sábado, 24 de junho de 2006

O Pentecostes hoje (Parte 2)

O evento que relembramos no primeiro domingo deste mês - verdadeiro marco histórico para a Igreja - tem sido pretexto para muitas agitações no meio do Povo de Deus.

Afinal, o que significou, para a Igreja, o dia de Pentecostes senão seu nascimento na forma em que a conhecemos hoje? Entretanto, o que significa, hoje, o movimento dos últimos séculos que se autodenominou “pentecostal”, senão uma fonte de divisões e brigas dentro da Igreja?

Você conhece alguma Igreja Presbiteriana que não tenha sofrido divisões devido a este movimento? Eu desconheço alguma que tenha passado incólume.

Aproveitarei estes próximos domingos para tentar analisar como ele se manifesta e influencia as Igrejas Presbiterianas.

Sem obedecer uma ordem de importância, cito, primeiro, uma má aplicação de nosso sistema de governo, como um dos meios que facilitam sua entrada em nossas Igrejas.

Nossos oficiais são eleitos por suas respectivas igrejas para apascentar o Rebanho de Deus em virtude de características muito bem definidas na Bíblia (hospitaleiro, cordato, apto para ensinar, etc.), para uma missão igualmente bem definida: "... com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina..." (Ef 4.11a14).

Ninguém deve ser eleito oficial de uma igreja, por quaisquer outras qualidades que não as que Deus mesmo determina em sua Palavra, e ninguém deve aceitar tal missão se não for para fazer o que igualmente ele determina.

Entretanto, por serem eleitos, muitos sentem-se "devedores" a seus eleitores; e, ao mesmo tempo, os eleitores sentem-se no direito de cobrar-lhes o que crêem ser o melhor para a Igreja.

Por vivermos em uma democracia, trazemos para a Igreja conceitos políticos do quotidiano. Exemplifico:

Há alguns anos atrás, em uma reunião do Conselho de uma Igreja em que fui pastor, boa parte dos membros tomaram partido de alguém que defendia práticas claramente condenada na Bíblia. Durante os debates na reunião um dos presbíteros argumentou que, se esse irmão tinha tantos adeptos na Igreja, ele tinha o direito de ter representação no Conselho.

Observe que este pensamento atribui ao Conselho um papel equivalente ao do Congresso Nacional, onde devem estar representadas todas as idéias, sem quaisquer distinção. Porém a Igreja não é assim: a Igreja é confessional.

Ela não representa a vontade de seus membros e sim a vontade de Deus como está registrada nas Escrituras Sagradas, conforme a interpretação dos Símbolos de Fé.

A Constituição de nosso País é explícita ao declarar que “todo poder emana do povo que o exerce por meio de representantes eleitos... (Art. 1º - § único)”. Na Igreja todo poder provêm de Deus e em Seu Nome é exercido, mediante obediência a sua vontade revelada na Bíblia.

Mesmo que 100% do rebanho venha a ter um determinado pensamento é dever do Conselho permanecer fiel à Palavra de Deus.

Mas, dirão alguns: o movimento pentecostal não é contrário à Palavra de Deus.

Este já é outro assunto. Se Deus permitir o analisarei na próxima semana.

3 comentários:

Oliveira disse...

Caro Reverendo Folton

Sobre a parte que diz "... sim a vontade de Deus como está registrada nas Escrituras Sagradas, conforme a interpretação dos Símbolos de Fé..."

Minha pergunta é:

1. Sim as Escrituras Sagradas são inspiradas, infalíveis, inerrantes, etc..., mas a interpretação dos Símbolos de Fé também o são?

2. O que significa dizer "... os dons revelacionais cessaram..."? Que dons são estes especificamente?

Qual sua visão a respeito?

Um grande abraço

PS: Como sabes, eu tenho muita, muita, muita, muita, muita, mas muita restrição aos dons carismáticos tais como línguas, profecias, visões, etc... mas não posso deixar de aceitá-las pois são bíblicas ("sola scriptura") e tenho casos onde fui testemunha de que seria impossível não serem de Deus, e serem manisfestações do diabo. Mas eu tenho o maior respeito pela sua visão.

Enfim, pela sua ótica eu não deveria nunca ser eleito oficial na igreja presbiteriana, pois com esta minha veia carismática posso desvirtuar ovelhas... Não que eu deseje, mas a lógica permanece, não é mesmo?

folton nogueira disse...

Oliveira;

Gradualmente tuas perguntas estão ficando mais complexas e demandando mais tempo de resposta. Daí parte da razão da demora.

1. Nossos símbolos de fé não são infalíveis. Eles mesmo admitem isso. Entretanto até hoje são os que mais fazem justiça à "analogia da fé" (ao todo da Escritura).

2. Te explico com a citação de um de nossos símbolos de fé: CFW I,1 - "para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo".

Destaque a frase: "tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo"

Não disponho de condições agora para fazer uma exegese das palavras iniciais da Carta aos Hebreus. Mas, além dos muitos outros textos que sobre os quais o texto acima se baseia (todos citados lá), este é fundamental.

3. Sobre os dons revelacionais: Todos são tão bíblicos quanto a circuncisão. Mas por que não a praticamos mais? Todos são tão bíblicos quanto o foram os patriarcas, mas por que eles não existem mais? Não é o caso de pensarmos no modo como Deus administra a história?

Quanto minha filha mais velha era bebê eu a tomava no colo e falava com ela de um modo muito diferente do que falo hoje.

Eu não mudei. Mas não trato minha filha do mesmo modo que a tratava quando ela ainda era bebê. Chegando sua maturidade (plenitude dos tempos) passei a tratá-la de modo adulto, apesar de ainda ser o pai e demandar-lhe respeito, e ela ser a filha e me respeitar como filha.

4. Quanto a ser eleito da IPB ... Meu irmão essa resposta deve ser dada por outra pessoa que não eu. Só o Espírito do Senhor pode responder a você e a assembléia a qual seu nome for eventualmente proposto.

ab
Fôlton

Oliveira disse...

Caro Reverendo

Vou meditar nas suas palavras.
Desculpe se as perguntas estão ficando complexas...

Sim, eu gosto da analogia da linguagem das criança e dos meninos na fé... mas penso que ainda temos na igreja as crianças e os infantes... sei que a sua analogia se aplica a história, mas não posso negar os fatos.

De forma alguma eu "desejo o episcopado...", minha pergunta é no sentido de como ficariam os que deixam o meio pentecostal para abraçar a teologia reformada (e eu conheço alguns)... a maioria deles tem grandes restrições aos dons carismáticos, mas aceitam que existem, principalmente para uso privado dentro dos termos que Coríntios detalha.

Um abraço e obrigado (e desculpe...)