sábado, 23 de maio de 2015

A sabedoria (Parte 1)

Na Bíblia, ser sábio não é o mesmo que ser culto. A sabedoria é sempre mostrada como uma "atitude".

A seguir um belíssimo texto que enaltece (e, de certa forma, descreve) a sabedoria.

A sabedoria

1A sabedoria está clamando,
o discernimento ergue a sua voz;
2nos lugares altos, junto ao caminho, nos cruzamentos
ela se coloca;
3ao lado das portas, à entrada da cidade, portas adentro,
ela clama em alta voz:
4A vocês, homens, eu clamo;
a todos levanto a minha voz.
5Vocês, inexperientes, adquiram a prudência;
e vocês, tolos, tenham bom senso.
6Ouçam, pois tenho coisas importantes para dizer;
os meus lábios falarão do que é certo.
7Minha boca fala a verdade,
pois a maldade causa repulsa aos meus lábios.
8Todas as minhas palavras são justas;
nenhuma delas é distorcida ou perversa.
9Para os que têm discernimento, são todas claras,
e retas para os que têm conhecimento.
10Prefiram a minha instrução à prata,
e o conhecimento ao ouro puro,
11pois a sabedoria é mais preciosa do que rubis;
nada do que vocês possam desejar compara-se a ela.
12Eu, a sabedoria, moro com a prudência,
e tenho o conhecimento que vem do bom senso.
13Temer o SENHOR é odiar o mal;
odeio o orgulho e a arrogância,
o mau comportamento e o falar perverso.
14Meu é o conselho sensato;
a mim pertencem o entendimento e o poder.
15Por meu intermédio os reis governam,
e as autoridades exercem a justiça;
16também por meu intermédio governam os nobres,
e todos os juízes da terra.
17Amo os que me amam,
e quem me procura me encontra.
18Comigo estão riquezas e honra,
prosperidade e justiça duradouras.
19Meu fruto é melhor do que o ouro, do que o ouro puro;
o que ofereço é superior à prata escolhida.
20Ando pelo caminho da retidão,
pelas veredas da justiça,
21concedendo riqueza aos que me amam
e enchendo os seus tesouros.
22O SENHOR me criou como o princípio de seu caminho,
antes das suas obras mais antigas; 23fui formada desde a eternidade,
desde o princípio, antes de existir a terra.
24Nasci quando ainda não havia abismos,
quando não existiam fontes de águas;
25antes de serem estabelecidos os montes e de existirem colinas
eu nasci.
26Ele ainda não havia feito a terra, nem os campos,
nem o pó com o qual formou o mundo.
27Quando ele estabeleceu os céus,
lá estava eu;
quando traçou o horizonte sobre a superfície do abismo,
28quando colocou as nuvens em cima e estabeleceu as fontes do abismo,
29quando determinou as fronteiras do mar
para que as águas não violassem a sua ordem,
quando marcou os limites dos alicerces da terra,
30eu estava ao seu lado, e era o seu arquiteto;
dia a dia eu era o seu prazer
e me alegrava continuamente com a sua presença.
31Eu me alegrava com o mundo que ele criou,
e a humanidade me dava alegria.

32Ouçam-me agora, meus filhos:
Como são felizes os que guardam os meus caminhos!
33Ouçam a minha instrução, e serão sábios.
Não a desprezem.
34Como é feliz o homem que me ouve,
vigiando diariamente à minha porta,
esperando junto às portas da minha casa.
35 Pois todo aquele que me encontra,
encontra a vida e recebe o favor do SENHOR.
36 Mas aquele que de mim se afasta,
a si mesmo se agride;
todos os que me odeiam
amam a morte.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Je ne suis pas Charlie


Praticamente todo o ocidente está dizendo: Je suis Charlie e pra falar a verdade, dá vontade de dizer também. Afinal, quem não se comoveu com o acontecimento terrível? Porém, há o que pensar.

É tido como certo que a violência decorreu das charges publicadas pelo semanário. Foi uma vingança. Não apenas das últimas, que me pareceram mais ofensivas aos cristãos, mas de tantas outras que marcaram a história do jornal.

A charge deforma o assunto exagerando alguma característica peculiar, ridicularizando uma situação, ou argumentando ad absurdum. A charge vale-se do burlesco, da sátira, da paródia e do duplo sentido para apresentar pessoas ou acontecimentos no limite entre o risível e o infame. Não é incomum encontrar quem, retratado numa charge, sinta-se difamado. Aliás, foi isso o que aconteceu com as primeiras charges, feitas no século XIX: Governantes poderosos sentiram-se difamados e os chargistas amargaram a prisão.

É muito difícil estabelecer a "honestidade" de uma charge. A que apresenta objetivamente uma situação ridícula poderia ser considerada "honesta". Entretanto, a que transpira os conceitos subjetivos do autor pode ser perfeitamente uma provocação ou mesmo uma difamação.

