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sábado, 15 de novembro de 2014

Palestinos e Judeus

Desde fúria cega das bombas lançadas por palestinos e por judeus na guerra de algumas semanas atrás, até os ataques individuais feitos pelos palestinos,  com carros, tratores, motocicletas, ou com o próprio corpo coberto de explosivos, revelam uma fúria impossível de ser descritas.

Esse estado de beligerância, em que o ódio parece respingar, não é novo. A Bíblia atesta sua antiguidade. O primeiro contato entre palestinos e judeus é do tempo de Abraão. Os dois Abimeleques (provavelmente pai e filho) relatados em Gênesis capítulo 20 e 26, que foram iludidos por Abraão e Isaque, respectivamente, eram filisteus.

É bom lembrar que a palavra “palestina” se deriva da palavra hebraica para invasor, ou divisor (a mesma que deu origem a Pelegue, filho de Heber (Gn 10.25), que nasceu quando a terra foi repartida). A palavra tem duas formas: uma com P, originária do hebraico (de onde vem a forma portuguesa “palestinos”) e outra com F do árabe, que não possui o som P (de onde vem a forma ladina “filistines” e francesa “Philistins”). Eles invadiram a região que a Bíblia chama de filístia, vindo de Caftor (Creta). Veja o que diz o profeta Amós (9.7): “Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e de Caftor, os filisteus”?

Parece que na época do êxodo já eram belicosos, pois Moisés registra que Deus não conduziu Israel pelo caminho mais curto, da terra dos filisteus, para que “o povo não se arrependa, vendo a guerra, e torne ao Egito” (Ex 13.17).

Certamente naqueles dias eles já habitavam a Faixa de Gaza, pois o mar daquela região era conhecido como o “mar dos filisteus” (Ex 23.31) e em Dt 2.23 encontramos: “também os caftorins que saíram de Caftor destruíram os aveus, que habitavam em vilas até Gaza, e habitaram no lugar deles”.

Eram descritos como povo valente, forte e alto (Dt 2.20-21) e, quando Josué estava velho, Deus se referiu ao lugar em que viviam, como terra “não conquistada” (Js 13.2). Diz também que os cinco príncipes filisteus – “o de Gaza, o de Asdode, o de Asquelom, o de Gate e o de Ecrom” (Js 13.3) – foram deixados pelo SENHOR, para “provar a Israel” (Jz 3.1-3).

Durante os 400 anos dos juízes houve muitos enfrentamentos. Sangar, um dos juízes, notabilizou-se em luta contra eles (Jz 3.31), mas Israel chegou a adorar seus deuses (Jz 10.6). Quem mais se destacou na luta contra eles foi Sansão, que, apesar de casado com uma filisteia (Jz 14.1-4), os enfrentou: incendiou suas plantações (Jz 15.3-6) e arrancou os portões de Gaza, a principal cidade deles (Jz 16.1). Traído por Dalila, que estava a serviço deles, foi preso. Furaram seus olhos e o levaram, como trofeu, para o templo do principal deus do panteão filisteu, Dagom. Lá conseguiu derribar os pilares do templo, matando seus príncipes (Jz 16.19-30).

Nos dias de Samuel os filisteus tomaram a Arca da Aliança e a colocaram no templo de Dagom como despojo. Deus os castigou tanto que a enviaram de volta. Nos dias de Saul não deram trégua. 

Dominavam os arredores com armas de ferro, o que lhes dava grande vantagem. Cerca de setenta anos depois de Sansão apareceu o filisteu Golias, que foi morto por Davi. E alguns anos depois, na luta contra eles, desesperado, o primeiro rei de Israel, Saul, se matou.

O segundo rei de Israel, Davi, além de vitórias sobre eles, obteve o respeito de alguns ao ponto de serem usados como seus guardas pessoais (veja 2Sm 8.18, 15.18, 20.7, 20.23 na versão Almeida Corrigida que fala de Peleteus: uma derivação da palavra filisteus: provavelmente uma tribo menor dentre eles).

Continuaram inimigos dos demais reis de Israel e de Judá. Algumas vezes Israel os dominava (2Cr 17.11), outras vezes era vencido (Is 9.12).

O território chamado de filístia (terra dos filisteus) é também chamado de Faixa de Gaza, tendo a cidade de Gaza por Capital, sendo que seus limites variaram com o tempo. Gaza, de modo particular, e os filisteus, de modo geral, foram objeto das profecias de Jeremias (47.1-7), Amós (1.6-7), Sofonias (2.4) e Zacarias (9.5-6).

No período inter-testamentário sabemos que a cidade de Gaza foi vencida e ocupada sucessivamente por Alexandre, o grande, por Jonatas Macabeu e por seu irmão Simão. Por Alexandre Janeu, por Pompeu (que a submeteu à jurisdição romana da Síria) e por Gabínius, que após destruí-la totalmente reedificou-a em outro lugar.

A palavra filisteu(s) não aparece no Novo Testamento, mas foi na estrada de Jerusalém a Gaza que Filipe encontrou o Eunuco de que Lucas fala (At 8.29-40).

Apesar de grandemente danificada pelos judeus em 65 AD, Gaza chegou a ser, décadas depois, um bispado cristão e em 634 caiu sob o domínio muçulmano.


Não encontramos em toda Bíblia uma só profecia, promessa, bênção ou boa palavra sobre o futuro dos filisteus. Ao contrário, são muitas as profecias sobre a ira do SENHOR e sua espada sobre eles. Porém, hoje sabemos que em Cristo eles também serão tornados filhos de Abrão. Aí entenderemos o significado da profecia de Isaías: “Uiva, ó porta; grita, ó cidade; tu, ó Filístia toda, treme; porque do Norte vem fumaça, e ninguém há que se afaste das fileiras. Que se responderá, pois, aos mensageiros dos gentios? Que o SENHOR fundou a Sião, e nela encontram refúgio os aflitos do seu povo” (Is 14.31-32).

sábado, 8 de novembro de 2014

Os que vos presidem bem

Depois do dia de Pentecostes alguns convertidos permaneceram em Jerusalém e muitos voltaram para suas cidades de origem onde estabeleceram igrejas. Este deve ter sido o início de Igrejas como a de Roma. Lucas nos informa (At 28.13-14) que encontraram “alguns irmãos” em Putéoli (próximo a atual Nápoles) e que foram recebidos pelos crentes de Roma na Praça de Ápio.

Até o fim do primeiro século temos notícias de pelo menos 50 igrejas em diversas cidades desde Jerusalém a Roma. Dentre essas, temos detalhes em Atos dos Apóstolos, das igrejas na Galácia, Filipos, Tessalônica, Corinto e Éfeso e pelas cartas de Paulo sabemos algo das igrejas em Colossos, Laodicéia e Creta. O Apocalipse fala das 7 igrejas na Ásia menor.

