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sábado, 8 de novembro de 2014

Os que vos presidem bem

Depois do dia de Pentecostes alguns convertidos permaneceram em Jerusalém e muitos voltaram para suas cidades de origem onde estabeleceram igrejas. Este deve ter sido o início de Igrejas como a de Roma. Lucas nos informa (At 28.13-14) que encontraram “alguns irmãos” em Putéoli (próximo a atual Nápoles) e que foram recebidos pelos crentes de Roma na Praça de Ápio.

Até o fim do primeiro século temos notícias de pelo menos 50 igrejas em diversas cidades desde Jerusalém a Roma. Dentre essas, temos detalhes em Atos dos Apóstolos, das igrejas na Galácia, Filipos, Tessalônica, Corinto e Éfeso e pelas cartas de Paulo sabemos algo das igrejas em Colossos, Laodicéia e Creta. O Apocalipse fala das 7 igrejas na Ásia menor.

Portanto, em cerca de 60 anos – de 40 a 100 AD – podemos catalogar umas cinquenta igrejas diferentes, fundadas em situações diferentes, em cidades diferentes, falando idiomas diferentes, com poucas coisas em comum: todas dentro do império romano e todas usando um sistema de governo semelhante.

Sobre essa primeira característica comum, veja aqui uma análise que fiz em agosto de 2011. Quanto à segunda característica, Lucas nos diz que a Igreja de Jerusalém tinha Apóstolos (At 8.1, 11.30, 15.1, etc.) e presbíteros (At 15.1). Também tinha diáconos, pois os 7 homens (At 6.1-7) foram eleitos com missão de servir às mesas.

O ofício de Apóstolo foi tão restrito aos Doze chamados por Jesus, quanto o patriarcado foi restrito aos filhos de Jacó. Além dele temos apenas Matias e Paulo (que, como os dois filhos de José, foram agregados ao patriarcado também). Os textos em que outros são chamados apóstolos (Barnabé em At 14.14 e Tiago, o irmão do Senhor, em Gl 1.19) são claramente lato sensu. Seria como dizer que Moisés e Josué foram patriarcas de Israel. Só houve uma substituição entre os doze: Judas. Quando o último apóstolo morreu considerou-se extinta a época deles e os que ousaram identigicar-se como apóstolos foram expostos como obreiros fraudulentos, ministros de Satanás (2Co 11.4-15) e mentirosos (Ap 2.2).

Os presbíteros são explicitamente mencionados nas Igrejas de Listra, Icônio e Antioquia (At 14.21-23), Éfeso (At 20.17), Creta (Tt 1.5) e nas diversas igrejas do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1Pe 5.1 em conjunto com 5.5). A palavra presbítero basicamente significa idade mais velha, porém seu uso mais comum refere-se à maturidade. A Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) usou diversas palavras derivadas da raiz presb: velhos (Sara e Abraão), ou líderes (os auxiliares de Moisés). No Novo Testamento (NT) refere-se aos membros do Sinédrio, aos seres celestiais do Apocalipse, e principalmente a certos líderes cristãos, encarregados de supervisionar e pastorear a Igreja (At 20.28, 1Pe 5.1-3, etc.).

A palavra diácono aparece 34 vezes (5 vezes na Septuaginta) com o sentido básico de serviço (os servos no Livro de Ester, o maior no reino dos céus, os serventes na festa de Caná, etc.) Porém, em cinco lugares ela claramente refere-se a um ofício na Igreja (os que preenchem as qualificações dadas a Timóteo (1Tm 3.8-10) e aquele a quem a Carta aos Filipenses foi endereçada (Fp 1.1). Os primeiros diáconos foram eleitos na Igreja de Jerusalém (At 6.1-6).

O texto bíblico menciona bispos nas Igrejas de Éfeso e FIlipos e indiretamente na de Creta (quando Tito recebe instruções). A palavra episkopos e suas correlatas (de onde veio nossa palavra bispo) era usada desde a Grécia clássica para designar aquele que supervisiona, superintende, vela ou vigia por algo (Artemis vigiava pela fidelidade dos contratos). É mais usada na Septuaginta (14 vezes) sempre com o sentido de ter o encargo de, comandar, superintender, inspecionar, do que no NT (5 vezes) onde significa basicamente pastorear. De todas as vezes fica a impressão de um presbítero que tinha uma incumbência específica.

É notável que durante todo esse tempo, em uma área com quase 5 mil quilômetros de extensão, igrejas de nacionalidades e idiomas  tão díspares, possuíssem forma de governo tão semelhante. Não pode ter sido apenas coincidência. Creio que a Doutrina dos Apóstolos incluía também uma alusão ao sistema de governo do Antigo Testamento em que os presbíteros já estavam presentes e os diáconos possuíam missão análoga à dos levitas.

Os presbíteros, que supervisionassem bem, deveriam ser dignos de honra (ou honorários) dobrados, especialmente os que se dedicassem ao estudo da Palavra de Deus e ao ensino (1Tm 5.17). Deveriam ser tidos em alta conta, ter sempre um voto de confiança diante de denúncias isoladas (mas, quando culpados, a disciplina deveria se pública, diante de todos).

Não podemos esquecer que eles receberam exortações pungentes sobre como exercer seus ofícios: Paulo diz que eles deveriam ter vidas tão ilibadas ao ponto de não serem passíveis de qualquer repreensão. Deveriam ser maridos de uma só mulher e pais de filhos dóceis. Irrepreensíveis, também, ofício do presbiterato. Afáveis, pacíficos, generosos, hospitaleiros, sóbrios, apegados à doutrina cristã, dispostos a defendê-la e a promover sua aplicação. Pedro ordena-lhes atender o rebanho com dedicação e liberalidade sem segundas intenções, especialmente financeiras. E João diz que devem ser comprometidos com a verdade.

Todas as qualidades estão relacionadas a cuidado e nenhuma delas a desempenho. Diferentemente de hoje, os líderes do povo de Deus, não são executivos dirigindo uma empresa ao sucesso. São homens santos cuidando de um rebanho que não lhes pertence.


sábado, 1 de novembro de 2014

Davi e os Salmos

No fim de sua adolescência, Davi recebeu de seu pai, a incumbência de levar alimento para seus irmãos que estavam no campo de batalha. O capítulo 17 do primeiro livro de Samuel nos conta que os dois exércitos estavam acampados em lados opostos de um vale, no qual o maior guerreiro dos filisteus, com quase 3 metros de altura, se apresentava diariamente e insultava o exército de Israel desafiando a que alguém o enfrentasse. O soldado mais alto de Israel era exatamente o rei Saul, que, como seus soldados, estava amedrontado.

