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sábado, 15 de novembro de 2014

Palestinos e Judeus

Desde fúria cega das bombas lançadas por palestinos e por judeus na guerra de algumas semanas atrás, até os ataques individuais feitos pelos palestinos,  com carros, tratores, motocicletas, ou com o próprio corpo coberto de explosivos, revelam uma fúria impossível de ser descritas.

Esse estado de beligerância, em que o ódio parece respingar, não é novo. A Bíblia atesta sua antiguidade. O primeiro contato entre palestinos e judeus é do tempo de Abraão. Os dois Abimeleques (provavelmente pai e filho) relatados em Gênesis capítulo 20 e 26, que foram iludidos por Abraão e Isaque, respectivamente, eram filisteus.

É bom lembrar que a palavra “palestina” se deriva da palavra hebraica para invasor, ou divisor (a mesma que deu origem a Pelegue, filho de Heber (Gn 10.25), que nasceu quando a terra foi repartida). A palavra tem duas formas: uma com P, originária do hebraico (de onde vem a forma portuguesa “palestinos”) e outra com F do árabe, que não possui o som P (de onde vem a forma ladina “filistines” e francesa “Philistins”). Eles invadiram a região que a Bíblia chama de filístia, vindo de Caftor (Creta). Veja o que diz o profeta Amós (9.7): “Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e de Caftor, os filisteus”?

Parece que na época do êxodo já eram belicosos, pois Moisés registra que Deus não conduziu Israel pelo caminho mais curto, da terra dos filisteus, para que “o povo não se arrependa, vendo a guerra, e torne ao Egito” (Ex 13.17).

Certamente naqueles dias eles já habitavam a Faixa de Gaza, pois o mar daquela região era conhecido como o “mar dos filisteus” (Ex 23.31) e em Dt 2.23 encontramos: “também os caftorins que saíram de Caftor destruíram os aveus, que habitavam em vilas até Gaza, e habitaram no lugar deles”.

Eram descritos como povo valente, forte e alto (Dt 2.20-21) e, quando Josué estava velho, Deus se referiu ao lugar em que viviam, como terra “não conquistada” (Js 13.2). Diz também que os cinco príncipes filisteus – “o de Gaza, o de Asdode, o de Asquelom, o de Gate e o de Ecrom” (Js 13.3) – foram deixados pelo SENHOR, para “provar a Israel” (Jz 3.1-3).

Durante os 400 anos dos juízes houve muitos enfrentamentos. Sangar, um dos juízes, notabilizou-se em luta contra eles (Jz 3.31), mas Israel chegou a adorar seus deuses (Jz 10.6). Quem mais se destacou na luta contra eles foi Sansão, que, apesar de casado com uma filisteia (Jz 14.1-4), os enfrentou: incendiou suas plantações (Jz 15.3-6) e arrancou os portões de Gaza, a principal cidade deles (Jz 16.1). Traído por Dalila, que estava a serviço deles, foi preso. Furaram seus olhos e o levaram, como trofeu, para o templo do principal deus do panteão filisteu, Dagom. Lá conseguiu derribar os pilares do templo, matando seus príncipes (Jz 16.19-30).

Nos dias de Samuel os filisteus tomaram a Arca da Aliança e a colocaram no templo de Dagom como despojo. Deus os castigou tanto que a enviaram de volta. Nos dias de Saul não deram trégua. 

Dominavam os arredores com armas de ferro, o que lhes dava grande vantagem. Cerca de setenta anos depois de Sansão apareceu o filisteu Golias, que foi morto por Davi. E alguns anos depois, na luta contra eles, desesperado, o primeiro rei de Israel, Saul, se matou.

O segundo rei de Israel, Davi, além de vitórias sobre eles, obteve o respeito de alguns ao ponto de serem usados como seus guardas pessoais (veja 2Sm 8.18, 15.18, 20.7, 20.23 na versão Almeida Corrigida que fala de Peleteus: uma derivação da palavra filisteus: provavelmente uma tribo menor dentre eles).

Continuaram inimigos dos demais reis de Israel e de Judá. Algumas vezes Israel os dominava (2Cr 17.11), outras vezes era vencido (Is 9.12).

O território chamado de filístia (terra dos filisteus) é também chamado de Faixa de Gaza, tendo a cidade de Gaza por Capital, sendo que seus limites variaram com o tempo. Gaza, de modo particular, e os filisteus, de modo geral, foram objeto das profecias de Jeremias (47.1-7), Amós (1.6-7), Sofonias (2.4) e Zacarias (9.5-6).

No período inter-testamentário sabemos que a cidade de Gaza foi vencida e ocupada sucessivamente por Alexandre, o grande, por Jonatas Macabeu e por seu irmão Simão. Por Alexandre Janeu, por Pompeu (que a submeteu à jurisdição romana da Síria) e por Gabínius, que após destruí-la totalmente reedificou-a em outro lugar.

A palavra filisteu(s) não aparece no Novo Testamento, mas foi na estrada de Jerusalém a Gaza que Filipe encontrou o Eunuco de que Lucas fala (At 8.29-40).

Apesar de grandemente danificada pelos judeus em 65 AD, Gaza chegou a ser, décadas depois, um bispado cristão e em 634 caiu sob o domínio muçulmano.


Não encontramos em toda Bíblia uma só profecia, promessa, bênção ou boa palavra sobre o futuro dos filisteus. Ao contrário, são muitas as profecias sobre a ira do SENHOR e sua espada sobre eles. Porém, hoje sabemos que em Cristo eles também serão tornados filhos de Abrão. Aí entenderemos o significado da profecia de Isaías: “Uiva, ó porta; grita, ó cidade; tu, ó Filístia toda, treme; porque do Norte vem fumaça, e ninguém há que se afaste das fileiras. Que se responderá, pois, aos mensageiros dos gentios? Que o SENHOR fundou a Sião, e nela encontram refúgio os aflitos do seu povo” (Is 14.31-32).

sábado, 8 de novembro de 2014

Os que vos presidem bem

Depois do dia de Pentecostes alguns convertidos permaneceram em Jerusalém e muitos voltaram para suas cidades de origem onde estabeleceram igrejas. Este deve ter sido o início de Igrejas como a de Roma. Lucas nos informa (At 28.13-14) que encontraram “alguns irmãos” em Putéoli (próximo a atual Nápoles) e que foram recebidos pelos crentes de Roma na Praça de Ápio.

Até o fim do primeiro século temos notícias de pelo menos 50 igrejas em diversas cidades desde Jerusalém a Roma. Dentre essas, temos detalhes em Atos dos Apóstolos, das igrejas na Galácia, Filipos, Tessalônica, Corinto e Éfeso e pelas cartas de Paulo sabemos algo das igrejas em Colossos, Laodicéia e Creta. O Apocalipse fala das 7 igrejas na Ásia menor.

Portanto, em cerca de 60 anos – de 40 a 100 AD – podemos catalogar umas cinquenta igrejas diferentes, fundadas em situações diferentes, em cidades diferentes, falando idiomas diferentes, com poucas coisas em comum: todas dentro do império romano e todas usando um sistema de governo semelhante.

