidava da fidelidade dos Evangelhos inexplicavelmente estava dentro da Igreja!

No mínimo se dizia que os Evangelhos contêm exageros próprios dos devotos, que, ao descrever o objeto de devoção, saem dos limites da realidade e registram demais. Mas, notavelmente a maioria aceitava parte da narrativa! Duvidar do todo é compreensível, mas duvidar de partes e aceitar outras? Como selecionar as partes dignas de crença?

Diziam-se guiados pela razão. Ou seja: acreditavam apenas no que achavam ser razoável. E assim... é razoável que alguém, nascido na Galileia, nos dias do domínio romano, e que, embora tenha sido educado em uma família humilde, torne-se um mestre e chegue a ter discípulos. Mas não é razoável que ele tenha curado cegos de nascença, multiplicado pães, muito menos, que tenha ressuscitado alguém ou a si mesmo. Mortos não ressuscitam!

Partindo da pressuposição de que os mortos não ressuscitam qualquer texto que afirme que isto aconteceu, a priori, é produto de devotos (ou de canalhas).

Esta busca teve então desdobramentos e um deles, o principal, aconteceu com o uso das ideias marxistas de que a chave para o entendimento da história é a luta de classes. O resultado tinha de ser o óbvio: para que a (liderança da) igreja mantivesse seu poder sobre “as massas”, recorreu-se a relatos fantasiosos que têm por objetivo manter o fiel enganado e dependente.

Observe que o pensamento marxista não condena esse expediente como imoral. A condenação é política: os outros não devem usá-lo, mas os defensores das classes mais exploradas (ou seja: eles mesmos) podem usá-lo legitimamente.

Essas duas correntes ainda podem ser vistas hoje: Enquanto uma diz que os evangelhos é uma expressão de devoção e, portanto, cheia de exageros, os outros dizem que os evangelhos nasceram da necessidade das elites para dominar o povo. A primeira nega parte do que foi escrito e a segunda nega o todo.

Então, “Guiados pela razão”, chegaram ao ponto de declarar que apenas quarenta, dentre todas as afirmações feitas por Jesus são, de fato, verdadeiras. Os demais, guiados por Marx, sequer se preocuparam em analisar as afirmativas per se, pois, no fundo, tudo era um “folheto” usado para enaltecer a Igreja como representante de Jesus.

No primeiro caso, se a razão guiou os críticos e os evangelhos apresentam a intervenção divina na história humana, não seria de se esperar que o relato evangélico contivesse eventos que ela não pudesse explicar? A resposta que deram foi peremptória: – Deus (se existir) não entra em contato com o mundo material e os Evangelhos narram o que gostaríamos que acontecesse e não o que, de fato, aconteceu.

Agora, por poucos instantes, admitamos que Deus, de fato existe e quer intervir neste mundo. Não teríamos um relato semelhante com eventos além da explicação racional? O que é peculiar à mensagem cristã é o tipo de relacionamento que Deus estabelece com sua criatura, que rebelde, e sem condições de voltar-se para ele, precisa ser resgatada.

A mensagem dos Evangelhos, portanto, está plenamente de acordo com o que eles se propõem: narrar como Deus interveio na história humana.

Não preciso dizer que isto foi a ruina para a fé de muitas pessoas. Alguns pastores engajaram-se em uma luta contra os próprios ministérios e partiram para o ativismo político. Outros (provavelmente os que classificavam os Evangelhos como exagero de devotos) passaram a se dedicar mais à ação social. O próprio Schweitzer, professor de teologia na Universidade de Strasburgo, depois de um curso de medicina, abriu um hospital na África, onde passou a viver.

O relato evangélico só faz real sentido se for recebido em sua íntegra. O caráter do Senhor Jesus, de tão rico, precisa dos quatro relatos para ser apreciado em sua totalidade. E da apreciação dele depende a solidez de nossa fé.

domingo, 20 de julho de 2014

À mesa com Jesus

Você já reparou a quantas festas, banquetes, jantares ou ceias os Evangelhos narram que nosso Senhor compareceu?

Logo de começo há a festa do casamento em Caná, onde, da água, fez o melhor vinho.

Que alegria deve ter permeado a casa de Lázaro enquanto o Senhor ceava. Ceou lá pelo menos duas vezes: uma quando Marta atribulada com as comidas reclamava de Maria quedada aos pés do Senhor e outra quando Maria o ungiu.

Que clima pesado deve ter se abatido sobre todos quando o fariseu Simão, depois de convidar Jesus pra jantar, o recebeu com desdém. Será que alguém conseguiu comer algo?

Acaso podemos nos esquecer do banquete dado pelo publicano Levi, que, de tão alegre, encheu sua mesa de antigos colegas de profissão? E o que dizer da recepção na casa de Zaqueu, o chefe dos publicanos?

E assim, quantas vezes os Evangelhos nos mostram o Senhor em companhia de publicanos e pecadores – seus doentes que precisavam de médico – e quantas vezes ele foi censurado por isso? Ele mesmo estava cônscio de que o tinham por “glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores”.

Muitas vezes ensinou usando alimentos como exemplos. Com eles explicou que a impureza não está naquilo que entra pela boca, mas no que sai dela.

Prometeu – mesmo sendo Senhor – servir aos servos fiéis o pão dos céus à mesa com Abraão, Isaque e Jacó. Numa de suas parábolas comparou o Reino de Deus a um banquete de casamento e, para ensinar sobre o perigo de se ter o coração neste mundo, contou outra parábola em que um rico satisfeito com sua colheita exorta sua alma: “come, bebe e regala-te”.

Ensinou-nos a dar banquetes a quem não os pode retribuir e criticou os escribas e fariseus por amarem o primeiro lugar neles.

Disse que seu corpo era verdadeira comida e seu sangue era verdadeira bebida, e convidou aos sedentos “se alguém tem sede, venha a mim e beba”. E selou-nos a afirmação “quem de mim se alimenta, por mim viverá” repartindo o pão e o cálice e ordenando-nos a tomá-lo em sua memória, pois aquilo era seu corpo e seu sangue.

Comeu muitos tipos de comida e a preparação de alimentos serviu-lhe de motivo para parábolas. Procurou figos temporãos e conhecia bem as estações da oliveira. Gostava de peixes: multiplicou-os duas vezes, preparou-os na brasa e os comeu com mel. E foi reconhecido pelos dois de Emaús à mesa, ao bendizer o alimento.

Participava das páscoas desde cedo, nas quais se comia desde ervas amargas até um cordeiro assado. E, da última que participou, tomou um pedaço de pão e o último cálice de vinho e, com eles, despediu-se dos seus. Com o mesmo pão e com o mesmo vinho alimentou Judas para sua própria perdição, agravada pelas palavras do profeta: “Aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar”.

A mesa que lhe proporcionava o prazer da companhia trouxe-lhe a tristeza da traição “O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá”. E, na cruz, em vez de vinho, que deixou como recordação de si, e com o qual começou seus milagres, recebeu como bebida o vinagre.

Esse comportamento do Senhor reflete os valores do povo da Antiga Aliança, para os quais muitas bênçãos são tipificadas por alimentos. A própria descrição da Terra Prometida exaltava a quantidade de pastos bons e a exuberância de suas flores. Era como se dela manasse leite e mel.

