quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Pecando contra a verdade

A tua palavra sim deve significar sim.
E atua palavra não deve significar não.
Qualquer outro sentido que deres a elas terá origem no maligno.
(Mateus 5.37 - Tradução minha).

Cada vez que começo a escrever sobre os aspectos do pecado tenho ímpetos de dizer “Este é o mais cometido em nossos dias”.

Embora o pecado contra a verdade também seja razoavelmente condenado pelas leis humanas, ele possui uma face socialmente bem aceita e, de certa forma, até requisitada nas relações humanas de cortesia e polidez.

A lei humana coincide com a divina no que concerne a manutenção de contratos, de pesos e medidas corretos, de marcos de propriedade, proibição de propaganda enganosa, divulgação de inverdades, condenação da calúnia, difamação, falsidade ideológica, etc.

Entretanto, aos olhos de Deus, mentir é muito mais do que isso, e Jesus agrava seu entendimento ao interpretar a lei do Pai dizendo que todas as vezes que modulamos o sentido de uma palavra em favor de uma mentira, estamos procedendo de conformidade com o maligno.

Em nossa cultura moderna a mentira é sempre fruto de uma conveniência e são poucos os que ainda a atribuem a falha de caráter.

Nos meios evangélicos ela também é vista mais ou menos assim e dificilmente um evangélico associará uma mentira com o maligno, pois com ele associa outros pecados mais extravagantes. Apenas os protestantes de Fé Reformada confessam a malignidade da mentira.

Jesus foi quem nos ensinou que a mentira origina-se no maligno: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44).

Dentro da cosmovisão cristã a mentira (dita pelo pai da mentira) foi quem induziu nossos primeiros pais a pecar. O tentador serviu-se dela: “Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o SENHOR Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de TODA árvore do jardim?” (Gn 3.1) (destaque meu).

Com a partícula TODA o tentador criou uma nuance de sentido - absolutamente inverídica, pois todas as árvores frutíferas eram comestíveis exceto uma - que induziu nossa mãe a uma resposta falsa e até certo ponto queixosa: “Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele...” (Gn 3.2-3).

Analisando bem você verá que todos os aspectos do pecado se assentam sobre alguma mentira. Pode haver desonra aos pais, adultério, assassinato, furto, ou cobiça (limitando-nos aos pecados que envolvem nosso próximo) sem que também se peque contra a verdade?

Talvez esse pecado seja mais arraigado do que os outros. Tiago nos diz: “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o corpo” (Tg 3.2). Porém isso não é desculpa para não lutarmos contra ele e constantemente orarmos: “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, rocha minha e redentor meu!” (Sl 19.14).

sábado, 17 de setembro de 2011

Pecando contra mordomia

Se, pois, não vos tornastes fiéis
na aplicação das riquezas de origem injusta,
quem vos confiará a verdadeira riqueza?
Se não vos tornastes fiéis na aplicação do alheio
quem vos dará o que é vosso?
(Lucas 16.11)

O pecado impregna nossa natureza e desde que nascemos, de algum modo, já o externamos. Alguns são tão óbvios que deixamos passar por “coisas de criança”, outros de tão dissimulados são difíceis de ser vistos.

O aspecto sobre o qual me detenho agora é o desejo de tomar em nossas mãos aquilo que Deus colocou sob as mãos de nosso próximo.

Geralmente dizemos que furtar é um pecado contra a propriedade. Tenho minhas reservas contra essa afirmação, pois não possuímos nada, nem a nós mesmos. O furto - nas suas diversas modalidades - é sempre um pecado contra a mordomia.

Somos mordomos de Deus e a ele daremos conta de tudo o que dele mesmo recebemos, desde os bens que consideramos mais preciosos, até das coisas que temos por imponderáveis: “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo” (Mt 12.36).

Somos mordomos de tudo o que possa ser gerido pela nossa capacidade e o critério com o qual nossa gestão é avaliada por Deus é a fidelidade ao seu querer e o amor ao nosso próximo. Esses dois eixos devem nos orientar na administração de qualquer bem que Deus tenha nos confiado.

Deus não ficará mais rico se formos mais fieis, mas será mais glorificado se pela nossa fidelidade à sua vontade, amando o nosso próximo, usarmos aquilo que ele nos confiou para suprir suas necessidades. Dessa forma nos tornamos, pela fidelidade, cooperadores de Deus, como agentes de sua providência.

Mas acima de tudo, somos mordomos do bem mais precioso: o tempo. Como crianças não damos valor a ele e pouco nos importa se o temos de sobra ou não. Quando adolescentes agimos de modo igual, mas já começamos a querer mais dele para gastar conosco mesmo. Quando adultos percebemos que ele é limitado e tentamos aproveitá-lo e às vezes usando a parte que devemos dedicar a nossos queridos mais próximos. Quando chegamos à velhice vemos que ele escorre como água por entre nossos dedos e tentamos remi-lo a todo custo. Mas já é tarde.

Curiosamente podemos e geralmente roubamos o tempo que Deus colocou sob administração de nosso próximo. Isso ocorre quando o enredamos em futilidades ou até mesmo em coisas contrárias a Lei de Deus.

O descanso é uma parte importante do tempo e está intimamente ligado à verdadeira adoração. Quando Deus exige que descansemos um dia em sete, se dá como exemplo: Criou tudo em seis dias e no sétimo descansou. Não podemos querer trabalhar mais do que ele.

Finalmente, o que abrange todos os aspectos do pecado do furto é a infidelidade. Para evitá-lo precisamos ser fiéis de mente, palavras e obras para com Deus e para com nosso próximo. Só assim não furtaremos sequer as coisas mais simples, muito menos as que consideramos mais valiosas.

sábado, 10 de setembro de 2011

Pecando contra a castidade

“Eu, porém, vos digo:
qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura,
no coração, já adulterou com ela”
(Mt 5.28)

Os judeus, que acreditavam piamente nunca pecarem contra a castidade, mesmo possuindo mais de uma mulher, desde que fosse dentro da lei, ouvindo palavras como estas devem ter ficado perplexos. Em outro lugar enquanto Jesus falava sobre o mesmo tema, um de seus discípulos declarou: “Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar” (MT 19.10).

Jesus vê a intenção e o ato cometido como atentados contra a castidade. E desde cedo pecamos contra ela.

Na infância a curiosidade nos impulsiona mais, já na adolescência e na juventude o que nos move mais é o que o apóstolo Paulo chamou genericamente de “paixões de juventude”.

Enquanto adultos, o que mais nos impele mais é a sensação de que a vida está passando e não foi desfrutada, ao passo que na velhice o que mais nos afeta é a saudade do que poderíamos ter feito.

Os antigos diziam que este é o pecado do não realizado, da fugacidade, do “como teria sido bom”!

Não se esqueça: Estou falando de convertidos, pois quem não o é, sequer vê isso como pecado.

Vida casta não é vida sem sexo. É vida com o sexo segundo Deus. À luz dos ensinos bíblicos, casto é quem desfruta, diante de Deus, do estado conjugal que vive. Se solteiro dedica-se à glória de Deus. Se casado dedica-se, à mesma glória de Deus, através do cônjuge: “Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14.7-8).

Peca contra a castidade quem vive sexualmente fora do estado conjugal que Deus o colocou, ou quem atenta contra tal estado em si ou nos demais: homem ou mulher.

O padrão que Jesus mostrou é muito alto, pois mesmo para um mundo caído ele citou a criação anterior ao pecado. Quando perguntado sobre o divórcio ele respondeu “não foi assim desde o princípio. ... quem repudiar sua mulher não sendo por causa de `porneia` e casar com outra comete adultério”(Mt 19.8).

Como Jesus estava se dirigindo a homens, é necessário, por abrangência, estendermos o texto: “repudiar seu marido”.

