quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Um pecado leve?

Nascido em um lar protestante sempre ouvi que pecado é pecado e não existe pecadinho e pecadão. Todos são iguais diante de Deus. Esse ensino é parcialmente explicado pelo contexto em que os protestantes se afirmaram no Brasil, sofrendo forte oposição da Igreja de Roma que ensinava, e ainda ensina, que há pecados mortais e pecados veniais (dignos de vênia, como dizem nossos juristas. Dignos de desculpas).

O ensino é parcialmente explicado também pela leitura fora da “analogia da fé” do seguinte texto de João: “Se alguém vir a seu irmão cometer pecado não para morte, pedirá, e Deus lhe dará vida, aos que não pecam para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que rogue” (1Jo 5.16). Porém o texto não está falando da qualidade intrínseca do pecado, mas da posição em que o pecado está na vida da pessoa, pois todos os pecados demandaram a morte de nosso Senhor Jesus Cristo. Neste aspecto todos são iguais.

Porém, falando em pecado, há que ressaltar:

Primeiro: Nosso catecismo diz que alguns pecados são mais odiosos diante de Deus do que outros, em razão de 1) quem os comete, 2) de quem é ofendido, 3) da qualidade da ofensa e 4) das circunstâncias em que a ofensa foi cometida. Quem se interessar mais por essas qualificações pode encontrar uma exposição farta nas perguntas 150 e 151 do Catecismo Maior de Westminster. Entretanto estão em minha pauta como assuntos futuros.

Segundo: Quando olhamos especificamente o Antigo Testamento encontramos diversas palavras traduzidas por pecado, mas, por peculiaridades comuns à língua hebraica, há nuança de sentido entre elas e uma delas é shagá que aparece, em formas derivadas, no Levítico quando se trata dos Pecados por Ignorância (veja Lv 4.2, 22 e 27).

O profeta Ezequiel usa essa mesma palavra para descrever o estado das ovelhas sem pastor, que simplesmente vão se afastando à medida que pastam: “As minhas ovelhas andam (Literalmente: ERRAM) desgarradas por todos os montes e por todo elevado outeiro; as minhas ovelhas andam espalhadas por toda a terra, sem haver quem as procure ou quem as busque” (Ez 34.6). Observe que o verbo andar aparece duas vezes, mas a segunda vez, em hebraico, está escrito literalmente “foram dispersadas”.

O profeta Isaías apresenta uma das razões para este tipo de pecado: a embriaguez: “Mas também estes cambaleiam (Literalmente: ERRAM) por causa do vinho e não podem ter-se em pé por causa da bebida forte; o sacerdote e o profeta cambaleiam (Literalmente: ERRAM) por causa da bebida forte, são vencidos pelo vinho, não podem ter-se em pé por causa da bebida forte; erram (Literalmente: ERRAM) na visão, tropeçam no juízo” (Is 28.7).

Salomão alerta: Deixar de ouvir a instrução leva a esse tipo de erro: “Filho meu, se deixas de ouvir a instrução, desviar-te-ás (Lit. ERRARÁS) das palavras do conhecimento” (Pv 19.27).

E em um assunto, que, pela prática ele conhecia muito bem, pergunta: “Por que, filho meu, andarias (Lit. ERRARIAS) cego pela estranha e abraçarias o peito de outra?” (Pv 5.20) e contrasta com o comportamento natural que é esperado do marido para com a esposa amada “Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade, corça de amores e gazela graciosa. Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te (Lit. ERRA) sempre com as suas carícias” (Pv 5.18-19).

Veja bem: É uma só palavra, porém sua tradução, que tem como núcleo errar, demanda uma série de aplicações diferentes. Alguém mais afoito pode dizer então: é um pecado tolerável, já que uma possibilidade de tradução é “erro cometido sem intenção”. Entretanto, volte ao capítulo 4 do Levítico e observe que mesmo este erro demandava o sacrifício de uma vítima. Ou seja: por este tipo de erro nosso Senhor morreu. O salário deste tipo de pecado também foi a morte. Neste sentido ele é igual aos demais.

4 comentários:

Felipe F.Lopes disse...

Muito instrutivo, por mais que a gente saiba, graças a Deus sempre poderemos aprender um pouco mais.

Anônimo disse...

Nunca entendi bem esta passagem de (1Jo 5.16). Poderia me explicar? O contexto refere-se a crentes que pecam para a morte? O que exatamente é isso e como se dá? Obrigado. Moises

folton nogueira disse...

Moisés,
Espere um pouco e escreverei sobre o assunto. Esta semana viajarei para falar na Semana da Fé Reformada na 1a IP Vitória. Logo que voltar começarei a esboçar o assunto.
Ab.
Folton

Anônimo disse...

Muito obrigado Pastor Folton. Ficarei atento. Abs
Moises