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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Lula quer ser pastor


Lula quer ser pastor

Li, hoje pela manhã, que Lula quer ser pastor. Certamente é apenas uma bravata. Mas, como exercício mental, vamos admitir que seja um desejo sincero.

Ele procura uma das Igrejas Presbiterianas (IPB) e convence o pastor de que é um crente sincero, regenerado, salvo pelo Senhor e obediente ao seu chamado e à sua Palavra. Convence-o também a levar sua pretensão ao Conselho da Igreja, onde, se admitido, será sabatinado pelos presbíteros da Igreja. Eles tentarão desvendar seu real motivo e sua convicção de ter sido chamado por Deus para o sagrado ministério, ou seja, ser pastor.

Admitamos que ele convença ao Pastor e ao Conselho de que é uma pessoa convertida pelo Senhor Jesus e vocacionada a buscar almas perdidas, então será declarado “Aspirante ao Sagrado Ministério” e terá de ficar 3 anos sob observação do Conselho e da Igreja. Deverá comparecer, quando chamado, às suas reuniões, contar o que tem feito, responder satisfatoriamente a tudo o que for perguntado: inclusive assuntos íntimos.

Deverá ler os livros prescritos pelo pastor e resumi-los. Deverá relatar periodicamente (às vezes por escrito) seus sucessos e falhas. Não pode ser rebelde, pelo contrário, submisso, pacificador e diligente.

Precisa ter bom testemunho de todos da Igreja, possuir afinidade com as Escrituras Sagradas, responder com mansidão a todos e ser exemplo de virtudes aos jovens e aos novos membros da igreja.

Tem de acertar sua vida: Devolver o que eventualmente tenha roubado. Pedir perdão a quem tenha mentido ou trapaceado. Recompor sua vida familiar. Cumprir as penas que ainda pesarem sobre si. Em outras palavras: mudar radicalmente de vida.

Depois de 3 anos, sem nenhuma queixa que o desabone, o Pastor e o Conselho o enviarão ao Presbitério (que é o Concílio composto por presbíteros e pastores de uma determinada região). Lá, em uma comissão reservada será avaliado e, se for aprovado, será examinado novamente, agora pelo plenário. Será inquirido a respeito de tudo: vida financeira, familiar (às vezes sexual), pecados contra os quais luta, como, vícios, gênio forte, autodomínio, pensamentos impuros, etc.

Conta muito (as vezes é decisivo) a disposição favorável de sua esposa em segui-lo e, ser uma “ajudadora idônea” (missão dada por Deus a todas as mulheres, antes do pecado).

O presbitério, após apreciar o relatório do Pastor e do Conselho, sobre os 3 anos probatórios na Igreja, poderá determinar mais um período de confirmação (geralmente em outra igreja, com outro pastor e outro conselho) acompanhado por um Tutor Eclesiástico.

E ... finalmente, ele terá de ser aprovado.

Ao Tutor, ele deve reportar-se periodicamente. É dele que deve obter permissão para fazer qualquer coisa que não esteja prevista na determinação do presbitério e é, mediante relatório favorável desse Tutor, que ele será enviado ao Seminário.
Vamos admitir, também, que o Diretor do Seminário aceite sua matrícula, lá ele terá pela frente um currículo tão pesado em horas/aulas como o do curso de direito. Mas, com algumas dificuldades adicionais:

1) Ele terá de ser aprovado na gramática de duas línguas mortas: Hebraico e Grego bíblicos. Após aprovado nelas, aprender a fazer a exegese de textos bíblicos em cada uma delas. Além disso, aprender qual é a hermenêutica mais adequada para entender tais textos diante de contextos imediatos e remotos, bem como a aplicação de seus ensinos em nossos dias.

2) Paralelamente, ele terá de aprender toda história bíblica desde Adão. Dominar os livros históricos da própria Bíblia, os escritos dos Pais Apostólicos, da Igreja de Roma, dos Reformadores, dos hereges que surgiram depois, da Teologia da Libertação e seus desdobramentos na Igreja de Roma e de tudo o que aconteceu com os “liberais” protestantes, que, paralelamente à Teologia da Libertação, forjaram o que é conhecido hoje como Teologia da Missão Integral.

3) Conhecer profundamente a Teologia e a forma de governo da Igreja Presbiteriana, da Igreja de Roma, das Igrejas Protestantes tradicionais e das Igrejas Pentecostais e seus muitos ramos (até daqueles que dão vergonha aos presbiterianos de serem chamados de evangélicos também).
Agrava-se: Ele tem de conhecer essas e outras heresias e repudiá-las de coração, sem reservas mentais, tendo a confiança de seus professores.

Ah! Antes que eu esqueça: todos os exames devem ser feitos sem cola e todos os trabalhos sem plágios.

Durante seu curso ele deve prestar relatórios periódicos a seu Tutor, encontrá-lo amiúde, desfrutar de sua confiança e comparecer a todas as reuniões do Presbitério, nas quais seu relatório anual ao Tutor, deve ser aprovado.

Depois de formado ele será apresentado pelo Tutor ao Presbitério visando sua ordenação ao Sagrado Ministério. O Presbitério o examinará mais uma vez e tentará descobrir faltas que não descobriu antes. Satisfeito, o presbitério o licenciará por um ano, no máximo, dois, para trabalhar em uma igreja. Se nesse período de licenciatura não tiver desempenho satisfatório, especialmente no que concerne a uma vida piedosa, sua licenciatura será cassada. Se, entretanto, demonstrar piedade e interesse genuíno no rebanho, e houver uma Igreja que possa sustentá-lo, ele será solenemente ordenado.

Se alguém argumentar que ele tem “lábia” para enrolar qualquer pastor, Conselho ou Presbitério, responderei que ele terá de ser muito paciente: gastará 3 anos na igreja local; mais 1 (ou 2) no Presbitério (que até pode considerar os 3 da igreja local, mas acho difícil que levem em conta, considerando seu passado); 4 ou 5 no Seminário e 1 (ou 2) na licenciatura. Por baixo (o que geralmente acontece a quem nasce na Igreja) 8 anos, para depois ganhar por volta de 4 mil reais (média do que ganha um pastor presbiteriano).

Sua vida mais íntima será vasculhada e suas intenções, até onde for possível, serão pesadas e conhecidas de todos os membros do presbitério...

Não. Não acho que ele se sujeitará a tanto.

Não duvido que Deus possa converter Lula. Ele converteu tantos (converteu Paulo que se chamava de o principal dos pecadores). Mas, quando Lula diz que quer ser pastor, talvez ele queira apenas o título para fazer o que tantos “inimigos da cruz de Cristo” fazem e tornar os convertidos “duas vezes mais filhos do inferno” (como o Senhor disse dos “pastores” judeus de sua época).

Para finalizar, sinceramente, eu gostaria de vê-lo no caminho da Cruz e longe dessa cosmovisão diabólica, que atualmente professa.

sábado, 15 de novembro de 2014

Palestinos e Judeus

Desde fúria cega das bombas lançadas por palestinos e por judeus na guerra de algumas semanas atrás, até os ataques individuais feitos pelos palestinos,  com carros, tratores, motocicletas, ou com o próprio corpo coberto de explosivos, revelam uma fúria impossível de ser descritas.

Esse estado de beligerância, em que o ódio parece respingar, não é novo. A Bíblia atesta sua antiguidade. O primeiro contato entre palestinos e judeus é do tempo de Abraão. Os dois Abimeleques (provavelmente pai e filho) relatados em Gênesis capítulo 20 e 26, que foram iludidos por Abraão e Isaque, respectivamente, eram filisteus.