O termo grego `porneia`, geralmente traduzido por relações sexuais ilícitas, é muito amplo. Aplica-se a homem ou mulher e dele nasce tudo o que hoje chamamos de pornô. Vai da simples sensualidade (tão apreciada na moda) até as aberrações explícitas que a mente mais depravada pode conceber.

Geralmente me perguntam por que Deus é tão fechado? Se há consenso entre os que praticam, que mal pode haver?

É a ordem da criação a que Jesus se referiu. Fomos feitos para extrair um deleite mútuo, que talvez nem nossos primeiros pais tenham provado, porém isto era - e é ainda é - protegido por um pacto, que remanesce no casamento.

Tudo é uma questão de se obedecer a Deus. Do mesmo modo que ele quer que honremos nossos pais, e nos proíbe de menosprezar o próximo, ele também odeia que pequemos contra a castidade.

Vilipendiamos sua imagem em nós quando fazemos isso: “Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? E eu, porventura, tomaria os membros de Cristo e os faria membros de meretriz (porne)? Absolutamente, não. Ou não sabeis que o homem que se une à prostituta (porne) forma um só corpo com ela? Porque, como se diz, serão os dois uma só carne. Mas aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele” (1Co 6.15-17).

sábado, 3 de setembro de 2011

Pecando contra a vida

Todo aquele que
sem motivo se irar contra seu irmão
estará sujeito a julgamento;
e quem proferir um insulto a seu irmão
estará sujeito a julgamento do tribunal;
e quem lhe chamar: Tolo,
estará sujeito ao inferno de fogo
(Mt 5.22).

Nascemos em pecado e não demoramos muito a externá-lo. Externamo-lo já em nossos primeiros dias, tão logo exigimos de nossa mãe cuidados que só as mães suportam. Ferimos seus seios enquanto ela nos nutre com seu leite e berramos quando ela demora em atender nossas necessidades.

Nosso Senhor e Mestre - a quem hoje se diz ser apenas amor e muito diferente do Deus iracundo do Velho Testamento - interpretando a proibição de matar nos ensinou, nas palavras em epígrafe, que não precisamos chegar ao ponto de tirar uma vida, basta que menosprezemos nosso próximo e já teremos cometido esse aspecto do pecado. Não há próximo mais próximo que nossa mãe.

Em nossa defesa diremos: Éramos bebê e não sabíamos que estávamos ferindo os seios de nossa mãe ao mamar com avidez. Ou: Não fizemos por maldade. Não tínhamos intenção. Se tivéssemos consciência jamais faríamos isso!

Todas as alegações acima são verdadeiras e todas procedem! É importante sabermos que a imensa maioria dos pecados não é cometida intencionalmente. Raramente atentamos contra a vida de alguém - na forma como Jesus interpretou - premeditada e friamente. Afinal, quem de nós decide perder a cabeça e ficar irado?

Mas o que pode ser visto no bebê, pode ser visto na criança, no adolescente e até no adulto. Ou você nunca viu uma criança irada com seus pais? Ou um adolescente que os xinga e deseja a morte deles? Ou um adulto que sonha em se livrar do fardo que seus velhos? Nesses casos dois pecados se somaram: contra os pais e contra a vida.

Mas, não pecamos apenas contra a vida de quem está mais próximo de nós. Podemos pecar também contra a vida do próximo que sequer vemos. Não é isso que acontece quando alguém polui o ambiente? Ou quando contamina alimentos, seja no plantio, na confecção deles, ou ainda ao servi-los.

Na verdade quando se atenta contra a saúde, de qualquer forma, através de qualquer meio, intencionalmente ou não, à luz das palavras de Jesus, se comete um atentado contra a vida.

Pecamos também contra nossa própria vida quando trabalhamos em excesso, corremos riscos desnecessários ou nos alimentamos errada ou exageradamente. Quando nos entregamos ao ócio, ou abusamos de medicamentos bem como negligenciamos os cuidados médicos.

Quando não estamos prontos a perdoar, a resolver conflitos a buscar a paz também matamos. Quando fazemos intrigas, acirramos discussões, “botamos lenha em fogueiras”, disseminamos discórdias e inimizados também matamos.

Quando não nos empenhamos pela vida em todos os seus aspectos seja no mundo, seja no lugar que vivemos ou no lar em que nos aconchegamos, pecamos contra Deus e contra a vida criada por ele.

Evitemos esses erros.

sábado, 27 de agosto de 2011

Pecado (1ª parte)

Se há uma coisa que todos conhecemos bem é o pecado. Afinal o cometemos todos os dias por pensamentos, palavras e atos.

Porém, se o conhecemos bem na prática, evitamos pensar muito nele. O que é uma perda, pois uma análise crítica de seus múltiplos aspectos nos ajuda a diminuir a frequência com que o praticamos.

A primeira coisa que precisamos encarar é que pecado é uma coisa só: Contrariar a vontade de Deus. E a contrariamos fazendo o que é errado, ou deixando de fazer o que é certo.

Uma das palavras bíblicas para designar pecado, tem como raiz “errar o alvo”. Não fazer aquilo para o qual fomos criados ou fazer aquilo para o que não fomos é pecar.

Dentre os muitos aspectos a que me referi, eles se agrupam em dois principais, pois algumas vezes pecamos também com nosso próximo.

Quando deixamos de honrar nossos pais - o primeiro grande aspecto do pecado que atinge também a nosso próximo, e que cometemos desde cedo e continuamos a cometer até a velhice - estamos pecando contra os que estão mais próximos de nós. Contra quem devemos a vida e jamais deveríamos sequer pensar mal.

Geralmente o filho peca desobedecendo. Quando o filho é criança isso está ligado ao modo como ele está sendo criado, pois às vezes é uma forma inconsciente dele perguntar “até onde pode ir?”. Os pais devem estar atentos e deixar claro esse limite, e punir a ultrapassagem dele ou se tornam cúmplices do pecado de seus filhos, pois, além de criar alguém que desrespeita limites, não estão se fazendo dignos de ser honrados.

Quando o filho é adolescente ele desonra seus pais de diversas formas. As mais comuns além da desobediência, são a falta de respeito, o destrato, o envergonhar-se deles, e o mentir para eles.

Quando o filho é adulto ele desonra seus pais, desconsiderando-os em seus planos de futuro ou explorando-os com tarefas que se buscasse outros para fazê-las teria de pagar. Destratando-os ou tratando-os com menosprezo. Não repartindo com eles a prosperidade que obteve à custa do sacrifício que eles fizeram para que dar-lhe boa formação.

De modo geral é dever do filho não zombar de seus pais (como fez o filho de Noé). Zelar pela honra deles e encobrir suas as faltas (como fez o outro filho de Noé), mas acima de tudo cuidar deles na velhice com o mesmo desvelo com que foi cuidado por eles na infância.

De modo geral é dever dos pais dar motivos para serem honrados: criar seus filhos na admoestação do Senhor e não irritá-los com suas picuinhas pessoais.

É conveniente também nunca esquecer de que através da figura dos pais as Sagradas Escrituras muitas vezes falam de outras pessoas que estão em posição de autoridade e acima de tudo falam do próprio Deus.

sábado, 20 de agosto de 2011

Evangelizar os pobres

O Espírito do Senhor está sobre mim,
pelo que me ungiu
para evangelizar os pobres;
enviou-me para proclamar
libertação aos cativos
e restauração da vista aos cegos,
para pôr em liberdade os oprimidos,
e apregoar o ano aceitável do Senhor.
Lucas 4.18-19

Ao duvidar se Jesus era realmente o Messias esperado João Batista mandou dois de seus discípulos interrogá-lo. Sua resposta foi simples: “Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt 11.4-5).