As muitas inaugurações da mesma obra feita por um político pode ser um ótimo tema para uma charge, mas mostrar o profeta dos muçulmanos engajado em um beijo homossexual dificilmente servirá para alguma coisa além de produzir ódio.

Salomão nos ensinou que "Pois assim como bater o leite produz manteiga, e assim como torcer o nariz produz sangue, também suscitar a raiva produz contenda" (Provérbios 30.33), ora é exatamente isso que os chargistas mortos faziam.

Em hipótese alguma quero justificar a morte deles. Os atiradores estão totalmente errados. Porém, o que poderia se esperar de um povo educado desde cedo a desejar morrer em guerra? O que aconteceu em 2005 na Dinamarca, onde cerca de 50 pessoas morreram, após as charges publicadas no Jyllands Posten, não serviu de advertência?

Ora, a decantada liberdade de expressão, tão cara as sociedades democráticas, e mais especialmente aos irresponsáveis, nunca será superior ao senso comum, acumulado em milênios de civilização que também nos ensina: "quem fala o que quer, ouve o que não quer". Muito menos supera às palavras de quem criou a humanidade: "Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo; porque, pelas tuas palavras, serás justificado e, pelas tuas palavras, serás condenado" (Mateus 12.37-37).

Vivemos dias em que o errado é apenas o que contraria a lei ou costumes bem estabelecidos. Mas, paradoxalmente hoje é quase uma obrigação agredir os costumes. Ser rebelde tornou-se desejável e necessário a formação do jovem, e sinal de criatividade no adulto. Portanto, hoje, o deboche, o escárnio e a difamação, mesmo contrariando leis e costumes bem estabelecidos, procuram abrigo sob o manto da criatividade, do humor e especialmente da "liberdade de expressão".

Para o cristianismo, antes das leis e antes dos costumes vem o pecado. Determinada ação, ou comportamento, mesmo não sendo ilegal, nem agredindo qualquer costume bem ou mal estabelecido, pode ser pecado. Para o cristianismo o pecado manifesta-se também nas palavras: faltar com a verdade, promover o engano, difamar a Deus e o nosso próximo são pecados claramente estabelecidos nas Sagradas Escrituras. E qualquer tipo de promoção da mentira está filiada diretamente ao inimigo de nossas almas: "Ele [o diabo] foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira" (João 8.44).


Portanto, eu não posso dizer "Je suis Charlie". Lamento, deploro e abomino o que aconteceu aos chargistas e a seus companheiros, mas não posso concordar com o que eles faziam. Igualmente reprováveis são os assassinos e espero que, os que ainda estiverem vivos, sejam colocados sob os magistrados e paguem por seus atos.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Carta ao leitor

Caros amigos,

Estou em um processo de mudança para outra cidade, portanto ficarei alguns dias sem postar. Por favor, orem por mim. Espero voltar o mais breve possível com novidades no Blog.

Abraços

Fôlton

sábado, 29 de novembro de 2014

Despedidas

Os diversos relatos de despedidas contidos na Bíblia, por mais pungentes que sejam, são feitos com sobriedade. Quem de nós não sentiu, entre as linhas do texto, a dor do velho Abraão ao ser obrigado a despedir Agar e a seu primogênito Ismael? Ou quem não surpreendeu-se com a pronta decisão de Rebeca em acompanhar Eleazar e despedir-se de sua família?

De fato, as despedidas são momentos muito mais ricos do que as chegadas. Nelas, ainda que não percebamos, fazemos uma espécie de balanço e nos preparamos para prosseguir a vida.

De tão importantes, os discursos registrados na Bíblia por ocasião dessas despedidas foram catalogados como um verdadeiro sub-estilo literário, onde se vê 1) a convocação dos fieis, 2) anúncio da partida, 3) uma rememoração histórica do que Deus fez, 4) exortação à fidelidade, 5) alertas sobre os perigos por vir, 6) promessas e palavras de estimulo, 7) renovação de votos, 8) apresentação do sucessor e 9) oração.

Este é o esquema da despedida de Moisés (Dt 31-33), da despedida de Josué (Js 23-24), da despedida de Samuel (1Sm 12), da despedida de Davi (1Cr 28-29), da despedida de Paulo aos presbíteros de Éfeso (At 20)...

Ainda que um pouco fora dessa ordem, a segunda carta que Paulo escreveu a Timóteo também pode ser vista como um grande discurso de despedida. Porém, o discurso de despedida por excelência é o de Jesus conforme o registro de João (13-17).

Pois bem: depois de um período de onze anos é hora de partir, mas não quero fazer qualquer discurso ou cerimônia de despedida. Um adeus (onde quem fala recomenda seu ouvinte a Deus) é suficiente.

