sábado, 5 de maio de 2012

Salmodia exclusiva

Vez por outra me questionam como mantenho minha confissão de fé reformada sem ser adepto de uma salmodia exclusiva. Pra falar a verdade eu gostaria de ser. Mas não vejo como.

Sei que Calvino contratou um poeta para metrificar os 150 Salmos e sei que a Assembleia de Westminster também o fez. Mas, sem desmerecer esses gigantescos feitos nenhum deles conseguiu reproduzir as melodias.

Mas, antes de falar das melodias há alguns pontos que devem ficar claros com relação às letras:

1º - As metrificações empobrecem os conteúdos e ao tentar enriquecê-los cai-se fatalmente na paráfrase. Correndo o risco de dizer um absurdo: ou se faz uma transcriação poética ou se canta em hebraico, pois metrificação nenhuma conseguirá fazer justiça ao conteúdo de um Salmo. Para isso é que existe a pregação!

2º - Eu não conheço todos os Saltérios existentes, mas tenho acompanhado os esforços feitos em nosso país para se cantar os Salmos e talvez o mais consistente ainda seja “Salmos e Hinos” que metrificou 44 Salmos. Mas, por exemplo, não posso dizer que o texto do Salmo 1 esteja totalmente contemplado em sua metrificação correspondente. Pior: em lugar algum do Salmo se fala da volta de Jesus descendo dos céus, como vemos na estrofe 7 da metrificação. Ou seja: houve mais do que uma interpretação.

No outro extremo pude ver os esforços de Vencedores por Cristo, que anos atrás tentou cantar diversos Salmos, tão fielmente quanto possível fosse à Edição Revista e Atualiza de Almeida, e cito como exemplo o Salmo 145.1-2 que resultou no cântico conhecido como “Exaltar-te-ei ó Deus meu e rei”, que, não sei por qual razão o emendaram com o Salmo 24.7-10: “Levantai ó portas as vossas cabeças”.

Desconheço um trabalho que faça jus integralmente aos Salmos. Note: não estou dizendo que não exista. Mas, aqui entre nós, duvido que se consiga fazer.

3º - A necessária cristianização dos Salmos. Todos os Salmos foram escritos antes da plenitude dos tempos. Antes de nosso Senhor se fazer um de nós. Dificilmente haverá um Salmo que não esteja escrito no tempo futuro ou não manifeste uma intenção ou uma cosmovisão que expresse um Messias esperado. Entretanto a Igreja vive em outra dispensação: Para nós o Messias já veio. Não há mais sentido em cantar “Eu te louvarei Senhor ...”, pois agora já o louvamos. Agora cantamos “Eterno Pai teu povo congregado, alegre entoa teu louvor aqui” ou “Estamos reunidos aqui Senhor por que temos conhecido teu amor”. Agora já cantamos aquele cântico novo que era tão esperado pelos antigos.

Com cântico novo não estou me referindo à forma, mas ao ângulo com que vemos a história. Àquilo que Jesus falou a seus discípulos: “... muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não ouviram” (Mt 13.17).

No que diz respeito às melodias, é necessário atender a alguns valores Bíblicos. Um pequeno exemplo: solenidade (Sl 92.3), agradáveis, reverentes e cheias de santo temor (Hb 12.28). Isso contrasta com os valores de muitas melodias atuais, que vão desde a irreverência mais grossa e absurda dos pagodes, funks e raps, até a frivolidade de se cantar algo tremendo como a volta do Senhor (que exige uma melodia pungente) com uma cantiga de roda em “Então se verá o Filho do Homem”.

Por fim, tenho visto um silogismo que alguns atribuem a Agostinho, outros a Calvino e outros a algum teólogo do passado, e até agora não descobrir o verdadeiro autor, apesar de ter pesquisado muito, mas, é mais ou menos o seguinte: “Somente a palavra inspirada por Deus é digna de ser cantada em seu louvor”.

