quarta-feira, 18 de julho de 2018

Uma nota oportuna


Este blog nasceu de uma necessidade: Em 2004 recebi de uma ovelha o boletim de uma Igreja Americana (na realidade de brasileiros que viviam nos EUA) com uma recomendação: “não deixe de ler o artigo, pois é muito bom e o pastor de lá se esforça muito para manter um bom nível teológico em seus escritos”. O texto era meu! Eu o havia publicado no boletim da Igreja que eu estava pastoreando então.

Minha indignação maior não era a falta de crédito, era ver o texto, cheio de erros de digitação, e sem dois parágrafos importantes para uma correta compreensão do assunto.

Minha primeira reação foi parar de escrever. Afinal, pensava eu, sabe-se lá onde esses boletins vão parar. Mas, graças a Deus, bons amigos me apontaram uma saída melhor. Nasceu assim este blog. Se alguém quisesse copiar que copiasse. Além de copiar sem erros (além dos meus próprios), eventualmente teria de explicar por que aquele texto já existia antes na internet.

Então de 2004 até 2014, todos os textos que escrevi para o boletim daquela e Igreja (e mais alguns outros que podiam ser interessantes) foram transcritos no blog.

Em 2015, ano que fiquei em Belo Horizonte, dando aulas no Seminário Presbiteriano Rev. Denoel Nicodemus Eller, escrevi poucas coisas. O assunto das aulas era muito técnico e tomava muito tempo de preparo.

Em 2016 fui lecionar no Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição em São Paulo e este blog continuou de lado, pois além dos assuntos continuarem muito técnicos, apareceu a oportunidade de sistematizar alguns Estudos Bíblicos feitos durante meu pastorado e concluir diversos textos.

Um desses textos tornou-se o livro “O Escriba do Rei” e os Estudos Bíblicos, a que me referi, receberam o nome de “Quando for ler”.

Inicialmente, o “Quando for ler” deveria ser publicado em papel em um volume só com o título “Quando for ler a Bíblia”, mas não encontrei nenhuma editora interessada nele e uma auto publicação estava fora de cogitação, pois além de não ter o dinheiro suficiente para pagá-la, eu acabaria dando todos os exemplares: nunca fui bom vendedor. Decidi então publicá-la em mídia eletrônica, pois além de ser muito mais barato (já que não exige papel, transporte, estoque, distribuição, loja, vendedor, etc.) era muito mais prático para se publicar e se ler: pode ser lido em computador, tablete, ou num simples celular.

Infelizmente, por motivos técnicos, tive de publicá-los em uma série: Pentateuco, Livros Históricos e Livros Poéticos. Breve publicarei Livros Proféticos, completando o Antigo Testamento, e no segundo semestre de 2018 publicarei o Novo Testamento.

Quanto ao “Escriba do rei” a história é um pouco diferente: Ao estudar a história dos Reis de Israel, se percebe que os relatos do Livro dos Reis e das Crônicas, discordam em pequenos pontos. Não comprometem o assunto básico, mas deixam um leitor atento meio desconcertado. Fica mais complicado no caso de alguns Reis. Como o Rei Ezequias, que além dos relatos das Crônicas do Livro de Reis, recebe um relato adicional do Profeta Isaías e é mencionado no Livro dos Provérbios de Salomão.

Como conciliar esses relatos? Como entender que o mesmo Ezequias, que mantinha escribas recuperando o texto do Livro dos Provérbios, precisou raspar o ouro da porta do Templo para pagar tributo aos assírios e pouco tempo depois é repreendido por Isaías por ter mostrado seu vasto tesouro aos emissários do Rei da Babilônia?

Resolvi escrever então um texto ficcional: Um dos escribas de Ezquias sai escondido de Jerusalém, que estava sitiada pelos Assírios e vai por um caminho “menos usual” à Tiro buscar um saldo de ouro que Salomão deixará lá por ocasião da construção do Templo.