É bom lembrar que a palavra “palestina” se deriva da palavra hebraica para invasor, ou divisor (a mesma que deu origem a Pelegue, filho de Heber (Gn 10.25), que nasceu quando a terra foi repartida). A palavra tem duas formas: uma com P, originária do hebraico (de onde vem a forma portuguesa “palestinos”) e outra com F do árabe, que não possui o som P (de onde vem a forma ladina “filistines” e francesa “Philistins”). Eles invadiram a região que a Bíblia chama de filístia, vindo de Caftor (Creta). Veja o que diz o profeta Amós (9.7): “Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e de Caftor, os filisteus”?

Parece que na época do êxodo já eram belicosos, pois Moisés registra que Deus não conduziu Israel pelo caminho mais curto, da terra dos filisteus, para que “o povo não se arrependa, vendo a guerra, e torne ao Egito” (Ex 13.17).

Certamente naqueles dias eles já habitavam a Faixa de Gaza, pois o mar daquela região era conhecido como o “mar dos filisteus” (Ex 23.31) e em Dt 2.23 encontramos: “também os caftorins que saíram de Caftor destruíram os aveus, que habitavam em vilas até Gaza, e habitaram no lugar deles”.

Eram descritos como povo valente, forte e alto (Dt 2.20-21) e, quando Josué estava velho, Deus se referiu ao lugar em que viviam, como terra “não conquistada” (Js 13.2). Diz também que os cinco príncipes filisteus – “o de Gaza, o de Asdode, o de Asquelom, o de Gate e o de Ecrom” (Js 13.3) – foram deixados pelo SENHOR, para “provar a Israel” (Jz 3.1-3).

Durante os 400 anos dos juízes houve muitos enfrentamentos. Sangar, um dos juízes, notabilizou-se em luta contra eles (Jz 3.31), mas Israel chegou a adorar seus deuses (Jz 10.6). Quem mais se destacou na luta contra eles foi Sansão, que, apesar de casado com uma filisteia (Jz 14.1-4), os enfrentou: incendiou suas plantações (Jz 15.3-6) e arrancou os portões de Gaza, a principal cidade deles (Jz 16.1). Traído por Dalila, que estava a serviço deles, foi preso. Furaram seus olhos e o levaram, como trofeu, para o templo do principal deus do panteão filisteu, Dagom. Lá conseguiu derribar os pilares do templo, matando seus príncipes (Jz 16.19-30).

Nos dias de Samuel os filisteus tomaram a Arca da Aliança e a colocaram no templo de Dagom como despojo. Deus os castigou tanto que a enviaram de volta. Nos dias de Saul não deram trégua. 

Dominavam os arredores com armas de ferro, o que lhes dava grande vantagem. Cerca de setenta anos depois de Sansão apareceu o filisteu Golias, que foi morto por Davi. E alguns anos depois, na luta contra eles, desesperado, o primeiro rei de Israel, Saul, se matou.

O segundo rei de Israel, Davi, além de vitórias sobre eles, obteve o respeito de alguns ao ponto de serem usados como seus guardas pessoais (veja 2Sm 8.18, 15.18, 20.7, 20.23 na versão Almeida Corrigida que fala de Peleteus: uma derivação da palavra filisteus: provavelmente uma tribo menor dentre eles).

Continuaram inimigos dos demais reis de Israel e de Judá. Algumas vezes Israel os dominava (2Cr 17.11), outras vezes era vencido (Is 9.12).

O território chamado de filístia (terra dos filisteus) é também chamado de Faixa de Gaza, tendo a cidade de Gaza por Capital, sendo que seus limites variaram com o tempo. Gaza, de modo particular, e os filisteus, de modo geral, foram objeto das profecias de Jeremias (47.1-7), Amós (1.6-7), Sofonias (2.4) e Zacarias (9.5-6).

No período inter-testamentário sabemos que a cidade de Gaza foi vencida e ocupada sucessivamente por Alexandre, o grande, por Jonatas Macabeu e por seu irmão Simão. Por Alexandre Janeu, por Pompeu (que a submeteu à jurisdição romana da Síria) e por Gabínius, que após destruí-la totalmente reedificou-a em outro lugar.

A palavra filisteu(s) não aparece no Novo Testamento, mas foi na estrada de Jerusalém a Gaza que Filipe encontrou o Eunuco de que Lucas fala (At 8.29-40).

Apesar de grandemente danificada pelos judeus em 65 AD, Gaza chegou a ser, décadas depois, um bispado cristão e em 634 caiu sob o domínio muçulmano.


Não encontramos em toda Bíblia uma só profecia, promessa, bênção ou boa palavra sobre o futuro dos filisteus. Ao contrário, são muitas as profecias sobre a ira do SENHOR e sua espada sobre eles. Porém, hoje sabemos que em Cristo eles também serão tornados filhos de Abrão. Aí entenderemos o significado da profecia de Isaías: “Uiva, ó porta; grita, ó cidade; tu, ó Filístia toda, treme; porque do Norte vem fumaça, e ninguém há que se afaste das fileiras. Que se responderá, pois, aos mensageiros dos gentios? Que o SENHOR fundou a Sião, e nela encontram refúgio os aflitos do seu povo” (Is 14.31-32).

sábado, 8 de novembro de 2014

Os que vos presidem bem

Depois do dia de Pentecostes alguns convertidos permaneceram em Jerusalém e muitos voltaram para suas cidades de origem onde estabeleceram igrejas. Este deve ter sido o início de Igrejas como a de Roma. Lucas nos informa (At 28.13-14) que encontraram “alguns irmãos” em Putéoli (próximo a atual Nápoles) e que foram recebidos pelos crentes de Roma na Praça de Ápio.

Até o fim do primeiro século temos notícias de pelo menos 50 igrejas em diversas cidades desde Jerusalém a Roma. Dentre essas, temos detalhes em Atos dos Apóstolos, das igrejas na Galácia, Filipos, Tessalônica, Corinto e Éfeso e pelas cartas de Paulo sabemos algo das igrejas em Colossos, Laodicéia e Creta. O Apocalipse fala das 7 igrejas na Ásia menor.

Portanto, em cerca de 60 anos – de 40 a 100 AD – podemos catalogar umas cinquenta igrejas diferentes, fundadas em situações diferentes, em cidades diferentes, falando idiomas diferentes, com poucas coisas em comum: todas dentro do império romano e todas usando um sistema de governo semelhante.

Sobre essa primeira característica comum, veja aqui uma análise que fiz em agosto de 2011. Quanto à segunda característica, Lucas nos diz que a Igreja de Jerusalém tinha Apóstolos (At 8.1, 11.30, 15.1, etc.) e presbíteros (At 15.1). Também tinha diáconos, pois os 7 homens (At 6.1-7) foram eleitos com missão de servir às mesas.

O ofício de Apóstolo foi tão restrito aos Doze chamados por Jesus, quanto o patriarcado foi restrito aos filhos de Jacó. Além dele temos apenas Matias e Paulo (que, como os dois filhos de José, foram agregados ao patriarcado também). Os textos em que outros são chamados apóstolos (Barnabé em At 14.14 e Tiago, o irmão do Senhor, em Gl 1.19) são claramente lato sensu. Seria como dizer que Moisés e Josué foram patriarcas de Israel. Só houve uma substituição entre os doze: Judas. Quando o último apóstolo morreu considerou-se extinta a época deles e os que ousaram identigicar-se como apóstolos foram expostos como obreiros fraudulentos, ministros de Satanás (2Co 11.4-15) e mentirosos (Ap 2.2).

Os presbíteros são explicitamente mencionados nas Igrejas de Listra, Icônio e Antioquia (At 14.21-23), Éfeso (At 20.17), Creta (Tt 1.5) e nas diversas igrejas do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1Pe 5.1 em conjunto com 5.5). A palavra presbítero basicamente significa idade mais velha, porém seu uso mais comum refere-se à maturidade. A Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) usou diversas palavras derivadas da raiz presb: velhos (Sara e Abraão), ou líderes (os auxiliares de Moisés). No Novo Testamento (NT) refere-se aos membros do Sinédrio, aos seres celestiais do Apocalipse, e principalmente a certos líderes cristãos, encarregados de supervisionar e pastorear a Igreja (At 20.28, 1Pe 5.1-3, etc.).

