domingo, 29 de junho de 2014

As duas casas

Todos conhecemos a Parábola da Casa sobre a Areia, contada pelo Senhor Jesus. Dela podemos tirar grandes ensinamentos.

Para concluir o Sermão do Monte Jesus contou uma parábola que funciona como uma aplicação. É como se ele estivesse fazendo a seus ouvintes o que Natã fez com Davi: Lá – dá até pra imaginar Natã com o dedo em riste – Davi ouve “és tu o homem”. Aqui, é como se Jesus estivesse dizendo: Estou falando sério! 

Na parábola duas casas são comparadas: uma que foi construída com o alicerce sobre a areia e outra com o alicerce sobre a rocha, e, apesar de outras diferenças, o terreno diferente é o que Jesus utiliza como significante principal, pois mostra a existência de dois tipos de ouvintes de sua palavra: o que pratica e o que não pratica aquilo que escuta. O que pratica é semelhante a casa alicerçada sobre a rocha e o que não pratica assemelha-se à casa cujos alicerces fora colocados sobre a areia.

As entrelinhas indicam que a casa edificada sobre a rocha sofreu um ataque maior, e a palavra “mega” torna explícito que a ruina sofrida pela casa edificada na areia foi pior (implicando que não seria tão grande se tivesse acontecido com a outra). Porém, grosso modo, podemos dizer que ambas as casas sofreram igualmente, ou seja: com esta parábola o Senhor nos desilude da ideia de que aqueles que praticam suas palavras estão livres de tempestades.

O ensino principal é: Praticar os ensinos do Senhor é essencial para sobreviver às tempestades que se abaterão, e se abatem, sobre nossas vidas.

Obviamente podemos aplicar isto a todos os ensinos de Jesus, porém, pelo contexto, ele estava referindo-se primeiramente, ao Sermão do Monte onde há tantas prescrições sobre o que fazer e o que não fazer, que é quase temerário tentar resumir, mas em linhas gerais obedecem às seguintes disposições:

O discípulo de Jesus está obrigado a:

- Influenciar o meio em que vive (sendo sal e luz) sem ser influenciado por ele.

- Cumprir o verdadeiro espírito da Lei dada aos antigos e não só seu aspecto externo.

- Não fazer da vida religiosa elemento de promoção pessoal.

- Não priorizar a vida presente e seus cuidados ou riquezas, em detrimento do Reino de Deus e sua justiça.

- Acautelar-se dos julgamentos apressados e dos falsos profetas.

Estas diretrizes nos garantem passar incólume diante “das tempestades” que se abatem sobre todos. Observe que não são diretrizes para se entrar no Reino de Deus, mas diretrizes claras para quem é súdito deste reino. As tempestades, portanto, são o método usado por Deus para separar seus súditos dos demais.

sábado, 21 de junho de 2014

Semear e colher

Ainda no colégio aprendi que toda ação produz uma reação igual em sentido oposto. Por isso, quando se solta o ar de um balão ele vai pro lado contrário à saída do ar. O mesmo acontece com a turbina de um avião e com tudo que produz qualquer tipo de força em uma direção determinada. Porém, a reação é sempre igual a ação.
Entretanto, essa igualdade é própria do “mundo físico”. No mundo espiritual, como também no meio social, a reação, na grande maioria das vezes, é maior. Por exemplo, as vinganças: geralmente o vingador tende a exagerar. Essa é a razão básica do “olho por olho, dente por dente”. Diferentemente do que se pensa, esta lei não obrigava a que houvesse sempre uma reação, mas a limitava. E não foi dada primariamente às pessoas, mas aos juízes. Ou seja: seu objetivo primeiro era coibir os excessos.
Ao longo de toda Bíblia vemos muitas alusões à correspondência entre a entre a ação e a reação, numa espécie de relação de causa e efeito. Tanto positiva quanto negativamente.
Os resultados do anúncio do Evangelho, segundo nosso Senhor Jesus Cristo, são como a semente plantada. Dão frutos a cem, a sessenta e a trinta por um. Ou seja: para cada semente plantada haverá o nascimento de, pelo menos de outras 30: um crescimento de, pelo menos, 3.000% (Mateus 13.23).
Semelhantemente, o Reino de Deus é como a semente de mostarda: a menor de todas as sementes, que se transforma na maior de todas as hortaliças (Marcos 4.31-33).
Muitos séculos antes o salmista já usava a semeadura para exemplificar as bênçãos do Senhor: semeia-se com lágrimas, mas a colheita é feita com júbilo. Semeia-se uma simples semente, colhem-se feixes (Salmo 126-5-6). Mas o profeta Ageu nos ensina que, distantes de Deus, semeamos muito e recolhemos pouco (Ageu.5-7).
Porém, o apóstolo Paulo, lembra-nos da relação essencial entre a semente a planta, quando nos diz que se colhe exatamente o que se semeou e que é possível semear o bem ou o mal (Gálatas 6.7-8).
E, como o Evangelho ou o Reino de Deus, que se multiplica com a semeadura, o mal também. O profeta Oséias é quem nos adverte dizendo: “Arastes a malícia, colhestes a perversidade” (Oséias 10.13). Ou ainda: “Porque semeiam ventos e colherão tempestades” (8.7).
Hoje estamos colhendo os frutos amargos das sementes lançadas por nossos pais, e ao mesmo tempo estamos semeando sementes piores, que serão colhidas por nossos filhos. Se não quisermos colher tempestades não semeemos ventos. Não semeemos malícia e não colheremos perversidade.

sábado, 14 de junho de 2014

Ser cheio do Espírito Santo

O resultado imediato da descida do Espírito Santo foi a proclamação das grandezas de Deus pela Igreja, mesmo que para isso tivessem de usar idiomas nunca aprendidos: o Espírito Santo a capacitou a fazê-lo.

O Senhor Jesus tinha sido explícito: Eles receberiam o poder de testemunhar (especialmente sua ressurreição): E, comendo com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias. [...] recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra (Atos 1.4-8).

Você já deve ter percebido que essa relação de causa e efeito (ser cheio do Espírito Santo e ter poder de testemunhar o Evangelho) foi desvirtuada ao longo do tempo. Desvirtuada ao ponto de se acreditar que, após ser cheio do Espírito Santo, se começa a resmungar, grunhir e produzir sons desconexos: o tal dom de línguas.

Esses grupos sequer lembram em que data o Espírito Santo desceu (eu nunca vi qualquer grupo pentecostal comemorar este dia), mas afirmam, com certeza, que apenas quem fala em línguas (as que ninguém entende) foi batizado por ele.

A história nos mostra que já houve outras tentativas de se falar desses acontecimentos pós-pentecostes. Por exemplo, (dentre os que se lembram da data), até hoje, em alguns países da Europa (e, até onde pude ver, em alguns lugares nos EUA) a segunda-feira faz parte da comemoração do Dia de Pentecostes (que sempre cai em um domingo). É chamada de withmonday. Nela, alguns grupos vestidos de túnicas de batismo, desfilam (ou desfilavam) atestando que tinham sido batizados com o Espírito Santo.

Em uma biografia do Dr. Martyn Lloyd-Jones, encontra-se uma descrição mais comedida:

Comemorávamos o Pentecostes na segunda-feira. Era um dia muito especial para os membros da Escola Dominical de Sandfields, em Aberavon. [...] as pessoas logo se organizaram e começaram a andar. Primeiro homens, depois mulheres com suas crianças, dúzias delas, guiadas pelas mães, tias, professoras, irmãs mais velhas. Cada uma das meninas usava um vestido novo, feito especialmente para a ocasião. Alegres e autoconfiantes como uma menina usando um vestido novo! Até mesmo os meninos se arrumavam para o evento.