Indignado com o medo de seu exército e com os insultos do guerreiro filisteu, Davi aceitou seu desafio. Era uma verdadeira temeridade: ele ainda era “um menino ruivo com bochechas rosadas”. 
Tomou 5 pedras no riacho e encarou o filisteu que irado perguntava: “sou acaso algum cão?”. Davi o venceu com uma pedrada na testa.

Após sua impressionante vitória, Davi passou a morar no palácio de Saul e tornou-se seu principal comandante. Foi aclamado e cantado como herói e destacou-se tanto que Saul passou a nutrir-lhe ciúmes e diversas vezes tentou matá-lo.

A vida de pastor ficou para trás. As guerras tornaram-se sua principal obrigação. Entre essa infância quase idílica, em que os maiores perigos eram os animais do campo, e uma juventude de dificuldades e guerras, Davi encontrava alento na música. Setenta e três, dos cento e cinquenta Salmos, foram compostos por ele. E, tenho por certo, que a maioria dos que ele compôs, compôs em sua velhice.

Veja, por exemplo, o Salmo 23. Exala saudades. É como se Davi, já velho, vendo o que Deus lhe permitiu fazer à Israel, seu segundo rebanho, relembrasse os cuidados que ele tinha com o rebanho de ovelhas de sua adolescência: Como nada faltava a meu rebanho, assim as ovelhas do SENHOR de nada têm falta. Como protegi meu rebanho assim Deus nos protege. Levei minhas ovelhas às boas águas e aos bons pastos, assim o SENHOR também faz. As veredas pelas quais conduzi minhas ovelhas foram apenas um vislumbre das “veredas da justiça” pela qual ele nos conduz. E como eu as protegi, mesmo nos locais em que a morte fazia sombra, ele nos protegeu também nos momentos mais perigosos.

E assim, Davi, pastor de dois rebanhos, relembrava-se e fazia de suas lembranças canções de louvor ao SENHOR.

No Salmo 139, além de seus dotes artísticos, aparece também sua teologia. Observe que é uma teologia profundamente arraigada em sua experiência com Deus. Ele começa falando do conhecimento de Deus e o expressa com os verbos sondar, saber, penetrar, esquadrinhar e cercar. Aquilo que ninguém conhece (a palavra não falada), é inteiramente conhecida por Deus. E, como conclusão, ele exclama: ”Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir”.

Seu segundo assunto é a onipresença de Deus e ele a expõe argumentando hipoteticamente sobre a impossibilidade de esconder-se de Deus: “Para onde me ausentarei de teu Espírito? Para onde fugirei de tua face?”. E a seguir propõe dois contrastes: O primeiro entre o mais alto e o mais baixo e o segundo entre o que está mais a leste e o que está mais a oeste.

Deus é Senhor do mais alto, dos céus (ou da vida), do mesmo modo que é Senhor do mais baixo, do profundo abismo (ou da morte). Igualmente é Senhor de qualquer lugar que possamos ir desde o nascente (alvorada) ao por do sol (noite).

Ele continua olhando a si próprio no terceiro assunto: a onipotência de Deus. Deus, literalmente, tomou posse de seus rins (lembre-se de que nesta época os rins eram vistos como hoje vemos o coração: órgão vital) e o teceu no ventre de sua mãe. Sendo que nesse local secreto, os ossos que ainda permanecem em segredo para todos nós, estavam claros e acessíveis a Deus. Antes de seu corpo ter um formato definido, Deus já havia formatado todos os seus dias, pensando muitíssimas vezes o que há de mais precioso a seu respeito.

Pois bem: como é que um Deus tão impressionante como este pode ser desdenhado? Como pode haver que seja seu inimigo? O que é que ele deve fazer a respeito de quem, dentro do povo de Deus, o aborrece?

Lembre-se que Davi era o representante máximo de Deus sobre Israel.

O ódio que Davi tinha desses ímpios era tão grande que ele teme pecar. Então ora: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno”.   