Eu não posso concordar com essa afirmação. Se concordasse eu só poderia orar o Pai Nosso, ou outra oração registrada na Bíblia. Se tenho total liberdade de dirigir-me a ele em oração, com minhas próprias palavras, por que razão devo me ater ao texto sagrado ao cantar? E se argumentarem que ao cantar um hino estou usando as palavras de outra pessoa, replico com Jonathan Edwards: “não é o que fazemos quando acompanhamos a oração de alguém?”

Finalmente, como posso restringir os cânticos da Igreja aos 150 Salmos, se Israel não estava restrito a eles? Você está lembrado do cântico que Deus mandou Moisés compor e que devia servir de memória para as gerações futuras? Não era um Salmo, era o que os hebreus chamavam de “shir” e foi traduzido para o grego por “ode”. Leia Deuteronômio 31 e 32. Pois bem: Esse cântico não faz parte dos 150 Salmos e conhecemos bem o único Salmo de Moisés que está naquela coleção, que é o 90. Entretanto, ele será relembrado por ninguém menos que o Senhor Jesus. Veja Apocalipse 15.1-3. Repito: Coerentemente, o Senhor Jesus está cantando um hino (ode) e não um Salmo (Mizmor).

Concluindo, eu gostaria de cantar mais Salmos. Mas gostaria de cantar também mais coisas boas.

10 comentários:

Ewerton B. Tokashiki disse...

Amado Rev Folton

Este é um texto que eu gostaria de ter escrito! Parabéns pela clareza e coerência.

Em Cristo,
Ewerton B. Tokashiki

Dantas disse...

Muito bom testo pastor. Mas fico pensando pensando no esforço que alguns homens do passado fizeram para se cantar coisa boa. Que nos presente não fazemos. Por exemplo: Calvino não cotratou para musicalizar os Salmos, ainda que que provalmente não usou a mesma melodia original dos salmos, e inspirado é a letra e não a melodia, e nós sabemos que quando os salmos foram compostos não existia ainda uma linguagem musical como temos hoje para preservar a melodia. Mas nós esquecemos que Calvino também contratou professores de música para musicalizar as crianças. E com isso ele atingia pelo menos três objetivos, nsinavas pois cantava os textos Biblicos, envanlizava porque criança gosta de mostrar em casa, elas mostravam o texto biblico e prepara uma igreja musica. E o quanto investimos em música hoje? Entao precisamos cantar musicas das comunidades da vida. Estou terminando a gravaçao de um CD, na minha igreja, bem caseiro, mas fazer isso foi o maior sacrificio em todos os aspectos. se queremos musica boa precisamos investir.

Ricardo Manha disse...

Pastor Fôlton,

realmente precisamos de investimentos em música.
Esforço-me para não ser tão repetitivo nas liturgias, pois há hinos tão ruins que eu não consigo cantar.

Abraços,

Ricardo

Carlos Puck disse...

Caríssimo e raríssimo. Saudações. Mesmo. Resumiu. E disse tudo. Que leiam. Que aprendam. Que entendam. E que se recreiem em compor poemas (odes) ao Senhor, a fim de mostrar que os reformadores não passaram em vão por aqui...

folton nogueira disse...

Dantas,

Grato pelos elogios. Que Deus seja louvado em todos eles.

Eu não tenho muita certeza de que Calvino "tenha contratado professores de música para musicalizar crianças". Se você tem a fonte dessa informação, por favor, me envie, pois um assunto com o qual estou envolvido é tentar recriar o ensino da Igreja de Genebra dos dias de Calvino.

Agora, concordo totalmente com você: Enquanto não investirmos PESADAMENTE na formação de másicos o que colheremos será cada vez pior.

abraços
Fôlton

folton nogueira disse...