A palavra diácono aparece 34 vezes (5 vezes na Septuaginta) com o sentido básico de serviço (os servos no Livro de Ester, o maior no reino dos céus, os serventes na festa de Caná, etc.) Porém, em cinco lugares ela claramente refere-se a um ofício na Igreja (os que preenchem as qualificações dadas a Timóteo (1Tm 3.8-10) e aquele a quem a Carta aos Filipenses foi endereçada (Fp 1.1). Os primeiros diáconos foram eleitos na Igreja de Jerusalém (At 6.1-6).

O texto bíblico menciona bispos nas Igrejas de Éfeso e FIlipos e indiretamente na de Creta (quando Tito recebe instruções). A palavra episkopos e suas correlatas (de onde veio nossa palavra bispo) era usada desde a Grécia clássica para designar aquele que supervisiona, superintende, vela ou vigia por algo (Artemis vigiava pela fidelidade dos contratos). É mais usada na Septuaginta (14 vezes) sempre com o sentido de ter o encargo de, comandar, superintender, inspecionar, do que no NT (5 vezes) onde significa basicamente pastorear. De todas as vezes fica a impressão de um presbítero que tinha uma incumbência específica.

É notável que durante todo esse tempo, em uma área com quase 5 mil quilômetros de extensão, igrejas de nacionalidades e idiomas  tão díspares, possuíssem forma de governo tão semelhante. Não pode ter sido apenas coincidência. Creio que a Doutrina dos Apóstolos incluía também uma alusão ao sistema de governo do Antigo Testamento em que os presbíteros já estavam presentes e os diáconos possuíam missão análoga à dos levitas.

Os presbíteros, que supervisionassem bem, deveriam ser dignos de honra (ou honorários) dobrados, especialmente os que se dedicassem ao estudo da Palavra de Deus e ao ensino (1Tm 5.17). Deveriam ser tidos em alta conta, ter sempre um voto de confiança diante de denúncias isoladas (mas, quando culpados, a disciplina deveria se pública, diante de todos).

Não podemos esquecer que eles receberam exortações pungentes sobre como exercer seus ofícios: Paulo diz que eles deveriam ter vidas tão ilibadas ao ponto de não serem passíveis de qualquer repreensão. Deveriam ser maridos de uma só mulher e pais de filhos dóceis. Irrepreensíveis, também, ofício do presbiterato. Afáveis, pacíficos, generosos, hospitaleiros, sóbrios, apegados à doutrina cristã, dispostos a defendê-la e a promover sua aplicação. Pedro ordena-lhes atender o rebanho com dedicação e liberalidade sem segundas intenções, especialmente financeiras. E João diz que devem ser comprometidos com a verdade.

Todas as qualidades estão relacionadas a cuidado e nenhuma delas a desempenho. Diferentemente de hoje, os líderes do povo de Deus, não são executivos dirigindo uma empresa ao sucesso. São homens santos cuidando de um rebanho que não lhes pertence.


sábado, 4 de outubro de 2014

As Sagradas Escrituras sempre foram claras em falar da natureza heterogênea da Igreja. Por exemplo: "Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos. Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade” (Cl 3.9-13).
Essas ordens pressupõem a existência de tensões expressas através de mentiras e de malquerenças entre pessoas de nacionalidades (gregos, judeus, citas, que eram originários da Citia, região próxima ao Mar Negro, atual Cazaquistão) e condições sociais diferentes (escravos ou livres).
Isso era consequência da vida que eles tinham antes. Agora, a nova vida em Cristo os possibilita a não mentir e a “vestirem-se” de misericórdia, bondade, humildade, mansidão e longanimidade.
Dando instruções à seus discípulos, o Senhor Jesus advertiu contra problemas entre os membros da Igreja: “Se teu irmão pecar contra ti, vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano.” (Mt 18.15-17).
O próprio Senhor sabia que dentro da Igreja surgiriam desentendimentos. Afinal, apenas nosso espírito (que está pronto) foi regenerado. A carne (que é fraca) aguarda a ressurreição. Portanto, na medida em que a carne se sobressai os desentendimentos (e até brigas) passam a fazer parte da vida dos membros da Igreja.
E para resolver tais problemas o Senhor Jesus aponta dois caminhos: arguir o irmão ou denunciá-lo à Igreja.
Essa arguição, preconizada pelo Senhor, pressupõe o desejo mútuo de paz. O errado admite seu erro e o ofendido o perdoa. A frase “ganhaste teu irmão” indica que o objetivo da arguição deve ser positivo (restaurar, redimir) e não simplesmente repreender ou confrontar por confrontar. Certamente o Senhor tinha em mente o mandamento: “Não guardem ódio contra o seu irmão no coração; antes repreendam com franqueza o seu próximo para que, por causa dele, não sofram as consequências de um pecado” (Lv 18.17 NVI).
A recusa do faltoso leva a solução do problema à uma segunda etapa. Desta vez com uma ou duas testemunhas. O texto não deixa claro se o papel das testemunhas será observar e atestar a disposição do ofendido a corrigir o desentendimento ou pressionar o faltoso a admitir seu erro, ou ainda, as duas coisas. O certo é que algo que estava sendo tratado privadamente tornou-se público.
A terceira recusa do faltoso leva o problema a outro foro:  a Igreja. A interpretação imediata é que o faltoso seja denunciado à congregação, porém eu creio que é possível entender-se também à liderança da Igreja. Veja 1Co 6.5: “Para vergonha vo-lo digo. Não há, porventura, nem ao menos um sábio entre vós, que possa julgar no meio da irmandade?”. Nas Igrejas Presbiterianas o conselho de presbíteros recebe a queixa e transforma-se em tribunal para julgar o caso.
Finalmente, a quarta recusa do faltoso leva a uma ação drástica. Atualmente há duas interpretações para a expressão “considera-o como gentio e publicano”. A primeira defende que a igreja apenas mude seu modo de tratar com o faltoso: como se ele fosse um descrente. Uma paráfrase bíblica diz: “se ele também não ouvir a igreja, comece do zero, tratando-o como um descrente: alerte-o da necessidade de arrependimento e ofereça outra vez o amor perdoador de Deus” (A Mensagem).
Certamente essa é uma péssima exegese, pois além de introduzir diversos assuntos estranhos ao texto original descaracteriza o que o Senhor Jesus estabelece como uma pena pelas muitas recusas do faltoso.
A segunda interpretação, ao contrário, vê este tratamento como uma pena imposta ao ofensor (seja pela congregação, seja pela liderança), que deve ser observada por toda Igreja.
Ser tratado como gentio e publicano é o mesmo que excluído da comunhão com o povo de Deus.
A existência de conflitos na Igreja nos dá, pelo menos, duas lições: 1) É uma organização de pecadores que procuram viver uma vida cada vez mais santa, e 2) Ela se submete ao seu Senhor. Tanto para dizer quais coisas estão erradas, quanto para resolver o erro.

sábado, 6 de setembro de 2014

Leis anticristãs

Desde seus primeiros dias o cristianismo tem sido difamado. A Bíblia registra que as primeiras perseguições foram iniciadas por boatos ou por difamações. Por exemplo: Os judeus em Tessalônica “movidos de inveja, trazendo consigo alguns homens maus dentre a malandragem, ajuntando a turba alvoroçaram a cidade”. Ou ainda, em Éfeso, o ourives Demétrio promoveu uma manifestação anticristã levando seus colegas ocuparem a praça, gritando repetidamente, por cerca de duas horas: “grande é Diana dos efésios”.