Isto não deve ter acontecido, mas me dá uma possível explicação para o surgimento do ouro e me proporciona falar sobre Jerusalém, sobre a geografia da Israel e sobre Tiro (importante entreposto comercial de então e centro da mais perversa idolatria sexual que sempre perturbou Israel. Lembre-se de que foi de lá que veio Jezabel).

Foram 20 anos de pesquisa. Li tudo o que encontrei sobre vestimentas, remédios, comidas, etiqueta, guerra, armas, comércio, etc. Mas... daquela época!

Coloquei, como um dos personagens da história, um adolescente para fazer as perguntas que julguei necessárias ao enredo que situei entre poucos dias antes da cura miraculosa do Rei Ezequias, pelo Profeta Isaías (lembra-se da pasta de figos?) e poucos dias depois da morte do exército assírio que sitiava Jerusalém.

Procurei escrever usando frases curtas, períodos curtos, ações visuais e ligeiras de modo a facilitar ao máximo a leitura de um texto que, pode ser complicado para alguns menos familiarizados.

Espero que a leitura do texto lhe traga tanto prazer quanto prazerosa foi para mim sua escrita.



sábado, 23 de maio de 2015

A sabedoria (Parte 1)

Na Bíblia, ser sábio não é o mesmo que ser culto. A sabedoria é sempre mostrada como uma "atitude".

A seguir um belíssimo texto que enaltece (e, de certa forma, descreve) a sabedoria.

A sabedoria

1A sabedoria está clamando,
o discernimento ergue a sua voz;
2nos lugares altos, junto ao caminho, nos cruzamentos
ela se coloca;
3ao lado das portas, à entrada da cidade, portas adentro,
ela clama em alta voz:
4A vocês, homens, eu clamo;
a todos levanto a minha voz.
5Vocês, inexperientes, adquiram a prudência;
e vocês, tolos, tenham bom senso.
6Ouçam, pois tenho coisas importantes para dizer;
os meus lábios falarão do que é certo.
7Minha boca fala a verdade,
pois a maldade causa repulsa aos meus lábios.
8Todas as minhas palavras são justas;
nenhuma delas é distorcida ou perversa.
9Para os que têm discernimento, são todas claras,
e retas para os que têm conhecimento.
10Prefiram a minha instrução à prata,
e o conhecimento ao ouro puro,
11pois a sabedoria é mais preciosa do que rubis;
nada do que vocês possam desejar compara-se a ela.
12Eu, a sabedoria, moro com a prudência,
e tenho o conhecimento que vem do bom senso.
13Temer o SENHOR é odiar o mal;
odeio o orgulho e a arrogância,
o mau comportamento e o falar perverso.
14Meu é o conselho sensato;
a mim pertencem o entendimento e o poder.
15Por meu intermédio os reis governam,
e as autoridades exercem a justiça;
16também por meu intermédio governam os nobres,
e todos os juízes da terra.
17Amo os que me amam,
e quem me procura me encontra.
18Comigo estão riquezas e honra,
prosperidade e justiça duradouras.
19Meu fruto é melhor do que o ouro, do que o ouro puro;
o que ofereço é superior à prata escolhida.
20Ando pelo caminho da retidão,
pelas veredas da justiça,
21concedendo riqueza aos que me amam
e enchendo os seus tesouros.
22O SENHOR me criou como o princípio de seu caminho,
antes das suas obras mais antigas; 23fui formada desde a eternidade,
desde o princípio, antes de existir a terra.
24Nasci quando ainda não havia abismos,
quando não existiam fontes de águas;
25antes de serem estabelecidos os montes e de existirem colinas
eu nasci.
26Ele ainda não havia feito a terra, nem os campos,
nem o pó com o qual formou o mundo.
27Quando ele estabeleceu os céus,
lá estava eu;
quando traçou o horizonte sobre a superfície do abismo,
28quando colocou as nuvens em cima e estabeleceu as fontes do abismo,
29quando determinou as fronteiras do mar
para que as águas não violassem a sua ordem,
quando marcou os limites dos alicerces da terra,
30eu estava ao seu lado, e era o seu arquiteto;
dia a dia eu era o seu prazer
e me alegrava continuamente com a sua presença.
31Eu me alegrava com o mundo que ele criou,
e a humanidade me dava alegria.