sábado, 4 de outubro de 2014

As Sagradas Escrituras sempre foram claras em falar da natureza heterogênea da Igreja. Por exemplo: "Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos. Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade” (Cl 3.9-13).
Essas ordens pressupõem a existência de tensões expressas através de mentiras e de malquerenças entre pessoas de nacionalidades (gregos, judeus, citas, que eram originários da Citia, região próxima ao Mar Negro, atual Cazaquistão) e condições sociais diferentes (escravos ou livres).
Isso era consequência da vida que eles tinham antes. Agora, a nova vida em Cristo os possibilita a não mentir e a “vestirem-se” de misericórdia, bondade, humildade, mansidão e longanimidade.
Dando instruções à seus discípulos, o Senhor Jesus advertiu contra problemas entre os membros da Igreja: “Se teu irmão pecar contra ti, vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano.” (Mt 18.15-17).
O próprio Senhor sabia que dentro da Igreja surgiriam desentendimentos. Afinal, apenas nosso espírito (que está pronto) foi regenerado. A carne (que é fraca) aguarda a ressurreição. Portanto, na medida em que a carne se sobressai os desentendimentos (e até brigas) passam a fazer parte da vida dos membros da Igreja.
E para resolver tais problemas o Senhor Jesus aponta dois caminhos: arguir o irmão ou denunciá-lo à Igreja.
Essa arguição, preconizada pelo Senhor, pressupõe o desejo mútuo de paz. O errado admite seu erro e o ofendido o perdoa. A frase “ganhaste teu irmão” indica que o objetivo da arguição deve ser positivo (restaurar, redimir) e não simplesmente repreender ou confrontar por confrontar. Certamente o Senhor tinha em mente o mandamento: “Não guardem ódio contra o seu irmão no coração; antes repreendam com franqueza o seu próximo para que, por causa dele, não sofram as consequências de um pecado” (Lv 18.17 NVI).
A recusa do faltoso leva a solução do problema à uma segunda etapa. Desta vez com uma ou duas testemunhas. O texto não deixa claro se o papel das testemunhas será observar e atestar a disposição do ofendido a corrigir o desentendimento ou pressionar o faltoso a admitir seu erro, ou ainda, as duas coisas. O certo é que algo que estava sendo tratado privadamente tornou-se público.
A terceira recusa do faltoso leva o problema a outro foro:  a Igreja. A interpretação imediata é que o faltoso seja denunciado à congregação, porém eu creio que é possível entender-se também à liderança da Igreja. Veja 1Co 6.5: “Para vergonha vo-lo digo. Não há, porventura, nem ao menos um sábio entre vós, que possa julgar no meio da irmandade?”. Nas Igrejas Presbiterianas o conselho de presbíteros recebe a queixa e transforma-se em tribunal para julgar o caso.
Finalmente, a quarta recusa do faltoso leva a uma ação drástica. Atualmente há duas interpretações para a expressão “considera-o como gentio e publicano”. A primeira defende que a igreja apenas mude seu modo de tratar com o faltoso: como se ele fosse um descrente. Uma paráfrase bíblica diz: “se ele também não ouvir a igreja, comece do zero, tratando-o como um descrente: alerte-o da necessidade de arrependimento e ofereça outra vez o amor perdoador de Deus” (A Mensagem).
Certamente essa é uma péssima exegese, pois além de introduzir diversos assuntos estranhos ao texto original descaracteriza o que o Senhor Jesus estabelece como uma pena pelas muitas recusas do faltoso.
A segunda interpretação, ao contrário, vê este tratamento como uma pena imposta ao ofensor (seja pela congregação, seja pela liderança), que deve ser observada por toda Igreja.
Ser tratado como gentio e publicano é o mesmo que excluído da comunhão com o povo de Deus.
A existência de conflitos na Igreja nos dá, pelo menos, duas lições: 1) É uma organização de pecadores que procuram viver uma vida cada vez mais santa, e 2) Ela se submete ao seu Senhor. Tanto para dizer quais coisas estão erradas, quanto para resolver o erro.

sábado, 13 de setembro de 2014

Ezequiel, Isaías e Apocalipse

Não é de hoje que alguns estudiosos apontam semelhanças entre o Apocalipse de João e o Livro do Profeta Ezequiel (Para uma lista completa veja o artigo de David Chilton, “Apocalipse, Ezequiel e o Lecionário”, que pode ser achado em www.monergismo.com). Essas semelhanças podem ser diretas (quando as palavras são praticamente as mesmas) ou indiretas (quando o texto de João suscita apenas uma lembrança do texto de Ezequiel). A seguir, listo alguns exemplos, que eu mesmo escolhi, de semelhanças diretas.
1 - O livro selado por dentro e por fora, doce aos lábios (e, para João,  amargo ao estômago), descrito nos capítulos 5 e 10 de Apocalipse, pode ser visto em Ez 2.8 – 3.3.
2 - O trono de Deus, descrito em Ap 4, é muito parecido com o que é  descrito no capítulo 1 de Ezequiel.
3 - O povo de Deus é marcado na fronte, tanto em Ap 7.2-8 quanto em Ez 9.1-8.
4 - Em ambos (Ap 11.1-2 e Ez 40 – 43) o Templo é medido.
5 - Em ambos um banquete terrível (das carnes dos comandantes e dos príncipes da terra) é oferecido às aves do céu (e aos animais do campo, em Ezequiel): Ez 39.17-20 e Ap 19.5-21.
6 - Nos dois há uma “primeira ressurreição”. No apocalipse, são aqueles sobre os quais a segunda morte não tem poder (Ap 20.4-6) e, em Ezequiel, o vale de ossos secos do capítulo 37.
7 - Com exceção das listas genealógicas de Gênesis e de Crônicas, Gogue e Magogue só são citados em Ezequiel e no Apocalipse. E em ambos como inimigos do povo de Deus (Ap 20.7-9 e Ez 38 e 39).
8 - Em ambos há uma descrição muito semelhante do que João denomina de “Nova Jerusalém” (Ap 21 e Ez 40 – 48).
9 - João descreve (Ap 22.1-5)  o Rio da Vida de modo muito parecido com o rio descrito por Ezequiel (Ez 47).
Há muito mais! Entretanto, o que pretendo destacar, além da possibilidade de João ter usado o livro de Ezequiel, é que ambos tenham descrito as mesmas realidades. Ou seja: Ambos descrevem a mesma realidade.
Antes dos dois, Isaías também já havia descrito o trono de Deus, mas ainda não vi quem dissesse que Ezequiel usou o Livro de Isaías. Observe que, em cada uma dessas descrições, os detalhes dos arredores do trono são minuciosos, mas as descrições daquele que ocupa o trono é pouquíssima (ou inexistente) e muito cuidadosa.
Em Ezequiel (1.1-14) as figuras são: Vento tempestuoso, grande nuvem com fogo a revolver-se, com o redor resplandecente e algo brilhante como metal em seu interior. Quatro seres viventes, que saem da nuvem, tendo a aparência geral de homem, luzindo como o bronze polido, parecidos com “carvão em brasa à semelhança de tochas”, com os pés parecidos a pés de bezerro e as pernas retas. Cada um possuía quatro asas e quatro rostos (homem, leão, boi e águia), de modo que não se viravam, mas estavam sempre andando para frente. Ziguezagueavam como relâmpagos.
A “aparência da glória do SENHOR” é descrita (1.26-28) assim: Em uma espécie de trono de safira “uma figura semelhante a um homem” como metal brilhante, como fogo resplandecente ao seu redor, como o arco-íris.
A reação de Ezequiel: “caí com rosto em terra e ouvia voz de quem falava”. 
Em Isaías as figuras são: trono rodeado de serafins (ardentes) que possuíam seis asas e voavam ao redor gritando uns para os outros: “santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”.
O Senhor é descrito apenas por sua roupa e por sua presença (enchendo o templo de fumaça e fazendo tremer os alicerces).
A reação de Isaías foi: “Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!”.
No Apocalipse além dos elementos comuns aos relatos de Ezequiel e de Isaías há também elementos novos:
1 - Diferentemente de Ezequiel, João não revela do que o trono é feito (e transmite uma leve impressão de que foi montado ali para aquela ocasião). Semelhantemente a Ezequiel, João descreve um arco-íris ao redor do trono, porém com o aspecto de esmeralda.
2 - Além de Ezequiel e Isaías, João fala de vinte e quatro anciãos, assentados em vinte e quatro tronos, vestidos de branco portando coroas de ouro. Fala também de sete tochas de fogo, “que são os sete Espíritos de Deus” e, lembrando Ex 24.10, de um “como que mar de vidro, semelhante ao cristal”.
3 - Semelhantemente a Ezequiel, João descreve quatro seres viventes. Cada ser vivente tem um rosto só (de leão, de novilho, de homem e de “águia em voo”). A tarefa deles é semelhante a dos serafins descritos por Isaías: “... não têm descanso, nem de dia nem de noite, proclamando: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir”. E, como os serafins, possuem seis asas (diferentemente dos querubins Ezequiel, que possuem quatro asas). João acrescenta nesses seres viventes a existência de olhos, “ao redor e por dentro”.
O que se assenta no trono, diferentemente da descrição de Ezequiel, tem um aspecto mais mineral (jaspe e sardônio – pedras avermelhadas) do que metálico.
Na disposição do texto há outras semelhanças entre Apocalipse e Isaías: Antes da visão do trono do Senhor, nos capítulos 1 a 5, através de muitas repreensões e exortações e “ais”, Isaías descreve a pecaminosidade de Judá. No Apocalipse os capítulos 2 e 3 mostram o estado de 7 Igrejas, com advertências e elogios a seus “anjos”.
No capítulo 6 de Isaías e no capítulo 4 de Apocalipse temos as fantásticas descrições do trono de Deus, seguidas de imprecações e castigos sobre Judá (em Isaías) e sobre o mundo (em Apocalipse).
O clímax do texto de Isaías está no perdão de seus pecados com a brasa trazida pelo querubim, no texto de João está na abertura do livro selado por dentro e por fora. Ou seja: Isaías vê o trono de Deus e se vê perdoado. João vê o trono de Deus e o Cordeiro abrindo o livro cujos selos correspondem a tragédias castigando os pecados da humanidade.

