sábado, 22 de fevereiro de 2014

Fizestes distinção entre vós mesmos

Embora as opiniões a esse respeito não sejam unânimes eu prefiro datar a Carta de Tiago como tendo sido escrita nos primeiros anos da Igreja, logo depois da perseguição que veio após a morte de Estêvão: mais especificamente no ano 45. Situando-a nos primeiros dias fica mais fácil entender por que ele chama uma igreja local de sinagoga (Tg 2.2). Situando-a neste período também fica fácil de entender que ele a destinou aos perseguidos que se espalharam a partir de Jerusalém: “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que se encontram na Dispersão, saudações” (Tg 1.1).

O Tiago que a escreve identifica-se com “servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo”. Acho que é o mesmo Tiago lembrado por Pedro ainda de madrugada quando se viu livre da prisão (At 12.17). Esse Tiago era um dos mais destacados líderes da Igreja de Jerusalém ao ponto de Judas, em sua carta, identificar-se simplesmente como seu irmão (Jd 1). Foi ele quem apresentou o parecer acolhido pelo Concílio de Jerusalém (At 15.13) e dele Paulo declara que era tido como uma das colunas daquela Igreja (Gl 2.9).

No Novo Testamento encontramos quatro pessoas chamadas Tiago: o pai do apóstolo Judas (Lc 6.16 e At 1.13), o filho de Zebedeu, irmão de João (que foi morto pouco tempo antes dessa perseguição); o apóstolo que era filho de Alfeu; e este, que era um dos irmãos de Jesus, também filho de Maria e José (Mc 6.3) e foi chamado pelo Senhor após sua ressurreição (1Co 15.7).

O objetivo da Carta de Tiago é confirmar a fé (palavra repetida 15 vezes) de seus leitores, que, como já disse, passavam por provações. Certamente essas provações eram decorrência da perseguição que estavam sofrendo.

Sua primeira preocupação é mostrar que a provação deve ser recebida como uma oportunidade dada por Deus para nos tornar mais perseverantes. E, com este objetivo em mente, ele passa a discorrer sobre diversos assuntos presentes em tempos de dificuldades: a prática de boas obras, a oração, a fala, os planos futuros, etc.

Entretanto, o que selecionei como destaque foi a discriminação decorrente da posse de bens. Veja a hipótese proposta por Tiago: “Se, portanto, entrar na vossa sinagoga algum homem com anéis de ouro nos dedos, em trajos de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e tratardes com deferência o que tem os trajos de luxo e lhe disserdes: Tu, assenta-te aqui em lugar de honra; e disserdes ao pobre: Tu, fica ali em pé ou assenta-te aqui abaixo do estrado dos meus pés, não fizestes distinção entre vós mesmos e não vos tornastes juízes tomados de perversos pensamentos?” (Tg 2.2-4).

Tiago nos mostra que já nos primeiros dias da Igreja havia pobres e ricos entre seus membros e dificuldades de convivência entre eles. Aliás, isso também pode ser visto no pecado do casal Ananias e Safira, em que desejavam ser reconhecidos como desprendidos dos bens materiais e ao mesmo tempo mantê-los.

O ensino bíblico sobre riquezas sempre foi que Deus é o dono de tudo e nós somos seus administradores. Os que chamamos de ricos, na realidade são apenas administradores de mais bens e com mais contas a prestar. Portanto, tratar alguém que tem mais (apenas por ter mais), em detrimento de alguém que tem menos (apenas por ter menos), destinando-lhe o chão como assento, significa cometer, pelo menos, 3 pecados:

1º - Glorificar-se a si mesmo assumindo o papel de juiz da importância alheia.

2º - Julgar alguém pelo que ele tem! Não pelo que ele é. Deus, através de sua palavra, nos exorta continuamente a sermos juízes sobre a essência e, desprezando o mal, acolhermos o bem. Somos constantemente proibidos de julgar pela aparência.

3º - Fazer distinções no Corpo de Cristo. Ou, como diz o próprio Tiago: “fazer distinções entre vós mesmos” (2.4). Cristo morreu por cada membro de sua Igreja. Ao privilegiarmos um em detrimento de outro, pecamos.

A Carta de Tiago é um testemunho de que esse pecado sempre existiu na Igreja, mas também é uma exortação a que não o cometamos. Não ofendemos apenas a nosso irmão pobre, menosprezando-o por ele ter poucos bens sob sua guarda, pecamos também contra o rico destacando-lhe em função de algo que não lhe pertence. Porem principalmente ofendemos muito mais a Deus, que fez igual a todos e trata igualmente a quem diferençamos.

Não façamos isso.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Quando olho para os teus céus...

Quando Davi escreveu esta frase o que se via dos céus era pouco mais do que podemos ver hoje à olho nu. Pouco mais, pois os céus de então eram mais claros. Quero dizer: a atmosfera era menos poluída e a luz mais ofuscante era uma fogueira.

Muitos anos antes de Davi, desde o tempo dos patriarcas, os céus já eram observados. Em resposta a pergunta de Jó (9.9), o SENHOR lhe questiona sobre as constelações (especificamente a do Sete-estrelo e a de Órion (Jó 38.31). E, séculos mais tarde, sua palavra através de seu profeta Amós, exorta um povo idólatra buscar, não as constelações, mas o Criador delas (Am 5.8).

O mesmo Amós (5.25-27) nos informa que, apesar dos grandes milagres e certamente da ameaça constante de juízo, durante os quarenta anos de peregrinação pelo deserto, os céus os fascinava tanto que fizeram o “deus-estrela”. Estêvão lança isso na cara dos religiosos Judeus aferrados ao templo de Jerusalém (At 7.41-43).

Na Babilônia não podia ser diferente. Os céus eram perscrutados à cada instante e o entendimento do que supunham que eles revelassem era fundamental para alguém ser tido como sábio. Veja a primeira metade do livro de Daniel, especialmente o capítulo 2, versículo 27.

Hoje temos aparelhos que nos possibilitam ver muito mais longe e outros que nos “mostram” o que nossos olhos não enxergam: o infravermelho, o ultravioleta, os raios-x, os raios gama, etc.

Hoje sabemos que nos céus há mais do que estrelas. Já catalogamos planetas, luas, cometas, quasares, pulsares, supernovas, estrelas anãs brancas, negras e marrons ...

Chegamos ao ponto de colocar telescópios  fora da atmosfera de nosso planeta para observar o mais longe possível. O mais conhecido deles foi o Hubble.

Quando, por volta de 1580, Galileu Galilei olhou os céus o fez através de um telescópio que os aproximava 20 vezes. Foi o começo de uma nova era. Galileu nunca duvidou que os céus fossem os céus do Senhor. O que ele não concordava era com a imposição que as autoridades religiosas faziam sobre a verdade. Creio que ele podia dizer também (talvez até com maior propriedade): “Quando olho para os teus céus...”.