E assim andávamos, em ordem, cantando “Onward! Cristian Soldiers” (Erga-se o Estandarte),  “Who is on the Lord`s Side?” (Quem está do lado do bom Salvador?) ou “Stand up, Stand up for Jesus” (Avante, avante, ó crentes). Marchávamos pelas ruas do nosso bairro, passando pelas casas das crianças, felizes por vermos alguns membros e seus familiares às portas de suas casas, acenando para nós e encorajando os pequenos cantores que passavam! (Bethan Lloyd-Jones. Memórias de Sandsfield. PES).

Marchar pela cidade cantando hinos de louvor, ou de exortação aos demais cristãos, não implica necessariamente em situações pecaminosas, como agir como loucos (o que, além de tudo, é condenado como uma atitude que atrai vergonha. Veja: 1º Coríntios 14.23ss). Porém, não é uma prova absoluta de que isso tenha acontecido.

De qualquer modo, a prova mais concreta de que o Espírito Santo fez morada em alguém, além da capacidade de testemunhar, é a vida desta pessoa. Veja: “...o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gálatas 5.22-23).

Em uma época de tantas fantasias, de gestos vazios e de engano, não nos deixemos iludir. Especialmente em um assunto tão importante quanto este.

sábado, 7 de junho de 2014

Não vos deixarei órfãos

Alguns dicionários restringem o sentido da palavra “órfão” à menores de idade ou a incapazes. Àqueles que, pela falta dos pais, carecem de algum amparo ou de quem responda por eles.

Perdi meus pais após 30 anos de idade, e, se não houve o que fazer em termos legais, houve o que providenciar por mim mesmo, a fim de mitigar a falta de ambos. Lembro-me das noites em que eu orava em favor de ambos. Depois que meu pai morreu gastei certo tempo para me acostumar em agradecer pela vida dele e pedir em favor de minha mãe. Anos depois precisei me acostumar de novo: passei a agradecer pela vida dos dois.

Em termos materiais a morte deles não afetou minha vida. Mas em termos afetivos e espirituais sou completamente incapaz de descrever o que aconteceu.

Hoje, dia de pentecostes, relembraremos o cumprimento da promessa de Jesus: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo 14.18).

Embora a proteção aos órfãos seja um tema quase recorrente no Antigo Testamento, a palavra grega aqui - “orphanos” - pode ser usada para referir-se a qualquer um que perdeu seus pais, e seu uso no Novo Testamento é muito restrito (além daqui, ocorre apenas na carta de Tiago). E o sentido nos dois textos pressupõe incapacidade, ou necessidade.

Se Jesus promete não deixá-los órfãos, obviamente está se colocando na posição de pai, e colocando-os na posição de quem carece de um.

O Senhor, nos dias de sua carne, desempenhou o papel do Pai ao ponto de dizer a Filipe: “Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras” (Jo 14.9-10).

Ao reassumir a glória, que teve com o Pai desde a fundação do mundo, para que os seus não ficassem órfãos ele os enviou seu Espírito.

À implicação de que os seus não suportariam a orfandade, segue-se um desdobramento: o Espírito Santo supriria o papel de Pai que ele havia desempenhado. Portanto o remédio para a orfandade do Senhor Jesus era - e ainda é - a presença do Espírito Santo.

Mediante o Espírito Santo os seus não foram apenas capacitados a desempenhar a missão que dele receberam, mas tornaram a desfrutar de sua presença e de sua paternidade.

Capacitados e protegidos, aqueles por quem morreu, desfrutam mediante o Espírito Santo, das mesmas bênçãos que os discípulos e os apóstolos desfrutaram tempos atrás.

Essa é mais uma das grandes bênçãos que o Espírito Santo nos traz. Bênção que quase não é lembrada em nossos dias confusos.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Mais atual do que eu imaginava

Devido a uma viagem não postei o texto semanal, porém gostaria de sugerir um releitura de "Coisas importantes" http://folton.blogspot.com.br/2010/05/coisas-importantes.html que escrevi sobre a copa de 2010.

Fôlton



sábado, 24 de maio de 2014

Vida

Embora não saibamos exatamente como definir o que é vida, todos nós sabemos a que estamos nos referindo quando usamos esta palavra. Discordo, entretanto de quem diz que viver é a capacidade de existir autonomamente, pois as pedras existem e não estão vivas, e nós, que estamos vivos, dependemos do ar, do sol, dos alimentos. Ou seja: dependemos de tantas outras coisas, que podemos ser tudo, menos autônomos.

Aliás, essa é uma característica da vida: Mais do que dependente, ela é, por assim dizer, extremamente egocêntrica. Qual máquina, ela consome seus combustíveis a qualquer preço: cegamente. Não se pode convencer um ser vivo a gastar menos oxigênio, e o limite mínimo de suas necessidades calóricas é bem definido.

Fazemos parte de uma “cadeia alimentar”. Nos alimentamos e servimos de alimento. Comemos vegetais ou animais, e através deles recebemos os minerais que não podemos comer in natura e alimentaremos a muitos após nossa morte.

Fazemos parte de um tecido social mais ou menos semelhante. Jamais podemos afirmar que não dependemos de ninguém, ou que ninguém depende de nós. Dependemos do seio de nossas mães, da casa de nossos pais e do amparo de nossos filhos. Do seio recebemos o alimento e o conforto. Da casa, o conforto e a orientação para o futuro. Dos filhos a honra e o consolo de uma vida completa. Mas não se esqueça: os papéis se invertem. Começamos a vida como filhos e a terminamos como pais.

Ao adquirir nossa natureza o Senhor Jesus sujeitou-se a essa “roda”. Como qualquer um de nós dependeu de sua mãe e de seu pai e, apesar de sua inteligência precoce, atestada pelos doutores de Jerusalém, aprendeu com seus irmãos e amigos também. O escritor da Carta aos Hebreus nos diz que ele aprendeu aquilo que nunca teve de fazer: obedecer. Não teve filhos biológicos, mas deu sua vida pelos filhos espirituais, rompendo assim o círculo em que, no fim da vida, os pais passam a depender dos filhos.

O mais precioso nos vem de sabermos que ele é um de nós. Ele mantém nossa natureza e nunca se separará dela. Entretanto ele a corrigiu. Fez com que ela voltasse a ser o que deveria ter sido se nossos pais não tivessem pecado. A marca do tal egocentrismo de que falei - da vida comportar-se como máquina que devora seu combustível - para ele já é coisa do passado, pois o princípio vital não é mais “carne ou sangue”, mas o poder de Deus. Se antes, semelhantemente ao primeiro Adão, ele “foi feito alma vivente”, a pós sua ressurreição e agora, à destra do Pai, ele é “espírito vivificante” (1Co 15.45).

Os filhos de Jesus, aqueles com os quais ele comparece diante do Pai (Hb 2.13), “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.13).

 

domingo, 18 de maio de 2014


As consequências do Pentecostes

A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galileia e Samaria,
edificando-se e caminhando no temor do Senhor,
e, no conforto do Espírito Santo,
crescia em número.
Atos 9.31


Como podemos entender esta declaração? Como a Igreja tinha paz se enfrentava tantos problemas? Veja uma pequena lista deles:

  • Pouco tempo depois de Pentecostes, Pedro e João haviam sido presos e só foram soltos após ameaçados pelo mesmo Sinédrio que havia condenado o Senhor Jesus.
  • Não demorou muito tempo para que Ananias e sua esposa Safira expusessem o maior problema que afligia e sempre afligirá todas as igrejas: mentir ao Espírito Santo!
  • Logo em seguida todos os apóstolos foram presos e açoitados por anunciarem o nome de Jesus.
  • Com o crescimento numérico apareceram os necessitados. Isso os levou à escolha dos primeiros diáconos.
  • Um desses diáconos que foi apedrejado, com o consentimento do fariseu Saulo, foi o estopim para uma grande perseguição que espalhou a Igreja de Jerusalém pelas cidades da Judéia e de Samaria. Enquanto isso Saulo literalmente “assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere” (At 8.3).
  • Como acontece hoje com os mercadores da fé, Simão, o mago, tentou comprar o poder de conceder o Espírito Santo mediante a imposição de mãos.

