sábado, 28 de abril de 2012

Redes Sociais

Duas ou três vezes comecei a escrever algo e desisti, pois achei que os textos estavam muito pessoais. Desta vez, cheguei a conclusão que não há outra abordagem possível, pois, de tão novo, não há distanciamento suficiente para se assumir uma posição crítica, e me sinto obrigado a dizer algo ao rebanho que Deus colocou sob meus cuidados ou corro o risco de omissão.

Nunca fui e dificilmente serei um usuário aficionado. Mas tentei acompanhar quatro das maiores redes sociais. Fiz isso por achar que era extensão de minhas obrigações como pastor. Passei momentos gratificantes, fiquei decepcionado com a futilidade de alguns amigos e, sendo bem sincero, passei por momentos maus.

Começando pelos gratificantes: Encontrei pessoas cujo contato já havia perdido há muitos anos. Encontrei fotos de amigos e lugares que jamais encontraria. Recebi, em abundância, informações muito boas.

É uma fonte de atualização excelente tanto de notícias familiares quanto profissionais e culturais. Até agora, não sei (apenas desconfio) o que estimula alguns a compartilhar ou escrever coisas tão bonitas nas redes e não fazer o mesmo através dos e-mails, já que o trabalho é exatamente o mesmo, e possui a vantagem de se poder responder diretamente, ou não, ao remetente sem que ninguém mais veja, ao passo que a rede social é necessariamente intermediária e exibicionista.

Porém, devo falar também da parte má. E tenho de fazer isso com cautela, pois isso não pode ser generalizado. Aliás, que fique bem claro: estou relatando a minha experiência.

Primeiro: O tempo gasto. Eu raramente gastava menos de 3 horas por dia!

Pela manhã, só no FaceBook com menos de 150 amigos, (configurado para que no máximo os amigos de meus amigos lessem o que eu escrevi e apenas meus amigos pudessem me responder) eu gastava entre uma e duas horas lendo o que foi escrito depois de 23h, que era a última vez que eu o olhava na noite anterior.

Dependendo do dia, das polêmicas surgidas e de minha interação, facilmente gastava meia hora antes do almoço, meia hora à tarde e outra antes de dormir.

Um dia li a seguinte frase: “a maior virtude das redes sociais é que ninguém poderá escusar-se diante do Senhor de que não tinha tempo para orar ou ler a Bíblia”. É a mais pura verdade, pois dentro dessas três ou quatro horas diárias, poucas foram as produtivas de fato. Aquela em que percebi que meus conselhos valeram ou em que fui edificado.

Quem reprendi por boca suja continuou escrevendo palavrões e eu o deletei. Uma adolescente, de dócil trato pessoal, me deletou com um palavrão pior dos que falava antes, pelos quais eu a havia exortado.

Poucas vezes li algo edificante além de “hoje Deus vai me abençoar”, ou “Tudo posso naquele que me fortalece”. Na grande maioria das vezes se repetiram os comentários sobre partidas de futebol, ou sobre acontecimentos que a televisão já havia mostrado.

Curiosamente não é difícil agrupar alguns comportamentos característicos:

Os que escrevem o que não se comentaria pessoalmente. Que postam fotos desabonadoras. Que compartilham piadas sujas sem qualquer pejo. Frases que não cabe nas bocas que anunciam o santo Evangelho saem dos teclados. Ainda estou tentando entender a frase: “Êta joguinho ruim! Se eu tivesse ido a igreja tinha ganhado mais”.

Os que postam muitas coisas seguidas. Tive de bloquear uns que todos os dias postavam seis, dez, às vezes, quinze coisas (!) sobre os assuntos mais diversos. Desde receitas de omelete até fotos bobas que eles achavam engraçadas. A impressão que eu tinha é de que eles não viam a hora de compartilhar algo. E eu pensava: onde arranjam tanto tempo (e tanta besteira)?

Os que usam para publicar coisas boas. Tive acesso a diversas bibliotecas e a diversas obras em domínio público. Novamente eu pensava: Como conseguem navegar por tantas partes?

Apesar das coisas boas, cheguei a conclusão que as redes sociais são um meio vil. Contém verdadeiras pérolas, mas perde-se muito em privacidade e em boa imagem dos amigos. Nos encontros físicos os vemos bem vestidos e perfumados. Lá eles se mostram como são na intimidade.

Saí.

Certo dia, após repreender uma de minhas ovelhas por uso de palavrões, um amigo dos amigos dela (que teoricamente não poderia me responder, já que a segurança do site não permite isso) entrou em minha página e postou uma foto pornográfica que não consegui apagar. Copiei-a. Mandei para as autoridades competentes. Para a empresa proprietária do site com uma reclamação. Mandei também para todos os meus amigos com uma explicação do que estava acontecendo e encerrei a conta.

Ganhei 4 horas para estudar, orar e aproveitar a companhia de minha família.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Missões II

Eu já tinha dado este assunto por encerrado e cria piamente ter deixado claro que, como o Senhor Jesus recebeu todo o poder e ordenou a seus discípulos que pregassem o evangelho ao mundo inteiro não havia o que questionar. Pequei. Fui presunçoso.

O mínimo que aconteceu foi uma questão que está no blog, perguntando se há, de fato, diferença entre ter autoridade e ter poder.

Pois bem: ter autoridade não é a mesma coisa que ter poder. As vezes quem detém o poder não é quem tem a autoridade. Pense no caso de um sequestro de um avião ou de um motim. A autoridade foi usurpada por quem tem poder. De pouco adianta um magistrado ter autoridade se não tiver poder para exercê-la.

Recentemente fui hóspede de um que me contou que em uma cidade do interior um juiz de paz viu-se obrigado a dar voz de prisão a um coronel e aconteceu o seguinte diálogo:
- teje preso!
- Num tejo!
- Eu sou autoridade e tô dizendo: teje preso!
- Nun tejo. E quero vê quem é que vai me prender!

Entre o primeiro e o segundo “teje preso” os dois guardas que acompanhavam o juiz já tinham virado a esquina.

Então pra não ter uma ordem contrafeita o juiz deu outra:
- Então fique aí mesmo seu teimoso!

Percebeu? O Juiz tinha autoridade (aliás, nem sei se um juiz de paz tem tal autoridade. Décadas atrás talvez tivesse), mas o coronel tinha o poder de intimidar os guardas.

O Senhor Jesus não apenas tem autoridade como também poder para regenerar o coração daqueles que ele quer. Daquele que são seus. Do mesmo modo que ele chamou Lázaro para fora do túmulo e Lázaro atendeu, ele chama quem está morto em seus delitos e pecados e tal defunto não fica no túmulo.

Ora, defuntos não ouvem, portanto é forçoso admitir que a voz que atingiu os ouvidos de Lázaro é a mesma voz que no princípio de tudo disse “haja luz e houve luz”.

Mas alguns objetam que essa voz não fala hoje. Com a Fé Reformada eu creio que fala sim! Fala através da pregação do autêntico pregador que prega o autêntico evangelho. É a voz de Jesus, que via de regra é rejeitada, como sua própria voz, nos dias de sua carne, foi rejeitada também, ao ponto de ser crucificado. Porém, quando um verdadeiro filho de Deus a escuta... Não é necessário qualquer enfeite (que, aliás, só atrapalham): “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.27-28).

Note bem: A fé arminiana, que deposita no homem a iniciativa de buscar a Deus, acha que Jesus tem a autoridade e o homem tem o poder, pois é o homem que decide se aceita ou não. Eles pregam que é o homem que possui a chave de seu próprio coração.

O evangelicalismo moderno, com o evangelho contextualizado, em que não se deve falar de pecado, ou se deve evitar coisas que pressupostamente quem ouve não compreende - ou a explicação é enfadonha, como sacrifício vicário - não nega a autoridade de Jesus, mas divide o poder: uma pequena parte está no ouvinte, que tem de se decidir, e a maior parte está no modo como o evangelho é apresentado: relevantemente ou não. Aí vale até se vestir de palhaço.

Curiosamente, quando o Espírito Santo tornou os discípulos de Jesus capazes de ir mundo afora e cumprir a ordem que receberam, os dotou apenas com duas coisas: intrepidez e capacidade de falar novos idiomas. Só isso! Lembre-se que naqueles dias o teatro e as seis artes já eram conhecidas!

Pregar o evangelho é apenas falar as grandezas de Deus. Só isso. O Espírito Santo faz o resto.

sábado, 14 de abril de 2012

Missões

Em 1557 Jean de Léry, um sapateiro, membro da Igreja de Genebra, selecionado pelo próprio Calvino, vagando entre os tupinambás, no que hoje é o Estado do Rio de Janeiro, viu horrorizado a tribo que o hospedava devorar seus inimigos que tinham sido mortos em guerra recente. Ele achou melhor ficar dentro da oca e aguardar a manhã seguinte quando livres da ressaca do cauim pudessem ouvir e entender o evangelho.

Tempos atrás em situação semelhante, tentou interromper o festim e um índio lhe ofereceu o pé de um inimigo ainda fumegante. Com medo de que o seu pudesse ser o próximo ele se enrolou na rede e registrou que nunca orou tão fervorosamente, durante o restante daquela noite.

Pela manhã, quando os falou do verdadeiro Deus, ouviu o que segue (Copiado de seu livro: Viagem à Terra do Brasil, escrito poucos anos depois quando retornou à França): “... muitas vezes ouvimos de nossos avós que há muito tempo, já não sei mais quantas luas, um mair como vós, e como vós vestido e barbado, veio a este país e com as mesmas palavras procurou persuadir-nos a obedecer a vosso Deus, porém conforme ouvimos de nossos antepassados, nele não acreditaram. Depois desse veio outro e em sinal de maldição doou-nos o tacape com o qual nos matamos uns aos outros; e há tanto tempo já o usamos que se agora desistíssemos desse costume as outras nações vizinhas zombariam de nós”. [...] “Matutei mais tarde sobre o que me haviam dito acerca do francês que, centenas de anos antes, lhes anunciara o verdadeiro Deus, e imagino que se trate de algum dos apóstolos”.

Léry não estava pensando algo inusitado. Calvino, e a maioria dos Reformadores, ensinava que os Apóstolos foram pelo mundo inteiro. Baseavam seu ensino na Bíblia:

Marcos 16.20: “E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram”. E Colossenses 1.23: “... e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro”.

Ensinava-se então que aquilo que hoje chamamos de “A Grande Comissão” já havia sido cumprida, mas era obrigação de cada crente mantê-la assim.

Defender esse tipo de visão hoje é quase uma afronta. O argumento básico é que pensar assim enfraquece os esforços missionários. Entretanto, uma pesquisa mostrará facilmente que a Igreja em que isso era claramente ensinado - a Igreja de Genebra nos dias de Calvino - chegou a sustentar cento e quarenta e dois missionários, e mandou uma expedição ao recém-descoberto Brasil.

Fazer missões é primariamente uma questão de obediência. Não sei por que estou indo, mas vou, pois meu Senhor mandou.

Fazer missões é também uma questão de fé. Como não conhecemos a qualidade dos terrenos, semeamos em todos, até nas pedras, pois alguma semente cairá em terra boa. Ou, como aconteceu a Paulo em Corinto: “E disse o Senhor, em visão, a Paulo: Não temas, mas fala e não te cales; porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade” (At 18.9-10).

Entretanto, obediência a Deus e Fé, foram trocados por “paixão pelas almas”. Se houver algum tipo de paixão (paixão, significando amar) deve ser paixão pelo Senhor, que fez disso a base para Pedro apascentar seu rebanho: “Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: Amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21.17).

Os argumentos em prol de uma contextualização maior da palavra de Deus, ou mesmo de sua apresentação, no fundo acabam, no mínimo, duvidando da capacidade do Espírito Santo aplica-la ao coração dos eleitos ou desobedecendo a ordem simples e direta de Jesus de fazer discípulos dele, não do que se julgue ser uma versão aceitável dele para o mundo moderno.

