sábado, 8 de novembro de 2014
Os que vos presidem bem
sábado, 24 de agosto de 2013
Pecadores eternamente salvos
Você já deve ter reparado que esta série de artigos visa apenas abordar os chamados “Cinco Pontos do Calvinismo” de uma forma menos técnica. Espero estar conseguindo pois este é o último deles.
Porém, antes de falar dele vamos nos lembrar do que já vimos:
No primeiro artigo tentei mostrar como o pecado, apesar de nos parecer algo menor do que um crime, é tão odioso aos olhos de Deus, que custou-lhe a morte de seu Filho.
No segundo artigo espero que você tenha tido pelo menos um vislumbre de que a situação do homem sem Deus não pode ser pior: Além de espiritualmente morto ele está inerte. Depende totalmente de Deus. Está completamente abandonado à misericórdia de Deus. Seu estado é muito pior do que o de um bebê que está sendo parido, pois o bebê está vivo e de alguma forma contribui com seu nascimento, ainda que involuntariamente.
No terceiro texto espero ter deixado claro que o sacrifício de Jesus não foi feito apenas para criar uma possibilidade de salvação. Possibilidade esta que pode ser aceita ou rejeitada, pois se fosse assim todos a rejeitariam. Ou melhor: sequer tomariam conhecimento dela já que estão mortos em seus delitos e pecados, são por natureza filhos da Ira e inimigos de Deus.
Do quarto texto espero ter deixado claro que, ao toque salvífico do Senhor, não há outra opção para os mortos além de ressuscitar. Ou seja: ninguém resiste ao chamado gracioso do Senhor.
Hoje, considerando tudo isso, espero que fique claro que a obra que o Senhor realiza no pecador tem consequências eternas. O resgate é para sempre. No fundo é a recuperação do que nossos primeiros pais perderam no Éden.
Já mencionei as palavras de Jesus, mas não custa repeti-las: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.” (Jo 6.37) e “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” Jo 10.27-28). Percebeu? A obra de Jesus tem consequências eternas. Ele salva o pecador para vida eterna. E nem mesmo o pecador tem a possibilidade de alterar tal destino. A obra do Senhor é total e completa: Dentre os mortos, surpreendentemente, ele escolhe alguns e os ressuscita e os faz perseverar para a vida eterna.
Talvez a dificuldade maior em se aceitar esta doutrina, resida no fato de que, mesmo depois salvos, alguns caem em desgraça e passam a viver uma vida contrária a vontade de Deus. Mas não foi exatamente isso o que ocorreu ao Filho Pródigo? Acaso, longe de casa, depois de ter desfeiteado a seu pai, dissipado seus bens e chegado ao ponto de se alimentar da comida dos porcos, ele deixou de ser filho?
É claro que não podemos esquecer daqueles, a respeito dos quais, as Escrituras mesmo nos alertam: “são como rochas submersas, em vossas festas de fraternidade, banqueteando-se juntos sem qualquer recato” (Jd 1.12) “para as quais tem sido guardada a negridão das trevas, para sempre” (Jd 1.13). Foi a respeito de pessoas assim que o apóstolo João escreveu: “...saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1Jo 2.19). Entretanto aquele que já é selado pelo Santo Espírito da Promessa, esse só tem um destino: a glória.
Não nos esqueçamos nunca de que ele persevera porque Deus é quem o sustenta. Se não fosse o Espírito Santo, ele sequer conseguiria chamar a Deus de Pai (com propriedade), pois continuaria morto em seus delitos e pecados.
Aleluia! Deus salva pecadores.
sábado, 15 de junho de 2013
O Povo de Deus (Parte 2)
No artigo passado vimos como o Povo de Deus que viveu antes de Jesus, Israel, foi usado por Deus, para preservar sua Revelação e como a Igreja, recebendo esta revelação, interpretada por seu próprio autor, tem agora a obrigação de levá-la a todo mundo.
Porém, deixei claro que Israel teve uma segunda missão: preservar a linhagem da qual nasceria o Messias.
