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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os Anjos e os Pastores

Diferentemente da noite em que Jesus foi condenado a morte, a noite em que ele nasceu fez calor. Naquela, Pedro se aquecia junto a uma fogueira no pátio da casa do sumo sacerdote, nesta os pastores guardavam o rebanho durante à noite. A esses pastores Deus anunciou o nascimento de seu Filho.

Naqueles dias ser pastor de ovelhas não era uma das profissões mais nobres. Ao contrário, como viviam nos campos, assalariados para cuidar dos rebanhos, eram vistos como ainda hoje no interior de nosso país se vê os ciganos ou os trabalhadores de estradas (Peões de trecho). E, embora o talmude tenha sido escrito no Século 4, é tido como certo que se refira também aos tempos de Jesus ao listar as seguintes profissões como desprezíveis para um hierosolimitano: tropeiro, cameleiro, marujo, carreteiro, pastor, lojista, médico e açougueiro. A esses desprezíveis pastores o Senhor anunciou o nascimento de seu Filho de uma forma grandiosa.

Um anjo e depois “uma multidão” de anjos lhes apareceu. A aparição de um anjo já é uma coisa fantástica (a maioria das aparições causa grande terror de forma que a primeira coisa que o anjo diz é “não temas”), o aparecimento de uma multidão de anjos deve ser algo impressionante. Observe a ordem dos acontecimentos:

Primeiro, o anjo os tranquiliza: “não temais”. Segundo, comunica-lhes o nascimento e dá um sinal mediante o qual poderiam certificar-se (o menino estava envolto em faixas e deitado em manjedoura). Terceiro, “subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem” (Lc 2.13-14).

Geralmente se fala de um coro celestial, entretanto a melhor tradução é milícia mesmo. Ou seja: não o coro celestial, mas o exército celestial. E depois que o exército partiu eles decidiram procurar o menino e o encontraram com seus pais deitado em uma manjedoura como foi dito pelos anjos. Ou seja: os primeiros visitantes que o Senhor Jesus recebeu, foram pessoas humildes e até mal vistas. Quase dois anos depois é que ele recebe a visita de sábios.

O relato de Lucas complementa o de Mateus e nos mostra os detalhes do estado de humilhação do Senhor. Embora tenha sido gerado pelo poder do Espírito Santo, protegido pelo Altíssimo, e anunciado pelo exército celestial, ele assumiu nossa natureza e teve por mãe uma das simples filhas de Israel. Nasceu em uma terra que era conhecida dos profetas como “região da sombra da morte”. Teve como abrigo um estábulo; como berço uma manjedoura; como primeiras roupas faixas (tiras de pano) e como visitantes simples pastores desconhecidos.

Para nós também há uma grande lição: Como eles convidaram-se uns aos outros, digamos também: “vamos  até Belém e vejamos o que nos foi dado conhecer”.  

 
Imagino a reação dos sábios na Babilônia quando um deles contou que viu determinada estrela em determinada posição. Era o cumprimento de uma profecia feita há mais de quinhentos anos por um sábio que havia salvado da morte a todos os demais sábios de sua época e fora nomeado chefe de todos eles. Esse sábio fora trazido da Judeia após Nabucodonozor tê-la invadido. Seu nome era Daniel. Naqueles dias eles eram chamados de Caldeus (o nome magoi veio depois da invasão grega).

As discussões devem ter sido demoradas, pois poucos esperavam que uma profecia tão antiga se cumprisse. Ela dizia: “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia e para ungir o Santo dos Santos. Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe, sete semanas e sessenta e duas semanas; as praças e as circunvalações se reedificarão, mas em tempos angustiosos. Depois das sessenta e duas semanas, será morto o Ungido e já não estará; e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será num dilúvio, e até ao fim haverá guerra; desolações são determinadas” (Dn 9.24-26).

Imagino que após a discussão tenham escolhido alguns dentre eles para ir saudar esse novo rei com presentes valiosos. Deve ter sido uma caravana grande, pois além de guardar os presentes deveria atravessar o deserto.

Mateus nos informa que a chegada deles a Jerusalém deixou todos alarmados. Não era pra menos. Eles procuravam pelo “recém-nascido Rei dos Judeus” e Herodes, que tomara o poder com ardis e assassinatos, via conspiração por todos os lados. Poucos anos antes havia ordenado a morte da esposa e de um filho por suspeita de rebelião.

Herodes armou uma cilada imaginando que restava apenas descobrir em qual casa de Belém ele estava: “Ide informar-vos cuidadosamente a respeito do menino; e, quando o tiverdes encontrado, avisai- me, para eu também ir adorá-lo”. Ele havia nascido em Belém, mas seus pais eram de Nazaré e depois de cumpridos os preceitos levíticos de pureza da mãe e de resgate do primogênito, voltaram para lá. Para uma casa em Nazaré a estrela os guiou.

Imagino a ira de Herodes ao saber pela manhã que os magoi não foram para Belém, que ficava ao sul de Jerusalém, mas para o norte: caminho de volta para o oriente. Ele não deixou por menos. Como havia indagado, com precisão, a data em que a estrela foi vista, mandou matar todas as crianças de Belém e seus arredores que houvessem nascido a partir dessa data. Diversas crianças de até dois anos.

Nazaré, apesar de ser um entreposto comercial e receber gente de toda aquela região, era uma cidade pequena. Situada na encosta de uma elevação, vendo as fotos de hoje, penso nas casas fazendo um perfil contra o céu escuro e a estrela marcando uma em especial para quem vem pelo caminho do sul.

Imagino o alvoroço que uma caravana de camelos com os sábios e seu séquito, deve ter causado.

Ouro, incenso e mirra. Os três tipos de presentes não indicam que eram apenas três magoi. Podiam ser dois ou dez. Porém, lembram-nos a profecia de Isaías (mais antiga do que a de Daniel): “A multidão de camelos te cobrirá, os dromedários de Midiã e de Efa; todos virão de Sabá; trarão ouro e incenso e publicarão os louvores do SENHOR (Is 60.6)”. E finalmente a adoração! Isso impressiona. Homens sábios adorando uma criança de colo.

Dentre as muitas razões que Mateus tinha para narrar este episódio, creio que esta é a principal. O Rei dos Judeus foi conhecido pelos sábios de outros povos apesar de haver sido rejeitado pelo seu.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Os Evangelhos o Nascimento de Jesus

Dos quatro Evangelhos, apenas dois falam do nascimento de Jesus: Mateus e Lucas. Marcos inicia sua narrativa com o batismo. João, diferentemente de todos, inicia a sua falando do Verbo ainda na eternidade, antes da criação de qualquer coisa.

As narrativas do nascimento são complementares. Por exemplo: apenas Mateus fala dos magos e apenas Lucas fala dos pastores.

Mateus introduz seu relato com uma genealogia altamente elaborada em que os principais antepassados de Jesus são relacionados em três grupos, de catorze gerações, a partir de Abraão. Em seguida conta o drama vivido por José ao saber da gravidez de Maria, como planejava deixá-la e como um anjo do Senhor o dissuadiu.

Após um salto narrativo de quase dois anos, relata a visita dos magos, a subsequente fuga para o Egito, a matança das crianças e o retorno do Egito.