Três visões do mesmo evento, cada uma de pontos de vista diferentes. As duas primeiras (uma no templo e outra no exílio, na Babilônia) por profetas que tinham o mesmo ponto de vista dos que esperavam o Messias. A última no exílio em Patmos, por um apóstolo do Senhor. As três destacam a glória de Deus e a fragilidade pecaminosa do homem.

sábado, 23 de agosto de 2014

A propósito do Templo de Salomão

A primeira menção bíblica a um lugar de adoração está em Gênesis (8.20-21) e relata como Noé levantou um altar sobre o qual ofereceu holocausto. É certo que as ofertas de Caim e Abel já pressupõem um lugar determinado e esse lugar seria lato sensu um altar, mas a primeira menção formal a um altar é esta de Noé.

Na terra que lhe fora prometida, mesmo sem tomar posse dela, Abraão sempre levantava um altar no lugar em que Deus lhe aparecia, mas, o último foi levantado em lugar determinado por Deus, três dias de distância de onde morava: o Monte Moriá. Neste altar Isaque, seu filho, seria a vítima.

Os descendentes de Abraão também seguiram o costume e os altares levantados por eles eram verdadeiros marcos (com significado religioso).

Todos esses altares não passavam de montões de pedras, ajuntadas do próprio local, sobre as quais um animal (na maioria das vezes um cordeiro) era morto e queimado. Somente na época de Moisés, após instrução divina, o altar recebeu outros complementos e significados: era o Tabernáculo. Sua construção foi determinada por Deus que o detalhou e capacitou a seus construtores.

Os altares não desapareceram, nem ficaram restritos ao Tabernáculo. Josué e alguns Juízes levantaram altares também. Até mesmo Davi fez um no mesmo lugar em que, séculos antes, Abraão tinha oferecido seu filho. E, nesse mesmo lugar, anos mais tarde Salomão edificará o Templo.

As demais nações sempre tiveram altares. Na verdade, não se conhece um só povo, que não os tenha, pelo menos, uma vaga noção de um deus que recebe ofertas. Tais ofertas, sangrentos ou não, são oferecidas em lugares simples ou em complexos impressionantes, que podemos perfeitamente chamar de altares: zigurates, pirâmides egípcias, astecas, maias ou sudanesas, etc.

Mas, voltando ao Tabernáculo é necessário destacar que ele era um complexo cercado por uma estrutura de postes e panos esticados com cerca de 50m de comprimento e 25 de largura, a qual só era adentrada pelos sacerdotes e pelos respectivos ofertantes com suas vítimas.

Dentro dela ficava um braseiro de bronze (o altar propriamente dito, também chamado de altar de bronze) sobre o qual as vítimas, depois de carneadas, eram queimadas. Havia também uma bacia de bronze na qual os sacerdotes deveriam se purificar e uma tenda de peles com  quase 15m de comprimento por 5 de largura (a única parte coberta). Essa tenda era dividida em seu terço por uma cortina espessa. O terço maior era chamado de Lugar Santo e o menor de Santíssimo (ou Santo dos Santos).

No Lugar Santo ficava o candelabro de ouro (menorah), uma mesa folheada a ouro, sobre a qual se colocava pães, e um altar menor também folheado a ouro, onde se queimava incenso. Neste lugar os sacerdotes entravam, conforme a exigência da cerimônia, para apresentar a Deus o sangue de determinadas vítimas.

No Santo dos Santos, abrigo da Arca da Aliança, apenas o sumo sacerdote podia entrar. E apenas em um dia do ano!

Na verdade o Tabernáculo era uma estrutura portátil que deveria acompanhar o povo em sua peregrinação. Entretanto, depois de entrarem na Terra Prometida, permaneceu em Siló durante os quatro séculos dos Juízes e depois em Nobe e em Gibeom até sua substituição pelo Templo.

Davi, morando numa “casa de cedro” lembrou-se, com algum remorso, de que a Arca da Aliança ainda estava em uma tenda (o Tabernáculo), e decidiu preparar-lhe um lugar adequado. Deus o proibiu deixando claro que nenhuma casa seria adequada à sua presença, porém, permitiu que Salomão, seu filho, a edificasse.