Sobre essa primeira característica comum, veja aqui uma análise que fiz em agosto de 2011. Quanto à segunda característica, Lucas nos diz que a Igreja de Jerusalém tinha Apóstolos (At 8.1, 11.30, 15.1, etc.) e presbíteros (At 15.1). Também tinha diáconos, pois os 7 homens (At 6.1-7) foram eleitos com missão de servir às mesas.

O ofício de Apóstolo foi tão restrito aos Doze chamados por Jesus, quanto o patriarcado foi restrito aos filhos de Jacó. Além dele temos apenas Matias e Paulo (que, como os dois filhos de José, foram agregados ao patriarcado também). Os textos em que outros são chamados apóstolos (Barnabé em At 14.14 e Tiago, o irmão do Senhor, em Gl 1.19) são claramente lato sensu. Seria como dizer que Moisés e Josué foram patriarcas de Israel. Só houve uma substituição entre os doze: Judas. Quando o último apóstolo morreu considerou-se extinta a época deles e os que ousaram identigicar-se como apóstolos foram expostos como obreiros fraudulentos, ministros de Satanás (2Co 11.4-15) e mentirosos (Ap 2.2).

Os presbíteros são explicitamente mencionados nas Igrejas de Listra, Icônio e Antioquia (At 14.21-23), Éfeso (At 20.17), Creta (Tt 1.5) e nas diversas igrejas do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1Pe 5.1 em conjunto com 5.5). A palavra presbítero basicamente significa idade mais velha, porém seu uso mais comum refere-se à maturidade. A Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) usou diversas palavras derivadas da raiz presb: velhos (Sara e Abraão), ou líderes (os auxiliares de Moisés). No Novo Testamento (NT) refere-se aos membros do Sinédrio, aos seres celestiais do Apocalipse, e principalmente a certos líderes cristãos, encarregados de supervisionar e pastorear a Igreja (At 20.28, 1Pe 5.1-3, etc.).

A palavra diácono aparece 34 vezes (5 vezes na Septuaginta) com o sentido básico de serviço (os servos no Livro de Ester, o maior no reino dos céus, os serventes na festa de Caná, etc.) Porém, em cinco lugares ela claramente refere-se a um ofício na Igreja (os que preenchem as qualificações dadas a Timóteo (1Tm 3.8-10) e aquele a quem a Carta aos Filipenses foi endereçada (Fp 1.1). Os primeiros diáconos foram eleitos na Igreja de Jerusalém (At 6.1-6).

O texto bíblico menciona bispos nas Igrejas de Éfeso e FIlipos e indiretamente na de Creta (quando Tito recebe instruções). A palavra episkopos e suas correlatas (de onde veio nossa palavra bispo) era usada desde a Grécia clássica para designar aquele que supervisiona, superintende, vela ou vigia por algo (Artemis vigiava pela fidelidade dos contratos). É mais usada na Septuaginta (14 vezes) sempre com o sentido de ter o encargo de, comandar, superintender, inspecionar, do que no NT (5 vezes) onde significa basicamente pastorear. De todas as vezes fica a impressão de um presbítero que tinha uma incumbência específica.

É notável que durante todo esse tempo, em uma área com quase 5 mil quilômetros de extensão, igrejas de nacionalidades e idiomas  tão díspares, possuíssem forma de governo tão semelhante. Não pode ter sido apenas coincidência. Creio que a Doutrina dos Apóstolos incluía também uma alusão ao sistema de governo do Antigo Testamento em que os presbíteros já estavam presentes e os diáconos possuíam missão análoga à dos levitas.

Os presbíteros, que supervisionassem bem, deveriam ser dignos de honra (ou honorários) dobrados, especialmente os que se dedicassem ao estudo da Palavra de Deus e ao ensino (1Tm 5.17). Deveriam ser tidos em alta conta, ter sempre um voto de confiança diante de denúncias isoladas (mas, quando culpados, a disciplina deveria se pública, diante de todos).

Não podemos esquecer que eles receberam exortações pungentes sobre como exercer seus ofícios: Paulo diz que eles deveriam ter vidas tão ilibadas ao ponto de não serem passíveis de qualquer repreensão. Deveriam ser maridos de uma só mulher e pais de filhos dóceis. Irrepreensíveis, também, ofício do presbiterato. Afáveis, pacíficos, generosos, hospitaleiros, sóbrios, apegados à doutrina cristã, dispostos a defendê-la e a promover sua aplicação. Pedro ordena-lhes atender o rebanho com dedicação e liberalidade sem segundas intenções, especialmente financeiras. E João diz que devem ser comprometidos com a verdade.

Todas as qualidades estão relacionadas a cuidado e nenhuma delas a desempenho. Diferentemente de hoje, os líderes do povo de Deus, não são executivos dirigindo uma empresa ao sucesso. São homens santos cuidando de um rebanho que não lhes pertence.


sábado, 6 de setembro de 2014

Leis anticristãs

Desde seus primeiros dias o cristianismo tem sido difamado. A Bíblia registra que as primeiras perseguições foram iniciadas por boatos ou por difamações. Por exemplo: Os judeus em Tessalônica “movidos de inveja, trazendo consigo alguns homens maus dentre a malandragem, ajuntando a turba alvoroçaram a cidade”. Ou ainda, em Éfeso, o ourives Demétrio promoveu uma manifestação anticristã levando seus colegas ocuparem a praça, gritando repetidamente, por cerca de duas horas: “grande é Diana dos efésios”.

Justo Gozales registra, em A Era dos Mártires, que: “O que se dizia acerca dos cristãos pode ser classificado em duas categorias; os rumores populares e as críticas por parte da classe culta [...] como se chamavam mutuamente de irmãos, foram se tecendo rumores cada vez mais exagerados, e muitos chegaram a crer que os cristãos se reuniam para celebrar uma orgia em que se davam uniões incestuosas”.

Além de difamado o cristianismo chegou a ser perseguido – exatamente como o Senhor Jesus havia predito – até ser reconhecido como religião oficial. Mas, deixar de ser perseguido, não significa que não tivesse inimigos ou difamadores. Sempre houve difamadores. Sempre houve quem lutasse contra o cristianismo e/ou contra os ideais cristãos. E infelizmente, as convicções de liberdade trazidas pela Reforma Protestante facilitaram, em muito, a vida dos difamadores e garantiu-lhes o direito de continuarem difamando.

A lista de difamadores famosos é grande, mas um se destaca até hoje: Friedrich Nietzshe. Nascido em 1844 numa família de protestantes era neto e filho de pastores luteranos e foi educado com vistas ao seminário, mas optou inicialmente pela filologia e depois à filosofia. Morreu louco no pior estágio da sífilis.