Hoje, quando eu olho para os céus não consigo ver muita coisa, pois o brilho das luzes da cidade ofusca e apenas as estrelas mais luminosas se destacam pálidas. Às vezes, em alguns dias de férias em Alto do Caparaó, afastado das luzes, a majestade da criação aparece. O que já brilhava, brilha com mais força e cada constelação parece adquirir relevo e saltar pra fora dos céus. A multidão de estrelas mostra seu caminho na Via Láctea. E como Davi, digo: quando olho os teus céus...

Dizer esta frase não significa apenas assentir que os céus são de Deus (foram feitos por ele), mas também deixar subtendido nosso êxtase diante de algo grandioso que não podemos perscrutar. Observamos, catalogamos, mas logo vemos que as próprias distâncias estão além da nossa realidade: ultrapassam nosso tempo de vida. Não são nossas (não enquanto estivermos sujeitos a esta condição de vida).

Quando olho para os teus céus, tenho uma pálida ideia  de quem tu és e logo penso: quem é o homem para que o visites?

sábado, 25 de janeiro de 2014

Levitas

Os descendentes do terceiro filho de Jacó, Levi, formaram um grupo que se destacou ao longo da história de Israel. A história deles é claramente dividida em três fases: Até o Sinai, do Sinai à época de Davi e da época de Davi até o Exílio.

Até o Sinai eram uma tribo como outra qualquer, porém, junto com os descendentes de Simeão, carregavam o estigma de violentos, devido as palavras da bênção enviesada de Jacó: "Simeão e Levi são irmãos; com as suas armas praticam violências. Não estarei presente quando fizerem planos, não tomarei parte nas suas reuniões, pois no seu furor mataram homens e por brincadeira aleijaram touros. Maldito seja o furor deles, pois é violento! Maldita seja a sua ira, pois é cruel! Eu os dividirei na terra de Israel, eu os espalharei no meio do seu povo” (Gn 49.5-7 NTLH).

Após o Sinai houve a grande transformação: Passaram a ser auxiliares dos sacerdotes.

Enquanto Moisés recebia a Lei diretamente das mãos de Deus, o povo convenceu Arão a fazer um bezerro de ouro e o idolatraram. Ao ver o terrível espetáculo de orgia e idolatria Moisés chamou os “que eram do SENHOR”. Apresentaram-se todos os filhos de Levi e receberam instruções do SENHOR de matar os idólatras. Mataram “uns três mil homens” (Ex 32.8). Foram, porco tempo depois, apresentados por Moisés e Arão como Oferta Movida perante o Senhor (Nm 8.21), mas parece que só começaram a exercer o ofício após a morte de Arão (Dt 10.6-8).

O exercício do ofício era detalhado: Os descendentes de Coate, que não fossem filhos de Arão e, portanto sacerdotes, tinham o encargo de transportar a Arca da Aliança (Nm 4.1-19). Os descendentes de Gerson transportavam os tecidos do Tabernáculo e os de Merari transportavam o madeiramento: tábuas, varas e colunas.

Inicialmente eram vinte e dois mil e Deus os tomou no lugar dos primogênitos que ele salvara: “Faze chegar a tribo de Levi e põe-na diante de Arão, o sacerdote, para que o sirvam 7 e cumpram seus deveres para com ele e para com todo o povo, diante da tenda da congregação, para ministrarem no tabernáculo. 8 Terão cuidado de todos os utensílios da tenda da congregação e cumprirão o seu dever para com os filhos de Israel, no ministrar no tabernáculo. 9 Darás, pois, os levitas a Arão e a seus filhos; dentre os filhos de Israel lhe são dados. 10 Mas a Arão e a seus filhos ordenarás que se dediquem só ao seu sacerdócio, e o estranho que se aproximar morrerá” (Nm 3.6-10).

Eles não receberiam qualquer parte na terra, mas possuiriam 48 cidades (Js 21.41) e as terras ao redor delas até uma distância de mil côvados: “... não contarás a tribo de Levi, nem levantarás o censo deles entre os filhos de Israel; mas incumbe tu os levitas de cuidarem do tabernáculo do Testemunho, e de todos os seus utensílios, e de tudo o que lhe pertence; eles levarão o tabernáculo e todos os seus utensílios; eles ministrarão no tabernáculo e acampar-se-ão ao redor dele. Quando o tabernáculo partir, os levitas o desarmarão; e, quando assentar no arraial, os levitas o armarão; o estranho que se aproximar morrerá” (Nm 1.49-51).

Apesar de nascerem Levitas tinham a idade certa para o exercício do ofício: a aposentadoria compulsória foi sempre aos cinquenta anos e a idade de iniciar variou. Inicialmente trinta anos (Nm 4.3), depois vinte e cinco (talvez para preparação) (Nm 8.24-26) e tempos depois apenas 20 anos (1Cr 23.24).

Às vésperas de se instalar o pomposo culto no templo (que acontecerá sob o reinado de Salomão), Davi os dividiu em três grupos: Porteiros, guardas e músicos: “Porque disse Davi: O SENHOR, Deus de Israel, deu paz ao seu povo e habitará em Jerusalém para sempre. Assim, os levitas já não precisarão levar o tabernáculo e nenhum dos utensílios para o seu ministério. Porque, segundo as últimas palavras de Davi, foram contados os filhos de Levi de vinte anos para cima” (1Cr 23.25-27).

Desempenharam papel importante ao longo de todo período dos reis, mas foram quase todos levados cativos pelos assírios. Cem anos mais tarde, os que ficaram em Judá, foram levados cativos também para a Babilônia. As listas de retorno mostram um número pequeno e alguns não puderam comprovar sua origem: Os seguintes subiram de Tel-Melá, Tel-Harsa, Querube, Adom e Imer, porém não puderam provar que as suas famílias e a sua linhagem eram de Israel: […] 63 Dos sacerdotes: os filhos de Habaías, os filhos de Coz, os filhos de Barzilai, o qual se casou com uma das filhas de Barzilai, o gileadita, e que foi chamado pelo nome dele. 64 Estes procuraram o seu registro nos livros genealógicos, porém o não acharam; pelo que foram tidos por imundos para o sacerdócio. 65 O governador lhes disse que não comessem das coisas sagradas, até que se levantasse um sacerdote com Urim e Tumim (Nm 7.61-65).

Parece que nos dias de Jesus a influência deles era muito pequena. Afinal, na Babilônia surgiram as sinagogas e uma prática religiosa aberta a todos. Na Carta aos Hebreus é lembrado apenas do sacerdócio deles como algo que tipificava o verdadeiro que passou a ser exercido por Jesus.