Surge então nossa falta de fé: Será que vai dar certo? Ora foi o próprio Senhor que mandou. E fez questão de garantir-nos que tinha poder para tanto: “É-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mt 28.18 Edição Revista e Corrigida).

Aqui sou obrigado a fazer uma nota, pois há quem garanta que o termo grego (exousia) deve ser traduzido por autoridade e não poder. De fato, a Edição Revista e Atualizada prefere esta tradução nos evangelhos, mas não lhe confere exclusividade.

Em Lc 12.5 ela traduz o mesmo termo por “... tem poder para lançar no inferno”. Em Lc 22.53 refere-se ao “poder das trevas”. E em Lc 23.7 não há outra possibilidade de tradução além de “jurisdição”.

A essa mesma palavra João recorre para dizer que “todos os que o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus”.

Em Atos Ananias manteria poder sobre o terreno e Simão tenta comprar poder de transmitir o Espírito Santo.

Daí em diante, apesar de manter de vez em quando o sentido de autoridade, ou seus derivados como autorização, a polissemia aumenta muito: Em 1Co 8.9 “... esta vossa liberdade não venha...”. Em 1Co 9.6, e correlatos, “...não temos o direito de deixar...”. Em Ef 2.2, Cl 1.16, 2.10 e 1.15: potestade. Em Cl 1.13 e Jd 25: império. Percebeu? A versão Corrigida que usei é tão própria quanto a outra e a preferência por autoridade certamente não decorre da tradução.

Este poder total que Jesus recebeu do Pai está estritamente relacionado com sua ordem aos Apóstolos. Veja integralmente os versículos (ainda na Edição Revista e Corrigida): “E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos.” (Mt 28.18-20).

Exatamente por ter todo poder é que ele determina: “Vão e façam discípulos em todas as nações”. Nesse sentido é que os Reformadores entendiam: Nada poderá deter a verdadeira obra missionária.

sábado, 7 de abril de 2012

Isaque

Em discurso feito alguns anos atrás, defendendo a pluralidade de crenças dos EUA, o então presidente de lá usou uma figura muito sugestiva: (cito de memória) “Quem de nós, se visse um pai, semelhante a Abraão - o pai da fé dos cristãos, judeus e muçulmanos - sacrificando seu filho no topo de um prédio, não chamaria a polícia?” E deixou implícito que o velho Abraão seria abatido pelos atiradores de elite.

O filósofo Kierkegaard, no livro Temor e Tremor coloca-se por instantes, na pessoa de Isaque ameaçado por seu pai de cutelo na mão, sobre o altar e escreve: “Então Isaac fremente e com grande angústia, gritou: Deus do Céu? Tem piedade de mim! Deus de Abraão, tem piedade de mim, sê meu pai, porque já não tenho outro na Terra!”.

Essas duas descrições são exemplos claros dos erros mais crassos que se comete quando se lê a Bíblia com os olhos de um homem moderno.

Para nós de hoje Isaque é um personagem meio obscuro, sempre relegado a segundo plano, quando na verdade seu nome sempre é lembrado pelosantigos quando se dirigiam-se verdadeiro Deus: “- Deus de Abraão Isaque e Jacó...”

Alguém já me disse que a natureza de Isaque era muito delicada pra seu gosto, pois a primeira tarefa de sua esposa foi consolá-lo pela perda de sua mãe (Gn 24.64-67) mesmo já tendo quarenta anos de idade (Gn 25.20). Ora esse é mais um exemplo de olhar alguém com olhos modernos.

A Bíblia não esconde que ele repetiu o erro de seu pai fazendo sua esposa fingir ser sua irmã (Gn 26.6-11) e foi enganado por seu filho Jacó (Gn 27), mas em si ele já era um verdadeiro milagre de Deus: 1) Nasceu de um casal de velhos: o pai já tinha cem anos e a mãe noventa, para que ficasse claro que ele era produto do poder de Deus (Rm 4.18-22); 2) Foi poupado da morte pelo próprio Deus que o substituiu por um cordeiro (Gn 22); 3) Gerou dois filhos, após vinte anos de casamento, apenas quando pediu a Deus que curasse a esterilidade de Rebeca (Gn 25.20-21).

Entretanto, nada disso tem importância quando lemos o que o escritor de Hebreus nos diz dele: “... aquele que acolheu alegremente as promessas… (Hb 11.7)”.

Confesso que nunca havia ponderado nessas palavras - como eu gostaria que você fizesse agora - antes que uma de minhas ovelhas, a quem sou grato, chamou minha atenção para elas.

A Bíblia não diz qual era a idade de Isaque quando Abraão o levou ao Monte Moriá. Geralmente imaginamos que ele era adolescente pelo fraseado do capítulo 22 de Gênesis, que se aproxima muito do modo como tratamos (pelo menos do modo que minha geração tratava) um adolescente. Josefo entretanto declara que ele já tinha vinte e cinco anos.

Observe o texto: “Chegaram ao lugar que Deus lhe havia designado; ali edificou Abraão um altar, sobre ele dispôs a lenha, amarrou Isaque, seu filho, e o deitou no altar, em cima da lenha; e, estendendo a mão, tomou o cutelo para imolar o filho” (Gn 22.9-10).

Adolescente ou jovem de vinte e cinco anos, o texto descreve alguém passivo, que concorda que um velho, com mais de 100 anos, o amarre, o deponha sobre o altar e o imole como era prática comum nas religiões dos povos vizinhos.

Se Isaque já era um tipo (no sentido de ser uma prefiguração) de Cristo por ter nascido do impossível, agora ele ganha maior destaque por aceitar submissamente o destino que o pai lhe reserva. Nesse sentido, é que as palavras “acolheu alegremente as promessas” ganham um significado mais profundo do que apenas o de “herdou a promessa que Deus fez a Abraão”. Ele assumiu as promessas (este é um dos sentidos possíveis para o grego de Hebreus).

Do mesmo modo que Jesus faria anos mais tarde e tomaria a cruz, ele percebeu que o cordeiro daquele sacrifício seria ele mesmo e se deixou amarrar e ser colocado sobre o altar.

Você já reparou que a atitude de Isaque “muda” o nome pelo qual Deus é chamado (eu também não havia notado isso até uma das mais preciosas palestras do Rev. Antony Curto no último Encontro da Fé Reformada)?

Os judeus receberam do próprio Deus o impronunciável IHWH, mas se referiam a ele como Adonai (Senhor), ou El (Deus), El-Shadai (Deus dos Exércitos), etc. Entretanto em dois lugares Deus recebe o nome de “O Temor de Isaque”: Em Gênesis 31.42 e 53.

Isaque temia a Deus sobre todas as coisas. Temeu tanto que se dispôs a receber seu destino das mãos de Abraão seu pai terreno e Deus o recompensou sobremaneira ao ponto de deixar-se ser chamado por algo ligado ao caráter dele.

domingo, 1 de abril de 2012

Novo mandamento vos dou

Pois, quando se muda o sacerdócio,
necessariamente
há também mudança de lei.
Hb 7.12

Houve três períodos sacerdotais distintos na história do povo de Deus. Cada um deles com suas peculiaridades, mas, acima de tudo, com legislação própria.

O primeiro foi o período dos patriarcas. Nele cada patriarca era o sacerdote dos seus. Como exemplos: Noé levantou um altar e ofereceu holocaustos sobre ele (Gn 8.20). Abraão ofereceu sacrifícios por si e pelos seus. Jó levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de seus filhos cada vez que eles faziam “uma rodada” de banquetes temendo que algum deles tivesse blasfemado (literalmente: abençoado) a Deus no coração (Jó 1.5).

E assim procederam, Isaque, Jacó, e quem viveu nessa era, até a época de Moisés, que estabeleceu um novo sacerdócio: O sacerdócio levítico.

Antes de falar sobre o sacerdócio levítico convém lembrar que ainda na época dos patriarcas Abraão encontrou-se com um homem em quem reconheceu sacerdócio superior ao seu. Rendeu-lhe homenagens entregando-lhe a décima parte dos melhores despojos do que havia tomado em guerra recente. Era Melquisedeque (Gn 14.18-20). O Escritor da Carta aos Hebreus nos ensina que Abraão estava diante de alguém que prefigurava Jesus, o verdadeiro Rei de Justiça (esse é o significado do nome Melquisedeque), que recebe os dízimos de sua Igreja. Aliás é bom repararmos também no que ele serve a Abraão: pão e vinho.

Estabelecido o sacerdócio levítico, Moisés normatiza o que já era exigência do sacerdócio anterior e cria uma legislação minuciosa e intrincada.

A normatização atinge basicamente a três coisas:

1. As penas: Devem ser proporcionais a ofensa. A um olho, apenas um olho e a um dente apenas um dente. Continua-se com a pena de morte estabelecida por Deus desde Noé.

2. Os dízimos: Não serão mais pagos a indivíduos e sim recolhidos à casa do tesouro, que atenderá às necessidades.

3. Os sacerdotes: Somente os sacerdotes poderão oferecer holocaustos. Os pais continuam com papel preponderante na educação de seus filhos ao ponto de serem obrigados a denunciá-los à comunidade em caso de insubmissão ou rebeldia.

As novidades introduzidas são tantas que é necessário nos limitar apenas às principais:

1. Introdução do sábado.

2. Divisão do holocausto em mais 5 (ou 6) sacrifícios, compondo um sistema cúltico que caracterizava-se por:

- Ser nacional e realizado em lugar determinado por Deus.

- Ser conforme um ritual minucioso sem lugar para improvisos ou manifestações emotivas (ao contrário das nações ao redor).

- Exigir que seus celebrantes vivam conforme muitos preceitos (613 segundo os judeus) que regulam deste as vestes, o preparo de alimentos, até a construção das casas.

Entretanto, tomando a normatização do que havia e tudo o que foi introduzido, nosso Senhor resumiu, com dois textos escritos pelo próprio Moisés: “Respondeu Jesus: O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Mc 12.29-31).

Às vésperas de sua morte, depois de ter lavado os pés de seus discípulos e ter lhes ensinado a lição de que o maior deve ser o que serve. Depois de ter servido a Ceia, inclusive a Judas, que saiu para o trair, o Senhor disse aos onze: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (Jo 13.34).

Chegou um novo sacerdócio e um nova lei se apresenta. Ela não é totalmente nova (neos). Está mais para uma normatização da antiga (kainos). O Senhor está livrando seus discípulos da subjetividade de um coração enganoso. Coração salvo, regenerado, mas enganoso, pois nele ainda habita o pecado.

Explicando melhor. Eu poderia dizer: Amei meu próximo tanto quanto me amo. Entretanto, Jesus mudou o parâmetro de comparação. Agora tudo deve ser comparado com o amor dele: “como eu vos amei”.

Paulo entendeu isso tão bem que escreveu: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou...” (Fp 2.5-7).

Queiramos ou não o mundo destaca esta semana (que deveria ser fonte de grande meditação para todos nós, afinal a maior parte dos evangelhos é dedicada a ela) e a mídia explorará as barbaridades e idolatrias que se repetem todos os anos. Porém, uma palavra deverá falar mais alto em nossos corações: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como Jesus o amou!

sábado, 17 de março de 2012

Bem-aventurados

Ao pé da letra esta palavra exprime a qualidade de quem teve uma boa aventura. Entretanto, por uma dessas funções peculiares à língua portuguesa ela aponta mais para o estado e tempo presente da pessoa a que se refere sem considerar muito a aventura na qual teve sucesso no passado. Tanto é que o primeiro sinônimo que nos ocorre dela é “feliz”, quando na realidade deveria ser “bem sucedido”.

A palavra que está no Novo testamento é “Makarioi” e a Vulgata, no Século 4, a traduziu por Beati (Bem-aventurados ou felizes) de onde vem o termo popular “beato”.