32Ouçam-me agora, meus filhos:
Como são felizes os que guardam os meus caminhos!
33Ouçam a minha instrução, e serão sábios.
Não a desprezem.
34Como é feliz o homem que me ouve,
vigiando diariamente à minha porta,
esperando junto às portas da minha casa.
35 Pois todo aquele que me encontra,
encontra a vida e recebe o favor do SENHOR.
36 Mas aquele que de mim se afasta,
a si mesmo se agride;
todos os que me odeiam
amam a morte.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Je ne suis pas Charlie


Praticamente todo o ocidente está dizendo: Je suis Charlie e pra falar a verdade, dá vontade de dizer também. Afinal, quem não se comoveu com o acontecimento terrível? Porém, há o que pensar.

É tido como certo que a violência decorreu das charges publicadas pelo semanário. Foi uma vingança. Não apenas das últimas, que me pareceram mais ofensivas aos cristãos, mas de tantas outras que marcaram a história do jornal.

A charge deforma o assunto exagerando alguma característica peculiar, ridicularizando uma situação, ou argumentando ad absurdum. A charge vale-se do burlesco, da sátira, da paródia e do duplo sentido para apresentar pessoas ou acontecimentos no limite entre o risível e o infame. Não é incomum encontrar quem, retratado numa charge, sinta-se difamado. Aliás, foi isso o que aconteceu com as primeiras charges, feitas no século XIX: Governantes poderosos sentiram-se difamados e os chargistas amargaram a prisão.

É muito difícil estabelecer a "honestidade" de uma charge. A que apresenta objetivamente uma situação ridícula poderia ser considerada "honesta". Entretanto, a que transpira os conceitos subjetivos do autor pode ser perfeitamente uma provocação ou mesmo uma difamação.

As muitas inaugurações da mesma obra feita por um político pode ser um ótimo tema para uma charge, mas mostrar o profeta dos muçulmanos engajado em um beijo homossexual dificilmente servirá para alguma coisa além de produzir ódio.

Salomão nos ensinou que "Pois assim como bater o leite produz manteiga, e assim como torcer o nariz produz sangue, também suscitar a raiva produz contenda" (Provérbios 30.33), ora é exatamente isso que os chargistas mortos faziam.

Em hipótese alguma quero justificar a morte deles. Os atiradores estão totalmente errados. Porém, o que poderia se esperar de um povo educado desde cedo a desejar morrer em guerra? O que aconteceu em 2005 na Dinamarca, onde cerca de 50 pessoas morreram, após as charges publicadas no Jyllands Posten, não serviu de advertência?

Ora, a decantada liberdade de expressão, tão cara as sociedades democráticas, e mais especialmente aos irresponsáveis, nunca será superior ao senso comum, acumulado em milênios de civilização que também nos ensina: "quem fala o que quer, ouve o que não quer". Muito menos supera às palavras de quem criou a humanidade: "Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo; porque, pelas tuas palavras, serás justificado e, pelas tuas palavras, serás condenado" (Mateus 12.37-37).

Vivemos dias em que o errado é apenas o que contraria a lei ou costumes bem estabelecidos. Mas, paradoxalmente hoje é quase uma obrigação agredir os costumes. Ser rebelde tornou-se desejável e necessário a formação do jovem, e sinal de criatividade no adulto. Portanto, hoje, o deboche, o escárnio e a difamação, mesmo contrariando leis e costumes bem estabelecidos, procuram abrigo sob o manto da criatividade, do humor e especialmente da "liberdade de expressão".