Os muitos livros que escreveu estão cheios de ataques ao cristianismo. No livro O Anticristo (título que atribuía a si mesmo) diz que o cristianismo é uma “crença enferma, baixa e vulgar [...] responsável pelo retrocesso cultural e moral dos homens”. Chegou mesmo a publicar uma “lei contra o cristianismo”, da qual transcrevo um trecho:
Artigo Primeiro – Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o sacerdote: ele ensina a antinatureza. Contra o sacerdote não há razões: há cadeia. 
Artigo Terceiro – O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas. 
Artigo Quarto – Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida. 
Artigo Sexto – A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita; as palavras “Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos.
Porém, ele não foi o primeiro a “fazer leis” contra os cristãos. Mesmo porque seus escritos, no máximo, provocaram reações ou convenceram a alguns a se voltarem contra o cristianismo. A Igreja, durante seus primeiros anos de existência, sofreu do império Romano 10 períodos de perseguição e não foram poucas as leis que surgiram contra ela. Por exemplo, na segunda perseguição, quando Domiciano era o cesar, o Senado fez a seguinte lei: “Que nenhum cristão, uma vez trazido ao tribunal, fique isento de castigo, sem que renuncie a sua religião”.

Não é de se admirar que os governos que veem o cristianismo como inimigo o persigam, porém, me assusta ver que cristãos fazem o mesmo. Observe: Diversas leis que foram feitas pelo legislativo brasileiro trazem, no mínimo, intranquilidade aos cristãos: O Estatuto da Criança e do Adolescente priva os cristãos de transmitirem a seus filhos valores básicos de disciplina e do trabalho e atrapalha muito às igrejas que desejam manter um orfanato dentro dos princípios morais cristãos.

A dita Lei da Palmada nivela os pais que sabem disciplinar seus filhos conforme a disciplina e sabedoria de Deus a pais espancadores que procuram, antes de tudo, descontar nos menores seus problemas. As diversas leis de proteção aos homossexuais acabam acobertando vidas pecaminosas e tentam obrigar as igrejas a adotarem a agenda de grupos cuja intenção declarada é a extinção da (como eles mesmo dizem) moral “judaico-cristã”.

E, como estas, outras leis, que, se não lutam abertamente contra o cristianismo, prejudicam muito a ação dos cristãos.


O que os cristãos podem fazer? Pelo menos divulgar quem são essas pessoas que lutam disfarçadamente. Repare: o cristianismo sempre terá muitos inimigos, mas os piores não são os declarados, e sim os que se passam por irmãos.

sábado, 23 de agosto de 2014

A propósito do Templo de Salomão

A primeira menção bíblica a um lugar de adoração está em Gênesis (8.20-21) e relata como Noé levantou um altar sobre o qual ofereceu holocausto. É certo que as ofertas de Caim e Abel já pressupõem um lugar determinado e esse lugar seria lato sensu um altar, mas a primeira menção formal a um altar é esta de Noé.

Na terra que lhe fora prometida, mesmo sem tomar posse dela, Abraão sempre levantava um altar no lugar em que Deus lhe aparecia, mas, o último foi levantado em lugar determinado por Deus, três dias de distância de onde morava: o Monte Moriá. Neste altar Isaque, seu filho, seria a vítima.

Os descendentes de Abraão também seguiram o costume e os altares levantados por eles eram verdadeiros marcos (com significado religioso).

Todos esses altares não passavam de montões de pedras, ajuntadas do próprio local, sobre as quais um animal (na maioria das vezes um cordeiro) era morto e queimado. Somente na época de Moisés, após instrução divina, o altar recebeu outros complementos e significados: era o Tabernáculo. Sua construção foi determinada por Deus que o detalhou e capacitou a seus construtores.

Os altares não desapareceram, nem ficaram restritos ao Tabernáculo. Josué e alguns Juízes levantaram altares também. Até mesmo Davi fez um no mesmo lugar em que, séculos antes, Abraão tinha oferecido seu filho. E, nesse mesmo lugar, anos mais tarde Salomão edificará o Templo.

As demais nações sempre tiveram altares. Na verdade, não se conhece um só povo, que não os tenha, pelo menos, uma vaga noção de um deus que recebe ofertas. Tais ofertas, sangrentos ou não, são oferecidas em lugares simples ou em complexos impressionantes, que podemos perfeitamente chamar de altares: zigurates, pirâmides egípcias, astecas, maias ou sudanesas, etc.

Mas, voltando ao Tabernáculo é necessário destacar que ele era um complexo cercado por uma estrutura de postes e panos esticados com cerca de 50m de comprimento e 25 de largura, a qual só era adentrada pelos sacerdotes e pelos respectivos ofertantes com suas vítimas.

Dentro dela ficava um braseiro de bronze (o altar propriamente dito, também chamado de altar de bronze) sobre o qual as vítimas, depois de carneadas, eram queimadas. Havia também uma bacia de bronze na qual os sacerdotes deveriam se purificar e uma tenda de peles com  quase 15m de comprimento por 5 de largura (a única parte coberta). Essa tenda era dividida em seu terço por uma cortina espessa. O terço maior era chamado de Lugar Santo e o menor de Santíssimo (ou Santo dos Santos).

No Lugar Santo ficava o candelabro de ouro (menorah), uma mesa folheada a ouro, sobre a qual se colocava pães, e um altar menor também folheado a ouro, onde se queimava incenso. Neste lugar os sacerdotes entravam, conforme a exigência da cerimônia, para apresentar a Deus o sangue de determinadas vítimas.

No Santo dos Santos, abrigo da Arca da Aliança, apenas o sumo sacerdote podia entrar. E apenas em um dia do ano!

Na verdade o Tabernáculo era uma estrutura portátil que deveria acompanhar o povo em sua peregrinação. Entretanto, depois de entrarem na Terra Prometida, permaneceu em Siló durante os quatro séculos dos Juízes e depois em Nobe e em Gibeom até sua substituição pelo Templo.

Davi, morando numa “casa de cedro” lembrou-se, com algum remorso, de que a Arca da Aliança ainda estava em uma tenda (o Tabernáculo), e decidiu preparar-lhe um lugar adequado. Deus o proibiu deixando claro que nenhuma casa seria adequada à sua presença, porém, permitiu que Salomão, seu filho, a edificasse.

E, apesar de Salomão ter dirigido a obra, lemos no Livro das Crônicas que até a planta das diversas construções que compunham o Templo foi dada por Davi. De fato, o lugar, os recursos, os materiais, os oficiantes, bem como as músicas e os instrumentos musicais foram todos preparados por Davi.

O Livro dos Reis registra: “Edificava-se a casa com pedras já preparadas nas pedreiras, de maneira que nem martelo, nem machado, nem instrumento algum de ferro se ouviu na casa quando a edificavam” (1Re 6.7).  

Salomão mandou aterrar a depressão entre os montes Moriá e Sião para criar uma grande esplanada no meio da qual edificou o Templo com dimensões iguais ao dobro das dimensões do Tabernáculo. A única parte coberta (onde ficavam o Santo e o Santo dos Santos) possuía 30m de comprimento por 10 de largura e era rodeado por depósitos para o que fosse necessário às cerimônias e ao cotidiano dos sacerdotes.

Durante quase 400 anos (de 973 a 586 a.C.) o Templo de Salomão centralizou a vida de Israel, especialmente a de Judá, até sua destruição pelos babilônios, quando levaram cativos grande parte dos judeus.