Em Inglês, a Bíblia de Genebra , de 1599, a traduziu por Blessed (abençoados). A King James de 1611/1769, a The New American Standard Bible, de 1977, e a The New International Version de 1984, mantiveram Blessed.

Em Francês, a tradução conhecida como Louis Segond (1910) e a Bible en Français Courant de 1997 (Linguagem corrente) usam Heureuex (felizes).

Em Italiano, tanto a Nuova Diodati de 1991, ou a Nuova Riveduta de 1994, quanto a Católico Romana, San Paolo Edizione de 1995, traduzem por Beati (Abençoados).

Em Espanhol, tanto a tradução Reina-Valera do Século 16 quanto a Biblia de las Américas de 1986 usam Bienaventurarados (Abençoados).

Das dezesseis versões que possuo em português (incluindo Católicas Romanas), duas traduzem por felizes, uma por abençoados e outra por venturosos.

Cá entre nós, eu prefiro traduzir por abençoados (apesar de nesse texto continuar usando “Bem-aventurados”). São abençoados por já possuírem aquelas qualidades destacadas pelo Senhor pelas suas respectivas razões.

As Bem-aventuranças estão registradas em um estilo literário chamado paralelismo - e certamente foram ditas assim, pois esse era um recurso mnemônico de que se serviam os mestres judeus daquela época - onde a segunda parte de cada frase é separada da primeira parte e à ela de alguma maneira se refere.

Antes, convém dizer, que há quem veja oito e até sete Bem-aventuranças. Porém, eu prefiro a leitura convencional de nove. Faz mais sentido para mim:

Bem-aventurados os humildes de espírito,
porque deles é o reino dos céus.

Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.

Bem-aventurados os mansos,
porque herdarão a terra.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão fartos.

Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.

Bem-aventurados os limpos de coração,
porque verão a Deus.

Bem-aventurados os pacificadores,
porque serão chamados filhos de Deus.

Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça,
porque deles é o reino dos céus.

Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai,
porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes” (Mt 5.3-12).

De cara, uma primeira observação já pode ser feita: aos humildes de espírito é garantido o reino do céus. Aos que choram, consolo. Aos mansos, a terra. Aos famintos e sedentos, fartura. Percebeu? Parece que a segunda parte complementa por antítese a primeira. Valerá para todas? Esse é um modo de estuda-las.

Outra análise que pode ser feita é o tempo do verbo que exprime a recompensa.

O da primeira está no tempo presente (porque deles é o reino dos céus). O que indica certa concomitância de eventos.

Da segunda até a sexta o verbo está no futuro. Para mim, indica que a promessa realiza-se após a bem-aventurança. Como exemplo: O discípulo só será capaz de ver Deus (seja na eternidade ou nos eventos diários) se estiver limpo de coração.

Na sétima o verbo volta ao tempo presente (a promessa é igual à da primeira).

Porém, apesar de o verbo da última estar no tempo presente, definitivamente a promessa é feita a “um galardão nos céus”.

Para bem entender o Sermão do Monte, há que se começar entendo as Bem-Aventuranças. Elas são a chave.

sábado, 10 de março de 2012

Se a fé por vezes falha…

“Porque pela graça sois salvos,
mediante a fé;
e isto não vem de vós;
é dom de Deus;
não de obras,
para que ninguém se glorie”
Efésios 2.8-9

Recentemente faleceu um ateu mundialmente conhecido que em um de seus últimos discursos observou: - nunca vi quem, por mais que cresse na vida eterna não lutasse ferrenhamente para manter a vida atual. Eu também não.

Vou um pouco mais longe: Ser cristão não significa ter certeza automaticamente da salvação. Explico: Leia o versículo acima. Leia novamente. Observou? Não apenas a salvação, mas a fé - veículo através do qual nos vem a bendita graça da salvação - também é dom de Deus. Ninguém pode alegar ser merecedor da salvação ou ter o direito de ser salvo por possuir fé, pois desse modo a fé viraria uma espécie de “boa obra” que compraria a salvação.

A fé é um dom de Deus, porém as vezes quem a recebe ainda é um bebê (religiosamente falando) ou não dá muito valor a ela e não a cultiva como deveria fazê-lo.

Minha mãe sempre falava que o entusiasmo de meu pai quando eu nasci era tão grande que ele comprou uma enciclopédia pra mim. É claro que demorei muito a tirar proveito dela e se ela caísse em minhas mãos, em meus primeiros anos de vida, no mínimo ficaria toda rabiscada, para não dizer rasgada. Obviamente Deus não comete o mesmo erro de meu pai. Mas nós cometemos os mesmo erros de um bebê embora sejamos adultos.

Aos 30 anos ganhei de presente um bonsai lindo. Adornou meu escritório durante um mês e começou a ficar preto. Poucos dias depois morreu. Eu não tive o cuidado de o regar todos os dias. Obviamente Deus não comete o erro de esquecer-se de cuidar de nós, mas nós nos esquecemos de nutrir nossa fé e de alimentá-la diariamente.

Já vi cristãos, dos quais eu jamais duvidaria da fé que possuem, desconsolados diante da perspectiva da morte. Acho que os teólogos de Westminster já conheciam esse problema, do contrário não escreveriam essa pergunta/resposta (81) no Catecismo Maior:

Pergunta: Têm todos os crentes sempre a certeza de que estão no estado da graça e de que serão salvos? Resposta: A certeza da graça e salvação, não sendo da essência da fé, crentes verdadeiros podem esperar muito tempo antes de consegui-la; e depois de desfrutar dela, podem senti-la enfraquecida e interrompida por muitas perturbações, pecados, tentações e deserções; contudo nunca são deixados sem uma tal presença e apoio do Espírito de Deus, que os guarda de caírem em desespero absoluto.

Note que eles estão falando de salvos que não possuem certeza de salvação, mas que são protegidos pelo Espírito Santo do desespero absoluto.

Note também que eles ensinam que a fé pode ser enfraquecida e interrompida, por muitas perturbações, pecados, tentações e deserções.

Você se lembra da terceira semente da parábola de Jesus? Aquela que caiu sob os espinheiros? Ela está viva, mas os espinhos, que Jesus interpreta como “...os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições... (Mc 4.19)” a deixou infrutífera.

Talvez você se lembre da tristeza de Davi em que desesperado ele grita “Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito. Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário (Sl 51.11-12)”, ou talvez da tristeza de Pedro.

Não fomos criados para morrer. Portanto é natural que a morte nos assuste e nos cause temor. Isto é a maior prova de que ainda somos pecadores. Salvos, remidos, porém ainda pecadores e sujeitos ao pecado. Dignos de seu salário: a morte (Eis a maior refutação dessa doutrina idiota que ensina de que o salvo não peca. Se não pecasse nunca mais morreria).

Creio ser correto, morrer em paz. Prolongar a vida apenas até onde os conhecimentos humanos permitem fazer sem torna-la vegetativa. De resto é sempre bom ouvir as palavras do Senhor: “Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” (Mt 6.27).

sábado, 3 de março de 2012

Pele por pele

“Pele por pele, e tudo quanto
o homem tem dará pela sua vida”
Jó 2.4

Por dever de ofício há quase 3 décadas tenho visto belíssimos exemplos de fé e muita manipulação dela. Porém, como filho de missionário, desde que me entendo por gente meu pai já me advertia contra os que, usando a terminologia de nosso Senhor, ele chamava de lobos e bem cedo aprendi que o melhor lugar pra se ver os lobos em ação é perto de um doente.

Por dever de ofício tenho acompanhado doentes terminais, tanto idosos quanto jovens, até o último suspiro. Tenho visto suas famílias gastarem tudo o que possuem e até se endividarem com tratamentos, que as vezes apenas prolongam o sofrimento. Quando prolongam, pois alguns, de tão estranhos, cobrem o coitado de ridículo, mas para prolongar sua vida ele é capaz de beber a própria urina.

Satanás sabia o que estava falando. Deus é que resolveu “apostar” em Jó.

O curso normal de nossa vida física é nascer, concluir a formação dos órgãos necessários à vida adulta, viver em certa estabilidade biológica durante um período propício a gerar filhos e então iniciar uma paulatina e constante degenerescência até a morte.

O curso normal de nossa vida espiritual é nascer, tomar conhecimento do mundo que nos cerca, adquirir noção do certo e do errado e, com ela, a convicção de que nascemos em pecado e em rebelião contra Deus, mas ele nos fez seus filhos em Jesus Cristo. Então, desenvolver os valores dessa filiação em tudo o que fizermos nesta vida até o dia em que entregarmos nosso corpo à morte e nos mudarmos provisoriamente para junto do Senhor Jesus onde aguardaremos o último dia.

Enquanto estivermos aqui, portanto, estamos sujeitos, no mínimo, à degenerescência do corpo. Isso é tão inevitável quanto a própria morte.

As promessas de vida eterna que encontramos nas Escrituras Sagradas serão totalmente cumpridas, como se ainda estivéssemos no Éden quando voltarmos para junto do autor da vida. Enquanto estivermos fora desse ambiente, em um mundo que luta para viver sem Deus, estamos sujeitos ao que nossos pais nos legaram: o que aprendemos na escola: entropia. Viver é um ato de nega-entropia.

A energia que usamos para lutar contra a entropia é extraída daquilo com que nos alimentamos e por uma série de reações com o meio ambiente e com o que fazemos (ar, luz, movimentos, etc...), que eu não tenho competência para explicar, essa energia mantêm nossa “máquina” funcionando. Máquina através da qual nossa alma se manifesta e com a qual interage. De tal modo que a afeta (“aformoseia o rosto” Pv 15.13) e é afetada.

Quando, por algum motivo, nosso corpo sofre alguma disfunção buscamos corrigir. Paulo recomenda a Timóteo que faça uso regular de um pouco de vinho devido a seus problemas estomacais (1Tm 5.23), e é documentado que os judeus de então se valiam de azeitonas como laxante, ou de melissa como calmante.

Jesus curou doenças para provar que era Deus. Não foi limitado por coisa alguma. Curou quem quis, quando quis e como quis. Curou mediante o pedido dos pais ou de um patrão. Exortou um pai a manter a fé enquanto dirigia-se a sua casa onde ressuscitou-lhe a filha. Interrompeu um cortejo fúnebre de samaritanos para devolver vivo o filho de uma viúva e chamou para fora do sepulcro um morto já em estado de putrefação.

Autorizou a seus apóstolos a fazerem o mesmo para que a mensagem deles fosse credenciada. Mas observe, que eles sofreram sérias limitações: Paulo deixou Trófimo doente em Mileto (Tm 4.20), nem acalmou a tempestade que os afligiu por dias em sua viagem à Roma (aliás é interessante observar que apenas o Senhor fez milagres sobre a natureza).

Entretanto para convencer que possuíam as palavras de Deus, os lobos sempre se apresentaram com poder de cura. Esse fenômeno não é novo. Os curandeiros não surgiram com o movimento pentecostal. Ele é tão velho quanto o surgimento do poderio centralizador da Igreja de Roma, que alega ter feito curas com o auxílio dos pregos da cruz e até pedaços dela; dos ossos dos muitos mártires, santos e profetas; de frascos com leite da mãe de Jesus, etc. Seus centros milagrosos não estão apenas em países atrasados do terceiro mundo como Aparecida no Brasil, eles estão também em Lourdes na França, Fátima em Portugal e nem é preciso falar da Itália.

Hoje os estudiosos estão divididos sobre a realidade dos milagres feitos pelos vários tipos de milagreiros. Mas não vou entrar nesse tema, continuo aguardando a cura de uma criança com paralisia infantil, ou de um cego de nascença, ou de um poli traumatizado por um acidente de carro. Gostaria muito de ver alguém esvaziar um CTI.