E, apesar de Salomão ter dirigido a obra, lemos no Livro das Crônicas que até a planta das diversas construções que compunham o Templo foi dada por Davi. De fato, o lugar, os recursos, os materiais, os oficiantes, bem como as músicas e os instrumentos musicais foram todos preparados por Davi.

O Livro dos Reis registra: “Edificava-se a casa com pedras já preparadas nas pedreiras, de maneira que nem martelo, nem machado, nem instrumento algum de ferro se ouviu na casa quando a edificavam” (1Re 6.7).  

Salomão mandou aterrar a depressão entre os montes Moriá e Sião para criar uma grande esplanada no meio da qual edificou o Templo com dimensões iguais ao dobro das dimensões do Tabernáculo. A única parte coberta (onde ficavam o Santo e o Santo dos Santos) possuía 30m de comprimento por 10 de largura e era rodeado por depósitos para o que fosse necessário às cerimônias e ao cotidiano dos sacerdotes.

Durante quase 400 anos (de 973 a 586 a.C.) o Templo de Salomão centralizou a vida de Israel, especialmente a de Judá, até sua destruição pelos babilônios, quando levaram cativos grande parte dos judeus.

Os babilônios foram dominados pelos persas que autorizaram a volta dos judeus. E, nos dias de Neemias e Esdras, o Templo foi reedificado. Não era tão impressionante quanto o outro (Ag 2.1-4) e foi levantado com grandes dificuldades, mas era muito semelhante ao de Salomão. Em decreto, Ciro, rei dos persas, determinou as dimensões da obra (30 metros de largura e de altura), a devolução dos utensílios que Nabucodonozor havia tirado de lá, o pagamento dos construtores e dos oficiais do culto, bem como das vítimas e víveres necessários aos sacrifícios. Tudo isso com seu dinheiro. Ou seja: o culto estava sendo mantido por estrangeiros. 

Quando Salomão inaugurou o primeiro Templo, orou repetidamente: “se o teu povo, que se chama pelo teu nome...” Agora as orações do Templo deviam incluir Ciro e seus filhos!

Quando Salomão inaugurou o primeiro Templo, o equipou com utensílios maiores e mais caros do que os utensílios do Tabernáculo (mesas, candelabros, etc.), mas a Arca da Aliança era a mesma que Moisés fizera no deserto. Agora no segundo Templo, a maioria das peças foi devolvida, menos a Arca da Aliança. O Santo dos Santos ficou vazio.

Quando Salomão inaugurou o primeiro Templo, repetiu-se o que aconteceu nos dias do Tabernáculo: fogo dos céus consumiu tudo o que estava sobre o altar. Agora no segundo Templo não há registro algum dessa manifestação da aceitação divina.

No ano 168 a.C., 384 anos depois da consagração deste Templo, Antíoco, descendente de um dos generais com quem Alexandre estabeleceu seu império, o profanou: construiu um altar a Zeus em seu interior e sacrificou um porca sobre ele. Três anos depois o rededicaram e até hoje esta data é comemorada com o nome de Hanukah (a festa das luzes).

O Evangelho de João (2.20) registra os judeus afirmando a Jesus que foi gasto 46 anos para edificar o Templo. Os sinóticos são unânimes no registro de que, poucos dias antes da crucificação de Jesus, seus discípulos chamaram sua atenção para as pedras do Templo. Herodes resolvera embelezá-lo.

Aumentou o tamanho dos átrios, ampliou a esplanada (que chegou a ser 4 vezes maior do que a da Acrópolis de Atenas) e a circundou por alpendres. Elevou frontispício do lugar santo para 50 metros de altura e construiu a Torre Antônia no canto noroeste da esplanada com ótimas acomodações e com um quartel que possibilitava aos soldados saírem direto no átrio dos gentios. Era o que chamamos de Templo de Herodes.

Foi destruído pelo general romano Tito no ano 70 em uma luta tão angustiosa que a Igreja a comparou ao “fim dos tempos”.

Resumindo: Primeiro, o Tabernáculo (com 25m de largura por 50m de comprimento), feito de madeira e peles, que acompanhou Israel por cerca de 530 anos e foi montado em diversos lugares. Depois, o Templo de Salomão com o dobro das medidas (50 por 100m), feito dos melhores materiais da época, e edificado no lugar mais significativo para a história do Povo de Deus, ficou de pé cerca de 380 anos. Em terceiro lugar, após o exílio, o Templo de Zorobabel (com 30 por 60m), totalmente custeado pelo rei da Pérsia, e reformado 490 anos depois por Herodes. Finalmente o Templo de Herodes, que fez mais do que uma reforma (com cerca de 50 por 60m, mas com quase 300m por 600m de esplanada), que durou apenas 96 anos, grande parte deles em obras.

Observe que, com o passar do tempo, o tamanho aumenta, o significado para o povo também aumenta, mas o Santo dos Santos vazio aponta para o esvaziamento do significado real.

O Templo de Herodes ainda estava de pé e no dia de pentecostes e celebrava-se lá uma das mais elaboradas e caras cerimônias de então. Nesse mesmo instante, em um simples terraço, a “presença de Deus”, que havia se manifestado no Tabernáculo e no Templo de Salomão, se manifestou sobre cada um dos discípulos de Jesus. Um Templo novo estava sendo inaugurado pelo próprio Deus. Não de peles de animais, como o Tabernáculo, nem de pedras, como o Templo de Salomão, mas de pessoas consagradas pelo Senhor.

Desde então este é o verdadeiro Templo. Nele o Espírito do Senhor faz morada: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16).

No mesmo texto em que os judeus falam do tempo da reforma Jesus deixa clara a identificação do templo com seu corpo. De fato, essa relação é a chave do significado do templo: ele era um tipo de Jesus. E, assim como no passado o tabernáculo, e seus sucessores, eram tipologicamente o corpo do Senhor, hoje, todos nós, somos membros desse corpo.

O Templo feito por Herodes já havia sido honrado por Jesus, que se referiu a ele como “a casa de meu Pai”, e o purificou. O Cordeiro de Deus não foi morto em seu altar, como as vítimas que o simbolizavam, mas, julgado e condenado em suas instalações, foi imolado no mais ignominioso altar que se possa conceber: a cruz.