Portanto, em cerca de 60 anos – de 40 a 100 AD – podemos catalogar umas cinquenta igrejas diferentes, fundadas em situações diferentes, em cidades diferentes, falando idiomas diferentes, com poucas coisas em comum: todas dentro do império romano e todas usando um sistema de governo semelhante.

Sobre essa primeira característica comum, veja aqui uma análise que fiz em agosto de 2011. Quanto à segunda característica, Lucas nos diz que a Igreja de Jerusalém tinha Apóstolos (At 8.1, 11.30, 15.1, etc.) e presbíteros (At 15.1). Também tinha diáconos, pois os 7 homens (At 6.1-7) foram eleitos com missão de servir às mesas.

O ofício de Apóstolo foi tão restrito aos Doze chamados por Jesus, quanto o patriarcado foi restrito aos filhos de Jacó. Além dele temos apenas Matias e Paulo (que, como os dois filhos de José, foram agregados ao patriarcado também). Os textos em que outros são chamados apóstolos (Barnabé em At 14.14 e Tiago, o irmão do Senhor, em Gl 1.19) são claramente lato sensu. Seria como dizer que Moisés e Josué foram patriarcas de Israel. Só houve uma substituição entre os doze: Judas. Quando o último apóstolo morreu considerou-se extinta a época deles e os que ousaram identigicar-se como apóstolos foram expostos como obreiros fraudulentos, ministros de Satanás (2Co 11.4-15) e mentirosos (Ap 2.2).

Os presbíteros são explicitamente mencionados nas Igrejas de Listra, Icônio e Antioquia (At 14.21-23), Éfeso (At 20.17), Creta (Tt 1.5) e nas diversas igrejas do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1Pe 5.1 em conjunto com 5.5). A palavra presbítero basicamente significa idade mais velha, porém seu uso mais comum refere-se à maturidade. A Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) usou diversas palavras derivadas da raiz presb: velhos (Sara e Abraão), ou líderes (os auxiliares de Moisés). No Novo Testamento (NT) refere-se aos membros do Sinédrio, aos seres celestiais do Apocalipse, e principalmente a certos líderes cristãos, encarregados de supervisionar e pastorear a Igreja (At 20.28, 1Pe 5.1-3, etc.).

A palavra diácono aparece 34 vezes (5 vezes na Septuaginta) com o sentido básico de serviço (os servos no Livro de Ester, o maior no reino dos céus, os serventes na festa de Caná, etc.) Porém, em cinco lugares ela claramente refere-se a um ofício na Igreja (os que preenchem as qualificações dadas a Timóteo (1Tm 3.8-10) e aquele a quem a Carta aos Filipenses foi endereçada (Fp 1.1). Os primeiros diáconos foram eleitos na Igreja de Jerusalém (At 6.1-6).

O texto bíblico menciona bispos nas Igrejas de Éfeso e FIlipos e indiretamente na de Creta (quando Tito recebe instruções). A palavra episkopos e suas correlatas (de onde veio nossa palavra bispo) era usada desde a Grécia clássica para designar aquele que supervisiona, superintende, vela ou vigia por algo (Artemis vigiava pela fidelidade dos contratos). É mais usada na Septuaginta (14 vezes) sempre com o sentido de ter o encargo de, comandar, superintender, inspecionar, do que no NT (5 vezes) onde significa basicamente pastorear. De todas as vezes fica a impressão de um presbítero que tinha uma incumbência específica.

É notável que durante todo esse tempo, em uma área com quase 5 mil quilômetros de extensão, igrejas de nacionalidades e idiomas  tão díspares, possuíssem forma de governo tão semelhante. Não pode ter sido apenas coincidência. Creio que a Doutrina dos Apóstolos incluía também uma alusão ao sistema de governo do Antigo Testamento em que os presbíteros já estavam presentes e os diáconos possuíam missão análoga à dos levitas.

Os presbíteros, que supervisionassem bem, deveriam ser dignos de honra (ou honorários) dobrados, especialmente os que se dedicassem ao estudo da Palavra de Deus e ao ensino (1Tm 5.17). Deveriam ser tidos em alta conta, ter sempre um voto de confiança diante de denúncias isoladas (mas, quando culpados, a disciplina deveria se pública, diante de todos).

Não podemos esquecer que eles receberam exortações pungentes sobre como exercer seus ofícios: Paulo diz que eles deveriam ter vidas tão ilibadas ao ponto de não serem passíveis de qualquer repreensão. Deveriam ser maridos de uma só mulher e pais de filhos dóceis. Irrepreensíveis, também, ofício do presbiterato. Afáveis, pacíficos, generosos, hospitaleiros, sóbrios, apegados à doutrina cristã, dispostos a defendê-la e a promover sua aplicação. Pedro ordena-lhes atender o rebanho com dedicação e liberalidade sem segundas intenções, especialmente financeiras. E João diz que devem ser comprometidos com a verdade.

Todas as qualidades estão relacionadas a cuidado e nenhuma delas a desempenho. Diferentemente de hoje, os líderes do povo de Deus, não são executivos dirigindo uma empresa ao sucesso. São homens santos cuidando de um rebanho que não lhes pertence.


sábado, 1 de novembro de 2014

Davi e os Salmos

No fim de sua adolescência, Davi recebeu de seu pai, a incumbência de levar alimento para seus irmãos que estavam no campo de batalha. O capítulo 17 do primeiro livro de Samuel nos conta que os dois exércitos estavam acampados em lados opostos de um vale, no qual o maior guerreiro dos filisteus, com quase 3 metros de altura, se apresentava diariamente e insultava o exército de Israel desafiando a que alguém o enfrentasse. O soldado mais alto de Israel era exatamente o rei Saul, que, como seus soldados, estava amedrontado.

Indignado com o medo de seu exército e com os insultos do guerreiro filisteu, Davi aceitou seu desafio. Era uma verdadeira temeridade: ele ainda era “um menino ruivo com bochechas rosadas”. 
Tomou 5 pedras no riacho e encarou o filisteu que irado perguntava: “sou acaso algum cão?”. Davi o venceu com uma pedrada na testa.

Após sua impressionante vitória, Davi passou a morar no palácio de Saul e tornou-se seu principal comandante. Foi aclamado e cantado como herói e destacou-se tanto que Saul passou a nutrir-lhe ciúmes e diversas vezes tentou matá-lo.

A vida de pastor ficou para trás. As guerras tornaram-se sua principal obrigação. Entre essa infância quase idílica, em que os maiores perigos eram os animais do campo, e uma juventude de dificuldades e guerras, Davi encontrava alento na música. Setenta e três, dos cento e cinquenta Salmos, foram compostos por ele. E, tenho por certo, que a maioria dos que ele compôs, compôs em sua velhice.