Como, uma igreja, que, em cinco ou seis anos, passa por todos esses problemas, podia ter paz?

O próprio versículo nos dá a resposta: o conforto do Espírito Santo.

Quando Jesus prometeu o Espírito Santo aos seus discípulos ele o chamou de Consolador (em grego: Paracletos) e é essa a palavra que Lucas usa para falar de como a Igreja tinha paz. Ou seja: A igreja tinha paz, ao ponto de crescer em número, mediante a “paraclesis” do Espírito Santo.

Nossa tradução por “conforto” não é ruim. Talvez a dificuldade de se entender esteja na mudança de significado que esta palavra sofreu.

Hoje, para muitos de nós, o significado de conforto está entre aconchego e comodidade. Dizemos que cadeiras, casas e outras coisas, ou situações, são confortáveis, quando elas nos proporcionam sensação de bem-estar. Entretanto o primeiro significado desta palavra deriva-se do latim “cum+fortius” (com força).

Eles tinham paz mediante a força que o Espírito Santo lhes concedia, ao ponto de, com tantos, e tão grandes problemas, não comprometerem o viver na presença de Deus.

O mesmo Espírito, que os capacitou a falar nos idiomas dos muitos povos, das muitas nações para os quais iriam, os capacitou também a viver em paz, apesar dos problemas pelos quais passavam.

Mas não esqueça: Essa paz não era desperdiçada. Eles a aproveitavam para edificarem-se caminhando no temor do Senhor.

Não há melhor descrição dessa paz do que a que, anos depois seria feita por quem antes lutava contra ela: “... a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus (Fp 4.7).

sábado, 10 de maio de 2014

Teoria da conspiração

Eu nunca tinha ouvido essa expressão (Teoria da conspiração) até 1997, quando um filme com esse nome chegou aos cinemas. Hoje, é difícil contar quantas vezes eu a escuto, ou leio, todos os dias.

Encontrada em escritos desde o Sec. XVII, a palavra conspirar faz parte de nosso vocabulário há muito tempo. Sua origem é a expressão latina conspirare (cum + spirare = respirar juntos) e seu sentido principal pressupõe mais de uma pessoa tramando secretamente em detrimento da verdade. Teoria, neste caso, é a proposta de uma explicação para o que não se conhece.

Mas, aqui entre nós, nunca gostei da expressão. Talvez por ser a tradução literal de conspiration theory sem qualquer adaptação ao nosso idioma e pelo uso que a mídia passou a fazer dela nos empurrando diversos sentidos (nenhum deles muito preciso).

Há muitas “teorias da conspiração”. Algumas curiosas. Outras são até atraentes (e sobre elas se pode até usar o dito italiano “Se non è vero, è ben trovato”). Mas, outras são risíveis (pra dizer pouco).

É possível encontrar uma lista de centenas delas na internet: desde a fluoração da água (seria uma forma dos produtores de alumínio se livrar dos resíduos tóxicos da produção) à terra oca (haveria um espaço no centro da terra com uma civilização inteira), ou a que explica que a humanidade descende de seres espaciais. Dia desses ouvi a alegação de que “o cristianismo foi inventado durante o Império Romano para controlar as massas”.

Sobre o cristianismo, uma das mais velhas aparece registrada na Bíblia: A primeira explicação para a ressurreição de Cristo: o roubo do corpo (Mt 28.1-15). Ou seja: ressureição foi uma invenção dos discípulos de Jesus, que, para dar maior veracidade, roubaram seu corpo do túmulo. A mais abrangente é que as religiões, especialmente o cristianismo, é o ópio do povo. Ou seja: o que mantem o povo dormente e o impede de reagir contra o que os poderosos fazem.

Porém, para os cristãos, não há teorias e sim uma conspiração pura e simples. Conspiração que começou no Jardim do Éden e que inclui a rebeldia contra Deus. Ela é descrita em texto como: “Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o SENHOR e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas” (Sl 2.2-3). Ela pode ser vista na recusa sistemática ao verdadeiro Deus, seja em luta aberta contra ele, seja na busca de outros deuses.

Você já notou que (e nos últimos tempos isso tem se agravado) qualquer hipótese, para qualquer coisa, que inclua a ação de Deus, e sua existência, é sempre descartada em prol do maior absurdo? É como se dissessem: qualquer coisa menos Deus.

Você já notou como a verdadeira religião, cada vez mais, é mostrada como uma conspiração contra o homem? Bem... nesse ponto há uma certa razão, pois a verdadeira religião busca a glória de Deus e mostra o quanto o homem está miseravelmente caído. Mas, a verdadeira religião não é uma conspiração, pois não deseja suprimir a verdade. Pelo contrário, deseja que a verdade brilhe cada vez mais.

sábado, 3 de maio de 2014

Lutas por fora, temores por dentro.

Embora alguns não usem essa frase com receio de serem tidos por faltos de fé ou fracos, provavelmente ela seja uma das melhores descrições daquilo por que a grande maioria de nós passa. Com ela, o apóstolo que se recomendou à consciência dos fiéis, confessa suas dificuldades à igreja de Corinto (2Co 7.5).

Na mesma carta confessa que perdeu uma grande oportunidade, concedida pelo Senhor, em Trôade, devido a falta de tranquilidade (2Co 2.12-13) e que chegou a desesperar-se da vida pelo tamanho das tribulações que enfrentou na Ásia (2Co 2.8).

Eu já passei por momentos assim. Já pedi ao Senhor que me levasse e nem sei contar quantas oportunidades perdi por falta de tranquilidade. Portanto, conheço, por experiência, o que você está sentindo, se enfrenta lutas por fora e temores por dentro.

Nenhum de nós está livre de lutas. Aliás, elas são tão necessárias à saúde de nossa fé como uma atividade física é útil à saúde de nosso corpo. Para ser mais exato, o Senhor Jesus disse que elas fariam parte de nosso caminhar, quando nos mandou tomar, cada dia, a nossa cruz e segui-lo.

As lutas definem o caráter e fortalecem a fé.

Nenhum de nós também está livre de temores. Temores pela saúde, pelo trabalho, pela família, pelo futuro de nosso país, até mesmo pelo que está acontecendo com a igreja. Sempre vejo adolescentes ou jovens temendo um vestibular ou uma entrevista de emprego, pais receosos das companhias de seus filhos e anciãos preocupados com o fim da vida.

Os temores estimulam o exercício da fé.

Nesta mesma carta Paulo cita duas razões pelas quais um filho de Deus enfrenta coisas assim: aprender amar a Deus sobre todas as coisas e aprender amar ao próximo como a si mesmo.

Ele aprende amar a Deus quando as lutas e temores lhe mostram que é apenas um vaso de barro e que a excelência do que conseguiu fazer veio de Deus. Nas palavras do próprio Paulo: “De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (2Co 12.9).

Ele aprende a amar seu próximo quando percebe que as lutas e temores passados e superados lhe ensinaram a confortar (cum+fortius=com força) ou consolar (obra primária do Paracletos) a quem enfrenta tal situação: “É ele [Deus] que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus” (2Co 1.4).

Nos dias atuais, além de não ser conveniente confessar tais problemas, considera-se feliz aquele que os supera com os próprios esforços. Porém, isso não é um valor cristão. O verdadeiro cristão entende que a bem-aventurança consiste em ser consolado por Deus e aos pés dele depõe suas lutas e temores.