Justo Gozales registra, em A Era dos Mártires, que: “O que se dizia acerca dos cristãos pode ser classificado em duas categorias; os rumores populares e as críticas por parte da classe culta [...] como se chamavam mutuamente de irmãos, foram se tecendo rumores cada vez mais exagerados, e muitos chegaram a crer que os cristãos se reuniam para celebrar uma orgia em que se davam uniões incestuosas”.

Além de difamado o cristianismo chegou a ser perseguido – exatamente como o Senhor Jesus havia predito – até ser reconhecido como religião oficial. Mas, deixar de ser perseguido, não significa que não tivesse inimigos ou difamadores. Sempre houve difamadores. Sempre houve quem lutasse contra o cristianismo e/ou contra os ideais cristãos. E infelizmente, as convicções de liberdade trazidas pela Reforma Protestante facilitaram, em muito, a vida dos difamadores e garantiu-lhes o direito de continuarem difamando.

A lista de difamadores famosos é grande, mas um se destaca até hoje: Friedrich Nietzshe. Nascido em 1844 numa família de protestantes era neto e filho de pastores luteranos e foi educado com vistas ao seminário, mas optou inicialmente pela filologia e depois à filosofia. Morreu louco no pior estágio da sífilis.

Os muitos livros que escreveu estão cheios de ataques ao cristianismo. No livro O Anticristo (título que atribuía a si mesmo) diz que o cristianismo é uma “crença enferma, baixa e vulgar [...] responsável pelo retrocesso cultural e moral dos homens”. Chegou mesmo a publicar uma “lei contra o cristianismo”, da qual transcrevo um trecho:
Artigo Primeiro – Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o sacerdote: ele ensina a antinatureza. Contra o sacerdote não há razões: há cadeia. 
Artigo Terceiro – O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas. 
Artigo Quarto – Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida. 
Artigo Sexto – A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita; as palavras “Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos.
Porém, ele não foi o primeiro a “fazer leis” contra os cristãos. Mesmo porque seus escritos, no máximo, provocaram reações ou convenceram a alguns a se voltarem contra o cristianismo. A Igreja, durante seus primeiros anos de existência, sofreu do império Romano 10 períodos de perseguição e não foram poucas as leis que surgiram contra ela. Por exemplo, na segunda perseguição, quando Domiciano era o cesar, o Senado fez a seguinte lei: “Que nenhum cristão, uma vez trazido ao tribunal, fique isento de castigo, sem que renuncie a sua religião”.

Não é de se admirar que os governos que veem o cristianismo como inimigo o persigam, porém, me assusta ver que cristãos fazem o mesmo. Observe: Diversas leis que foram feitas pelo legislativo brasileiro trazem, no mínimo, intranquilidade aos cristãos: O Estatuto da Criança e do Adolescente priva os cristãos de transmitirem a seus filhos valores básicos de disciplina e do trabalho e atrapalha muito às igrejas que desejam manter um orfanato dentro dos princípios morais cristãos.

A dita Lei da Palmada nivela os pais que sabem disciplinar seus filhos conforme a disciplina e sabedoria de Deus a pais espancadores que procuram, antes de tudo, descontar nos menores seus problemas. As diversas leis de proteção aos homossexuais acabam acobertando vidas pecaminosas e tentam obrigar as igrejas a adotarem a agenda de grupos cuja intenção declarada é a extinção da (como eles mesmo dizem) moral “judaico-cristã”.

E, como estas, outras leis, que, se não lutam abertamente contra o cristianismo, prejudicam muito a ação dos cristãos.


O que os cristãos podem fazer? Pelo menos divulgar quem são essas pessoas que lutam disfarçadamente. Repare: o cristianismo sempre terá muitos inimigos, mas os piores não são os declarados, e sim os que se passam por irmãos.

sábado, 2 de agosto de 2014

Descrições de Jesus

Quem era Jesus? Essa foi a pergunta que aqueles que estavam engajados na “busca pelo Jesus histórico” (sobre a qual escrevi na semana passada), tentavam responder. Porém, não se esqueça de que eles partiam da pressuposição de que um homem comum, desses que povoam a história, não poderia ser como os Evangelhos descrevem a Jesus.

Mas, o que é que eles escrevem de tão notável? Certamente, o ponto máximo é que ele ressuscitou. Mas, há uma série de outras afirmações que achavam difíceis de aceitar. Por exemplo: a de que ele tenha perdoado pecados ou a de que ele tenha dito ser o próprio Deus.

De fato, o Novo Testamento nos apresenta Jesus direta ou indiretamente através de figuras que falam de seu caráter ou de sua obra. Logo no princípio de seu ministério João Batista o apresentou como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” o que tinha um significado especial para sua audiência que era constituída de judeus.

Durante seu ministério, já apareceram opiniões diferentes: a Herodes opinaram que Jesus era João Batista ressuscitado. Seus discípulos informaram que também havia os que criam que ele era Elias ou algum dos profetas. E ele mesmo, correndo o risco de ser apedrejado, foi claro ao apresentar-se como EU SOU (Jo 8.58-59), nome que o Antigo Testamento reservava à Deus.

Porém, não deixa de ser notável as apresentação indiretas. Especialmente as que estão contidas nas parábolas.

Ele se apresentou como agricultor na parábola do Joio e na parábola dos trabalhadores na vinha. Na primeira ele proíbe que seus servos arranquem o joio para não correr o risco de arrancar o trigo junto e na segunda ele contrata diaristas para trabalhar em sua vinha. Apresentou-se também como criador de gado na parábola do servo que volta da lavoura (Lc 17.7-10) e, em um contexto em que seu povo é comparado à ovelhas, ele se apresentou como o Bom Pastor (Jo 1.1-18). Apresentou-se também como médico que veio apenas para os doentes (Mt 9.12-13).

Comparou-se a um noivo que chega tarde da noite para celebrar suas núpcias (Mt 25.1-13), como um nobre que viaja e confia a seus servos a administração de seu bens (Lc 19.12-27), como um rico fazendeiro que recebe acusações contra seu administrador (Lc 16.1-13), como um credor que perdoa seus devedores e exige que eles se perdoem também (Lc 7.40-50) e como um rei que chama seus servos a prestar-lhe contas (Mt 18.25-35).

Declarou ser a pedra que foi rejeitada pelos construtores (aludida pelos profetas). Declarou ser a porta e o caminho. E declarou-se também ser a verdade, a luz, a vida e o grão de trigo semeado que morto dá muito fruto. E nele os evangelistas reconheceram a comparação dos profetas: a ovelha muda.

Indo além podemos ver também o que seus apóstolos disseram. Paulo o apresentará como o novo Adão e João como advogado junto ao Pai (1Jo 2.1).

Os Evangelhos nunca o descrevem (o imaginamos moreno porque a grande maioria dos judeus de sua época era morena e deduzimos que ele gostava de frutas, peixes e vinho pela quantidade de vezes que elas aparecem no relato), mas o Apocalipse o descreve detalhadamente três vezes.

Nessas impressionantes visões de João, ele é introduzido a uma grande multidão como o Leão, mas apresenta-se como o Cordeiro (Ap 4).

Logo de início ele é descrito como um sacerdote. Está no meio das igrejas, usa vestes sacerdotais e possui cabelos brancos como se espera de um presbítero (ancião). Entretanto, a idade não o alquebra e sua firmeza aparece na postura (pisa como se tivesse pés de bronze), na voz (potente como o estrondo de muitas águas) e na sua aparência geral (como o sol na sua força). Seu olhar perscrutador é descrito como chama de fogo e ele identifica-se como “o alfa e o ômega” ou “o primeiro e o último”. E a intimidade que João tinha com ele no tempo dos Evangelhos é substituída pelo terror que prostra o apóstolo amado ao chão.

A seguir ele é fantasticamente descrito como um cordeiro com sete chifres e sete olhos, que acabara de ser morto.