Nessa semana recebi a visita de um sindicalista pedindo que nossa igreja participasse da manutenção de um fundo de greve. Argumentava que não devíamos nos furtar ao mando de Jesus de evangelizar os pobres (no contexto suprir o fundo para manter a greve). Como este assunto já foi tocado outras vezes achei que era uma boa oportunidade escrever sobre ele.

Só entenderemos bem por que os Evangelhos mencionam os pobres como destinatários da mensagem evangélica conhecendo o contexto da época: a exploração dos pobres através da religião.

Deus sempre levantou profetas no meio de seu povo, mas a partir da época dos Juízes eles ficam mais evidentes, e foi um Juiz/Profeta, Samuel, quem fez a transição para o período dos Reis, ungindo os dois primeiros reis: Saul e Davi. A partir de então os profetas foram sistematicamente levantados por Deus como uma espécie de consciência de cada rei. O profeta alertava o rei de seus maus caminhos.

Entretanto, aos abusos dos reis sucumbiram o desejo de riqueza dos próprios profetas e também dos sacerdotes. Veja em Amós 7.10-17 o desdém com que o profeta é tratado pelo rei de Israel que o tinha por um apaniguado e não por um porta-voz de Deus.

Veja também como Jeremias, de modo espantosamente atual, mostra o desgosto do Senhor com ambos: “Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra: os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam de mãos dadas com eles; e é o que deseja o meu povo” (Jr 5.30-31).

Foram todos castigados com o cativeiro.

No cativeiro, com o fim de preservar a memória, houve necessidade de apurar-se os registros. Exacerbou-se então o zelo com o escriba, ou doutor da lei (dentre os quais Esdras se destaca como bom exemplo), mas que se tornaram aquilo que Jesus depreca com o refrão “escribas e fariseus hipócritas” e ordena a seus discípulos a guardarem-se deles.

Nos dias de Jesus eles mantinham uma relação espúria com as famílias sacerdotais, que integravam em sua maioria o partido dos saduceus: enquanto os fariseus atentos às minúcias da lei colocavam “fardos pesados nas costas” do homem comum, as famílias sacerdotais lucravam com a exploração dessas obrigações.

Do primeiro se vê a estipulação do dízimo sobre o endro e o cominho criticado por Jesus (Mt 23.23) e a hipocrisia vil na exploração dos desamparados: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque devorais as casas das viúvas e, para o justificar, fazeis longas orações; por isso, sofrereis juízo muito mais severo” (Mt 23.14).

O segundo é visto na venda de animais e na presença de cambistas no pátio do templo, expulsos por Jesus debaixo do rótulo de ladrões e salteadores.

Resumindo: eles ficavam cada vez mais ricos dizendo que o povo deveriam fazer mais sacrifícios, com os quais lucravam de muitas maneiras. Jesus veio pregar ao povo a boa nova: vocês não devem mais nada a Deus, pois o verdadeiro sacrifício chegou. Ou seja: ele veio evangelizar os pobres.

Há sentido para hoje? Sem dúvida! Como é que algumas religiões ficam ricas? Não é colocando culpa nas costas de seus fiéis? Culpa que deve ser expiada por meio de indulgências, penitências, sacrifícios, correntes, e votos? É a eles que o Evangelho deve ser pregado. Cristo morreu para que eles fossem livres dessas algemas. Isso é evangelizar aos pobres.

sábado, 13 de agosto de 2011

Plenitude dos tempos (2 de 2)

Em seu início a Igreja esperava a volta de Jesus para o dia seguinte. Eu creio que foi por essa razão que muitos ficaram em Jerusalém. Devem ter pensado: quarenta dias entre a ressureição e a ascensão e dez dias entre a ascensão e o derramamento do Espírito Santo... Ele deve voltar logo!

Não esqueçamos também que o sermão de Pedro identifica o Dia de Pentecostes como o início dos Últimos Dias (inclusive contendo sinais das catástrofes cósmicas que o Senhor profetizara para o Último Dia). A consequência foi colocarem o que tinham à disposição dos apóstolos e aguardarem a volta do Senhor.

Esse processo se repetiu na Igreja de Tessalônica. Paulo, que também esperava a volta do Senhor Jesus para seus dias, os deixou tão eufóricos, que precisou escrever uma segunda carta dando sinais mais precisos de que a volta do Senhor será necessariamente precedida por uma apostasia e pelo “homem da iniquidade”.

Curiosamente, em sua segunda carta o apóstolo Pedro alerta-nos contra escarnecedores que nos questionarão sobre a realidade da volta do Senhor argumentando que está demorando e tudo continua igual.

Hoje, muito mais tempo depois, encontramos quem desacredite totalmente da sua volta e quem busque explicar sua demora.

Ao longo da história da Igreja apareceram diversas explicações para a volta do Senhor, sendo que a maioria delas tenta justificar sua demora.

Há os que dizem que nós é que vamos nos encontrar com ele quando morremos e que sua volta é apenas um modo de falar. Outros já marcaram sua volta com precisão de data e hora, e, frustrados (como vimos recentemente) admitiram o erro, ou escolheram expedientes escusos como dizer que ele voltou, mas viu que não estávamos preparados e resolveu dá-nos uma segunda chance, ou foi para outro lugar, fazer outra coisa.

Há quem pense hoje que ele virá. Entretanto, se achegará às proximidades do planeta, arrebatará sua igreja fiel e reinará com ela por mil anos em algum lugar. Depois dos mil anos, e de uma guerra avassaladora na terra, ele finalmente descerá com os que arrebatou e salvará os que se converteram e sobreviveram à guerra.

Na verdade, o Senhor Jesus deixou bem claro que sua volta era iminente: “Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até no ocidente, assim há de ser a vinda do Filho do Homem” (Mt 24.27).

Ele chegou a usar figuras desconcertantes para enfatizar essa iminência: “Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria e não deixaria que fosse arrombada a sua casa. Por isso, ficai também vós apercebidos; porque, à hora em que não cuidais, o Filho do Homem virá” (Mt 24.43-44).

Porém, tenho visto muitas pessoas imaginando que o texto de Mateus 24.14 (E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim.) permite pensar que ainda teremos muito tempo. Já vi até quem falasse isso com um sorriso maroto. Porém não é esse o quadro mais amplo. Veja: “E eles, tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam” (Mc 16.20).

Aos olhos de Deus a “grande comissão” já foi cumprida. O mundo inteiro já foi evangelizado pelos apóstolos de Jesus. Cabe-nos somente mantê-la cumprida. Ou seja: Jesus pode voltar agora. Nada o detém!

Vem Senhor Jesus!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Plenitude dos tempos (1/2)

Escrevendo às igrejas da Galácia (uma região que hoje fica na Turquia), o apóstolo Paulo disse que Jesus veio “na plenitude dos tempos”.

Há quem veja nesta expressão (to pleroma tou kronou) apenas uma declaração semelhante a “quando chegou o tempo certo” ou “quando chegou o tempo determinado por Deus”, o que não deixa de ser verdade. Porém, há mais do que isso: A ideia é de que Jesus veio quando o tempo já estava completo. Ou melhor: quando as coisas que se completam com o passar do tempo já tivessem chegadas a sua plenitude. Já estivessem maduras.

Alguns veem uma alusão às profecias de Daniel, especialmente às que se referem ao tempo do fim (...Vai, Daniel, porque estas palavras estão encerradas e seladas até ao tempo do fim. Muitos serão purificados, embranquecidos e provados; mas os perversos procederão perversamente, e nenhum deles entenderá, mas os sábios entenderão” Dn 12.9-10), pois, desde o Pentecostes vivemos no período que a Bíblia chama de “os últimos dias”.

Entretanto, há quem pense em algo “mais concreto”: Os tempos estavam maduros, de muitos modos, para receber o Messias, seu Evangelho se propagasse por todos os povos e o Povo de Deus pudesse assumir a forma de Igreja com maior facilidade.