Diferentemente de Lucas, cujos paralelos são internos, Mateus faz com que o relato do nascimento seja paralelo ao da ressurreição: o começo da vida de Jesus é mostrado em contraste com o final. Veja, como exemplo, três partes do relato:

A genealogia, que é a primeira parte, é mostrada em correspondência com a Grande Comissão, que é a última: enquanto a genealogia nos fala do passado até os dias de Jesus, a Grande Comissão nos fala dos dias de Jesus até a “consumação do século”.

A segunda e a penúltima parte (o nascimento e a ressurreição) não se correspondem apenas no conteúdo: viver. Mateus não os descreve nem dá qualquer detalhe, apenas diz que ambos aconteceram.

A terceira e a antepenúltima parte (os magos e os guardas) são justapostas por terem em comum as riquezas. Os magos divulgaram o nascimento de Jesus e lhe trouxeram presentes. Os guardas receberam dinheiro para não divulgar sua ressurreição.

O relato de Lucas, logo em seu início, apresenta-nos a principal preocupação do escritor: “acurada investigação de tudo desde sua origem” (Lc 1.3). Certamente ele conversou com os protagonistas, especialmente com Maria, pois chega a narrar seus pensamentos: “Ela, porém, ao ouvir esta palavra, perturbou- se muito e pôs- se a pensar no que significaria esta saudação” (Lc 1.29).

Sua narrativa é iniciada com o motivo que o levou a escreveu o Evangelho e com a descrição de seu método de pesquisa. Começa então falando das origens próximas de Jesus, ou seja: seu precursor: João Batista. Mais especificamente, seus pais.

Em uma primeira etapa narra os anúncios. O anúncio a Zacarias, pai de João e a gravidez de Isabel. Então o relato dá um salto de seis meses e narra o anúncio a Maria e sua visita a Isabel (e seu cântico).

Em uma segunda etapa narra os nascimentos: O nascimento de João (e o cântico de seu pai). Depois o nascimento de Jesus e a visita dos pastores.

A narrativa é construída de forma paralela: João é anunciado a Zacarias, seu pai. Jesus é anunciado diretamente a Maria. A mudez de Zacarias, (decorrente de sua incredulidade) é contraposta ao cântico de Maria (decorrente de sua crença nas promessas) ao visitar Isabel. E, enquanto há uma óbvia correspondência entre o cântico de Zacarias (cantado depois do nascimento de João) e o de Maria (cantado antes do nascimento de Jesus), aparece outro paralelo: a alegria do pai que canta e a alegria dos pastores ao visitar o recém-nascido Jesus.

A narrativa de Lucas dá três saltos temporais: 0ito dias para narrar a circuncisão de Jesus, quarenta dias para narrar seu resgate no templo (onde acontecem os encontros com Simeão e com Ana) e doze anos para relatar o acontecido na viagem a Jerusalém, quando Jesus tinha 12 anos.

A genealogia feita por Lucas só aparece após a narrativa do batismo e não é elaborada como a de Mateus. Nela Jesus é filiado a Adão.

Se tradicionalmente Mateus visava leitores judeus (daí o estilo, as muitas citações proféticas e a filiação de Jesus a Abraão), e o Teófilo, destinatário de Lucas, era alguém importante no governo romano (apenas duas outras pessoas recebem o mesmo pronome de tratamento – excelentíssimo – e ambas são governadores), que interesse um leitor moderno poderia ter nestes relatos?

Pessoalmente eu tenho muitos. Porém, no mínimo, estes relatos nos instam a apreciar com reverência esse acontecimento tremendo – a encarnação do Senhor – sem perdermos a sobriedade. Enquanto Marcos e João, sequer ousaram a mencionar, Lucas, mais do que Mateus, chegou a detalhes íntimos. Porém, preferiu narrá-los indiretamente, com as palavras dos protagonistas:

- Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?

- Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus.

O mesmo Espírito Santo, que à tudo dá vida, descendo sobre Maria e o Altíssimo, envolvendo Maria com sua sombra, levam Maria a conceber. O Verbo eterno torna-se um de nós (natureza da qual ele nunca mais se separará) para que voltemos a ser como ele é.

 

sábado, 23 de novembro de 2013

A carpintaria

Vimos, no domingo passado, que dois lugares marcam a vida de Jesus: a manjedoura e a cruz. Porém, entre ambas, ele viveu em outro lugar: na carpintaria. Enquanto as duas nos falam de momentos intensos no início e no fim de sua vida terrena, esta nos fala de um período maior.

A carpintaria é uma bela metáfora de como o Senhor viveu desde sua volta do Egito até o dia em que procurou João Batista, pois numa carpintaria nada é feito instantaneamente, tudo depende de esforço e paciência. Ora, com esforço e paciência, o Senhor viveu a lida de todos nós, aprendendo aquilo que sofremos para que, como sumo-sacerdote perfeito, pudesse compadecer-se perfeitamente de todos nós.

Tanto a manjedoura quanto a cruz destacam a intensidade de sua humilhação, mas a carpintaria nos fala da extensão. Da dura rotina do cotidiano que se repete debaixo do sol.

A mensagem dos Evangelhos destaca o ministério de Jesus em seus últimos três anos, mas o silêncio dos Evangelhos fala com eloquência de como o Senhor viveu a vida comum a todos nós. Esse silêncio, cortado por pouquíssimas informações, nos ensina muito.

Filho de um carpinteiro, como toda criança da época, aprendeu com seu pai o ofício que sustentava a família. Aprendeu como escolher a madeira mais adequada para o que ia fazer. Aprendeu a derrubar, transportar, preparar e trabalhar cada tora. Aprendeu a fazer esteios, vigas, traves, caibros, e quem sabe, alguns móveis também. Porém, paralelamente ao pesado trabalho de construtor, havia o, não menos pesado, de administrar o valor do que fazia.

Como calcular o valor de seu trabalho? Acaso, quem, por graça, fez o universo, não teria dificuldades em colocar valor na confecção de um caibro? Como resistir a um regateador? Como cobrar de um caloteiro? Isso ele aprendeu no cotidiano da carpintaria.

Trinta, dos trinta e três anos de vida, foram passados no anonimato. Apenas aos doze anos um clarão nos mostra que, além do ofício aprendido de José, seu pai, ele também aprendeu a Lei do Pai celeste. E aprendeu tão bem que atraiu admiração dos que eram tidos por doutos nela. O registro desse acontecimento explica: “E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2.52).

A maioria desses trinta anos Jesus passou em Nazaré. Cidade mal vista, da qual não se esperava coisa boa, famosa por sua impiedade. Aliás, toda Galileia era mal vista: verdadeira mistura de nacionalidades e religiões, repleta de idolatria e de cultos imorais. Era conhecida também como Canaã, a terra do comércio, pois desde os primeiros tempos era passagem para as caravanas que vinham do norte até a principal potência de então: o Egito. Na Bíblia, dentre as muitas referências, a de mais fácil recordação é a da caravana que comprou José e levava especiarias para vender no Egito.