Aquele que experimentou a alegria do convívio a mesa, é o mesmo que aguarda por nós, para juntos, tomarmos o “vinho novo” que ele espera ansiosamente para nos servir.

Vem logo Senhor Jesus.
 
(Texto publicado originalmente em 27/2/2010)

sábado, 12 de julho de 2014

Johann Sebastian Bach

Não me lembro de quando ouvi pela primeira vez “Jesus alegria dos homens”, mas eu já era adolescente. Fiquei impressionado. Não deixei começar a próxima música. Desliguei o rádio e tentei repeti-la de memória para não esquecer. Tive de esperar mais de ano e ficar acamado para encontrá-la novamente no horário da Escola Dominical em um programa chamado Concertos para a Juventude.

Que obra impressionante. Era tudo o que uma música deveria ser. Eu já estava aborrecido com tantas repetições de músicas sem pé nem cabeça, muitas vezes com letras, no mínimo, ruins. Uma obra feita pra louvar ao nosso Senhor Jesus estava sendo executada por ímpios enquanto, no mesmo horário, o pior tipo de música era usada na Igreja.

Mas, meu contato com Bach rendeu frutos. Já adulto – recém-saído do Seminário – encontrei o Rev. Joaquim Silvério, que também gostava de Bach, e que me presenteou com um disco de vinil importado (caríssimo) do Maestro Leopold Stokovski que continha suas obras mais conhecidas.

No dia 31 de março passado, além do aniversário de nossa Igreja, nos lembramos do nascimento de Johann Sebastian Bach em 1685. Cento e sessenta e quatro anos depois da temporada em que Lutero, refugiado nesta mesma cidade (no Castelo de Wartburg) traduziu o Novo Testamento.

É difícil falar algo sobre Bach que não esteja relacionado com Deus. Era um cristão fervorosíssimo e quase tudo o que ele fez tinha relação com a Igreja. Provavelmente deva haver mais, porém estou me lembrando agora de algumas “cantatas seculares”, entre elas a Cantata do Café, segundo alguns, composta para a inauguração do café (restaurante) de um amigo; a “Oferenda Musical”, presenteada a Frederico II, rei da Prússia (era o desenvolvimento de um tema musical proposto por ele); os “Concertos de Brandemburgo”; a “Arte da Fuga” e o “Piano bem temperado”.

Quem achar que muita, deve se lembrar de que tudo isso é muito pouco diante da quantidade enorme do que ele fez, mas principalmente deve lembrar-se de que, todas essas obras tinham o rigor que ele dedicava à musica para a Igreja. Para Bach, a música deveria, acima de tudo, louvar e Deus e fazer bem ao espírito humano.

Na cidade de Weimar, onde era o Mestre de Concertos, na Igreja Luterana, tinha por obrigação contratual apresentar uma cantata nova por mês além de uma na Páscoa, outra no Pentecostes e outra no Natal. Todas elas eram baseadas no texto bíblico que deveria ser lido naquelas datas. E destaco os oratórios: trechos enormes da Bíblia musicados em uma peça coesa: Paixão segundo São Mateus, Segundo São João, Elias...

Para mim é motivo de grande alegria ouvir sua obra. Especialmente num momento em que nossos ouvidos estão sendo atulhados com tanta música ruim.

Graças a Deus usamos algumas de suas obras no canto congregacional, por exemplo, “Oh! Fronte ensanguentada!”, cuja origem é um hino luterano que foi utilizado no Oratório Segundo São Mateus.

Mas, voltando ao que tanto me fez bem quando adolescente. Hoje, essa peça impressionante é mais ouvida nas propagandas do que nas igrejas. Mudou o gosto do povo – já me disseram. É... mudou mesmo. Mudou pra pior! Mas, por que um publicitário, querendo valorizar seu produto, usa esta peça e consegue alavancar as vendas de, até mesmo, uma margarina?

Roubaram nossos símbolos! Grita o salmista. Nem isso podemos dizer. Não roubaram. Cataram do lixo, em que nós jogamos!

sábado, 5 de julho de 2014

Direita e destra

(Ensaio sobre semiótica bíblica)
 
Desde o tempo dos patriarcas, o Povo de Deus, tinha significados indiretos (que, às vezes, são os mais importantes) para as coisas mais simples Uma delas era a direita.

Com a mão direita Jacó abençoou o filho mais novo de José, e quando este tentou corrigi-lo, ouviu que fazia de propósito.

Quando os sacerdotes eram consagrados o sangue do cordeiro era usado para marcar a orelha direita, o polegar direito e o pé direito deles. A coxa direita do cordeiro sangrado (além de outras partes) era movida diante do SENHOR e queimada em holocausto. Tratando-se, porém de um sacrifício pela culpa, a coxa direita do animal fazia parte da porção que cabia ao sacerdote oficiante.

Moisés, que tinha à sua direita o braço glorioso de Deus e canta que a Lei de Deus está à direita dele. Porém, séculos depois, Jesus garante a seu inquiridor – o sumo sacerdote – que, desde então estaria em tal lugar. E, Davi, Pedro, Paulo e o escritor da Carta aos Hebreus, declararam que, de fato, Jesus estava à direita de Deus; e foi à direita de Deus que Estêvão o viu. Mas, na mão direita de Deus, também está o cálice do qual seus inimigos beberão.

A direita sempre é mostrada como a mão da força e das realizações. O profeta Isaías declarou que Deus promete tomar seu povo com sua mão direita, mas, também declara que Deus tomou a Ciro pela mão direita para os castigar.

O rei Joás colocou um gazofilácio à direita de quem entrava no santuário, e séculos depois, de pé, à direita do altar do incenso, o anjo revelou ao sacerdote Zacarias que ele seria pai de João.

Davi canta que Deus se coloca à direita do pobre. E, Asafe lhe faz coro ao pedir que sua direita seja auxiliada pelo SENHOR, e ao dizer que na direita de Deus colocava sua esperança.

A direita, porém é cobiçada pelos inimigos. Mesmo diante de Deus, Satanás se opunha ao sacerdote Josué postando-se à sua direita. O desejo do salmista é que os ímpios se deparem com um acusador à direita, pois, na verdade, a direita deles é “direita de falsidade”. A besta que emerge da terra marcará, além da fronte, a mão direita daqueles que não são do Cordeiro.

A confiança do salmista em Deus era tamanha que, mesmo com dez mil caídos à sua direita, tinha certeza de não ser atingido.

Pela mão direita, Pedro levantou o paralítico que esmolava à porta do templo, e Jesus levantou João, que caíra por terra ao vê-lo glorificado.

À direita de Jesus ficarão suas ovelhas e lá ouvirão seu chamado. E sua mão direita (a mesma que recebeu o caniço das zombarias) sustenta as sete estrelas e o livro da vida.

Para Jesus é melhor amputar a mão direita do que pecar por ela, e a ofensa à face direita não deve prevenir seu discípulo contra o golpe maior.

Os discípulos, que gastaram a noite em trabalho vão, foram bem sucedidos quando obedeceram a ordem de Jesus e jogaram a rede à direita do barco.