Para o cristianismo, antes das leis e antes dos costumes vem o pecado. Determinada ação, ou comportamento, mesmo não sendo ilegal, nem agredindo qualquer costume bem ou mal estabelecido, pode ser pecado. Para o cristianismo o pecado manifesta-se também nas palavras: faltar com a verdade, promover o engano, difamar a Deus e o nosso próximo são pecados claramente estabelecidos nas Sagradas Escrituras. E qualquer tipo de promoção da mentira está filiada diretamente ao inimigo de nossas almas: "Ele [o diabo] foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira" (João 8.44).


Portanto, eu não posso dizer "Je suis Charlie". Lamento, deploro e abomino o que aconteceu aos chargistas e a seus companheiros, mas não posso concordar com o que eles faziam. Igualmente reprováveis são os assassinos e espero que, os que ainda estiverem vivos, sejam colocados sob os magistrados e paguem por seus atos.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Carta ao leitor

Caros amigos,

Estou em um processo de mudança para outra cidade, portanto ficarei alguns dias sem postar. Por favor, orem por mim. Espero voltar o mais breve possível com novidades no Blog.

Abraços

Fôlton

sábado, 29 de novembro de 2014

Despedidas

Os diversos relatos de despedidas contidos na Bíblia, por mais pungentes que sejam, são feitos com sobriedade. Quem de nós não sentiu, entre as linhas do texto, a dor do velho Abraão ao ser obrigado a despedir Agar e a seu primogênito Ismael? Ou quem não surpreendeu-se com a pronta decisão de Rebeca em acompanhar Eleazar e despedir-se de sua família?

De fato, as despedidas são momentos muito mais ricos do que as chegadas. Nelas, ainda que não percebamos, fazemos uma espécie de balanço e nos preparamos para prosseguir a vida.

De tão importantes, os discursos registrados na Bíblia por ocasião dessas despedidas foram catalogados como um verdadeiro sub-estilo literário, onde se vê 1) a convocação dos fieis, 2) anúncio da partida, 3) uma rememoração histórica do que Deus fez, 4) exortação à fidelidade, 5) alertas sobre os perigos por vir, 6) promessas e palavras de estimulo, 7) renovação de votos, 8) apresentação do sucessor e 9) oração.

Este é o esquema da despedida de Moisés (Dt 31-33), da despedida de Josué (Js 23-24), da despedida de Samuel (1Sm 12), da despedida de Davi (1Cr 28-29), da despedida de Paulo aos presbíteros de Éfeso (At 20)...

Ainda que um pouco fora dessa ordem, a segunda carta que Paulo escreveu a Timóteo também pode ser vista como um grande discurso de despedida. Porém, o discurso de despedida por excelência é o de Jesus conforme o registro de João (13-17).

Pois bem: depois de um período de onze anos é hora de partir, mas não quero fazer qualquer discurso ou cerimônia de despedida. Um adeus (onde quem fala recomenda seu ouvinte a Deus) é suficiente.

Há algum tempo ressoa em meus ouvidos as palavras de um velho professor: “mais importante do que a hora de chegar é saber a hora de partir”. Mais cedo ou mais tarde todos nós partiremos. Se não para ali, sem dúvida, para o além; e a despedida, que poderia ser controlada, e com a qual se pode crescer, torna-se surpresa da qual dificilmente se extrai algo de bom.

Que Deus nos poupe de tanto!

Levo a convicção, proveniente de uma boa consciência, de que conduzi o rebanho do Senhor à pastos verdes e águas tranquilas, tal como ele ordena a seus pastores.

Levo saudades daqueles com quem dividi momentos de alegria e de dor, de nascimento e de morte, de admoestação e de recuperação. Como deixar do lado de fora do coração os que moram nele? Como esquecer-me dos que são as verdadeiras memórias?

As orações nos acompanharão e a saudade será nossa testemunha diante de Deus.

Um último pedido: Não coloquem a Palavra de Deus em segundo plano, pois ela é o único e verdadeiro alimento de nossas almas e sob seu padrão é que prestaremos contas a Deus.

sábado, 15 de novembro de 2014

Palestinos e Judeus

Desde fúria cega das bombas lançadas por palestinos e por judeus na guerra de algumas semanas atrás, até os ataques individuais feitos pelos palestinos,  com carros, tratores, motocicletas, ou com o próprio corpo coberto de explosivos, revelam uma fúria impossível de ser descritas.