Hoje se prega um cristianismo que traz prosperidade, saúde, realizações e vitórias. Desconfie! A principal mensagem do verdadeiro Cristianismo é pregada à sombra de uma cruz. Lá está a verdadeira vitória. Lá cessam todas as lutas e dissipam-se todos os temores.

sábado, 26 de abril de 2014

Jesus ressurreto

Ressurreto, o Senhor Jesus apareceu vivo a essas pessoas, mais ou menos na seguinte ordem: Maria Madalena, outras mulheres, dois discípulos no caminho de Emaús, Pedro, dez apóstolos escondidos, dez e Tomé (no domingo seguinte), sete discípulos que estavam pescando, onze apóstolos e a mais de quinhentos discípulos. Apareceu também a Tiago (seu meio irmão), aos onze apóstolos (por ocasião da ascensão) e a Paulo (alguns anos depois).

O próprio Paulo resume assim: “... e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E apareceu a Cefas e, depois, aos doze. Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora; porém alguns já dormem. Depois, foi visto por Tiago, mais tarde, por todos os apóstolos e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo” (1Co 15.4-8).

Tomé exigiu do Senhor provas de que “era ele mesmo”, mas não ficou sem uma repreensão. Diferentemente, Lucas, vários anos mais tarde, sem ver o Senhor, ficou tão impressionado com os relatos de sua ressurreição que escreveu: “... depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis” (At 1.3). Lembre-se: Lucas era médico.

Mas, por que o Senhor Jesus não apareceu a todos?

Quanto ouço que o cristianismo baseia-se em lendas, contos, ou relatos desvirtuados, ou que a existência de Jesus não passa de uma ficção, eu me lembro disso: ele apareceu apenas a alguns!

Explico: se tudo isso fosse uma história inventada, o final seria o esperado: Jesus aparecendo a todos e punindo aos que tinham obrigação de zelar por seus interesses, mas o condenaram à morte. Não é assim que terminam as histórias deste gênero literário, no qual querem classificar as Sagradas Escrituras?

Replicam, entretanto, que, como apenas alguns o viram depois da ressurreição, é de se suspeitar da narrativa. Mas, como suspeitar de homens que mantiveram tal testemunho “inacreditável” mesmo ameaçados de morte?

Voltemos à pergunta: Por que Jesus não apareceu a todos?

Lucas nos dá a melhor resposta: “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas. Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24.44-49).

Em síntese: Os novos filhos de Abraão não nascem “do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. Nascem da fé.

Ora, que outro processo haveria de gerar estes novos descendentes senão “a loucura da pregação”? Crer, no que não se viu, disse Jesus a Tomé, é bem-aventurança. E, para garantir que apenas os que “creem em seu nome” respondam a uma mensagem tão inusitada, o Senhor Jesus houve por bem divulgar sua ressurreição - sua vitória sobre a morte e nossa paz com Deus - através das testemunhas que ele selecionou.

Assim o Evangelho é pregado conforme sua natureza: “Escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1Co 1.23).

O anúncio do evangelho decorre desse fato: Jesus só apareceu àqueles a quem enviou! E, por consequência, essa é uma das marcas dos falsos apóstolos: anunciar a verdade calcados em mentiras dizendo terem visto o Senhor.

Daqueles a quem ele apareceu, chegou a nós o santo evangelho. A esses ouvimos. E, em nós, manifestou-se a verdadeira fé. Fé que não depende de nada além do poder de Deus. Fé que subsiste a despeito de tudo.

Bendito instrumento que gera os novos - os verdadeiros - filhos de Abraão.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O corpo da ressurreição


Instruindo a Igreja de Corinto sobre a ressurreição, o apóstolo Paulo usou uma pergunta hipotética: Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E em que corpo vêm? (1Co 15.35). E passou a explicar essas dificuldades materiais.

Primeiro, comparou o corpo que morre a uma semente que se transforma em planta. Depois chamou a atenção para os diferentes tipos de carne (dos animais, das aves e dos peixes) e mostrou que há diferenças entre corpos celestiais e corpos terrestres e até mesmo entre os celestiais há diferenças de esplendor (sol, lua e estrelas). E concluiu: Pois assim também é na ressurreição dos mortos (1Co 15.42).

Essas comparações servem como introdução ao seu ensino que também é feito com diversas comparações: Semeia-se o corpo na corrupção, em desonra e em fraqueza; ressuscita-se na incorrupção, em glória e em poder. Usando seu fraseado: Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual. (1Co 15.44).

Estamos diante de um verdadeiro mistério.

Todos os que foram ressuscitados, voltaram a viver no mesmo corpo. Continuaram com o que herdaram de Adão. Jesus, no entanto, ressuscitou com o corpo a que se refere Paulo (não é sem razão que ele é chamado de as primícias dos que dormem (1Co 15.20), pois é o primeiro que ressuscitou com este corpo). Não se pode dizer que seja um corpo diferente, mas é um corpo que está para o primeiro como a planta está para a semente.

Observe que o corpo com que Jesus ressuscitou ainda não é o que foi descrito por João no primeiro capítulo do Apocalipse. Primeiro Jesus recebeu, ao ressuscitar, um corpo novo; e este foi glorificado, por ocasião de sua ascensão.

Por enquanto, voltemos ao corpo da ressurreição. Ele tinha pelo menos duas características diferentes:

1) Ele não era reconhecido facilmente (em alguns textos foi registrado que ele “deu-se a conhecer”). Lembre-se do que acontece com Maria (Jo 20.15), e do que aconteceu com os dois que iam para Emaús (Lc 24.13-31) e com os sete que passaram a noite pescando (Jo 21.1-7).

2) Ele desaparecia e reaparecia em outro lugar. Veja o que aconteceu com os dois que iam para Emaús (Lc 24.31) e dos outros quando apareceu diante dos 10 (Tomé não estava presente) que haviam se trancado em uma casa (Jo 20.19-23) e depois diante dos 11 (inclusive Tomé) novamente trancados (Jo 20.26-29). Esta segunda caraterística (desaparecer e aparecer)  implica em diferentes relações com o espaço (o que aconteceu também em sua ascensão).

Porém, Jesus se apressou em dizer que não era um fantasma. Lembre-se do caso de Tomé (Jo 20.19-29), quando para provar que tinha um corpo físico, deixou-se ser examinado e até comeu peixe com eles (Lc 24.41-43).

Percebeu? O corpo ressuscitado guarda semelhança com o anterior, mas parece transcender seus limites. Talvez o melhor modo de compreender seja percebendo que, ao pecar, o corpo de nossos primeiros pais sofreu algum tipo de degradação: Adão passou a suar para adquirir seu sustento (Gn 3.17) e Eva passou a sofrer dores de parto (Gn 3.16). Ora, se ao pecar receberam tal castigo, é de se esperar que se não pecassem receberiam algum tipo de recompensa. Ou seja: se não tivessem pecado desfrutariam do mesmo tipo de corpo de Jesus após a ressurreição.

Ora, a tônica do capítulo 15 da primeira carta à Igreja de Corinto é garantir que o que aconteceu a Jesus acontecerá a nós também. Sua conclusão é gloriosa: Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão.

sábado, 12 de abril de 2014

Entradas em Jerusalém

Quase setecentos anos antes de Jesus entrar em Jerusalém, montado em um jumento, os príncipes de Nabucodonozor também entraram em montarias de guerra.

Por dois anos eles mantiveram Jerusalém sitiada, como registrou o cronista sagrado: levantaram tranqueiras ao seu redor. E durante esse tempo Jerusalém suportou a falta de alimentos. Felizmente havia água, pois, cem anos antes foram cavados túneis sob a cidade que iam até uma fonte.