Na época de Jesus, além do Egito, o comércio com outros centros, como Líbano, Roma e Grécia, servia-se das rotas que o profeta Isaías chamou de Caminho do mar, que jazia à sombra da morte, e que com a chegada de Jesus viu grande luz.

Ainda jovem, com a morte de seu pai, Jesus tornou-se responsável pela manutenção de casa: sua mãe, quatro irmãos e, pelo menos, duas irmãs. E passou a ser conhecido como “o carpinteiro”. Certamente em sua oficina não se encontrava trabalho desleixado nem mal feito.

Mas, afinal por que esperar trinta anos? Alguns dizem que, como os levitas aguardavam os trintas anos, ele também aguardou. Não tenho tanta certeza de que esta seja a razão, pois ele não era levita. Mas, para mim, independente do motivo, esses anos na carpintaria, ele nos dá uma grande lição: O que importa é fazer a vontade do Pai. Seja na carpintaria, na manjedoura, ou na cruz.

 

domingo, 17 de novembro de 2013

A Manjedoura e a cruz

Dois locais destacam-se na vida de nosso Senhor: a manjedoura, e a cruz. Embora não possamos separar um do outro, podemos dizer, latu senso, que a manjedoura está para o Verbo assim como a Cruz está para o Filho do Homem. Como Verbo ele esvaziou-se até a manjedoura e como Filho do Homem ele esvaziou-se até a cruz.

Antes da manjedoura propriamente dita, ainda no ventre de Maria, sob a "sombra do Altíssimo", ele, o Verbo, “se fez carne". Tomou nossa natureza. Adquiriu um corpo semelhante ao nosso do qual nunca se separará. Lá se tornou Emanuel (Deus conosco) e lá, preservado do pecado pelo poder do Altíssimo, experimentou as primeiras limitações: tempo e espaço.

Aquele que não conhecia qualquer tipo de limites foi localizado no ventre de uma humilde filha de Israel. Ao nascer recebeu o aconchego do mais humilde utensílio de casa: a manjedoura (coxo em que se servia alimento aos animais). A manjedoura foi provisória, mas serve muito bem como metáfora de todas as dificuldades que ele sofreria e dos cuidados da humilde “serva do SENHOR”.

Outra limitação (dentre uma numerosa lista delas): tornou-se dependente. Aquele que criou todas as coisas e a todas sustenta agora depende. No ventre de sua mãe, dependia de tudo para sobreviver e na manjedoura não será diferente. Benditos seios que o amamentaram (embora ele mesmo tenha dito que mais benditos são os que ouvem a palavra de Deus e a praticam). Benditos braços que o ninaram.

Aos dois anos, perseguido por quem se assentava no trono de Davi, seu pai, foi levado a refugiar-se no lugar onde, em tempos passados, seu povo fora escravo.

Ao retornar foi levado para uma cidade da qual se duvidava sair “alguma coisa boa” onde passaria o restante de seus dias.

Na cruz a primeira mensagem é difícil de ser captada em nossos dias tão humanistas: a morte vergonhosa. Hoje deixamos de recriminar mais quem morre em razão direta de seus erros, às vezes até sentimos pena. Tornou-se comum lamentar a morte de um criminoso que trocava tiros com a polícia ou de quem morre como fruto de uma vida desregrada. Naqueles dias a crucificação era uma morte vergonhosa, pois além de exprimir a condenação da justiça como um criminoso vil, o povo judeu via nela a condenação de Deus, que havia deixado bem claro: “Se alguém houver pecado, passível da pena de morte, e tiver sido morto, e o pendurares num madeiro, o seu cadáver não permanecerá no madeiro durante a noite, mas, certamente, o enterrarás no mesmo dia; porquanto o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus; assim, não contaminarás a terra que o SENHOR, teu Deus, te dá em herança (Dt 21.22)”.

Maldito dos homens e maldito de Deus. A esse tipo de morte o Senhor se entregou voluntariamente: “... porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai (Jo 10.17-18)”.

Já humilhado, na cruz o Senhor foi desprezado. Desprezado pelos homens e por Deus. Se já havia se esvaziado para tornar-se o Filho do homem, agora se despojará de qualquer dignidade humana para receber sobre, e em si, nossos pecados: “Aquele que não conheceu pecado, ele [Deus] o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.19)”.

Se a manjedoura destaca mais os atributos do Filho a cruz destaca mais os atributos do Pai. Nela, além da submissão do Filho, resplandece com igual fulgor o amor e a justiça de Deus.

Se na manjedoura a impotência decorria de seu estado infantil, na cruz a impotência exprime sua vontade resignada de, como Cordeiro de Deus, assumir o lugar daqueles por quem veio morrer.

A manjedoura foi seu caminho da cruz. Pela manjedoura ele passou para assumir nosso lugar na cruz. E, nos dois, podemos ver claramente o grande amor com que ele nos ama, pois não poupou esforços para ser um de nós a fim de nos tomar para ele.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Um pouco mais sobre estrebarias

Se você leu com atenção o texto de domingo passado, percebeu que minha intenção foi leva-lo a refletir na razão pela qual o Senhor nasceu numa estrebaria. Alegorizei, garantindo que a lição mais básica que se pode tirar é que, mesmo que seu coração seja tão humilde - ou sujo - quanto uma estrebaria daqueles dias, o Redentor pode fazer nele morada.

Entretanto, não é prudente a um pastor reformado manter seu rebanho longe dos pastos verdes e das águas tranquilas que são o texto, em si mesmo. A alegoria é útil até certo ponto, mas deve ser usada com cuidado, pois o próximo passo seria: “Eles foram pra estrebaria por que ninguém deu lugar. E hoje? Você está negando lugar ao Senhor Jesus?” Ora, bem sabemos que ele nasce no coração que quer. Ninguém tem a capacidade de ordena-lo que nasça em seu coração. Portanto. Vamos parar com a alegoria por aqui enquanto é tempo.

Voltando ao texto de Lucas - o único a registrar esses acontecimentos - uma leitura cuidadosa nos mostra que ele fala de uma hospedaria: “não havia lugar para eles na hospedaria.” (Lc 2.7). Parece que Belém só dispunha de apenas uma hospedaria. Veja um pouco sobre Belém:

A história registra que Davi suspirou por um gole da água do poço que está em Belém (2Sm 23.15), como se todas as casas se abastecessem de um poço só. O próprio nome Belém deriva-se das palavras hebraicas beith lehem (forno, ou literalmente casa de pão), o que é uma alusão ao costume comum nas vilas pequenas de ter um só forno onde todos aproveitavam a lenha para assar, de uma vez, os pães que cada família preparava. E o profeta Miquéias fala explicitamente de seu tamanho pequeno: “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Mq 5.2).

Mesmo nos tempos de Jesus, Belém era um povoado. Tanto é que se fosse recensear apenas seus moradores, a base tributária seria muito pequena (pois esse era o objetivo dos censos romanos: estabelecer em quanto se poderia tributar as colônias) então se determinou que todos os descendentes de Judá, que tinham Belém como sua cidade mãe, fossem lá se alistar perante as autoridades romanas.

Portanto, imaginar Belém, nos dias em que Jesus nasceu com apenas uma hospedaria é até admirável. Era de se esperar que não houvesse.