Quase no fim do Apocalipse ele é mostrado como um guerreiro cavalgando um cavalo branco, vestindo um manto ensanguentado em que está escrito Rei dos reis e Senhor dos senhores. Ele é seguido pelos exércitos celestiais que também estão em cavalos brancos, mas vestindo mantos brancos e puros. Seu olhar ainda é descrito como chama de fogo, e em sua cabeça é adornada por diversas coroas. Sua palavra é poderosa como uma espada afiada e ele é identificado como o Verbo de Deus.

Todas as tentativas de descrevê-lo acabam misturando sua pessoa e seus ofícios. Mas, acima de tudo, as tentativas de descrevê-lo esbaram na impossibilidade de descrever o inefável: o Verbo de Deus.

O Verbo de Deus certamente não voltará para ele vazio, mas fará o que lhe apraz.

sábado, 26 de julho de 2014

Os Evangelhos e o Jesus histórico

No início do século 20, Albert Schweitzer escreveu um livro que resumia os esforços na busca de quem foi Jesus: A busca do Jesus Histórico. Sempre houve quem duvidasse do que os Evangelhos dizem a respeito de Jesus, mas, naquela época – como acontece hoje – quem duvidava da fidelidade dos Evangelhos inexplicavelmente estava dentro da Igreja!

No mínimo se dizia que os Evangelhos contêm exageros próprios dos devotos, que, ao descrever o objeto de devoção, saem dos limites da realidade e registram demais. Mas, notavelmente a maioria aceitava parte da narrativa! Duvidar do todo é compreensível, mas duvidar de partes e aceitar outras? Como selecionar as partes dignas de crença?

Diziam-se guiados pela razão. Ou seja: acreditavam apenas no que achavam ser razoável. E assim... é razoável que alguém, nascido na Galileia, nos dias do domínio romano, e que, embora tenha sido educado em uma família humilde, torne-se um mestre e chegue a ter discípulos. Mas não é razoável que ele tenha curado cegos de nascença, multiplicado pães, muito menos, que tenha ressuscitado alguém ou a si mesmo. Mortos não ressuscitam!

Partindo da pressuposição de que os mortos não ressuscitam qualquer texto que afirme que isto aconteceu, a priori, é produto de devotos (ou de canalhas).

Esta busca teve então desdobramentos e um deles, o principal, aconteceu com o uso das ideias marxistas de que a chave para o entendimento da história é a luta de classes. O resultado tinha de ser o óbvio: para que a (liderança da) igreja mantivesse seu poder sobre “as massas”, recorreu-se a relatos fantasiosos que têm por objetivo manter o fiel enganado e dependente.

Observe que o pensamento marxista não condena esse expediente como imoral. A condenação é política: os outros não devem usá-lo, mas os defensores das classes mais exploradas (ou seja: eles mesmos) podem usá-lo legitimamente.

Essas duas correntes ainda podem ser vistas hoje: Enquanto uma diz que os evangelhos é uma expressão de devoção e, portanto, cheia de exageros, os outros dizem que os evangelhos nasceram da necessidade das elites para dominar o povo. A primeira nega parte do que foi escrito e a segunda nega o todo.

Então, “Guiados pela razão”, chegaram ao ponto de declarar que apenas quarenta, dentre todas as afirmações feitas por Jesus são, de fato, verdadeiras. Os demais, guiados por Marx, sequer se preocuparam em analisar as afirmativas per se, pois, no fundo, tudo era um “folheto” usado para enaltecer a Igreja como representante de Jesus.

No primeiro caso, se a razão guiou os críticos e os evangelhos apresentam a intervenção divina na história humana, não seria de se esperar que o relato evangélico contivesse eventos que ela não pudesse explicar? A resposta que deram foi peremptória: – Deus (se existir) não entra em contato com o mundo material e os Evangelhos narram o que gostaríamos que acontecesse e não o que, de fato, aconteceu.

Agora, por poucos instantes, admitamos que Deus, de fato existe e quer intervir neste mundo. Não teríamos um relato semelhante com eventos além da explicação racional? O que é peculiar à mensagem cristã é o tipo de relacionamento que Deus estabelece com sua criatura, que rebelde, e sem condições de voltar-se para ele, precisa ser resgatada.

A mensagem dos Evangelhos, portanto, está plenamente de acordo com o que eles se propõem: narrar como Deus interveio na história humana.

Não preciso dizer que isto foi a ruina para a fé de muitas pessoas. Alguns pastores engajaram-se em uma luta contra os próprios ministérios e partiram para o ativismo político. Outros (provavelmente os que classificavam os Evangelhos como exagero de devotos) passaram a se dedicar mais à ação social. O próprio Schweitzer, professor de teologia na Universidade de Strasburgo, depois de um curso de medicina, abriu um hospital na África, onde passou a viver.

O relato evangélico só faz real sentido se for recebido em sua íntegra. O caráter do Senhor Jesus, de tão rico, precisa dos quatro relatos para ser apreciado em sua totalidade. E da apreciação dele depende a solidez de nossa fé.

domingo, 20 de julho de 2014

À mesa com Jesus

Você já reparou a quantas festas, banquetes, jantares ou ceias os Evangelhos narram que nosso Senhor compareceu?

Logo de começo há a festa do casamento em Caná, onde, da água, fez o melhor vinho.

Que alegria deve ter permeado a casa de Lázaro enquanto o Senhor ceava. Ceou lá pelo menos duas vezes: uma quando Marta atribulada com as comidas reclamava de Maria quedada aos pés do Senhor e outra quando Maria o ungiu.

Que clima pesado deve ter se abatido sobre todos quando o fariseu Simão, depois de convidar Jesus pra jantar, o recebeu com desdém. Será que alguém conseguiu comer algo?

Acaso podemos nos esquecer do banquete dado pelo publicano Levi, que, de tão alegre, encheu sua mesa de antigos colegas de profissão? E o que dizer da recepção na casa de Zaqueu, o chefe dos publicanos?

E assim, quantas vezes os Evangelhos nos mostram o Senhor em companhia de publicanos e pecadores – seus doentes que precisavam de médico – e quantas vezes ele foi censurado por isso? Ele mesmo estava cônscio de que o tinham por “glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores”.

Muitas vezes ensinou usando alimentos como exemplos. Com eles explicou que a impureza não está naquilo que entra pela boca, mas no que sai dela.

Prometeu – mesmo sendo Senhor – servir aos servos fiéis o pão dos céus à mesa com Abraão, Isaque e Jacó. Numa de suas parábolas comparou o Reino de Deus a um banquete de casamento e, para ensinar sobre o perigo de se ter o coração neste mundo, contou outra parábola em que um rico satisfeito com sua colheita exorta sua alma: “come, bebe e regala-te”.

Ensinou-nos a dar banquetes a quem não os pode retribuir e criticou os escribas e fariseus por amarem o primeiro lugar neles.

Disse que seu corpo era verdadeira comida e seu sangue era verdadeira bebida, e convidou aos sedentos “se alguém tem sede, venha a mim e beba”. E selou-nos a afirmação “quem de mim se alimenta, por mim viverá” repartindo o pão e o cálice e ordenando-nos a tomá-lo em sua memória, pois aquilo era seu corpo e seu sangue.

Comeu muitos tipos de comida e a preparação de alimentos serviu-lhe de motivo para parábolas. Procurou figos temporãos e conhecia bem as estações da oliveira. Gostava de peixes: multiplicou-os duas vezes, preparou-os na brasa e os comeu com mel. E foi reconhecido pelos dois de Emaús à mesa, ao bendizer o alimento.

Participava das páscoas desde cedo, nas quais se comia desde ervas amargas até um cordeiro assado. E, da última que participou, tomou um pedaço de pão e o último cálice de vinho e, com eles, despediu-se dos seus. Com o mesmo pão e com o mesmo vinho alimentou Judas para sua própria perdição, agravada pelas palavras do profeta: “Aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar”.

