sábado, 17 de maio de 2008

“Absurdos pentecostais” (Parte 1)

Como foi que, em nome do Espírito Santo, os evangélicos, outrora tão ciosos do nome que deveria ser zelado, chegaram à práticas absurdas como venda de “Sal da prosperidade”, “fronhas ungidas para trazer sonhos proféticos”, ou uso de “correntes de oração para alcançar vitórias”, e outras que, o só mencionar, é vergonha? Como chegou-se a isto?

Não seria difícil historiar o movimento pentecostal se o espaço não fosse tão pequeno. Então farei apenas um esboço, e disponho-me a fornecer todas as minhas fontes a quem quiser estudar mais.

Os primeiros absurdos estão registrados na própria Bíblia. Começaram com Ananias e Safira, que, invejando o dom da contribuição, fingiram possuí-lo e acabaram mortos por mentir ao Espírito Santo.

Logo depois há o caso de Simão. Mágico, ilusionista, impressionado com os milagres, propõe aos apóstolos comprar “esse poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos receba o Espírito Santo”.

Hoje não se espera a proposta dos modernos Simões. Pelo contrário: faz-se propostas a eles e cada vez mais - através de cursos, congressos, livros, apostilas, DVDs, e semelhantes - se estimula a que façam o que o primeiro desejava. Naqueles dias, Simão foi repreendido severamente por Pedro e foi advertido do perigo que corria.

Os demais absurdos registrados na Bíblia estão todos na Carta à Igreja de Corinto. De todas as Igrejas do Novo Testamento, apenas a de Corinto apresentava o que hoje chamaríamos de “problemas pentecostais”.

Apesar de ter sido fundada pelo próprio Paulo, algum tempo depois de sua partida estava fragmentada em partidos - pelo menos quatro - que se hostilizavam mutuamente.

Toleravam imoralidades terríveis, como o incesto, mas brigavam para ver quem era mais “espiritual”. Aliás, o nome de um dos partidos era “Os Espirituais”. Eles habitualmente menosprezavam quem não tinha os dons que julgavam mais importantes. Especialmente o dom de línguas.

Paulo os repreendeu severamente. Mostrou-lhes os erros em que incorriam, e lhes impôs freios tais, que até hoje são eficientes para coibir abusos.

Depois do período bíblico, até a Reforma Protestante, tais movimentos sucederam-se: Montano com suas duas discípulas, Priscila e Maximila (que alegava ser o porta-voz do Espírito Santo e completaria as profecias apocalípticas de João), os begardos, as beguinas, os cátaros, a Irmandade do Espírito Livre, Joaquim de Fiore e outros.

No século 16, os Reformadores os rotulavam de entusiastas, fanáticos, espiritualistas, frenéticos e libertinos (pois sempre eram acompanhados por um baixo padrão moral dos costumes).

No século 17 surgiram os Quackers, para quem a Bíblia estava sujeita “à interpretação da silenciosa voz interior do crente”. Deles, uma dissidência menos silenciosa, deu origem aos Shakers (os que sacodem ou que são sacudidos).

No século 18 apareceram os Grandes Avivamentos destacando a necessidade de se ter obrigatoriamente uma experiência pessoal (sentir) além da fé (crer). Aliás, para eles a tal experiência era o que provava a existência da fé. O resultado foi um cristianismo tão subjetivo que as doutrinas passaram a falar mais da experiência do homem do que do conteúdo da fé.

Daí pra cá, nunca se estudou, ou se escreveu, tanto sobre o homem e seus problemas. E hoje, mesmo diante da mais completa exposição do que é a verdadeira fé, se cobra uma “aplicação” relevante para o dia-a-dia do ouvinte, como se uma vida de fé não bastasse.

Todos esses absurdos podem ser vistos hoje e eles estão mais próximos de nós do que supomos. Às vezes, disfarçados com novas roupas, recebem nosso aplauso.

(Continua na próximo domingo)

5 comentários:

Jorge disse...

Caro Reverendo, apesar de ser membro de uma igreja pentescostal, há algum tempo tenho buscado conhecer a Teologia Reformada e, hoje, considero-me um cristão reformado. Nas pequenas tentativas que tenho feito através da EBD de mostrar um pouco mais sobre uma interpretação mais fiel à Palavra de Deus, sinto constantes dificuldades provenientes da resistência das pessoas em querer permanecer fugindo do conhecimento e do estudo sistemático da Bíblia, principalmente quando este as afasta das doutrinas em que foram ensinadas. Que o Senhor nos dê graça para não desistir de anunciar todo o conselho de Deus. Um abraço fraterno, de um leitor de seus escritos. Jorge

Marcelo Hagah disse...