Caro Ricardo, que saudades,

Espero que tudo esteja bem contigo e com teus queridos.
Você tem toda razão. Alguns hinos - do nosso hinário - não deviam estar lá. E outros, não sei por que não entraram.

ab
Fôlton

Ludgero Morais disse...

Rev. Folton

Precioso texto e tremendamente oportuno. Vivemos em dias de caos liturgico. Por um lado os "criativos", que querem um culto ao sabor do gosto popular, da cultura circundante, ou da imposição da maioria ("o povo gosta"). Por outro lado os que preferem o compromisso com as Escrituras, no entanto interpretam os textos confessionais, quando tratam do "cântico dos salmos", sem levar em consideração a interpretação que da os Princípios de Liturgia da IPB, que falam de "cânticos sagrados".

Bom lembrar do hinário usado pelos presbiterianos por décadas - os Salmos e Hinos.

Nem Calvino conseguiu cantar os Salmos. Cantou paráfrases dos Salmos, forcado pela metrificação. Pior ainda o que fazem hoje. Tomam o Saltério de Genebra e tentam traduzir a paráfrase dos Salmod para o português. O resultado, via de regra e desastroso. Cante, por exemplo o Salmo 1 com a letra feita para nossa língua - os acentos melódicos divorciados dos acentos das palavras.

Calvino entendeu que a música era serva da letra e no Saltério em inglês, por exemplo se verifica isto. Uma letra que se encaixava perfeitamente aa música, composta exclusivamente para aquela letra.

Para que isto ocorresse em português, seria necessário a composição de um nova música. Do contrario haverá sempre o divorcio da letra com a música composta em outra língua.

A paráfrase enfitada por Calvino, traduzida para o português, distancia de tal forma do texto bíblico, que não se pode, sequer, reconhece-lo.

Nossos irmãos, que defendem a salmodia exclusiva, apegados ao Saltério de Genebra, estão criando um mostro musical, com algumas excessos, entre elas, os salmos que temos no Hinário Novo Cântico. Felizes versões, mas, ainda assim, não eh o texto bíblico.

Parabéns Folton pelo excelente texto. Posso publica-lo?

Do hospital....

Seu

Ludgero

folton nogueira disse...

Caro Ludgero,

Publique-o a vontade para a glória de nosso Senhor, a quem todos nós estamos orando para que o tire desse hospital o mais breve possível.

Abraços
Fôlton

Manuuuh disse...

Eu tenho medo de odes porque o Bardo Chatorix (das estórias de Asterix, o gaulês) toda vez que tentava entoar uma ode à isto, ou uma ode àquilo, ele era escorraçado e lançavam contra ele todos os produtos da feira e eventualmente um peixe cheirando à ranço. Brincadeiras à parte, o artigo foi sensato e direto ao ponto: nos perguntamos se louvoristas sabem o que vêm cantando, à semelhança do Eunuco da rainha de Candace. Parece que a música em primeiro lugar, a palavra relegada a segundo plano.

Rev.Mauro Silva disse...

Eu penso diferente... penso que, para quem não quer se dar ao luxo de examinar outras fontes e/ou obras pertinentes (Minorite Report et al), o referido texto já seria de bom grado. Por isso é que, ele agrada a todos. Enquanto à afirmação de que, "Dificilmente haverá um Salmo que não esteja escrito no tempo futuro [...]". Tal afirmação é sem dúvida um descaso para com o uso do pretérito ou imperfeito (yaqtul), o qual é usado nas narrativas poéticas para descrever uma situação passada (Cf. Seow, p.225) e não futura. Com à evolução da língua hebraica, às vogais curtas desapareceram, e por isso, a forma do imperfeito (yaqtulu) tornou-se idêntico ao pretérito (yaptul). Um outro indicio a ser observado nos Salmos (mizmor le'david) é o uso do termo Hiné (Behold in English), também utilizado nas prosas narrativas para descrever de Past-time Narrative Sequence (See Ross, p/ 136, 137).
Mauro Silva