A mesa que lhe proporcionava o prazer da companhia trouxe-lhe a tristeza da traição “O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá”. E, na cruz, em vez de vinho, que deixou como recordação de si, e com o qual começou seus milagres, recebeu como bebida o vinagre.

Esse comportamento do Senhor reflete os valores do povo da Antiga Aliança, para os quais muitas bênçãos são tipificadas por alimentos. A própria descrição da Terra Prometida exaltava a quantidade de pastos bons e a exuberância de suas flores. Era como se dela manasse leite e mel.

Aquele que experimentou a alegria do convívio a mesa, é o mesmo que aguarda por nós, para juntos, tomarmos o “vinho novo” que ele espera ansiosamente para nos servir.

Vem logo Senhor Jesus.
 
(Texto publicado originalmente em 27/2/2010)

sábado, 14 de junho de 2014

Ser cheio do Espírito Santo

O resultado imediato da descida do Espírito Santo foi a proclamação das grandezas de Deus pela Igreja, mesmo que para isso tivessem de usar idiomas nunca aprendidos: o Espírito Santo a capacitou a fazê-lo.

O Senhor Jesus tinha sido explícito: Eles receberiam o poder de testemunhar (especialmente sua ressurreição): E, comendo com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias. [...] recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra (Atos 1.4-8).

Você já deve ter percebido que essa relação de causa e efeito (ser cheio do Espírito Santo e ter poder de testemunhar o Evangelho) foi desvirtuada ao longo do tempo. Desvirtuada ao ponto de se acreditar que, após ser cheio do Espírito Santo, se começa a resmungar, grunhir e produzir sons desconexos: o tal dom de línguas.

Esses grupos sequer lembram em que data o Espírito Santo desceu (eu nunca vi qualquer grupo pentecostal comemorar este dia), mas afirmam, com certeza, que apenas quem fala em línguas (as que ninguém entende) foi batizado por ele.

A história nos mostra que já houve outras tentativas de se falar desses acontecimentos pós-pentecostes. Por exemplo, (dentre os que se lembram da data), até hoje, em alguns países da Europa (e, até onde pude ver, em alguns lugares nos EUA) a segunda-feira faz parte da comemoração do Dia de Pentecostes (que sempre cai em um domingo). É chamada de withmonday. Nela, alguns grupos vestidos de túnicas de batismo, desfilam (ou desfilavam) atestando que tinham sido batizados com o Espírito Santo.

Em uma biografia do Dr. Martyn Lloyd-Jones, encontra-se uma descrição mais comedida:

Comemorávamos o Pentecostes na segunda-feira. Era um dia muito especial para os membros da Escola Dominical de Sandfields, em Aberavon. [...] as pessoas logo se organizaram e começaram a andar. Primeiro homens, depois mulheres com suas crianças, dúzias delas, guiadas pelas mães, tias, professoras, irmãs mais velhas. Cada uma das meninas usava um vestido novo, feito especialmente para a ocasião. Alegres e autoconfiantes como uma menina usando um vestido novo! Até mesmo os meninos se arrumavam para o evento.

E assim andávamos, em ordem, cantando “Onward! Cristian Soldiers” (Erga-se o Estandarte),  “Who is on the Lord`s Side?” (Quem está do lado do bom Salvador?) ou “Stand up, Stand up for Jesus” (Avante, avante, ó crentes). Marchávamos pelas ruas do nosso bairro, passando pelas casas das crianças, felizes por vermos alguns membros e seus familiares às portas de suas casas, acenando para nós e encorajando os pequenos cantores que passavam! (Bethan Lloyd-Jones. Memórias de Sandsfield. PES).

Marchar pela cidade cantando hinos de louvor, ou de exortação aos demais cristãos, não implica necessariamente em situações pecaminosas, como agir como loucos (o que, além de tudo, é condenado como uma atitude que atrai vergonha. Veja: 1º Coríntios 14.23ss). Porém, não é uma prova absoluta de que isso tenha acontecido.

De qualquer modo, a prova mais concreta de que o Espírito Santo fez morada em alguém, além da capacidade de testemunhar, é a vida desta pessoa. Veja: “...o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gálatas 5.22-23).

Em uma época de tantas fantasias, de gestos vazios e de engano, não nos deixemos iludir. Especialmente em um assunto tão importante quanto este.

sábado, 7 de junho de 2014

Não vos deixarei órfãos

Alguns dicionários restringem o sentido da palavra “órfão” à menores de idade ou a incapazes. Àqueles que, pela falta dos pais, carecem de algum amparo ou de quem responda por eles.

Perdi meus pais após 30 anos de idade, e, se não houve o que fazer em termos legais, houve o que providenciar por mim mesmo, a fim de mitigar a falta de ambos. Lembro-me das noites em que eu orava em favor de ambos. Depois que meu pai morreu gastei certo tempo para me acostumar em agradecer pela vida dele e pedir em favor de minha mãe. Anos depois precisei me acostumar de novo: passei a agradecer pela vida dos dois.

Em termos materiais a morte deles não afetou minha vida. Mas em termos afetivos e espirituais sou completamente incapaz de descrever o que aconteceu.

Hoje, dia de pentecostes, relembraremos o cumprimento da promessa de Jesus: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo 14.18).

Embora a proteção aos órfãos seja um tema quase recorrente no Antigo Testamento, a palavra grega aqui - “orphanos” - pode ser usada para referir-se a qualquer um que perdeu seus pais, e seu uso no Novo Testamento é muito restrito (além daqui, ocorre apenas na carta de Tiago). E o sentido nos dois textos pressupõe incapacidade, ou necessidade.

Se Jesus promete não deixá-los órfãos, obviamente está se colocando na posição de pai, e colocando-os na posição de quem carece de um.

O Senhor, nos dias de sua carne, desempenhou o papel do Pai ao ponto de dizer a Filipe: “Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras” (Jo 14.9-10).

Ao reassumir a glória, que teve com o Pai desde a fundação do mundo, para que os seus não ficassem órfãos ele os enviou seu Espírito.

À implicação de que os seus não suportariam a orfandade, segue-se um desdobramento: o Espírito Santo supriria o papel de Pai que ele havia desempenhado. Portanto o remédio para a orfandade do Senhor Jesus era - e ainda é - a presença do Espírito Santo.

Mediante o Espírito Santo os seus não foram apenas capacitados a desempenhar a missão que dele receberam, mas tornaram a desfrutar de sua presença e de sua paternidade.

Capacitados e protegidos, aqueles por quem morreu, desfrutam mediante o Espírito Santo, das mesmas bênçãos que os discípulos e os apóstolos desfrutaram tempos atrás.

Essa é mais uma das grandes bênçãos que o Espírito Santo nos traz. Bênção que quase não é lembrada em nossos dias confusos.

domingo, 18 de maio de 2014


As consequências do Pentecostes

A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galileia e Samaria,
edificando-se e caminhando no temor do Senhor,
e, no conforto do Espírito Santo,
crescia em número.
Atos 9.31


Como podemos entender esta declaração? Como a Igreja tinha paz se enfrentava tantos problemas? Veja uma pequena lista deles:

  • Pouco tempo depois de Pentecostes, Pedro e João haviam sido presos e só foram soltos após ameaçados pelo mesmo Sinédrio que havia condenado o Senhor Jesus.
  • Não demorou muito tempo para que Ananias e sua esposa Safira expusessem o maior problema que afligia e sempre afligirá todas as igrejas: mentir ao Espírito Santo!
  • Logo em seguida todos os apóstolos foram presos e açoitados por anunciarem o nome de Jesus.
  • Com o crescimento numérico apareceram os necessitados. Isso os levou à escolha dos primeiros diáconos.
  • Um desses diáconos que foi apedrejado, com o consentimento do fariseu Saulo, foi o estopim para uma grande perseguição que espalhou a Igreja de Jerusalém pelas cidades da Judéia e de Samaria. Enquanto isso Saulo literalmente “assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere” (At 8.3).
  • Como acontece hoje com os mercadores da fé, Simão, o mago, tentou comprar o poder de conceder o Espírito Santo mediante a imposição de mãos.