Quanto a hospedaria cheia, não pensemos que estivesse lotada de judeus da mesma tribo de José, mas de soldados romanos que tinham prioridade. Porém, o exército romano era, em quase sua totalidade, constituído de infantaria. Daí os estábulos vazios, ou pelo menos, desocupados o suficiente para que a família de José fosse abrigada neles.

Segundo estudiosos como Richard Lenski, as hospedarias de então, eram construções com apenas um portão e voltadas para um pátio interno. Feitas de madeiras com dois andares, sendo que no superior se alojava o hospede, e sob seus aposentos ficavam seus animais e os servos, naquilo que poderia ser chamado de estrebaria.

Se o andar superior estava ocupado por soldados romanos de infantaria os estábulos inferiores estavam vazios. Portanto, lá alojaram-se José e Maria. E ficaram lá por alguns dias. Talvez semanas, pois o texto diz: “Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias, e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2.6-7).

A ideia de que a hospedaria ficava junto a uma encosta e seus estábulos em uma gruta, parece ter recebido apoio de Justino (114-165 d.C.) em seu Diálogo com Trifão o que levou Helena, Mãe do Imperador Constantino em 326, a se decidir pelo lugar em que edificou a atual igreja e incrustou no chão uma estrela de prata pretendendo marcar o lugar exato onde Jesus nasceu.

Há mais uma coisa que o texto nos leva a pensar: a ausência de apoio de algum parente. Afinal, eles estavam indo à cidade onde a tribo de Judá, família de José, tinha como sendo sua cidade de início. Pior, estavam indo em uma situação delicada: Maria estava grávida. Será que não encontraram nenhum parente que pudesse abriga-los? Essa questão só pode ser respondida com “não sei”. Porém é a questão que mais depõe contra a ideia de que José era um velho. Pois se fosse velho, as chances de ser conhecido seriam maiores. Mas, sendo jovem e casado com uma jovem - mesmo que de linhagem sacerdotal - mas vindo de uma cidade da Galileia, cheia de gentios, evitada por Judeus mais conservadores, certamente não o conheceriam.

Mas, o que há de importante nisso tudo? É possível destacar algumas coisas, porém vou me ater a uma: Aquele que habitava em luz inacessível, não hesitou em trocar seu trono celestial por um estábulo e finalmente por uma cruz por amor de nós. Nas palavras do apóstolo: “...pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos” (2Co 8.9).

Glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra à quem ele quer bem!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Em uma estrebaria

Phillip Keller, em seu livro Cordeiro de Deus, conta que em uma viagem pelo Paquistão, foi surpreendido por uma tempestade fortíssima e convidado a abrigar-se em uma casa muito pobre, na qual teve de entrar agachado, tão diminuta era a porta.

Viu-se em um cômodo sem janelas, com uma trempe ao centro com a panela em que se cozinhava a refeição aquecida por um fogo fumacento em que a lenha era esterco de animais. Depois de alguns minutos, após se acostumar ao fedor acre e ao ardor da fumaça nos olhos, percebeu do outro lado do cômodo, uma jovem magra com um bebê no colo. Rapidamente percebeu: foi num ambiente como esse que o Senhor Jesus nasceu.

Quando eu li este relato gastei algum tempo para digerir as imagens. Porém logo tive de discordar. É um quadro chocante para nós ocidentais, que cozinhamos com muito asseio, mas eu me lembro de minha infância em que, por diversas vezes, em um campo missionário novo, para o qual meu pai fora designado, que minha mãe precisou armar uma trempe – fora da casa – e eu a ajudei a acender o fogo. Só não usamos esterco, pois era fácil achar gravetos. O esterco era queimado à noite, em pequenas quantidades, para espantar, muriçocas ou carapanãs.

Porém, meu maior ponto de discórdia não foi a descrição do ambiente miserável. Ele descreveu um ambiente de habitação humana. Ambiente miserável sim, mas uma casa. Ao passo que não houve casa para o Senhor nascer. O texto sagrado diz que ele nasceu, foi enfaixado e deitado em uma manjedoura. A rigor, manjedoura pode ser apenas um coxo ou uma gamela, porém a leitura do texto de Lucas, nos leva a entender que o parto se deu em um local onde estava essa gamela. Portanto é de se supor que tenha acontecido em uma estrebaria: um ambiente de habitação animal. Lá o esterco não era usado com fins “nobres”, era simplesmente o dejeto dos animais. Esse foi o lugar que sobrou para que o Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Deus todo-poderoso, nascesse.

Não podia ser diferente. Ao encarnar-se ele tomou a natureza da criatura pecadora e pecaminosa, revoltada e rebelde contra ele. Criatura, cujos melhores atos, diante dele, são equivalente a trapos sujos de menstruação. Criatura, cuja situação não podia ser resolvida apenas com a frase “Está perdoada. Vai em paz.” Para que essa frase pudesse ser dita, era necessário um sacrifício muito maior. Infinitamente maior. Tão assustadoramente maior, que, apenas aquele que conhecia a extensão da ofensa, poderia dimensionar sua cura e prescrever seu remédio. E seu remédio começou no ato de assumir a natureza do homem rebelde, não contaminado pela rebeldia, mas sujeito a todas as desgraças que a rebeldia lhe impôs: Nascer desprezado por aqueles que ia salvar: Nascer no meio dos dejetos não apenas dos homens, mas também dos animais: Nascer em imundícia tal que já prefigurava a morte que lhe estava reservada.

Além da ilusão boba que os presépios modernos nos trazem, como colocar os magos na primeira noite, costumam também se parecer celeiros americano, desses que se vê em filmes, do que uma estrebaria oriental, com sua imundície característica e nos distrai da tragédia que aconteceu a nosso Senhor.

Sempre perguntei por que razão a providência divina determinou que ele nascesse assim. Creio que uma boa resposta é essa: Deus o humilhou. Na teologia diz-se que este foi o primeiro estágio de sua humilhação: nascer como servo. Entretanto isso ainda não explica a estrebaria.

A melhor explicação que eu encontro ainda é alegórica. É como se o Senhor estivesse dizendo: Mesmo que seu coração seja imundo como uma estrebaria, cheio dos dejetos mais nojentos, eu farei dele a minha casa.

Imagine como era a estrebaria quando ele nasceu lá e compare com o que era seu coração quando você se tornou sua morada. Havia diferença? Aliás, há diferença? Você mantem seu coração livre dos dejetos do pecado, ou continua obrigando o Senhor a conviver com eles?

Aleluia! Glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra à quem ele quer bem!

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal globalizado

Os efeitos da chamada globalização foram tantos, que, de vez em quando, ainda aparece algum.

Hoje um investidor do mercado de capitais se assusta com um espirro financeiro de qualquer pequeno país que faça parte da rede financeira mundial..

Mas, se esses efeitos são tão claros na economia, por que se fala tão pouco deles na religião? Pra mim eles são mais claros na religião. Veja a Festa de Natal como exemplo: países não cristãos, que usam outro calendário, comemoram o Natal:

Israel recebe turistas com o cumprimento Mo’adim Lesimkha (Feliz Natal) e as comunidades judaicas no mundo tiveram de reavivar a celebração da Chanukah para que seus filhos não ficassem fascinados pela festa cristã.

