sábado, 24 de agosto de 2013

Pecadores eternamente salvos

Você já deve ter reparado que esta série de artigos visa apenas abordar os chamados “Cinco Pontos do Calvinismo” de uma forma menos técnica. Espero estar conseguindo pois este é o último deles.

Porém, antes de falar dele vamos nos lembrar do que já vimos:

No primeiro artigo tentei mostrar como o pecado, apesar de nos parecer algo menor do que um crime, é tão odioso aos olhos de Deus, que custou-lhe a morte de seu Filho.

No segundo artigo espero que você tenha tido pelo menos um vislumbre de que a situação do homem sem Deus não pode ser pior: Além de espiritualmente morto ele está inerte. Depende totalmente de Deus. Está completamente abandonado à misericórdia de Deus. Seu estado é muito pior do que o de um bebê que está sendo parido, pois o bebê está vivo e de alguma forma contribui com seu nascimento, ainda que involuntariamente.

No terceiro texto espero ter deixado claro que o sacrifício de Jesus não foi feito apenas para criar uma possibilidade de salvação. Possibilidade esta que pode ser aceita ou rejeitada, pois se fosse assim todos a rejeitariam. Ou melhor: sequer tomariam conhecimento dela já que estão mortos em seus delitos e pecados, são por natureza filhos da Ira e inimigos de Deus.

Do quarto texto espero ter deixado claro que, ao toque salvífico do Senhor, não há outra opção para os mortos além de ressuscitar. Ou seja: ninguém resiste ao chamado gracioso do Senhor.

Hoje, considerando tudo isso, espero que fique claro que a obra que o Senhor realiza no pecador tem consequências eternas. O resgate é para sempre. No fundo é a recuperação do que nossos primeiros pais perderam no Éden.

Já mencionei as palavras de Jesus, mas não custa repeti-las: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.” (Jo 6.37) e “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” Jo 10.27-28). Percebeu? A obra de Jesus tem consequências eternas. Ele salva o pecador para vida eterna. E nem mesmo o pecador tem a possibilidade de alterar tal destino. A obra do Senhor é total e completa: Dentre os mortos, surpreendentemente, ele escolhe alguns e os ressuscita e os faz perseverar para a vida eterna.

Talvez a dificuldade maior em se aceitar esta doutrina, resida no fato de que, mesmo depois salvos, alguns caem em desgraça e passam a viver uma vida contrária a vontade de Deus. Mas não foi exatamente isso o que ocorreu ao Filho Pródigo? Acaso, longe de casa, depois de ter desfeiteado a seu pai, dissipado seus bens e chegado ao ponto de se alimentar da comida dos porcos, ele deixou de ser filho?

É claro que não podemos esquecer daqueles, a respeito dos quais, as Escrituras mesmo nos alertam: “são como rochas submersas, em vossas festas de fraternidade, banqueteando-se juntos sem qualquer recato” (Jd 1.12) “para as quais tem sido guardada a negridão das trevas, para sempre” (Jd 1.13). Foi a respeito de pessoas assim que o apóstolo João escreveu: “...saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1Jo 2.19). Entretanto aquele que já é selado pelo Santo Espírito da Promessa, esse só tem um destino: a glória.

Não nos esqueçamos nunca de que ele persevera porque Deus é quem o sustenta. Se não fosse o Espírito Santo, ele sequer conseguiria chamar a Deus de Pai (com propriedade), pois continuaria morto em seus delitos e pecados.

Aleluia! Deus salva pecadores.

sábado, 17 de agosto de 2013

Pecadores inevitavelmente salvos

Espero que ao ter lido o primeiro artigo desta série (Pecadores), você tenha entendido que pecado não é um simples esbarrão em Deus do qual você possa pedir desculpas, muito menos um gesto de desobediência à vontade dele semelhante ao que fazíamos com nossos pais quando crianças. Pecado, na verdade, é um estado de rebeldia contra o Criador, que criou o homem para ser espiritualmente vivo e ele escolheu ficar espiritualmente morto para Deus.