Os babilônios foram dominados pelos persas que autorizaram a volta dos judeus. E, nos dias de Neemias e Esdras, o Templo foi reedificado. Não era tão impressionante quanto o outro (Ag 2.1-4) e foi levantado com grandes dificuldades, mas era muito semelhante ao de Salomão. Em decreto, Ciro, rei dos persas, determinou as dimensões da obra (30 metros de largura e de altura), a devolução dos utensílios que Nabucodonozor havia tirado de lá, o pagamento dos construtores e dos oficiais do culto, bem como das vítimas e víveres necessários aos sacrifícios. Tudo isso com seu dinheiro. Ou seja: o culto estava sendo mantido por estrangeiros. 

Quando Salomão inaugurou o primeiro Templo, orou repetidamente: “se o teu povo, que se chama pelo teu nome...” Agora as orações do Templo deviam incluir Ciro e seus filhos!

Quando Salomão inaugurou o primeiro Templo, o equipou com utensílios maiores e mais caros do que os utensílios do Tabernáculo (mesas, candelabros, etc.), mas a Arca da Aliança era a mesma que Moisés fizera no deserto. Agora no segundo Templo, a maioria das peças foi devolvida, menos a Arca da Aliança. O Santo dos Santos ficou vazio.

Quando Salomão inaugurou o primeiro Templo, repetiu-se o que aconteceu nos dias do Tabernáculo: fogo dos céus consumiu tudo o que estava sobre o altar. Agora no segundo Templo não há registro algum dessa manifestação da aceitação divina.

No ano 168 a.C., 384 anos depois da consagração deste Templo, Antíoco, descendente de um dos generais com quem Alexandre estabeleceu seu império, o profanou: construiu um altar a Zeus em seu interior e sacrificou um porca sobre ele. Três anos depois o rededicaram e até hoje esta data é comemorada com o nome de Hanukah (a festa das luzes).

O Evangelho de João (2.20) registra os judeus afirmando a Jesus que foi gasto 46 anos para edificar o Templo. Os sinóticos são unânimes no registro de que, poucos dias antes da crucificação de Jesus, seus discípulos chamaram sua atenção para as pedras do Templo. Herodes resolvera embelezá-lo.

Aumentou o tamanho dos átrios, ampliou a esplanada (que chegou a ser 4 vezes maior do que a da Acrópolis de Atenas) e a circundou por alpendres. Elevou frontispício do lugar santo para 50 metros de altura e construiu a Torre Antônia no canto noroeste da esplanada com ótimas acomodações e com um quartel que possibilitava aos soldados saírem direto no átrio dos gentios. Era o que chamamos de Templo de Herodes.

Foi destruído pelo general romano Tito no ano 70 em uma luta tão angustiosa que a Igreja a comparou ao “fim dos tempos”.

Resumindo: Primeiro, o Tabernáculo (com 25m de largura por 50m de comprimento), feito de madeira e peles, que acompanhou Israel por cerca de 530 anos e foi montado em diversos lugares. Depois, o Templo de Salomão com o dobro das medidas (50 por 100m), feito dos melhores materiais da época, e edificado no lugar mais significativo para a história do Povo de Deus, ficou de pé cerca de 380 anos. Em terceiro lugar, após o exílio, o Templo de Zorobabel (com 30 por 60m), totalmente custeado pelo rei da Pérsia, e reformado 490 anos depois por Herodes. Finalmente o Templo de Herodes, que fez mais do que uma reforma (com cerca de 50 por 60m, mas com quase 300m por 600m de esplanada), que durou apenas 96 anos, grande parte deles em obras.

Observe que, com o passar do tempo, o tamanho aumenta, o significado para o povo também aumenta, mas o Santo dos Santos vazio aponta para o esvaziamento do significado real.

O Templo de Herodes ainda estava de pé e no dia de pentecostes e celebrava-se lá uma das mais elaboradas e caras cerimônias de então. Nesse mesmo instante, em um simples terraço, a “presença de Deus”, que havia se manifestado no Tabernáculo e no Templo de Salomão, se manifestou sobre cada um dos discípulos de Jesus. Um Templo novo estava sendo inaugurado pelo próprio Deus. Não de peles de animais, como o Tabernáculo, nem de pedras, como o Templo de Salomão, mas de pessoas consagradas pelo Senhor.

Desde então este é o verdadeiro Templo. Nele o Espírito do Senhor faz morada: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16).

No mesmo texto em que os judeus falam do tempo da reforma Jesus deixa clara a identificação do templo com seu corpo. De fato, essa relação é a chave do significado do templo: ele era um tipo de Jesus. E, assim como no passado o tabernáculo, e seus sucessores, eram tipologicamente o corpo do Senhor, hoje, todos nós, somos membros desse corpo.

O Templo feito por Herodes já havia sido honrado por Jesus, que se referiu a ele como “a casa de meu Pai”, e o purificou. O Cordeiro de Deus não foi morto em seu altar, como as vítimas que o simbolizavam, mas, julgado e condenado em suas instalações, foi imolado no mais ignominioso altar que se possa conceber: a cruz.

Assim que Jesus expirou, o véu do santuário (a cortina que separava o Santo Lugar do Santíssimo) foi rasgado. O templo estava sendo definitivamente preterido e, para que a Igreja – acostumada a reunir-se no alpendre de Salomão – o esquecesse de vez, Deus o destruiu completamente a ponto de não ficar pedra sobre pedra.

Continuar sacrificando, mesmo que simbolicamente como faz a Igreja Católica é desprezar o sacrifício de Jesus. Levantar outro templo, seja em Jerusalém, seja em São Paulo é zombar daquilo que foi finalizado pelas benditas palavras “está consumado”.

sábado, 2 de agosto de 2014

Descrições de Jesus

Quem era Jesus? Essa foi a pergunta que aqueles que estavam engajados na “busca pelo Jesus histórico” (sobre a qual escrevi na semana passada), tentavam responder. Porém, não se esqueça de que eles partiam da pressuposição de que um homem comum, desses que povoam a história, não poderia ser como os Evangelhos descrevem a Jesus.

Mas, o que é que eles escrevem de tão notável? Certamente, o ponto máximo é que ele ressuscitou. Mas, há uma série de outras afirmações que achavam difíceis de aceitar. Por exemplo: a de que ele tenha perdoado pecados ou a de que ele tenha dito ser o próprio Deus.

De fato, o Novo Testamento nos apresenta Jesus direta ou indiretamente através de figuras que falam de seu caráter ou de sua obra. Logo no princípio de seu ministério João Batista o apresentou como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” o que tinha um significado especial para sua audiência que era constituída de judeus.

Durante seu ministério, já apareceram opiniões diferentes: a Herodes opinaram que Jesus era João Batista ressuscitado. Seus discípulos informaram que também havia os que criam que ele era Elias ou algum dos profetas. E ele mesmo, correndo o risco de ser apedrejado, foi claro ao apresentar-se como EU SOU (Jo 8.58-59), nome que o Antigo Testamento reservava à Deus.

