sábado, 7 de novembro de 2009

Depois de morto ainda fala

Na terça-feira passada a frase “mesmo depois de morto ainda fala”, prendeu minha atenção. Nem me lembro mais quem a disse, nem do que falávamos, mas ela ficou muito tempo martelando minha cabeça por um motivo simples: Não há registro de qualquer fala de Abel.

Minha primeira providência foi certificar-me de que a frase refere-se mesmo a Abel. Está.

Depois reli a história do primeiro assassinato e tirei a dúvida: ao contrário de Caim, seu irmão e assassino, que questiona o próprio Deus, Abel não fala palavra alguma.

Como então: “depois de morto ainda fala”?

Será que esse “ainda” foi acrescentado por nossos tradutores? Não. Não foi. Ele está livre de qualquer dúvida textual em todas as versões gregas que possuo.

Ainda fala! Como? Se nunca falou. Ou melhor: Como ainda fala, se não temos registro de qualquer palavra dita por ele?

Seu ato ainda fala!

Mas, veja bem: o único ato de Abel registrado foi um ato de adoração a Deus: Pela fé ele apresentou a Deus um culto mais excelente do que o culto de seu irmão. O qual, enciumado por Deus ter preferido o culto de Abel, o matou.

Observe que este é um dos poucos lugares em que Deus faz distinção baseado na qualidade da coisa em si. Geralmente, pela sua grande misericórdia, ele aceita nossas oferendas sem olhar para a qualidade delas. Em outras palavras: Aqui, a base para a aceitação do culto não está na misericórdia de Deus, mas na qualidade do culto.

A fé de Abel - aquela que o permite falar a nós hoje - o levou a oferecer a Deus um cordeiro. Caim tentou compensar sua falta de fé oferecendo a Deus um culto muito mais trabalhoso: teve, no mínimo, o trabalho de plantar, de colher e de transportar. Mas isso não comoveu a Deus.

A fé de Abel lhe mostrou que não poderia aproximar-se de Deus como seus pais o fizeram. O próprio Deus já cometera as primeiras mortes no jardim: os animais dos quais tirou peles. E será o próprio Deus que matará o verdadeiro cordeiro.

A fé de Abel lhe mostrou que desagradaria ao Criador se desconsiderasse seu ato.

Isso é contra o que popularmente se diz: “se for feito com fé Deus aceita qualquer coisa”. A assertiva correta é: “se for feito com fé, não faremos qualquer coisa!”

A falta de fé de Caim o fez repetir o gesto errado de seus pais, com o agravo de, inventando algo novo, oferecer os vegetais no altar. Note que Deus já os recusara como simples vestes.

A falte de fé de Caim levou-lhe a preferir a imaginação e a criatividade como substitutos para a obediência.

A falta de fé de Caim o levou a odiar a obediência na pessoa do obediente matando seu irmão. Do mesmo modo que os novos adoradores rotulam de mortos os que cultuam em espírito e em verdade.

Mas o texto destaca Abel. Seu ato e sua fé. Sem palavras, ainda nos fala: Deus não aceita cultos - por mais elaborados que sejam - inventados pela imaginação e criatividade dos ‘cains’, mas deleita-se quando, reconhecendo a Cristo, o verdadeiro Cordeiro de Deus, lhe cultuamos em fé.

Um comentário:

Jorge Melhado disse...

Caro Reverendo, ótimo seu texto. Ainda mais estando nós vivendo a época das "adorações" extravagantes, impactantes, proféticas e afins. É triste ver como é difícil para a igreja se submeter ao fato que Deus determina, sim, como quer ser adorado. Infelizmente, o povo de Deus tem preferido acreditar na "sinceridade" de seu enganoso coração. Abraços. Jorge