Em nenhuma das vezes que fui a uma farmácia comprar um analgésico o farmacêutico me recomendou que o tomasse “com muita fé”. Independentemente do que eu faça 30 gotas daquele analgésico são suficientes para sanar minha dor de cabeça. Não são assim os lobos. Eles dizem: “Receba a cura. Tome posse pela fé”. Se ela não ocorrer, respondem: “Você não teve fé”.

Eles não podem dizer como Pedro: “Não possuo nem prata nem ouro, mas O QUE TENHO, isso TE DOU: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!” (At 3.6). Mas eles tem essa certeza: o homem fará qualquer coisa pela sua vida. Essa é a oportunidade que eles esperam.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Sermão do Monte

O Sermão do Monte sempre me deixou, no mínimo, desconfortável. Quando criança eu não concordava em não poder chamar de tolo o besta do meu colega que sempre me metia em confusão na escola. Já adolescente, não conseguia entender por que Jesus exigia que sequer eu pensasse em uma mulher bonita. E depois de adulto ainda não digeria a exigência de dar a outra face.

Quando cheguei ao seminário, sempre que verificava com meu professor de grego a tradução de determinada palavra. E no último ano, estudando Ética Cristã, devorei os livros de nossa biblioteca sobre o Sermão do Monte, só para descobrir que os estudiosos tinham as mesmas inquietações. Por exemplo:

Joaquim Jeremias sintetizou três correntes que mostram o Sermão do Monte como uma Legislação Judaica: 1ª) A que ele chama de Concepção Perfeccionista, em que Jesus exige que seus discípulos sejam melhores do que os judeus de então; 2ª) a que Lutero, chamou de Præparatio Evangelica, em que o objetivo era desesperar o discípulo para se entregar pela fé nas mãos do legislador, e 3ª) a “Ética Emergencial”, em que a gravidade das exigências é justificada pela proximidade do fim.

Bertolaso Stella, tão incensado na época, me decepcionou muito com seu enorme pedantismo intelectual e ecumênico, que em um opúsculo vil, já no prefácio defende a ideia de que o Sermão do Monte é um reflexo do que Jesus aprendeu do Livro de Enoque e o conclui declarando que no Sermão do Monte Jesus reforma não só o VT, mas a religião e a própria ideia “de um Deus cruel, vingativo, que faz guerra e manda matar homens mulheres e crianças, mas apresenta um Deus Pai, Deus de amor”.

John Stott, escreveu um excelente comentário, mas embora tenha me influenciado, hoje não posso concordar com sua ideia de que o Sermão do Monte é uma espécie de Manifesto de Jesus e expressa uma “contracultura cristã” (seja lá o que isso signifique).

De modo geral, os demais comentadores dividem-se em dois grupos: 1º) os muitos - tantos que é difícil listar - que veem o Sermão do Monte como a Lei do Reino Porvir (seja o Reino Eterno ou Milenar) e, 2º) os poucos - como Lloyd-Jones - que assumem que o Sermão do Monte, por mais absurdo que seja, é exatamente o que Cristo exige de todos os seus discípulos em todas as épocas, lugares e culturas.

Joaquim Jeremias observa entretanto que há uma estrutura maior que divide o Sermão do Monte em três partes, que ele chama de: 1ª) a Justiça dos teólogos (não matar, não adulterar...), 2ª) a Justiça do judeu piedoso (Dar esmolas, orar e jejuar), e 3ª) a Justiça dos discípulos de Jesus, que obriga a todo o seguidor do Mestre: Não andar ansioso pela vida, não dar o que santo aos cães, acautelar-se dos falsos profetas, entrar pela porta estreita e construir sobre a rocha.

Há méritos em ver o Sermão do Monte como uma unidade e creio que os maiores problemas ao estuda-lo vem de examinar suas partes fora do contexto do sermão. Por exemplo: Jesus compara seus discípulos ao sal e à luz ao mesmo tempo, dentro de um mesmo contexto. Ora, o que há de comum entre sal e luz? Apenas uma coisa: Eles influenciam o meio sem serem influenciados. Já ouvi belos sermões que discorrem até sobre a sede que o sal provoca. E o pregador acrescenta: Sede de água viva! Pergunto: Estaria de acordo com a significado do Sermão ou é apenas uma alegoria?

Eu também vejo uma estrutura. Porém menos espetacular. Vejo uma introdução, quatro partes e uma conclusão: A Introdução identifica os cidadãos do Reino (os bem-aventurados que são sal e luz). A 1ª parte mostra que a lei de Moisés é apenas uma sombra da lei do Reino, que é cumprida no coração. A 2ª parte mostra como as devoções do Reino são feitas em espírito e em verdade, apenas diante de Deus. A 3ª parte resume as proibições no Reino de Deus (Acumular tesouros, Andar ansioso, Julgar e Dar o que santo aos cães). E a 4ª parte resume as obrigações (Orar, Entrar pela porta estreita e Acautelar-se dos falsos profetas). E como conclusão, Jesus compara quem constrói sobre a areia a quem constrói sobre a rocha sendo que este último simboliza quem coloca em prática as palavras deste sermão.

Algo entretanto precisa ser levado em conta: O Sermão do Monte NÃO É UMA LEGISLAÇÃO que tem como prêmio a salvação. Ao contrário é uma legislação para os discípulos do Mestre e portanto para os que já são salvos. Aliás só pode cumpri-lo que tem o auxílio do Espírito Santo de Deus.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Cinzas

Embora sequer seja feriado oficial nenhum brasileiro duvida de que, desde sexta até o meio dia de quarta-feira há alguma tolerância com quem não comparece ao trabalho. Afinal é carnaval. Mas por que quarta-feira até meio dia? Para dar tempo de se ir à missa da manhã e receber cinzas sobre a fronte.

Cobrir-se de cinzas era um costume bíblico do Antigo Testamento. Faziam isso em demonstração de grande tristeza ou de grande arrependimento. Geralmente jogavam as cinzas de uma fogueira (apagada) sobre a própria cabeça. Na maioria dos casos faziam isso vestidos de pano de saco. Modernamente o costume está restrito à Igreja de Roma e à quarta-feira depois do carnaval.

Antes da missa propriamente dita recebe-se do padre o desenho de uma cruz feito com a cinza dos ramos queimados do Domingo de Ramos do ano passado, que só deve ser lavado após o por do sol.

Na ordem litúrgica prevista para a cerimônia lê-se um dos seguintes textos bíblicos:

“Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal” (Joel 2.13).

“Chorem os sacerdotes, ministros do SENHOR, entre o pórtico e o altar, e orem: Poupa o teu povo, ó SENHOR, e não entregues a tua herança ao opróbrio, para que as nações façam escárnio dele. Por que hão de dizer entre os povos: Onde está o seu Deus?” (Joel 2.17).

“Ouvi minha oração! Sede propício para com a partilha de vossa herança, e mudai em gozo nossa dor, a fim de vivermos para celebrar vosso nome, Senhor, e não fecheis a boca daqueles que vos louvam, ó Senhor!” (Ester 13.17 - Note que os capítulos 11 a 16 foram acrescidos pela Igreja de Roma ao livro de Ester).

Acompanhados do seguinte responsório (que o missal diz ser baseado no salmo 78.9. Ou seja: 79.9 na versão protestante):

Corrijamos para melhor o que por ignorância erramos, não suceda que, surpreendidos pela morte, queiramos o tempo para fazer penitência e não o encontremos.

* Olhai para nós, Senhor, e tende compaixão, porque pecamos contra Vós. Ajudai-nos, ó Deus da nossa salvação, e livrai-nos pela honra do vosso nome.

* Olhai para nós, Senhor, e tende compaixão, porque pecamos contra Vós. Glória ao Pai.

* Olhai para nós, Senhor, e tende compaixão, porque pecamos contra Vós.”

Sem dúvida o momento é de contrição.

Porém, parece que é feito sob medida, muito diferente do que se diz no início do responsório (que por ignorância erramos). Como se os excessos do carnaval fossem, não apenas previstos, mas encomendados.

De fato, não é muito difícil ver na história que o carnaval brasileiro está ligado à Igreja de Roma, que sempre permitiu seus excessos (afinal, depois os perdoava no confessionário ou na contrição das cinzas), para em seguida começar o duro período da quaresma.

Originalmente a quaresma deveria ser um período de preparação para acompanhar melhor a última semana de Jesus (que recebe tanto destaque dos Evangelhos) e lembrar os quarenta dias de jejum de nosso Senhor (Moisés e Elias também?) como preparação para um ministério que está para vir. É certo que nunca exigiu-se quarenta dias de jejum, mas abstinência de carnes e bebidas.

Mas, do que vale isso se o coração já estiver disposto antecipadamente a dizer: “vou aproveitar estes últimos dias em que a carne vale, já que depois serei obrigado a ficar quarenta dias mortificando meu apetite”. Pior! Quando o apetite transcende a gula e espraia-se em todas sorte de devassidão, a ponto de não se ver mais limites morais.

Agora... O que mais me espanta é: Como é que algo que tenha começado sob a tutela da religião tenha chegado a tal ponto?

Na verdade, pode ser até difícil de explicar, mas é fácil de se encontrar outros exemplos, até na própria Bíblia: Quando Jeroboão dividiu Israel, formando o Reino do Norte, para prevenir uma futura reaproximação estabeleceu um novo tipo de culto, cuja celebrações, não muito tempo depois, transformaram-se em verdadeiras festas de orgia.

Um alerta deve sempre soar em nossas mentes: há um grande conteúdo comum entre idolatria e orgia: a satisfação do eu para a qual não há limites.

Qualquer adoração que for baseada no eu, fatalmente, mais cedo ou mais tarde, cairá no mesmo erro. Vejas os Grupos de Louvor nascidos dentro das igrejas protestantes tradicionais. Evoluíram. Cresceram. Saíram das Igrejas. Viraram blocos de Carnaval e hoje já podemos encontrar a versão Carnaval Gospel.

Como já dizia o Pregador: “não há nada de novo debaixo do sol”.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A Igreja e o mundo

A vida da Igreja tem sido de lutas. Lutas terríveis, contra todos os tipos de inimigos. De modo geral ela tem sido vitoriosa (do contrário não existiria hoje).

Algumas lutas resultaram em bênçãos. Por exemplo: os Credos e as Confissões expressam momentos de vitórias sobre ataques maiores ou menores. A própria Reforma Protestante do Século XVI foi resultado de séculos de lutas.

Mas quero falar de outra espécie de luta mais corriqueira. A que não é travada nos concílios, mas no convívio diário das ovelhas (algumas vezes dos cabritos).

Ainda pequeno vi algumas de suas batalhas sem entendê-las bem, já adolescente participei ativamente de um ou de outro lado, sem saber muito o que fazia. Só tomei consciência dessa luta no meu primeiro ano de Seminário e hoje a vejo com muita nitidez.

Essa luta é uma verdadeira guerra, travada diariamente entre a Igreja e o Mundo. Curiosamente era de se esperar que a Igreja estivesse em posição de ataque, mas geralmente o atacante é o mundo e a igreja só se defende, quando se defende, pois na maioria das vezes ela absorve o ataque.

A primeira batalha que testemunhei - e, de certa forma, perdura até hoje - diz despeito a modéstia do vestuário. Eu não entendi por que razão um pastor desceu do púlpito, durante a leitura da Bíblia, antes do sermão, tirou a toalha da mesa e cobriu as pernas de uma moça que estava sentada na primeira fileira. Hoje eu entendo e as vezes sinto vontade de fazer o mesmo.

Dentro desse assunto o mundo nos constrange a usar nossas melhores roupas para nos apresentarmos diante de nossos chefes ou de nossos clientes, mas não nos sentimos nem um pouco constrangidos a fazer o mesmo ao nos apresentar diante de Deus. As vezes nos apresentamos até de bermudas e bonés e usamos a desculpa: “o que vale é o coração”. Creio que essa batalha já foi vencida pelo mundo.