Quando Jesus nasceu o mundo ocidental estava sob o domínio político e militar dos romanos, porém a cultura dominante era a grega. E hoje, olhando retrospectivamente, vemos que, desde pequenos detalhes até grandes acontecimentos, prepararam o ambiente para a chegada de Jesus e a disseminação do Evangelho.

Dou como exemplo de um “pequeno detalhe” a crucificação. Para ser maldito de Deus Jesus teria de morrer crucificado - pois assim a lei o determinava (Dt 21.22e23) - o que jamais aconteceria entre os judeus, se eles não estivessem ocupados militarmente por romanos e se não o acusassem o Senhor de sedição contra césar, pois a pena de morte entre os judeus era o apedrejamento.

Como exemplo de um grande acontecimento cito a tradução do Antigo Testamento para o Grego, cerca de 200 aC. permitindo a preparação para o Evangelho entre os povos conquistados pelos romanos.

Longe de nos queixarmos do desenvolvimento filosófico grego deveríamos agradecer a Deus por ter preparado esta estrada por onde o pensamento cristão haveria de trilhar. Algo do que seria revelado pela fé já fora cogitado pelos filósofos gregos ao ponto de Agostinho, (Cidade de Deus 8.11), levantar a hipótese de Platão ter conhecido o Antigo Testamento.

Não se pode deixar de lado o fato de que, desde a invasão de Jerusalém pelos babilônios, os judeus tenham se espalhado pelo Egito, costa da África, Ásia Menor (hoje Turquia), Arábia e em cada lugar fundado sinagogas, que permitiram aos primeiros missionários (lembre-se do costume de Paulo) encontrarem em cada cidade pontos de contato para falar do Messias.

Digno de nota também foi a infraestrutura proporcionada pelas estradas romanas que ligavam todos os pontos do império. Embora não saibamos exatamente a extensão delas nos dias de Jesus, sabemos que em 312 aC. a Via Ápia, a primeira construída possuía apenas 300km, mas em seu auge o Império Romano chegou a contar com 150.000Km de estradas pavimentadas com pedras (o Brasil hoje possui 62.oooKm de estradas asfaltadas), com muitos túneis e pontes (alguns ainda em uso).

Era a época certa para a vinda de Jesus e ele veio.

sábado, 30 de julho de 2011

Igrejas desaparecidas

Você já notou que nenhuma das Igrejas citadas no Novo Testamento existe mais?

A menos que você reconheça a atual Igreja de Jerusalém (a Ortodoxa Grega? A Católica Romana?) como fiel substituta daquela que foi dirigida pelos apóstolos do Senhor. Ou reconheça o Vaticano como fiel substituto da Igreja para qual Febe levou sua carta de recomendação.

Onde está a Igreja de Samaria, que parece ter sido a primeira a ser organizada fora da Judéia?

Onde está a Igreja de Antioquia? Onde Paulo e Barnabé foram presbíteros? Já ouvi falar que está em uma cidade chamada Antaxa, na atual Turquia. Eu gostaria de conhecê-la pessoalmente, ver seus registros históricos (se houver algum).

A de Antioquia da Psídia, a de Icônio, a de Listra, de Derbe... Faça uma lista nome por nome. Você verá que nenhuma sobreviveu. Chipre? Talvez. Mas você há de convir comigo que a “Ortodoxia grega” da igreja de lá, está longe da Ortodoxia Bíblica.

Algumas dessas Igrejas foram ameaçadas pelo próprio Jesus. O pastor da Igreja de Éfeso recebeu uma ameaça que se estendia à Igreja que pastoreava: “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas” (Ap 2.5).

Pelo contexto o Senhor Jesus estava ameaçando mover de seu lugar a igreja. Aconteceu: Primeiro um terremoto. Depois a invasão mulçumana. Hoje o turismo atesta para o mundo inteiro que ali houve uma igreja e já não há mais.

Por que igrejas que foram tão bem doutrinadas, que contaram com a presença dos apóstolos do Senhor, que receberam cartas diretas do próprio Senhor Jesus, não existem mais?

Eu não sei dizer. Conjecturo que especificamente a Igreja de Éfeso não tenha se arrependido, nem voltado à prática das primeiras obras. Porém, será que o mesmo se pode dizer de todas as outras igrejas?

No Antigo Testamento Deus algumas vezes castigou seu povo privando-lhe do culto. A primeira vez deixou que os filisteus tomassem a Arca da Aliança, que mais tarde foi recuperada pelo Rei Davi. A segunda vez permitiu que os babilônios destruíssem o Templo de Salomão e sumissem com a Arca da Aliança.

Reconstruído o Templo há um registro, feito pelo profeta Malaquias (1.10), que à vista da corrupção, especialmente dos sacerdotes, Deus desejava que as portas do Templo fossem fechadas. Permaneceram abertas até o verdadeiro e último sacrifício - sacrifício do qual os demais são apenas tipo ou sombras - depois foi destruído totalmente.

Não seria uma pista para se entender o porquê dessas igrejas terem acabado?

Imediatamente me lembro das palavras do próprio Jesus: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda” (Jo 15.1e2).

Deus nos livre de trilharmos o mesmo caminho delas.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Batizar crianças?

Há algum tempo tenho trabalhado em um material sobre esse assunto, mas ele ainda não chegou ao ponto que eu desjo (ser claro, ter um tom pastoral e ter o tamanho costumeiro).


Minha dúvida é: Por que no último século a grande maioria das denominações não católicas deixou de batizar crianças? Desconfio que a resposta seja estatística. Neste último século as denominações pentecostais foram as que mais cresceram e elas nunca batizaram suas crianças. As denominações tradicionais, além de crescerem menos, foram tão afetadas pelo pentecostismo que algumas até deixaram esse hábito. Assim, creio que é possível se explicar essa grande mudança em pouco mais de um século.


Porém, enquanto estou em uma quinzena de férias, leia o excelente texto que o Rev. Agnaldo postou sobre o Batismo de Crianças em:  http://www.creioeconfesso.com/2011/07/o-batismo-dos-filhos-dos-crentes.html 

sábado, 9 de julho de 2011

O Sono e o despertar

Mais uma manhã. Os primeiros sons que eu percebo são de passos femininos: curtos e secos. De saltos contra o asfalto da rua. A seguir passos pesados e abafados denunciam o pequeno grupo de operários da construção próxima que logo me atualizarão sobre o mundo do futebol, mesmo que nenhum time tenha jogado na noite anterior.

Os primeiros clarões, que já invadiram a janela, da qual as alergias me roubaram a cortina, ameaçam gradualmente meus olhos, que tentam se proteger debaixo de um edredom - verdade! As manhãs estão frias o suficiente para um edredom fininho - e o cansaço do sono iniciado bem depois de meia noite me convida a virar pro outro lado. Mas, aí já é tarde: Junto com o trinado de dezenas canários e a algazarra dos pardais, chega o aroma forte e bem vindo do café. Há sono que resista?

Antes de me levantar agradeço ao Senhor, por mais um dia em que suas misericórdias se renovaram.

E se renovaram mesmo!

A preocupação com tantas coisas feitas pela metade ou por fazer; com a distância que divide a família; com o sofrimento de ovelhas doentes ou aflitas; deu lugar à confiança, e o sono que chegou agitado foi se acalmando pela certeza de que é “inútil se levantar de madrugada, trabalhar até tarde, comer o pão de lágrimas, pois aos seus amados, Deus dá enquanto dormem”.

Foram poucas horas de sono, mas foi um sono profundo e sem sonhos: reparador.

Os problemas de ontem não desapareceram, mas ganharam novas abordagens. Suas soluções podem agora ser examinadas sob novas perspectivas.

Quantas vezes fui dormir com um “problema insolúvel” e pela manhã ele parecia algo tão banal que se desfez com um simples telefonema.