Assim que Jesus expirou, o véu do santuário (a cortina que separava o Santo Lugar do Santíssimo) foi rasgado. O templo estava sendo definitivamente preterido e, para que a Igreja – acostumada a reunir-se no alpendre de Salomão – o esquecesse de vez, Deus o destruiu completamente a ponto de não ficar pedra sobre pedra.

Continuar sacrificando, mesmo que simbolicamente como faz a Igreja Católica é desprezar o sacrifício de Jesus. Levantar outro templo, seja em Jerusalém, seja em São Paulo é zombar daquilo que foi finalizado pelas benditas palavras “está consumado”.

sábado, 9 de agosto de 2014

Como Jesus nos via

Nos dois artigos passados, espero ter mostrado como os incrédulos inventaram todos os tipos de dúvidas sobre a pessoa de Jesus, a partir de seus próprios pressupostos, como ele foi descrito por João no Apocalipse e principalmente como ele falou de si mesmo nas parábolas que contou. Para completar o quadro mostrarei como, nas mesmas parábolas, ele fala de nós.

A figura que ele mais usou para nos descrever foi a de um servo. Desconsiderando aquelas é que isso é implícito, temos 7 parábolas nas quais somos textualmente chamados assim: Na parábola dos talentos (Mt 25.14-30), das minas (Lc 19.12-27), do senhor ausente (Mc 13.34-37 e Lc 12.35-48), das bodas (Mt 22.1-14), dos trabalhadores na lavoura (Lc 17.7-10) e do mordomo fiel (Lc 12.42). Apenas 2 parábolas nos mostram como assalariados (empregados): a dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1-16), e a do administrador infiel (Lc 16.1-13).

É certo que ele nos apresenta também como filhos. Na parábola dos dois filhos (Mt 21.28-31) e na parábola do filho pródigo (Lc 15.11-32) somos convidados a nos identificar com o filho mais novo (que, em ambas, arrepende-se), ou com o filho mais velho (que, em ambas afronta o pai). Porém, a segunda figura mais usada é a da ovelha: veja a parábola do Bom Pastor (Jo 10.1-18), a da ovelha perdida (Lc 15.3-7 e Mt 18.12-13), a da ovelha que caiu em uma cova (Mt 12.10-12) e a parábola da separação das ovelhas dos bodes (Mt 25.31-46).

Outras parábolas também exigem que escolhamos qual dos personagens seremos: um rico ou um mendigo, na parábola do rico e Lázaro (Lc 16.19-31); um fariseu que se tem em alto conceito ou um cobrador de impostos que comparece diante de Deus com temor (Lc 18.9-14); um homem que edificou sua casa sobre a areia ou outro homem que edificou sua casa sobre a rocha (Mt 7.24-29 e Lc 6.46-49); um solo compactado pelos caminhantes, um solo pedregoso, um solo cheio de espinheiros ou ainda um solo bom e fértil na parábola do semeador (Mt 13.3-23, Mc 4.3-20 e Lc 8.5-15), e surpreendentemente a noivas prudentes ou néscias (Mt 25.1-13).

Ele nos compara também a um pai de família (Mt 13.52), a um construtor de uma torre (Lc 14.28-30), a um rei que vai à guerra (Lc 14.31-32) e a peixes selecionados pelos pescadores (Mt 13.47-50).

Somos mostrados pejorativamente também. Somos inadimplentes na parábola dos dois devedores (Lc 7.40-47) e devedores nas parábolas do credor incompassivo (Mt 18.23-35) e do adversário (Mt 5.25-26 e Lc 12.58-59). Somos cegos na parábola dos guias cegos (Mt 15.14) e aquele semeador (Mt 13.3-23) parece que é cego também. Somos como posseiros assassinos (Mt 21.33-46, Mc 12.1-12 e Lc 20.9-16), como um fazendeiro louco (Lc 12.16-21). Estamos perdidos como uma moeda cuja dona tem de varrer a casa para achá-la (Lc 15.8-10). E somos comparados a uma figueira que por seis anos permanece infrutífera (Lc 13.6-9).

Tanto na parábola das bodas (Mt 22.1-14) quanto na parábola da grande ceia (Lc 14.16-24) o sentido exige que nos vejamos como convidados, mas na parábola do bom samaritano (Lc 10.30-37) o sentido exige que nos vejamos como um viajante que, nem por isso, deixa de parar e fazer o bem.

Em outros lugares as comparações são tão fortes que possuem a forma de predicados: somos ramos de uma videira (Jo 15.1-8), o sal da terra (Mt 5.13) a luz do mundo (Mt 5.14), a cidade edificada sobre um monte (Mt 5.14) e a candeia que deve ser colocada no velador (Mt 5.15, Mc 4.21 e Lc 8.16).

Assim o Senhor Jesus nos vê. Não somos seus iguais: ele é Senhor, nós somos servos; ele é o credor, nós somos os devedores inadimplentes; ele é pai, nós somos filhos; ele é o médico, nós somos os doentes; ele é o pastor e nós somos as ovelhas. Seus apóstolos foram explícitos: João nos ensinou: “... todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (Jo 1.12). Anos depois, Paulo lhe fará coro: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8.16-17).

Mas, foi na última noite, entre a ceia e o Getsêmani, que o Senhor resumiu este assunto: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (Jo 15.13-15).

Somos criaturas. Ele é o Criador. Somos servos. Ele é o Senhor. Entretanto, por amor ele assumiu o que nós somos e nos transformou em filhos, em amigos.

A ele toda glória!
 
 
 

sábado, 2 de agosto de 2014

Descrições de Jesus

Quem era Jesus? Essa foi a pergunta que aqueles que estavam engajados na “busca pelo Jesus histórico” (sobre a qual escrevi na semana passada), tentavam responder. Porém, não se esqueça de que eles partiam da pressuposição de que um homem comum, desses que povoam a história, não poderia ser como os Evangelhos descrevem a Jesus.

Mas, o que é que eles escrevem de tão notável? Certamente, o ponto máximo é que ele ressuscitou. Mas, há uma série de outras afirmações que achavam difíceis de aceitar. Por exemplo: a de que ele tenha perdoado pecados ou a de que ele tenha dito ser o próprio Deus.

De fato, o Novo Testamento nos apresenta Jesus direta ou indiretamente através de figuras que falam de seu caráter ou de sua obra. Logo no princípio de seu ministério João Batista o apresentou como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” o que tinha um significado especial para sua audiência que era constituída de judeus.