Porém, não deixa de ser notável as apresentação indiretas. Especialmente as que estão contidas nas parábolas.

Ele se apresentou como agricultor na parábola do Joio e na parábola dos trabalhadores na vinha. Na primeira ele proíbe que seus servos arranquem o joio para não correr o risco de arrancar o trigo junto e na segunda ele contrata diaristas para trabalhar em sua vinha. Apresentou-se também como criador de gado na parábola do servo que volta da lavoura (Lc 17.7-10) e, em um contexto em que seu povo é comparado à ovelhas, ele se apresentou como o Bom Pastor (Jo 1.1-18). Apresentou-se também como médico que veio apenas para os doentes (Mt 9.12-13).

Comparou-se a um noivo que chega tarde da noite para celebrar suas núpcias (Mt 25.1-13), como um nobre que viaja e confia a seus servos a administração de seu bens (Lc 19.12-27), como um rico fazendeiro que recebe acusações contra seu administrador (Lc 16.1-13), como um credor que perdoa seus devedores e exige que eles se perdoem também (Lc 7.40-50) e como um rei que chama seus servos a prestar-lhe contas (Mt 18.25-35).

Declarou ser a pedra que foi rejeitada pelos construtores (aludida pelos profetas). Declarou ser a porta e o caminho. E declarou-se também ser a verdade, a luz, a vida e o grão de trigo semeado que morto dá muito fruto. E nele os evangelistas reconheceram a comparação dos profetas: a ovelha muda.

Indo além podemos ver também o que seus apóstolos disseram. Paulo o apresentará como o novo Adão e João como advogado junto ao Pai (1Jo 2.1).

Os Evangelhos nunca o descrevem (o imaginamos moreno porque a grande maioria dos judeus de sua época era morena e deduzimos que ele gostava de frutas, peixes e vinho pela quantidade de vezes que elas aparecem no relato), mas o Apocalipse o descreve detalhadamente três vezes.

Nessas impressionantes visões de João, ele é introduzido a uma grande multidão como o Leão, mas apresenta-se como o Cordeiro (Ap 4).

Logo de início ele é descrito como um sacerdote. Está no meio das igrejas, usa vestes sacerdotais e possui cabelos brancos como se espera de um presbítero (ancião). Entretanto, a idade não o alquebra e sua firmeza aparece na postura (pisa como se tivesse pés de bronze), na voz (potente como o estrondo de muitas águas) e na sua aparência geral (como o sol na sua força). Seu olhar perscrutador é descrito como chama de fogo e ele identifica-se como “o alfa e o ômega” ou “o primeiro e o último”. E a intimidade que João tinha com ele no tempo dos Evangelhos é substituída pelo terror que prostra o apóstolo amado ao chão.

A seguir ele é fantasticamente descrito como um cordeiro com sete chifres e sete olhos, que acabara de ser morto.

Quase no fim do Apocalipse ele é mostrado como um guerreiro cavalgando um cavalo branco, vestindo um manto ensanguentado em que está escrito Rei dos reis e Senhor dos senhores. Ele é seguido pelos exércitos celestiais que também estão em cavalos brancos, mas vestindo mantos brancos e puros. Seu olhar ainda é descrito como chama de fogo, e em sua cabeça é adornada por diversas coroas. Sua palavra é poderosa como uma espada afiada e ele é identificado como o Verbo de Deus.

Todas as tentativas de descrevê-lo acabam misturando sua pessoa e seus ofícios. Mas, acima de tudo, as tentativas de descrevê-lo esbaram na impossibilidade de descrever o inefável: o Verbo de Deus.

O Verbo de Deus certamente não voltará para ele vazio, mas fará o que lhe apraz.

sábado, 26 de julho de 2014

Os Evangelhos e o Jesus histórico

No início do século 20, Albert Schweitzer escreveu um livro que resumia os esforços na busca de quem foi Jesus: A busca do Jesus Histórico. Sempre houve quem duvidasse do que os Evangelhos dizem a respeito de Jesus, mas, naquela época – como acontece hoje – quem duvidava da fidelidade dos Evangelhos inexplicavelmente estava dentro da Igreja!

No mínimo se dizia que os Evangelhos contêm exageros próprios dos devotos, que, ao descrever o objeto de devoção, saem dos limites da realidade e registram demais. Mas, notavelmente a maioria aceitava parte da narrativa! Duvidar do todo é compreensível, mas duvidar de partes e aceitar outras? Como selecionar as partes dignas de crença?

Diziam-se guiados pela razão. Ou seja: acreditavam apenas no que achavam ser razoável. E assim... é razoável que alguém, nascido na Galileia, nos dias do domínio romano, e que, embora tenha sido educado em uma família humilde, torne-se um mestre e chegue a ter discípulos. Mas não é razoável que ele tenha curado cegos de nascença, multiplicado pães, muito menos, que tenha ressuscitado alguém ou a si mesmo. Mortos não ressuscitam!

Partindo da pressuposição de que os mortos não ressuscitam qualquer texto que afirme que isto aconteceu, a priori, é produto de devotos (ou de canalhas).

Esta busca teve então desdobramentos e um deles, o principal, aconteceu com o uso das ideias marxistas de que a chave para o entendimento da história é a luta de classes. O resultado tinha de ser o óbvio: para que a (liderança da) igreja mantivesse seu poder sobre “as massas”, recorreu-se a relatos fantasiosos que têm por objetivo manter o fiel enganado e dependente.

Observe que o pensamento marxista não condena esse expediente como imoral. A condenação é política: os outros não devem usá-lo, mas os defensores das classes mais exploradas (ou seja: eles mesmos) podem usá-lo legitimamente.

Essas duas correntes ainda podem ser vistas hoje: Enquanto uma diz que os evangelhos é uma expressão de devoção e, portanto, cheia de exageros, os outros dizem que os evangelhos nasceram da necessidade das elites para dominar o povo. A primeira nega parte do que foi escrito e a segunda nega o todo.

Então, “Guiados pela razão”, chegaram ao ponto de declarar que apenas quarenta, dentre todas as afirmações feitas por Jesus são, de fato, verdadeiras. Os demais, guiados por Marx, sequer se preocuparam em analisar as afirmativas per se, pois, no fundo, tudo era um “folheto” usado para enaltecer a Igreja como representante de Jesus.

No primeiro caso, se a razão guiou os críticos e os evangelhos apresentam a intervenção divina na história humana, não seria de se esperar que o relato evangélico contivesse eventos que ela não pudesse explicar? A resposta que deram foi peremptória: – Deus (se existir) não entra em contato com o mundo material e os Evangelhos narram o que gostaríamos que acontecesse e não o que, de fato, aconteceu.

Agora, por poucos instantes, admitamos que Deus, de fato existe e quer intervir neste mundo. Não teríamos um relato semelhante com eventos além da explicação racional? O que é peculiar à mensagem cristã é o tipo de relacionamento que Deus estabelece com sua criatura, que rebelde, e sem condições de voltar-se para ele, precisa ser resgatada.