Com um sono profundo Deus trouxe a nosso pai sua companheira. A bendita Jael libertou seu povo do jugo de Sísera depois dele cair em profundo sono. E por não conseguir conciliar o sono Nabuconozor conheceu a Daniel. Por não conseguirem segurar o sono os apóstolos do Senhor não conseguiram vigiar em oração com ele no Getsêmani. Vencido pelo sono Êutico caiu do apartamento no terceiro andar em que a Igreja de Trôade estava reunida.

Mas, de tudo o que as Escrituras falam sobre o sono, o que mais me impressiona é compará-lo à morte dos remidos. Sabemos muito bem que eles morreram mesmo. Mas como breve ressuscitarão, as Escrituras chamam a morte de sono. Como se da morte acordassem.

E, especulo eu: do que primeiro teremos consciência? Dos passos dos transeuntes? Da claridade do dia? Do canto dos pássaros? Do aroma do café? Não! Creio que será da bendita voz - aquela que já foi ouvida por Lázaro - “vem pra fora”!

Eu irei.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Os adornos do Espírito

Mal saíram do Egito - multidão de escravos, fazedores de tijolos de uma terra tão ruim que exigia vegetais para dar liga à massa - Deus os reuniu aos pés do Monte Sinai. Lá deveriam se tornar um povo. Lá receberam a Aliança, que Abraão, séculos antes, conhecia pela fé.

De tão rudes, a aliança lhes foi resumida em tábuas de pedra. Mas, analfabetos, para as reverenciarem, tudo foi sancionado com sangue de cordeiros inocentes aspergidos sobre as tábuas e sobre eles. E para que eles as valorizassem mais, Deus as depositou em uma arca de ouro, separou toda uma tribo para guardá-las e ordenou que fizessem uma tenda especialmente adornada para elas.

Os adornos dessa tenda não podiam ser produto da imaginação de qualquer um. Deus chamou dois homens para elaborar o projeto dela, treinar seus auxiliares e edificá-la, conforme a vontade dele. Tudo foi prescrito: As paredes, a cobertura, os móveis, a decoração, até mesmo a roupa que os oficiantes vestiriam enquanto estivessem dentro dela. Usariam metais, madeiras, tecidos, e especiarias e o Espírito Santo os capacitaria como marceneiros, entalhadores, ourives, bordadores, perfumistas, etc.

A tenda seria a morada das tábuas da Lei de Deus, portando da Vontade de Deus e em última análise do próprio Deus. Nada mais natural, portanto que fosse construída e ornamentada conforme seu querer e caráter.

A tenda foi erigida e consagrada: “...Então, a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do SENHOR encheu o tabernáculo. Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do SENHOR enchia o tabernáculo... De dia, a nuvem do SENHOR repousava sobre o tabernáculo, e, de noite, havia fogo nela, à vista de toda a casa de Israel, em todas as suas jornadas” (Ex 40.34-38).

Esse sinal fantástico, fogo sobre a tenda da congregação, se repetirá sobre o Templo de Salomão, mas não sobre o Templo de Zorobabel.

-*-

Mal se tornaram cônscios de que Jesus havia recomeçado uma nova criação substituindo a que nosso pai Adão estragou, uma pequena multidão (cento e vinte?), reunidos em uma casa, viram aquele mesmo fogo descer sobre a cabeça de cada um. Cada um era um tabernáculo em que a Le ide Deus morava, não em tábuas de pedra, mas no coração como os profetas do Senhor falaram tantas vezes.

Mas, e os adornos dos quais o Senhor fizera tanta questão no primeiro tabernáculo? Estavam todos lá.

Em vez de pedras preciosas no peito, boas obras, em vez de linho branco, vidas santas. Em vez de estofo, paciência e longanimidade, etc.

Todos capacitados a fazer o que poucos fizeram. O Espírito agora não habitava com eles. Habitava neles.

Habita em nós!

Tudo era figura de algo superior que se cumpriria em Jesus e nos seria transmitido. Por essa razão é que Pedro ensina que o verdadeiro adorno é “o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus” (1Pe 3.4).

sábado, 25 de junho de 2011

Descriminalização das Drogas

Fui solicitado escrever sobre a inevitável descriminalização das drogas leves em nosso país. Minha opinião, tanto como cidadão quanto como pastor, já que procuro não dissociar tais atividades, até agora é totalmente contra. Entretanto, confesso que preciso conversar com irmãos mais sábios e envolvidos no problema.

Pessoalmente creio, que até mesmo a permissão de passeatas de convencimento é um erro, pois no fundo, no mínimo tais passeatas despertam a curiosidade para experimentá-las. E enquanto houver usuários, mesmo que experimentais, haverá tráfico.

Para se ter uma ideia do que acontecerá com a legalização das drogas basta ver o que está acontecendo com a indústria legalizada do tabaco. A luta contra o tabagismo e seus males consome a sociedade. Não consome a polícia e não provoca guerra e tiroteios, mas seria muito bom ver uma estatística que comparasse as mortes silenciosas causadas pelo tabaco com as mortes da guerra do tráfico.

Ouve-se que a maconha é menos danosa do que o tabaco. Será? Veja artigos como esse: “Brain Effects of Cannabis -- Neuroimaging Findings” (Os Efeitos da Maconha no Cérebro - Achados em Neuroimagens) que pode ser lido em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462005000100016&lng=en&nrm=iso&tlng=en

Mas, a Bíblia dá alguma orientação? Diretamente eu desconheço. Porém indiretamente, mudando o que deve ser mudado, há muitas se considerarmos a bebida.

É sabido que nos tempos bíblicos já se conhecia drogas ingeríveis ou aspiráveis, porém a única menção delas na Bíblia é a mistura de vinho e mirra que Marcos nos informa terem fornecido a Jesus na cruz, o que, com toda probabilidade, seria um entorpecente, mas ele recusou-se a tomar. Mas as Sagradas Escrituras, em diversos lugares (mais de 200 vezes), registram a palavra vinho. Com vinho Jesus estabeleceu um dos sacramentos da Nova Aliança.

Registram também o uso de “bebida forte” (18 vezes), que nos tempos do Antigo testamento era alguma bebida feita de grãos fermentados e nos tempos do Novo podia se referir tanto à bebidas fermentadas quanto à destiladas.

Porém, é significativo que tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, onde o vinho é usado como parte da alimentação caseira, se encontre muitas advertências contra a embriaguez. Por exemplo: “Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus” (1Co 6.9-10).

À luz da Bíblia, ficar debaixo de outro controle que não do Espírito de Deus - que realça o domínio próprio - é um pecado grave. Lembre-se de: “E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18).

Não há como questionar o uso medicinal de qualquer substância, pois tudo o que existe foi criado por Deus e usado em prol da vida, conforme o mandato cultural recebido pelo homem diretamente do Criador, não é apenas um direito, mas um dever. Porém, ser dominado por qualquer tipo de droga é contra o propósito básico da criação.

Portanto, o uso médico de qualquer tipo de substância (leve ou pesada) é bíblico, desejável e obrigatório à consciência de qualquer cristão, mas o abuso recreativo, hedonista, escapista, irresponsável, temerário e inconsequente, deve ser condenado. Tão culpável deve ser o consumidor que não o faz por necessidade terapêutica, quanto quem o abastece clandestinamente.

sábado, 18 de junho de 2011

Pentecostes (parte 2)

No domingo passado escrevi: “há pouco mais de um século a vergonha da Igreja foi institucionalizada no movimento pentecostal”. Alguns disseram que fui rude. Acho que não. Explico:

Na primeira carta à Igreja de Corinto, Paulo gasta os capítulos 12, 13 e 14 para instruí-los a respeito dos dons espirituais e já no final do capítulo 12 ele classifica em último lugar numa lista de importância.