Durante seu ministério, já apareceram opiniões diferentes: a Herodes opinaram que Jesus era João Batista ressuscitado. Seus discípulos informaram que também havia os que criam que ele era Elias ou algum dos profetas. E ele mesmo, correndo o risco de ser apedrejado, foi claro ao apresentar-se como EU SOU (Jo 8.58-59), nome que o Antigo Testamento reservava à Deus.

Porém, não deixa de ser notável as apresentação indiretas. Especialmente as que estão contidas nas parábolas.

Ele se apresentou como agricultor na parábola do Joio e na parábola dos trabalhadores na vinha. Na primeira ele proíbe que seus servos arranquem o joio para não correr o risco de arrancar o trigo junto e na segunda ele contrata diaristas para trabalhar em sua vinha. Apresentou-se também como criador de gado na parábola do servo que volta da lavoura (Lc 17.7-10) e, em um contexto em que seu povo é comparado à ovelhas, ele se apresentou como o Bom Pastor (Jo 1.1-18). Apresentou-se também como médico que veio apenas para os doentes (Mt 9.12-13).

Comparou-se a um noivo que chega tarde da noite para celebrar suas núpcias (Mt 25.1-13), como um nobre que viaja e confia a seus servos a administração de seu bens (Lc 19.12-27), como um rico fazendeiro que recebe acusações contra seu administrador (Lc 16.1-13), como um credor que perdoa seus devedores e exige que eles se perdoem também (Lc 7.40-50) e como um rei que chama seus servos a prestar-lhe contas (Mt 18.25-35).

Declarou ser a pedra que foi rejeitada pelos construtores (aludida pelos profetas). Declarou ser a porta e o caminho. E declarou-se também ser a verdade, a luz, a vida e o grão de trigo semeado que morto dá muito fruto. E nele os evangelistas reconheceram a comparação dos profetas: a ovelha muda.

Indo além podemos ver também o que seus apóstolos disseram. Paulo o apresentará como o novo Adão e João como advogado junto ao Pai (1Jo 2.1).

Os Evangelhos nunca o descrevem (o imaginamos moreno porque a grande maioria dos judeus de sua época era morena e deduzimos que ele gostava de frutas, peixes e vinho pela quantidade de vezes que elas aparecem no relato), mas o Apocalipse o descreve detalhadamente três vezes.

Nessas impressionantes visões de João, ele é introduzido a uma grande multidão como o Leão, mas apresenta-se como o Cordeiro (Ap 4).

Logo de início ele é descrito como um sacerdote. Está no meio das igrejas, usa vestes sacerdotais e possui cabelos brancos como se espera de um presbítero (ancião). Entretanto, a idade não o alquebra e sua firmeza aparece na postura (pisa como se tivesse pés de bronze), na voz (potente como o estrondo de muitas águas) e na sua aparência geral (como o sol na sua força). Seu olhar perscrutador é descrito como chama de fogo e ele identifica-se como “o alfa e o ômega” ou “o primeiro e o último”. E a intimidade que João tinha com ele no tempo dos Evangelhos é substituída pelo terror que prostra o apóstolo amado ao chão.

A seguir ele é fantasticamente descrito como um cordeiro com sete chifres e sete olhos, que acabara de ser morto.

Quase no fim do Apocalipse ele é mostrado como um guerreiro cavalgando um cavalo branco, vestindo um manto ensanguentado em que está escrito Rei dos reis e Senhor dos senhores. Ele é seguido pelos exércitos celestiais que também estão em cavalos brancos, mas vestindo mantos brancos e puros. Seu olhar ainda é descrito como chama de fogo, e em sua cabeça é adornada por diversas coroas. Sua palavra é poderosa como uma espada afiada e ele é identificado como o Verbo de Deus.

Todas as tentativas de descrevê-lo acabam misturando sua pessoa e seus ofícios. Mas, acima de tudo, as tentativas de descrevê-lo esbaram na impossibilidade de descrever o inefável: o Verbo de Deus.

O Verbo de Deus certamente não voltará para ele vazio, mas fará o que lhe apraz.

domingo, 20 de julho de 2014

À mesa com Jesus

Você já reparou a quantas festas, banquetes, jantares ou ceias os Evangelhos narram que nosso Senhor compareceu?

Logo de começo há a festa do casamento em Caná, onde, da água, fez o melhor vinho.

Que alegria deve ter permeado a casa de Lázaro enquanto o Senhor ceava. Ceou lá pelo menos duas vezes: uma quando Marta atribulada com as comidas reclamava de Maria quedada aos pés do Senhor e outra quando Maria o ungiu.

Que clima pesado deve ter se abatido sobre todos quando o fariseu Simão, depois de convidar Jesus pra jantar, o recebeu com desdém. Será que alguém conseguiu comer algo?

Acaso podemos nos esquecer do banquete dado pelo publicano Levi, que, de tão alegre, encheu sua mesa de antigos colegas de profissão? E o que dizer da recepção na casa de Zaqueu, o chefe dos publicanos?

E assim, quantas vezes os Evangelhos nos mostram o Senhor em companhia de publicanos e pecadores – seus doentes que precisavam de médico – e quantas vezes ele foi censurado por isso? Ele mesmo estava cônscio de que o tinham por “glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores”.

Muitas vezes ensinou usando alimentos como exemplos. Com eles explicou que a impureza não está naquilo que entra pela boca, mas no que sai dela.

Prometeu – mesmo sendo Senhor – servir aos servos fiéis o pão dos céus à mesa com Abraão, Isaque e Jacó. Numa de suas parábolas comparou o Reino de Deus a um banquete de casamento e, para ensinar sobre o perigo de se ter o coração neste mundo, contou outra parábola em que um rico satisfeito com sua colheita exorta sua alma: “come, bebe e regala-te”.

Ensinou-nos a dar banquetes a quem não os pode retribuir e criticou os escribas e fariseus por amarem o primeiro lugar neles.

Disse que seu corpo era verdadeira comida e seu sangue era verdadeira bebida, e convidou aos sedentos “se alguém tem sede, venha a mim e beba”. E selou-nos a afirmação “quem de mim se alimenta, por mim viverá” repartindo o pão e o cálice e ordenando-nos a tomá-lo em sua memória, pois aquilo era seu corpo e seu sangue.