Como Jesus eles, além de oficiantes eram também a oferta (foram consagrados a Deus como Oferta Movida) e substituíram os primogênitos de Israel.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Sacerdotes

No Sinai, enquanto Moisés recebia a Lei diretamente das mãos de Deus, Israel pressionava Arão para fazer um culto à moda egípcia, e tragicamente o primeiro culto que ele oficiou foi a um bezerro de ouro. Apesar de tamanho pecado o sacerdócio não lhe foi tirado, nem de sua família, que era parte da tribo de Levi.

Educados, para o sacerdócio desde criança, eram ungidos apenas aos trinta anos  e aposentados compulsoriamente aos cinquenta (Nm 4.3). A primeira turma foi de 2.750 sacerdotes, porém, ao longo da história de Israel, seu número variou, assim como suas responsabilidades. Mas, basicamente representavam povo diante de Deus, os ensinavam a guardar a lei e os abençoavam (Nm 6.23-27).

Eles não podiam (Lv 21) participar de sepultamentos, exceto de parentes próximos (pais, filhos e irmãos), e o Sumo Sacerdote nem destes podia. Era-lhes proibido desgrenhar os cabelos (perder a calma) ou raspá-los, barbearem-se ou tatuarem-se. Rasgar a próprias vestes (sinal de desespero ou de grande aflição); tomar prostitutas ou repudiadas, ou casar-se com alguém de linhagem obscura.

Os cegos não podiam ser sacerdotes, bem como os coxos, os portadores de cicatriz ou deformidade no rosto. Tampouco os pernetas, os manetas, os corcovados, os anões, os de olhar esbranquiçado, os portadores de sarna ou impingem, ou os castrados. “Nenhum homem da descendência de Arão, o sacerdote, em quem houver algum defeito se chegará para oferecer as ofertas queimadas do SENHOR; ele tem defeito; não se chegará para oferecer o pão do seu Deus. Comerá o pão do seu Deus, tanto do santíssimo como do santo. Porém até ao véu não entrará, nem se chegará ao altar, porque tem defeito, para que não profane os meus santuários, porque eu sou o SENHOR, que os santifico” (Lv 21.21-23).

Trabalhavam organizados em turmas (que na época de Davi eram compostas de 24 sacerdotes) as quais se revezavam semanalmente. Oficiavam com ritos elaboradíssimos cinco tipos de sacrifícios: 1º) o Holocausto, em que a vítima (bezerro, carneiro ou ave) era totalmente queimada; 2º) a Oferta de Manjares (trigo ou cevada) em grãos ou bolos; 3º) o Sacrifício Pacífico, que tinha uma parte da vítima (qualquer espécie de gado) e dos manjares divididos entre os familiares do ofertante; 4º) o Sacrifício pelo Pecado, que antes de sacrificar a vítima (um cordeiro e novilho, bode, cabra, duas rolas ou dois pombinhos e uma tigela de farinha de trigo) exigia a declaração de qual pecado se referia e depois a restituição; e 5º) o Sacrifício pela Culpa, que parecia se referir aos pecados cometidos propositalmente (a vítima era sempre um carneiro).

Obrigatoriamente trajavam uma vestimenta de quatro peças (o Sumo Sacerdote de 8 peças), que, não podia ser substituída, mesmo em dias de calor intenso. Curiosamente não havia provisão de calçados.

A história mostra que eles foram muito influenciados pelos povos vizinhos e pelos diversos reis de Israel. Privilegiados, acabaram se corrompendo ou tornando-se insensíveis para com o ministério recebido. Oséias lhes acusa de rejeitarem a Lei de Deus (Os 4.6). Jeremias depreca a situação deles em seus dias: “Uma coisa horrível, espantosa está acontecendo na terra: os profetas não falam a verdade, e, apoiados por eles, os sacerdotes dominam o povo. E o meu povo gosta disso. Porém o que é que eles vão fazer quando essa situação chegar ao fim?” (Jr 5.30-31 – NTLH).

O Sinédrio, que condenou o Senhor Jesus, era composto e dominado por eles. Especialmente pelo Sumo Sacerdote. Em conluio com os fariseus, decidiram a prisão do Senhor (Jo 11.47); participaram da turba que o prendeu (Lc 22.52); pressionaram Pilatos a crucifica-lo (Jo 19.6e15 e Mc 15.11); e, continuaram zombando dele mesmo enquanto estava crucificado (Mc 15.31).

Cristo pode ver visto no ofício deles, afinal representavam o povo diante de Deus e o ofereciam a Deus simbolicamente, através dos sacrifícios. Pecadores, eles tinham necessidade de apresentar sacrifícios por seus próprios pecados, antes de sacrificar pelo povo. Cristo, entretanto, assumindo nossa natureza, tornando-se um de nós, não tem tal necessidade: É o sacerdote perfeito, oferecendo a si mesmo, a vítima perfeita. A missão deles então foi encerrada, como encerrado foi tudo o que fazia parte dela: o templo e os sacrifícios.

Hoje, cada cristão é sacerdote de si mesmo e Cristo é o Sumo sacerdote de todos: ... Jesus Cristo, a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos e o Soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!” (Ap 1.5-6).

Portanto, por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome” (Hb 13.15).

sábado, 11 de janeiro de 2014

Primogenitura

Nos tempos antigos o primeiro filho era muito importante. Era chamado de “as primícias da virilidade” (Sl 78.51) e “as primícias do vigor” (Sl 105.36). Recebia o dobro da herança dos demais filhos (Dt 21.17) e nas famílias reais era o sucessor natural. A filha primogênita deveria se casar antes das demais.

A importância do primogênito foi totalmente incorporada pela legislação levítica ao ponto de Moisés alertar para que o direito deles não fosse preterido em favor dos filhos mais novos, mesmo que ele fosse filho “da aborrecida” (Dt 21.15-17).

A lei chegava ao ponto de determinar que se um primogênito morresse antes de ser pai, o próximo irmão se casasse com a viúva e lhe formasse descendência (Dt 25.5-6).

Aos olhos de Deus, Israel era seu primogênito: “Dirás a Faraó: Assim diz o SENHOR: Israel é meu filho, meu primogênito. Digo-te, pois: deixa ir meu filho, para que me sirva; mas, se recusares deixá-lo ir, eis que eu matarei teu filho, teu primogênito” (Ex 4.22-23).

Todo o primogênito (tanto de homens como de animais) pertencia ao SENHOR (Nm 3.13) e deveria ser resgatado (Ex 34.20). Os primogênitos durante o êxodo foram resgatados em troca dos levitas. Deus determinou a contagem de todos eles (contaram 22.273) e, como havia 273 primogênitos a mais que levitas, cada um foi resgatado por cinco siclos (Nm 3.45-51).

Jesus, também primogênito, foi resgatado, pelo valor dos pobres (duas rolinhas), quando foi levado ao Templo, na mesma ocasião em que Maria cumpriu os ritos de sua purificação (Lc 2.7 e 22-24).