A descendência de Eva foi preservada por Deus no dilúvio e Sem foi escolhido e um de seus descendentes, Abraão, recebeu de Deus sua Aliança.
Abrindo um pequeno parêntesis: Deus age assim: Por escolhas: Escolheu Noé, escolheu Abraão, escolheu Moisés, escolheu Davi... e, finalmente escolheu Maria.
Voltando. Desde cedo nosso inimigo maior atentou contra o “descendente da mulher” (aquele que ele julgava ser o Escolhido e que lhe pisaria a cabeça). Não foi por outra razão que tramou a morte de Abel, e afadigou-se em levor todos os patriarcas (inclusive Jó) a pecar contra o Altíssimo.
Não fosse a graça divina tornar Sara fértil apenas na velhice, de modo que sua gravidez sobrenatural e o nascimento de Isaque (aquele que acolheu com alegria as promessas) passaria despercebida. Algo semelhante sucedeu a Rebeca e embora os gêmeos em seu ventre ainda não houvessem feito coisa alguma, que pudesse caracterizar o pecado de um deles, Deus já havia dito: “o mais velho servirá ao mais moço”.
Não estou me esquecendo da natureza corrompida do homem que sempre desagrada e peca contra Deus sem precisar de ajuda. Mas há explicação melhor para a reincidência sistemática do erro no período dos Juízes do que a ação do maligno em todo o povo?
O pecado mais destacado nos dias dos Reis, segundo o próprio Deus, foi agir segundo as nações ao redor. E, durante os dias de Atalia, se não fosse a coragem de Jeosabeate a linhagem de Davi teria sido interrompida: “Vendo Atalia, mãe de Acazias, que seu filho era morto, levantou-se e destruiu toda a descendência real da casa de Judá. Mas Jeosabeate, filha do rei, tomou a Joás, filho de Acazias, e o furtou dentre os filhos do rei, aos quais matavam, e o pôs e à sua ama numa câmara interior; assim, Jeosabeate, a filha do rei Jeorão, mulher do sacerdote Joiada e irmã de Acazias, o escondeu de Atalia, e não foi morto.” (2Cr 22.10-11).
E assim podemos acompanhar todas as listas do cativeiro e finalmente as duas genealogias de nosso Senhor. A de Lucas que o filia a Adão, como semente da mulher que haverá de esmagar a cabeça da serpente (o que de fato fez) e a de Mateus o filia a Abraão com quem fez a Aliança do qual o próprio Jesus é o fiador.
Embotado em si mesmo Israel preservou a linhagem da qual nasceu nosso Senhor, que ao transformar a organização de seu povo na forma de Igreja o mandou ir por todas as nações e pregar seu Evangelho.
Um só povo. Uma só missão: Louvar a Deus! Dois períodos distintos: o de Israel e da Igreja com missões “sub-missões” distintas:
Em Israel destacou-se a proteção das Escrituras e da linhagem do Messias. Era época de Isolamento e isso chegou ao fim.
Com a Igreja a palavra de ordem é: Vão pelo mundo afora e divulguem a obra do Messias e como ele ensinou as Escritura. É época de missões!
sábado, 8 de junho de 2013
O Povo de Deus (Parte 1)
Provavelmente todos os cristãos concordarão que Israel foi o antigo Povo de Deus. Concordarão que foi, pois nem todos concordam que o atual Israel é a continuidade do Israel da Bíblia (mas esse é outro assunto, para outro artigo).
Tanto Israel teve, quanto a Igreja tem a missão primordial de adorar a Deus sendo para ele “povo peculiar”. Entretanto, Israel teve missões específicas e subjacentes a esta missão principal, que já cessaram, assim como a Igreja possui também e que só cessarão quando estiver diante de seu Senhor. Israel devia manter intocada a Revelação do SENHOR e a linhagem da qual nasceria o Messias (daí seu isolamento). A Igreja tem a obrigação de levar a todos os povos a Revelação do Senhor (daí sua catolicidade).