Por sua mão direita o salmista jurou que não se esqueceria de Jerusalém. Deus, por sua direita, jurou que nunca mais daria o cereal de seu povo aos estrangeiros. E, com a mão direita levantada, anjos juraram à Daniel e a João.

A forma sintética “destra”, além da mão direita, refere-se ao que alguém faz com vontade e determinação, também é muito produtiva.

A destra de Deus estendeu os céus e alcançou-lhe vitória. A destra de Deus faz proezas, é gloriosa em poder, é elevada. Apanha e despedaça o inimigo, salva, sustenta e liberta seus amados. Ampara aqueles cujas almas se apegam a Deus. Foi ela quem adquiriu o monte santo, e levou seu povo à posse da terra prometida.

A destra de Deus está cheia de justiça, nela há delícias perpetuamente, há refúgio para os salvos. Porém, o próprio Deus firmou sua destra, como adversário, contra seu povo e os levou para o cativeiro na Babilônia.

Para o salmista a demora em Deus responder dava-lhe a impressão de que ele havia mudado sua destra, ou a conservava em seu seio, mas deseja que ela esteja sobre todos.

Os antigos dirigiam-se a Deus chamando-se de “povo da tua destra”.

A destra dos ímpios está cheia de suborno, mas a destra de comunhão foi oferecida por Tiago, Cefas e João à Paulo.

Depois de ter oferecido um único sacrifício pelos pecados Jesus foi recebido no céu e assentou-se à destra do trono da Majestade. Foi exaltado a “Príncipe e Salvador”, ficando-lhe subordinados anjos, potestades e poderes.

domingo, 29 de junho de 2014

As duas casas

Todos conhecemos a Parábola da Casa sobre a Areia, contada pelo Senhor Jesus. Dela podemos tirar grandes ensinamentos.

Para concluir o Sermão do Monte Jesus contou uma parábola que funciona como uma aplicação. É como se ele estivesse fazendo a seus ouvintes o que Natã fez com Davi: Lá – dá até pra imaginar Natã com o dedo em riste – Davi ouve “és tu o homem”. Aqui, é como se Jesus estivesse dizendo: Estou falando sério! 

Na parábola duas casas são comparadas: uma que foi construída com o alicerce sobre a areia e outra com o alicerce sobre a rocha, e, apesar de outras diferenças, o terreno diferente é o que Jesus utiliza como significante principal, pois mostra a existência de dois tipos de ouvintes de sua palavra: o que pratica e o que não pratica aquilo que escuta. O que pratica é semelhante a casa alicerçada sobre a rocha e o que não pratica assemelha-se à casa cujos alicerces fora colocados sobre a areia.

As entrelinhas indicam que a casa edificada sobre a rocha sofreu um ataque maior, e a palavra “mega” torna explícito que a ruina sofrida pela casa edificada na areia foi pior (implicando que não seria tão grande se tivesse acontecido com a outra). Porém, grosso modo, podemos dizer que ambas as casas sofreram igualmente, ou seja: com esta parábola o Senhor nos desilude da ideia de que aqueles que praticam suas palavras estão livres de tempestades.

O ensino principal é: Praticar os ensinos do Senhor é essencial para sobreviver às tempestades que se abaterão, e se abatem, sobre nossas vidas.

Obviamente podemos aplicar isto a todos os ensinos de Jesus, porém, pelo contexto, ele estava referindo-se primeiramente, ao Sermão do Monte onde há tantas prescrições sobre o que fazer e o que não fazer, que é quase temerário tentar resumir, mas em linhas gerais obedecem às seguintes disposições:

O discípulo de Jesus está obrigado a:

- Influenciar o meio em que vive (sendo sal e luz) sem ser influenciado por ele.

- Cumprir o verdadeiro espírito da Lei dada aos antigos e não só seu aspecto externo.

- Não fazer da vida religiosa elemento de promoção pessoal.

- Não priorizar a vida presente e seus cuidados ou riquezas, em detrimento do Reino de Deus e sua justiça.

- Acautelar-se dos julgamentos apressados e dos falsos profetas.

Estas diretrizes nos garantem passar incólume diante “das tempestades” que se abatem sobre todos. Observe que não são diretrizes para se entrar no Reino de Deus, mas diretrizes claras para quem é súdito deste reino. As tempestades, portanto, são o método usado por Deus para separar seus súditos dos demais.

sábado, 21 de junho de 2014

Semear e colher

Ainda no colégio aprendi que toda ação produz uma reação igual em sentido oposto. Por isso, quando se solta o ar de um balão ele vai pro lado contrário à saída do ar. O mesmo acontece com a turbina de um avião e com tudo que produz qualquer tipo de força em uma direção determinada. Porém, a reação é sempre igual a ação.
Entretanto, essa igualdade é própria do “mundo físico”. No mundo espiritual, como também no meio social, a reação, na grande maioria das vezes, é maior. Por exemplo, as vinganças: geralmente o vingador tende a exagerar. Essa é a razão básica do “olho por olho, dente por dente”. Diferentemente do que se pensa, esta lei não obrigava a que houvesse sempre uma reação, mas a limitava. E não foi dada primariamente às pessoas, mas aos juízes. Ou seja: seu objetivo primeiro era coibir os excessos.
Ao longo de toda Bíblia vemos muitas alusões à correspondência entre a entre a ação e a reação, numa espécie de relação de causa e efeito. Tanto positiva quanto negativamente.
Os resultados do anúncio do Evangelho, segundo nosso Senhor Jesus Cristo, são como a semente plantada. Dão frutos a cem, a sessenta e a trinta por um. Ou seja: para cada semente plantada haverá o nascimento de, pelo menos de outras 30: um crescimento de, pelo menos, 3.000% (Mateus 13.23).
Semelhantemente, o Reino de Deus é como a semente de mostarda: a menor de todas as sementes, que se transforma na maior de todas as hortaliças (Marcos 4.31-33).
Muitos séculos antes o salmista já usava a semeadura para exemplificar as bênçãos do Senhor: semeia-se com lágrimas, mas a colheita é feita com júbilo. Semeia-se uma simples semente, colhem-se feixes (Salmo 126-5-6). Mas o profeta Ageu nos ensina que, distantes de Deus, semeamos muito e recolhemos pouco (Ageu.5-7).
Porém, o apóstolo Paulo, lembra-nos da relação essencial entre a semente a planta, quando nos diz que se colhe exatamente o que se semeou e que é possível semear o bem ou o mal (Gálatas 6.7-8).
E, como o Evangelho ou o Reino de Deus, que se multiplica com a semeadura, o mal também. O profeta Oséias é quem nos adverte dizendo: Arastes a malícia, colhestes a perversidade” (Oséias 10.13). Ou ainda: Porque semeiam ventos e colherão tempestades” (8.7).
Hoje estamos colhendo os frutos amargos das sementes lançadas por nossos pais, e ao mesmo tempo estamos semeando sementes piores, que serão colhidas por nossos filhos. Se não quisermos colher tempestades não semeemos ventos. Não semeemos malícia e não colheremos perversidade.

sábado, 14 de junho de 2014

Ser cheio do Espírito Santo

O resultado imediato da descida do Espírito Santo foi a proclamação das grandezas de Deus pela Igreja, mesmo que para isso tivessem de usar idiomas nunca aprendidos: o Espírito Santo a capacitou a fazê-lo.