Entretanto, a história antiga mostra que esse direito foi violado diversas vezes: Já na primeira família Caim foi preterido por Deus em favor de Abel. Abraão, cumprindo ordem de Deus, preteriu Ismael em favor de Isaque. Isaque abençoou Jacó, que tinha comprado de Esaú seu direito de primogenitura. E José, apesar de ser o penúltimo filho é quem fica com o direito de ser o primogênito de Israel (1Cr 5.2). Ao abençoar os filhos de José, Jacó o fez de tal modo que foi o mais novo, Efraim, quem recebeu o direito de primogenitura (Gn 48.14 e 18-19). Peres, o segundo filho de Judá com Tamar (Gn 38.27-30), foi quem tomou parte na linhagem do Senhor Jesus (Mt 1.1-6). Salomão foi escolhido sucessor de Davi no lugar de Adonias, que acabou sendo morto por reivindicar o trono. E, na parábola de Jesus, apesar de uma vida torta, é o filho mais novo quem recebe o bezerro cevado, ao passo que o primogênito, que não saiu da casa do Pai, continuava distante.

O Senhor Jesus é chamado primogênito de toda a criação (Cl 1.15-18), e seu sangue estava prefigurado naquele que foi aspergido nas portas salvando assim os primogênitos de Israel.

Na realidade a primogenitura era uma figura da salvação. Os verdadeiros primogênitos não são - como se dizia - os que “abrem a madre”, mas os que Deus chama.

O apóstolo Paulo usou este costume para explicar as escolhas de Deus (Rm 9.6-16): Seu argumento básico foi “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos”. E sua conclusão é: “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia”.

Para chegar a esta conclusão Paulo citou dois casos: Primeiro o de Isaque, que, apesar de ser o mais novo, herdou a primogenitura do Pai, por determinação divina: “Em Isaque será chamada a tua descendência”. Segundo, dos filhos de Isaque, Esaú e Jacó, que, apesar de serem gêmeos, antes mesmo que nascessem e praticassem o mal ou o bem, Deus já havia dito: “O mais velho será servo do mais moço” e “amei Jacó e odiei a Esaú.

Portanto, acima do direito de primogenitura de um filho mais velho, estava a vontade de Deus. Ele fez primogênito a quem quis, apenas por  misericórdia.

O escritor da Carta aos Hebreus exorta aos que foram feitos primogênitos de Deus a não se portarem como Esaú, que por um reles prato de comida, vendeu seu direito de primogenitura, mas se espelharem nos heróis da fé (cita 18 deles) que sofreram perseguições, escárnios, açoites, algemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, e mortos a fio de espada, mas não abandonaram suas primogenituras, mesmo não vendo o cumprimento das promessas.

Isso é uma figura eloquente para nós hoje. A Igreja, pela graça, foi elevada à condição de filho primogênito. É propriamente chamada de Igreja dos Primogênitos arrolados nos céus (Hb 12.23) exatamente por ser constituida de todos aqueles que a misericórdia de Deus transformou em primogênitos. Desistir desse chamado é ser impuro e profano.

 

sábado, 4 de janeiro de 2014

Salmo 90

Dentre os muitos assuntos que estão presentes no Salmo 90, dois contrastes se destacam: O contraste entre Deus e o homem e o contraste entre os feitos de ambos.

Deus é chamado de “refúgio”: refúgio de geração em geração. Não menos importante que o predicativo atribuído a Deus, é sua qualificação: “de geração em geração”. Um segundo qualificativo aparece: “Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus”. Ele é Deus além das gerações, além da existência dos mentes, da própria terra e também do mundo. Ele é Deus além do tempo, além das “eternidades”.

O homem não recebe diretamente um predicativo, mas a consequência óbvia é que é ele quem se refugia. Já a qualificação introduz um contraste dramático: “os dias de nossa vida sobem a setenta anos ou, em havendo vigor, a oitenta; nesse caso o melhor deles é canseira e enfado, porque tudo passa rapidamente e nós voamos”.

Como as palavras não são adequadas para falar de Deus e sua existência, Moisés contrasta os tempos de existência. Enquanto Deus é “de eternidade a eternidade”, os dias da vida do homem voam!

Ao descrever os feitos de ambos o contraste se intensifica. Não é só existencial, mas também moral: Deus reduz o homem a pó, arrasta-o na torrente e expõe todas as suas iniquidades e pecados ocultos. Sobre o homem, não diz o que ele faz, mas o que ele pede: “Ensina-nos”, “volta-te”, “sacia-nos”, “alegra-nos”, “mostra-nos (apareçam as tuas obras...)”, “seja sobre nós a graça” e, por fim, “confirma as obras de nossas mãos”.

Esta comparação pressupõe:

1) Deus não apenas está na eternidade, mas existe além dela. O homem, além de estar debaixo do tempo, vive apenas pouco dele: setenta ou oitenta anos.

2) A efemeridade do homem é tal que, aos olhos de Deus, sua existência é como um sono, ou como a relva que viceja de madrugada e seca à tarde.

3) A diferença é tão gigantesca que o homem sequer conhece o poder da ira de Deus. Muito menos sua cólera.

4) O homem está sujeito a um imperativo moral estabelecido por Deus, que não tolera suas iniquidades nem seus pecados ocultos, razão pela qual todos os seus dias se passam sob a ira de Deus, que o consome de tal forma que a duração de seus anos, se assemelha a um breve pensamento.

Essa diferença formidável aponta para a graça: todos os homens estão debaixo da ira e do furor de Deus. Sempre estiveram e sempre estarão. Com exceção daqueles que se abrigaram em Jesus – o único que conhece a extensão e a intensidade da ira de Deus.

Desejo que, em todos os dias de 2014 e por todos os nossos dias, esta bênção seja nosso consolo  maior:  Estamos   debaixo   da   graça   de  Deus: Jesus Cristo.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Todos os dias do ano com o SENHOR

“… os olhos do SENHOR,
vosso Deus,
estão sobre ela continuamente,
desde o princípio
até ao fim do ano”.

Deuteronômio 11.12.

Parados defronte a Terra Prometida, Moisés instrui o povo a cerca da vida que terão ali. Não mais escravos, teriam de se voltar para a agricultura. Porém, não seria como no Egito, em que, do Nilo traziam águas para as plantações. Agora passariam a depender das chuvas. E a única certeza que poderiam ter era a promessa de Deus de estar com eles durante o ano inteiro.

Enquanto o sábado regulava a semana em um ritmo de sete dias e a lua regulava os meses a cada vinte e nove dias e meio, o ano era mais difícil de ser estabelecido, porém não menos importante.

O primeiro mês do ano era marcado pela Páscoa, o terceiro pela Festa das Semanas (mais tarde chamada de Pentecostes) e o sétimo pela Festa dos Tabernáculos.

O sétimo ano deveria ser de descanso para a terra: era o Ano Sabático. E o quadragésimo nono ano (o sétimo ano sabático) era o Ano Jubileu, quando tudo voltava a ser como antes.