Comeu muitos tipos de comida e a preparação de alimentos serviu-lhe de motivo para parábolas. Procurou figos temporãos e conhecia bem as estações da oliveira. Gostava de peixes: multiplicou-os duas vezes, preparou-os na brasa e os comeu com mel. E foi reconhecido pelos dois de Emaús à mesa, ao bendizer o alimento.

Participava das páscoas desde cedo, nas quais se comia desde ervas amargas até um cordeiro assado. E, da última que participou, tomou um pedaço de pão e o último cálice de vinho e, com eles, despediu-se dos seus. Com o mesmo pão e com o mesmo vinho alimentou Judas para sua própria perdição, agravada pelas palavras do profeta: “Aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar”.

A mesa que lhe proporcionava o prazer da companhia trouxe-lhe a tristeza da traição “O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá”. E, na cruz, em vez de vinho, que deixou como recordação de si, e com o qual começou seus milagres, recebeu como bebida o vinagre.

Esse comportamento do Senhor reflete os valores do povo da Antiga Aliança, para os quais muitas bênçãos são tipificadas por alimentos. A própria descrição da Terra Prometida exaltava a quantidade de pastos bons e a exuberância de suas flores. Era como se dela manasse leite e mel.

Aquele que experimentou a alegria do convívio a mesa, é o mesmo que aguarda por nós, para juntos, tomarmos o “vinho novo” que ele espera ansiosamente para nos servir.

Vem logo Senhor Jesus.
 
(Texto publicado originalmente em 27/2/2010)

sábado, 5 de julho de 2014

Direita e destra

(Ensaio sobre semiótica bíblica)
 
Desde o tempo dos patriarcas, o Povo de Deus, tinha significados indiretos (que, às vezes, são os mais importantes) para as coisas mais simples Uma delas era a direita.

Com a mão direita Jacó abençoou o filho mais novo de José, e quando este tentou corrigi-lo, ouviu que fazia de propósito.

Quando os sacerdotes eram consagrados o sangue do cordeiro era usado para marcar a orelha direita, o polegar direito e o pé direito deles. A coxa direita do cordeiro sangrado (além de outras partes) era movida diante do SENHOR e queimada em holocausto. Tratando-se, porém de um sacrifício pela culpa, a coxa direita do animal fazia parte da porção que cabia ao sacerdote oficiante.

Moisés, que tinha à sua direita o braço glorioso de Deus e canta que a Lei de Deus está à direita dele. Porém, séculos depois, Jesus garante a seu inquiridor – o sumo sacerdote – que, desde então estaria em tal lugar. E, Davi, Pedro, Paulo e o escritor da Carta aos Hebreus, declararam que, de fato, Jesus estava à direita de Deus; e foi à direita de Deus que Estêvão o viu. Mas, na mão direita de Deus, também está o cálice do qual seus inimigos beberão.

A direita sempre é mostrada como a mão da força e das realizações. O profeta Isaías declarou que Deus promete tomar seu povo com sua mão direita, mas, também declara que Deus tomou a Ciro pela mão direita para os castigar.

O rei Joás colocou um gazofilácio à direita de quem entrava no santuário, e séculos depois, de pé, à direita do altar do incenso, o anjo revelou ao sacerdote Zacarias que ele seria pai de João.

Davi canta que Deus se coloca à direita do pobre. E, Asafe lhe faz coro ao pedir que sua direita seja auxiliada pelo SENHOR, e ao dizer que na direita de Deus colocava sua esperança.

A direita, porém é cobiçada pelos inimigos. Mesmo diante de Deus, Satanás se opunha ao sacerdote Josué postando-se à sua direita. O desejo do salmista é que os ímpios se deparem com um acusador à direita, pois, na verdade, a direita deles é “direita de falsidade”. A besta que emerge da terra marcará, além da fronte, a mão direita daqueles que não são do Cordeiro.

A confiança do salmista em Deus era tamanha que, mesmo com dez mil caídos à sua direita, tinha certeza de não ser atingido.

Pela mão direita, Pedro levantou o paralítico que esmolava à porta do templo, e Jesus levantou João, que caíra por terra ao vê-lo glorificado.

À direita de Jesus ficarão suas ovelhas e lá ouvirão seu chamado. E sua mão direita (a mesma que recebeu o caniço das zombarias) sustenta as sete estrelas e o livro da vida.

Para Jesus é melhor amputar a mão direita do que pecar por ela, e a ofensa à face direita não deve prevenir seu discípulo contra o golpe maior.

Os discípulos, que gastaram a noite em trabalho vão, foram bem sucedidos quando obedeceram a ordem de Jesus e jogaram a rede à direita do barco.

Por sua mão direita o salmista jurou que não se esqueceria de Jerusalém. Deus, por sua direita, jurou que nunca mais daria o cereal de seu povo aos estrangeiros. E, com a mão direita levantada, anjos juraram à Daniel e a João.

A forma sintética “destra”, além da mão direita, refere-se ao que alguém faz com vontade e determinação, também é muito produtiva.

A destra de Deus estendeu os céus e alcançou-lhe vitória. A destra de Deus faz proezas, é gloriosa em poder, é elevada. Apanha e despedaça o inimigo, salva, sustenta e liberta seus amados. Ampara aqueles cujas almas se apegam a Deus. Foi ela quem adquiriu o monte santo, e levou seu povo à posse da terra prometida.

A destra de Deus está cheia de justiça, nela há delícias perpetuamente, há refúgio para os salvos. Porém, o próprio Deus firmou sua destra, como adversário, contra seu povo e os levou para o cativeiro na Babilônia.

Para o salmista a demora em Deus responder dava-lhe a impressão de que ele havia mudado sua destra, ou a conservava em seu seio, mas deseja que ela esteja sobre todos.

Os antigos dirigiam-se a Deus chamando-se de “povo da tua destra”.

A destra dos ímpios está cheia de suborno, mas a destra de comunhão foi oferecida por Tiago, Cefas e João à Paulo.

Depois de ter oferecido um único sacrifício pelos pecados Jesus foi recebido no céu e assentou-se à destra do trono da Majestade. Foi exaltado a “Príncipe e Salvador”, ficando-lhe subordinados anjos, potestades e poderes.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...