O Senhor Jesus tinha sido explícito: Eles receberiam o poder de testemunhar (especialmente sua ressurreição): E, comendo com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias. [...] recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra (Atos 1.4-8).

Você já deve ter percebido que essa relação de causa e efeito (ser cheio do Espírito Santo e ter poder de testemunhar o Evangelho) foi desvirtuada ao longo do tempo. Desvirtuada ao ponto de se acreditar que, após ser cheio do Espírito Santo, se começa a resmungar, grunhir e produzir sons desconexos: o tal dom de línguas.

Esses grupos sequer lembram em que data o Espírito Santo desceu (eu nunca vi qualquer grupo pentecostal comemorar este dia), mas afirmam, com certeza, que apenas quem fala em línguas (as que ninguém entende) foi batizado por ele.

A história nos mostra que já houve outras tentativas de se falar desses acontecimentos pós-pentecostes. Por exemplo, (dentre os que se lembram da data), até hoje, em alguns países da Europa (e, até onde pude ver, em alguns lugares nos EUA) a segunda-feira faz parte da comemoração do Dia de Pentecostes (que sempre cai em um domingo). É chamada de withmonday. Nela, alguns grupos vestidos de túnicas de batismo, desfilam (ou desfilavam) atestando que tinham sido batizados com o Espírito Santo.

Em uma biografia do Dr. Martyn Lloyd-Jones, encontra-se uma descrição mais comedida:

Comemorávamos o Pentecostes na segunda-feira. Era um dia muito especial para os membros da Escola Dominical de Sandfields, em Aberavon. [...] as pessoas logo se organizaram e começaram a andar. Primeiro homens, depois mulheres com suas crianças, dúzias delas, guiadas pelas mães, tias, professoras, irmãs mais velhas. Cada uma das meninas usava um vestido novo, feito especialmente para a ocasião. Alegres e autoconfiantes como uma menina usando um vestido novo! Até mesmo os meninos se arrumavam para o evento.

E assim andávamos, em ordem, cantando “Onward! Cristian Soldiers” (Erga-se o Estandarte),  “Who is on the Lord`s Side?” (Quem está do lado do bom Salvador?) ou “Stand up, Stand up for Jesus” (Avante, avante, ó crentes). Marchávamos pelas ruas do nosso bairro, passando pelas casas das crianças, felizes por vermos alguns membros e seus familiares às portas de suas casas, acenando para nós e encorajando os pequenos cantores que passavam! (Bethan Lloyd-Jones. Memórias de Sandsfield. PES).

Marchar pela cidade cantando hinos de louvor, ou de exortação aos demais cristãos, não implica necessariamente em situações pecaminosas, como agir como loucos (o que, além de tudo, é condenado como uma atitude que atrai vergonha. Veja: 1º Coríntios 14.23ss). Porém, não é uma prova absoluta de que isso tenha acontecido.

De qualquer modo, a prova mais concreta de que o Espírito Santo fez morada em alguém, além da capacidade de testemunhar, é a vida desta pessoa. Veja: ...o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gálatas 5.22-23).

Em uma época de tantas fantasias, de gestos vazios e de engano, não nos deixemos iludir. Especialmente em um assunto tão importante quanto este.

sábado, 7 de junho de 2014

Não vos deixarei órfãos

Alguns dicionários restringem o sentido da palavra “órfão” à menores de idade ou a incapazes. Àqueles que, pela falta dos pais, carecem de algum amparo ou de quem responda por eles.

Perdi meus pais após 30 anos de idade, e, se não houve o que fazer em termos legais, houve o que providenciar por mim mesmo, a fim de mitigar a falta de ambos. Lembro-me das noites em que eu orava em favor de ambos. Depois que meu pai morreu gastei certo tempo para me acostumar em agradecer pela vida dele e pedir em favor de minha mãe. Anos depois precisei me acostumar de novo: passei a agradecer pela vida dos dois.

Em termos materiais a morte deles não afetou minha vida. Mas em termos afetivos e espirituais sou completamente incapaz de descrever o que aconteceu.

Hoje, dia de pentecostes, relembraremos o cumprimento da promessa de Jesus: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo 14.18).

Embora a proteção aos órfãos seja um tema quase recorrente no Antigo Testamento, a palavra grega aqui - “orphanos” - pode ser usada para referir-se a qualquer um que perdeu seus pais, e seu uso no Novo Testamento é muito restrito (além daqui, ocorre apenas na carta de Tiago). E o sentido nos dois textos pressupõe incapacidade, ou necessidade.

Se Jesus promete não deixá-los órfãos, obviamente está se colocando na posição de pai, e colocando-os na posição de quem carece de um.

O Senhor, nos dias de sua carne, desempenhou o papel do Pai ao ponto de dizer a Filipe: “Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras” (Jo 14.9-10).

Ao reassumir a glória, que teve com o Pai desde a fundação do mundo, para que os seus não ficassem órfãos ele os enviou seu Espírito.

À implicação de que os seus não suportariam a orfandade, segue-se um desdobramento: o Espírito Santo supriria o papel de Pai que ele havia desempenhado. Portanto o remédio para a orfandade do Senhor Jesus era - e ainda é - a presença do Espírito Santo.

Mediante o Espírito Santo os seus não foram apenas capacitados a desempenhar a missão que dele receberam, mas tornaram a desfrutar de sua presença e de sua paternidade.

Capacitados e protegidos, aqueles por quem morreu, desfrutam mediante o Espírito Santo, das mesmas bênçãos que os discípulos e os apóstolos desfrutaram tempos atrás.

Essa é mais uma das grandes bênçãos que o Espírito Santo nos traz. Bênção que quase não é lembrada em nossos dias confusos.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Mais atual do que eu imaginava

Devido a uma viagem não postei o texto semanal, porém gostaria de sugerir um releitura de "Coisas importantes" http://folton.blogspot.com.br/2010/05/coisas-importantes.html que escrevi sobre a copa de 2010.

Fôlton



sábado, 24 de maio de 2014

Vida

Embora não saibamos exatamente como definir o que é vida, todos nós sabemos a que estamos nos referindo quando usamos esta palavra. Discordo, entretanto de quem diz que viver é a capacidade de existir autonomamente, pois as pedras existem e não estão vivas, e nós, que estamos vivos, dependemos do ar, do sol, dos alimentos. Ou seja: dependemos de tantas outras coisas, que podemos ser tudo, menos autônomos.

Aliás, essa é uma característica da vida: Mais do que dependente, ela é, por assim dizer, extremamente egocêntrica. Qual máquina, ela consome seus combustíveis a qualquer preço: cegamente. Não se pode convencer um ser vivo a gastar menos oxigênio, e o limite mínimo de suas necessidades calóricas é bem definido.

Fazemos parte de uma “cadeia alimentar”. Nos alimentamos e servimos de alimento. Comemos vegetais ou animais, e através deles recebemos os minerais que não podemos comer in natura e alimentaremos a muitos após nossa morte.