Observe que era um verdadeiro teste de fé. Além de dependerem totalmente de Deus para receber chuvas na quantidade e na ocasião certa, enquanto o resto do mundo trabalhava sem descanso nem folga eles deveriam observar o sétimo dia como dia de descanso, o sétimo ano como ano de descanso e o quadragésimo nono ano como ano de descanso e do perdão de todas as dívidas. Neste ano todas as propriedades deveriam voltar a seus donos originais. Ou acreditavam e praticavam isso ou viveriam como pagãos.

Nosso calendário atualmente pouco tem de religioso. Mas podemos saber com certeza: do mesmo modo que Deus “desde o princípio até o fim do ano” estava com seu povo no passado, está também conosco.

Quer vivamos uma vida dependente das estações do ano, quer tenhamos artificializado tanto a nossa vida que as chuvas sejam motivo de preocupação... Quer comamos diretamente o que nossos campos produzam, quer dependamos  de um salário para ter acesso aos frutos do campo... Sua promessa persiste: Os olhos do SENHOR estão continuamente sobre onde vivemos.

Feliz Ano Novo.

 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os Anjos e os Pastores

Diferentemente da noite em que Jesus foi condenado a morte, a noite em que ele nasceu fez calor. Naquela, Pedro se aquecia junto a uma fogueira no pátio da casa do sumo sacerdote, nesta os pastores guardavam o rebanho durante à noite. A esses pastores Deus anunciou o nascimento de seu Filho.

Naqueles dias ser pastor de ovelhas não era uma das profissões mais nobres. Ao contrário, como viviam nos campos, assalariados para cuidar dos rebanhos, eram vistos como ainda hoje no interior de nosso país se vê os ciganos ou os trabalhadores de estradas (Peões de trecho). E, embora o talmude tenha sido escrito no Século 4, é tido como certo que se refira também aos tempos de Jesus ao listar as seguintes profissões como desprezíveis para um hierosolimitano: tropeiro, cameleiro, marujo, carreteiro, pastor, lojista, médico e açougueiro. A esses desprezíveis pastores o Senhor anunciou o nascimento de seu Filho de uma forma grandiosa.

Um anjo e depois “uma multidão” de anjos lhes apareceu. A aparição de um anjo já é uma coisa fantástica (a maioria das aparições causa grande terror de forma que a primeira coisa que o anjo diz é “não temas”), o aparecimento de uma multidão de anjos deve ser algo impressionante. Observe a ordem dos acontecimentos:

Primeiro, o anjo os tranquiliza: “não temais”. Segundo, comunica-lhes o nascimento e dá um sinal mediante o qual poderiam certificar-se (o menino estava envolto em faixas e deitado em manjedoura). Terceiro, “subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem” (Lc 2.13-14).

Geralmente se fala de um coro celestial, entretanto a melhor tradução é milícia mesmo. Ou seja: não o coro celestial, mas o exército celestial. E depois que o exército partiu eles decidiram procurar o menino e o encontraram com seus pais deitado em uma manjedoura como foi dito pelos anjos. Ou seja: os primeiros visitantes que o Senhor Jesus recebeu, foram pessoas humildes e até mal vistas. Quase dois anos depois é que ele recebe a visita de sábios.

O relato de Lucas complementa o de Mateus e nos mostra os detalhes do estado de humilhação do Senhor. Embora tenha sido gerado pelo poder do Espírito Santo, protegido pelo Altíssimo, e anunciado pelo exército celestial, ele assumiu nossa natureza e teve por mãe uma das simples filhas de Israel. Nasceu em uma terra que era conhecida dos profetas como “região da sombra da morte”. Teve como abrigo um estábulo; como berço uma manjedoura; como primeiras roupas faixas (tiras de pano) e como visitantes simples pastores desconhecidos.

Para nós também há uma grande lição: Como eles convidaram-se uns aos outros, digamos também: “vamos  até Belém e vejamos o que nos foi dado conhecer”.  

 
Imagino a reação dos sábios na Babilônia quando um deles contou que viu determinada estrela em determinada posição. Era o cumprimento de uma profecia feita há mais de quinhentos anos por um sábio que havia salvado da morte a todos os demais sábios de sua época e fora nomeado chefe de todos eles. Esse sábio fora trazido da Judeia após Nabucodonozor tê-la invadido. Seu nome era Daniel. Naqueles dias eles eram chamados de Caldeus (o nome magoi veio depois da invasão grega).

As discussões devem ter sido demoradas, pois poucos esperavam que uma profecia tão antiga se cumprisse. Ela dizia: “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia e para ungir o Santo dos Santos. Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe, sete semanas e sessenta e duas semanas; as praças e as circunvalações se reedificarão, mas em tempos angustiosos. Depois das sessenta e duas semanas, será morto o Ungido e já não estará; e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será num dilúvio, e até ao fim haverá guerra; desolações são determinadas” (Dn 9.24-26).

Imagino que após a discussão tenham escolhido alguns dentre eles para ir saudar esse novo rei com presentes valiosos. Deve ter sido uma caravana grande, pois além de guardar os presentes deveria atravessar o deserto.

Mateus nos informa que a chegada deles a Jerusalém deixou todos alarmados. Não era pra menos. Eles procuravam pelo “recém-nascido Rei dos Judeus” e Herodes, que tomara o poder com ardis e assassinatos, via conspiração por todos os lados. Poucos anos antes havia ordenado a morte da esposa e de um filho por suspeita de rebelião.

Herodes armou uma cilada imaginando que restava apenas descobrir em qual casa de Belém ele estava: “Ide informar-vos cuidadosamente a respeito do menino; e, quando o tiverdes encontrado, avisai- me, para eu também ir adorá-lo”. Ele havia nascido em Belém, mas seus pais eram de Nazaré e depois de cumpridos os preceitos levíticos de pureza da mãe e de resgate do primogênito, voltaram para lá. Para uma casa em Nazaré a estrela os guiou.

Imagino a ira de Herodes ao saber pela manhã que os magoi não foram para Belém, que ficava ao sul de Jerusalém, mas para o norte: caminho de volta para o oriente. Ele não deixou por menos. Como havia indagado, com precisão, a data em que a estrela foi vista, mandou matar todas as crianças de Belém e seus arredores que houvessem nascido a partir dessa data. Diversas crianças de até dois anos.

Nazaré, apesar de ser um entreposto comercial e receber gente de toda aquela região, era uma cidade pequena. Situada na encosta de uma elevação, vendo as fotos de hoje, penso nas casas fazendo um perfil contra o céu escuro e a estrela marcando uma em especial para quem vem pelo caminho do sul.

Imagino o alvoroço que uma caravana de camelos com os sábios e seu séquito, deve ter causado.