Quando adolescente eu me envergonhava dos cânticos de nossa Igreja. Não dos que continham erros, mas daqueles que estavam “fora de moda”. Ainda me lembro da alegria que senti quando ouvi um disco (naquele tempo era de vinil) com um sambinha, pra ser cantado na igreja. A letra até que era boa. Mas isso foi o começo.

Naquela época já havia uma batalha meio surda sobre o uso de violões no culto. Enquanto alguns argumentavam que os violões representavam a cultura boêmia de nosso país, e que Davi ao usar instrumentos de corda no templo, deixou de lado os instrumentos do uso comum e fez instrumentos especiais, outros diziam que a música não tem nada a ver com aquilo que ela veicula.

Como o violão é mais prático de se levar, mais fácil de se aprender, mais barato de se comprar e proporciona o ritmo mais acentuado (que se procurava, no caso para esse sambinha), nem preciso dizer o que aconteceu.

Com os violões vieram os pandeiros sem couro, depois com couro, os afoxés e finalmente a bateria completa. Depois, para chegar aos conjuntos musicais com direito a luzes, fumaça, efeitos especiais e toda parafernália comum aos shows mundanos foi apenas questão de tempo. Essa batalha já foi tão perdida que hoje se tem por esquisito quem canta o “fragoso alcantil”.

Enquanto isso os sermões viravam qualquer coisa menos a exposição do Evangelho e os pastores chegaram ao ponto de transformar o que deveria ser um culto em uma sessão de entretenimento (pra não dizer descarrego) ou circo, inclusive vestidos a caráter. Hoje é mais fácil obter apoio para se apresentar vestido de palhaço do que trajando o sóbrio manto genebrino. Mais uma batalha que o mundo venceu.

Porém o que mais me enoja, e que parece estar fincando raízes cada vez mais profundas é o uso de obscenidades na conversa coloquial. Cada dia é mais difícil escutar uma frase sem um p*, ou uma exclamação sem um é f*!.

E isso está se generalizando. Já ouvi tanto de filhos como de pais. Já ouvi de ambos os sexos. As vezes quem fala nem nota que falou. Recentemente alertando um catecúmeno ele me perguntou: isso é palavrão?

Deixaremos que o mundo vença mais essa?

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Salmo 119

Não se sabe quem escreveu o Salmo 119. Há quem diga que foi Esdras, o escriba contemporâneo de Neemias, que participou ativamente da restauração de Israel após cativeiro babilônico, como também há quem garanta que, em determinada época, era exigido que o garoto judeu, que se apresentava ao Bar Mitzvah, o soubesse de cor. Porém, não podemos ter certeza destas e de outras afirmações semelhantes. Entretanto há fatos impressionantes a respeito desse Salmo:

Primeiro: É o mais extenso acróstico bíblico, com vinte e duas estrofes: Uma para cada consoante do alfabeto hebraico: Álef, Bêt, Guimel, Dálet, He, Vav, Zaim, Hêt, Tét, Iode, Caf, Lámed, Mem, Num, Sâmeq, Áim, Pê, Tsade, Cof, Rêsh, Shim/Sim eTau.

Segundo: Cada uma das estrofes possui exatamente oito versos (perfazendo o total de cento e setenta e seis versos, que todas as nossas versões brasileiras mantiveram em versículos). Cada um desses versos começa, em hebraico, como é próprio dos acrósticos, com a respectiva consoante, e mantem um estilo poético chamado de Paralelismo.

Terceiro: Cada verso tem por tema a Lei do SENHOR. No primeiro verso ela é chamada de Torah, (referência clara ao que chamamos de Pentateuco: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Nos demais versos são usadas outras palavras como sinônimos: Edah, Derek, Mitzvah, Choq, Davar, Mishpat e Huqqim, que na Edição Revista e Atualizada de Almeida da Sociedade Bíblica do Brasil, são traduzidas por Lei, Prescrição, Caminho, Mandamento, Preceito, Juízo e Decretos.

Quarto: Ao todo são oito termos. Além dos sete já citados, há imrah, que significa literalmente palavra, mas cujo sentido promessa (como na frase: “deu-me sua palavra”). Desses oito termos, pelo menos seis aparecem em cada uma das vinte e duas estrofes. Porém, em seis delas todos os oito aparecem.

Além destas eu poderia fazer mais outras tantas considerações, que seriam muito técnicas, pois o que quero destacar é que no meio de tanta erudição e trabalho árduo este salmista anônimo nos traz grandes efeitos poéticos e devocionais em apenas um tema: A Palavra de Deus. Repare nesta pequena amostra:

9 De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? / Observando-o segundo a tua palavra.

11 Guardo no coração as tuas palavras, / para não pecar contra ti.

18 Desvenda os meus olhos, / para que eu contemple as maravilhas da tua lei.

63 Companheiro sou de todos os que te temem / e dos que guardam os teus preceitos.

67 Antes de ser afligido, andava errado, / mas agora guardo a tua palavra.

92 Não fosse a tua lei ter sido o meu prazer, / há muito já teria eu perecido na minha angústia.

96 Tenho visto que toda perfeição tem seu limite; / mas o teu mandamento é ilimitado.

105 Lâmpada para os meus pés é a tua palavra / e, luz para os meus caminhos.

113 Aborreço a duplicidade, / porém amo a tua lei.

126 Já é tempo, SENHOR, para intervires, / pois a tua lei está sendo violada.

165 Grande paz têm os que amam a tua lei; / para eles não há tropeço.

Embora muitos não confessem publicamente, o Salmo 119 é considerado um texto chato. Dificilmente alguém o lê de uma vez. E raramente se faz um sermão sobre ele. E quando o sermão se baseia em um versículo, geralmente é usado como pretexto para abonar algo que o pregador já tinha em mente.

Não deveria ser assim. Precisamos ver o Salmo 119 com os olhos de um homem que ama a Palavra de Deus. Que já sofreu afrontas por ela e vive o dilema de cumpri-la cotidianamente a despeito da zombaria de seus pares e de seus superiores. De um homem que naqueles dias, já sofria dores muito semelhante às nossas, mas nem por isso deixou de esmerar em algo tão belo e tão profundo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Oração abominável

O que desvia os ouvidos
de ouvir a lei,
até a sua oração será abominável
Provérbios 28.9

A história nos mostra que não é de hoje, nem de minha geração, que se enfatiza a necessidade de oração.

Fui ensinado, desde criança pequena, a não dormir, não me levantar e nem comer, sem orar. Mais tarde conheci quem não começa o mês sem uma semana de oração ou o ano sem uma reunião especial agradecendo a Deus pelo que passou e pedindo um bom ano novo.

Não estou dizendo que orar seja errado. De modo algum. As Sagradas Escrituras estão cheias de exemplos de homens de oração, a começar com o próprio Senhor Jesus. Vão mais longe: são claras em ordenar o quase incompreensível: “Orai sem cessar” (1Ts 5.17). Entretanto uma oração pode ser abominável como o texto acima nos garante.

O Senhor Jesus também condena as orações repetitivas: “E orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos” (Mt.6.7).

Porém, além de não ser ouvida, como as orações cheias de repetições tolas, o texto fala de uma oração, que aos olhos de Deus é abominável, e deixa claro que ela tem essa qualidade em função de ser feita por quem não considera a Lei de Deus.

O original se refere à Torah - o que nós protestantes chamamos de Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) - porém, à luz do Evangelho, entendemos como uma referência direta à totalidade das Sagradas Escrituras: consequência daqueles cinco benditos livros.

Mas, deve ficar claro que “tapar os ouvidos à Lei” não significa apenas gesto físico. Aqui temos uma figura de linguagem em que a coisa material é tomada por sua função.

O texto está dizendo que a pessoa que não orienta seu viver pelos ensinos da Escritura, ao orar, está cometendo uma abominação diante de Deus. Isso fica óbvio quando se pensa em alguns aspectos. Por exemplo:

1. Pedidos que contrariam os desígnios de Deus. Na maioria das vezes não conhecemos a vontade de Deus a respeito de nossa própria vida - o Apóstolo Paulo pediu que lhe fosse tirado o “espinho da carne” e ouviu “minha graça te basta” - mas sabemos a vontade geral. Deus não deseja que quebremos seus mandamentos. Portanto pedir sua bênção sobre uma união desonesta, ou sobre um negócio ilícito, por exemplo, é abominação.

2. Orar com outra intenção que não seja falar com Deus. Há quem ore para ser visto pelos outros ou para predispor-se a alguma ação.

No primeiro caso, nosso Senhor Jesus condenou tal prática com tanta veemência que parece que era corriqueira em seus dias. Por sua descrição no Sermão do Monte, parece que alguns ficavam em pontos estratégicos para serem vistos orando.

Já conheci quem aproveitasse a oração para elogiar a si próprio ou fazer um verdadeiro sermão com exortação.

Há como documentar algo semelhante: No livro Este Mundo Tenebroso (não é uma recomendação de leitura. Pelo contrário: se não leu, não leia) há uma oração de uma velhinha, muito marcante no enredo, que se dirige a Deus cândida e fervorosamente, mas logo começa a repreender a Satanás. Quando li, fiquei pensando com quem ela estava realmente falando.

No segundo caso, há quem ore para si mesmo. É o que ensinam muitos pregadores do evangelho da prosperidade. Dizem: Repita o que você quer. Exija com detalhes e você conseguirá ver seu desejo realizado. Isso sequer pode ser chamado oração.

Nossa oração deve ser feita com a simplicidade e confiança de uma criança que pede algo a seu pai. Não um moleque traquinas e mimado, mas uma criança amável e amada. Do contrário Deus a terá por abominável.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Os lábios de Isaías

O profeta Isaías viveu nos dias em que o Reino do Norte foi levado cativo pelos assírios, cerca de cem anos antes que os babilônios os derrotassem e levassem Judá para o cativeiro (época em que profetizava Jeremias).

Desde que o povo quis ser governado por reis, Deus lhes enviou profetas que deveriam lembrar-lhes suas leis, mas, não raro esses profetas se corrompiam e faziam o que os poderosos desejavam.

Isso tornou-se mais comum após Jeroboão ter dividido o Reino separando as 11 tribos, que passaram a seguir seus próprios caminhos. É nesse contexto que se pode entender a desavença do profeta Amós - que era contemporâneo de Isaías - com o sacerdote Amazias: “Então, Amazias disse a Amós: Vai-te, ó vidente, foge para a terra de Judá, e ali come o teu pão, e ali profetiza; mas em Betel, daqui por diante, já não profetizarás, porque é o santuário do rei e o templo do reino. Respondeu Amós e disse a Amazias: Eu não sou profeta, nem discípulo de profeta, mas boieiro e colhedor de sicômoros. Mas o SENHOR me tirou de após o gado e o SENHOR me disse: Vai e profetiza ao meu povo de Israel” (Am 7.12-15).

Porém, nem mesmo vendo o destino deles, Judá fez diferente. Os governantes de lá também usavam os sacerdotes e os profetas para conduzir o povo conforme seus interesses. Os profetas, à serviço do status quo traziam uma “palavra boa”. Uma palavra de ânimo. Contra ele o SENHOR disse: “porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à ganância, e tanto o profeta como o sacerdote usam de falsidade. Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz. Serão envergonhados, porque cometem abominação sem sentir por isso vergonha; nem sabem que coisa é envergonhar-se.” (Jr 6.13-15).

Em outro lugar: “Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra: os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam de mãos dadas com eles; e é o que deseja o meu povo” (Jr 5.30-31).

Embora os dois último textos sejam da época de Jeremias - cerca de cem anos depois - foi em um contexto assim que viveu o profeta Isaías.

Certamente ele era um sacerdote ou jamais teria acesso ao Templo onde viu o SENHOR, conforme relatou no capítulo 6 de sua profecia. E o estilo de seu texto, seu vocabulário rico e sua habilidade com as palavras revelam que era muito hábil com as letras. Provavelmente era também escriba.