Pacientes, os babilônios trabalharam até abrir uma brecha na muralha. Abriram e puseram em fuga todos os “homens de guerra”, que logo foram alcançados e desbaratados. O rei Zedequias foi preso com sua família e mataram sua família e depois furaram seus olhos (de modo que a última coisa que ele visse fosse a morte de seus queridos) e o levaram acorrentado para a Babilônia.

O profeta Jeremias estava lá. As ordens do rei invasor eram claras: ele deveria ser protegido. Ele sempre falava que a única esperança para Israel era sofrer o cativeiro. Isso da impressão de que ele era amigo dos Babilônios e, os judeus o tinham por traidor. Mas, o que era claro para Jeremias é que não se pode fugir do castigo de Deus. O melhor que se pode fazer é recebê-lo: “por a boca ao pó”!

Hoje nos lembramos do dia em que Jesus também entrou em Jerusalém. Ele não teve de cercá-la, nem de abrir uma brecha em seus muros – muito menos de cegar suas autoridades, pois elas estavam duplamente cegas –  pelo contrário: foi recebido com gritos de alegria, palmas, ramos e roupas forrando o chão em que sua humilde montaria passava.

Entretanto, ao ver a cidade de longe, diferentemente dos Babilônios, chorou de compaixão e lamentou: “Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos. Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco; e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação” (Lc 19.42-44).

A situação de Jerusalém então era pior. Por um capricho, deram a João Batista um fim pior do que o de Jeremias, e agora recebiam o Filho de Deus, sem reconhecê-lo como tal. O recebiam como se fosse alguém que os lideraria em uma luta contra os Romanos.

Há certa semelhança com o que está acontecendo em nossos dias. Hoje Jesus tem sido recebido até com aplausos e festas, porém nunca como deveria ser. Às vezes o honram com títulos tolos – o maior psicólogo, mestre, líder, etc. do mundo –  porém nunca como o verdadeiro Deus em quem habita corporalmente a plenitude da divindade. Hoje as palmas e as roupas que estendem por seu caminho são bajulações grosseiras e falta de respeito (para dizer pouco). Entretanto ele continua apresentando-se humilde como quem cavalga um animal de carga.

Ainda é tempo de reconciliação. O Senhor ainda pode ser achado. Ainda está perto.

Não perca a oportunidade de buscá-lo.

sábado, 5 de abril de 2014

Anchieta

Depois de um processo que durou 400 anos (o mais demorado da história) Anchieta foi canonizado na marra. Se o processo continuasse dificilmente Anchieta seria canonizado, pois além de não possuir um segundo milagre feito depois de ser declarado beato, o auxílio que ele prestou no enforcamento de um membro da Igreja de Calvino  depunha gravemente contra a pretensão de ser santo.

Desde meus tempos de seminário, meus professores me alertavam: não se preocupe com a canonização de fulano ou beltrano, mas mostre o quanto é ímpio o próprio ato de canonizar alguém. Entretanto, o caso de Anchieta é terrível, pois além do erro que existe em declarar que alguém deva ser adorado, o personagem em questão é mais do que um pecador comum. É um assassino. Um assassino de protestantes, pela única razão de serem protestantes.

Nascido em 1534, em Tenerife, uma das Ilhas Canárias, estudou filosofia em Portugal. Veio para o Brasil em 1553 e depois de muitos trabalhos, inclusive a edificação da casa ao redor da qual se formaria a Vila de São Paulo, induziu Mem de Sá, governador-geral, a condenar Jacques Le Balleur à morte, tendo ajudado em seu enforcamento.

Naqueles dias o rei da França, fiel súdito do Papa, estava inconformado com a divisão dos novos descobrimentos entre Espanha e Portugal (o Tratado de Tordesilhas), e recebeu com alegria a proposta de seu Almirante, Villegaignon, de fundar nessas novas terras, mediante a força: a “França Antártica”.

Como não tinha recursos autorizou outro almirante, Colligny, que tinha bom trânsito junto à Igreja de Genebra, a levantar os fundos necessários. A Igreja, refúgio de muitos franceses perseguidos, viu uma boa oportunidade para estabelecer alguns deles em um local livre de perseguições. Então, para a primeira viagem, o próprio Calvino selecionou diversos pastores e artesãos.

Ao chegarem aqui, Villegaignon mostrou sua verdadeira face: passou a persegui-los e matou alguns. Porém, outros escaparam. Le Balleur ficou entre os índios e anos mais tarde foi reconhecido e preso em São Vicente. Levado a Bahia, enfrentou o tribunal da inquisição e foi condenado a morte “no mesmo local em que começou a vomitar suas heresias”.

Não se sabe ao certo como Anchieta ajudou no enforcamento. Há quem diga que, diante a recusa do carrasco em prosseguir o enforcamento, ele tenha esganado Le Balleur com as próprias mãos. Outros dizem que ele recebeu a confissão de Le Balleur, abjurando o protestantismo e, preocupado com a demora de sua morte após dependurado pelo pescoço, o teria misericordiosamente puxado pelos ombros com o fim de abreviar seus sofrimentos. Se não há certeza de como, a demora em canoniza-lo e a forma como ele foi canonizado atestam sua participação.

A campanha para sua beatificação teve início no século 17 e só em 1980 o Papa João Paulo II o declarou beato e nesta quinta-feira passada (3 de abril de 2014) o Papa Francisco o decretou santo. Foi dispensada a comprovação de milagre, como exige a própria lei da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR).

Nós, protestantes vemos muitos problemas em declarar alguém santo:

1º - Acreditamos em milagres. Acreditamos que Deus pode fazê-los, e os faz, quando quer. Mas confessamos que a capacidade de fazê-los espontaneamente foi restrita a alguns profetas e aos apóstolos.

2º - Rejeitamos completamente a ideia de adorar alguém além de Deus. Aliás Deus proíbe isso terminantemente. Porém, a ICAR torna alguém beato ou santo exatamente com o objetivo de ser adorado. Veja o que diz seu direito canônico:

Cânone 1186 — Para fomentar a santificação do povo de Deus, a Igreja recomen­da à veneração peculiar e filial dos fiéis a Bem-aventurada sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, que Jesus Cristo constituiu Mãe de todos os homens, e promove o verdadeiro e autêntico culto dos outros Santos, com cujo exemplo os fiéis se edifi­cam e de cuja intercessão se valem.

Cânone 1187 — Só é lícito venerar com culto público os servos de Deus, que foram incluídos pela autoridade da Igreja no álbum dos Santos ou Beatos.

Em última análise, ao canonizar Anchieta, o Papa está dizendo: Adorem o carrasco Anchieta.

Não deixe de ver:
 

sábado, 22 de março de 2014

Abimeleque

No tempo em que Israel era governado por Juízes e cada um fazia o que achava mais reto, Abimeleque matou seus irmãos. Setenta irmãos.

Abimeleque era filho de Gideão (aquele que fora usado por Deus para libertar Israel do jugo dos Midianitas) com uma concubina que ele mantinha em Siquém, cidade não muito distante de Ofra onde morava.

Após a morte de seu pai, Abimeleque perguntou aos moradores de Siquém o que eles prefeririam: ser governados pelos 70 filhos de Gideão, ou apenas por ele (que além de ser filho de Gideão, também era conterrâneo)? Não duvidaram e deram muitos presentes aclamando-o rei.  

Com o valor dos presentes contratou mercenários (homens levianos e atrevidos) e atacou seus irmãos e os matou. Foi muito cruel. Matou todos sobre uma pedra, como se fosse um altar e em seguida declarou-se rei.