Abordarei estes aspectos em textos seguidos, mas uma primeira observação já se impõe: sob este ângulo, podemos dizer que Israel foi a “adolescência do Povo de Deus” assim como a Igreja é sua maturidade.
Israel estava sujeito a mandamentos que tinham como único objetivo mantê-lo isolado. Isso fica claro nos mandamentos sobre comidas e vestimentas, semeadura, etc. E isso pose ser visto até nos dias da Igreja Primitiva: “Quando Pedro subiu a Jerusalém, os que eram da circuncisão o arguiram, dizendo: Entraste em casa de homens incircuncisos e comeste com eles” (At 11.2-3).
Vamos examinar essas missões separadamente: Primeiro consideremos a manutenção da Palavra de Deus.
Até os dias de Abraão a Palavra de Deus foi preservada através da transmissão oral, a partir de então passou a ser grafada, porém poucos sabiam como fazê-lo e quem sabia o fazia em tabletes de argila, que depois de queimados no forno (como fazemos até hoje com os tijolos nas olarias) adquiriam sua maior resistência. Portanto, eram frágeis e pouco eficientes na quantidade de informações que podiam conter. Além de frágeis eram pesados. Imagine o peso do livro do profeta Isaías nessa mídia. Acho que seria necessário um caminhão para carregar toda Bíblia.
Além disso o modo como a linguagem da época era grafada através de caracteres pictográficos ou ideográficos, não permitia o registro da profundidade necessária a um pensamento complexo.
Não estou dizendo que não houvesse este tipo de pensamento. Havia sim. Os discursos dos amigos de Jó atestam a existência dele. Mas, tudo indica que eles foram preservados oralmente.
Acho que é necessário fazer um parêntese em prol da transmissão oral. Não podemos julgá-la à luz da que temos em nossos dias em que ela foi praticamente extinta. Nas sociedades antigas ela era muito importante e muitíssimo mais precisa. Podemos ter uma pequena amostra disso se nos lembrarmos de como nossos avós eram capazes de recitar o nome de seus antepassados com riqueza de detalhes sobres suas vidas.
A providência divina fez com que, não apenas novas mídias, mais portáteis e confiáveis, passassem a ser usadas (o papiro e principalmente o pergaminho). Mas também mudou o modo como os idiomas passaram a ser grafados. Houve um grande avanço com a invenção da sílaba.
A sílaba é basicamente articulação de dois, ou mais caracteres determinados, onde um estabelece o “ataque” (a consoante) e outro o estabelece o “som” (a vogal). As vezes uma sílaba já significa algo, ou seja: já é uma palavra. Porém, a maioria das palavras é constituída de duas ou mais sílabas e expressam tudo o que pode ser dito.
Em pedaços de couro macio (o pergaminho) costurados e enrolados, a revelação foi então escrita para segurança e certeza nossa. Dela se serviu nosso Senhor: “Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. Então, passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4.16-21). Neste texto, os detalhes (sábado, sinagoga, assistente, etc.) atestam que Jesus estava usando o texto hebraico da segunda parte da Bíblia dos Judeus: os livros proféticos.
Israel teve papel chave na manutenção dessa revelação. Era um povo isolado, sem artes cênicas ou plásticas e com apenas este livro, que era copiado meticulosamente. Tantas eram as precauções para que as cópias fossem fiéis que seria muito extenso relatá-las aqui.
Hoje temos a Revelação da vontade Deus e como ela deve ser vista em profundidade, através das luzes que o Evangelho nos proporcionam para entende-la e aplicá-la em nossa vida. Como Igreja somos obrigados a vive-la de conformidade com o modo que o Novo Testamento a interpreta e isso será nossa adoração a Deus.
Porém, nossa segunda missão, subjacente a essa, é: Indo por todo mundo (por essa razão a Igreja não possui um território), onde encontrar um lugar em que a vontade de Deus não é observada, divulgá-la. Isso é evangelização! Isso será levar as nações a louvar a Deus.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Missões II
Eu já tinha dado este assunto por encerrado e cria piamente ter deixado claro que, como o Senhor Jesus recebeu todo o poder e ordenou a seus discípulos que pregassem o evangelho ao mundo inteiro não havia o que questionar. Pequei. Fui presunçoso.