Isaías, como mais tarde aconteceria a Zacarias, pai de João Batista, teve uma visão dentro do templo: “No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. As bases do limiar se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça” (Is 6.1-4).

Releia pausadamente e veja o cuidado do profeta em descrever a majestade do que viu. Agora, veja qual é a primeira reação dele: “Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!” (Is 6.5).

O que para muitos seria a maior bem-aventurança - ver o SENHOR - para Isaías era uma perdição. E esclarece a razão: seus lábios. Localiza imediatamente seu pecado e Deus concorda com seu diagnóstico.

Em Israel daqueles dias pecar com os lábios poderia ser qualquer coisa: desde fofoca, a conversas torpes. Tudo isso era prática corriqueira e tolerada. Porém, nos lábios de um sacerdote, especialmente de um que exercia um ministério profético, expondo a seus pares e ao povo à Lei do SENHOR, dificilmente seu pecado seria outro que não a adulteração da mensagem do SENHOR.

De lábios purificados pelos seres flamejantes (a isso alude a palavra Serafins, que só aparece aqui) com uma brasa viva tirada do próprio altar, perdoado seu pecado e tirada sua iniquidade, Isaías é comissionado pelo Senhor para ser sua boca. Sua mensagem terá de ser tão crua até restar apenas a santa semente.

Notou a inversão? O que é cantado por muitos como bem-aventurança (“Quero tocar-te, tua face ver...” Ou “Teu rosto vendo, nada temerei...”) para Isaías era sinal de perdição, pois seu pecado gritava mais alto.

Mas ainda há outra inversão: Pregar para espantar a falsa semente? Pregar até restar apenas os que realmente foram chamados por Deus?

É isso mesmo. A última coisa que se pode fazer - e que estamos fazendo hoje - é confundir pregação com publicidade e propaganda. Pregação foi o instrumento usado por Deus, para, através do profeta Isaías, separar o seu povo. Não pode ser diferente hoje.

sábado, 7 de janeiro de 2012

O dia perdido de Samoa


Você se lembra de que na virada do ano de 2006 os relógios do planeta foram ajustados em 1 segundo? Nesta virada para 2012 aconteceu outra coisa peculiar: Samoa perdeu a sexta-feira!

Samoa é um arquipélago a leste da Austrália que desde o século 18 tem sido objeto de exploradores holandeses e franceses. Apenas no século 19 houve um esforço missionário consistente feito pela London Missionary Society. Sempre foi considerado ponto estratégico, no mínimo para reabastecimento, e durante a Segunda Guerra Mundial a base militar americana lá instalada, no Porto de Pago Pago, teve grande importância para os exércitos aliados do Pacífico Sul. Recentemente, nos anos das viagens à lua, essa mesma base foi importante no resgate de 5 missões do programa Apolo.

Essa ilha menor, Tutuila, fortemente ligada aos Estados Unidos, seja pela base naval seja pelo comércio com o Havaí, atraía as duas maiores, Savai’i e ‘Upolu, vulgarmente conhecidas como Samoa Ocidental, geograficamente mais próximas da Austrália e da Nova Zelandia, mas temporalmente distantes um dia inteiro: Elas estavam na zona de Tempo do Havaí e, portanto, no fim do dia. Se você viajasse de Samoa a Tonga ou a Fiji (menos de duas horas de avião) chegaria lá no dia seguinte. Se fosse o inverso ficaria um dia mais novo pois chegaria no dia anterior.

As Ilhas de Samoa eram as últimas a receber, por exemplo, a comemoração do Ano Novo. Enquanto a Ilha de Tonga e Fiji (há poucos quilômetros de distância), a Nova Zelandia a Austrália, toda Ásia, toda Europa, o Canadá os Estados Unidos, o Brasil, os países Andinos e até o Alaska recebiam antes o Ano novo, apenas o Havaí e Samoa comemoravam juntos por último.

Mas o que aconteceu não foi uma questão de comemoração. Com o incremento das relações com a Austrália e nova Zelândia, os samoanos, alguns anos atrás, mudaram a mão de direção das ruas (e os carros passaram a ter volante do lado direito) e agora entraram no fuso horário deles também. Só que para fazer isso tivera de perder um dia: perderam uma sexta-feira.

Mas por que isto é tão importante? Para mostrar a força das convenções. Repare bem: Dirigir do lado direito ou esquerdo da rua, ou estar em uma ou outra faixa de tempo é apenas uma convenção.

Esta é uma das razões - talvez a menor delas - pelas quais, nós, de Fé Reformada, dizemos que o importante é manter o princípio de santificar ao Senhor um dia em cada sete: é impossível dizer que o sábado que vivemos hoje é o mesmo dia que Jesus passou no túmulo. Pior: é impossível dizer que seja o mesmo que Deus descansou após haver criado todas as coisas.

Se você for observar algum dia em especial e santifica-lo ao Senhor, saiba, que a escolha de tal dia passa por, no mínimo, uma convenção humana. Que dia observaremos? O do Jardim do Éden (que devia ficar nas bandas do oriente médio)? Ou o dia do local que estamos? Ou se morássemos em Samoa, antes da mudança de fuso horário, o dia anterior?

Quando eu falei sobre os muitos calendários que já obedecemos (Boletim de 31/12/2007 - aqui) mostrando assim essa impossibilidade, alguns argumentaram que só havia mudado o número do dia, mas o dia da semana era o mesmo. Pois bem: agora temos um caso concreto: os samoanos por perderem a sexta-feira estão comemorando o sábado e o domingo errados.

Precisamos entender claramente o que é o princípio (este imutável) e o acidente (este adaptável as necessidades).

sábado, 31 de dezembro de 2011

O cristão e o tempo

Portanto, vede prudentemente
como andais,
não como néscios,
e sim como sábios,
remindo o tempo,
porque os dias são maus.
(Ef 5.15-16)

Na parte final de sua carta aos Efésios, o Apóstolo Paulo surpreende o leitor atento com uma série de afirmações a respeito do tempo. Como estamos vivendo um período significativo vale a pena meditar nelas.

Primeiro quero destacar que essas afirmações estão ao lado de outras dez, cuja importância dificilmente se questionaria face à quantidade de vezes que as Sagradas Escrituras as repetem direta ou indiretamente. Veja:

1ª) deixando a mentira, fale cada um a verdade... 2ª) Não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo. 3ª) Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe... 3ª) Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem. 4ª) Não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção. 5ª) Longe de vós, toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia. 6ª) Sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou. 7ª) Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados. 8ª) Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices (gracejos atrevidos).

E então nosso texto: Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus.

A 9ª) Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor, e finalmente, a 10ª) Não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito.

Você observou em que nível de consideração devemos ter o aproveitamento do tempo? Compare com as outras dez obrigações. Especialmente com o texto, tão repetido em nossos dias, “enchei-vos do Espírito Santo”. Eles fazem parte da mesma lista de obrigações.

Porém, considere as outras razões que estão no próprio versículo: Remir o tempo é sinal de sabedoria e não fazê-lo é prova de necedade, ou seja: de comportamento próprio de pessoa néscia. Remir o tempo é uma obrigação face a má qualidade dos dias em que vivemos.

É claro que o sentido de remir obrigatoriamente deve ser limitado ao tempo futuro, pois não podemos recuperar o tempo que desperdiçamos. Não podemos remir o tempo perdido como nos tempos bíblicos se remia (comprava) um escravo. O que podemos fazer é usar melhor o tempo que a cada instante se torna presente de modo a compensar o desperdício do tempo que passou.

Mas, voltando a qualidade... O Apóstolo declara taxativamente que os dias são maus. Porém, há quem diga que cada geração reclama de seus dias como piores do que os dias de seus pais e certamente as gerações futuras dirão o mesmo, por saudade da simplicidade da infância ou receio diante do futuro cada vez mais complexo.

Entretanto, esta não é a cosmovisão cristã. As Sagradas Escrituras declaram que os dias ficarão cada vez piores, por diversos motivos dentre os quais a perversidade do homem. A Igreja é alertada sobre um período que antecede a volta do Senhor chamado de Apostasia e o próprio Senhor a adverte sobre um tempo de tribulação.

Além da situação geral, é necessário considerar a situação pessoal: o Senhor Jesus, ensinando como lidar com os cuidados do amanhã foi claro: “o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” (Mt 6.34). Obviamente, o mal que caracteriza o amanhã a que Jesus se refere são os cuidados lícitos (preocupação com o que comer, beber e com o que vestir) que, no entanto, desviam o discípulo de sua missão principal: O Reino de Deus e sua Justiça.

Porém, o que caracteriza como maus os dias a que Paulo se refere é a fascinação a que o cristão está sujeito: desperdiçar o precioso tempo de que dispõe em coisas que não contribuem para sua santificação.

Estamos entrando em 2012 - como já fizemos em tantos outros anos: tantos quanto vivemos - e virão outros 366 dias carregados de horas e minutos, que poderão ser remidos por nós para glória de nosso Senhor, ou deixadas ao léu.

Cumpramos a ordem de Paulo e prestemos boas contas desse tempo a Deus, pois o tempo que já perdemos não volta mais.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal globalizado

Os efeitos da chamada globalização foram tantos, que, de vez em quando, ainda aparece algum.

Hoje um investidor do mercado de capitais se assusta com um espirro financeiro de qualquer pequeno país que faça parte da rede financeira mundial..

Mas, se esses efeitos são tão claros na economia, por que se fala tão pouco deles na religião? Pra mim eles são mais claros na religião. Veja a Festa de Natal como exemplo: países não cristãos, que usam outro calendário, comemoram o Natal:

Israel recebe turistas com o cumprimento Mo’adim Lesimkha (Feliz Natal) e as comunidades judaicas no mundo tiveram de reavivar a celebração da Chanukah para que seus filhos não ficassem fascinados pela festa cristã.

Na Índia os enfeites das casas dos poucos cristãos se multiplicam nos shoppings, e a maioria das empresas com filiais ou sedes no ocidente dão folga, e até bônus, a seus funcionários, o que engrossa o comércio nas feiras livres.

A China, embora tão fechada ao ocidente, se vê obrigada a trabalhar mais para atender a demanda das “lembrancinhas de natal” aumentando os míseros Yuans dos trabalhadores.

No Japão, xintoísta e budista, porém muito mais ocidentalizado, é praxe se cumprimentar com “Meri Kurisumasu” (equivalente Merry Christmas) e a troca de presentes já é tradicional entre amigos.

Quanto aos países árabes veja um pedaço de uma matéria da BBC de 2005:

Apesar da profunda ligação do Egito com a história do nascimento de Jesus Cristo – José e Maria fugiram para o país para escapar de Herodes – o Natal não tem raízes profundas num país em que quase 94% da população é muçulmana.

Os cristãos coptas – uma das mais tradicionais denominações do cristianismo – comemoram o Natal, mas com um simbolismo diferente do ocidental e seguindo o antigo calendário ortodoxo, que coloca a festa no dia 7 de janeiro. [...] Em outros países árabes menos abertos ao Ocidente, a comemoração do Natal não é tão ostensiva, mas o Egito costuma ser mais receptivo a estas influências.

Relatos na imprensa internacional indicam que Cristãos estão tendo mais liberdade para comemorar o Natal em diversos países muçulmanos do Golfo, com a exceção da Arábia Saudita, onde “práticas não-islâmicas” podem ser duramente punidas.

Em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o governo relaxou recentemente as regras a respeito de celebrações religiosas que não sejam muçulmanas e autorizou a inédita apresentação, na rua, de uma peça teatral sobre o nascimento de Cristo.

O Líbano também tem comemorações devido a presença de uma grande população cristã.

De modo geral os países árabes são os que mais restringem as comemorações natalinas.