O mais novo deles, Jotão, que havia se escondido, subiu ao monte Gerizim (o mesmo monte em que, duzentos anos antes, Josué, obedecendo as ordens de Moisés, tinha abençoado todo o povo) e, do alto do monte, gritou aos cidadãos de Siquém uma espécie de parábola. Nela, as árvores queriam um rei e convidaram à oliveira para reinar sobre elas. A oliveira respondeu que não deixaria seu azeite. A figueira e a videira responderam de modo semelhante ao mesmo convite. Finalmente, todas as árvores convidaram ao espinheiro que aceitou com a condição de que elas se abrigassem à sua sombra, do contrário ele as queimaria. E concluiu: vocês foram injustos ao esquecerem-se do que meu pai fez. Além de se revoltarem, mataram seus filhos e fizeram rei ao matador! Ao filho da escrava! Vocês se merecem. Que saia fogo dele contra vocês e de vocês contra ele. E foi morar do outro lado da região montanhosa.

Depois de três anos, Deus provocou uma aversão entre os moradores de Siquém e Abimeleque. Eles, além de fazer emboscadas em todas as estradas movimentadas, convidaram a Gaal e sua gente para aumentar o terror que impunham sobre Israel.

Esse Gaal, como todos os siquemitas, era descendente de Hamor, cujo povo, quinhentos anos atrás, quase fora exterminado por Simeão e Levi, como vingança contra seu filho Siquém (de quem herdaram o nome) que estuprara Diná, irmã deles.

Juntos, os siquemitas e os homens de Gaal colheram uvas, fizeram vinho e festivamente entraram na casa do mesmo deus, da qual haviam tirado o ouro com que presentearam a Abimeleque e o amaldiçoaram enquanto comiam e bebiam.

Zebul, o oficial de Abimeleque, o atiçou a guerrear contra eles. Os siquemitas foram vencidos e Gaal foi expulso. Os que continuaram a resistir na cidade foram mortos e a cidade foi destruída e semeada com sal. Os siquemitas que haviam ficado no templo se esconderam em uma fortificação subterrânea do mesmo templo. Avisado, Abimeleque os atacou e, cobrindo a fortificação com ramos, queimou vivos cerca de mil homens e mulheres. As palavras de Jotão haviam se cumprido: saiu fogo do espinheiro e consumiu os siquemitas.

Continuando seu ataque, Abimeleque sitiou e tomou a pequena Tebes. Seus moradores se abrigaram em uma torre contra a qual o ataque foi direcionado. Enquanto Abimeleque tentava incendiar sua porta, do teto, uma mulher acertou-lhe a cabeça com uma pedra. Ensanguentado e desesperado, Abimeleque ordenou a seu escudeiro que o matasse para que não se dissesse que morreu pelas mãos de uma mulher. Ele o atravessou com a espada.


---

Não há conclusões ou aplicações nessa narrativa e em qualquer narrativa do livro dos Juízes. O texto apresenta os fatos sem emitir qualquer sinal de aprovação ou reprovação. Porém, a riqueza de detalhes é tanta que um leitor atento vê com clareza não apenas os pecados cometidos, mas o que os motivou.

sábado, 15 de março de 2014

Deus e as leis

Vimos (em 9/3) que Deus delega uma enorme autoridade ao Estado. Vimos também que a diferença principal entre os diversos tipos de Estado e o que foi estabelecido por Josué na Terra Prometida, era a origem da Legislação. Naqueles, feita pelos soberanos, ou por representantes do povo, neste, outorgada por Deus.
A própria existência do Estado está sujeita as leis de Deus. Por exemplo: no governo familiar é dever dos filhos sujeitar-se a seus pais (Ef 6.1), mas reciprocamente é obrigação dos pais zelar pelos filhos (Ef 6.4). No governo civil os cidadãos devem ao Estado: sujeição, obediência e prontidão (Tt 3.1 e Rm 13.5); manutenção (Rm 13.6-7); honra (1Pe 2.17) e orações (1Tm 2.1-3), mas o Estado é obrigado a: castigar o malfeitor (Rm 13.4); primar pela verdade e pela honestidade (Lc 3.14); reger-se pela sabedoria (Pv 8.15-16); defender os oprimidos (Sl 82.2-4), moderar seus gastos militares, suas mordomias, respeitar as leis de Deus e a não oprimir seus cidadãos (Dt 17.15-20). 
Embora a origem da legislação fosse a marca distintiva do Estado fundado por Josué, Deus permite que haja legisladores, mas exige que as leis feitas por eles estejam de acordo com sua vontade: “Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo, a fim de despojarem as viúvas e roubarem os órfãos!” (Is 10.1-2). Em outras palavras: todas as leis devem expressar em última instância a vontade de Deus.
Inevitavelmente, algumas, pela própria natureza, acabam exprimindo. Por exemplo: as leis que visam a proteger a vida sempre derivam do “Não matarás”. Porém, outras afrontam este mandamento: Por que a vida de uma criança no ventre de sua mãe pode ser descartada e a vida de um perigoso e cruel assassino, tem de ser poupada?
A cada dia, mais leis afrontam a vontade expressa de Deus e quase todas nascem em uma nova fonte de legislação: Organizações internacionais. O Estado, outrora tão cioso de sua soberania, capitula diante de pressões internacionais, e cede a grupos de pressão, via de regra para proteger minorias, que, na maioria das vezes, possuem em comum uma prática reiterada, ou até mesmo um estilo de vida, que afronta os princípios básicos da vontade divina.
A maioria dessas leis busca um humanismo total em detrimento da vontade de Deus, e baseia-se no seguinte conceito: o homem é seu próprio senhor e não precisa obedecer a ninguém senão a sua própria vontade.
Essas leis geralmente nascem em uma convenção internacional, para a qual os representantes brasileiros são nomeados e lá, sobre conceitos que já foram criados, com a ajuda de modificações até mesmo no significado das palavras, assume-se um compromisso que, ratificado por nosso Congresso, acaba gerando a base dessas leis. Assim nasceu a atual distinção que é feita entre sexo e gênero. O testemunho de muitos representantes que foi após a defesa veemente de Bella Abzug, notória feminista americana, que o termo “gênero” foi mantido nos documentos da assembleia em substituição a “sexo”.
O uso da palavra gênero, com esta acepção, teve seu início nos anos 60 e é notável que sua disseminação tenha se dado após uma verdadeira tragédia. 
Em 1965 David Reimer, irmão gêmeo de Brian, teve seu pênis amputado durante uma postectomia. O psicólogo John Money sugeriu à família que o criasse como menina, argumentando que, “sexo é a condição com que se nasce e gênero é o papel social dos sexos biológicos”. Embora criado como menina e acompanhado psicologicamente para que seu “gênero feminino” refletisse essa condição sexual criada artificialmente mediante cirurgias, ele logo começou a comportar-se como menino e a rebelar-se contra o papel de menina. Na adolescência repudiou totalmente a feminilidade e quando jovem reverteu cirurgicamente a operação e casou-se. Inconformado com o drama de David, Brian se matou. Dois anos depois, sem esposa, e sem encontrar-se, nem como homem, nem como mulher, matou-se também.
Apesar de tão dramático começo, essa distinção (de gênero) pegou, e, hoje nos está sendo imposta. Já apareceram organizações em que, onde se escolhia apenas Homem ou Mulher, hoje se escolhe até cinquenta gêneros diferentes.
Porém, para que tais mudanças aconteçam, é necessária uma verdadeira ação de engenharia social. Nela o concreto, o aço ou os componentes eletrônicos, com os quais as engenharias comuns trabalham, são substituídos por pessoas e os meios de comunicação de massa (especialmente a televisão) são usados como recursos fundamentais na nova arrumação pretendida pelos novos engenheiros.
Em um documento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (Working Paper #651 – BR-N1020), intitulado “Television and Divorce – Evidence from Brazilian Novelas” escrito por Alberto Chong e Eliana La Ferrara, lê-se o seguinte resumo: “Este trabalho estuda a relação entre a televisão e o divórcio no Brasil, explorando a variação no tempo de disponibilidade do sinal da Rede Globo – rede que tinha um virtual monopólio sobre telenovelas no país – nos municípios. Usando os dados de três censos (1970, 1980 e 1991) e controlando, nas áreas demarcadas, as características que variam no tempo, o trabalho mostra que a parcela de mulheres separadas ou divorciadas aumenta significativamente após o sinal da Globo se tornar disponível. [...]” (Tradução minha).
A ideia é mostrar que esse é o caminho para influenciar as mulheres de outros países.
De qualquer modo, onde a legislação for contrária aos objetivos das organizações internacionais, muda-se a legislação. Em 24 de fevereiro passado foi noticiada a nova legislação antihomossexual de Uganda. Todos os noticiários a respeito dela, que vi ou li sempre foram concluídos com um relato de sanções contrárias que serão impostas por outros países ou pelas organizações internacionais com o fim declarado de pressionar Uganda para revogar a lei (embora mais da metade dos países africanos tenham leis semelhantes).
O que podemos fazer? Primeiramente devemos orar. Em segundo lugar resistir como os franceses estão fazendo à tentativa de imposição da ideologia de gênero na educação das crinças. E, por fim, eleger apenas pessoas comprometidas, de fato, com uma vida submissa a vontade de Deus.
 