O mínimo que aconteceu foi uma questão que está no blog, perguntando se há, de fato, diferença entre ter autoridade e ter poder.
Pois bem: ter autoridade não é a mesma coisa que ter poder. As vezes quem detém o poder não é quem tem a autoridade. Pense no caso de um sequestro de um avião ou de um motim. A autoridade foi usurpada por quem tem poder. De pouco adianta um magistrado ter autoridade se não tiver poder para exercê-la.
Recentemente fui hóspede de um que me contou que em uma cidade do interior um juiz de paz viu-se obrigado a dar voz de prisão a um coronel e aconteceu o seguinte diálogo:
- teje preso!
- Num tejo!
- Eu sou autoridade e tô dizendo: teje preso!
- Nun tejo. E quero vê quem é que vai me prender!
Entre o primeiro e o segundo “teje preso” os dois guardas que acompanhavam o juiz já tinham virado a esquina.
Então pra não ter uma ordem contrafeita o juiz deu outra:
- Então fique aí mesmo seu teimoso!
Percebeu? O Juiz tinha autoridade (aliás, nem sei se um juiz de paz tem tal autoridade. Décadas atrás talvez tivesse), mas o coronel tinha o poder de intimidar os guardas.
O Senhor Jesus não apenas tem autoridade como também poder para regenerar o coração daqueles que ele quer. Daquele que são seus. Do mesmo modo que ele chamou Lázaro para fora do túmulo e Lázaro atendeu, ele chama quem está morto em seus delitos e pecados e tal defunto não fica no túmulo.
Ora, defuntos não ouvem, portanto é forçoso admitir que a voz que atingiu os ouvidos de Lázaro é a mesma voz que no princípio de tudo disse “haja luz e houve luz”.
Mas alguns objetam que essa voz não fala hoje. Com a Fé Reformada eu creio que fala sim! Fala através da pregação do autêntico pregador que prega o autêntico evangelho. É a voz de Jesus, que via de regra é rejeitada, como sua própria voz, nos dias de sua carne, foi rejeitada também, ao ponto de ser crucificado. Porém, quando um verdadeiro filho de Deus a escuta... Não é necessário qualquer enfeite (que, aliás, só atrapalham): “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.27-28).
Note bem: A fé arminiana, que deposita no homem a iniciativa de buscar a Deus, acha que Jesus tem a autoridade e o homem tem o poder, pois é o homem que decide se aceita ou não. Eles pregam que é o homem que possui a chave de seu próprio coração.
O evangelicalismo moderno, com o evangelho contextualizado, em que não se deve falar de pecado, ou se deve evitar coisas que pressupostamente quem ouve não compreende - ou a explicação é enfadonha, como sacrifício vicário - não nega a autoridade de Jesus, mas divide o poder: uma pequena parte está no ouvinte, que tem de se decidir, e a maior parte está no modo como o evangelho é apresentado: relevantemente ou não. Aí vale até se vestir de palhaço.
Curiosamente, quando o Espírito Santo tornou os discípulos de Jesus capazes de ir mundo afora e cumprir a ordem que receberam, os dotou apenas com duas coisas: intrepidez e capacidade de falar novos idiomas. Só isso! Lembre-se que naqueles dias o teatro e as seis artes já eram conhecidas!
Pregar o evangelho é apenas falar as grandezas de Deus. Só isso. O Espírito Santo faz o resto.
sábado, 14 de abril de 2012
Missões
Em 1557 Jean de Léry, um sapateiro, membro da Igreja de Genebra, selecionado pelo próprio Calvino, vagando entre os tupinambás, no que hoje é o Estado do Rio de Janeiro, viu horrorizado a tribo que o hospedava devorar seus inimigos que tinham sido mortos em guerra recente. Ele achou melhor ficar dentro da oca e aguardar a manhã seguinte quando livres da ressaca do cauim pudessem ouvir e entender o evangelho.
