sábado, 21 de abril de 2007

Minha cruz

A cruz do Senhor era de madeira. O mesmo material com que ele trabalhava, e que estava acostumado a cortar em pedaços de tamanho adequado ao que pretendia fazer. Porém ele a recebeu inteira, no tamanho suficiente para suportar o peso de seu corpo.

Pregos fixaram o Senhor a cruz. Provavelmente ele também os tenha usado na fixação de um umbral ou das vigas mestras de um telhado. Naquela época os pregos eram caros e, feitos sob encomenda, demoravam a ficar prontos.

Hoje, enquanto leio este texto, penso na cruz que sou obrigado a tomar como discípulo do Senhor. Ela não é de madeira. Na maioria das vezes nem sei do que ela é feita, mas a reconheço prontamente. Nunca tive e nunca terei domínio tal sobre sua matéria de modo que eu possa cortá-la e com ela fazer algo que tenha outra serventia. Seu material parece ter sido feito exclusivamente para mim, e só serve para, pendurando-me, manter-me exposto ao escárnio de quem passa e me vê.

Hoje, sou fixado a essa cruz, por um único tipo de prego: a vontade Deus. Se ela não prevalecesse sobre a minha, há muito eu já teria descido da cruz.

O Senhor de todas as coisas foi mantido por pregos em uma cruz de madeira, mas ele estava livre de qualquer coação humana. Ficou nela porque quis: de boa-vontade, por mim.

Seu servo inútil, que sou, que sequer faço o que deveria fazer, quero distância de cruzes e pregos. Entretanto o Senhor, com terno amor, me mantém em uma – infinitamente menos dolorosa do que a que ele suportou voluntariamente – visando meu bem.

O Senhor suportou sua cruz até o fim. Quando pregado orou a favor de quem o pregava. Quando convidado ou desafiado a sair dela sequer dava ouvidos.

Seu servo inútil, que sou, à simples visão de minha cruz, debato-me, estrebucho, e às vezes pergunto: por que eu? Quando zombado envergonho-me. Quando convidado a sair dela alegro-me. Mas a cruz é meu refúgio. Lá não posso fazer meu próprio querer, não posso conformar-me à este século, e na cruz estou livre dos assaltos do inimigo.

Não fui crucificado para ser salvo, mas por que já estou salvo. Não fui crucificado como castigo, mas para minha proteção, pois não há local mais seguro.

Lá ficarei até que, mortificado, renda a Deus meu próprio eu e morra para tudo aquilo que hoje ainda me afeta e me subjuga. Então serei ressuscitado em glória, como meu Senhor o foi.

Estou em boa companhia: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”. Gl 2.20.

Um comentário:

Oliveira disse...

Caro reverendo

Muito interessante esta reflexão, em especial a parte:

"... Seu servo inútil, que sou, que sequer faço o que deveria fazer, quero distância de cruzes e pregos. Entretanto o Senhor, com terno amor, me mantém em uma – infinitamente menos dolorosa do que a que ele suportou voluntariamente – visando meu bem..."

Um abraço