Do segundo texto espero que você tenha compreendido que alguém que se matou espiritualmente, não é capaz de reviver-se, mas precisa de Deus – o autor da vida – para ressuscitá-lo.

Do terceiro texto espero que tenha ficado claro que o sacrifício de Jesus não foi feito apenas para criar uma possibilidade de salvação, que mortos (como se mortos pudessem fazer algo) possam aceitar ou rejeitar.

Hoje desejo deixar bem claro que ao toque salvador do Senhor, não há outra opção para os mortos além de ressuscitar.

A Bíblia nos relata que o Senhor Jesus, durante “os dias de sua carne”, ressuscitou três mortos. A filha de Jairo (Mc 5.22-24 e 35-42); o filho da viúva de Naim (Lc 7.12-15) e a Lázaro (Jo 11.43-44). Embora todos estes casos contenham os elementos que quero destacar, analisarei o de Lázaro, onde eles aparecem mais claramente.

1º Lázaro estava realmente morto. Jesus assegurou-se de que ele morreria demorando a atender a mensagem mandada pelas irmãs dele (Veja os primeiros versículos do capítulo de João 11). A própria irmã do defunto atestou seu estado de putrefação: “Então, ordenou Jesus: Tirai a pedra. Disse-lhe Marta, irmã do morto: Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias” (Jo 11.39).

2º O morto é deixado para que “... o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (Ec 12.7). Ele já não tem mais domínio de si e, inerte, nada mais faz. Porém, seu espírito está nas mãos de Deus.

3º Como Jesus ressuscitou a esses três poderia ter ressuscitado a muitos mais ou a todos seus contemporâneos. Por que não fez? Porque não quis!

Do mesmo modo que o corpo morto está sob a vontade de seus circunstantes, que podem enterrá-lo, cremá-lo, ou fazer coisa pior, o pecador morto está nas mão de Deus. É de causar admiração que deste rio de mortos, desta vala comum, ele selecione um e devolva-lhe a vida espiritual, restaurando também o corpo que já se putrefazia nos mais abjetos antros do pecado.

Entretanto a voz de comando “... sai para fora” não pode ser resistida, pois nem as trevas resistiram a essa mesma voz quanto sua ordem foi “haja luz”.

Neste instante é que se processa o que os teólogos convencionaram chamar de regeneração (de re+gerar): Ele foi gerado de novo. Nas palavras de Jesus a Nicodemos ele nasceu da água (alusão ao derramamento do Espírito prefigurado nas águas que nascem do Templo conforme a profecia de Ezequiel) e do Espírito, pois foi o mesmo Espírito Santo que agiu: “ ... Envias o teu Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra” (Sl 104.30).

A graça deste chamado é a tal ponto irresistível, que o próprio Jesus declarou: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.” (Jo 6.37).

Quando Saulo se debatia, com o que lhe parecia escândalo e loucura, a voz do Senhor Jesus foi bem clara: “E, caindo todos nós por terra, ouvi uma voz que me dizia na língua dos hebreus: Saulo, Saulo, por que me persegues? É inútil resistires ao aguilhão.” (At 26.14 Sec.XXI).

Deus salva pecadores. Quando ele os busca não volta sem aqueles que se dispôs a salvar. O Resgate é certo.

sábado, 10 de agosto de 2013

Pecadores eficientemente salvos

Desde o início da sistematização da teologia cristã apareceram ideias sobre como ocorre o processo de salvação.

Já no século V, o monge Pelágio afirmava que cada um é o responsável por sua própria salvação, pois se Deus exige que tenhamos vida perfeita ao ponto de ordenar “sede santos, porque eu sou santo” (1Pe 1.16) é porque temos em nós mesmos, ou recebemos dele, graça suficiente para viver assim.

Agostinho, que era seu contemporâneo, discordou veementemente, pois isso retiraria a salvação das mãos de Deus e a colocaria nas mãos do próprio homem. Em outras palavras: o Sacrifício de Jesus não salvou o homem, apenas estabeleceu a possibilidade do homem salvar-se.