Tempos atrás em situação semelhante, tentou interromper o festim e um índio lhe ofereceu o pé de um inimigo ainda fumegante. Com medo de que o seu pudesse ser o próximo ele se enrolou na rede e registrou que nunca orou tão fervorosamente, durante o restante daquela noite.
Pela manhã, quando os falou do verdadeiro Deus, ouviu o que segue (Copiado de seu livro: Viagem à Terra do Brasil, escrito poucos anos depois quando retornou à França): “... muitas vezes ouvimos de nossos avós que há muito tempo, já não sei mais quantas luas, um mair como vós, e como vós vestido e barbado, veio a este país e com as mesmas palavras procurou persuadir-nos a obedecer a vosso Deus, porém conforme ouvimos de nossos antepassados, nele não acreditaram. Depois desse veio outro e em sinal de maldição doou-nos o tacape com o qual nos matamos uns aos outros; e há tanto tempo já o usamos que se agora desistíssemos desse costume as outras nações vizinhas zombariam de nós”. [...] “Matutei mais tarde sobre o que me haviam dito acerca do francês que, centenas de anos antes, lhes anunciara o verdadeiro Deus, e imagino que se trate de algum dos apóstolos”.
Léry não estava pensando algo inusitado. Calvino, e a maioria dos Reformadores, ensinava que os Apóstolos foram pelo mundo inteiro. Baseavam seu ensino na Bíblia:
Marcos 16.20: “E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram”. E Colossenses 1.23: “... e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro”.
Ensinava-se então que aquilo que hoje chamamos de “A Grande Comissão” já havia sido cumprida, mas era obrigação de cada crente mantê-la assim.
Defender esse tipo de visão hoje é quase uma afronta. O argumento básico é que pensar assim enfraquece os esforços missionários. Entretanto, uma pesquisa mostrará facilmente que a Igreja em que isso era claramente ensinado - a Igreja de Genebra nos dias de Calvino - chegou a sustentar cento e quarenta e dois missionários, e mandou uma expedição ao recém-descoberto Brasil.
Fazer missões é primariamente uma questão de obediência. Não sei por que estou indo, mas vou, pois meu Senhor mandou.
Fazer missões é também uma questão de fé. Como não conhecemos a qualidade dos terrenos, semeamos em todos, até nas pedras, pois alguma semente cairá em terra boa. Ou, como aconteceu a Paulo em Corinto: “E disse o Senhor, em visão, a Paulo: Não temas, mas fala e não te cales; porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade” (At 18.9-10).
Entretanto, obediência a Deus e Fé, foram trocados por “paixão pelas almas”. Se houver algum tipo de paixão (paixão, significando amar) deve ser paixão pelo Senhor, que fez disso a base para Pedro apascentar seu rebanho: “Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: Amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21.17).
Os argumentos em prol de uma contextualização maior da palavra de Deus, ou mesmo de sua apresentação, no fundo acabam, no mínimo, duvidando da capacidade do Espírito Santo aplica-la ao coração dos eleitos ou desobedecendo a ordem simples e direta de Jesus de fazer discípulos dele, não do que se julgue ser uma versão aceitável dele para o mundo moderno.
Surge então nossa falta de fé: Será que vai dar certo? Ora foi o próprio Senhor que mandou. E fez questão de garantir-nos que tinha poder para tanto: “É-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mt 28.18 Edição Revista e Corrigida).
Aqui sou obrigado a fazer uma nota, pois há quem garanta que o termo grego (exousia) deve ser traduzido por autoridade e não poder. De fato, a Edição Revista e Atualizada prefere esta tradução nos evangelhos, mas não lhe confere exclusividade.
Em Lc 12.5 ela traduz o mesmo termo por “... tem poder para lançar no inferno”. Em Lc 22.53 refere-se ao “poder das trevas”. E em Lc 23.7 não há outra possibilidade de tradução além de “jurisdição”.