Na Índia os enfeites das casas dos poucos cristãos se multiplicam nos shoppings, e a maioria das empresas com filiais ou sedes no ocidente dão folga, e até bônus, a seus funcionários, o que engrossa o comércio nas feiras livres.

A China, embora tão fechada ao ocidente, se vê obrigada a trabalhar mais para atender a demanda das “lembrancinhas de natal” aumentando os míseros Yuans dos trabalhadores.

No Japão, xintoísta e budista, porém muito mais ocidentalizado, é praxe se cumprimentar com “Meri Kurisumasu” (equivalente Merry Christmas) e a troca de presentes já é tradicional entre amigos.

Quanto aos países árabes veja um pedaço de uma matéria da BBC de 2005:

Apesar da profunda ligação do Egito com a história do nascimento de Jesus Cristo – José e Maria fugiram para o país para escapar de Herodes – o Natal não tem raízes profundas num país em que quase 94% da população é muçulmana.

Os cristãos coptas – uma das mais tradicionais denominações do cristianismo – comemoram o Natal, mas com um simbolismo diferente do ocidental e seguindo o antigo calendário ortodoxo, que coloca a festa no dia 7 de janeiro. [...] Em outros países árabes menos abertos ao Ocidente, a comemoração do Natal não é tão ostensiva, mas o Egito costuma ser mais receptivo a estas influências.

Relatos na imprensa internacional indicam que Cristãos estão tendo mais liberdade para comemorar o Natal em diversos países muçulmanos do Golfo, com a exceção da Arábia Saudita, onde “práticas não-islâmicas” podem ser duramente punidas.

Em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o governo relaxou recentemente as regras a respeito de celebrações religiosas que não sejam muçulmanas e autorizou a inédita apresentação, na rua, de uma peça teatral sobre o nascimento de Cristo.

O Líbano também tem comemorações devido a presença de uma grande população cristã.

De modo geral os países árabes são os que mais restringem as comemorações natalinas.

Temos de admitir que o pouco conteúdo religioso desses festejos é fortemente maculado por superstição e mito. Entretanto, você há de concordar comigo, que mais uma vez o mundo está sendo avisado da vinda de Jesus.

A Palavra de Deus diz que os homens são indesculpáveis perante Deus: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.20).

Diz também que a “Grande Comissão” já foi cumprida: 1) “E eles [os apóstolos], tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam” (Mc 16.20). 2) “...não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro” (Cl 1.23).

Cabe-nos mantê-la cumprida!

Pessoalmente creio que não estamos dando conta. Quem sabe, em sua grande misericórdia a festa do Natal, mesmo desvirtuada (como o sermão de Jonas) não seja mais um modo de ainda dizer ao mundo que Jesus se fez um de nós?

sábado, 18 de dezembro de 2010

Mais do que pedimos ou pensamos

Ora, àquele que é poderoso
para fazer infinitamente mais
do que tudo quanto
pedimos ou pensamos...
Efésios 3.20

Por dever de ofício tenho de acompanhar algumas pessoas em situações difíceis até de descrever, e algumas vezes tenho de tolerar outras que, para não ficar muito bravo, é necessário pedir a Deus dose extra de paciência.

Ainda me lembro do brilho no rosto de Dona Joselita quando me aproximei de seu leito: “Graças a Deus! O senhor veio me buscar”. Falou com os olhos marejados e fôlego curto.

A dignidade dos seus oitenta anos, estampada na pele vincada e brunida pelo sol, estava sendo abalada de forma mais humilhante do que a tosse e o pigarro nojento dos muitos cigarros de palha faziam, pois num leito duma enfermaria lotada e quente, onde, apesar de dois ventiladores de teto soprarem tudo o que era leve, muitas moscas aborreciam a todos. E ela estava coberta apenas por um lençol, que, de tão vagabundo, permitia ver que vestia apenas uma fralda geriátrica.

Antes de terminar de recitar aos seu ouvido o Salmo 23 ela já repetia com todas as forças que seu fôlego lhe permitia: “Pastor, leva eu! Leva eu, pastor! Leva eu, leva eu, leva eu...”.

Fiz das tripas coração e orei as poucas palavras que consegui. Eu sabia que quem a levaria seria o verdadeiro pastor. Aquele do qual sou apenas o servo. Dois dias depois a levou.

Ainda me lembro de um noivo, que, empolgado com o casamento do príncipe inglês – há muito tempo atrás – insistia em se casar vestido com uma farda semelhante a dele.

Nem reservista ele era. Havia ficado no excesso de contingente, mas seu sonho, que embaraçava a noiva e mostrava sua infantilidade era aquele. Insistiu no sonho e nem a noiva o quis mais.

No versículo transcrito acima, o Apóstolo Paulo se refere a coisas mais profundas do que as necessidades desta vida. Mesmo que seja fôlego.

Leia o texto todo e veja que ele se “colocou de joelhos” para que possamos compreender o amor de Cristo e sermos tomados de toda plenitude de Deus.

Isso se tornou possível a partir da encarnação de nosso Senhor.

No artigo passado eu falei que o Verbo de Deus, assumindo nossa natureza, tornou-se a última Palavra de Deus. Não há outra. Hoje quero enfatizar que ele tornou possível a verdadeira comunicação com Deus. Se tornou a única possibilidade de nos comunicarmos com ele.

Em que sentido então ele faz mais do que pensamos ou pedimos?

A maioria de nossas preocupações são semelhantes às do rapaz que desejava casar-se vestido de príncipe. Quando temos problemas reais, oramos desesperados pedindo fôlego.

Pois bem: Ele faz mais do que isso. Ele nos dá fôlego eterno e “... o Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão pelos séculos dos séculos” (Ap 22.5).

domingo, 12 de dezembro de 2010

Tristezas e alegrias próprias de dezembro

Dezembro é prenúncio de férias e de festas, bem como certeza de calor e correria.

Com a expectativa das férias o ânimo se renova e aparece novo fôlego para aguentar um pouco mais de um ano que, passou tão rápido, mas pareceu tão comprido e penoso.

Com a expectativa das festas as listas de presentes chegam aos pais, que precisam balancear-lhes o peso com o de seus salários e com o peso da montanha de impostos e despesas que os espreitam na esquina de janeiro.

Você conhece combinação pior do que calor com correria? Geralmente ela se associa à impaciência, que também aparece do nada nas filas, mais comuns e mais lentas, em dezembro.

Para mim, dezembro é um mês difícil. Difícil e triste.

Mas não tire conclusões precipitadas. Não estou reclamando, tampouco maldizendo, e apesar do que me entristece – e que explicarei no final – dezembro também me traz muitas alegrias.

Os diversos relatórios que tenho de examinar, resumir e divulgar, me alegram. Afinal, eles mostram o quanto o rebanho, sobre o qual o Senhor me constituiu pastor, trabalhou durante o ano.

Os próprios relatórios que tenho de fazer também me alegram. Eles mostram o quanto fiz e o quanto deixei de fazer e sugerem estratégias para o próximo ano.