Ouro, incenso e mirra. Os três tipos de presentes não indicam que eram apenas três magoi. Podiam ser dois ou dez. Porém, lembram-nos a profecia de Isaías (mais antiga do que a de Daniel): “A multidão de camelos te cobrirá, os dromedários de Midiã e de Efa; todos virão de Sabá; trarão ouro e incenso e publicarão os louvores do SENHOR (Is 60.6)”. E finalmente a adoração! Isso impressiona. Homens sábios adorando uma criança de colo.

Dentre as muitas razões que Mateus tinha para narrar este episódio, creio que esta é a principal. O Rei dos Judeus foi conhecido pelos sábios de outros povos apesar de haver sido rejeitado pelo seu.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Os Evangelhos o Nascimento de Jesus

Dos quatro Evangelhos, apenas dois falam do nascimento de Jesus: Mateus e Lucas. Marcos inicia sua narrativa com o batismo. João, diferentemente de todos, inicia a sua falando do Verbo ainda na eternidade, antes da criação de qualquer coisa.

As narrativas do nascimento são complementares. Por exemplo: apenas Mateus fala dos magos e apenas Lucas fala dos pastores.

Mateus introduz seu relato com uma genealogia altamente elaborada em que os principais antepassados de Jesus são relacionados em três grupos, de catorze gerações, a partir de Abraão. Em seguida conta o drama vivido por José ao saber da gravidez de Maria, como planejava deixá-la e como um anjo do Senhor o dissuadiu.

Após um salto narrativo de quase dois anos, relata a visita dos magos, a subsequente fuga para o Egito, a matança das crianças e o retorno do Egito.

Diferentemente de Lucas, cujos paralelos são internos, Mateus faz com que o relato do nascimento seja paralelo ao da ressurreição: o começo da vida de Jesus é mostrado em contraste com o final. Veja, como exemplo, três partes do relato:

A genealogia, que é a primeira parte, é mostrada em correspondência com a Grande Comissão, que é a última: enquanto a genealogia nos fala do passado até os dias de Jesus, a Grande Comissão nos fala dos dias de Jesus até a “consumação do século”.

A segunda e a penúltima parte (o nascimento e a ressurreição) não se correspondem apenas no conteúdo: viver. Mateus não os descreve nem dá qualquer detalhe, apenas diz que ambos aconteceram.

A terceira e a antepenúltima parte (os magos e os guardas) são justapostas por terem em comum as riquezas. Os magos divulgaram o nascimento de Jesus e lhe trouxeram presentes. Os guardas receberam dinheiro para não divulgar sua ressurreição.

O relato de Lucas, logo em seu início, apresenta-nos a principal preocupação do escritor: “acurada investigação de tudo desde sua origem” (Lc 1.3). Certamente ele conversou com os protagonistas, especialmente com Maria, pois chega a narrar seus pensamentos: “Ela, porém, ao ouvir esta palavra, perturbou- se muito e pôs- se a pensar no que significaria esta saudação” (Lc 1.29).

Sua narrativa é iniciada com o motivo que o levou a escreveu o Evangelho e com a descrição de seu método de pesquisa. Começa então falando das origens próximas de Jesus, ou seja: seu precursor: João Batista. Mais especificamente, seus pais.

Em uma primeira etapa narra os anúncios. O anúncio a Zacarias, pai de João e a gravidez de Isabel. Então o relato dá um salto de seis meses e narra o anúncio a Maria e sua visita a Isabel (e seu cântico).

Em uma segunda etapa narra os nascimentos: O nascimento de João (e o cântico de seu pai). Depois o nascimento de Jesus e a visita dos pastores.

A narrativa é construída de forma paralela: João é anunciado a Zacarias, seu pai. Jesus é anunciado diretamente a Maria. A mudez de Zacarias, (decorrente de sua incredulidade) é contraposta ao cântico de Maria (decorrente de sua crença nas promessas) ao visitar Isabel. E, enquanto há uma óbvia correspondência entre o cântico de Zacarias (cantado depois do nascimento de João) e o de Maria (cantado antes do nascimento de Jesus), aparece outro paralelo: a alegria do pai que canta e a alegria dos pastores ao visitar o recém-nascido Jesus.

A narrativa de Lucas dá três saltos temporais: 0ito dias para narrar a circuncisão de Jesus, quarenta dias para narrar seu resgate no templo (onde acontecem os encontros com Simeão e com Ana) e doze anos para relatar o acontecido na viagem a Jerusalém, quando Jesus tinha 12 anos.

A genealogia feita por Lucas só aparece após a narrativa do batismo e não é elaborada como a de Mateus. Nela Jesus é filiado a Adão.

Se tradicionalmente Mateus visava leitores judeus (daí o estilo, as muitas citações proféticas e a filiação de Jesus a Abraão), e o Teófilo, destinatário de Lucas, era alguém importante no governo romano (apenas duas outras pessoas recebem o mesmo pronome de tratamento – excelentíssimo – e ambas são governadores), que interesse um leitor moderno poderia ter nestes relatos?

Pessoalmente eu tenho muitos. Porém, no mínimo, estes relatos nos instam a apreciar com reverência esse acontecimento tremendo – a encarnação do Senhor – sem perdermos a sobriedade. Enquanto Marcos e João, sequer ousaram a mencionar, Lucas, mais do que Mateus, chegou a detalhes íntimos. Porém, preferiu narrá-los indiretamente, com as palavras dos protagonistas:

- Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?

- Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus.

O mesmo Espírito Santo, que à tudo dá vida, descendo sobre Maria e o Altíssimo, envolvendo Maria com sua sombra, levam Maria a conceber. O Verbo eterno torna-se um de nós (natureza da qual ele nunca mais se separará) para que voltemos a ser como ele é.

 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

C. S. Lewis e J. F. Kennedy


No dia 22 de novembro passado a imprensa nos lembrou exaustivamente do quinquagésimo aniversário da morte de J. F. Kennedy, mas não vi sequer menção do aniversário da morte de C. S. Lewis. Ambos morreram no mesmo dia. Praticamente na mesma hora.

Kennedy, presidente dos EUA, destacara-se pela pouca idade e pela apertadíssima margem de votos com que foi eleito. Tinha muitos inimigos e até hoje há quem duvide se ele foi morto por um atirador solitário ou vítima de uma conspiração.

Lewis, ao contrário, teve uma vida totalmente acadêmica. Viveu ensinando e escrevendo. Formou-se em Letras e Literatura em Oxford, e depois em Teologia e em Linguística. Lecionou em Oxford e em Cambridge e foi reconhecido como uma das maiores autoridades em Literatura Medieval e Renascentista. Escreveu mais de 50 livros, que acompanham uma grande quantidade de outros escritos (palestras, sermões, etc.).

Sua obra de formação A alegoria do Amor, é livro de referência no assunto. E, depois de sua conversão, escreveu O Regresso do Peregrino, inspirado no O Progresso do Peregrino de John Bunyan, onde narra sua própria jornada espiritual. Oito anos antes de morrer publicou sua autobiografia: Surpreendido pela Alegria.