Veja, por exemplo, o Salmo 23. Exala saudades. É como se Davi, já velho, vendo o que Deus lhe permitiu fazer à Israel, seu segundo rebanho, relembrasse os cuidados que ele tinha com o rebanho de ovelhas de sua adolescência: Como nada faltava a meu rebanho, assim as ovelhas do SENHOR de nada têm falta. Como protegi meu rebanho assim Deus nos protege. Levei minhas ovelhas às boas águas e aos bons pastos, assim o SENHOR também faz. As veredas pelas quais conduzi minhas ovelhas foram apenas um vislumbre das “veredas da justiça” pela qual ele nos conduz. E como eu as protegi, mesmo nos locais em que a morte fazia sombra, ele nos protegeu também nos momentos mais perigosos.

E assim, Davi, pastor de dois rebanhos, relembrava-se e fazia de suas lembranças canções de louvor ao SENHOR.

No Salmo 139, além de seus dotes artísticos, aparece também sua teologia. Observe que é uma teologia profundamente arraigada em sua experiência com Deus. Ele começa falando do conhecimento de Deus e o expressa com os verbos sondar, saber, penetrar, esquadrinhar e cercar. Aquilo que ninguém conhece (a palavra não falada), é inteiramente conhecida por Deus. E, como conclusão, ele exclama: ”Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir”.

Seu segundo assunto é a onipresença de Deus e ele a expõe argumentando hipoteticamente sobre a impossibilidade de esconder-se de Deus: “Para onde me ausentarei de teu Espírito? Para onde fugirei de tua face?”. E a seguir propõe dois contrastes: O primeiro entre o mais alto e o mais baixo e o segundo entre o que está mais a leste e o que está mais a oeste.

Deus é Senhor do mais alto, dos céus (ou da vida), do mesmo modo que é Senhor do mais baixo, do profundo abismo (ou da morte). Igualmente é Senhor de qualquer lugar que possamos ir desde o nascente (alvorada) ao por do sol (noite).

Ele continua olhando a si próprio no terceiro assunto: a onipotência de Deus. Deus, literalmente, tomou posse de seus rins (lembre-se de que nesta época os rins eram vistos como hoje vemos o coração: órgão vital) e o teceu no ventre de sua mãe. Sendo que nesse local secreto, os ossos que ainda permanecem em segredo para todos nós, estavam claros e acessíveis a Deus. Antes de seu corpo ter um formato definido, Deus já havia formatado todos os seus dias, pensando muitíssimas vezes o que há de mais precioso a seu respeito.

Pois bem: como é que um Deus tão impressionante como este pode ser desdenhado? Como pode haver que seja seu inimigo? O que é que ele deve fazer a respeito de quem, dentro do povo de Deus, o aborrece?

Lembre-se que Davi era o representante máximo de Deus sobre Israel.

O ódio que Davi tinha desses ímpios era tão grande que ele teme pecar. Então ora: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno”.   

sábado, 27 de setembro de 2014

Caim e o verdadeiro culto

O que Caim esperava ganhar com a morte de seu irmão Abel? Mais riquezas? Mais respeito diante de seus pais ou de seus outros irmãos? Mais aceitação diante de Deus? Absolutamente nada. Mas, ele o matou. Por despeito e por vingança o matou. Vingou-se de que? De seu irmão ter feito um culto que agradou a Deus.

Os dois irmãos foram criados juntos e o que os distinguia era apenas a idade e a profissão. Caim, mais velho e mais experiente, lavrava a terra e dela tirava os frutos. Abel, mais novo, cuidava de ovelhas. Porém ambos foram criados pelos mesmos pais e certamente conheciam as determinações de Deus que lhes providenciou vestimentas de peles no lugar dos aventais de folhas que fizeram.

Certamente ambos se vestiam assim e assim compareciam em culto diante de Deus.

Como está escrito, “no fim de uns tempos...” eles foram cultuar a Deus por si mesmos. Sem a presença nem orientação dos pais. Esse gesto, que deixa qualquer pai moderno feliz, foi o ensejo para a desavença entre o lavrador e o pastor de ovelhas. Os dois só estavam de acordo na necessidade de cultuar a Deus: Caim, o lavrador, apresentou o fruto da terra e Abel apresentou as primícias e o melhor de seu rebanho.

O escritor da Carta aos Hebreus destaca a fé: “Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb 11.4).

O Apostolo João destaca o amor: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros; não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (1Jo 3.11-12).

Creio que a falta de fé levou Caim a um culto errado e a falta de amor a uma atitude errada.

Se os dois já sabiam que Deus determinara vestirem-se de peles – o que, sabemos hoje, era o prenúncio dos sacrifícios da Antiga Aliança e um tipo do sacrifício de nosso Senhor – como Caim poderia cultuar a Deus por suas forças, ou por qualquer outro modo não ordenado por Ele?

Caim deveria acreditar (ter fé) que era necessário apenas, e tão somente, o que Deus havia determinado, mas, ao contrário, orgulhosamente (sem amor) apresentou o que seu braço lhe alcançou: semeou, cultivou, colheu e transportou (seu irmão sequer precisou carregar a vítima).

O primeiro assassinato aconteceu por razões litúrgicas!

O correto obedeceu a Deus e foi aceito. O errado tentou fazer conforme sua própria vontade e foi rejeitado. O que seria de se esperar senão que o errado se arrependesse e passasse a fazer o certo? Entretanto o que ele fez? Matou quem estava certo!

Não é a toa que Judas nos fala do “caminho de Caim” (Jd 1.11). Por ele andam muitos. E, até hoje, andam por ele todos aqueles que tentam cultuar a Deus “segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás ... sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras”, como nos resume nossa Confissão de Fé.

Mas, voltando a pergunta inicial: Por que matou seu irmão? Matou porque seu irmão agradou a Deus com um culto simples. E o dele, tão trabalhoso, recebeu o desagrado de Deus.
Parece que o pecado “emburrece” o pecador. Você se lembra da Parábola dos Lavradores Maus? Desde quando matar o herdeiro lhes garantiria a herança? Desde quando é possível agradar a Deus fazendo o que ele não ordenou que fosse feito?