Fico alegre também em presentear. São poucos presentes que posso dar. Especialmente se comparado aos muitos queridos com que Deus me presenteou. E esses poucos são mais utilidades do que regalos. Mas fico alegre em presentear.

Fico alegre em ver minha família reunida. A mesa farta de coisas saborosas, de conversas descontraídas e alegres e especialmente de gratidão a Deus.

Mas, acima de tudo, me alegro por que esse dia foi reservado – dentre muitos – para trazer à memória o fato mais impressionante e incompreendido de toda história: o Verbo se fez carne. A Palavra de Deus – aquela que não lhe volta vazia, mas faz tudo o que lhe apraz – assumiu nossa natureza, e nunca mais se separará dela.

A palavra de Deus, agora, é Jesus. E Paulo nos ensina que nele há o “sim” de Deus.

Reunidos, nos convidemos mutuamente: “Ó vinde fiéis triunfantes e alegres ... Nasceu vosso rei o Messias prometido: ó vinde adoremos a nosso Senhor!” Nada é tão importante.

Mas... E a tristeza de dezembro?

Fico triste em ver que todos – os que acreditam nessa verdade ou não – estão atestando, sem se dar conta, a veracidade desse fato. Em outras palavras: minha alegria vem de tudo o que meu Senhor fez por mim e minha tristeza vem de tudo o que fazem contra ele.

Amontoam sobre si condenação sobre condenação. E pior: transformam o que deveria ser um simples ato de gratidão por ele ter adquirido nossa natureza em uma verdadeira festa pagã e em pretexto para libertinagem e coisas piores.

Entretanto, apesar dessa tristeza, jamais deixarei de me alegrar por tal maravilha. Então canto com alegria: “Nasce Jesus! Eis a mensagem celeste! Raia a luz da salvação, triunfante vem! Salve ó Cristo! Firma teu justo império! Gratos louvores anjos e homens deem!”

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A região da sombra da morte



O povo que andava em trevas
viu grande luz,
e aos que viviam na região da sombra da morte,
resplandeceu-lhes a luz.
Isaías 9.2


Não sei se Isaías conhecia o Salmo 23. Talvez conhecesse, pois além da transmissão oral entre os músicos do templo, um dos trabalhos dos escribas de Salomão era registrar a história e os escritos do próprio Salomão e de seu pai, que muitas vezes chegou a especificar, quem devia cantar determinado Salmo, em que dia, com que música, com que instrumento e em qual afinação.
Também não sei se Isaías conhecia o Livro de Jó. Mas sei que a expressão “sombra da morte”, que foi escolhida no texto acima para designar o lugar em que o Messias haveria de nascer, também foi usada diversas vezes por Jó.
Antes de Isaías falar da “região da sombra da morte”, onde o Messias haveria de nascer, Davi já a cantava. E, do que impressionava pelo terror ao patriarca Jó, Davi dizia que não o amedrontaria, pois a Bom Pastor estaria a seu lado.

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À sombra da morte moravam os que viviam na região que foi repartida por Deus à Zebulom e à Naftali. A mesma região, que o Senhor tornou desprezível, testemunharia o aparecimento da verdadeira Luz.
À sombra da morte sofriam sob cetro opressor, curvavam-se sob jugo pesado e a vara lhes machucava os ombros. Viviam tão aflitos quanto seus antepassados viveram debaixo do jugo dos midianitas.
À sombra da morte se acostumaram ao tumulto da batalha, ao som medonho das botas dos guerreiros e às roupas ensangüentadas.
À sombra da morte as únicas alegrias eram as do trabalho honesto e árduo da ceifa ou da desgraça do despojo.
À sombra da morte estavam todos aqueles sobre quem o “zelo do SENHOR dos exércitos” ainda não tinha resplandecido sua maravilhosa Luz.
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Mas a região da sombra da morte é descrita hoje por todos os jornais e vista em todos os noticiários. Se faz presente nos lugares mais inesperados e amedronta a pobres e ricos.
A única luz que dissipa a sombra da morte é aquela que “vindo ao mundo, alumia todo homem”. Aquela que é característica do Maravilhoso Conselheiro. Que é indomável, pois vem do Deus forte. Perene, pois procede do Pai da Eternidade. Benfazeja, pois expressa o amor do Príncipe da Paz.
A luz que dissipa a sombra da morte “resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela”.
À sombra da morte ainda vivem aqueles, que, mesmo desfrutando das benesses das regiões mais ricas e nobres da terra ainda não viram a verdadeira Luz.
À sombra da morte também vivemos nós os que andamos pelo vale com o Bom Pastor. Entretanto, diferentemente dos outros, a verdadeira Luz brilha sobre nós e, sendo lâmpada para nossos pés, nos mostra o caminho para fora deste vale tenebroso.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O que senti e do que estou certo

Vi luzes feéricas, enfeites - os mais coloridos - vi presentes lindos. Vi papéis picados forrando o chão e algodão imitando neve. Vi árvores muito verdes - sempre verdes - e até um presépio animado. Mas não vi a menor recordação do quanto nosso Senhor abriu mão para se fazer um de nós.

Ouvi belas músicas - daquelas que enchem os olhos de lágrimas - ouvi outras feias, com letras absurdas e melodias tolas. Ouvi cumprimentos, discursos e até sermões. Mas não ouvi a menor lembrança de que o Senhor se encarnou para salvar-nos de nós mesmos fazendo-nos justiça de Deus.

Senti cheiros mais doces do que incenso. Cheiro de chocolate quente e de pães recheados de frutas. Experimentei frutas de que só ouvira falar e outras que só aparecem no fim do ano. Mas, só de falar em cheiro de estrebaria, quem estava ao meu lado me chamou de chato.

Apalpei tecidos macios, peles fofas e sedas lisas. Mas o que veio a minha mente foi o pano grosseiro das faixas que enrolaram meu Senhor.

Contemplei paisagens lindas: nevadas, radiantes e estreladas. Contemplei pinturas, gravuras e belos desenhos. Mas nenhuma delas tirou de minha mente a lembrança de que a noite que recebeu meu Senhor foi tão comum que Herodes teve de indagar sua data.

Muitas lendas e muitos contos. Pouca, ou nenhuma, verdade. O verdadeiro significado de separar-se um dia para se comemorar “Deus conosco”, partilhando de nossa natureza, foi soterrado pelos interesses mais sórdidos de ganância e lucro.

Seja feliz (dizem, escrevem, cantam), compre aqui! Como se comprar fosse o caminho da felicidade. Que embuste!

Quero trazer à memória o que me dá esperança: A Misericórdia do Senhor - sem a qual todos nós seríamos consumidos, e, da qual, todas as demais, que se renovam a cada manhã, são apenas figuras - nasceu numa estrebaria e foi deitado numa manjedoura: seu primeiro passo em direção a cruz.

Quero trazer à memória o que me dá a certeza de que juntamente com ele tenho vida na presença do Pai.

Quero trazer à sua memória a mais forte das lembranças que eu puder reavivar: não uma história qualquer, mas a notícia de que Deus se fez homem para que nós fôssemos feitos seus filhos. Não apenas filhos de seu poder criador, mas, filhos de seu amor.