Fazemos parte de um tecido social mais ou menos semelhante. Jamais podemos afirmar que não dependemos de ninguém, ou que ninguém depende de nós. Dependemos do seio de nossas mães, da casa de nossos pais e do amparo de nossos filhos. Do seio recebemos o alimento e o conforto. Da casa, o conforto e a orientação para o futuro. Dos filhos a honra e o consolo de uma vida completa. Mas não se esqueça: os papéis se invertem. Começamos a vida como filhos e a terminamos como pais.

Ao adquirir nossa natureza o Senhor Jesus sujeitou-se a essa “roda”. Como qualquer um de nós dependeu de sua mãe e de seu pai e, apesar de sua inteligência precoce, atestada pelos doutores de Jerusalém, aprendeu com seus irmãos e amigos também. O escritor da Carta aos Hebreus nos diz que ele aprendeu aquilo que nunca teve de fazer: obedecer. Não teve filhos biológicos, mas deu sua vida pelos filhos espirituais, rompendo assim o círculo em que, no fim da vida, os pais passam a depender dos filhos.

O mais precioso nos vem de sabermos que ele é um de nós. Ele mantém nossa natureza e nunca se separará dela. Entretanto ele a corrigiu. Fez com que ela voltasse a ser o que deveria ter sido se nossos pais não tivessem pecado. A marca do tal egocentrismo de que falei - da vida comportar-se como máquina que devora seu combustível - para ele já é coisa do passado, pois o princípio vital não é mais “carne ou sangue”, mas o poder de Deus. Se antes, semelhantemente ao primeiro Adão, ele “foi feito alma vivente”, a pós sua ressurreição e agora, à destra do Pai, ele é “espírito vivificante” (1Co 15.45).

Os filhos de Jesus, aqueles com os quais ele comparece diante do Pai (Hb 2.13), “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.13).

 

domingo, 18 de maio de 2014


As consequências do Pentecostes

A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galileia e Samaria,
edificando-se e caminhando no temor do Senhor,
e, no conforto do Espírito Santo,
crescia em número.
Atos 9.31


Como podemos entender esta declaração? Como a Igreja tinha paz se enfrentava tantos problemas? Veja uma pequena lista deles:

  • Pouco tempo depois de Pentecostes, Pedro e João haviam sido presos e só foram soltos após ameaçados pelo mesmo Sinédrio que havia condenado o Senhor Jesus.
  • Não demorou muito tempo para que Ananias e sua esposa Safira expusessem o maior problema que afligia e sempre afligirá todas as igrejas: mentir ao Espírito Santo!
  • Logo em seguida todos os apóstolos foram presos e açoitados por anunciarem o nome de Jesus.
  • Com o crescimento numérico apareceram os necessitados. Isso os levou à escolha dos primeiros diáconos.
  • Um desses diáconos que foi apedrejado, com o consentimento do fariseu Saulo, foi o estopim para uma grande perseguição que espalhou a Igreja de Jerusalém pelas cidades da Judéia e de Samaria. Enquanto isso Saulo literalmente “assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere” (At 8.3).
  • Como acontece hoje com os mercadores da fé, Simão, o mago, tentou comprar o poder de conceder o Espírito Santo mediante a imposição de mãos.

Como, uma igreja, que, em cinco ou seis anos, passa por todos esses problemas, podia ter paz?

O próprio versículo nos dá a resposta: o conforto do Espírito Santo.

Quando Jesus prometeu o Espírito Santo aos seus discípulos ele o chamou de Consolador (em grego: Paracletos) e é essa a palavra que Lucas usa para falar de como a Igreja tinha paz. Ou seja: A igreja tinha paz, ao ponto de crescer em número, mediante a “paraclesis” do Espírito Santo.

Nossa tradução por “conforto” não é ruim. Talvez a dificuldade de se entender esteja na mudança de significado que esta palavra sofreu.

Hoje, para muitos de nós, o significado de conforto está entre aconchego e comodidade. Dizemos que cadeiras, casas e outras coisas, ou situações, são confortáveis, quando elas nos proporcionam sensação de bem-estar. Entretanto o primeiro significado desta palavra deriva-se do latim “cum+fortius” (com força).

Eles tinham paz mediante a força que o Espírito Santo lhes concedia, ao ponto de, com tantos, e tão grandes problemas, não comprometerem o viver na presença de Deus.

O mesmo Espírito, que os capacitou a falar nos idiomas dos muitos povos, das muitas nações para os quais iriam, os capacitou também a viver em paz, apesar dos problemas pelos quais passavam.

Mas não esqueça: Essa paz não era desperdiçada. Eles a aproveitavam para edificarem-se caminhando no temor do Senhor.

Não há melhor descrição dessa paz do que a que, anos depois seria feita por quem antes lutava contra ela: “... a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus (Fp 4.7).

sábado, 10 de maio de 2014

Teoria da conspiração

Eu nunca tinha ouvido essa expressão (Teoria da conspiração) até 1997, quando um filme com esse nome chegou aos cinemas. Hoje, é difícil contar quantas vezes eu a escuto, ou leio, todos os dias.

Encontrada em escritos desde o Sec. XVII, a palavra conspirar faz parte de nosso vocabulário há muito tempo. Sua origem é a expressão latina conspirare (cum + spirare = respirar juntos) e seu sentido principal pressupõe mais de uma pessoa tramando secretamente em detrimento da verdade. Teoria, neste caso, é a proposta de uma explicação para o que não se conhece.

Mas, aqui entre nós, nunca gostei da expressão. Talvez por ser a tradução literal de conspiration theory sem qualquer adaptação ao nosso idioma e pelo uso que a mídia passou a fazer dela nos empurrando diversos sentidos (nenhum deles muito preciso).

Há muitas “teorias da conspiração”. Algumas curiosas. Outras são até atraentes (e sobre elas se pode até usar o dito italiano “Se non è vero, è ben trovato”). Mas, outras são risíveis (pra dizer pouco).

É possível encontrar uma lista de centenas delas na internet: desde a fluoração da água (seria uma forma dos produtores de alumínio se livrar dos resíduos tóxicos da produção) à terra oca (haveria um espaço no centro da terra com uma civilização inteira), ou a que explica que a humanidade descende de seres espaciais. Dia desses ouvi a alegação de que “o cristianismo foi inventado durante o Império Romano para controlar as massas”.

Sobre o cristianismo, uma das mais velhas aparece registrada na Bíblia: A primeira explicação para a ressurreição de Cristo: o roubo do corpo (Mt 28.1-15). Ou seja: ressureição foi uma invenção dos discípulos de Jesus, que, para dar maior veracidade, roubaram seu corpo do túmulo. A mais abrangente é que as religiões, especialmente o cristianismo, é o ópio do povo. Ou seja: o que mantem o povo dormente e o impede de reagir contra o que os poderosos fazem.

Porém, para os cristãos, não há teorias e sim uma conspiração pura e simples. Conspiração que começou no Jardim do Éden e que inclui a rebeldia contra Deus. Ela é descrita em texto como: “Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o SENHOR e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas” (Sl 2.2-3). Ela pode ser vista na recusa sistemática ao verdadeiro Deus, seja em luta aberta contra ele, seja na busca de outros deuses.

