sábado, 12 de dezembro de 2009

A manjedoura e a cruz

Entre a manjedoura e a cruz não houve muita diferença. As duas são os símbolos máximos da humilhação do Senhor: na manjedoura ele experimentou nossa natureza e dores análogas às que a maldição do Criador impôs à mulher. Na cruz ele experimentou os tormentos do inferno em favor daqueles que o Pai lhe deu.

A manjedoura fala de extrema pobreza. Pobreza que se contentou com o conforto que o lugar onde os animais se alimentam pôde proporcionar a quem saiu do aconchego do ventre materno e, de súbito, foi exposto a um meio hostil.

A cruz fala de maldição. Para ela iam os piores criminosos e os mais reles escravos: os malditos dos homens. Agrava-se, pois o Pai prometera que também consideraria maldito todo aquele que nela fosse dependurado.

A manjedoura fala do começo da vida comum a todos os descendentes de Adão. Vida maculada pelo pecado: biologicamente sujeita ao envelhecimento, às dores, à morte e à decomposição. Espiritualmente, sujeita àquele e àquilo que é mau. Pior: sujeita ao “eu” (tirano implacável de todos os descendentes de Adão). Porém, dessa sina desgraçada - a contaminação do pecado - ele foi preservado.

A cruz fala do fim da vida física comum a todos os descendentes de Adão: a morte. Vitória da entropia que a tudo desliga pondo fim a energia que anima o cérebro - expressão física da alma - ou cadencia o coração - responsável pelo transporte de alimento e pelo coleta do lixo de cada parte do corpo. Disso ele não foi poupado.

Mas a cruz também fala da separação da alma de seu corpo. E aqui está a maior diferença entre a manjedoura e a cruz, pois a esse respeito ele prevaleceu inaugurando uma nova criação, não sujeita a carne ou sangue, mas ao Espírito vivificante.

Na cruz está latente a manjedoura e na manjedoura já pode ser vista a sombra da cruz.

Como se não bastasse o homem já ser indesculpável perante Deus, ele ainda comemora o Natal. E provavelmente não encontraremos um que não tenha pelo menos uma idéia do que ele representa.

Mas, ao comemorar não comemora-se apenas uma possível idéia alegre anunciada pela manjedoura, comemora-se também as tristezas da cruz, que fazendo sombra sobre o menino envolto em faixas, faz bendita sombra também sobre todo aquele que nesse menino encontra o Pai e terrível escuridão sobre quem não a toma sobre si.

Ao encontrarmos a manjedoura esbarramos na cruz. Ao encontrarmos o menino que foi agasalhado no seio de Maria, encontramos também o homem que teve seu lado traspassado por nós.

Portanto, não nos alegremos com o Natal se não estivermos dispostos a receber a cruz que o segue.

 

Na manhã da ressurreição
um anjo convidou as mulheres
a entrar na sepultura em que o Senhor estivera.

Na noite de seu nascimento,
após a mensagem dos anjos,
os pastores se convidaram mutuamente: “vamos até Belém”.

Esses dois convites ainda são feitos
e constituem-se na essência do Evangelho.

Tão importante quanto ver o túmulo vazio
é ver a manjedoura habitada.
É impossível crer em um sem crer na outra.
Enquanto a manjedoura nos fala de Deus habitando conosco,
o túmulo vazio nos fala de nossa habitação com ele.

3 comentários:

Alex Malta Raposo disse...

Parabéns pelo blog.

Textos muito abençoados.

Já estou seguindo e estarei sempre visitando para beber dessa água.

Forte abraço.

alexmaltta.blogspot.com
Evangelho da Graça

folton nogueira disse...

Obrigado Alex. Seja para o glória de nosso Senhor e, por favor, me inclua em tuas orações.
ab
Fôlton

Maria disse...

olá, pastor! Sou a Lucia, de Teresina.
encontrei seu blog pelo blog do pr. samuel.
Nesta manhã em q o mundo está voltado para um festejo 'sem sentido', foi maravilhoso ler que "na manjedoura já pode ser vista a sombra da cruz" e que não "dá pra crer em um sem a outra".
Obg por ser um intérprete das coisas do Reino para nós (ou melhor-para mim).
um grande abraço saudoso, pastor!
No amor do nosso Senhor!
lucia

meu mail: marialvino@hotmail.com