Como, uma igreja, que, em cinco ou seis anos, passa por todos esses problemas, podia ter paz?

O próprio versículo nos dá a resposta: o conforto do Espírito Santo.

Quando Jesus prometeu o Espírito Santo aos seus discípulos ele o chamou de Consolador (em grego: Paracletos) e é essa a palavra que Lucas usa para falar de como a Igreja tinha paz. Ou seja: A igreja tinha paz, ao ponto de crescer em número, mediante a “paraclesis” do Espírito Santo.

Nossa tradução por “conforto” não é ruim. Talvez a dificuldade de se entender esteja na mudança de significado que esta palavra sofreu.

Hoje, para muitos de nós, o significado de conforto está entre aconchego e comodidade. Dizemos que cadeiras, casas e outras coisas, ou situações, são confortáveis, quando elas nos proporcionam sensação de bem-estar. Entretanto o primeiro significado desta palavra deriva-se do latim “cum+fortius” (com força).

Eles tinham paz mediante a força que o Espírito Santo lhes concedia, ao ponto de, com tantos, e tão grandes problemas, não comprometerem o viver na presença de Deus.

O mesmo Espírito, que os capacitou a falar nos idiomas dos muitos povos, das muitas nações para os quais iriam, os capacitou também a viver em paz, apesar dos problemas pelos quais passavam.

Mas não esqueça: Essa paz não era desperdiçada. Eles a aproveitavam para edificarem-se caminhando no temor do Senhor.

Não há melhor descrição dessa paz do que a que, anos depois seria feita por quem antes lutava contra ela: “... a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus (Fp 4.7).

sábado, 3 de maio de 2014

Lutas por fora, temores por dentro.

Embora alguns não usem essa frase com receio de serem tidos por faltos de fé ou fracos, provavelmente ela seja uma das melhores descrições daquilo por que a grande maioria de nós passa. Com ela, o apóstolo que se recomendou à consciência dos fiéis, confessa suas dificuldades à igreja de Corinto (2Co 7.5).

Na mesma carta confessa que perdeu uma grande oportunidade, concedida pelo Senhor, em Trôade, devido a falta de tranquilidade (2Co 2.12-13) e que chegou a desesperar-se da vida pelo tamanho das tribulações que enfrentou na Ásia (2Co 2.8).

Eu já passei por momentos assim. Já pedi ao Senhor que me levasse e nem sei contar quantas oportunidades perdi por falta de tranquilidade. Portanto, conheço, por experiência, o que você está sentindo, se enfrenta lutas por fora e temores por dentro.

Nenhum de nós está livre de lutas. Aliás, elas são tão necessárias à saúde de nossa fé como uma atividade física é útil à saúde de nosso corpo. Para ser mais exato, o Senhor Jesus disse que elas fariam parte de nosso caminhar, quando nos mandou tomar, cada dia, a nossa cruz e segui-lo.

As lutas definem o caráter e fortalecem a fé.

Nenhum de nós também está livre de temores. Temores pela saúde, pelo trabalho, pela família, pelo futuro de nosso país, até mesmo pelo que está acontecendo com a igreja. Sempre vejo adolescentes ou jovens temendo um vestibular ou uma entrevista de emprego, pais receosos das companhias de seus filhos e anciãos preocupados com o fim da vida.

Os temores estimulam o exercício da fé.

Nesta mesma carta Paulo cita duas razões pelas quais um filho de Deus enfrenta coisas assim: aprender amar a Deus sobre todas as coisas e aprender amar ao próximo como a si mesmo.

Ele aprende amar a Deus quando as lutas e temores lhe mostram que é apenas um vaso de barro e que a excelência do que conseguiu fazer veio de Deus. Nas palavras do próprio Paulo: “De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (2Co 12.9).

Ele aprende a amar seu próximo quando percebe que as lutas e temores passados e superados lhe ensinaram a confortar (cum+fortius=com força) ou consolar (obra primária do Paracletos) a quem enfrenta tal situação: “É ele [Deus] que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus” (2Co 1.4).

Nos dias atuais, além de não ser conveniente confessar tais problemas, considera-se feliz aquele que os supera com os próprios esforços. Porém, isso não é um valor cristão. O verdadeiro cristão entende que a bem-aventurança consiste em ser consolado por Deus e aos pés dele depõe suas lutas e temores.

Hoje se prega um cristianismo que traz prosperidade, saúde, realizações e vitórias. Desconfie! A principal mensagem do verdadeiro Cristianismo é pregada à sombra de uma cruz. Lá está a verdadeira vitória. Lá cessam todas as lutas e dissipam-se todos os temores.

sábado, 26 de abril de 2014

Jesus ressurreto

Ressurreto, o Senhor Jesus apareceu vivo a essas pessoas, mais ou menos na seguinte ordem: Maria Madalena, outras mulheres, dois discípulos no caminho de Emaús, Pedro, dez apóstolos escondidos, dez e Tomé (no domingo seguinte), sete discípulos que estavam pescando, onze apóstolos e a mais de quinhentos discípulos. Apareceu também a Tiago (seu meio irmão), aos onze apóstolos (por ocasião da ascensão) e a Paulo (alguns anos depois).

O próprio Paulo resume assim: “... e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E apareceu a Cefas e, depois, aos doze. Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora; porém alguns já dormem. Depois, foi visto por Tiago, mais tarde, por todos os apóstolos e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo” (1Co 15.4-8).

Tomé exigiu do Senhor provas de que “era ele mesmo”, mas não ficou sem uma repreensão. Diferentemente, Lucas, vários anos mais tarde, sem ver o Senhor, ficou tão impressionado com os relatos de sua ressurreição que escreveu: “... depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis” (At 1.3). Lembre-se: Lucas era médico.

Mas, por que o Senhor Jesus não apareceu a todos?

Quanto ouço que o cristianismo baseia-se em lendas, contos, ou relatos desvirtuados, ou que a existência de Jesus não passa de uma ficção, eu me lembro disso: ele apareceu apenas a alguns!

Explico: se tudo isso fosse uma história inventada, o final seria o esperado: Jesus aparecendo a todos e punindo aos que tinham obrigação de zelar por seus interesses, mas o condenaram à morte. Não é assim que terminam as histórias deste gênero literário, no qual querem classificar as Sagradas Escrituras?

Replicam, entretanto, que, como apenas alguns o viram depois da ressurreição, é de se suspeitar da narrativa. Mas, como suspeitar de homens que mantiveram tal testemunho “inacreditável” mesmo ameaçados de morte?

Voltemos à pergunta: Por que Jesus não apareceu a todos?

Lucas nos dá a melhor resposta: “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas. Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24.44-49).

Em síntese: Os novos filhos de Abraão não nascem “do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. Nascem da fé.

Ora, que outro processo haveria de gerar estes novos descendentes senão “a loucura da pregação”? Crer, no que não se viu, disse Jesus a Tomé, é bem-aventurança. E, para garantir que apenas os que “creem em seu nome” respondam a uma mensagem tão inusitada, o Senhor Jesus houve por bem divulgar sua ressurreição - sua vitória sobre a morte e nossa paz com Deus - através das testemunhas que ele selecionou.

Assim o Evangelho é pregado conforme sua natureza: “Escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1Co 1.23).