Esse estado de beligerância, em que o ódio parece respingar, não é novo. A Bíblia atesta sua antiguidade. O primeiro contato entre palestinos e judeus é do tempo de Abraão. Os dois Abimeleques (provavelmente pai e filho) relatados em Gênesis capítulo 20 e 26, que foram iludidos por Abraão e Isaque, respectivamente, eram filisteus.

É bom lembrar que a palavra “palestina” se deriva da palavra hebraica para invasor, ou divisor (a mesma que deu origem a Pelegue, filho de Heber (Gn 10.25), que nasceu quando a terra foi repartida). A palavra tem duas formas: uma com P, originária do hebraico (de onde vem a forma portuguesa “palestinos”) e outra com F do árabe, que não possui o som P (de onde vem a forma ladina “filistines” e francesa “Philistins”). Eles invadiram a região que a Bíblia chama de filístia, vindo de Caftor (Creta). Veja o que diz o profeta Amós (9.7): “Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e de Caftor, os filisteus”?

Parece que na época do êxodo já eram belicosos, pois Moisés registra que Deus não conduziu Israel pelo caminho mais curto, da terra dos filisteus, para que “o povo não se arrependa, vendo a guerra, e torne ao Egito” (Ex 13.17).

Certamente naqueles dias eles já habitavam a Faixa de Gaza, pois o mar daquela região era conhecido como o “mar dos filisteus” (Ex 23.31) e em Dt 2.23 encontramos: “também os caftorins que saíram de Caftor destruíram os aveus, que habitavam em vilas até Gaza, e habitaram no lugar deles”.

Eram descritos como povo valente, forte e alto (Dt 2.20-21) e, quando Josué estava velho, Deus se referiu ao lugar em que viviam, como terra “não conquistada” (Js 13.2). Diz também que os cinco príncipes filisteus – “o de Gaza, o de Asdode, o de Asquelom, o de Gate e o de Ecrom” (Js 13.3) – foram deixados pelo SENHOR, para “provar a Israel” (Jz 3.1-3).

Durante os 400 anos dos juízes houve muitos enfrentamentos. Sangar, um dos juízes, notabilizou-se em luta contra eles (Jz 3.31), mas Israel chegou a adorar seus deuses (Jz 10.6). Quem mais se destacou na luta contra eles foi Sansão, que, apesar de casado com uma filisteia (Jz 14.1-4), os enfrentou: incendiou suas plantações (Jz 15.3-6) e arrancou os portões de Gaza, a principal cidade deles (Jz 16.1). Traído por Dalila, que estava a serviço deles, foi preso. Furaram seus olhos e o levaram, como trofeu, para o templo do principal deus do panteão filisteu, Dagom. Lá conseguiu derribar os pilares do templo, matando seus príncipes (Jz 16.19-30).

Nos dias de Samuel os filisteus tomaram a Arca da Aliança e a colocaram no templo de Dagom como despojo. Deus os castigou tanto que a enviaram de volta. Nos dias de Saul não deram trégua. 

Dominavam os arredores com armas de ferro, o que lhes dava grande vantagem. Cerca de setenta anos depois de Sansão apareceu o filisteu Golias, que foi morto por Davi. E alguns anos depois, na luta contra eles, desesperado, o primeiro rei de Israel, Saul, se matou.

O segundo rei de Israel, Davi, além de vitórias sobre eles, obteve o respeito de alguns ao ponto de serem usados como seus guardas pessoais (veja 2Sm 8.18, 15.18, 20.7, 20.23 na versão Almeida Corrigida que fala de Peleteus: uma derivação da palavra filisteus: provavelmente uma tribo menor dentre eles).

Continuaram inimigos dos demais reis de Israel e de Judá. Algumas vezes Israel os dominava (2Cr 17.11), outras vezes era vencido (Is 9.12).