Sabemos que, por adorarem a criatura em vez do Criador, Deus entregou os homens a paixões infames para desonrarem-se mutuamente, homens com homens, mulheres com mulheres. Pois bem: Caim nos mostra que o culto errado nos leva à falta do amor verdadeiro.

sábado, 13 de setembro de 2014

Ezequiel, Isaías e Apocalipse

Não é de hoje que alguns estudiosos apontam semelhanças entre o Apocalipse de João e o Livro do Profeta Ezequiel (Para uma lista completa veja o artigo de David Chilton, “Apocalipse, Ezequiel e o Lecionário”, que pode ser achado em www.monergismo.com). Essas semelhanças podem ser diretas (quando as palavras são praticamente as mesmas) ou indiretas (quando o texto de João suscita apenas uma lembrança do texto de Ezequiel). A seguir, listo alguns exemplos, que eu mesmo escolhi, de semelhanças diretas.
1 - O livro selado por dentro e por fora, doce aos lábios (e, para João,  amargo ao estômago), descrito nos capítulos 5 e 10 de Apocalipse, pode ser visto em Ez 2.8 – 3.3.
2 - O trono de Deus, descrito em Ap 4, é muito parecido com o que é  descrito no capítulo 1 de Ezequiel.
3 - O povo de Deus é marcado na fronte, tanto em Ap 7.2-8 quanto em Ez 9.1-8.
4 - Em ambos (Ap 11.1-2 e Ez 40 – 43) o Templo é medido.
5 - Em ambos um banquete terrível (das carnes dos comandantes e dos príncipes da terra) é oferecido às aves do céu (e aos animais do campo, em Ezequiel): Ez 39.17-20 e Ap 19.5-21.
6 - Nos dois há uma “primeira ressurreição”. No apocalipse, são aqueles sobre os quais a segunda morte não tem poder (Ap 20.4-6) e, em Ezequiel, o vale de ossos secos do capítulo 37.
7 - Com exceção das listas genealógicas de Gênesis e de Crônicas, Gogue e Magogue só são citados em Ezequiel e no Apocalipse. E em ambos como inimigos do povo de Deus (Ap 20.7-9 e Ez 38 e 39).
8 - Em ambos há uma descrição muito semelhante do que João denomina de “Nova Jerusalém” (Ap 21 e Ez 40 – 48).
9 - João descreve (Ap 22.1-5)  o Rio da Vida de modo muito parecido com o rio descrito por Ezequiel (Ez 47).
Há muito mais! Entretanto, o que pretendo destacar, além da possibilidade de João ter usado o livro de Ezequiel, é que ambos tenham descrito as mesmas realidades. Ou seja: Ambos descrevem a mesma realidade.
Antes dos dois, Isaías também já havia descrito o trono de Deus, mas ainda não vi quem dissesse que Ezequiel usou o Livro de Isaías. Observe que, em cada uma dessas descrições, os detalhes dos arredores do trono são minuciosos, mas as descrições daquele que ocupa o trono é pouquíssima (ou inexistente) e muito cuidadosa.
Em Ezequiel (1.1-14) as figuras são: Vento tempestuoso, grande nuvem com fogo a revolver-se, com o redor resplandecente e algo brilhante como metal em seu interior. Quatro seres viventes, que saem da nuvem, tendo a aparência geral de homem, luzindo como o bronze polido, parecidos com “carvão em brasa à semelhança de tochas”, com os pés parecidos a pés de bezerro e as pernas retas. Cada um possuía quatro asas e quatro rostos (homem, leão, boi e águia), de modo que não se viravam, mas estavam sempre andando para frente. Ziguezagueavam como relâmpagos.
A “aparência da glória do SENHOR” é descrita (1.26-28) assim: Em uma espécie de trono de safira “uma figura semelhante a um homem” como metal brilhante, como fogo resplandecente ao seu redor, como o arco-íris.
A reação de Ezequiel: “caí com rosto em terra e ouvia voz de quem falava”. 
Em Isaías as figuras são: trono rodeado de serafins (ardentes) que possuíam seis asas e voavam ao redor gritando uns para os outros: “santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”.
O Senhor é descrito apenas por sua roupa e por sua presença (enchendo o templo de fumaça e fazendo tremer os alicerces).
A reação de Isaías foi: “Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!”.
No Apocalipse além dos elementos comuns aos relatos de Ezequiel e de Isaías há também elementos novos:
1 - Diferentemente de Ezequiel, João não revela do que o trono é feito (e transmite uma leve impressão de que foi montado ali para aquela ocasião). Semelhantemente a Ezequiel, João descreve um arco-íris ao redor do trono, porém com o aspecto de esmeralda.
2 - Além de Ezequiel e Isaías, João fala de vinte e quatro anciãos, assentados em vinte e quatro tronos, vestidos de branco portando coroas de ouro. Fala também de sete tochas de fogo, “que são os sete Espíritos de Deus” e, lembrando Ex 24.10, de um “como que mar de vidro, semelhante ao cristal”.
3 - Semelhantemente a Ezequiel, João descreve quatro seres viventes. Cada ser vivente tem um rosto só (de leão, de novilho, de homem e de “águia em voo”). A tarefa deles é semelhante a dos serafins descritos por Isaías: “... não têm descanso, nem de dia nem de noite, proclamando: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir”. E, como os serafins, possuem seis asas (diferentemente dos querubins Ezequiel, que possuem quatro asas). João acrescenta nesses seres viventes a existência de olhos, “ao redor e por dentro”.
O que se assenta no trono, diferentemente da descrição de Ezequiel, tem um aspecto mais mineral (jaspe e sardônio – pedras avermelhadas) do que metálico.
Na disposição do texto há outras semelhanças entre Apocalipse e Isaías: Antes da visão do trono do Senhor, nos capítulos 1 a 5, através de muitas repreensões e exortações e “ais”, Isaías descreve a pecaminosidade de Judá. No Apocalipse os capítulos 2 e 3 mostram o estado de 7 Igrejas, com advertências e elogios a seus “anjos”.
No capítulo 6 de Isaías e no capítulo 4 de Apocalipse temos as fantásticas descrições do trono de Deus, seguidas de imprecações e castigos sobre Judá (em Isaías) e sobre o mundo (em Apocalipse).
O clímax do texto de Isaías está no perdão de seus pecados com a brasa trazida pelo querubim, no texto de João está na abertura do livro selado por dentro e por fora. Ou seja: Isaías vê o trono de Deus e se vê perdoado. João vê o trono de Deus e o Cordeiro abrindo o livro cujos selos correspondem a tragédias castigando os pecados da humanidade.

Três visões do mesmo evento, cada uma de pontos de vista diferentes. As duas primeiras (uma no templo e outra no exílio, na Babilônia) por profetas que tinham o mesmo ponto de vista dos que esperavam o Messias. A última no exílio em Patmos, por um apóstolo do Senhor. As três destacam a glória de Deus e a fragilidade pecaminosa do homem.

sábado, 6 de setembro de 2014

Leis anticristãs

Desde seus primeiros dias o cristianismo tem sido difamado. A Bíblia registra que as primeiras perseguições foram iniciadas por boatos ou por difamações. Por exemplo: Os judeus em Tessalônica “movidos de inveja, trazendo consigo alguns homens maus dentre a malandragem, ajuntando a turba alvoroçaram a cidade”. Ou ainda, em Éfeso, o ourives Demétrio promoveu uma manifestação anticristã levando seus colegas ocuparem a praça, gritando repetidamente, por cerca de duas horas: “grande é Diana dos efésios”.