Temos de admitir que o pouco conteúdo religioso desses festejos é fortemente maculado por superstição e mito. Entretanto, você há de concordar comigo, que mais uma vez o mundo está sendo avisado da vinda de Jesus.

A Palavra de Deus diz que os homens são indesculpáveis perante Deus: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.20).

Diz também que a “Grande Comissão” já foi cumprida: 1) “E eles [os apóstolos], tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam” (Mc 16.20). 2) “...não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro” (Cl 1.23).

Cabe-nos mantê-la cumprida!

Pessoalmente creio que não estamos dando conta. Quem sabe, em sua grande misericórdia a festa do Natal, mesmo desvirtuada (como o sermão de Jonas) não seja mais um modo de ainda dizer ao mundo que Jesus se fez um de nós?

sábado, 17 de dezembro de 2011

Vá reclamar com a FIFA

Embora Cesar nunca tenha sido muito cortês comigo, desde pequeno fui instruído a dar a ele o que é dele com a mesma disposição que dou a Deus o que é de Deus.

Depois de chefe de família e com a obrigação de fechar as contas do mês, muitas vezes fui tentado a sonegar, pelo menos um pouquinho, daquilo que Cesar impiedosamente arrancava de meu bolso e da manutenção de minha família.

Duas vezes, de modo muito particular, odiei a Cesar com todas as forças de minha alma. A primeira quando viajava com minha família e, em menos de 100km tive de trocar os quatro pneus do carro que foram rasgados em buracos na rodovia. Isso aconteceu uma semana após eu ter pago o IPVA! A segunda vez não vale a pena contar.

Entretanto, sempre acreditei, e ainda acredito, que não há autoridade que não seja constituída por Deus. Mesmo as más e corruptas. Afinal quando o Apóstolo Paulo escreveu isto o Cæsar Romano era o infame Nero.

Sempre acreditei que todos os governos brasileiros trabalharam visando, de um modo ou de outro, o bem do povo brasileiro. A Constituição outorgada pelos militares começava dizendo: Art. 1 §1º - Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. A “Constituição Cidadã”, promulgada pelo nosso congresso em 1988, em vigência, diz em seu Art. 1 §único: Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.

É um novo tipo de governo. Não é mais um Cæsar que se impõe, como na Roma antiga, ou um como se vislumbra nas entrelinhas da Constituição de 1969, mas um Cesar que é eleito pelo povo e que até admite a possibilidade do próprio povo, nos termos da Constituição, exercer o governo diretamente. E isso aconteceu nos últimos dias: A Lei da Ficha Limpa.

Não vou entrar no mérito dela (se ela satisfaz as exigências da Constituição ou não), sou incompetente para tanto. Mas sei dizer que ela nasceu do desgosto acumulado com a má qualidade dos Césares eleitos. Antes de elegerem-se prometiam tudo para seus eleitores, depois de eleitos faziam tudo para si próprios. Daí a tal lei popular, prevista na Constituição de 1988. Porém, nem mesmo assim, se conseguiu mudar esse dispositivo legal, apesar da gigantesca mobilização: ela já foi fatiada e a fatia que sobrou está moribunda.

As mudanças de leis em nosso país acontecem historicamente em três casos.

1º - Golpes militares: o de 1964 não foi o único. Houve o de Getúlio e há quem diga que a proclamação da República, se não foi um golpe, foi muito parecido com um.

2º - Pressões religiosas da Igreja de Roma: Dentre muitas destaco apenas duas. A construção do monumento do Cristo Redentor, contra o qual protestamos através de nosso Supremo Concílio, e o estabelecimento do Feriado de Nossa Senhora Aparecida pelo Presidente João Figueiredo, que provocou protesto de toda comunidade evangélica de então. Desse poder religioso sobre o estado, que se define como laico, foi que nasceu a expressão “vá reclamar com o bispo”.

3º - Pressões econômicas (parece ser a mais corriqueira): Além das que não aparecem, estamos debaixo de uma verdadeiramente acintosa: As leis brasileiras proíbem os torcedores de entrarem com bebidas alcoólicas nos estádios. Entretanto a FIFA - organização internacional - que organiza a Copa do Mundo, e é patrocinada por fabricantes de bebidas alcoólicas, está pressionando nosso congresso para que mude esta lei.

Se nosso congresso mudá-la por pressão da FIFA - não tendo mudado o ingresso de políticos com “ficha suja”, mesmo sabendo qual é a opinião dos brasileiros - não seria o caso de criarmos novo ditado: Vá reclamar com a FIFA?

Ou será que a FIFA é um novo modo de sensibilizarmos nossos Césares? Dia desses um que está lutando a favor dela declarou: “o álcool não é o problema, cada um é que deve ser responsável.” Não é esse o argumento que nós, os protestantes, usamos?

Nunca vi um jogo de futebol em um estádio, mas sei que a multidão se descontrola até mesmo sem álcool. Entretanto, o álcool potencializa em muito.

Portanto, sou a favor da proibição brasileira e deploro que uma organização estrangeira consiga fazer o que milhões de brasileiros não conseguiram: alterar a vontade de nossos césares.

Que Deus nos dê forças para tolerar esse tipo de césar (com minúsculas mesmo) que não são melhores do que aquele que levou o Apóstolo Paulo à morte.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Pingando os Is

Todos sabemos que as palavras sofrem alterações de sentido no decorrer do tempo e não adianta querer consertar.

Até alguns anos atrás formidável era principalmente algo que inspirava temor por sua forma grande ou terrível. Hoje dizemos que alguma coisa é formidável se a considerarmos boa. Até um sorvete, pode ser formidável. A palavra sofreu uma alteração de significação ou alteração semântica.

Mas há outros tipos de alterações: os sentidos amplos ou simplesmente o uso inadequado.

Vulgarmente chama-se milagre a qualquer acontecimento que não se possa explicar por “meios naturais”.

Um amigo que chegou atrasado no aeroporto e perdeu o avião, me disse ter sido salvo por um milagre, pois aquela aeronave caiu. Outro também chamou de milagre ter entrado na sala no momento em que seu filho estava para enfiar a chave na tomada. E ainda outro me disse o mesmo, quando soube que o médico que estava de plantão na noite em que sua esposa foi internada na emergência era especialista no mal que ela sofria.

Nada disso deveria ser chamado de milagre e sim atos da providência divina. Estes casos são exemplos más aplicações do termo.

Um milagre é algo que decorre de uma ordem de um enviado de Deus e visa estabelecer claramente que Deus é Senhor, ou credenciar sua mensagem ou seu mensageiro, e é algo tão extraordinário que não deixa dúvidas sobre seu acontecimento, nem é feito pela metade.

Só pode ser chamado de milagre se for ordenado em nome do SENHOR, acontecer em sua totalidade.

Pra ser mais explícito: Um dente precisa voltar a ser dente e não virar “dente dourado”. Um cego de nascença deve passar a ver sem óculos. Um surdo mudo deve começar a ouvir e falar perfeitamente (sem passar por uma clínica de fonoaudiologia). Um aleijado tem de começar a andar sem reabilitação fisioterápica. Etc.

Se acontecem milagres hoje, discorrerei outro dia.

Outro i que deve ser pingado é a diferença entre inspiração e iluminação.

Hoje costumamos dizer que fulano estava inspirado quando escreveu uma música, pintou um quadro, e até quando um sermão fala ao coração.

Entretanto, a teologia reserva o termo Inspiração para descrever o que o Espírito Santo fez quando transmitiu sua Palavra aos escritores da Bíblia, e chama de Iluminação tudo o que se produz debaixo da orientação das Sagradas Escrituras.

Picuinha! Diria alguém. De forma alguma. Dizer que determinado hino ou cântico foi inspirado e dizer que a Bíblia é inspirada, é, no mínimo, semear confusão. E, creia-me: Há que pense que alguns hinos, cânticos ou sermões, complementam os ensinos bíblicos.

Devemos usar as palavras com mais cuidado. Quando precisarmos explicar o que queríamos dizer com determinada palavra é melhor não usá-la.

Não precisamos ter vocabulário erudito, mas não devemos cair na vala comum de repetir as palavras que servem pra tudo e não dizem nada. Pois é. Né? Falou! Falou e disse! Massa!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Confissões

Nada há encoberto
que não venha a ser revelado;
e oculto
que não venha a ser conhecido.
Porque tudo o que dissestes
às escuras
será ouvido
em plena luz;
e o que dissestes
aos ouvidos no interior da casa
será proclamado
dos eirados.
(Lucas 12.2-3).

A advertência de nosso Senhor e Mestre é sempre atual e cada dia se comprova aos nossos olhos através das mentiras descobertas pela mídia.

Nestas últimas semanas ouvi diversas vezes este texto ser repetido diante da declaração de nossos políticos de que não fizeram o que lhes era imputado, para no dia seguinte aparecer uma mostrando o contrário.

Embora, lato sensu, se possa compreender assim, esse texto não foi dito com esse propósito.

Mateus registra dentro do contexto da escolha dos doze apóstolos, seguindo estes acontecimentos: A escolha é feita, Jesus lhes instrui e admoesta sobre as dificuldades que enfrentarão e os estimula dando a si mesmo como exemplo. Então declara que tudo que eles falarem em segredo se tornará publico.

O contexto de Lucas é bem diferente. Os fariseus acusam Jesus de ser o chefe dos demônios. Jesus os repreende, fala da estratégia dos demônios, acalma uma mulher impressionada com sua resposta, desilude quem espera por sinais, conta a Parábola da Candeia, censura duramente os fariseus e impreca contra os intérpretes da lei. Passa então a ser arguido, pelos escribas e fariseus, com tal veemência que eles mesmos se confundem. Jesus, vendo a confusão, ensina a seus discípulos o que foi transcrito acima.

A existência de dois contextos não implica numa contradição. Simplesmente indica que o Senhor o disse mais de uma vez.

A lição principal que o Senhor nos dá é de que não adianta esconder quem somos ou o que pensamos. Cedo ou tarde isso se tornará público.

Porém, convém salientar que este texto é dirigido, primeiro aos seus apóstolos e depois estendido a seus discípulos e quando ele o estendeu aos discípulos, estabeleceu uma contrapartida impressionante, que está na sequencia: “Digo-vos ainda: todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do Homem o confessará diante dos anjos de Deus; mas o que me negar diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus” (Lc 12.8-9).

Somos sal e luz, e a única coisa comum entre o sal e a luz é influenciar o meio em que estão sem ser influenciados por ele. É da natureza deles. Não precisam se esforçar para isso, nem podem deixar de fazê-lo. O discípulo de Cristo espontaneamente o confessa pois não pode deixar de fazê-lo e isso nunca fica encoberto. Aliás, quando essa confissão for exigida diante de inimigos, terá assistência do Espírito Santo até na escolha das palavras.

Porém, o que mais deve alegrar o coração do Cristão é que tal confissão é repetida por Jesus diante do Pai.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O desejado das nações

Cresci sabendo que Ageu 2.7 (...e virá o Desejado de todas as nações...), na Edição Corrigida, era uma referência a Jesus Cristo. Mas, cedo, no Seminário, aprendi que o profeta Ageu não poderia estar se referindo a ele pelo simples fato de que, em hebraico, a palavra que é traduzida por Desejado é feminina. Seria como dizer: virá a desejada das nações!

A Edição Revista e Atualizada captou melhor o sentido à luz do contexto total do livro: “... as coisas preciosas de todas as nações virão”.

A ideia de que Ageu se referiu a Jesus foi fortalecida pela Sr.ª E. G. White, que escreveu um livro com o mesmo nome. E até hoje, recebo cartas de presbiterianos me saudando na despedida com “...no Desejado das Nações”, Fulano de Tal.

Esta longa introdução destina-se a chamar sua atenção para o que as nações desejam. De início sei que escrever sobre isto é quase supérfluo, pois haverá tantos desejos quanto forem as pessoas, ou, no mínimo, os grupos de interesse dentro de uma nação.