O território chamado de filístia (terra dos filisteus) é também chamado de Faixa de Gaza, tendo a cidade de Gaza por Capital, sendo que seus limites variaram com o tempo. Gaza, de modo particular, e os filisteus, de modo geral, foram objeto das profecias de Jeremias (47.1-7), Amós (1.6-7), Sofonias (2.4) e Zacarias (9.5-6).

No período inter-testamentário sabemos que a cidade de Gaza foi vencida e ocupada sucessivamente por Alexandre, o grande, por Jonatas Macabeu e por seu irmão Simão. Por Alexandre Janeu, por Pompeu (que a submeteu à jurisdição romana da Síria) e por Gabínius, que após destruí-la totalmente reedificou-a em outro lugar.

A palavra filisteu(s) não aparece no Novo Testamento, mas foi na estrada de Jerusalém a Gaza que Filipe encontrou o Eunuco de que Lucas fala (At 8.29-40).

Apesar de grandemente danificada pelos judeus em 65 AD, Gaza chegou a ser, décadas depois, um bispado cristão e em 634 caiu sob o domínio muçulmano.


Não encontramos em toda Bíblia uma só profecia, promessa, bênção ou boa palavra sobre o futuro dos filisteus. Ao contrário, são muitas as profecias sobre a ira do SENHOR e sua espada sobre eles. Porém, hoje sabemos que em Cristo eles também serão tornados filhos de Abrão. Aí entenderemos o significado da profecia de Isaías: “Uiva, ó porta; grita, ó cidade; tu, ó Filístia toda, treme; porque do Norte vem fumaça, e ninguém há que se afaste das fileiras. Que se responderá, pois, aos mensageiros dos gentios? Que o SENHOR fundou a Sião, e nela encontram refúgio os aflitos do seu povo” (Is 14.31-32).

sábado, 8 de novembro de 2014

Os que vos presidem bem

Depois do dia de Pentecostes alguns convertidos permaneceram em Jerusalém e muitos voltaram para suas cidades de origem onde estabeleceram igrejas. Este deve ter sido o início de Igrejas como a de Roma. Lucas nos informa (At 28.13-14) que encontraram “alguns irmãos” em Putéoli (próximo a atual Nápoles) e que foram recebidos pelos crentes de Roma na Praça de Ápio.

Até o fim do primeiro século temos notícias de pelo menos 50 igrejas em diversas cidades desde Jerusalém a Roma. Dentre essas, temos detalhes em Atos dos Apóstolos, das igrejas na Galácia, Filipos, Tessalônica, Corinto e Éfeso e pelas cartas de Paulo sabemos algo das igrejas em Colossos, Laodicéia e Creta. O Apocalipse fala das 7 igrejas na Ásia menor.

Portanto, em cerca de 60 anos – de 40 a 100 AD – podemos catalogar umas cinquenta igrejas diferentes, fundadas em situações diferentes, em cidades diferentes, falando idiomas diferentes, com poucas coisas em comum: todas dentro do império romano e todas usando um sistema de governo semelhante.

Sobre essa primeira característica comum, veja aqui uma análise que fiz em agosto de 2011. Quanto à segunda característica, Lucas nos diz que a Igreja de Jerusalém tinha Apóstolos (At 8.1, 11.30, 15.1, etc.) e presbíteros (At 15.1). Também tinha diáconos, pois os 7 homens (At 6.1-7) foram eleitos com missão de servir às mesas.

O ofício de Apóstolo foi tão restrito aos Doze chamados por Jesus, quanto o patriarcado foi restrito aos filhos de Jacó. Além dele temos apenas Matias e Paulo (que, como os dois filhos de José, foram agregados ao patriarcado também). Os textos em que outros são chamados apóstolos (Barnabé em At 14.14 e Tiago, o irmão do Senhor, em Gl 1.19) são claramente lato sensu. Seria como dizer que Moisés e Josué foram patriarcas de Israel. Só houve uma substituição entre os doze: Judas. Quando o último apóstolo morreu considerou-se extinta a época deles e os que ousaram identigicar-se como apóstolos foram expostos como obreiros fraudulentos, ministros de Satanás (2Co 11.4-15) e mentirosos (Ap 2.2).