Justo Gozales registra, em A Era dos Mártires, que: “O que se dizia acerca dos cristãos pode ser classificado em duas categorias; os rumores populares e as críticas por parte da classe culta [...] como se chamavam mutuamente de irmãos, foram se tecendo rumores cada vez mais exagerados, e muitos chegaram a crer que os cristãos se reuniam para celebrar uma orgia em que se davam uniões incestuosas”.

Além de difamado o cristianismo chegou a ser perseguido – exatamente como o Senhor Jesus havia predito – até ser reconhecido como religião oficial. Mas, deixar de ser perseguido, não significa que não tivesse inimigos ou difamadores. Sempre houve difamadores. Sempre houve quem lutasse contra o cristianismo e/ou contra os ideais cristãos. E infelizmente, as convicções de liberdade trazidas pela Reforma Protestante facilitaram, em muito, a vida dos difamadores e garantiu-lhes o direito de continuarem difamando.

A lista de difamadores famosos é grande, mas um se destaca até hoje: Friedrich Nietzshe. Nascido em 1844 numa família de protestantes era neto e filho de pastores luteranos e foi educado com vistas ao seminário, mas optou inicialmente pela filologia e depois à filosofia. Morreu louco no pior estágio da sífilis.

Os muitos livros que escreveu estão cheios de ataques ao cristianismo. No livro O Anticristo (título que atribuía a si mesmo) diz que o cristianismo é uma “crença enferma, baixa e vulgar [...] responsável pelo retrocesso cultural e moral dos homens”. Chegou mesmo a publicar uma “lei contra o cristianismo”, da qual transcrevo um trecho:
Artigo Primeiro – Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o sacerdote: ele ensina a antinatureza. Contra o sacerdote não há razões: há cadeia. 
Artigo Terceiro – O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas. 
Artigo Quarto – Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida. 
Artigo Sexto – A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita; as palavras “Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos.
Porém, ele não foi o primeiro a “fazer leis” contra os cristãos. Mesmo porque seus escritos, no máximo, provocaram reações ou convenceram a alguns a se voltarem contra o cristianismo. A Igreja, durante seus primeiros anos de existência, sofreu do império Romano 10 períodos de perseguição e não foram poucas as leis que surgiram contra ela. Por exemplo, na segunda perseguição, quando Domiciano era o cesar, o Senado fez a seguinte lei: “Que nenhum cristão, uma vez trazido ao tribunal, fique isento de castigo, sem que renuncie a sua religião”.

Não é de se admirar que os governos que veem o cristianismo como inimigo o persigam, porém, me assusta ver que cristãos fazem o mesmo. Observe: Diversas leis que foram feitas pelo legislativo brasileiro trazem, no mínimo, intranquilidade aos cristãos: O Estatuto da Criança e do Adolescente priva os cristãos de transmitirem a seus filhos valores básicos de disciplina e do trabalho e atrapalha muito às igrejas que desejam manter um orfanato dentro dos princípios morais cristãos.

A dita Lei da Palmada nivela os pais que sabem disciplinar seus filhos conforme a disciplina e sabedoria de Deus a pais espancadores que procuram, antes de tudo, descontar nos menores seus problemas. As diversas leis de proteção aos homossexuais acabam acobertando vidas pecaminosas e tentam obrigar as igrejas a adotarem a agenda de grupos cuja intenção declarada é a extinção da (como eles mesmo dizem) moral “judaico-cristã”.

E, como estas, outras leis, que, se não lutam abertamente contra o cristianismo, prejudicam muito a ação dos cristãos.


O que os cristãos podem fazer? Pelo menos divulgar quem são essas pessoas que lutam disfarçadamente. Repare: o cristianismo sempre terá muitos inimigos, mas os piores não são os declarados, e sim os que se passam por irmãos.

sábado, 23 de agosto de 2014

A propósito do Templo de Salomão

A primeira menção bíblica a um lugar de adoração está em Gênesis (8.20-21) e relata como Noé levantou um altar sobre o qual ofereceu holocausto. É certo que as ofertas de Caim e Abel já pressupõem um lugar determinado e esse lugar seria lato sensu um altar, mas a primeira menção formal a um altar é esta de Noé.

Na terra que lhe fora prometida, mesmo sem tomar posse dela, Abraão sempre levantava um altar no lugar em que Deus lhe aparecia, mas, o último foi levantado em lugar determinado por Deus, três dias de distância de onde morava: o Monte Moriá. Neste altar Isaque, seu filho, seria a vítima.

Os descendentes de Abraão também seguiram o costume e os altares levantados por eles eram verdadeiros marcos (com significado religioso).

Todos esses altares não passavam de montões de pedras, ajuntadas do próprio local, sobre as quais um animal (na maioria das vezes um cordeiro) era morto e queimado. Somente na época de Moisés, após instrução divina, o altar recebeu outros complementos e significados: era o Tabernáculo. Sua construção foi determinada por Deus que o detalhou e capacitou a seus construtores.

Os altares não desapareceram, nem ficaram restritos ao Tabernáculo. Josué e alguns Juízes levantaram altares também. Até mesmo Davi fez um no mesmo lugar em que, séculos antes, Abraão tinha oferecido seu filho. E, nesse mesmo lugar, anos mais tarde Salomão edificará o Templo.

As demais nações sempre tiveram altares. Na verdade, não se conhece um só povo, que não os tenha, pelo menos, uma vaga noção de um deus que recebe ofertas. Tais ofertas, sangrentos ou não, são oferecidas em lugares simples ou em complexos impressionantes, que podemos perfeitamente chamar de altares: zigurates, pirâmides egípcias, astecas, maias ou sudanesas, etc.

Mas, voltando ao Tabernáculo é necessário destacar que ele era um complexo cercado por uma estrutura de postes e panos esticados com cerca de 50m de comprimento e 25 de largura, a qual só era adentrada pelos sacerdotes e pelos respectivos ofertantes com suas vítimas.

Dentro dela ficava um braseiro de bronze (o altar propriamente dito, também chamado de altar de bronze) sobre o qual as vítimas, depois de carneadas, eram queimadas. Havia também uma bacia de bronze na qual os sacerdotes deveriam se purificar e uma tenda de peles com  quase 15m de comprimento por 5 de largura (a única parte coberta). Essa tenda era dividida em seu terço por uma cortina espessa. O terço maior era chamado de Lugar Santo e o menor de Santíssimo (ou Santo dos Santos).

No Lugar Santo ficava o candelabro de ouro (menorah), uma mesa folheada a ouro, sobre a qual se colocava pães, e um altar menor também folheado a ouro, onde se queimava incenso. Neste lugar os sacerdotes entravam, conforme a exigência da cerimônia, para apresentar a Deus o sangue de determinadas vítimas.

No Santo dos Santos, abrigo da Arca da Aliança, apenas o sumo sacerdote podia entrar. E apenas em um dia do ano!