A mensagem dos Evangelhos, portanto, está plenamente de acordo com o que eles se propõem: narrar como Deus interveio na história humana.

Não preciso dizer que isto foi a ruina para a fé de muitas pessoas. Alguns pastores engajaram-se em uma luta contra os próprios ministérios e partiram para o ativismo político. Outros (provavelmente os que classificavam os Evangelhos como exagero de devotos) passaram a se dedicar mais à ação social. O próprio Schweitzer, professor de teologia na Universidade de Strasburgo, depois de um curso de medicina, abriu um hospital na África, onde passou a viver.

O relato evangélico só faz real sentido se for recebido em sua íntegra. O caráter do Senhor Jesus, de tão rico, precisa dos quatro relatos para ser apreciado em sua totalidade. E da apreciação dele depende a solidez de nossa fé.

sábado, 14 de junho de 2014

Ser cheio do Espírito Santo

O resultado imediato da descida do Espírito Santo foi a proclamação das grandezas de Deus pela Igreja, mesmo que para isso tivessem de usar idiomas nunca aprendidos: o Espírito Santo a capacitou a fazê-lo.

O Senhor Jesus tinha sido explícito: Eles receberiam o poder de testemunhar (especialmente sua ressurreição): E, comendo com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias. [...] recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra (Atos 1.4-8).

Você já deve ter percebido que essa relação de causa e efeito (ser cheio do Espírito Santo e ter poder de testemunhar o Evangelho) foi desvirtuada ao longo do tempo. Desvirtuada ao ponto de se acreditar que, após ser cheio do Espírito Santo, se começa a resmungar, grunhir e produzir sons desconexos: o tal dom de línguas.

Esses grupos sequer lembram em que data o Espírito Santo desceu (eu nunca vi qualquer grupo pentecostal comemorar este dia), mas afirmam, com certeza, que apenas quem fala em línguas (as que ninguém entende) foi batizado por ele.

A história nos mostra que já houve outras tentativas de se falar desses acontecimentos pós-pentecostes. Por exemplo, (dentre os que se lembram da data), até hoje, em alguns países da Europa (e, até onde pude ver, em alguns lugares nos EUA) a segunda-feira faz parte da comemoração do Dia de Pentecostes (que sempre cai em um domingo). É chamada de withmonday. Nela, alguns grupos vestidos de túnicas de batismo, desfilam (ou desfilavam) atestando que tinham sido batizados com o Espírito Santo.

Em uma biografia do Dr. Martyn Lloyd-Jones, encontra-se uma descrição mais comedida:

Comemorávamos o Pentecostes na segunda-feira. Era um dia muito especial para os membros da Escola Dominical de Sandfields, em Aberavon. [...] as pessoas logo se organizaram e começaram a andar. Primeiro homens, depois mulheres com suas crianças, dúzias delas, guiadas pelas mães, tias, professoras, irmãs mais velhas. Cada uma das meninas usava um vestido novo, feito especialmente para a ocasião. Alegres e autoconfiantes como uma menina usando um vestido novo! Até mesmo os meninos se arrumavam para o evento.

E assim andávamos, em ordem, cantando “Onward! Cristian Soldiers” (Erga-se o Estandarte),  “Who is on the Lord`s Side?” (Quem está do lado do bom Salvador?) ou “Stand up, Stand up for Jesus” (Avante, avante, ó crentes). Marchávamos pelas ruas do nosso bairro, passando pelas casas das crianças, felizes por vermos alguns membros e seus familiares às portas de suas casas, acenando para nós e encorajando os pequenos cantores que passavam! (Bethan Lloyd-Jones. Memórias de Sandsfield. PES).

Marchar pela cidade cantando hinos de louvor, ou de exortação aos demais cristãos, não implica necessariamente em situações pecaminosas, como agir como loucos (o que, além de tudo, é condenado como uma atitude que atrai vergonha. Veja: 1º Coríntios 14.23ss). Porém, não é uma prova absoluta de que isso tenha acontecido.

De qualquer modo, a prova mais concreta de que o Espírito Santo fez morada em alguém, além da capacidade de testemunhar, é a vida desta pessoa. Veja: “...o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gálatas 5.22-23).

Em uma época de tantas fantasias, de gestos vazios e de engano, não nos deixemos iludir. Especialmente em um assunto tão importante quanto este.

sábado, 5 de abril de 2014

Anchieta

Depois de um processo que durou 400 anos (o mais demorado da história) Anchieta foi canonizado na marra. Se o processo continuasse dificilmente Anchieta seria canonizado, pois além de não possuir um segundo milagre feito depois de ser declarado beato, o auxílio que ele prestou no enforcamento de um membro da Igreja de Calvino  depunha gravemente contra a pretensão de ser santo.

Desde meus tempos de seminário, meus professores me alertavam: não se preocupe com a canonização de fulano ou beltrano, mas mostre o quanto é ímpio o próprio ato de canonizar alguém. Entretanto, o caso de Anchieta é terrível, pois além do erro que existe em declarar que alguém deva ser adorado, o personagem em questão é mais do que um pecador comum. É um assassino. Um assassino de protestantes, pela única razão de serem protestantes.

Nascido em 1534, em Tenerife, uma das Ilhas Canárias, estudou filosofia em Portugal. Veio para o Brasil em 1553 e depois de muitos trabalhos, inclusive a edificação da casa ao redor da qual se formaria a Vila de São Paulo, induziu Mem de Sá, governador-geral, a condenar Jacques Le Balleur à morte, tendo ajudado em seu enforcamento.

Naqueles dias o rei da França, fiel súdito do Papa, estava inconformado com a divisão dos novos descobrimentos entre Espanha e Portugal (o Tratado de Tordesilhas), e recebeu com alegria a proposta de seu Almirante, Villegaignon, de fundar nessas novas terras, mediante a força: a “França Antártica”.

Como não tinha recursos autorizou outro almirante, Colligny, que tinha bom trânsito junto à Igreja de Genebra, a levantar os fundos necessários. A Igreja, refúgio de muitos franceses perseguidos, viu uma boa oportunidade para estabelecer alguns deles em um local livre de perseguições. Então, para a primeira viagem, o próprio Calvino selecionou diversos pastores e artesãos.

Ao chegarem aqui, Villegaignon mostrou sua verdadeira face: passou a persegui-los e matou alguns. Porém, outros escaparam. Le Balleur ficou entre os índios e anos mais tarde foi reconhecido e preso em São Vicente. Levado a Bahia, enfrentou o tribunal da inquisição e foi condenado a morte “no mesmo local em que começou a vomitar suas heresias”.

Não se sabe ao certo como Anchieta ajudou no enforcamento. Há quem diga que, diante a recusa do carrasco em prosseguir o enforcamento, ele tenha esganado Le Balleur com as próprias mãos. Outros dizem que ele recebeu a confissão de Le Balleur, abjurando o protestantismo e, preocupado com a demora de sua morte após dependurado pelo pescoço, o teria misericordiosamente puxado pelos ombros com o fim de abreviar seus sofrimentos. Se não há certeza de como, a demora em canoniza-lo e a forma como ele foi canonizado atestam sua participação.