A essa mesma palavra João recorre para dizer que “todos os que o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus”.
Em Atos Ananias manteria poder sobre o terreno e Simão tenta comprar poder de transmitir o Espírito Santo.
Daí em diante, apesar de manter de vez em quando o sentido de autoridade, ou seus derivados como autorização, a polissemia aumenta muito: Em 1Co 8.9 “... esta vossa liberdade não venha...”. Em 1Co 9.6, e correlatos, “...não temos o direito de deixar...”. Em Ef 2.2, Cl 1.16, 2.10 e 1.15: potestade. Em Cl 1.13 e Jd 25: império. Percebeu? A versão Corrigida que usei é tão própria quanto a outra e a preferência por autoridade certamente não decorre da tradução.
Este poder total que Jesus recebeu do Pai está estritamente relacionado com sua ordem aos Apóstolos. Veja integralmente os versículos (ainda na Edição Revista e Corrigida): “E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos.” (Mt 28.18-20).
Exatamente por ter todo poder é que ele determina: “Vão e façam discípulos em todas as nações”. Nesse sentido é que os Reformadores entendiam: Nada poderá deter a verdadeira obra missionária.
sábado, 24 de dezembro de 2011
Natal globalizado
Os efeitos da chamada globalização foram tantos, que, de vez em quando, ainda aparece algum.
Hoje um investidor do mercado de capitais se assusta com um espirro financeiro de qualquer pequeno país que faça parte da rede financeira mundial..
Mas, se esses efeitos são tão claros na economia, por que se fala tão pouco deles na religião? Pra mim eles são mais claros na religião. Veja a Festa de Natal como exemplo: países não cristãos, que usam outro calendário, comemoram o Natal:
Israel recebe turistas com o cumprimento Mo’adim Lesimkha (Feliz Natal) e as comunidades judaicas no mundo tiveram de reavivar a celebração da Chanukah para que seus filhos não ficassem fascinados pela festa cristã.
Na Índia os enfeites das casas dos poucos cristãos se multiplicam nos shoppings, e a maioria das empresas com filiais ou sedes no ocidente dão folga, e até bônus, a seus funcionários, o que engrossa o comércio nas feiras livres.
A China, embora tão fechada ao ocidente, se vê obrigada a trabalhar mais para atender a demanda das “lembrancinhas de natal” aumentando os míseros Yuans dos trabalhadores.
No Japão, xintoísta e budista, porém muito mais ocidentalizado, é praxe se cumprimentar com “Meri Kurisumasu” (equivalente Merry Christmas) e a troca de presentes já é tradicional entre amigos.
Quanto aos países árabes veja um pedaço de uma matéria da BBC de 2005:
Apesar da profunda ligação do Egito com a história do nascimento de Jesus Cristo – José e Maria fugiram para o país para escapar de Herodes – o Natal não tem raízes profundas num país em que quase 94% da população é muçulmana.
Os cristãos coptas – uma das mais tradicionais denominações do cristianismo – comemoram o Natal, mas com um simbolismo diferente do ocidental e seguindo o antigo calendário ortodoxo, que coloca a festa no dia 7 de janeiro. [...] Em outros países árabes menos abertos ao Ocidente, a comemoração do Natal não é tão ostensiva, mas o Egito costuma ser mais receptivo a estas influências.
Relatos na imprensa internacional indicam que Cristãos estão tendo mais liberdade para comemorar o Natal em diversos países muçulmanos do Golfo, com a exceção da Arábia Saudita, onde “práticas não-islâmicas” podem ser duramente punidas.
Em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o governo relaxou recentemente as regras a respeito de celebrações religiosas que não sejam muçulmanas e autorizou a inédita apresentação, na rua, de uma peça teatral sobre o nascimento de Cristo.
O Líbano também tem comemorações devido a presença de uma grande população cristã.
De modo geral os países árabes são os que mais restringem as comemorações natalinas.