Na verdade o Tabernáculo era uma estrutura portátil que deveria acompanhar o povo em sua peregrinação. Entretanto, depois de entrarem na Terra Prometida, permaneceu em Siló durante os quatro séculos dos Juízes e depois em Nobe e em Gibeom até sua substituição pelo Templo.

Davi, morando numa “casa de cedro” lembrou-se, com algum remorso, de que a Arca da Aliança ainda estava em uma tenda (o Tabernáculo), e decidiu preparar-lhe um lugar adequado. Deus o proibiu deixando claro que nenhuma casa seria adequada à sua presença, porém, permitiu que Salomão, seu filho, a edificasse.

E, apesar de Salomão ter dirigido a obra, lemos no Livro das Crônicas que até a planta das diversas construções que compunham o Templo foi dada por Davi. De fato, o lugar, os recursos, os materiais, os oficiantes, bem como as músicas e os instrumentos musicais foram todos preparados por Davi.

O Livro dos Reis registra: “Edificava-se a casa com pedras já preparadas nas pedreiras, de maneira que nem martelo, nem machado, nem instrumento algum de ferro se ouviu na casa quando a edificavam” (1Re 6.7).  

Salomão mandou aterrar a depressão entre os montes Moriá e Sião para criar uma grande esplanada no meio da qual edificou o Templo com dimensões iguais ao dobro das dimensões do Tabernáculo. A única parte coberta (onde ficavam o Santo e o Santo dos Santos) possuía 30m de comprimento por 10 de largura e era rodeado por depósitos para o que fosse necessário às cerimônias e ao cotidiano dos sacerdotes.

Durante quase 400 anos (de 973 a 586 a.C.) o Templo de Salomão centralizou a vida de Israel, especialmente a de Judá, até sua destruição pelos babilônios, quando levaram cativos grande parte dos judeus.

Os babilônios foram dominados pelos persas que autorizaram a volta dos judeus. E, nos dias de Neemias e Esdras, o Templo foi reedificado. Não era tão impressionante quanto o outro (Ag 2.1-4) e foi levantado com grandes dificuldades, mas era muito semelhante ao de Salomão. Em decreto, Ciro, rei dos persas, determinou as dimensões da obra (30 metros de largura e de altura), a devolução dos utensílios que Nabucodonozor havia tirado de lá, o pagamento dos construtores e dos oficiais do culto, bem como das vítimas e víveres necessários aos sacrifícios. Tudo isso com seu dinheiro. Ou seja: o culto estava sendo mantido por estrangeiros. 

Quando Salomão inaugurou o primeiro Templo, orou repetidamente: “se o teu povo, que se chama pelo teu nome...” Agora as orações do Templo deviam incluir Ciro e seus filhos!

Quando Salomão inaugurou o primeiro Templo, o equipou com utensílios maiores e mais caros do que os utensílios do Tabernáculo (mesas, candelabros, etc.), mas a Arca da Aliança era a mesma que Moisés fizera no deserto. Agora no segundo Templo, a maioria das peças foi devolvida, menos a Arca da Aliança. O Santo dos Santos ficou vazio.

Quando Salomão inaugurou o primeiro Templo, repetiu-se o que aconteceu nos dias do Tabernáculo: fogo dos céus consumiu tudo o que estava sobre o altar. Agora no segundo Templo não há registro algum dessa manifestação da aceitação divina.

No ano 168 a.C., 384 anos depois da consagração deste Templo, Antíoco, descendente de um dos generais com quem Alexandre estabeleceu seu império, o profanou: construiu um altar a Zeus em seu interior e sacrificou um porca sobre ele. Três anos depois o rededicaram e até hoje esta data é comemorada com o nome de Hanukah (a festa das luzes).

O Evangelho de João (2.20) registra os judeus afirmando a Jesus que foi gasto 46 anos para edificar o Templo. Os sinóticos são unânimes no registro de que, poucos dias antes da crucificação de Jesus, seus discípulos chamaram sua atenção para as pedras do Templo. Herodes resolvera embelezá-lo.

Aumentou o tamanho dos átrios, ampliou a esplanada (que chegou a ser 4 vezes maior do que a da Acrópolis de Atenas) e a circundou por alpendres. Elevou frontispício do lugar santo para 50 metros de altura e construiu a Torre Antônia no canto noroeste da esplanada com ótimas acomodações e com um quartel que possibilitava aos soldados saírem direto no átrio dos gentios. Era o que chamamos de Templo de Herodes.

Foi destruído pelo general romano Tito no ano 70 em uma luta tão angustiosa que a Igreja a comparou ao “fim dos tempos”.

Resumindo: Primeiro, o Tabernáculo (com 25m de largura por 50m de comprimento), feito de madeira e peles, que acompanhou Israel por cerca de 530 anos e foi montado em diversos lugares. Depois, o Templo de Salomão com o dobro das medidas (50 por 100m), feito dos melhores materiais da época, e edificado no lugar mais significativo para a história do Povo de Deus, ficou de pé cerca de 380 anos. Em terceiro lugar, após o exílio, o Templo de Zorobabel (com 30 por 60m), totalmente custeado pelo rei da Pérsia, e reformado 490 anos depois por Herodes. Finalmente o Templo de Herodes, que fez mais do que uma reforma (com cerca de 50 por 60m, mas com quase 300m por 600m de esplanada), que durou apenas 96 anos, grande parte deles em obras.

Observe que, com o passar do tempo, o tamanho aumenta, o significado para o povo também aumenta, mas o Santo dos Santos vazio aponta para o esvaziamento do significado real.

O Templo de Herodes ainda estava de pé e no dia de pentecostes e celebrava-se lá uma das mais elaboradas e caras cerimônias de então. Nesse mesmo instante, em um simples terraço, a “presença de Deus”, que havia se manifestado no Tabernáculo e no Templo de Salomão, se manifestou sobre cada um dos discípulos de Jesus. Um Templo novo estava sendo inaugurado pelo próprio Deus. Não de peles de animais, como o Tabernáculo, nem de pedras, como o Templo de Salomão, mas de pessoas consagradas pelo Senhor.

Desde então este é o verdadeiro Templo. Nele o Espírito do Senhor faz morada: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16).

No mesmo texto em que os judeus falam do tempo da reforma Jesus deixa clara a identificação do templo com seu corpo. De fato, essa relação é a chave do significado do templo: ele era um tipo de Jesus. E, assim como no passado o tabernáculo, e seus sucessores, eram tipologicamente o corpo do Senhor, hoje, todos nós, somos membros desse corpo.

O Templo feito por Herodes já havia sido honrado por Jesus, que se referiu a ele como “a casa de meu Pai”, e o purificou. O Cordeiro de Deus não foi morto em seu altar, como as vítimas que o simbolizavam, mas, julgado e condenado em suas instalações, foi imolado no mais ignominioso altar que se possa conceber: a cruz.