A campanha para sua beatificação teve início no século 17 e só em 1980 o Papa João Paulo II o declarou beato e nesta quinta-feira passada (3 de abril de 2014) o Papa Francisco o decretou santo. Foi dispensada a comprovação de milagre, como exige a própria lei da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR).

Nós, protestantes vemos muitos problemas em declarar alguém santo:

1º - Acreditamos em milagres. Acreditamos que Deus pode fazê-los, e os faz, quando quer. Mas confessamos que a capacidade de fazê-los espontaneamente foi restrita a alguns profetas e aos apóstolos.

2º - Rejeitamos completamente a ideia de adorar alguém além de Deus. Aliás Deus proíbe isso terminantemente. Porém, a ICAR torna alguém beato ou santo exatamente com o objetivo de ser adorado. Veja o que diz seu direito canônico:

Cânone 1186 — Para fomentar a santificação do povo de Deus, a Igreja recomen­da à veneração peculiar e filial dos fiéis a Bem-aventurada sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, que Jesus Cristo constituiu Mãe de todos os homens, e promove o verdadeiro e autêntico culto dos outros Santos, com cujo exemplo os fiéis se edifi­cam e de cuja intercessão se valem.

Cânone 1187 — Só é lícito venerar com culto público os servos de Deus, que foram incluídos pela autoridade da Igreja no álbum dos Santos ou Beatos.

Em última análise, ao canonizar Anchieta, o Papa está dizendo: Adorem o carrasco Anchieta.

Não deixe de ver:
 

sábado, 15 de março de 2014

Deus e as leis

Vimos (em 9/3) que Deus delega uma enorme autoridade ao Estado. Vimos também que a diferença principal entre os diversos tipos de Estado e o que foi estabelecido por Josué na Terra Prometida, era a origem da Legislação. Naqueles, feita pelos soberanos, ou por representantes do povo, neste, outorgada por Deus.
A própria existência do Estado está sujeita as leis de Deus. Por exemplo: no governo familiar é dever dos filhos sujeitar-se a seus pais (Ef 6.1), mas reciprocamente é obrigação dos pais zelar pelos filhos (Ef 6.4). No governo civil os cidadãos devem ao Estado: sujeição, obediência e prontidão (Tt 3.1 e Rm 13.5); manutenção (Rm 13.6-7); honra (1Pe 2.17) e orações (1Tm 2.1-3), mas o Estado é obrigado a: castigar o malfeitor (Rm 13.4); primar pela verdade e pela honestidade (Lc 3.14); reger-se pela sabedoria (Pv 8.15-16); defender os oprimidos (Sl 82.2-4), moderar seus gastos militares, suas mordomias, respeitar as leis de Deus e a não oprimir seus cidadãos (Dt 17.15-20). 
Embora a origem da legislação fosse a marca distintiva do Estado fundado por Josué, Deus permite que haja legisladores, mas exige que as leis feitas por eles estejam de acordo com sua vontade: “Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo, a fim de despojarem as viúvas e roubarem os órfãos!” (Is 10.1-2). Em outras palavras: todas as leis devem expressar em última instância a vontade de Deus.
Inevitavelmente, algumas, pela própria natureza, acabam exprimindo. Por exemplo: as leis que visam a proteger a vida sempre derivam do “Não matarás”. Porém, outras afrontam este mandamento: Por que a vida de uma criança no ventre de sua mãe pode ser descartada e a vida de um perigoso e cruel assassino, tem de ser poupada?
A cada dia, mais leis afrontam a vontade expressa de Deus e quase todas nascem em uma nova fonte de legislação: Organizações internacionais. O Estado, outrora tão cioso de sua soberania, capitula diante de pressões internacionais, e cede a grupos de pressão, via de regra para proteger minorias, que, na maioria das vezes, possuem em comum uma prática reiterada, ou até mesmo um estilo de vida, que afronta os princípios básicos da vontade divina.
A maioria dessas leis busca um humanismo total em detrimento da vontade de Deus, e baseia-se no seguinte conceito: o homem é seu próprio senhor e não precisa obedecer a ninguém senão a sua própria vontade.
Essas leis geralmente nascem em uma convenção internacional, para a qual os representantes brasileiros são nomeados e lá, sobre conceitos que já foram criados, com a ajuda de modificações até mesmo no significado das palavras, assume-se um compromisso que, ratificado por nosso Congresso, acaba gerando a base dessas leis. Assim nasceu a atual distinção que é feita entre sexo e gênero. O testemunho de muitos representantes que foi após a defesa veemente de Bella Abzug, notória feminista americana, que o termo “gênero” foi mantido nos documentos da assembleia em substituição a “sexo”.
O uso da palavra gênero, com esta acepção, teve seu início nos anos 60 e é notável que sua disseminação tenha se dado após uma verdadeira tragédia. 
Em 1965 David Reimer, irmão gêmeo de Brian, teve seu pênis amputado durante uma postectomia. O psicólogo John Money sugeriu à família que o criasse como menina, argumentando que, “sexo é a condição com que se nasce e gênero é o papel social dos sexos biológicos”. Embora criado como menina e acompanhado psicologicamente para que seu “gênero feminino” refletisse essa condição sexual criada artificialmente mediante cirurgias, ele logo começou a comportar-se como menino e a rebelar-se contra o papel de menina. Na adolescência repudiou totalmente a feminilidade e quando jovem reverteu cirurgicamente a operação e casou-se. Inconformado com o drama de David, Brian se matou. Dois anos depois, sem esposa, e sem encontrar-se, nem como homem, nem como mulher, matou-se também.
Apesar de tão dramático começo, essa distinção (de gênero) pegou, e, hoje nos está sendo imposta. Já apareceram organizações em que, onde se escolhia apenas Homem ou Mulher, hoje se escolhe até cinquenta gêneros diferentes.
Porém, para que tais mudanças aconteçam, é necessária uma verdadeira ação de engenharia social. Nela o concreto, o aço ou os componentes eletrônicos, com os quais as engenharias comuns trabalham, são substituídos por pessoas e os meios de comunicação de massa (especialmente a televisão) são usados como recursos fundamentais na nova arrumação pretendida pelos novos engenheiros.
Em um documento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (Working Paper #651 – BR-N1020), intitulado “Television and Divorce – Evidence from Brazilian Novelas” escrito por Alberto Chong e Eliana La Ferrara, lê-se o seguinte resumo: “Este trabalho estuda a relação entre a televisão e o divórcio no Brasil, explorando a variação no tempo de disponibilidade do sinal da Rede Globo – rede que tinha um virtual monopólio sobre telenovelas no país – nos municípios. Usando os dados de três censos (1970, 1980 e 1991) e controlando, nas áreas demarcadas, as características que variam no tempo, o trabalho mostra que a parcela de mulheres separadas ou divorciadas aumenta significativamente após o sinal da Globo se tornar disponível. [...]” (Tradução minha).
A ideia é mostrar que esse é o caminho para influenciar as mulheres de outros países.
De qualquer modo, onde a legislação for contrária aos objetivos das organizações internacionais, muda-se a legislação. Em 24 de fevereiro passado foi noticiada a nova legislação antihomossexual de Uganda. Todos os noticiários a respeito dela, que vi ou li sempre foram concluídos com um relato de sanções contrárias que serão impostas por outros países ou pelas organizações internacionais com o fim declarado de pressionar Uganda para revogar a lei (embora mais da metade dos países africanos tenham leis semelhantes).
O que podemos fazer? Primeiramente devemos orar. Em segundo lugar resistir como os franceses estão fazendo à tentativa de imposição da ideologia de gênero na educação das crinças. E, por fim, eleger apenas pessoas comprometidas, de fato, com uma vida submissa a vontade de Deus.
 