O anúncio do evangelho decorre desse fato: Jesus só apareceu àqueles a quem enviou! E, por consequência, essa é uma das marcas dos falsos apóstolos: anunciar a verdade calcados em mentiras dizendo terem visto o Senhor.

Daqueles a quem ele apareceu, chegou a nós o santo evangelho. A esses ouvimos. E, em nós, manifestou-se a verdadeira fé. Fé que não depende de nada além do poder de Deus. Fé que subsiste a despeito de tudo.

Bendito instrumento que gera os novos - os verdadeiros - filhos de Abraão.

sábado, 12 de abril de 2014

Entradas em Jerusalém

Quase setecentos anos antes de Jesus entrar em Jerusalém, montado em um jumento, os príncipes de Nabucodonozor também entraram em montarias de guerra.

Por dois anos eles mantiveram Jerusalém sitiada, como registrou o cronista sagrado: levantaram tranqueiras ao seu redor. E durante esse tempo Jerusalém suportou a falta de alimentos. Felizmente havia água, pois, cem anos antes foram cavados túneis sob a cidade que iam até uma fonte.

Pacientes, os babilônios trabalharam até abrir uma brecha na muralha. Abriram e puseram em fuga todos os “homens de guerra”, que logo foram alcançados e desbaratados. O rei Zedequias foi preso com sua família e mataram sua família e depois furaram seus olhos (de modo que a última coisa que ele visse fosse a morte de seus queridos) e o levaram acorrentado para a Babilônia.

O profeta Jeremias estava lá. As ordens do rei invasor eram claras: ele deveria ser protegido. Ele sempre falava que a única esperança para Israel era sofrer o cativeiro. Isso da impressão de que ele era amigo dos Babilônios e, os judeus o tinham por traidor. Mas, o que era claro para Jeremias é que não se pode fugir do castigo de Deus. O melhor que se pode fazer é recebê-lo: “por a boca ao pó”!

Hoje nos lembramos do dia em que Jesus também entrou em Jerusalém. Ele não teve de cercá-la, nem de abrir uma brecha em seus muros – muito menos de cegar suas autoridades, pois elas estavam duplamente cegas –  pelo contrário: foi recebido com gritos de alegria, palmas, ramos e roupas forrando o chão em que sua humilde montaria passava.

Entretanto, ao ver a cidade de longe, diferentemente dos Babilônios, chorou de compaixão e lamentou: “Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos. Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco; e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação” (Lc 19.42-44).

A situação de Jerusalém então era pior. Por um capricho, deram a João Batista um fim pior do que o de Jeremias, e agora recebiam o Filho de Deus, sem reconhecê-lo como tal. O recebiam como se fosse alguém que os lideraria em uma luta contra os Romanos.

Há certa semelhança com o que está acontecendo em nossos dias. Hoje Jesus tem sido recebido até com aplausos e festas, porém nunca como deveria ser. Às vezes o honram com títulos tolos – o maior psicólogo, mestre, líder, etc. do mundo –  porém nunca como o verdadeiro Deus em quem habita corporalmente a plenitude da divindade. Hoje as palmas e as roupas que estendem por seu caminho são bajulações grosseiras e falta de respeito (para dizer pouco). Entretanto ele continua apresentando-se humilde como quem cavalga um animal de carga.

Ainda é tempo de reconciliação. O Senhor ainda pode ser achado. Ainda está perto.

Não perca a oportunidade de buscá-lo.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Fizestes distinção entre vós mesmos

Embora as opiniões a esse respeito não sejam unânimes eu prefiro datar a Carta de Tiago como tendo sido escrita nos primeiros anos da Igreja, logo depois da perseguição que veio após a morte de Estêvão: mais especificamente no ano 45. Situando-a nos primeiros dias fica mais fácil entender por que ele chama uma igreja local de sinagoga (Tg 2.2). Situando-a neste período também fica fácil de entender que ele a destinou aos perseguidos que se espalharam a partir de Jerusalém: “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que se encontram na Dispersão, saudações” (Tg 1.1).

O Tiago que a escreve identifica-se com “servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo”. Acho que é o mesmo Tiago lembrado por Pedro ainda de madrugada quando se viu livre da prisão (At 12.17). Esse Tiago era um dos mais destacados líderes da Igreja de Jerusalém ao ponto de Judas, em sua carta, identificar-se simplesmente como seu irmão (Jd 1). Foi ele quem apresentou o parecer acolhido pelo Concílio de Jerusalém (At 15.13) e dele Paulo declara que era tido como uma das colunas daquela Igreja (Gl 2.9).

No Novo Testamento encontramos quatro pessoas chamadas Tiago: o pai do apóstolo Judas (Lc 6.16 e At 1.13), o filho de Zebedeu, irmão de João (que foi morto pouco tempo antes dessa perseguição); o apóstolo que era filho de Alfeu; e este, que era um dos irmãos de Jesus, também filho de Maria e José (Mc 6.3) e foi chamado pelo Senhor após sua ressurreição (1Co 15.7).

O objetivo da Carta de Tiago é confirmar a fé (palavra repetida 15 vezes) de seus leitores, que, como já disse, passavam por provações. Certamente essas provações eram decorrência da perseguição que estavam sofrendo.

Sua primeira preocupação é mostrar que a provação deve ser recebida como uma oportunidade dada por Deus para nos tornar mais perseverantes. E, com este objetivo em mente, ele passa a discorrer sobre diversos assuntos presentes em tempos de dificuldades: a prática de boas obras, a oração, a fala, os planos futuros, etc.

Entretanto, o que selecionei como destaque foi a discriminação decorrente da posse de bens. Veja a hipótese proposta por Tiago: “Se, portanto, entrar na vossa sinagoga algum homem com anéis de ouro nos dedos, em trajos de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e tratardes com deferência o que tem os trajos de luxo e lhe disserdes: Tu, assenta-te aqui em lugar de honra; e disserdes ao pobre: Tu, fica ali em pé ou assenta-te aqui abaixo do estrado dos meus pés, não fizestes distinção entre vós mesmos e não vos tornastes juízes tomados de perversos pensamentos?” (Tg 2.2-4).

Tiago nos mostra que já nos primeiros dias da Igreja havia pobres e ricos entre seus membros e dificuldades de convivência entre eles. Aliás, isso também pode ser visto no pecado do casal Ananias e Safira, em que desejavam ser reconhecidos como desprendidos dos bens materiais e ao mesmo tempo mantê-los.

O ensino bíblico sobre riquezas sempre foi que Deus é o dono de tudo e nós somos seus administradores. Os que chamamos de ricos, na realidade são apenas administradores de mais bens e com mais contas a prestar. Portanto, tratar alguém que tem mais (apenas por ter mais), em detrimento de alguém que tem menos (apenas por ter menos), destinando-lhe o chão como assento, significa cometer, pelo menos, 3 pecados:

1º - Glorificar-se a si mesmo assumindo o papel de juiz da importância alheia.

2º - Julgar alguém pelo que ele tem! Não pelo que ele é. Deus, através de sua palavra, nos exorta continuamente a sermos juízes sobre a essência e, desprezando o mal, acolhermos o bem. Somos constantemente proibidos de julgar pela aparência.

3º - Fazer distinções no Corpo de Cristo. Ou, como diz o próprio Tiago: “fazer distinções entre vós mesmos” (2.4). Cristo morreu por cada membro de sua Igreja. Ao privilegiarmos um em detrimento de outro, pecamos.

A Carta de Tiago é um testemunho de que esse pecado sempre existiu na Igreja, mas também é uma exortação a que não o cometamos. Não ofendemos apenas a nosso irmão pobre, menosprezando-o por ele ter poucos bens sob sua guarda, pecamos também contra o rico destacando-lhe em função de algo que não lhe pertence. Porem principalmente ofendemos muito mais a Deus, que fez igual a todos e trata igualmente a quem diferençamos.

Não façamos isso.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...