Pastor Fôlton.

A graça e a paz do Senhor Jesus Cristo.

Não sou pentecostal. Sou batista, do tipo tradicional, um imersionista caxias, não falo em línguas e muitas vezes desconfio de irmãos que falam, do como falam, onde falam e porque falam, se é que falam pelo Espírito... Mas suas palavras neste post são muito ácidas a respeito dos pentecostais. Acredito que o senhor tenha motivos, alguns expostos no texto, para escândalo, mas não creio que os pentecostais sejam a origem de todos os males. Veja o caso de Ananias e Safira. Por que seriam eles pentecostais? Por que não tradicionais? O senhor sabe que nossos irmãos tradicionais (eu falo como batista) em geral são absurdamente desumanos e não-amorosos, dado que não trazem à casa do Senhor os dízimos regularmente e não ofertam, fazendo com que seu pobre pastor tenha que pagar juros do cartão de crédito, ou até perder o crédito porque seu salário não atrasou ou a comissão de patrimônio, estudando a questão, viu que não havia condições de dar um aumento ao pastor, embora o salário mínimo já tenha subido duas vezes, haja mais irmãos, etc... O tesoureiro na assembléia da igreja fala, com alegria, do saldo positivo para o mês seguinte enquanto seu pastor traz roupas velhas e sapatos velhos, e olha para seus filhos adolescentes com pesar... o senhor bem conhece isso. Os pentecostais, pelo que noto, são dizimistas bem felizes.
Já passei maus bocados nas mãos de alguns pentecostais, mas acredito que nós, os não-pentecostais, precisamos fazer um mea culpa. Não entendo por que Simão o Mago seria pentecostal. Pentecostal é evangélico, convertido, crente, cristão ou como quer chamar os seguidores de Jesus Cristo, àqueles que seguem a Bíblia e somente a Bíblia. Simão o Mago não era isso.
Entendo sua posição e concordo com sua opinião. Mas o nome do inimigo não é "pentecostal" ou "pentecoste". Não há dúvida que eles e nós precisamos buscar na Bíblia,somente na Bíblia, a verdade e, ao errarmos, podermos nos arrepender e voltar ao caminho.

Marcelo Hagah
João Pessoa-PB

folton nogueira disse...

Jorge;
Há um "espírito de época" (nenhuma alusão a seres espirituais) que induz os pensamentos, o comportamento e tudo o que contribui para o exercício do discernimento geral, que luta contra as verdades bíblicas e facilita a expressão da carnalidade inerente ao coração pecaminoso.

Fiquei alegre com tua observação. Espero outras (mesmo ácidas).

Ab
Fôlton

folton nogueira disse...

Marcelo;
Se você olhar com calma todas as mensagens que estão postadas no Blog, você verá o quanto foi difícil para mim postar essa última.

Creio que no meio de pentecostais há uma gama de crentes verdadeiros que estão lá por uma série tão variada de razões, que é até difícil listar.

E creio que no meio dos "tradicionais" há o que Paulo chama de "zelosos sem entendimento". Concordo com você que há muitos mesquinhos também.

Entretanto, tais pecados - e outros piores - estão igualmente disseminados entre pentecostais e tradicionais. Não evidência alguma de que os pentecostais pequem menos do que os tradicionais. Muito menos de que sejam melhores dizimistas. O que vejo é que eles são mais mobilizados e respondem a desafios financeiros pontuais com mais prontidão.

Mas, principalmente, não é com base na existência ou não de pecados, que verificamos se uma doutrina é correta ou não, mas com base nas Escrituras.

Concordo com você nos "acidentes". Discordo na "essência".

Ab
Fôlton

Oliveira disse...

Caro Reverendo Folton

Concordamos plenamente, na expressão "zelosos sem entendimento".

Na realidade têm entendimento, mas ele é semi-pelagiano, mas é também "sem entendimento" pois estes irmãos nem sabem que pensam, pregam e agem como semi-pelagianos, termo este que não sabem o que significa.

Mas que a fé de muitos deles é sincera, isto é.

Eu gosto também da expressão "hereges fiéis".

Um grande abraço