No capítulo 13 (que hoje é erroneamente usado como apologia ao amor romântico) ele mostra o quanto o mau uso do dom de línguas é perigoso para a igreja e o quanto ele está ligado ao comportamento infantil: “quando eu era menino falava como menino”.

No capítulo 14 a ênfase na meninice é enorme: “Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos. Na lei está escrito: Falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas constituem um sinal não para os crentes, mas para os incrédulos” (14.20-22).

Ainda, no mesmo capítulo: “Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais loucos? Porém, se todos profetizarem, e entrar algum incrédulo ou indouto, é ele por todos convencido e por todos julgado; tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós” (23-25).

Vale lembrar que Corinto era uma cidade portuária. Mais do que isso: Possuía um canal que poupava a circum-navegação da península do Peloponeso, o que, dependendo do vento, poderia levar até dois dias. Para atrair os marujos que o usavam, a cidade oferecia gratuitamente muitos templos, com prostitutas cultuais, conforme os Deuses das muitas nações, cobrando caro por outros serviços.

Como anunciar o Evangelho a falantes de tantos idiomas? O Espírito Santo capacitava os membros daquela Igreja do mesmo modo como fez no Dia de Pentecostes. Entretanto, Paulo os exorta a que tenham cuidado para não escandalizarem indoutos e incrédulos. Marujos estrangeiros que eventualmente entrassem na igreja deveriam ouvir as grandezas de Deus “ordeira e decentemente” (14.40), em grupos de “dois ou quando muito três, e isto sucessivamente” (14.40) e com interprete para que toda Igreja saiba o que se está falando.

Duas conclusões se impõem:

1ª - Você se preocupa com evangelização? Cultue a Deus ordeira e decentemente e o resultado será a proclamação de que Deus está presente: Veja os versículos 24 e 25: “... é convencido e por todos julgado; tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós”.

2ª - Repare no oposto. Na confusão instalada. Qual é o julgamento que as Sagradas Escrituras autorizam que os incrédulos façam a respeito da Igreja? Não é que estão loucos? Entendeu por que razão eu creio que o movimento pentecostal (que está fazendo 100 anos) foi a institucionalização (com a permissão divina) da vergonha sobre a Igreja?

sábado, 11 de junho de 2011

Pentecostes

Por que razão Jesus treinaria onze homens durante três anos, toleraria suas infantilidades e disputas pela proeminência no Reino dos Céus, perdoar-lhes-ia a fuga diante do perigo e até mesmo a negação do mais obsequioso?

Por que, depois de tudo isso ainda se preocuparia em convencê-los de que havia mesmo ressuscitado, como lhes havia dito?

Por que, lhes mandaria, como testemunhas dessa ressureição, pelo mundo afora, após capacitá-los, mediante seu Espírito a falar os idiomas dos respectivos povos para as quais se dirigissem?

Pra que todo esse dispêndio de tempo, sofrimento e lutas se a missão deles, afinal de contas, se resumirá em pronunciar garatujas sonoras?

Mas, dirão: “quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” (1Co 14.2). Realmente. Isso acontecia todas as vezes quando, por exemplo, um chinês passava em Corinto (cidade portuária, cujo canal encurtava em muito as viagens de então) e um cristão, com o mesmo dom recebido no dia de Pentecostes o evangelizava de igual modo.

Objetarão: “O que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetiza edifica a igreja” (1Co 14.4). É óbvio, pois tal pessoa está perdendo uma excelente oportunidade de falar no idioma que a Igreja entenda. Por essa razão o mesmo Paulo escreveu: “Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua” (1Co 14.19).

Percebeu? O que fiz foi substituir a palavra língua (desvirtuada pelos pentecostais), pela palavra idioma. Faça isso como os demais textos. Aliás, perceba que a única igreja do Novo Testamento que apresentou problemas com o dom de línguas foi a de Igreja Corinto. Veja suas peculiaridades. Veja também como Paulo a trata: no mínimo os chama de meninos.

O Espírito Santo prepara homens que falam com poder e convicção, cujas palavras reverberam a própria Palavra de Deus. O inimigo é que enche o trigal de joio: enganadores, vendedores de promessas, mercadores do sagrado e exploradores de pessoas simples!

Há pouco mais de um século a vergonha da Igreja foi institucionalizada no movimento pentecostal. Os significados de algumas de palavras foram desvirtuados e a autoridade das Escrituras Sagradas foi solapada de tal forma que nem a Igreja Romana tinha ainda conseguido fazer.

No dia de hoje celebramos a concretização da promessa de Jesus e graças a ação do Espírito Santo ainda somos capazes de servir a Deus como ele quer.

E o dom de línguas?

Está em pleno uso pelos muitos tradutores e já não são mais apenas 14 nações que ouvem as grandezas de Deus. Só os Gideões Internacionais já distribuem a Bíblia em 93 línguas diferentes, mas há quem fale que ela já foi traduzida ao longo há história, em mais de 2000 línguas diferentes.

Louvado seja o Senhor. Já estamos fazendo coisas maiores do que ele mesmo fez, para sua glória e honra.

sábado, 4 de junho de 2011

Justiça pra que?

De tudo o que já li e ouvi, aprendi que o direito brasileiro se inspirou na corrente francesa que busca a ressocialização do condenado, diferentemente da corrente anglo-germânica que busca a reparação da injustiça cometida.

Ficando no que conheço de fato, posso afirmar que a Bíblia - especialmente o Antigo Testamento, onde esse assunto é mais claro, pois a legislação mosaica incluía a lei civil de Israel - busca mais a reparação da injustiça feita.

A lei mosaica era essencialmente retributiva. Jamais passaria na cabeça de um judeu daqueles dias que privar alguém de seu direito de andar pelas ruas seria punição suficiente para um assassino, estuprador ou ladrão. Aliás, eles desconheciam essa penalidade: não tinham prisões.

O que era furtado devia ser devolvido com acréscimo. O estupro de uma mulher descomprometida obrigava o estuprador a casar-se com ela sem direito de divórcio e o de uma mulher comprometida era punido com a morte. Mas eles não tinham carrascos: a comunidade coletivamente tirava a vida do assassino.

No caso do homicídio involuntário havia a provisão das cidades de refúgio, as quais não poderiam tolerar a presença de homicidas dolosos.

A pena de morte não era inovação de Moisés. Deus já havia ordenado a Noé: “A todo aquele que derramar sangue, tanto homem como animal, pedirei contas; a cada um pedirei contas da vida do seu próximo. Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus foi o homem criado” (Gn 9.5-6 NVI).

A legislação brasileira atual acredita que pode ressocializar alguém que matou seus pais, seus filhos ou matou a quem não comungava de suas ideias, raça, credo, etc. Crê tanto, que se for menor de 18 anos proíbe a divulgação de sua imagem e quando chega a maioridade, por pior que seja seu “currilculum mortae” é zerado para que ele comece vida nova.

A fé na ressocialização do criminoso é tão grande que a polícia só pode algemá-lo se ele representar algum perigo no ato de detenção e sua imagem deve ser resguardada mesmo depois de condenado.

Talvez isso explique por que um homem que presidia um organismo mundial, depois de acusado, tenha sido preso e exposto algemado ao mundo como um aviso de que o país que o prendeu está mais interessado na manutenção da socialização. De fato, naquele lugar o primeiro passo para a ressocialização é a vergonha de ser exposto como um marginal qualquer.

Não creio que as leis veterotestametárias devam ser aplicadas hoje. Jesus aboliu completamente o aspecto cúltico delas e cumprimos seu aspecto moral por que já somos salvos, não para o sermos. Afinal salvação não se compra. Entretanto nossos Símbolos de Fé ensinam que o aspecto civil delas deve ser refletido nas leis dos diversos países de que somos cidadãos. Daí surge a pergunta: Estão refletidas nas leis de nosso Brasil?

sábado, 28 de maio de 2011

Fato e sentimento

Pode, acaso, o etíope mudar sua pele
ou o leopardo, suas manchas?
Então, poderíeis fazer o bem,
estando acostumados a fazer o mal?
(Jeremias 13.23).