 

sábado, 8 de março de 2014

Deus e o Estado

Chamamos de Estado o conjunto de instituições que governa um povo. Modernamente ele é analisado como possuindo três componentes: A que estabelece, em nome do povo, as obrigações a que o povo se sujeitará (legislativo); a que executa e impõe a execução dessas obrigações (executivo) e a que julga se alguém se desviou de cumpri-las (judiciário).

Nos Estados antigos essas três componentes eram resumidas na vontade de quem detinha o poder, seja pela força ou por herança. Um bom exemplo é o Egito em que José como mão direita do faraó, estocou alimentos e no tempo de escassez, em troca deles, recolheu todo dinheiro que circulava (Gn 47.14-15). Findo o dinheiro, adquiriu, ainda em troca de alimentos, todos os rebanhos e propriedades bem como os inadimplentes como escravos (Gn 47.16-21). Finalmente, estabeleceu nova ordem onde o povo passou a ser arrendatário da terra a uma taxa de 20% de tudo o que fosse produzido (Gn 47.23-26).

Não havia limites para o poder do governante e consequentemente para o tamanho do Estado.

A legislação é pedra de toque: Enquanto a legislação nos Estados antigos era a expressão da vontade do soberano, nos Estados modernos (onde, via de regra, os legisladores são eleitos) ela representa a vontade do povo que os elegeu. E a origem da legislação era a diferença básica entre o Estado implantado por Josué na Terra prometida: Deus era o único legislador.

Inicialmente esse Estado era o mínimo dos mínimos. Não havia um governo central e cada tribo era governada pelos seus próprios príncipes. Quando afrouxavam a observância à lei divina, Deus levantava um inimigo para oprimi-los e quando se arrependiam, Deus lhes suscitava um Juiz que os conduzia em vitória sobre aquele inimigo. Isso se repetiu quatorze vezes em um período de quatrocentos anos.

À luz da Bíblia o embrião de todo governo é a justiça. Fazer justiça é a missão prioritária de qualquer governante, depois defender a nação de ameaças externas e defender os oprimidos. Tudo isso de conformidade com a lei de Deus, que  dispunha até sobre a guerra (veja o capítulo 20 de Deuteronômio).

Naquele Estado implantado por Josué resolveram então centralizar o governo e transformarem-se em uma monarquia imitando seus vizinhos. Deus os alertou sobre qual seriam os direitos do rei (recrutar soldados e servas, desapropriar bens e cobrar impostos) e os advertiu a não o buscarem reclamando (1Sm 8.11-19), mas preferiram fazer conforme o próprio coração. Em outras palavras: aumentaram o poder do Estado (cuja natureza é sempre usurpar o domínio de Deus): “Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele” (1Sm 8.7).

Os reis sucederam-se sobre Israel. Depois de Saul, Davi estabeleceu sua casa e seu filho Salomão agigantou o Estado o quanto pôde, mesmo tendo de desobedecer a Lei de Deus. A política centralizada e seu suporte militar renderam a Salomão muitos inimigos, até seu supervisor de trabalhos forçados, Jeroboão, teve de fugir para o Egito para escapar de sua ira (1Re 11.26-40). A economia, também centralizada, dependia totalmente de impostos altíssimos.

No reinado de Roboão, filho de Salomão, as demais tribos se revoltaram contra a de Judá exatamente pela exorbitância dos impostos que Roboão insistia em continuar cobrando e criaram o reino do norte no qual diversas famílias sucederam-se no poder. A tribo de Judá, seguida pela metade da tribo de Benjamim, continuou fiel à família de Davi. Dentre eles Uzias exemplifica bem este tema.

Uzias reinou cinquenta e dois anos sobre Judá, e, mediante a guerra e a dissuasão militar, solidificou as fronteiras, edificou torres de defesa sobre os muros de Jerusalém e ao longo do território com a missão de mantê-lo sob vigilância e garantir a segurança dos trabalhadores do campo. Era tido por “amigo da agricultura” e possuía um exército muito bem armado. Pelo relato do cronista (2Cr 26), parece que seus gastos militares trouxeram prosperidade. Ensoberbecido, quis aumentar o poder do Estado até sobre a religião, porém os verdadeiros sacerdotes (“homens da maior firmeza”) o resistiram e Deus o castigou.

O contraste entre o tamanho do Estado nos dias dos Juízes e nos dias de Salomão (ou de Uzias) é muito grande. É certo que as palavras “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (Jz 17.6 e 21.25) trazem a impressão de uma apologia ao Estado monárquico, mas, bem examinadas, revelam muito mais a insubordinação de um povo que não se submetia à lei divina. Se nos Estados modernos a democracia depende do comprometimento de seus cidadãos com as leis, na época dos Juízes o cumprimento das leis divinas era a essência da manutenção daquele Estado e o esquecimento delas foi a razão de seu fim. Eles não questionaram as leis de Deus, mas também não as obedeciam e, pior, pediram um rei que impusesse seu cumprimento. Ou seja: aumentaram o Estado para que os tutelasse. Em vez de cumpri-las por temor de Deus, estavam dispostos a cumpri-las pelo temor ao Estado.

Porém, essa não é a natureza do Estado (fazer cumprir as leis de Deus). Sua tendência natural é impor suas próprias leis, assumindo o lugar dele. Quanto maior é o Estado, maior será a independência de Deus. Num Estado que garanta a todos o básico, mais cedo ou mais tarde, Deus será esquecido e o exercício do amor ao próximo se tornará desnecessário. Não haverá por que orar pelo “pão nosso de cada dia”, pois o estado o fornecerá. Não haverá por que se preocupar com o bem estar dos menos afortunados, pois, se existirem, assisti-los será obrigação do Estado. Em outras palavras: As duas tábuas ficam desnecessárias.