Quando falava de sua infância e juventude Lewis se descrevia como ateu. Como um ateu feliz. E, após uma palestra, indagado sobre qual religião traria maior felicidade a seus adeptos, respondeu: “... Enquanto dura, a religião da auto adoração é a melhor. Tenho um velho conhecido, com seus 80 anos, que vive uma vida de inquebrantável egoísmo e auto adoração e é um dos homens mais felizes que conheço. [...] Como vocês sabem, nem sempre fui cristão. Não me tornei religioso à procura da felicidade. Eu sempre soube que uma garrafa de vinho do Porto me daria isso. Se vocês quiserem uma religião para ser mais felizes, não recomendo o cristianismo. Tenho certeza que deve haver no mercado algum produto americano que será mais útil”.

Embora sua visão de alguns pontos teológicos seja questionada por diversos teólogos conservadores, a teologia de Lewis é tida como ortodoxa, pela ênfase que ela dá aos ensinos básicos do Evangelho. E poucos fizeram tanto pela compreensão da cosmovisão cristã. Sua maior preocupação sempre foi mostrar que o cristianismo faz sentido e que a fé cristã alicerça-se sobre verdades totalmente demonstráveis.

Se o sistema solar foi criado por uma colisão estelar acidental, então o aparecimento da vida orgânica neste planeta foi também um acidente, e toda a evolução do Homem foi um acidente também. Se for assim, então todos nossos pensamentos atuais são meros acidentes: subproduto acidental de um movimento de átomos. E isso será verdade para os pensamentos dos materialistas como para os nossos. Porém, se os pensamentos deles forem meros subprodutos acidentais, por que devemos considerá-los verdadeiros? Não vejo razão para acreditarmos que um acidente deva ser capaz de me proporcionar o entendimento sobre todos os outros acidentes. É como esperar que a forma acidental tomada pelo leite derramado no chão, quando você deixa cair uma jarra, possa explicar como a jarra foi feita e porque ela caiu.

Às vésperas da Segunda Guerra mundial ele escreveu O Problema do Sofrimento, onde se lê: "Deus fala-nos na saúde e na prosperidade, mas, sendo maus ouvintes, deixamos de ouvir a voz de Deus. Então ele gira o botão do amplificador por meio do sofrimento e aí ouvimos o ribombar de sua voz".

Na época da guerra, quando ficção científica era verdadeira febre entre os adolescentes e jovens, ele serviu-se deste gênero para fazer uma verdadeira apologia da cosmovisão cristã: Longe do Planeta Silencioso, Perelandra e Uma Força Medonha. E, enquanto Londres estava debaixo de bombardeios e seus habitantes, cada vez mais, submersos em tristeza, a BBC encomendou-lhe palestras de rádio que esclarecessem como Deus permite que um país dito cristão, como a Alemanha, podia ser capaz de submeter outro país cristão a tão grandes atrocidades. Dessas palestras nasceu o livro Cristianismo Puro e Simples, explicando em que o cristão crê e como ele se comporta.

Após a guerra, escreveu histórias para crianças destacando as virtudes dos guerreiros em uma guerra justa em um país onde Jesus reina supremo, mas que é atacado pelo mal: as Crônicas de Nárnia (O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa; O Sobrinho do Mago; O Cavalo e seu menino; Príncipe Caspian; A viagem do peregrino da alvorada; A cadeira de Prata e A última Batalha).

Sua imaginação fértil produziu livros fantásticos. Destaco dois. Primeiro: Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, em que um tentador experiente ensina a outro diabo como obter mais sucesso nas tentações. Nele qualquer cristão pode ver como é possível escapar dos miseráveis enganos do inimigo. E sobre tentações ele escreveu: ”Nenhum homem sabe quão mau é, até que tenha procurado, de toda maneira, ser bom. Uma ideia tola, mas muito atual, é a de que as pessoas boas não conhecem ou não passam por tentações. Isto é uma mentira óbvia. Só aqueles que procuraram resistir a tentação sabem quão forte ela é. Afinal de contas, você descobre a força do exército inimigo lutando contra ele, não cedendo a ele. Você descobre a força de um vento, caminhando contra ele, não se deitando no chão. Um homem que cede à tentação depois de cinco minutos, simplesmente não sabe o que teria acontecido se tivesse esperado uma hora. Esta é a razão pela qual as pessoas ruins, de certa forma, sabem muito pouco sobre a própria maldade. Elas vivem uma vida abrigada porque sempre cederam. Nós nunca descobrimos a força do impulso mal dentro de nós, até que lutemos contra ele. Cristo, porque foi o único homem que nunca se rendeu a tentação, também é o único que conhece completamente o que ela significa.

O segundo: O Grande Abismo, que mostra o céu e o inferno como uma continuidade desta vida, com ou sem Deus: "O céu não é aqui, mas começamos a vivê-lo aqui, aqui é uma espécie de ante-sala, logo sairemos dela e experimentaremos de fato o que realmente nos espera".

Enquanto Kennedy, mortalmente baleado nas ruas de Dallas, agonizava em um hospital, Lewis, em sua própria casa, já havia se encontrado com o Senhor de sua vida, sobre quem dizia: A vida cristã é diferente, mais difícil e mais fácil. Cristo diz: “Dê-me tudo. Eu não quero parte do seu tempo, parte do seu dinheiro, parte do seu trabalho. Quero você. Eu não vim para atormentar o seu ego natural, mas para matá-lo. Meias medidas não trazem nenhum bem. Eu não quero podar um galho aqui e outro ali, mas quero derrubar a árvore inteira. Entregue todo o seu ego natural, todos os desejos que você julga inocentes, bem como os que você julga iníquos. Todo o seu ser. Eu lhe darei um novo eu. Na verdade eu lhe darei o meu próprio eu; a minha vontade se tornará a sua vontade”.

sábado, 23 de novembro de 2013

A carpintaria

Vimos, no domingo passado, que dois lugares marcam a vida de Jesus: a manjedoura e a cruz. Porém, entre ambas, ele viveu em outro lugar: na carpintaria. Enquanto as duas nos falam de momentos intensos no início e no fim de sua vida terrena, esta nos fala de um período maior.

A carpintaria é uma bela metáfora de como o Senhor viveu desde sua volta do Egito até o dia em que procurou João Batista, pois numa carpintaria nada é feito instantaneamente, tudo depende de esforço e paciência. Ora, com esforço e paciência, o Senhor viveu a lida de todos nós, aprendendo aquilo que sofremos para que, como sumo-sacerdote perfeito, pudesse compadecer-se perfeitamente de todos nós.

Tanto a manjedoura quanto a cruz destacam a intensidade de sua humilhação, mas a carpintaria nos fala da extensão. Da dura rotina do cotidiano que se repete debaixo do sol.