Nos dias do profeta Jeremias, como em até poucos anos, era muito difícil mudar-se as características da própria raça. Até hoje só vi uma pessoa que o fez. O conheci pela televisão ainda criança cantando com seus irmãos. Quando ficou jovem afinou cirurgicamente os traços do rosto e, não sei como, clareou a pele.

Conheci muitos inconformados com a cor negra da própria pele. Vi quem a amaldiçoasse declarando entre lágrimas o desejo de ter nascido branco.

Igualmente conheci brancos inconformados com o que em alguns estados do nordeste é chamado de fogoió e no sul de branco azedo, desejando, pelo menos, ser morenos.

Negros, morenos ou brancos, por mais que se pinte a pele ou se faça algum tratamento radical, como fez o finado cantor a que me referi, jamais deixarão de ser negros, morenos ou brancos. Assim foram criados por Deus e assim se apresentarão diante dele.

Atendo-me ao texto do profeta Jeremias vejo que o pecado está arraigado em nossas naturezas como a cor de nossa pele. Qualquer que seja o pecado. Livrar-nos de nossa natureza pecaminosa é tão difícil quanto um etíope livrar-se da cor de sua pele ou leopardo das manchas de sua pelagem. Ou seja: o pecado faz parte do que somos.

Alguém de tendência heterossexual, que respeita os propósitos “do desenho anatômico do Criador” pode desfrutar do que o próprio Criador previu: o casamento. Pois somente dentro do casamento o sexo deve ser consumado sem ferir os propósitos estabelecidos pelo Criador.

Alguém com tendência homossexual deve pedir ao próprio Criador que mude sua tendência e se case com alguém do sexo oposto, ou lhe conceda a graça de viver em santidade. Pois tanto a concupiscência heterossexual como a concupiscência homossexual são pecados.

***

Entretanto, o texto nos leva a outras considerações.

Costumamos desdenhar de quem se envergonha de ser negro e considera os brancos membros de uma raça superior. No mínimo o julgamos digno de dó.

Apoiamos as leis que garantem igualdade de tratamento e de oportunidade especialmente aos de pele negra que historicamente tiveram seus ancestrais explorados como escravos e até hoje são discriminados e aplaudimos leis que coagem os opressores a tratarem-nos como outro qualquer cidadão brasileiro.

Mas, paradoxalmente alguns que nascem homem e se sentem mulher, ou vice versa, ultimamente tem exigido o direito, às vezes de modo afrontoso, que a sociedade os trate conforme eles se sentem. Vão mais longe: reivindicam que o Estado os conceda direitos próprios de seu sentimento de ser.

Se por um lado, coerente e corretamente o Estado deve garantir os direitos dos que são discriminados racialmente, até que ponto o Estado é obrigado garantir os direitos dos que se sentem discriminados sexualmente? Enfatizo o sentir.

Desde quando o sentir pode ser comparado ao que é? A um fato que pode ser objetivamente aferido? Não bastaria ao Estado garantir os direitos individuais de qualquer cidadão independentemente do modo como ele se sente?

Dia desses vi um documentário sobre um homem que se sentia felino. Limou os dentes, aparou as unhas, cultivou o bigode e as sobrancelhas. Fez cirurgia plástica nos olhos, tratou o conjunto lábio superior e nariz para assemelhar-se mais a um felino. Bebia leite em pires. Fiquei pensando se muitos seguissem seu exemplo e resolvessem exigir tratamento de felino nos restaurantes, nas escolas, igrejas, etc? Como se não bastasse, resolvessem criminalizar quem não os reconhecesse como felinos.

Essa é a situação que vivemos.

O Estado já assegurou o direito de se unirem com pessoas de igual sentimento sexual e tudo o que decorre de tais uniões, como pensão, herança, previdência e até adoção de filhos.

Teria o Estado o direito de impor seus costumes, agenda, e modus operandi a toda sociedade? Especialmente aos que se recusam a concordar com eles, ou não se sentem como eles?

Teria o Estado o direito de obrigar as crianças, desde pequenas, a experimentar um pouco da vida que levam a fim de prevenir uma futura discriminação?

Justiça inclemente para quem os agride por se sentirem como se sentem. Justiça inclemente para quem agride a uma criança ou um idoso, ou a qualquer semelhante. Justiça, pois o efeito da justiça é sempre paz.

Justiça aqui, pois esta é apenas sombra da que o Juiz de toda terra exerce.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sal que não salga mais

Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal;

que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade;

põem o amargo por doce e o doce, por amargo!

(Isaías 5.20).

O profeta Isaías viveu em tempos parecidos com os nossos. Nasceu no reinado de Uzias, que, considerando os poucos recursos, foi melhor administrador do que Salomão. Entretanto desatinado pelo poder quis oficiar no templo, e provavelmente Isaías tenha sido um dos oitenta “homens da maior firmeza”, que apoiaram o sacerdote Azarias em impedi-lo.

Isaías acompanhou os reinados de seu filho, Jotão, e seu neto, Acaz. Este último idólatra a ponto de sacrificar os próprios filhos à Baal. E foi na época de Isaías que a Assíria cercou o Reino do Norte e levou cativos os que sobreviveram.

Isaías viu ainda seu bisneto, Ezequias, promover o primeiro grande reavivamento em Judá. Destruiu os santuários idólatras, purificou o templo e convocou todo Israel para celebração da Páscoa, que de tão concorrida teve de autorizar os levitas a ajudarem os sacerdotes.

Jerusalém era então a capital do território da tribo de Judá e mesmo sob a repressão de Ezequias e a visão do castigo de Deus sobre as onze tribos do Norte, a superstição grassava de tal modo que era mais fácil encontrar quem buscasse auxílio nos deuses das nações vizinhas do que no Eterno. Nesse ambiente - parecido com o nosso - foi que Isaías profetizou. Veja como as palavras acima se destacam.

Após falar dos cuidados do Senhor com Israel, como os cuidados de um viticultor com sua vinha dileta, seis “Ais” são pronunciados contra os perversos de então:

O primeiro (v8 a 10), contra a ganância, vista na especulação imobiliária. O segundo (v11 a 17), contra a corrupção dos costumes, vista na bebedice e nas rodas de escárnio. E o terceiro (v18 a 19) contra a corrupção religiosa, vista no questionamento da soberania de Deus.

Já o quarto, que encabeça este artigo (v20) contra a corrupção moral é visto na relativização dos valores.

O quinto (v21) contra a arrogância, vista na autopromoção. E o sexto (v22 a 25) contra a corrupção social, vista no tráfico de influência e no suborno.

Você há de concordar comigo que todos esses temas são atualíssimos e todos devem ser estudados com vagar. Porém, há muito tempo, o quarto ecoa em meus ouvidos.

Ecoou, quando ouvi um pretenso pastor dizer que Deus estava impotente - sequer sabia! - do tsunami que matou tantos na Indonésia no final de 2004. Qual sino, não para de badalar, sempre que há uma tragédia. Pior: convence a muitos.

Ecoou e ecoa todas as vezes que vejo o nome do Eterno sendo usado como mote de comércio, pretexto de lucro ou motivo de barganha. Templos transformados em casas de leilões, recintos outrora dedicados a seu reino transformados em bancas de feira.

Como poderia falar de míseras cartilhas que ensinam a falar e a escrever errado? No máximo as crianças que aprendem “nós foi” não conseguirão empregos decentes, enquanto essas outras correm risco eterno. Porém, o erro é essencialmente o mesmo: Ao amargo chamam doce e às trevas chamam luz. Ai deles!