Você já notou que (e nos últimos tempos isso tem se agravado) qualquer hipótese, para qualquer coisa, que inclua a ação de Deus, e sua existência, é sempre descartada em prol do maior absurdo? É como se dissessem: qualquer coisa menos Deus.

Você já notou como a verdadeira religião, cada vez mais, é mostrada como uma conspiração contra o homem? Bem... nesse ponto há uma certa razão, pois a verdadeira religião busca a glória de Deus e mostra o quanto o homem está miseravelmente caído. Mas, a verdadeira religião não é uma conspiração, pois não deseja suprimir a verdade. Pelo contrário, deseja que a verdade brilhe cada vez mais.

sábado, 3 de maio de 2014

Lutas por fora, temores por dentro.

Embora alguns não usem essa frase com receio de serem tidos por faltos de fé ou fracos, provavelmente ela seja uma das melhores descrições daquilo por que a grande maioria de nós passa. Com ela, o apóstolo que se recomendou à consciência dos fiéis, confessa suas dificuldades à igreja de Corinto (2Co 7.5).

Na mesma carta confessa que perdeu uma grande oportunidade, concedida pelo Senhor, em Trôade, devido a falta de tranquilidade (2Co 2.12-13) e que chegou a desesperar-se da vida pelo tamanho das tribulações que enfrentou na Ásia (2Co 2.8).

Eu já passei por momentos assim. Já pedi ao Senhor que me levasse e nem sei contar quantas oportunidades perdi por falta de tranquilidade. Portanto, conheço, por experiência, o que você está sentindo, se enfrenta lutas por fora e temores por dentro.

Nenhum de nós está livre de lutas. Aliás, elas são tão necessárias à saúde de nossa fé como uma atividade física é útil à saúde de nosso corpo. Para ser mais exato, o Senhor Jesus disse que elas fariam parte de nosso caminhar, quando nos mandou tomar, cada dia, a nossa cruz e segui-lo.

As lutas definem o caráter e fortalecem a fé.

Nenhum de nós também está livre de temores. Temores pela saúde, pelo trabalho, pela família, pelo futuro de nosso país, até mesmo pelo que está acontecendo com a igreja. Sempre vejo adolescentes ou jovens temendo um vestibular ou uma entrevista de emprego, pais receosos das companhias de seus filhos e anciãos preocupados com o fim da vida.

Os temores estimulam o exercício da fé.

Nesta mesma carta Paulo cita duas razões pelas quais um filho de Deus enfrenta coisas assim: aprender amar a Deus sobre todas as coisas e aprender amar ao próximo como a si mesmo.

Ele aprende amar a Deus quando as lutas e temores lhe mostram que é apenas um vaso de barro e que a excelência do que conseguiu fazer veio de Deus. Nas palavras do próprio Paulo: “De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (2Co 12.9).

Ele aprende a amar seu próximo quando percebe que as lutas e temores passados e superados lhe ensinaram a confortar (cum+fortius=com força) ou consolar (obra primária do Paracletos) a quem enfrenta tal situação: “É ele [Deus] que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus” (2Co 1.4).

Nos dias atuais, além de não ser conveniente confessar tais problemas, considera-se feliz aquele que os supera com os próprios esforços. Porém, isso não é um valor cristão. O verdadeiro cristão entende que a bem-aventurança consiste em ser consolado por Deus e aos pés dele depõe suas lutas e temores.

Hoje se prega um cristianismo que traz prosperidade, saúde, realizações e vitórias. Desconfie! A principal mensagem do verdadeiro Cristianismo é pregada à sombra de uma cruz. Lá está a verdadeira vitória. Lá cessam todas as lutas e dissipam-se todos os temores.

sábado, 26 de abril de 2014

Jesus ressurreto

Ressurreto, o Senhor Jesus apareceu vivo a essas pessoas, mais ou menos na seguinte ordem: Maria Madalena, outras mulheres, dois discípulos no caminho de Emaús, Pedro, dez apóstolos escondidos, dez e Tomé (no domingo seguinte), sete discípulos que estavam pescando, onze apóstolos e a mais de quinhentos discípulos. Apareceu também a Tiago (seu meio irmão), aos onze apóstolos (por ocasião da ascensão) e a Paulo (alguns anos depois).

O próprio Paulo resume assim: “... e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E apareceu a Cefas e, depois, aos doze. Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora; porém alguns já dormem. Depois, foi visto por Tiago, mais tarde, por todos os apóstolos e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo” (1Co 15.4-8).

Tomé exigiu do Senhor provas de que “era ele mesmo”, mas não ficou sem uma repreensão. Diferentemente, Lucas, vários anos mais tarde, sem ver o Senhor, ficou tão impressionado com os relatos de sua ressurreição que escreveu: “... depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis” (At 1.3). Lembre-se: Lucas era médico.

Mas, por que o Senhor Jesus não apareceu a todos?

Quanto ouço que o cristianismo baseia-se em lendas, contos, ou relatos desvirtuados, ou que a existência de Jesus não passa de uma ficção, eu me lembro disso: ele apareceu apenas a alguns!

Explico: se tudo isso fosse uma história inventada, o final seria o esperado: Jesus aparecendo a todos e punindo aos que tinham obrigação de zelar por seus interesses, mas o condenaram à morte. Não é assim que terminam as histórias deste gênero literário, no qual querem classificar as Sagradas Escrituras?

Replicam, entretanto, que, como apenas alguns o viram depois da ressurreição, é de se suspeitar da narrativa. Mas, como suspeitar de homens que mantiveram tal testemunho “inacreditável” mesmo ameaçados de morte?

Voltemos à pergunta: Por que Jesus não apareceu a todos?

Lucas nos dá a melhor resposta: “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas. Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24.44-49).

Em síntese: Os novos filhos de Abraão não nascem “do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. Nascem da fé.

Ora, que outro processo haveria de gerar estes novos descendentes senão “a loucura da pregação”? Crer, no que não se viu, disse Jesus a Tomé, é bem-aventurança. E, para garantir que apenas os que “creem em seu nome” respondam a uma mensagem tão inusitada, o Senhor Jesus houve por bem divulgar sua ressurreição - sua vitória sobre a morte e nossa paz com Deus - através das testemunhas que ele selecionou.

Assim o Evangelho é pregado conforme sua natureza: “Escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1Co 1.23).

O anúncio do evangelho decorre desse fato: Jesus só apareceu àqueles a quem enviou! E, por consequência, essa é uma das marcas dos falsos apóstolos: anunciar a verdade calcados em mentiras dizendo terem visto o Senhor.

Daqueles a quem ele apareceu, chegou a nós o santo evangelho. A esses ouvimos. E, em nós, manifestou-se a verdadeira fé. Fé que não depende de nada além do poder de Deus. Fé que subsiste a despeito de tudo.

Bendito instrumento que gera os novos - os verdadeiros - filhos de Abraão.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O corpo da ressurreição


Instruindo a Igreja de Corinto sobre a ressurreição, o apóstolo Paulo usou uma pergunta hipotética: Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E em que corpo vêm? (1Co 15.35). E passou a explicar essas dificuldades materiais.