Temos de admitir que o pouco conteúdo religioso desses festejos é fortemente maculado por superstição e mito. Entretanto, você há de concordar comigo, que mais uma vez o mundo está sendo avisado da vinda de Jesus.
A Palavra de Deus diz que os homens são indesculpáveis perante Deus: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.20).
Diz também que a “Grande Comissão” já foi cumprida: 1) “E eles [os apóstolos], tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam” (Mc 16.20). 2) “...não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro” (Cl 1.23).
Cabe-nos mantê-la cumprida!
Pessoalmente creio que não estamos dando conta. Quem sabe, em sua grande misericórdia a festa do Natal, mesmo desvirtuada (como o sermão de Jonas) não seja mais um modo de ainda dizer ao mundo que Jesus se fez um de nós?
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
O desejado das nações
Cresci sabendo que Ageu 2.7 (...e virá o Desejado de todas as nações...), na Edição Corrigida, era uma referência a Jesus Cristo. Mas, cedo, no Seminário, aprendi que o profeta Ageu não poderia estar se referindo a ele pelo simples fato de que, em hebraico, a palavra que é traduzida por Desejado é feminina. Seria como dizer: virá a desejada das nações!
A Edição Revista e Atualizada captou melhor o sentido à luz do contexto total do livro: “... as coisas preciosas de todas as nações virão”.
A ideia de que Ageu se referiu a Jesus foi fortalecida pela Sr.ª E. G. White, que escreveu um livro com o mesmo nome. E até hoje, recebo cartas de presbiterianos me saudando na despedida com “...no Desejado das Nações”, Fulano de Tal.
Esta longa introdução destina-se a chamar sua atenção para o que as nações desejam. De início sei que escrever sobre isto é quase supérfluo, pois haverá tantos desejos quanto forem as pessoas, ou, no mínimo, os grupos de interesse dentro de uma nação.
Quando Israel escolheu seu primeiro rei, Deus os avisou, através de Samuel, que o rei teria direito sobre o trabalho do povo, sobre o recrutamento de soldados, sobre o produto dos campos e direito de impor tributos! Ou seja o Estado teria prioridade sobre a economia.
De modo geral, continuou assim até alguns séculos atrás. Mesmo entre os povos em que o governante era escolhido por acordos familiares, ou imposto pela força. A economia e sua prosperidade (aquilo a que parece que o profeta Ageu se refere), estava a serviço do Estado, particularmente do governante.
Isso mudou. Hoje o Estado está a serviço da economia.
Não sei precisar quando mudou, mas é fácil observar que as ideologias possuem um peso cada vez menor nas decisões de governo sejam locais ou internacionais. Aliás, já vi quem desdenhasse delas como se fossem uma doença a ser extirpada da humanidade.
Hoje vivemos em uma época em que a democracia é mostrada como o remédio para todos os males e curiosamente ela baseia-se em uma ideologia: a de que o povo tem o direito de reger-se a si próprio (ou diretamente como acontecia na Grécia antiga, ou representativamente como em Roma).
Para deixar claro meu raciocínio é importante registrar que a democracia não teve origem em Moisés, mas nos gregos.
Então, como entender por que razão, quando o último governante grego resolveu consultar seu povo, como faziam antigamente, a respeito de como pagar a dívida de seu país, viu-se imediatamente obrigado a dar lugar a outro, mais afinado com os credores internacionais? Ou seja: A economia domina de fato a mais decantada ideologia humana em nome da qual se invade outros países e em nome da qual se tenta construir um Órgão de Representação Mundial.
O que as nações desejam é o bem estar econômico. Mas nossa ingenuidade cristã é tão impressionante que até pouco tempo atrás cantávamos “Queremos luz! É o grito das nações pagãs, que vem atravessando o imenso mar”!