 

sábado, 8 de março de 2014

Deus e o Estado

Chamamos de Estado o conjunto de instituições que governa um povo. Modernamente ele é analisado como possuindo três componentes: A que estabelece, em nome do povo, as obrigações a que o povo se sujeitará (legislativo); a que executa e impõe a execução dessas obrigações (executivo) e a que julga se alguém se desviou de cumpri-las (judiciário).

Nos Estados antigos essas três componentes eram resumidas na vontade de quem detinha o poder, seja pela força ou por herança. Um bom exemplo é o Egito em que José como mão direita do faraó, estocou alimentos e no tempo de escassez, em troca deles, recolheu todo dinheiro que circulava (Gn 47.14-15). Findo o dinheiro, adquiriu, ainda em troca de alimentos, todos os rebanhos e propriedades bem como os inadimplentes como escravos (Gn 47.16-21). Finalmente, estabeleceu nova ordem onde o povo passou a ser arrendatário da terra a uma taxa de 20% de tudo o que fosse produzido (Gn 47.23-26).

Não havia limites para o poder do governante e consequentemente para o tamanho do Estado.

A legislação é pedra de toque: Enquanto a legislação nos Estados antigos era a expressão da vontade do soberano, nos Estados modernos (onde, via de regra, os legisladores são eleitos) ela representa a vontade do povo que os elegeu. E a origem da legislação era a diferença básica entre o Estado implantado por Josué na Terra prometida: Deus era o único legislador.

Inicialmente esse Estado era o mínimo dos mínimos. Não havia um governo central e cada tribo era governada pelos seus próprios príncipes. Quando afrouxavam a observância à lei divina, Deus levantava um inimigo para oprimi-los e quando se arrependiam, Deus lhes suscitava um Juiz que os conduzia em vitória sobre aquele inimigo. Isso se repetiu quatorze vezes em um período de quatrocentos anos.

À luz da Bíblia o embrião de todo governo é a justiça. Fazer justiça é a missão prioritária de qualquer governante, depois defender a nação de ameaças externas e defender os oprimidos. Tudo isso de conformidade com a lei de Deus, que  dispunha até sobre a guerra (veja o capítulo 20 de Deuteronômio).

Naquele Estado implantado por Josué resolveram então centralizar o governo e transformarem-se em uma monarquia imitando seus vizinhos. Deus os alertou sobre qual seriam os direitos do rei (recrutar soldados e servas, desapropriar bens e cobrar impostos) e os advertiu a não o buscarem reclamando (1Sm 8.11-19), mas preferiram fazer conforme o próprio coração. Em outras palavras: aumentaram o poder do Estado (cuja natureza é sempre usurpar o domínio de Deus): “Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele” (1Sm 8.7).

Os reis sucederam-se sobre Israel. Depois de Saul, Davi estabeleceu sua casa e seu filho Salomão agigantou o Estado o quanto pôde, mesmo tendo de desobedecer a Lei de Deus. A política centralizada e seu suporte militar renderam a Salomão muitos inimigos, até seu supervisor de trabalhos forçados, Jeroboão, teve de fugir para o Egito para escapar de sua ira (1Re 11.26-40). A economia, também centralizada, dependia totalmente de impostos altíssimos.

No reinado de Roboão, filho de Salomão, as demais tribos se revoltaram contra a de Judá exatamente pela exorbitância dos impostos que Roboão insistia em continuar cobrando e criaram o reino do norte no qual diversas famílias sucederam-se no poder. A tribo de Judá, seguida pela metade da tribo de Benjamim, continuou fiel à família de Davi. Dentre eles Uzias exemplifica bem este tema.

Uzias reinou cinquenta e dois anos sobre Judá, e, mediante a guerra e a dissuasão militar, solidificou as fronteiras, edificou torres de defesa sobre os muros de Jerusalém e ao longo do território com a missão de mantê-lo sob vigilância e garantir a segurança dos trabalhadores do campo. Era tido por “amigo da agricultura” e possuía um exército muito bem armado. Pelo relato do cronista (2Cr 26), parece que seus gastos militares trouxeram prosperidade. Ensoberbecido, quis aumentar o poder do Estado até sobre a religião, porém os verdadeiros sacerdotes (“homens da maior firmeza”) o resistiram e Deus o castigou.

O contraste entre o tamanho do Estado nos dias dos Juízes e nos dias de Salomão (ou de Uzias) é muito grande. É certo que as palavras “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (Jz 17.6 e 21.25) trazem a impressão de uma apologia ao Estado monárquico, mas, bem examinadas, revelam muito mais a insubordinação de um povo que não se submetia à lei divina. Se nos Estados modernos a democracia depende do comprometimento de seus cidadãos com as leis, na época dos Juízes o cumprimento das leis divinas era a essência da manutenção daquele Estado e o esquecimento delas foi a razão de seu fim. Eles não questionaram as leis de Deus, mas também não as obedeciam e, pior, pediram um rei que impusesse seu cumprimento. Ou seja: aumentaram o Estado para que os tutelasse. Em vez de cumpri-las por temor de Deus, estavam dispostos a cumpri-las pelo temor ao Estado.

Porém, essa não é a natureza do Estado (fazer cumprir as leis de Deus). Sua tendência natural é impor suas próprias leis, assumindo o lugar dele. Quanto maior é o Estado, maior será a independência de Deus. Num Estado que garanta a todos o básico, mais cedo ou mais tarde, Deus será esquecido e o exercício do amor ao próximo se tornará desnecessário. Não haverá por que orar pelo “pão nosso de cada dia”, pois o estado o fornecerá. Não haverá por que se preocupar com o bem estar dos menos afortunados, pois, se existirem, assisti-los será obrigação do Estado. Em outras palavras: As duas tábuas ficam desnecessárias.

A existência de governos (e consequentemente do Estado) sempre fez parte do plano divino e depois da queda eles se tornaram indispensáveis. Porém, todos os governos, sejam familiares, locais ou nacionais, devem refletir o governo divino, pois até mesmo os que nasceram (e/ou se mantêm) pela força derivam sua autoridade de Deus. É o que aprendemos do apóstolo Paulo através de sua carta endereçada à Igreja de Roma escrita nos terríveis dias de Nero: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação” (Rm 13.1-2).

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...