A existência de governos (e consequentemente do Estado) sempre fez parte do plano divino e depois da queda eles se tornaram indispensáveis. Porém, todos os governos, sejam familiares, locais ou nacionais, devem refletir o governo divino, pois até mesmo os que nasceram (e/ou se mantêm) pela força derivam sua autoridade de Deus. É o que aprendemos do apóstolo Paulo através de sua carta endereçada à Igreja de Roma escrita nos terríveis dias de Nero: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação” (Rm 13.1-2).

quarta-feira, 5 de março de 2014

Na casa do Pai

Nos tempos do Antigo Testamento nossos pais se referiam a Deus como Senhor, Senhor dos Exércitos, Eterno, ou outros tantos nomes. Jesus sempre o chamou de Pai. Fez mais: ordenou a seus discípulos que o chamassem assim em oração. E dentre as palavras que poderia usar escolheu a que uma criança usa para chamar seu pai. Provavelmente a mesma que ele usou, quando criança, para chamar José.

Porém, é digno de nota que ele tenha se referido também à “Casa do Pai”. Duas vezes ele usa essa expressão para referir-se ao templo (aos doze anos e ao purificá-lo), e as demais vezes sempre para ensinar algo.

Ao despedir-se dos seus, ele garantiu que na Casa do Pai havia muitas moradas e que ia adiante deles para preparar-lhes um lugar.

Para o Filho Pródigo a Casa do Pai era o lugar em que os servos tinham pão com fartura. Entretanto, na própria parábola o Senhor Jesus a descreve mais generosamente: era lugar de alegria. Lá o filho era aguardado com festa e com muito mais de tudo aquilo que gastara prodigamente. Mas, repare bem na própria Parábola: na Casa do Pai há certos procedimentos que devem ser observados.

As roupas que ele levou, e as dissipou, na Casa do Pai são necessárias para cobrir a nudez que um mero pano não consegue cobrir. Por isso são providenciadas pelo próprio Pai.

Na Casa do Pai o anel e os calçados certificam reabilitação filial. Com o anel ele está credenciado a assinar pelo pai. Calçado, ele jamais será confundido com um servo (mesmo aqueles que têm pão com fartura) mas fica claro que ele também é Senhor.

Na Casa do Pai vestir-se é mais do que obediência a etiqueta. Sinaliza que o filho assumiu as obrigações decorrentes da filiação, mesmo que aos olhos de muitos tais obrigações pareçam ostentação, elas existem para a glória do Dono da Casa e seus filhos se comprazem, mesmo indignos delas, em recebê-las e usá-las.

Mas na Casa do Pai, não há lugar para picuinhas entre irmãos. O irmão mais velho, que recusa a alegrar-se com a graça e misericórdia do Pai, lhe ofende tanto quanto aquele que o considerou morto e lhe voltou as costas.

Portanto, na Casa do Pai há certas normas de conduta. Há um modo de se viver lá. E esse é o sentido primário de ethos: palavra grega da qual se deriva nossa palavra ética, que poderia ser traduzida por “conforme os costumes da casa”. No caso da família que, tanto no céu quanto na terra toma o nome do Pai Altíssimo, a ética de sua Casa. A ética vivida por seu Filho Unigênito. Ou seja: a Ética Cristã.

Em síntese: Na Casa do Pai, o filho é motivo de alegria e festa, mas não se faz o que se quer. Quem mora na Casa do Pai tem de seguir as normas que foram estabelecidas pelo Pai. Tanto as que regulamentam o comportamento diante do Pai, quanto o comportamento diante dos irmãos que nela também moram.

Na Casa do Pai há muitas moradas, mas todas são regidas pela vontade do Pai.

 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Fizestes distinção entre vós mesmos

Embora as opiniões a esse respeito não sejam unânimes eu prefiro datar a Carta de Tiago como tendo sido escrita nos primeiros anos da Igreja, logo depois da perseguição que veio após a morte de Estêvão: mais especificamente no ano 45. Situando-a nos primeiros dias fica mais fácil entender por que ele chama uma igreja local de sinagoga (Tg 2.2). Situando-a neste período também fica fácil de entender que ele a destinou aos perseguidos que se espalharam a partir de Jerusalém: “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que se encontram na Dispersão, saudações” (Tg 1.1).

O Tiago que a escreve identifica-se com “servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo”. Acho que é o mesmo Tiago lembrado por Pedro ainda de madrugada quando se viu livre da prisão (At 12.17). Esse Tiago era um dos mais destacados líderes da Igreja de Jerusalém ao ponto de Judas, em sua carta, identificar-se simplesmente como seu irmão (Jd 1). Foi ele quem apresentou o parecer acolhido pelo Concílio de Jerusalém (At 15.13) e dele Paulo declara que era tido como uma das colunas daquela Igreja (Gl 2.9).

No Novo Testamento encontramos quatro pessoas chamadas Tiago: o pai do apóstolo Judas (Lc 6.16 e At 1.13), o filho de Zebedeu, irmão de João (que foi morto pouco tempo antes dessa perseguição); o apóstolo que era filho de Alfeu; e este, que era um dos irmãos de Jesus, também filho de Maria e José (Mc 6.3) e foi chamado pelo Senhor após sua ressurreição (1Co 15.7).

O objetivo da Carta de Tiago é confirmar a fé (palavra repetida 15 vezes) de seus leitores, que, como já disse, passavam por provações. Certamente essas provações eram decorrência da perseguição que estavam sofrendo.

Sua primeira preocupação é mostrar que a provação deve ser recebida como uma oportunidade dada por Deus para nos tornar mais perseverantes. E, com este objetivo em mente, ele passa a discorrer sobre diversos assuntos presentes em tempos de dificuldades: a prática de boas obras, a oração, a fala, os planos futuros, etc.

Entretanto, o que selecionei como destaque foi a discriminação decorrente da posse de bens. Veja a hipótese proposta por Tiago: “Se, portanto, entrar na vossa sinagoga algum homem com anéis de ouro nos dedos, em trajos de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e tratardes com deferência o que tem os trajos de luxo e lhe disserdes: Tu, assenta-te aqui em lugar de honra; e disserdes ao pobre: Tu, fica ali em pé ou assenta-te aqui abaixo do estrado dos meus pés, não fizestes distinção entre vós mesmos e não vos tornastes juízes tomados de perversos pensamentos?” (Tg 2.2-4).

Tiago nos mostra que já nos primeiros dias da Igreja havia pobres e ricos entre seus membros e dificuldades de convivência entre eles. Aliás, isso também pode ser visto no pecado do casal Ananias e Safira, em que desejavam ser reconhecidos como desprendidos dos bens materiais e ao mesmo tempo mantê-los.

O ensino bíblico sobre riquezas sempre foi que Deus é o dono de tudo e nós somos seus administradores. Os que chamamos de ricos, na realidade são apenas administradores de mais bens e com mais contas a prestar. Portanto, tratar alguém que tem mais (apenas por ter mais), em detrimento de alguém que tem menos (apenas por ter menos), destinando-lhe o chão como assento, significa cometer, pelo menos, 3 pecados:

1º - Glorificar-se a si mesmo assumindo o papel de juiz da importância alheia.

2º - Julgar alguém pelo que ele tem! Não pelo que ele é. Deus, através de sua palavra, nos exorta continuamente a sermos juízes sobre a essência e, desprezando o mal, acolhermos o bem. Somos constantemente proibidos de julgar pela aparência.

3º - Fazer distinções no Corpo de Cristo. Ou, como diz o próprio Tiago: “fazer distinções entre vós mesmos” (2.4). Cristo morreu por cada membro de sua Igreja. Ao privilegiarmos um em detrimento de outro, pecamos.

A Carta de Tiago é um testemunho de que esse pecado sempre existiu na Igreja, mas também é uma exortação a que não o cometamos. Não ofendemos apenas a nosso irmão pobre, menosprezando-o por ele ter poucos bens sob sua guarda, pecamos também contra o rico destacando-lhe em função de algo que não lhe pertence. Porem principalmente ofendemos muito mais a Deus, que fez igual a todos e trata igualmente a quem diferençamos.

Não façamos isso.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...