Há algum tempo ressoa em meus ouvidos as palavras de um velho professor: “mais importante do que a hora de chegar é saber a hora de partir”. Mais cedo ou mais tarde todos nós partiremos. Se não para ali, sem dúvida, para o além; e a despedida, que poderia ser controlada, e com a qual se pode crescer, torna-se surpresa da qual dificilmente se extrai algo de bom.

Que Deus nos poupe de tanto!

Levo a convicção, proveniente de uma boa consciência, de que conduzi o rebanho do Senhor à pastos verdes e águas tranquilas, tal como ele ordena a seus pastores.

Levo saudades daqueles com quem dividi momentos de alegria e de dor, de nascimento e de morte, de admoestação e de recuperação. Como deixar do lado de fora do coração os que moram nele? Como esquecer-me dos que são as verdadeiras memórias?

As orações nos acompanharão e a saudade será nossa testemunha diante de Deus.

Um último pedido: Não coloquem a Palavra de Deus em segundo plano, pois ela é o único e verdadeiro alimento de nossas almas e sob seu padrão é que prestaremos contas a Deus.

sábado, 15 de novembro de 2014

Palestinos e Judeus

Desde fúria cega das bombas lançadas por palestinos e por judeus na guerra de algumas semanas atrás, até os ataques individuais feitos pelos palestinos,  com carros, tratores, motocicletas, ou com o próprio corpo coberto de explosivos, revelam uma fúria impossível de ser descritas.

Esse estado de beligerância, em que o ódio parece respingar, não é novo. A Bíblia atesta sua antiguidade. O primeiro contato entre palestinos e judeus é do tempo de Abraão. Os dois Abimeleques (provavelmente pai e filho) relatados em Gênesis capítulo 20 e 26, que foram iludidos por Abraão e Isaque, respectivamente, eram filisteus.

É bom lembrar que a palavra “palestina” se deriva da palavra hebraica para invasor, ou divisor (a mesma que deu origem a Pelegue, filho de Heber (Gn 10.25), que nasceu quando a terra foi repartida). A palavra tem duas formas: uma com P, originária do hebraico (de onde vem a forma portuguesa “palestinos”) e outra com F do árabe, que não possui o som P (de onde vem a forma ladina “filistines” e francesa “Philistins”). Eles invadiram a região que a Bíblia chama de filístia, vindo de Caftor (Creta). Veja o que diz o profeta Amós (9.7): “Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e de Caftor, os filisteus”?

Parece que na época do êxodo já eram belicosos, pois Moisés registra que Deus não conduziu Israel pelo caminho mais curto, da terra dos filisteus, para que “o povo não se arrependa, vendo a guerra, e torne ao Egito” (Ex 13.17).

Certamente naqueles dias eles já habitavam a Faixa de Gaza, pois o mar daquela região era conhecido como o “mar dos filisteus” (Ex 23.31) e em Dt 2.23 encontramos: “também os caftorins que saíram de Caftor destruíram os aveus, que habitavam em vilas até Gaza, e habitaram no lugar deles”.

Eram descritos como povo valente, forte e alto (Dt 2.20-21) e, quando Josué estava velho, Deus se referiu ao lugar em que viviam, como terra “não conquistada” (Js 13.2). Diz também que os cinco príncipes filisteus – “o de Gaza, o de Asdode, o de Asquelom, o de Gate e o de Ecrom” (Js 13.3) – foram deixados pelo SENHOR, para “provar a Israel” (Jz 3.1-3).

Durante os 400 anos dos juízes houve muitos enfrentamentos. Sangar, um dos juízes, notabilizou-se em luta contra eles (Jz 3.31), mas Israel chegou a adorar seus deuses (Jz 10.6). Quem mais se destacou na luta contra eles foi Sansão, que, apesar de casado com uma filisteia (Jz 14.1-4), os enfrentou: incendiou suas plantações (Jz 15.3-6) e arrancou os portões de Gaza, a principal cidade deles (Jz 16.1). Traído por Dalila, que estava a serviço deles, foi preso. Furaram seus olhos e o levaram, como trofeu, para o templo do principal deus do panteão filisteu, Dagom. Lá conseguiu derribar os pilares do templo, matando seus príncipes (Jz 16.19-30).

Nos dias de Samuel os filisteus tomaram a Arca da Aliança e a colocaram no templo de Dagom como despojo. Deus os castigou tanto que a enviaram de volta. Nos dias de Saul não deram trégua. 

Dominavam os arredores com armas de ferro, o que lhes dava grande vantagem. Cerca de setenta anos depois de Sansão apareceu o filisteu Golias, que foi morto por Davi. E alguns anos depois, na luta contra eles, desesperado, o primeiro rei de Israel, Saul, se matou.

O segundo rei de Israel, Davi, além de vitórias sobre eles, obteve o respeito de alguns ao ponto de serem usados como seus guardas pessoais (veja 2Sm 8.18, 15.18, 20.7, 20.23 na versão Almeida Corrigida que fala de Peleteus: uma derivação da palavra filisteus: provavelmente uma tribo menor dentre eles).