A mensagem dos Evangelhos destaca o ministério de Jesus em seus últimos três anos, mas o silêncio dos Evangelhos fala com eloquência de como o Senhor viveu a vida comum a todos nós. Esse silêncio, cortado por pouquíssimas informações, nos ensina muito.

Filho de um carpinteiro, como toda criança da época, aprendeu com seu pai o ofício que sustentava a família. Aprendeu como escolher a madeira mais adequada para o que ia fazer. Aprendeu a derrubar, transportar, preparar e trabalhar cada tora. Aprendeu a fazer esteios, vigas, traves, caibros, e quem sabe, alguns móveis também. Porém, paralelamente ao pesado trabalho de construtor, havia o, não menos pesado, de administrar o valor do que fazia.

Como calcular o valor de seu trabalho? Acaso, quem, por graça, fez o universo, não teria dificuldades em colocar valor na confecção de um caibro? Como resistir a um regateador? Como cobrar de um caloteiro? Isso ele aprendeu no cotidiano da carpintaria.

Trinta, dos trinta e três anos de vida, foram passados no anonimato. Apenas aos doze anos um clarão nos mostra que, além do ofício aprendido de José, seu pai, ele também aprendeu a Lei do Pai celeste. E aprendeu tão bem que atraiu admiração dos que eram tidos por doutos nela. O registro desse acontecimento explica: “E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2.52).

A maioria desses trinta anos Jesus passou em Nazaré. Cidade mal vista, da qual não se esperava coisa boa, famosa por sua impiedade. Aliás, toda Galileia era mal vista: verdadeira mistura de nacionalidades e religiões, repleta de idolatria e de cultos imorais. Era conhecida também como Canaã, a terra do comércio, pois desde os primeiros tempos era passagem para as caravanas que vinham do norte até a principal potência de então: o Egito. Na Bíblia, dentre as muitas referências, a de mais fácil recordação é a da caravana que comprou José e levava especiarias para vender no Egito.

Na época de Jesus, além do Egito, o comércio com outros centros, como Líbano, Roma e Grécia, servia-se das rotas que o profeta Isaías chamou de Caminho do mar, que jazia à sombra da morte, e que com a chegada de Jesus viu grande luz.

Ainda jovem, com a morte de seu pai, Jesus tornou-se responsável pela manutenção de casa: sua mãe, quatro irmãos e, pelo menos, duas irmãs. E passou a ser conhecido como “o carpinteiro”. Certamente em sua oficina não se encontrava trabalho desleixado nem mal feito.

Mas, afinal por que esperar trinta anos? Alguns dizem que, como os levitas aguardavam os trintas anos, ele também aguardou. Não tenho tanta certeza de que esta seja a razão, pois ele não era levita. Mas, para mim, independente do motivo, esses anos na carpintaria, ele nos dá uma grande lição: O que importa é fazer a vontade do Pai. Seja na carpintaria, na manjedoura, ou na cruz.

 

domingo, 17 de novembro de 2013

A Manjedoura e a cruz

Dois locais destacam-se na vida de nosso Senhor: a manjedoura, e a cruz. Embora não possamos separar um do outro, podemos dizer, latu senso, que a manjedoura está para o Verbo assim como a Cruz está para o Filho do Homem. Como Verbo ele esvaziou-se até a manjedoura e como Filho do Homem ele esvaziou-se até a cruz.

Antes da manjedoura propriamente dita, ainda no ventre de Maria, sob a "sombra do Altíssimo", ele, o Verbo, “se fez carne". Tomou nossa natureza. Adquiriu um corpo semelhante ao nosso do qual nunca se separará. Lá se tornou Emanuel (Deus conosco) e lá, preservado do pecado pelo poder do Altíssimo, experimentou as primeiras limitações: tempo e espaço.

Aquele que não conhecia qualquer tipo de limites foi localizado no ventre de uma humilde filha de Israel. Ao nascer recebeu o aconchego do mais humilde utensílio de casa: a manjedoura (coxo em que se servia alimento aos animais). A manjedoura foi provisória, mas serve muito bem como metáfora de todas as dificuldades que ele sofreria e dos cuidados da humilde “serva do SENHOR”.

Outra limitação (dentre uma numerosa lista delas): tornou-se dependente. Aquele que criou todas as coisas e a todas sustenta agora depende. No ventre de sua mãe, dependia de tudo para sobreviver e na manjedoura não será diferente. Benditos seios que o amamentaram (embora ele mesmo tenha dito que mais benditos são os que ouvem a palavra de Deus e a praticam). Benditos braços que o ninaram.

Aos dois anos, perseguido por quem se assentava no trono de Davi, seu pai, foi levado a refugiar-se no lugar onde, em tempos passados, seu povo fora escravo.

Ao retornar foi levado para uma cidade da qual se duvidava sair “alguma coisa boa” onde passaria o restante de seus dias.

Na cruz a primeira mensagem é difícil de ser captada em nossos dias tão humanistas: a morte vergonhosa. Hoje deixamos de recriminar mais quem morre em razão direta de seus erros, às vezes até sentimos pena. Tornou-se comum lamentar a morte de um criminoso que trocava tiros com a polícia ou de quem morre como fruto de uma vida desregrada. Naqueles dias a crucificação era uma morte vergonhosa, pois além de exprimir a condenação da justiça como um criminoso vil, o povo judeu via nela a condenação de Deus, que havia deixado bem claro: “Se alguém houver pecado, passível da pena de morte, e tiver sido morto, e o pendurares num madeiro, o seu cadáver não permanecerá no madeiro durante a noite, mas, certamente, o enterrarás no mesmo dia; porquanto o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus; assim, não contaminarás a terra que o SENHOR, teu Deus, te dá em herança (Dt 21.22)”.

Maldito dos homens e maldito de Deus. A esse tipo de morte o Senhor se entregou voluntariamente: “... porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai (Jo 10.17-18)”.

Já humilhado, na cruz o Senhor foi desprezado. Desprezado pelos homens e por Deus. Se já havia se esvaziado para tornar-se o Filho do homem, agora se despojará de qualquer dignidade humana para receber sobre, e em si, nossos pecados: “Aquele que não conheceu pecado, ele [Deus] o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.19)”.

Se a manjedoura destaca mais os atributos do Filho a cruz destaca mais os atributos do Pai. Nela, além da submissão do Filho, resplandece com igual fulgor o amor e a justiça de Deus.

Se na manjedoura a impotência decorria de seu estado infantil, na cruz a impotência exprime sua vontade resignada de, como Cordeiro de Deus, assumir o lugar daqueles por quem veio morrer.

A manjedoura foi seu caminho da cruz. Pela manjedoura ele passou para assumir nosso lugar na cruz. E, nos dois, podemos ver claramente o grande amor com que ele nos ama, pois não poupou esforços para ser um de nós a fim de nos tomar para ele.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...