Os presbíteros são explicitamente mencionados nas Igrejas de Listra, Icônio e Antioquia (At 14.21-23), Éfeso (At 20.17), Creta (Tt 1.5) e nas diversas igrejas do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1Pe 5.1 em conjunto com 5.5). A palavra presbítero basicamente significa idade mais velha, porém seu uso mais comum refere-se à maturidade. A Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) usou diversas palavras derivadas da raiz presb: velhos (Sara e Abraão), ou líderes (os auxiliares de Moisés). No Novo Testamento (NT) refere-se aos membros do Sinédrio, aos seres celestiais do Apocalipse, e principalmente a certos líderes cristãos, encarregados de supervisionar e pastorear a Igreja (At 20.28, 1Pe 5.1-3, etc.).

A palavra diácono aparece 34 vezes (5 vezes na Septuaginta) com o sentido básico de serviço (os servos no Livro de Ester, o maior no reino dos céus, os serventes na festa de Caná, etc.) Porém, em cinco lugares ela claramente refere-se a um ofício na Igreja (os que preenchem as qualificações dadas a Timóteo (1Tm 3.8-10) e aquele a quem a Carta aos Filipenses foi endereçada (Fp 1.1). Os primeiros diáconos foram eleitos na Igreja de Jerusalém (At 6.1-6).

O texto bíblico menciona bispos nas Igrejas de Éfeso e FIlipos e indiretamente na de Creta (quando Tito recebe instruções). A palavra episkopos e suas correlatas (de onde veio nossa palavra bispo) era usada desde a Grécia clássica para designar aquele que supervisiona, superintende, vela ou vigia por algo (Artemis vigiava pela fidelidade dos contratos). É mais usada na Septuaginta (14 vezes) sempre com o sentido de ter o encargo de, comandar, superintender, inspecionar, do que no NT (5 vezes) onde significa basicamente pastorear. De todas as vezes fica a impressão de um presbítero que tinha uma incumbência específica.

É notável que durante todo esse tempo, em uma área com quase 5 mil quilômetros de extensão, igrejas de nacionalidades e idiomas  tão díspares, possuíssem forma de governo tão semelhante. Não pode ter sido apenas coincidência. Creio que a Doutrina dos Apóstolos incluía também uma alusão ao sistema de governo do Antigo Testamento em que os presbíteros já estavam presentes e os diáconos possuíam missão análoga à dos levitas.

Os presbíteros, que supervisionassem bem, deveriam ser dignos de honra (ou honorários) dobrados, especialmente os que se dedicassem ao estudo da Palavra de Deus e ao ensino (1Tm 5.17). Deveriam ser tidos em alta conta, ter sempre um voto de confiança diante de denúncias isoladas (mas, quando culpados, a disciplina deveria se pública, diante de todos).

Não podemos esquecer que eles receberam exortações pungentes sobre como exercer seus ofícios: Paulo diz que eles deveriam ter vidas tão ilibadas ao ponto de não serem passíveis de qualquer repreensão. Deveriam ser maridos de uma só mulher e pais de filhos dóceis. Irrepreensíveis, também, ofício do presbiterato. Afáveis, pacíficos, generosos, hospitaleiros, sóbrios, apegados à doutrina cristã, dispostos a defendê-la e a promover sua aplicação. Pedro ordena-lhes atender o rebanho com dedicação e liberalidade sem segundas intenções, especialmente financeiras. E João diz que devem ser comprometidos com a verdade.

Todas as qualidades estão relacionadas a cuidado e nenhuma delas a desempenho. Diferentemente de hoje, os líderes do povo de Deus, não são executivos dirigindo uma empresa ao sucesso. São homens santos cuidando de um rebanho que não lhes pertence.