Continuaram inimigos dos demais reis de Israel e de Judá. Algumas vezes Israel os dominava (2Cr 17.11), outras vezes era vencido (Is 9.12).

O território chamado de filístia (terra dos filisteus) é também chamado de Faixa de Gaza, tendo a cidade de Gaza por Capital, sendo que seus limites variaram com o tempo. Gaza, de modo particular, e os filisteus, de modo geral, foram objeto das profecias de Jeremias (47.1-7), Amós (1.6-7), Sofonias (2.4) e Zacarias (9.5-6).

No período inter-testamentário sabemos que a cidade de Gaza foi vencida e ocupada sucessivamente por Alexandre, o grande, por Jonatas Macabeu e por seu irmão Simão. Por Alexandre Janeu, por Pompeu (que a submeteu à jurisdição romana da Síria) e por Gabínius, que após destruí-la totalmente reedificou-a em outro lugar.

A palavra filisteu(s) não aparece no Novo Testamento, mas foi na estrada de Jerusalém a Gaza que Filipe encontrou o Eunuco de que Lucas fala (At 8.29-40).

Apesar de grandemente danificada pelos judeus em 65 AD, Gaza chegou a ser, décadas depois, um bispado cristão e em 634 caiu sob o domínio muçulmano.


Não encontramos em toda Bíblia uma só profecia, promessa, bênção ou boa palavra sobre o futuro dos filisteus. Ao contrário, são muitas as profecias sobre a ira do SENHOR e sua espada sobre eles. Porém, hoje sabemos que em Cristo eles também serão tornados filhos de Abrão. Aí entenderemos o significado da profecia de Isaías: “Uiva, ó porta; grita, ó cidade; tu, ó Filístia toda, treme; porque do Norte vem fumaça, e ninguém há que se afaste das fileiras. Que se responderá, pois, aos mensageiros dos gentios? Que o SENHOR fundou a Sião, e nela encontram refúgio os aflitos do seu povo” (Is 14.31-32).

sábado, 8 de novembro de 2014

Os que vos presidem bem

Depois do dia de Pentecostes alguns convertidos permaneceram em Jerusalém e muitos voltaram para suas cidades de origem onde estabeleceram igrejas. Este deve ter sido o início de Igrejas como a de Roma. Lucas nos informa (At 28.13-14) que encontraram “alguns irmãos” em Putéoli (próximo a atual Nápoles) e que foram recebidos pelos crentes de Roma na Praça de Ápio.

Até o fim do primeiro século temos notícias de pelo menos 50 igrejas em diversas cidades desde Jerusalém a Roma. Dentre essas, temos detalhes em Atos dos Apóstolos, das igrejas na Galácia, Filipos, Tessalônica, Corinto e Éfeso e pelas cartas de Paulo sabemos algo das igrejas em Colossos, Laodicéia e Creta. O Apocalipse fala das 7 igrejas na Ásia menor.

Portanto, em cerca de 60 anos – de 40 a 100 AD – podemos catalogar umas cinquenta igrejas diferentes, fundadas em situações diferentes, em cidades diferentes, falando idiomas diferentes, com poucas coisas em comum: todas dentro do império romano e todas usando um sistema de governo semelhante.

Sobre essa primeira característica comum, veja aqui uma análise que fiz em agosto de 2011. Quanto à segunda característica, Lucas nos diz que a Igreja de Jerusalém tinha Apóstolos (At 8.1, 11.30, 15.1, etc.) e presbíteros (At 15.1). Também tinha diáconos, pois os 7 homens (At 6.1-7) foram eleitos com missão de servir às mesas.

O ofício de Apóstolo foi tão restrito aos Doze chamados por Jesus, quanto o patriarcado foi restrito aos filhos de Jacó. Além dele temos apenas Matias e Paulo (que, como os dois filhos de José, foram agregados ao patriarcado também). Os textos em que outros são chamados apóstolos (Barnabé em At 14.14 e Tiago, o irmão do Senhor, em Gl 1.19) são claramente lato sensu. Seria como dizer que Moisés e Josué foram patriarcas de Israel. Só houve uma substituição entre os doze: Judas. Quando o último apóstolo morreu considerou-se extinta a época deles e os que ousaram identigicar-se como apóstolos foram expostos como obreiros fraudulentos, ministros de Satanás (2Co 11.4-15) e mentirosos (Ap 2.2).

Os presbíteros são explicitamente mencionados nas Igrejas de Listra, Icônio e Antioquia (At 14.21-23), Éfeso (At 20.17), Creta (Tt 1.5) e nas diversas igrejas do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1Pe 5.1 em conjunto com 5.5). A palavra presbítero basicamente significa idade mais velha, porém seu uso mais comum refere-se à maturidade. A Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) usou diversas palavras derivadas da raiz presb: velhos (Sara e Abraão), ou líderes (os auxiliares de Moisés). No Novo Testamento (NT) refere-se aos membros do Sinédrio, aos seres celestiais do Apocalipse, e principalmente a certos líderes cristãos, encarregados de supervisionar e pastorear a Igreja (At 20.28, 1Pe 5.1-3, etc.).