Nunca nos esqueçamos disso: As nações anseiam por prosperidade e bem estar. Mas “nós pregamos a Cristo e esse crucificado”. Quem sabe, com isso em mente, seríamos mais sábios em nossos esforços missionários.
sábado, 27 de outubro de 2007
A Reforma Protestante e o movimento missionário
Um segundo modelo foi implantado através de viagens com o fim específico de anunciar o Evangelho. Paulo e Barnabé foram seus pioneiros.
A Igreja precisou esconder-se de perseguições, mas três séculos depois, Constantino, percebeu o grande número de cristãos em seu império e aderiu ao cristianismo. Isso levou ao processo de torná-la igreja oficial e favoreceu um terceiro meio: a guerra.
Em nome de se pregar o Evangelho ou cristianizar um povo, se fazia guerra e obrigava o rei deles a tornar-se cristão. Então todos os seus súditos eram obrigados ao batismo.
Não se sabe quando o estado fazia guerra para que a religião fosse disseminada ou quando a religião fornecia o propósito, e os guerreiros, para que o estado, guerreando, crescesse mais ainda pela anexação de territórios.
E assim continuou pelos tempos. Assim chegaram às Américas. Assim dizimaram povos e levaram enormes riquezas a seus países de origem. A religião justificava saques, mortes e a escravidão.
Padre Vieira dizia ser preferível ao africano ser escravo no Brasil, onde podia conhecer o evangelho, do que ficar na África onde fatalmente morreria pagão.
É claro que sempre houve também a presença de missionários abnegados, que, muitas vezes por conta própria, dirigiam-se a outros povos com o fim de anunciarem as boas novas de salvação.
Porem, poucos foram os casos em que tais missionários não acabaram logo trocados ou “auxiliados” por tropas militares.
Enquanto as Américas eram descobertas, a Reforma Protestante grassava a Europa. Com a Reforma vinha a idéia da conversão individual, e, apesar de Países serem declarados de “Fé Reformada”, tal só acontecia mediante a adesão de seu rei ou de seus governantes, muitas vezes para fugir a tirania de Roma.
Com a reforma também voltou-se a pratica do missionar com o único interesse de se divulgar o evangelho. A idéia missionária foi tão forte que a Igreja de Genebra chegou a sustentar 280 deles. Não só na Europa. Quatorze chegaram ao Brasil.
Não sou ingênuo ao ponto de dizer que a partir da Reforma Protestante o ato de missionar tornou-se impoluto. Não. De forma alguma. Muitos problemas acompanharam e ainda acompanham os missionários e as missões, e são transportados ao povo alvo daquela missão junto com a santa mensagem de Salvação que o Senhor nos mandou levar ao mundo inteiro.
O que estou tentando mostrar é que o mal de um missionar feito a partir de uma igreja imperial tornou-se, pelo menos, mais simples. Os missionários perderam a obrigação de levar também os interesses do grupo que os enviava.
Não há dúvida que o anúncio do Evangelho pressupõe um mínimo de anúncio de valores típicos da cultura na qual ele manifestou-se e da integridade da cosmovisão bíblica do que é o homem e de quem é Deus. Porém, não pode ser acompanhado de segundas intenções de dominação daquele território ou das riquezas contidas nele.
Porém, graças Deus, hoje após a Reforma Protestante a luta do missionar é levar o Evangelho, simples como ele é e como deve ser anunciado, ao homem como um todo. Os missionários após exaustivo treinamento teológico, cultural, lingüístico, sociológico – e do que necessário – visando a conseguirem distinguir cada vez mais os conteúdos humanos e divinos da santa mensagem.
As agências e organizações missionárias pesquisam e buscam informações sobre os povos e etnias, suas línguas e costumes a fim de atingir do melhor modo possível os que ainda não possuem a Bíblia em seu idioma.
A Reforma Protestante fez ressurgir o espírito missionário dos primórdios da Igreja.
Nós, como igreja local, devemos nos imbuir desse espírito e buscar do Senhor seu plano de ação missionária para a nossa igreja.
Oremos, pedindo-lhe instrução, capacitação e direção e, se necessário, correção.
Rev. Fôlton Nogueira
Rev. Marcos Agripino
Bom ânimo
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