Feliz Natal!

Ao adquirir nossa natureza
o Senhor foi preservado do pecado.

Porém, a natureza que ele adquiriu
não foi a de Adão antes de ter pecado,
muito menos a que Adão teria se não houvesse pecado.
Mas aquela natureza a que nosso pai foi reduzido
após rebelar-se contra Deus.
A mesma com que nascemos
e a mesma que nos faz inimigos de Deus.
Aquela da qual se diz: “éramos, por natureza, filhos da ira”.

Ele não hesitou tomá-la por amor dos seus,
como não se envergonha de ser chamado nosso irmão.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A manjedoura e a cruz

Entre a manjedoura e a cruz não houve muita diferença. As duas são os símbolos máximos da humilhação do Senhor: na manjedoura ele experimentou nossa natureza e dores análogas às que a maldição do Criador impôs à mulher. Na cruz ele experimentou os tormentos do inferno em favor daqueles que o Pai lhe deu.

A manjedoura fala de extrema pobreza. Pobreza que se contentou com o conforto que o lugar onde os animais se alimentam pôde proporcionar a quem saiu do aconchego do ventre materno e, de súbito, foi exposto a um meio hostil.

A cruz fala de maldição. Para ela iam os piores criminosos e os mais reles escravos: os malditos dos homens. Agrava-se, pois o Pai prometera que também consideraria maldito todo aquele que nela fosse dependurado.

A manjedoura fala do começo da vida comum a todos os descendentes de Adão. Vida maculada pelo pecado: biologicamente sujeita ao envelhecimento, às dores, à morte e à decomposição. Espiritualmente, sujeita àquele e àquilo que é mau. Pior: sujeita ao “eu” (tirano implacável de todos os descendentes de Adão). Porém, dessa sina desgraçada - a contaminação do pecado - ele foi preservado.

A cruz fala do fim da vida física comum a todos os descendentes de Adão: a morte. Vitória da entropia que a tudo desliga pondo fim a energia que anima o cérebro - expressão física da alma - ou cadencia o coração - responsável pelo transporte de alimento e pelo coleta do lixo de cada parte do corpo. Disso ele não foi poupado.

Mas a cruz também fala da separação da alma de seu corpo. E aqui está a maior diferença entre a manjedoura e a cruz, pois a esse respeito ele prevaleceu inaugurando uma nova criação, não sujeita a carne ou sangue, mas ao Espírito vivificante.

Na cruz está latente a manjedoura e na manjedoura já pode ser vista a sombra da cruz.

Como se não bastasse o homem já ser indesculpável perante Deus, ele ainda comemora o Natal. E provavelmente não encontraremos um que não tenha pelo menos uma idéia do que ele representa.

Mas, ao comemorar não comemora-se apenas uma possível idéia alegre anunciada pela manjedoura, comemora-se também as tristezas da cruz, que fazendo sombra sobre o menino envolto em faixas, faz bendita sombra também sobre todo aquele que nesse menino encontra o Pai e terrível escuridão sobre quem não a toma sobre si.

Ao encontrarmos a manjedoura esbarramos na cruz. Ao encontrarmos o menino que foi agasalhado no seio de Maria, encontramos também o homem que teve seu lado traspassado por nós.

Portanto, não nos alegremos com o Natal se não estivermos dispostos a receber a cruz que o segue.

 

Na manhã da ressurreição
um anjo convidou as mulheres
a entrar na sepultura em que o Senhor estivera.

Na noite de seu nascimento,
após a mensagem dos anjos,
os pastores se convidaram mutuamente: “vamos até Belém”.

Esses dois convites ainda são feitos
e constituem-se na essência do Evangelho.

Tão importante quanto ver o túmulo vazio
é ver a manjedoura habitada.
É impossível crer em um sem crer na outra.
Enquanto a manjedoura nos fala de Deus habitando conosco,
o túmulo vazio nos fala de nossa habitação com ele.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Vou a Belém

Neste Natal vou a Belém. Não a Belém do Pará. Muito menos a Belém da Palestina. Vou à mesma Belém a que os pastores foram na noite em que os anjos os avisaram do nascimento de Jesus.

Não vou precisar de carro, muito menos de avião para chegar lá. Mas também não vou a pé. Vou em espírito. Calma! Não sou místico nem afeito a essa embromação de nossos dias, mas vou em espírito.

Não vi nenhum anjo, muito menos uma milícia deles. Mas ouvi, nas Sagradas Escrituras, o convite que eles fizeram uns aos outros depois do impressionante anúncio que receberam sobre o nascimento de Jesus.

Não vi nenhuma estrela nos céus, além das que me fascinam todas as noites. Mas li nas Escrituras Sagradas que alguns sábios entenderam que uma delas anunciava o nascimento de Jesus.

Então, vou a Belém.

Infelizmente não tenho ouro, nem incenso, e, pra falar a verdade, nunca vi mirra. Mas, como os pastores, que não tinham o que levar, além de um coração disposto a ver o que Deus tinha dado a conhecer, vou a Belém.

De antemão já sei que vou encontrar uma estrebaria. Provavelmente alguns animais e um casal com seu primeiro filho. Mas sei que esse menino é na realidade o Filho de Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade que esvaziou-se de algumas de suas prerrogativas divinas e assumiu nossa natureza, a fim de reconduzir-nos à posição para a qual fomos criados e da qual nos afastamos rebeldes contra nosso Criador.

Tenho plena convicção de que não encontrarei nada de extraordinário, como luzes, coro de anjos e todas essas coisas que a imaginação de artistas bem intencionados costuma colocar no presépio, mas nunca me esquecerei dos momentos que passarei diante daquele menino.

Vou a Belém apenas par adorá-lo. Não com cânticos, pois nem minha voz, nem o mais belo dos cânticos é digno dele. Tampouco com instrumentos, pois, além de não saber tocar qualquer deles, mesmo que possuísse a capacidade musical e a destreza dos grandes mestres, jamais conseguiria compor ou tocar qualquer peça que merecesse sua atenção.

Vou a Belém com o coração aberto. No chão. Mais disposto a receber do que a dar algo que não possuo, pois tudo o que tenho me foi dado por ele.

Vou a Belém, durante o culto na Igreja e durante a ceia que estamos preparando em casa. A cada hino com meus irmãos da Igreja me lembrarei de que estou ali por que ele nasceu. A cada alimento saboroso que desfrutarei com meus queridos, me lembrarei de que vivo não apenas de pão mas de toda palavra que sai da boca de Deus. E ele, o menino da manjedoura, é a verdadeira Palavra de Deus, a última com que ele nos falou e a única que não lhe volta vazia.

Por esse e muitos outros motivos vou a Belém.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Não sou ingênuo

Não sou ingênuo ao ponto de achar que Papai Noel representa o Natal, e que sem o Papai Noel não há como relembrar do Natal. Mas também não sou ingênuo ao ponto de achar que ele me impede de comemorar a encarnação do Verbo Divino.