Assim que Jesus expirou, o véu do santuário (a cortina que separava o Santo Lugar do Santíssimo) foi rasgado. O templo estava sendo definitivamente preterido e, para que a Igreja – acostumada a reunir-se no alpendre de Salomão – o esquecesse de vez, Deus o destruiu completamente a ponto de não ficar pedra sobre pedra.

Continuar sacrificando, mesmo que simbolicamente como faz a Igreja Católica é desprezar o sacrifício de Jesus. Levantar outro templo, seja em Jerusalém, seja em São Paulo é zombar daquilo que foi finalizado pelas benditas palavras “está consumado”.

sábado, 2 de agosto de 2014

Descrições de Jesus

Quem era Jesus? Essa foi a pergunta que aqueles que estavam engajados na “busca pelo Jesus histórico” (sobre a qual escrevi na semana passada), tentavam responder. Porém, não se esqueça de que eles partiam da pressuposição de que um homem comum, desses que povoam a história, não poderia ser como os Evangelhos descrevem a Jesus.

Mas, o que é que eles escrevem de tão notável? Certamente, o ponto máximo é que ele ressuscitou. Mas, há uma série de outras afirmações que achavam difíceis de aceitar. Por exemplo: a de que ele tenha perdoado pecados ou a de que ele tenha dito ser o próprio Deus.

De fato, o Novo Testamento nos apresenta Jesus direta ou indiretamente através de figuras que falam de seu caráter ou de sua obra. Logo no princípio de seu ministério João Batista o apresentou como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” o que tinha um significado especial para sua audiência que era constituída de judeus.

Durante seu ministério, já apareceram opiniões diferentes: a Herodes opinaram que Jesus era João Batista ressuscitado. Seus discípulos informaram que também havia os que criam que ele era Elias ou algum dos profetas. E ele mesmo, correndo o risco de ser apedrejado, foi claro ao apresentar-se como EU SOU (Jo 8.58-59), nome que o Antigo Testamento reservava à Deus.

Porém, não deixa de ser notável as apresentação indiretas. Especialmente as que estão contidas nas parábolas.

Ele se apresentou como agricultor na parábola do Joio e na parábola dos trabalhadores na vinha. Na primeira ele proíbe que seus servos arranquem o joio para não correr o risco de arrancar o trigo junto e na segunda ele contrata diaristas para trabalhar em sua vinha. Apresentou-se também como criador de gado na parábola do servo que volta da lavoura (Lc 17.7-10) e, em um contexto em que seu povo é comparado à ovelhas, ele se apresentou como o Bom Pastor (Jo 1.1-18). Apresentou-se também como médico que veio apenas para os doentes (Mt 9.12-13).

Comparou-se a um noivo que chega tarde da noite para celebrar suas núpcias (Mt 25.1-13), como um nobre que viaja e confia a seus servos a administração de seu bens (Lc 19.12-27), como um rico fazendeiro que recebe acusações contra seu administrador (Lc 16.1-13), como um credor que perdoa seus devedores e exige que eles se perdoem também (Lc 7.40-50) e como um rei que chama seus servos a prestar-lhe contas (Mt 18.25-35).

Declarou ser a pedra que foi rejeitada pelos construtores (aludida pelos profetas). Declarou ser a porta e o caminho. E declarou-se também ser a verdade, a luz, a vida e o grão de trigo semeado que morto dá muito fruto. E nele os evangelistas reconheceram a comparação dos profetas: a ovelha muda.

Indo além podemos ver também o que seus apóstolos disseram. Paulo o apresentará como o novo Adão e João como advogado junto ao Pai (1Jo 2.1).

Os Evangelhos nunca o descrevem (o imaginamos moreno porque a grande maioria dos judeus de sua época era morena e deduzimos que ele gostava de frutas, peixes e vinho pela quantidade de vezes que elas aparecem no relato), mas o Apocalipse o descreve detalhadamente três vezes.

Nessas impressionantes visões de João, ele é introduzido a uma grande multidão como o Leão, mas apresenta-se como o Cordeiro (Ap 4).

Logo de início ele é descrito como um sacerdote. Está no meio das igrejas, usa vestes sacerdotais e possui cabelos brancos como se espera de um presbítero (ancião). Entretanto, a idade não o alquebra e sua firmeza aparece na postura (pisa como se tivesse pés de bronze), na voz (potente como o estrondo de muitas águas) e na sua aparência geral (como o sol na sua força). Seu olhar perscrutador é descrito como chama de fogo e ele identifica-se como “o alfa e o ômega” ou “o primeiro e o último”. E a intimidade que João tinha com ele no tempo dos Evangelhos é substituída pelo terror que prostra o apóstolo amado ao chão.

A seguir ele é fantasticamente descrito como um cordeiro com sete chifres e sete olhos, que acabara de ser morto.

Quase no fim do Apocalipse ele é mostrado como um guerreiro cavalgando um cavalo branco, vestindo um manto ensanguentado em que está escrito Rei dos reis e Senhor dos senhores. Ele é seguido pelos exércitos celestiais que também estão em cavalos brancos, mas vestindo mantos brancos e puros. Seu olhar ainda é descrito como chama de fogo, e em sua cabeça é adornada por diversas coroas. Sua palavra é poderosa como uma espada afiada e ele é identificado como o Verbo de Deus.

Todas as tentativas de descrevê-lo acabam misturando sua pessoa e seus ofícios. Mas, acima de tudo, as tentativas de descrevê-lo esbaram na impossibilidade de descrever o inefável: o Verbo de Deus.

O Verbo de Deus certamente não voltará para ele vazio, mas fará o que lhe apraz.

sábado, 26 de julho de 2014

Os Evangelhos e o Jesus histórico

No início do século 20, Albert Schweitzer escreveu um livro que resumia os esforços na busca de quem foi Jesus: A busca do Jesus Histórico. Sempre houve quem duvidasse do que os Evangelhos dizem a respeito de Jesus, mas, naquela época – como acontece hoje – quem duvidava da fidelidade dos Evangelhos inexplicavelmente estava dentro da Igreja!

No mínimo se dizia que os Evangelhos contêm exageros próprios dos devotos, que, ao descrever o objeto de devoção, saem dos limites da realidade e registram demais. Mas, notavelmente a maioria aceitava parte da narrativa! Duvidar do todo é compreensível, mas duvidar de partes e aceitar outras? Como selecionar as partes dignas de crença?

Diziam-se guiados pela razão. Ou seja: acreditavam apenas no que achavam ser razoável. E assim... é razoável que alguém, nascido na Galileia, nos dias do domínio romano, e que, embora tenha sido educado em uma família humilde, torne-se um mestre e chegue a ter discípulos. Mas não é razoável que ele tenha curado cegos de nascença, multiplicado pães, muito menos, que tenha ressuscitado alguém ou a si mesmo. Mortos não ressuscitam!