Entretanto, temos de cuidar de nosso meio primeiro, pois “se o sal perder o sabor para nada mais serve, se não para, lançado fora, ser pisado pelos homens”.

Ontem, enquanto aguardava na fila fui panfletado por dois travestis que divulgavam uma peça teatral protagonizada por duas missionárias, um ministro e uma obreira. Passei o tempo de fila pensando e conclui: Esse é modo como Deus está limpando sua Igreja hoje. No passado foram as perseguições pelo sangue, hoje são as perseguições pela ideologia e pelo escárnio.

Cartilha com erros gramaticais será pouco. Cartilhas piores virão, toleramos um pouco de mundanismo, estamos colhendo terrível safra.

Que Deus tenha misericórdia de nós.

sábado, 14 de maio de 2011

Destruindo fundamentos

Nosso país já teve diversas Constituições. Duas recebemos prontas: a de 1824, que nos foi outorgada por D. Pedro I, e a de 1937, que recebemos de Getúlio Vargas. As demais, de 1891, de 1934, 46 e de 88, sob a qual vivemos hoje, foram promulgadas pelo Congresso Nacional.

Podemos dizer que as que nos foram outorgadas expressam a vontade de alguém ou de um grupo e as que foram promulgadas expressam a vontade de todos nós, especialmente se os constituintes foram eleitos para fazê-las e elas não foram emendadas à força como a de 1946 o foi pelo regime militar.

Hoje, 9/5/2011, no site do Palácio do Planalto, na página da Constituição, copiei o seguinte:

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.

§ 3º - Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.

Percebeu? A Constituição de 1988 diz que o Estado deve reconhecer a união entre homem e mulher! Note que a atual Constituição, feita por congresso eleito para fazê-la, promulgada pelo mesmo congresso em nosso nome, tão emendada que é difícil de ler seu texto original, mantém intacta esta parte que transcrevi.

Como então nossos mais ilustres juízes abrigaram debaixo deste texto tão claro a união de homem com homem e mulher com mulher?

Nossa corte maior não considera preponderante a diferença anatômica dos órgãos genitais para diferençar um homem de uma mulher.

Pelo que pude ouvir enquanto os ministros liam seus respectivos votos, parece que essa qualidade objetiva, foi substituída por outras como hormônios ou coisas subjetivas como preferência ou orientação sexual.

Há mais de 15 anos, desde o curso de Linguística, ouço: “A divisão por sexo já não dá conta das complexidades modernas. O problema deve ser resolvido com a divisão por gênero”.

Não era para ser assim!

As Sagradas Escrituras dizem que Deus nos criou homem e mulher e a cada sexo seu respectivo gênero. Quando nossos primeiros pais desobedeceram ao Criador perderam a harmonia com ele e com tudo o mais que ele havia criado inclusive com aquilo que constitui suas personalidades. E nós herdamos deles essa desarmonia.

O fato de termos herdado não nos isenta de culpa, pois nós a reforçamos. Pior: no caso específico nossos legisladores até tentaram abrandar um dos erros usando a solução dada pelo próprio Criador que é o casamento entre o homem e a mulher. Mas nossos juízes maiores resolveram que nossos legisladores e o próprio Criador erraram. Os mais soberanos juízes! Aqueles que juraram defender o que os legisladores escreveram e dos quais não existe a quem recorrer!

"Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?" (Sl 11.3).

Como cidadão não sei responder a essa pergunta. A quem posso recorrer contra um erro do Supremo Tribunal Federal? Começar colher assinaturas para uma nova emenda a constituição, que proíba a interpretação subjetiva das palavras homem e mulher? Não creio que consiga. Provavelmente teria o mesmo destino da moribunda Lei da Ficha Limpa.

Entretanto, como cristão, sei responder. Temos uma Constituição que não foi promulgada por nenhum congresso humano. Sequer foi outorgada. Foi imposta pela vontade daquele que chama a si mesmo de Senhor, e que, pela sua graça, concedida em seu Filho, nos deu o privilégio de chamá-lo de Pai.

Se os fundamentos de nossa cidadania estão sendo solapados, os fundamentos de nossa fé continuam mais firmes do que nunca, e podemos dizer confiantes: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações. Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares” (Sl 46.1-2).

Devemos obediência às autoridades constituídas, pois são ministros de Deus (mesmo que não tenham sido eleitas por nós, pois quando o Apóstolo Paulo deu esta ordem, a Igreja vivia debaixo dos césares) e é nossa obrigação orar por elas com sinceridade de coração. Peçamos ao juiz maior, que tem jurisdição sobre elas, a quem prestarão contas, que lhes seja misericordioso. Afinal sua Palavra é clara: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7).

sábado, 7 de maio de 2011

As loucuras de Deus

Deus criava caso com cada coisinha! Foi a reclamação de alguém ao me cumprimentar à saída da igreja depois de eu ter pregado sobre a festa dos pães asmos.

Fiquei convencido de que preguei um péssimo sermão ou de que ele dormiu (hipótese muito provável face as qualidades soporíferas de minha voz).

Ele não entendia por que, na Antiga Aliança, Deus proibia o uso do fermento durante uma semana no ano, e eu tentei mostrar que, como sombra de coisas superiores que viriam, Deus ensinou aos judeus como se corta os vínculos com o passado que tenta dominar o presente e afetar o futuro.

Hoje podemos comprar fermento nos supermercados e nos mercadinhos. Uma amiga me disse que a mãe dela o fazia em gamela de madeira com açúcar mascavo e farinha polvilhada antes de colocar a massa do pão para repousar coberta por um pano. Entretanto, naqueles dias, fazer fermento era algo complicadíssimo.

E a primeira lição começou na saída do Egito: A páscoa era o início da Festa dos Pães Asmos. Durante sete dias não podiam comer nada levedado. Portanto, do Egito não levaram fermento.

Primeira lição: Quem sai do Egito não leva seu fermento. O apóstolo Paulo aplica esta lição ao incestuoso de Corinto: “lançai fora o velho fermento”. Nem os ídolos do Egito nem os costumes pagãos de Corinto.

O que era permitido fazer no Egito não é mais permitido no arraial peregrino. O que era comum em Corinto - apesar de ser estranho entre os pagãos - sequer deve ser visto na Igreja.

A segunda lição foi dada por nosso Senhor ao advertir seus discípulos contra o fermento dos fariseus e saduceus e explicar que estava se referindo a doutrina e a hipocrisia deles. Ou seja: Até um discípulo que priva da intimidade do Senhor pode ser afetado pelo fermento desses grupos.

Os fariseus e os saduceus eram os principais grupos políticos-religiosos da época de Jesus. Dividiam o poder com outros grupos menores. E embora concordassem em poucos pontos doutrinários foram os responsáveis pela tradição tal como Jesus a encontrou.

Mais legalistas, os fariseus, estabeleciam medidas, regras, limites e costumes. Os saduceus aproveitavam o que lhes interessavam, pois a grande maioria deles era constituída de famílias sacerdotais muito ricas e interessadas em manter o status quo.

Da oração de um fariseu (Lc 18.12) sabemos que ele - e parece que os demais - jejuava duas vezes por semana, e da ordem que o Senhor dá de fazer isso secretamente (Mt 6.17), parece que era comum alardear para atrair admiração. Entretanto a Lei só exigia um jejum por ano! Apenas no dia da expiação. Ou seja: Eles multiplicaram por 100 a exigência da lei apenas para obter a admiração dos homens.

Essa tradição hipócrita deveria ser deixada de lado pelos discípulos de Jesus.

A lição para hoje é que após nos encontrarmos com Jesus, o verdadeiro cordeiro pascal, devemos proceder como faziam nossos antepassados e queimemos o velho fermento, para que ele não contamine nem nosso presente, muito menos nosso futuro, pois somos novas criaturas.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...