Quando Israel escolheu seu primeiro rei, Deus os avisou, através de Samuel, que o rei teria direito sobre o trabalho do povo, sobre o recrutamento de soldados, sobre o produto dos campos e direito de impor tributos! Ou seja o Estado teria prioridade sobre a economia.

De modo geral, continuou assim até alguns séculos atrás. Mesmo entre os povos em que o governante era escolhido por acordos familiares, ou imposto pela força. A economia e sua prosperidade (aquilo a que parece que o profeta Ageu se refere), estava a serviço do Estado, particularmente do governante.

Isso mudou. Hoje o Estado está a serviço da economia.

Não sei precisar quando mudou, mas é fácil observar que as ideologias possuem um peso cada vez menor nas decisões de governo sejam locais ou internacionais. Aliás, já vi quem desdenhasse delas como se fossem uma doença a ser extirpada da humanidade.

Hoje vivemos em uma época em que a democracia é mostrada como o remédio para todos os males e curiosamente ela baseia-se em uma ideologia: a de que o povo tem o direito de reger-se a si próprio (ou diretamente como acontecia na Grécia antiga, ou representativamente como em Roma).

Para deixar claro meu raciocínio é importante registrar que a democracia não teve origem em Moisés, mas nos gregos.

Então, como entender por que razão, quando o último governante grego resolveu consultar seu povo, como faziam antigamente, a respeito de como pagar a dívida de seu país, viu-se imediatamente obrigado a dar lugar a outro, mais afinado com os credores internacionais? Ou seja: A economia domina de fato a mais decantada ideologia humana em nome da qual se invade outros países e em nome da qual se tenta construir um Órgão de Representação Mundial.

O que as nações desejam é o bem estar econômico. Mas nossa ingenuidade cristã é tão impressionante que até pouco tempo atrás cantávamos “Queremos luz! É o grito das nações pagãs, que vem atravessando o imenso mar”!

Nunca nos esqueçamos disso: As nações anseiam por prosperidade e bem estar. Mas “nós pregamos a Cristo e esse crucificado”. Quem sabe, com isso em mente, seríamos mais sábios em nossos esforços missionários.

sábado, 19 de novembro de 2011

Pecadores adorando a Deus

Nesses últimos textos procurei mostrar o pecado em suas diversas facetas, e, se você leu todos, viu que são apenas referências direta aos Dez Mandamentos. Entretanto, não os encarei como dez pecados diferentes e sim como um só: a desobediência a Deus, manifestando-se sob dez formas diferentes.

Além das dez diferenças óbvias há outras. Porém, para nosso proveito é importante lembrar que eles se agrupam em seis manifestações que ofendem também ao próximo e quatro ofendem apenas a Deus.

Analisei essas quatro manifestações do pecado que ofendem apenas a Deus sob o título de “Verdadeira Adoração” pela simples razão de que o único objetivo delas é este: Ser agradável a Deus, enquanto as demais tem por objetivo também, preservar a vida, a honra, o bem estar de nosso próximo. A verdade, os bons relacionamentos, o equilíbrio social, econômico e político, etc.

Os quatro só levam em conta o modo como você comparece diante de Deus, respeita sua imagem, respeita seu Nome e reserva tempo para desfrutar de sua presença. Elas são o cerne do culto verdadeiro.

Achar-se adorador por ser um bom cantor, por ter passado o dia cantando ou por ter ajuntado uma multidão a cantar, sem ter observado qualquer um dos Dez mandamentos (ou ter desrespeitado um só deles), especialmente os quatro que dizem respeito a Deus, não passa de blasfêmia.

Adorar a Deus é fazer sua vontade. Cantar é consequência.

Então alguém dirá: - ninguém pode ser um verdadeiro adorador pois ninguém cumpre perfeitamente os Dez Mandamentos.

- Só pode ser um verdadeiro adorador aquele que já cumpriu os Dez mandamentos através de Jesus, pois somente ele os cumpriu plenamente.

- Então, se eu estou em Cristo que cumpriu pra mim de modo perfeito os 10 mandamentos posso e devo cantar de tal modo que todo mundo (desde os vizinhos até o inferno) saiba disso.

Duas perguntas: 1ª) Você quer avisar aos vizinhos ou louvar a Deus? (o inferno não está interessado). 2ª) Você sabe como é que Deus quer ser adorado? Geralmente se responde “com louvores”. Mas, à luz dos quatro mandamentos, será que é só com isso?

Nós nos comportamos como crianças desobedientes e voluntariosas que insistem a trazer garatujas coloridas para os pais e perguntar se estão bonitas.

É claro que, por amor, nossos pais respondem que estão bonitas, porém eles ficariam mais alegres se arrumássemos nossa cama sem que eles mandassem, escovássemos nossos dentes espontaneamente, comêssemos as verduras sem reclamar. Enfim, fôssemos filhos mais cordatos e prontos a obedecer sem murmurações. Jamais alguém faria garatuja ou pintura mais bonita do que isso.

Percebeu? Os cânticos são, diante de Deus, como um gesto de carinho a mais com que o filho agrada seus pais, os quais se deleitam em vê-lo fazer a vontade deles.

Você acha que Jesus assumiu nossa natureza e sofreu por nós apenas para formar um conjunto musical? Ele nos redimiu para vivermos de modo digno dele, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus, e eventualmente cantar.

sábado, 12 de novembro de 2011

A verdadeira adoração (parte 4)

Lembra-te do sétimo dia para o santificar

Neste último aspecto do pecado, que ao cometermos ofendemos apenas a Deus, há muito o que considerar, uma vez que outras religiões também fazem o mesmo e, como regra geral, esse dia transformou-se em dia de lazer. Pior: sem querer, o chamamos de inútil, ao nos referirmos aos outros como dias úteis.

Primeiro: Considere o quão estranho deveria ser naquele tempo um povo que não trabalhava um dia inteiro a cada sete. E fazia isso com hora de começar e de terminar, considerando tal comportamento como parte de sua adoração a um Deus que não se via, do qual não havia imagem, ou sequer se pronunciava o nome. Como deveria soar estranho aos povos vizinhos!

Segundo: Embora os demais povos possuíssem dias regularmente consagrados a adoração de seus deuses, nenhum deles tinha o caráter primário de descanso. Por vezes um dia, ou mais, era dedicado a um festival, porém a preocupação com o descanso, com a meditação na revelação recebida de Deus, ou como viver conforme seu querer, era peculiaridade do Povo de Deus.

Terceiro: A ordem completa é mais abrangente: “Lembra-te do sétimo dia, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o descanso do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o sétimo dia e o santificou” (Ex 20.8-11).

A ordem de santificar o dia do descanso torna quem a recebe responsável por: 1) Trabalhar nos seis outros dias. 2) Não trabalhar no sétimo à exemplo do que fez o Criador. 3) Não permitir que outros trabalhem também: seus filhos, seus servos, seus animais e seus hóspedes, mesmo que de outra cultura ou religião, como se fosse uma condição de hospedagem. Isso era grandemente inusitado para a época.

Quarto: Além de abrangente a ordem é surpreendentemente recessiva. Ela manda organizar o tempo e as atividades! lembrar-se. Em outras palavras: organizar a vida de tal modo que tudo o que tiver de fazer seja feito nos seis dias precedentes, para que no sétimo haja um repouso verdadeiro.

Qual é objetivo disso? Poderíamos dizer que era o bem estar do povo, mas creio que isso era apenas consequência.

No Livro do Êxodo, a razão alegada é a criação: Deus fez tudo em seis dia e descansou no sétimo. Devemos fazer como ele, pois ele abençoou o dia de descanso. Descansemos com ele. Já no Livro do Deuteronômio a razão alegada é: “... te lembrarás que foste servo na terra do Egito e que o SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que o SENHOR, teu Deus, te ordenou que guardasses o sétimo dia” (Dt 5.15).

Em ambos os casos o que o Senhor nos oferece é sua companhia. Primeiro, como Criador maior de todas as coisas que descansa, o qual devemos imitar. Segundo como Redentor supremo a quem devemos ser gratos e procurar desfrutar de sua companhia mais intimamente possível.

O Dia do Descanso, portanto, não é o dia do lazer, mas o Dia do Senhor. É o dia em que descansamos nele de todas as nossas obras e o louvamos por nossa redenção.

sábado, 5 de novembro de 2011

A verdadeira adoração (parte 3)

Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão

No texto de introdução a estes quatro aspectos do pecado que ofendem tão somente a Deus, observei que esta proibição foi dada numa época em que a prática da magia pelo uso dos nomes era algo comum. Naqueles dias cria-se que conhecer o nome de alguém era o mesmo que adquirir poderes sobre aquela pessoa.

Há registros de que os sacerdotes de Israel se viram obrigados, durante o ofício, a pronunciar o tetragrama sagrado em voz mais baixa do que as demais palavras, pois alguns queriam aprender sua pronúncia correta com o fim de usá-lo em ritos mágicos. Não me admiraria se fosse verdade à luz da frase dos exorcistas ambulantes de Éfeso: “Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega” (At 19.13).

Há alguns anos atrás um empresário desesperado me procurou querendo oração, pois tinha certeza de que um concorrente tinha “costurado seu nome na boca de um sapo”, o que me lembrou de uma senhora que trazia sempre um papelzinho com o versículo 7 do Salmo 91 sobre seu coração (Caiam mil ao teu lado, e dez mil, à tua direita; tu não serás atingido) para evitar eventuais balas perdidas.

No Boletim de 2 de abril deste ano descrevi minha visita a alguém hospitalizado que dispôs as almofadas de sua cama de tal modo que uma Bíblia aberta no Salmo 91, (onde estão escrito os principais nomes pelos quais Deus é conhecido no Antigo Testamento), ficava sempre virada para ele, em um processo, que, segundo ele, o possibilitava “repousar à sombra do Onipotente”.

Eu poderia escrever várias páginas de casos curiosos em que o nome de Deus certamente estaria sendo tomado em vão e este mandamento estaria sendo quebrado, atestando assim as palavras do sábio de que “não há nada de novo debaixo do sol”. Nem pecados.

O Povo de Deus da Nova aliança recebeu uma missão clara e específica na qual a facilidade para se cometer esse pecado é enorme: Ir pelo mundo inteiro e pregar o Evangelho.

Ao pregar o Evangelho deveríamos dizer apenas: o SENHOR já não tem mais nada contra você, pois suas culpas foram pagas por Jesus. Arrependa-se e creia! Mesmo que fosse a pessoas de uma cultura que nada conhecesse do SENHOR ou de Jesus e muito menos tivesse noção dos débitos diante de Deus.

Lembre-se que Paulo no Areópago, frente a pessoas ávidas em conhecer que novos deuses ele apresentava, após introduzir sua mensagem, já lhes falou de como Deus não precisa deles, de como Deus fixou-lhes os tempos determinados, e estabeleceu o modo como deveriam encontrarem-se com ele, a saber: Jesus. E concluiu conclamando a arrependerem-se daquelas coisas vãs e esperarem em Jesus a quem Deus ressuscitou, pois criam que ele anunciava um casal de deuses: Iesous (Jesus) e Anastasis (ressurreição).

Entretanto o Evangelho tem sido anunciado hoje como produto e Deus tem sido comercializado como um mercadoria vil. Isso é a pior forma de tomar seu nome em vão.

A pretexto de tornar essa mensagem mais agradável a ímpios, veicula-se nos meios que mais delicia a impiedade: as artes. E as artes em vez de serem usadas para o louvor de Deus (seu verdadeiro papel) são usadas como instrumento aliciador, proselitista e vendedor. Novamente o mandamento é quebrado.

Será que conseguiremos viver sem quebrar esse mandamento? Graças a Deus que em Cristo temos vitória, pois somente com ele podemos dizer “Santificado seja o teu nome”.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...