Primeiro, comparou o corpo que morre a uma semente que se transforma em planta. Depois chamou a atenção para os diferentes tipos de carne (dos animais, das aves e dos peixes) e mostrou que há diferenças entre corpos celestiais e corpos terrestres e até mesmo entre os celestiais há diferenças de esplendor (sol, lua e estrelas). E concluiu: Pois assim também é na ressurreição dos mortos (1Co 15.42).

Essas comparações servem como introdução ao seu ensino que também é feito com diversas comparações: Semeia-se o corpo na corrupção, em desonra e em fraqueza; ressuscita-se na incorrupção, em glória e em poder. Usando seu fraseado: Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual. (1Co 15.44).

Estamos diante de um verdadeiro mistério.

Todos os que foram ressuscitados, voltaram a viver no mesmo corpo. Continuaram com o que herdaram de Adão. Jesus, no entanto, ressuscitou com o corpo a que se refere Paulo (não é sem razão que ele é chamado de as primícias dos que dormem (1Co 15.20), pois é o primeiro que ressuscitou com este corpo). Não se pode dizer que seja um corpo diferente, mas é um corpo que está para o primeiro como a planta está para a semente.

Observe que o corpo com que Jesus ressuscitou ainda não é o que foi descrito por João no primeiro capítulo do Apocalipse. Primeiro Jesus recebeu, ao ressuscitar, um corpo novo; e este foi glorificado, por ocasião de sua ascensão.

Por enquanto, voltemos ao corpo da ressurreição. Ele tinha pelo menos duas características diferentes:

1) Ele não era reconhecido facilmente (em alguns textos foi registrado que ele “deu-se a conhecer”). Lembre-se do que acontece com Maria (Jo 20.15), e do que aconteceu com os dois que iam para Emaús (Lc 24.13-31) e com os sete que passaram a noite pescando (Jo 21.1-7).

2) Ele desaparecia e reaparecia em outro lugar. Veja o que aconteceu com os dois que iam para Emaús (Lc 24.31) e dos outros quando apareceu diante dos 10 (Tomé não estava presente) que haviam se trancado em uma casa (Jo 20.19-23) e depois diante dos 11 (inclusive Tomé) novamente trancados (Jo 20.26-29). Esta segunda caraterística (desaparecer e aparecer)  implica em diferentes relações com o espaço (o que aconteceu também em sua ascensão).

Porém, Jesus se apressou em dizer que não era um fantasma. Lembre-se do caso de Tomé (Jo 20.19-29), quando para provar que tinha um corpo físico, deixou-se ser examinado e até comeu peixe com eles (Lc 24.41-43).

Percebeu? O corpo ressuscitado guarda semelhança com o anterior, mas parece transcender seus limites. Talvez o melhor modo de compreender seja percebendo que, ao pecar, o corpo de nossos primeiros pais sofreu algum tipo de degradação: Adão passou a suar para adquirir seu sustento (Gn 3.17) e Eva passou a sofrer dores de parto (Gn 3.16). Ora, se ao pecar receberam tal castigo, é de se esperar que se não pecassem receberiam algum tipo de recompensa. Ou seja: se não tivessem pecado desfrutariam do mesmo tipo de corpo de Jesus após a ressurreição.

Ora, a tônica do capítulo 15 da primeira carta à Igreja de Corinto é garantir que o que aconteceu a Jesus acontecerá a nós também. Sua conclusão é gloriosa: Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão.

sábado, 12 de abril de 2014

Entradas em Jerusalém

Quase setecentos anos antes de Jesus entrar em Jerusalém, montado em um jumento, os príncipes de Nabucodonozor também entraram em montarias de guerra.

Por dois anos eles mantiveram Jerusalém sitiada, como registrou o cronista sagrado: levantaram tranqueiras ao seu redor. E durante esse tempo Jerusalém suportou a falta de alimentos. Felizmente havia água, pois, cem anos antes foram cavados túneis sob a cidade que iam até uma fonte.

Pacientes, os babilônios trabalharam até abrir uma brecha na muralha. Abriram e puseram em fuga todos os “homens de guerra”, que logo foram alcançados e desbaratados. O rei Zedequias foi preso com sua família e mataram sua família e depois furaram seus olhos (de modo que a última coisa que ele visse fosse a morte de seus queridos) e o levaram acorrentado para a Babilônia.

O profeta Jeremias estava lá. As ordens do rei invasor eram claras: ele deveria ser protegido. Ele sempre falava que a única esperança para Israel era sofrer o cativeiro. Isso da impressão de que ele era amigo dos Babilônios e, os judeus o tinham por traidor. Mas, o que era claro para Jeremias é que não se pode fugir do castigo de Deus. O melhor que se pode fazer é recebê-lo: “por a boca ao pó”!

Hoje nos lembramos do dia em que Jesus também entrou em Jerusalém. Ele não teve de cercá-la, nem de abrir uma brecha em seus muros – muito menos de cegar suas autoridades, pois elas estavam duplamente cegas –  pelo contrário: foi recebido com gritos de alegria, palmas, ramos e roupas forrando o chão em que sua humilde montaria passava.

Entretanto, ao ver a cidade de longe, diferentemente dos Babilônios, chorou de compaixão e lamentou: “Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos. Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco; e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação” (Lc 19.42-44).

A situação de Jerusalém então era pior. Por um capricho, deram a João Batista um fim pior do que o de Jeremias, e agora recebiam o Filho de Deus, sem reconhecê-lo como tal. O recebiam como se fosse alguém que os lideraria em uma luta contra os Romanos.

Há certa semelhança com o que está acontecendo em nossos dias. Hoje Jesus tem sido recebido até com aplausos e festas, porém nunca como deveria ser. Às vezes o honram com títulos tolos – o maior psicólogo, mestre, líder, etc. do mundo –  porém nunca como o verdadeiro Deus em quem habita corporalmente a plenitude da divindade. Hoje as palmas e as roupas que estendem por seu caminho são bajulações grosseiras e falta de respeito (para dizer pouco). Entretanto ele continua apresentando-se humilde como quem cavalga um animal de carga.

Ainda é tempo de reconciliação. O Senhor ainda pode ser achado. Ainda está perto.

Não perca a oportunidade de buscá-lo.

sábado, 5 de abril de 2014

Anchieta

Depois de um processo que durou 400 anos (o mais demorado da história) Anchieta foi canonizado na marra. Se o processo continuasse dificilmente Anchieta seria canonizado, pois além de não possuir um segundo milagre feito depois de ser declarado beato, o auxílio que ele prestou no enforcamento de um membro da Igreja de Calvino  depunha gravemente contra a pretensão de ser santo.

Desde meus tempos de seminário, meus professores me alertavam: não se preocupe com a canonização de fulano ou beltrano, mas mostre o quanto é ímpio o próprio ato de canonizar alguém. Entretanto, o caso de Anchieta é terrível, pois além do erro que existe em declarar que alguém deva ser adorado, o personagem em questão é mais do que um pecador comum. É um assassino. Um assassino de protestantes, pela única razão de serem protestantes.

Nascido em 1534, em Tenerife, uma das Ilhas Canárias, estudou filosofia em Portugal. Veio para o Brasil em 1553 e depois de muitos trabalhos, inclusive a edificação da casa ao redor da qual se formaria a Vila de São Paulo, induziu Mem de Sá, governador-geral, a condenar Jacques Le Balleur à morte, tendo ajudado em seu enforcamento.

