domingo, 14 de setembro de 2008

A cultura e a transmissão do Evangelho

Há alguns dias atrás defendi a existência de uma “estética cristã” normativa para o bom relacionamento entre cristãos e para o “bom testemunho” evangélico. Entretanto, não posso deixar de explicar que, apesar de não estar subordinada, boa parte de sua expressão é afetada pelo contexto cultural em que vivemos.

Ninguém está isento de avaliar o mundo de acordo com a cultura em que o percebe e o expressa.

Isso não é difícil de entender.

Em todos os lugares em que, falando da dieta de João Batista, mencionei as diversas formas como os judeus de então comiam gafanhotos, a estranheza de meus ouvintes foi constante. Em alguns lugares ouvi nitidamente um “eeca”. Porém, o que um judeu de então pensaria de nós se soubesse que comemos porco? Pior: os intestinos do porco? Será que ele também não diria: “eeca!”?

Um amigo meu que não suporta certo tipo de música evangélica contemporânea, pois o lembra do “clima dos barzinhos”. Quando eu disse que engolia obrigado o gospel rock tão comum nas igrejas hoje, pois me trazia reminiscências das bobagens que cantei quando adolescente, ele estranhou.

Percebemos o mundo ao nosso redor através de nossos cinco sentidos, mas o decodificamos através dos valores que moldaram nossa forma de entendê-lo, e tais valores tanto podem ter sido desenvolvidos por nós mesmos (como a música para mim e para meu amigo) quanto podem ser expressão da cultura em que fomos criados (como o caso dos gafanhotos e dos porcos).

Mas, se não estamos isentos de “ver o mundo” através dos óculos de nossa cultura, também não estamos isentos de expressá-lo da mesma forma. E aqui, parece estar o maior problema.

Alguns dizem que o Evangelho deve ser expresso através de todas as culturas existentes para atingir a todas as pessoas. Outros dizem que ele deve ser expresso a todas as culturas existentes, mas apenas através dos “meios culturais” que não desdigam sua mensagem.

Parece-me que a última opção é a correta.

Você já notou que Deus proibiu-nos certas coisas? Por exemplo: somos proibidos de “fazer a obra do Senhor relaxadamente”, de substituir a ação de seu Espírito pela “força ou pela violência”, e de sermos “parciais na apresentação do conselho de Deus”.

E, ao contrário, podemos resumir com as instruções dadas a Tito: “Torna-te, pessoalmente, padrão de boas obras. No ensino, mostra integridade, reverência, linguagem sadia e irrepreensível, para que o adversário seja envergonhado, não tendo indignidade nenhuma que dizer a nosso respeito” (Tt 2.7-8).

Além de ser um padrão ético de “boas, ou belas obras” Tito foi ordenado a usar “palavras sadias, hígidas, não ambíguas”, que não pudessem ser condenadas.

Ou seja: estamos proibidos de ensinar irreverentemente, ou com linguagem chula! E isso transcende a qualquer cultura!

Como então alguns querem se valer de blocos carnavalescos, de boates, de baladas ou similares, para transmitir o santo Evangelho?

A transmissão do Evangelho, ou de seus conteúdos, está indelevelmente associado a certos valores estéticos e éticos, que, algumas vezes, dependem da cultura, mas na maioria delas a transcendem.

Dizer que a cultura é neutra ou que foi redimida pela cruz é uma das grandes bobagens de nosso século. Se ela for neutra então podemos usar todas as expressões de “porneia” para comunicar exatamente aquilo que mais as condena. Se ela foi inteiramente redimida pela cruz, então todos também foram e não há necessidade alguma de se evangelizar.

Que evangelho anunciamos? Se for o verdadeiro, como estamos anunciando-o? Acho que aqui cabe bem a exortação do Apóstolo: “Suportai-me, pois. Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo. Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo. Se, na verdade, vindo alguém, prega outro Jesus que não temos pregado, ou se aceitais espírito diferente que não tendes recebido, ou evangelho diferente que não tendes abraçado, a esse, de boa mente, o tolerais”. (2Co 11.1-4).

3 comentários:

Oliveira disse...

Interessante...

A valsa já foi instrumento de sedução nos bailes lá pelos idos do Luiz XV na França.

Hoje a valsa é tocada em músicas litúrgicas, e de tão antiga e "cafona" digamos assim, ninguém associa ela a ser um ritmo para a sedução de moças com saias largas e decotes avantajados.

Já o samba é bem diferente, pois hoje a meu ver está bem associado a sedução à vida de prazer inconsequente e bebida sem limites.

Mas já também tive que "engolir" samba sendo usado em momento litúrgico.

Fico me perguntando que se dermos 400 anos para o samba e para a lambada, assim como o fizemos para a valsa, se num futuro distante hipotético, em igrejas lá por 2400 as pessoas não poderiam estar usando estes ritmos para adoração e tudo bem, uma vez que o ritmo em si não daria para ninguém um significado de ritmo para sedução etc...

Fico pensando nisto e não sei a resposta, ou seja, estas resignificações são introduzidas por rebeldes, mas passados muitos anos são aceitas pelos outros como moralmente aceitas.

O mesmo eu pensaria da barba... o primeiro que raspou a barba não foi por rebeldia e por querer ter o rosto parecido com a mulher, que lhe dava muito mais expressão para o seu homosexualismo...?
Mas muitos anos depois eu e muitos outros cristãos sinceros estamos a usar o rosto raspado do homosexual grego-romano...

O mesmo eu pensaria do véu para as mulheres na igreja, "... nem eu nem as igrejas do Senhor temos este costume...". Alguns dizem que é costume de contender, eu prefiro pensar que seja o costume do uso do véu para a mulher, mas hoje o costume se perdeu... mas o que me encuca é que se perdeu porque mulheres rebeldes iniciaram o movimento de não usá-lo etc...

Enfim... não sei se fui claro, mas ainda assim achei interessante as reflexões que o texto invoca.

Um grande abraço

folton nogueira disse...

Você está certo no assunto ilustrado com valsa/samba e congêneres. Porém creio que isso, na relaidade expressa um pecado, pois reflete a "secularização" (a desobediência a ordem: "não vos conformeis com este século) que a Igreja insiste em praticar.

Quando Israel chegou a terra prometida fez um pacto de não imitar as nações vizinhas, entretanto nos 400 anos dos juízes foi o que mais fez.

O mesmo sucedeu após a inauguração do templo. O mesmo sucede hoje. Nossa tendência é imitar o mundo. Tanto é que muitas vezes os Apóstolos do Senhor nos advertiram a não fazê-lo.

Amar a Deus sobre todas as coisas, especialmente sobre o mundo é algo muito difícil de fazer.

ab
Fôlton

folton nogueira disse...

Você está certo no assunto ilustrado com valsa/samba e congêneres. Porém creio que isso, na relaidade expressa um pecado, pois reflete a "secularização" (a desobediência a ordem: "não vos conformeis com este século) que a Igreja insiste em praticar.

Quando Israel chegou a terra prometida fez um pacto de não imitar as nações vizinhas, entretanto nos 400 anos dos juízes foi o que mais fez.

O mesmo sucedeu após a inauguração do templo. O mesmo sucede hoje. Nossa tendência é imitar o mundo. Tanto é que muitas vezes os Apóstolos do Senhor nos advertiram a não fazê-lo.

Amar a Deus sobre todas as coisas, especialmente sobre o mundo é algo muito difícil de fazer.

ab
Fôlton