A palavra diácono aparece 34 vezes (5 vezes na Septuaginta) com o sentido básico de serviço (os servos no Livro de Ester, o maior no reino dos céus, os serventes na festa de Caná, etc.) Porém, em cinco lugares ela claramente refere-se a um ofício na Igreja (os que preenchem as qualificações dadas a Timóteo (1Tm 3.8-10) e aquele a quem a Carta aos Filipenses foi endereçada (Fp 1.1). Os primeiros diáconos foram eleitos na Igreja de Jerusalém (At 6.1-6).

O texto bíblico menciona bispos nas Igrejas de Éfeso e FIlipos e indiretamente na de Creta (quando Tito recebe instruções). A palavra episkopos e suas correlatas (de onde veio nossa palavra bispo) era usada desde a Grécia clássica para designar aquele que supervisiona, superintende, vela ou vigia por algo (Artemis vigiava pela fidelidade dos contratos). É mais usada na Septuaginta (14 vezes) sempre com o sentido de ter o encargo de, comandar, superintender, inspecionar, do que no NT (5 vezes) onde significa basicamente pastorear. De todas as vezes fica a impressão de um presbítero que tinha uma incumbência específica.

É notável que durante todo esse tempo, em uma área com quase 5 mil quilômetros de extensão, igrejas de nacionalidades e idiomas  tão díspares, possuíssem forma de governo tão semelhante. Não pode ter sido apenas coincidência. Creio que a Doutrina dos Apóstolos incluía também uma alusão ao sistema de governo do Antigo Testamento em que os presbíteros já estavam presentes e os diáconos possuíam missão análoga à dos levitas.

Os presbíteros, que supervisionassem bem, deveriam ser dignos de honra (ou honorários) dobrados, especialmente os que se dedicassem ao estudo da Palavra de Deus e ao ensino (1Tm 5.17). Deveriam ser tidos em alta conta, ter sempre um voto de confiança diante de denúncias isoladas (mas, quando culpados, a disciplina deveria se pública, diante de todos).

Não podemos esquecer que eles receberam exortações pungentes sobre como exercer seus ofícios: Paulo diz que eles deveriam ter vidas tão ilibadas ao ponto de não serem passíveis de qualquer repreensão. Deveriam ser maridos de uma só mulher e pais de filhos dóceis. Irrepreensíveis, também, ofício do presbiterato. Afáveis, pacíficos, generosos, hospitaleiros, sóbrios, apegados à doutrina cristã, dispostos a defendê-la e a promover sua aplicação. Pedro ordena-lhes atender o rebanho com dedicação e liberalidade sem segundas intenções, especialmente financeiras. E João diz que devem ser comprometidos com a verdade.

Todas as qualidades estão relacionadas a cuidado e nenhuma delas a desempenho. Diferentemente de hoje, os líderes do povo de Deus, não são executivos dirigindo uma empresa ao sucesso. São homens santos cuidando de um rebanho que não lhes pertence.


sábado, 1 de novembro de 2014

Davi e os Salmos

No fim de sua adolescência, Davi recebeu de seu pai, a incumbência de levar alimento para seus irmãos que estavam no campo de batalha. O capítulo 17 do primeiro livro de Samuel nos conta que os dois exércitos estavam acampados em lados opostos de um vale, no qual o maior guerreiro dos filisteus, com quase 3 metros de altura, se apresentava diariamente e insultava o exército de Israel desafiando a que alguém o enfrentasse. O soldado mais alto de Israel era exatamente o rei Saul, que, como seus soldados, estava amedrontado.

Indignado com o medo de seu exército e com os insultos do guerreiro filisteu, Davi aceitou seu desafio. Era uma verdadeira temeridade: ele ainda era “um menino ruivo com bochechas rosadas”. 
Tomou 5 pedras no riacho e encarou o filisteu que irado perguntava: “sou acaso algum cão?”. Davi o venceu com uma pedrada na testa.

Após sua impressionante vitória, Davi passou a morar no palácio de Saul e tornou-se seu principal comandante. Foi aclamado e cantado como herói e destacou-se tanto que Saul passou a nutrir-lhe ciúmes e diversas vezes tentou matá-lo.

A vida de pastor ficou para trás. As guerras tornaram-se sua principal obrigação. Entre essa infância quase idílica, em que os maiores perigos eram os animais do campo, e uma juventude de dificuldades e guerras, Davi encontrava alento na música. Setenta e três, dos cento e cinquenta Salmos, foram compostos por ele. E, tenho por certo, que a maioria dos que ele compôs, compôs em sua velhice.