Partindo da pressuposição de que os mortos não ressuscitam qualquer texto que afirme que isto aconteceu, a priori, é produto de devotos (ou de canalhas).

Esta busca teve então desdobramentos e um deles, o principal, aconteceu com o uso das ideias marxistas de que a chave para o entendimento da história é a luta de classes. O resultado tinha de ser o óbvio: para que a (liderança da) igreja mantivesse seu poder sobre “as massas”, recorreu-se a relatos fantasiosos que têm por objetivo manter o fiel enganado e dependente.

Observe que o pensamento marxista não condena esse expediente como imoral. A condenação é política: os outros não devem usá-lo, mas os defensores das classes mais exploradas (ou seja: eles mesmos) podem usá-lo legitimamente.

Essas duas correntes ainda podem ser vistas hoje: Enquanto uma diz que os evangelhos é uma expressão de devoção e, portanto, cheia de exageros, os outros dizem que os evangelhos nasceram da necessidade das elites para dominar o povo. A primeira nega parte do que foi escrito e a segunda nega o todo.

Então, “Guiados pela razão”, chegaram ao ponto de declarar que apenas quarenta, dentre todas as afirmações feitas por Jesus são, de fato, verdadeiras. Os demais, guiados por Marx, sequer se preocuparam em analisar as afirmativas per se, pois, no fundo, tudo era um “folheto” usado para enaltecer a Igreja como representante de Jesus.

No primeiro caso, se a razão guiou os críticos e os evangelhos apresentam a intervenção divina na história humana, não seria de se esperar que o relato evangélico contivesse eventos que ela não pudesse explicar? A resposta que deram foi peremptória: – Deus (se existir) não entra em contato com o mundo material e os Evangelhos narram o que gostaríamos que acontecesse e não o que, de fato, aconteceu.

Agora, por poucos instantes, admitamos que Deus, de fato existe e quer intervir neste mundo. Não teríamos um relato semelhante com eventos além da explicação racional? O que é peculiar à mensagem cristã é o tipo de relacionamento que Deus estabelece com sua criatura, que rebelde, e sem condições de voltar-se para ele, precisa ser resgatada.

A mensagem dos Evangelhos, portanto, está plenamente de acordo com o que eles se propõem: narrar como Deus interveio na história humana.

Não preciso dizer que isto foi a ruina para a fé de muitas pessoas. Alguns pastores engajaram-se em uma luta contra os próprios ministérios e partiram para o ativismo político. Outros (provavelmente os que classificavam os Evangelhos como exagero de devotos) passaram a se dedicar mais à ação social. O próprio Schweitzer, professor de teologia na Universidade de Strasburgo, depois de um curso de medicina, abriu um hospital na África, onde passou a viver.

O relato evangélico só faz real sentido se for recebido em sua íntegra. O caráter do Senhor Jesus, de tão rico, precisa dos quatro relatos para ser apreciado em sua totalidade. E da apreciação dele depende a solidez de nossa fé.

domingo, 20 de julho de 2014

À mesa com Jesus

Você já reparou a quantas festas, banquetes, jantares ou ceias os Evangelhos narram que nosso Senhor compareceu?

Logo de começo há a festa do casamento em Caná, onde, da água, fez o melhor vinho.

Que alegria deve ter permeado a casa de Lázaro enquanto o Senhor ceava. Ceou lá pelo menos duas vezes: uma quando Marta atribulada com as comidas reclamava de Maria quedada aos pés do Senhor e outra quando Maria o ungiu.

Que clima pesado deve ter se abatido sobre todos quando o fariseu Simão, depois de convidar Jesus pra jantar, o recebeu com desdém. Será que alguém conseguiu comer algo?

Acaso podemos nos esquecer do banquete dado pelo publicano Levi, que, de tão alegre, encheu sua mesa de antigos colegas de profissão? E o que dizer da recepção na casa de Zaqueu, o chefe dos publicanos?

E assim, quantas vezes os Evangelhos nos mostram o Senhor em companhia de publicanos e pecadores – seus doentes que precisavam de médico – e quantas vezes ele foi censurado por isso? Ele mesmo estava cônscio de que o tinham por “glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores”.

Muitas vezes ensinou usando alimentos como exemplos. Com eles explicou que a impureza não está naquilo que entra pela boca, mas no que sai dela.

Prometeu – mesmo sendo Senhor – servir aos servos fiéis o pão dos céus à mesa com Abraão, Isaque e Jacó. Numa de suas parábolas comparou o Reino de Deus a um banquete de casamento e, para ensinar sobre o perigo de se ter o coração neste mundo, contou outra parábola em que um rico satisfeito com sua colheita exorta sua alma: “come, bebe e regala-te”.

Ensinou-nos a dar banquetes a quem não os pode retribuir e criticou os escribas e fariseus por amarem o primeiro lugar neles.

Disse que seu corpo era verdadeira comida e seu sangue era verdadeira bebida, e convidou aos sedentos “se alguém tem sede, venha a mim e beba”. E selou-nos a afirmação “quem de mim se alimenta, por mim viverá” repartindo o pão e o cálice e ordenando-nos a tomá-lo em sua memória, pois aquilo era seu corpo e seu sangue.

Comeu muitos tipos de comida e a preparação de alimentos serviu-lhe de motivo para parábolas. Procurou figos temporãos e conhecia bem as estações da oliveira. Gostava de peixes: multiplicou-os duas vezes, preparou-os na brasa e os comeu com mel. E foi reconhecido pelos dois de Emaús à mesa, ao bendizer o alimento.

Participava das páscoas desde cedo, nas quais se comia desde ervas amargas até um cordeiro assado. E, da última que participou, tomou um pedaço de pão e o último cálice de vinho e, com eles, despediu-se dos seus. Com o mesmo pão e com o mesmo vinho alimentou Judas para sua própria perdição, agravada pelas palavras do profeta: “Aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar”.

A mesa que lhe proporcionava o prazer da companhia trouxe-lhe a tristeza da traição “O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá”. E, na cruz, em vez de vinho, que deixou como recordação de si, e com o qual começou seus milagres, recebeu como bebida o vinagre.

Esse comportamento do Senhor reflete os valores do povo da Antiga Aliança, para os quais muitas bênçãos são tipificadas por alimentos. A própria descrição da Terra Prometida exaltava a quantidade de pastos bons e a exuberância de suas flores. Era como se dela manasse leite e mel.

Aquele que experimentou a alegria do convívio a mesa, é o mesmo que aguarda por nós, para juntos, tomarmos o “vinho novo” que ele espera ansiosamente para nos servir.

Vem logo Senhor Jesus.
 
(Texto publicado originalmente em 27/2/2010)

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...