Não sou ingênuo ao ponto de crer que com poesias, peças de teatro, festas, ou uma audição do Messias de Haendel - ou de outro oratório de natal qualquer - terei comemorado o Natal. Jamais! Eles podem até trazer a impressão de que me esforcei bastante. Mas se eu não me esvaziar de mim mesmo, como o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores o fez, mesmo que a manjedoura seja o prenúncio da cruz, jamais terei sequer atinado com o verdadeiro motivo que o trouxe ao tabernáculo que vivo.

Não sou ingênuo ao ponto de achar que em 25 de dezembro comemorarei 2007 anos do nascimento de Jesus. Sei que a data não é essa. Porém não sou ingênuo ao ponto de achar que, por não saber a data exata, tudo que eu fizer, alegrando-me pelo seu nascimento, será errado e incorrerei no seu desagrado.

Não sou ingênuo ao ponto de achar que ele ficará tanto mais alegre comigo quanto mais exageros eu fizer, mais trabalhos eu tiver, e mais - dos recursos que ele mesmo me deu - eu gastar, para presentear e festejar seu nascimento, e depois viver o ano todo como se ele não existisse.

Não. Não sou ingênuo.

Sou, na verdade, culpado. Culpado de levar meu Senhor a tanto para me resgatar. Porém, vou celebrar sim. Celebrar com gratidão ele ter adquirido minha natureza.

E, como sei que ele se agrada mais de um coração contrito, do que de qualquer outra coisa, no momento de maior alegria, terei cuidado de colocar aos pés da cruz, ou melhor, ao lado da manjedoura, toda minha gratidão. Então, ela será tão preciosa quanto o ouro, e tão especial quanto o incenso e a mirra.

sábado, 15 de dezembro de 2007

O natal e o nascimento de Jesus

Quem comemora apenas o natal, comemora a possibilidade de gastar um pouco mais. Afinal o tal “espírito natalino de generosidade” é apenas uma faceta a mais do velho e perverso consumismo.

Quem comemora o nascimento do Deus-Homem, comemora o inusitado, o inaudito: Deus fazendo-se semelhante à suas criaturas para, redimindo-as, fazê-las cumprir o propósito original para que foram criadas.

 

Quem comemora apenas o natal, completa o tal “espírito natalino de generosidade” entregando-se, com dissolução, a uma alegria efêmera vinda da comida e da bebida, ou de coisas piores. E declara, sem dar-se conta do que está confirmando debochadamente, que o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores - diante de quem se dará de toda palavra frívola (Mt 12.36) - nasceu.

Quem comemora o nascimento do “Deus-Conosco” alegra-se na esperança de que a maior festa que possa fazer será nada, comparada com a que celebrará, com ele e com todos os queridos que já estão com ele. Porém não deixa de ser um antegozo, se feita para seu louvor.

 

Quem comemora apenas o natal, degrada o sacrifício eterno, que não se limitou à cruz, mas começou na manjedoura, exatamente com um comportamento oposto às pompas, luxo, usura e devassidão com que uma mídia insensata e uma multidão supersticiosa a tratam.

Quem comemora o nascimento daquele que é a “expressão exata do Pai” dobra-se ajoelhado diante de tal mistério e de tal pessoa, e, sem saber como, mas crendo na promessa e na misericórdia - essência de seu proceder - oferta o ouro de suas posses, o incenso de seu louvor e a mirra de sua vontade alquebrada, aos pés de seu Senhor, ao dispor de sua vontade.

 

Quem comemora apenas o natal, faz sua própria vontade, atende seus próprios desejos, gasta para promover-se, presenteia para ser lembrado ou para receber outros em retribuição, ou, ainda, para acalmar uma consciência cheia de cicatrizes de remorso pelo que não fez de bom o ano inteiro.

Quem comemora o nascimento daquele em quem “habita a plenitude da divindade” esvazia-se de si mesmo, como ele fez, e presenteia mais com o coração do que com bolso. Mais com o amor mais do que com o interesse. Mais de si mesmo do que daquilo que o dinheiro pode adquirir.

 

Quem comemora apenas a natal, entrega-se a símbolos supersticiosos e comerciais de coisas que nunca fizeram parte daquele momento sublime e chega a idolatrá-las e as vezes a impô-las.

Quem comemora o nascimento daquele que “não se envergonha de ser chamado nosso irmão” - apesar de sermos menos do que nada, e muitas vezes desonrarmos sua amizade - tem os motivos certos para alegrar-se, festejar, e depositar tudo aos pés do Rei dos reis e Senhor dos senhores.

 

Que neste natal tenhamos a sabedoria de, nos momentos mais efusivos, manter nosso pensamento em seu real significado, e sermos gratos. Gratos, pelo grande amor como que fomos e somos amados.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Dois convites

Bem cedo um anjo do Senhor removeu a pedra que selava o sepulcro onde jazia seu corpo. Tão fantástica e tão assustadora era seu aspecto que os guardas romanos, apavorados, "ficaram como se estivessem mortos".

O anjo se dirigiu às mulheres, e sua primeira palavra foi "não temais". Depois de afirmar que o Senhor havia ressuscitado, lhes convidou a sanar a dúvida dizendo: "vinde ver o lugar onde ele jazia".

Cerca de trinta e quatro anos antes, um anjo do Senhor apareceu, tarde da noite, a uns pastores, que cuidavam de seus rebanhos nos campos. Sua primeira palavra a eles também foi "não temais". Porém continuou: "eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura".

Mal acabou de falar e uma enorme quantidade de anjos - literalmente: o exército celestial - respondeu em uníssono: "Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem".

Bradaram e desapareceram.

Atônitos os pastores concluíram "Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer".

Na manhã de sua ressurreição o anjo convidou as mulheres a entrar na sepultura em que o corpo do Senhor estivera. Na noite de seu nascimento, após a mensagem dos anjos, os pastores se convidaram mutuamente: “vamos até Belém”.

Esses dois convites ainda são feitos e constituem-se na essência do Evangelho. Tão importante quanto ver o túmulo vazio é ver a manjedoura habitada. É impossível crer em um sem crer na outra. Enquanto a manjedoura nos fala de Deus habitando conosco, o túmulo vazio nos fala de nossa habitação com ele.

Os pastores convidaram-se mutuamente, pois um nascimento é coisa corriqueira, já uma ressurreição é algo tão fantástico que o anjo mesmo insistiu no convite. Eles deveriam procurar pelo menino que estava lá. As mulheres deveriam constatar que aquele mesmo menino, agora crescido, não estava mais lá.

Entretanto os lugares que deveriam ser visitados eram notáveis: uma manjedoura e um sepulcro. No sepulcro ele deixa a vida conforme nós a conhecemos e inaugura um “novo e vivo caminho” para a vida mais plena. A vida da qual esta é apenas sombra. Na manjedoura, esvaziado de si mesmo ele torna-se um de nós. Em outras palavras: ele assume nossa vida em uma manjedoura e assume a vida celestial em um túmulo.

E como dizia o hino de Paulo sobre esse “grande mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória” 1Tm 3.16.

Cabe-nos, certos de que o túmulo está vazio, nunca nos esquecer do convite: “vamos até Belém, e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer”. Tais acontecimentos que começaram naquela manjedoura, hoje, também vazia, têm repercussão eterna, pois nos convidam meditar na vida além do túmulo.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...