Veja, por exemplo, o Salmo 23. Exala saudades. É como se Davi, já velho, vendo o que Deus lhe permitiu fazer à Israel, seu segundo rebanho, relembrasse os cuidados que ele tinha com o rebanho de ovelhas de sua adolescência: Como nada faltava a meu rebanho, assim as ovelhas do SENHOR de nada têm falta. Como protegi meu rebanho assim Deus nos protege. Levei minhas ovelhas às boas águas e aos bons pastos, assim o SENHOR também faz. As veredas pelas quais conduzi minhas ovelhas foram apenas um vislumbre das “veredas da justiça” pela qual ele nos conduz. E como eu as protegi, mesmo nos locais em que a morte fazia sombra, ele nos protegeu também nos momentos mais perigosos.

E assim, Davi, pastor de dois rebanhos, relembrava-se e fazia de suas lembranças canções de louvor ao SENHOR.

No Salmo 139, além de seus dotes artísticos, aparece também sua teologia. Observe que é uma teologia profundamente arraigada em sua experiência com Deus. Ele começa falando do conhecimento de Deus e o expressa com os verbos sondar, saber, penetrar, esquadrinhar e cercar. Aquilo que ninguém conhece (a palavra não falada), é inteiramente conhecida por Deus. E, como conclusão, ele exclama: ”Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir”.

Seu segundo assunto é a onipresença de Deus e ele a expõe argumentando hipoteticamente sobre a impossibilidade de esconder-se de Deus: “Para onde me ausentarei de teu Espírito? Para onde fugirei de tua face?”. E a seguir propõe dois contrastes: O primeiro entre o mais alto e o mais baixo e o segundo entre o que está mais a leste e o que está mais a oeste.

Deus é Senhor do mais alto, dos céus (ou da vida), do mesmo modo que é Senhor do mais baixo, do profundo abismo (ou da morte). Igualmente é Senhor de qualquer lugar que possamos ir desde o nascente (alvorada) ao por do sol (noite).

Ele continua olhando a si próprio no terceiro assunto: a onipotência de Deus. Deus, literalmente, tomou posse de seus rins (lembre-se de que nesta época os rins eram vistos como hoje vemos o coração: órgão vital) e o teceu no ventre de sua mãe. Sendo que nesse local secreto, os ossos que ainda permanecem em segredo para todos nós, estavam claros e acessíveis a Deus. Antes de seu corpo ter um formato definido, Deus já havia formatado todos os seus dias, pensando muitíssimas vezes o que há de mais precioso a seu respeito.

Pois bem: como é que um Deus tão impressionante como este pode ser desdenhado? Como pode haver que seja seu inimigo? O que é que ele deve fazer a respeito de quem, dentro do povo de Deus, o aborrece?

Lembre-se que Davi era o representante máximo de Deus sobre Israel.

O ódio que Davi tinha desses ímpios era tão grande que ele teme pecar. Então ora: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno”.   