Naqueles dias o rei da França, fiel súdito do Papa, estava inconformado com a divisão dos novos descobrimentos entre Espanha e Portugal (o Tratado de Tordesilhas), e recebeu com alegria a proposta de seu Almirante, Villegaignon, de fundar nessas novas terras, mediante a força: a “França Antártica”.

Como não tinha recursos autorizou outro almirante, Colligny, que tinha bom trânsito junto à Igreja de Genebra, a levantar os fundos necessários. A Igreja, refúgio de muitos franceses perseguidos, viu uma boa oportunidade para estabelecer alguns deles em um local livre de perseguições. Então, para a primeira viagem, o próprio Calvino selecionou diversos pastores e artesãos.

Ao chegarem aqui, Villegaignon mostrou sua verdadeira face: passou a persegui-los e matou alguns. Porém, outros escaparam. Le Balleur ficou entre os índios e anos mais tarde foi reconhecido e preso em São Vicente. Levado a Bahia, enfrentou o tribunal da inquisição e foi condenado a morte “no mesmo local em que começou a vomitar suas heresias”.

Não se sabe ao certo como Anchieta ajudou no enforcamento. Há quem diga que, diante a recusa do carrasco em prosseguir o enforcamento, ele tenha esganado Le Balleur com as próprias mãos. Outros dizem que ele recebeu a confissão de Le Balleur, abjurando o protestantismo e, preocupado com a demora de sua morte após dependurado pelo pescoço, o teria misericordiosamente puxado pelos ombros com o fim de abreviar seus sofrimentos. Se não há certeza de como, a demora em canoniza-lo e a forma como ele foi canonizado atestam sua participação.

A campanha para sua beatificação teve início no século 17 e só em 1980 o Papa João Paulo II o declarou beato e nesta quinta-feira passada (3 de abril de 2014) o Papa Francisco o decretou santo. Foi dispensada a comprovação de milagre, como exige a própria lei da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR).

Nós, protestantes vemos muitos problemas em declarar alguém santo:

1º - Acreditamos em milagres. Acreditamos que Deus pode fazê-los, e os faz, quando quer. Mas confessamos que a capacidade de fazê-los espontaneamente foi restrita a alguns profetas e aos apóstolos.

2º - Rejeitamos completamente a ideia de adorar alguém além de Deus. Aliás Deus proíbe isso terminantemente. Porém, a ICAR torna alguém beato ou santo exatamente com o objetivo de ser adorado. Veja o que diz seu direito canônico:

Cânone 1186 — Para fomentar a santificação do povo de Deus, a Igreja recomen­da à veneração peculiar e filial dos fiéis a Bem-aventurada sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, que Jesus Cristo constituiu Mãe de todos os homens, e promove o verdadeiro e autêntico culto dos outros Santos, com cujo exemplo os fiéis se edifi­cam e de cuja intercessão se valem.

Cânone 1187 — Só é lícito venerar com culto público os servos de Deus, que foram incluídos pela autoridade da Igreja no álbum dos Santos ou Beatos.

Em última análise, ao canonizar Anchieta, o Papa está dizendo: Adorem o carrasco Anchieta.

Não deixe de ver:
 

sábado, 22 de março de 2014

Abimeleque

No tempo em que Israel era governado por Juízes e cada um fazia o que achava mais reto, Abimeleque matou seus irmãos. Setenta irmãos.

Abimeleque era filho de Gideão (aquele que fora usado por Deus para libertar Israel do jugo dos Midianitas) com uma concubina que ele mantinha em Siquém, cidade não muito distante de Ofra onde morava.

Após a morte de seu pai, Abimeleque perguntou aos moradores de Siquém o que eles prefeririam: ser governados pelos 70 filhos de Gideão, ou apenas por ele (que além de ser filho de Gideão, também era conterrâneo)? Não duvidaram e deram muitos presentes aclamando-o rei.  

Com o valor dos presentes contratou mercenários (homens levianos e atrevidos) e atacou seus irmãos e os matou. Foi muito cruel. Matou todos sobre uma pedra, como se fosse um altar e em seguida declarou-se rei.

O mais novo deles, Jotão, que havia se escondido, subiu ao monte Gerizim (o mesmo monte em que, duzentos anos antes, Josué, obedecendo as ordens de Moisés, tinha abençoado todo o povo) e, do alto do monte, gritou aos cidadãos de Siquém uma espécie de parábola. Nela, as árvores queriam um rei e convidaram à oliveira para reinar sobre elas. A oliveira respondeu que não deixaria seu azeite. A figueira e a videira responderam de modo semelhante ao mesmo convite. Finalmente, todas as árvores convidaram ao espinheiro que aceitou com a condição de que elas se abrigassem à sua sombra, do contrário ele as queimaria. E concluiu: vocês foram injustos ao esquecerem-se do que meu pai fez. Além de se revoltarem, mataram seus filhos e fizeram rei ao matador! Ao filho da escrava! Vocês se merecem. Que saia fogo dele contra vocês e de vocês contra ele. E foi morar do outro lado da região montanhosa.

Depois de três anos, Deus provocou uma aversão entre os moradores de Siquém e Abimeleque. Eles, além de fazer emboscadas em todas as estradas movimentadas, convidaram a Gaal e sua gente para aumentar o terror que impunham sobre Israel.

Esse Gaal, como todos os siquemitas, era descendente de Hamor, cujo povo, quinhentos anos atrás, quase fora exterminado por Simeão e Levi, como vingança contra seu filho Siquém (de quem herdaram o nome) que estuprara Diná, irmã deles.

Juntos, os siquemitas e os homens de Gaal colheram uvas, fizeram vinho e festivamente entraram na casa do mesmo deus, da qual haviam tirado o ouro com que presentearam a Abimeleque e o amaldiçoaram enquanto comiam e bebiam.

Zebul, o oficial de Abimeleque, o atiçou a guerrear contra eles. Os siquemitas foram vencidos e Gaal foi expulso. Os que continuaram a resistir na cidade foram mortos e a cidade foi destruída e semeada com sal. Os siquemitas que haviam ficado no templo se esconderam em uma fortificação subterrânea do mesmo templo. Avisado, Abimeleque os atacou e, cobrindo a fortificação com ramos, queimou vivos cerca de mil homens e mulheres. As palavras de Jotão haviam se cumprido: saiu fogo do espinheiro e consumiu os siquemitas.

Continuando seu ataque, Abimeleque sitiou e tomou a pequena Tebes. Seus moradores se abrigaram em uma torre contra a qual o ataque foi direcionado. Enquanto Abimeleque tentava incendiar sua porta, do teto, uma mulher acertou-lhe a cabeça com uma pedra. Ensanguentado e desesperado, Abimeleque ordenou a seu escudeiro que o matasse para que não se dissesse que morreu pelas mãos de uma mulher. Ele o atravessou com a espada.


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Não há conclusões ou aplicações nessa narrativa e em qualquer narrativa do livro dos Juízes. O texto apresenta os fatos sem emitir qualquer sinal de aprovação ou reprovação. Porém, a riqueza de detalhes é tanta que um leitor atento vê com clareza não apenas os pecados cometidos, mas o que os motivou.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...