sábado, 4 de outubro de 2014

As Sagradas Escrituras sempre foram claras em falar da natureza heterogênea da Igreja. Por exemplo: "Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos. Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade” (Cl 3.9-13).
Essas ordens pressupõem a existência de tensões expressas através de mentiras e de malquerenças entre pessoas de nacionalidades (gregos, judeus, citas, que eram originários da Citia, região próxima ao Mar Negro, atual Cazaquistão) e condições sociais diferentes (escravos ou livres).
Isso era consequência da vida que eles tinham antes. Agora, a nova vida em Cristo os possibilita a não mentir e a “vestirem-se” de misericórdia, bondade, humildade, mansidão e longanimidade.
Dando instruções à seus discípulos, o Senhor Jesus advertiu contra problemas entre os membros da Igreja: “Se teu irmão pecar contra ti, vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano.” (Mt 18.15-17).
O próprio Senhor sabia que dentro da Igreja surgiriam desentendimentos. Afinal, apenas nosso espírito (que está pronto) foi regenerado. A carne (que é fraca) aguarda a ressurreição. Portanto, na medida em que a carne se sobressai os desentendimentos (e até brigas) passam a fazer parte da vida dos membros da Igreja.
E para resolver tais problemas o Senhor Jesus aponta dois caminhos: arguir o irmão ou denunciá-lo à Igreja.
Essa arguição, preconizada pelo Senhor, pressupõe o desejo mútuo de paz. O errado admite seu erro e o ofendido o perdoa. A frase “ganhaste teu irmão” indica que o objetivo da arguição deve ser positivo (restaurar, redimir) e não simplesmente repreender ou confrontar por confrontar. Certamente o Senhor tinha em mente o mandamento: “Não guardem ódio contra o seu irmão no coração; antes repreendam com franqueza o seu próximo para que, por causa dele, não sofram as consequências de um pecado” (Lv 18.17 NVI).
A recusa do faltoso leva a solução do problema à uma segunda etapa. Desta vez com uma ou duas testemunhas. O texto não deixa claro se o papel das testemunhas será observar e atestar a disposição do ofendido a corrigir o desentendimento ou pressionar o faltoso a admitir seu erro, ou ainda, as duas coisas. O certo é que algo que estava sendo tratado privadamente tornou-se público.
A terceira recusa do faltoso leva o problema a outro foro:  a Igreja. A interpretação imediata é que o faltoso seja denunciado à congregação, porém eu creio que é possível entender-se também à liderança da Igreja. Veja 1Co 6.5: “Para vergonha vo-lo digo. Não há, porventura, nem ao menos um sábio entre vós, que possa julgar no meio da irmandade?”. Nas Igrejas Presbiterianas o conselho de presbíteros recebe a queixa e transforma-se em tribunal para julgar o caso.
Finalmente, a quarta recusa do faltoso leva a uma ação drástica. Atualmente há duas interpretações para a expressão “considera-o como gentio e publicano”. A primeira defende que a igreja apenas mude seu modo de tratar com o faltoso: como se ele fosse um descrente. Uma paráfrase bíblica diz: “se ele também não ouvir a igreja, comece do zero, tratando-o como um descrente: alerte-o da necessidade de arrependimento e ofereça outra vez o amor perdoador de Deus” (A Mensagem).
Certamente essa é uma péssima exegese, pois além de introduzir diversos assuntos estranhos ao texto original descaracteriza o que o Senhor Jesus estabelece como uma pena pelas muitas recusas do faltoso.
A segunda interpretação, ao contrário, vê este tratamento como uma pena imposta ao ofensor (seja pela congregação, seja pela liderança), que deve ser observada por toda Igreja.
Ser tratado como gentio e publicano é o mesmo que excluído da comunhão com o povo de Deus.
A existência de conflitos na Igreja nos dá, pelo menos, duas lições: 1) É uma organização de pecadores que procuram viver uma vida cada vez mais santa, e 2) Ela se submete ao seu Senhor. Tanto para dizer quais coisas estão erradas, quanto para resolver o erro.

sábado, 27 de setembro de 2014

Caim e o verdadeiro culto

O que Caim esperava ganhar com a morte de seu irmão Abel? Mais riquezas? Mais respeito diante de seus pais ou de seus outros irmãos? Mais aceitação diante de Deus? Absolutamente nada. Mas, ele o matou. Por despeito e por vingança o matou. Vingou-se de que? De seu irmão ter feito um culto que agradou a Deus.

Os dois irmãos foram criados juntos e o que os distinguia era apenas a idade e a profissão. Caim, mais velho e mais experiente, lavrava a terra e dela tirava os frutos. Abel, mais novo, cuidava de ovelhas. Porém ambos foram criados pelos mesmos pais e certamente conheciam as determinações de Deus que lhes providenciou vestimentas de peles no lugar dos aventais de folhas que fizeram.

Certamente ambos se vestiam assim e assim compareciam em culto diante de Deus.

Como está escrito, “no fim de uns tempos...” eles foram cultuar a Deus por si mesmos. Sem a presença nem orientação dos pais. Esse gesto, que deixa qualquer pai moderno feliz, foi o ensejo para a desavença entre o lavrador e o pastor de ovelhas. Os dois só estavam de acordo na necessidade de cultuar a Deus: Caim, o lavrador, apresentou o fruto da terra e Abel apresentou as primícias e o melhor de seu rebanho.

O escritor da Carta aos Hebreus destaca a fé: “Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb 11.4).

O Apostolo João destaca o amor: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros; não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (1Jo 3.11-12).

Creio que a falta de fé levou Caim a um culto errado e a falta de amor a uma atitude errada.

Se os dois já sabiam que Deus determinara vestirem-se de peles – o que, sabemos hoje, era o prenúncio dos sacrifícios da Antiga Aliança e um tipo do sacrifício de nosso Senhor – como Caim poderia cultuar a Deus por suas forças, ou por qualquer outro modo não ordenado por Ele?

Caim deveria acreditar (ter fé) que era necessário apenas, e tão somente, o que Deus havia determinado, mas, ao contrário, orgulhosamente (sem amor) apresentou o que seu braço lhe alcançou: semeou, cultivou, colheu e transportou (seu irmão sequer precisou carregar a vítima).

O primeiro assassinato aconteceu por razões litúrgicas!

O correto obedeceu a Deus e foi aceito. O errado tentou fazer conforme sua própria vontade e foi rejeitado. O que seria de se esperar senão que o errado se arrependesse e passasse a fazer o certo? Entretanto o que ele fez? Matou quem estava certo!

Não é a toa que Judas nos fala do “caminho de Caim” (Jd 1.11). Por ele andam muitos. E, até hoje, andam por ele todos aqueles que tentam cultuar a Deus “segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás ... sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras”, como nos resume nossa Confissão de Fé.

Mas, voltando a pergunta inicial: Por que matou seu irmão? Matou porque seu irmão agradou a Deus com um culto simples. E o dele, tão trabalhoso, recebeu o desagrado de Deus.
Parece que o pecado “emburrece” o pecador. Você se lembra da Parábola dos Lavradores Maus? Desde quando matar o herdeiro lhes garantiria a herança? Desde quando é possível agradar a Deus fazendo o que ele não ordenou que fosse feito?


Sabemos que, por adorarem a criatura em vez do Criador, Deus entregou os homens a paixões infames para desonrarem-se mutuamente, homens com homens, mulheres com mulheres. Pois bem: Caim nos mostra que o culto errado nos leva à falta do amor verdadeiro.

sábado, 20 de setembro de 2014

A intenção e a prática

No Sermão do Monte o Senhor Jesus nos advertiu para um aspecto do pecado que geralmente não é levado em conta: a intenção. E, dos exemplos que ele usa dois se destacam: não matarás e não adulterarás.

No primeiro exemplo o Senhor nos ensina que não é necessário chegar às vias de fato, e tirar a vida de alguém, para quebrar esse mandamento. Basta nos irarmos, sem motivo, contra ele. Diante de Deus a intenção de matar é tão concreta quanto o assassinato em si. É claro que quem passa da intenção e pratica o assassinato “cristaliza” seu pecado e torna-se réu de pecado maior.

No segundo exemplo o Senhor nos ensina que não é necessário relacionar-se sexualmente com uma mulher para cometer adultério. Basta “olhar com intenção impura” e o mandamento terá sido quebrado.

No primeiro o Senhor está condenando o que hoje é chamado de “crime de ódio”. Entretano, no segundo está condenando algo que hoje é mostrado como desejável: a sensualidade.

Os que ficam irados com facilidade (os de “pavio curto”) devem vigiar-se muito mais e, submeter-se às orientações da Palavra de Deus; igualmente os que ficam abrasados com facilidade. Enquanto o pecado estiver na fase da intenção o resolveremos com Deus, mas quando ele se materializa, além de ofendermos a Deus, ofendemos também a nosso irmão.

Condenando também nossas intenções o Senhor nos mostra que ninguém está isento do pecado. Pecamos não apenas através de nossos atos (palavras ditas ou ações realizadas), mas também através de nossos pensamentos. É muito provável que nunca tenhamos tirado a vida de quem quer que seja, mas quem de nós pode dizer que nunca ficou irado contra alguém? É possível encontrar quem nunca tenha mantido relações sexuais fora de seu casamento, mas é impossível encontrar quem nunca tenha olhado para uma mulher “com intenção impura”. 

Talvez este último exemplo nos mostre com clareza uma das grandes diferenças entre os valores do cristianismo e de nossa sociedade. Veja:
1º - No pensamento moderno o que se faz com a própria vida não é da conta de ninguém. E, se houver consentimento mútuo, ninguém tem nada a ver com o que um casal faça. Entretanto não é assim diante de Deus. Para o Senhor, que tem autoridade sobre nós, pois além de nos ter criado, nos redimiu da condenação a que estávamos sujeitos, atentar contra a vida de alguém, mesmo que seja apenas em pensamento, já nos torna réus de um crime contra a vida. Para o Senhor, que nos comprou com seu sangue, manter um relacionamento sexual com quem ainda não nos casamos ou com quem está casada(o) com outra pessoa, mesmo que seja apenas na imaginação, ou fantasia, já nos faz impuros.
2º - O Senhor se referiu a mulheres porque estava falando à homens. O inverso é verdadeiro: olhar para um homem com “intenção impura” já é o suficiente para que uma mulher quebrar o “Não Adulterarás”.
3º - A intenção impura decorre da não existência de casamento. É simples assim: para o cristão a prática sexual só pode realizar-se dentro de um casamento. Fora do casamento a única opção é a abstinência (inclusive de intenções). O casamento santifica a prática sexual inclusive os desejos.
4º - O contexto é heterossexual, pois a homossexualidade em si já é outro pecado.
5º - O casamento resolve de modo santo as tendências heterossexuais e as transformas em glória ao Criador. Porém, a simples consumação das tendências homossexuais ofende ao Criador por ir de encontro ao seu projeto.

Embora todos nós tenhamos tendências homicidas ou adúlteras, graças a Deus, pouquíssimos de nós as praticam de forma contumaz. A Igreja tem obrigação de acolher quem luta contra essas tendências, ou quem, chegando a praticá-las, se arrependeu e quer viver vida nova. A Igreja de Corinto nos dá o exemplo: ”Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1Co 6.9-11).


Mas, além de acolher os arrependidos, salvos pelo Senhor, pela glória de Deus, pelo bem dos que lutam contra tais dificuldades, e pela pureza do rebanho, a Igreja tem o dever de manter-se vigilante contra os impenitentes que agem de forma contumaz.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...