Da mesma forma agiu Armínio no século XV, que, na minha opinião, criou todo um sistema com a preocupação de garantir a dignidade do homem, que, segundo ele, não a possuiria se não tivesse livre arbítrio para aceitar ou recusar a salvação.

Embora parta de outras premissas e use outros argumentos, no fundo ele acaba dizendo o mesmo que Pelágio: o Sacrifício de Jesus estabeleceu a possibilidade do homem salvar-se, e este, é completamente livre para aceitar ou recusar o convite gracioso do Senhor do Senhor que morreu por ele.

Entre essas duas posições há muitos matizes, que no fundo acabam dizendo a mesma coisa: Jesus não salvou. Apenas criou possibilidades de salvação. Uns dizem que tal possibilidade se materializa em apenas o pecador manifestar o desejo de ser salvo (como olhavam para a serpente levantada no deserto) e outros vão ao extremo oposto dizendo que é necessário uma vida de boas obras, de modo que ao morrer, esteja registrado no livro de Deus mais coisas a favor daquela pessoa do que contra. Do contrário – se estiver com déficit – terá de purgar seus pegados no purgatório.

Entretanto, ao se olhar o quadro geral na Escrituras – o que o apóstolo Paulo chamou de analogia da fé – chega-se a conclusão que Deus salva pecadores mediante a morte sacrificial de Jesus.

Neste ponto teríamos muito que explicar como Deus castiga em uma pessoa (seu Filho) os pecados de outro(s). Entretanto, por amor à brevidade, lembro que Jesus é a Palavra de Deus, “a expressão exata de seu ser” (Hb 1.3), “em quem habita corporalmente a plenitude da divindade” (Ef 2.9). Ou seja, “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões” (2Co 5.19). Noutras palavras: o próprio Deus assumiu em Jesus a dívida eterna dos homens para com ele.

Surge então algumas questões: 1ª) O mundo está todo salvo? Não! Ele mesmo declarou que dentre muitos haveria um rebanho, e muitas vezes nos adverte sobre julgamento, e em separar as ovelhas dos bodes, pois “muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt 20.16).

À luz do que já vimos nos dois artigos passados, em que espero ter deixado claro que nosso estado de morte espiritual nos impede de buscar a salvação. Somos lázaros defuntos em nossos túmulos até que a Voz Criadora – a mesma que disse: “haja luz e houve luz” (Gn 1.3) – nos traga de volta à vida. É necessário que Deus se dirija especificamente a quem ele quer salvar e lhe dê vida: lhe salve.

Há portanto uma diferença muito grande entre “possibilidade de salvação” e “salvação efetiva”.

Mais do que um resgate em que o salva-vidas arrasta para fora d’água quem estava se afogando, e ao chegar na praia lhe aplica todos os procedimentos necessários para que ele volte a respirar.

Na minha igreja ouvi alguém muito simples dizer com lágrimas nos olhos: - Pastor, Deus enfiou a mão no vaso sanitário e me puxou de lá! É bem isso mesmo.

Enviar seu Filho, já é algo extraordinário. Sacrificá-lo em nosso lugar está além do que podemos conceber. Eu sei que Deus pode todas as coisas, mas, porventura ele poderia ter feito gesto maior do que este? E apenas para garantir que “mortos em seu delitos e pecados” (Ef 2.1) tivessem uma opção que não são capazes de exercer? Não! Mil vezes: Não!

Jesus morreu para salvar pecadores. Seu sacrifício não será em vão. É mais poderoso do que o suicida que se debate contra o salva-vidas que o retira de seu destino mortal.

“Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6.37)

“Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor. Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai” (Jo 10.14-18)

sábado, 3 de agosto de 2013

Pecadores Salvos

Espero ter deixado claro, no texto de domingo passado, que não somos pecadores porque cometemos pecados fortuitos, mas que cometemos esses pecados fortuitos por sermos pecadores.

Espero também ter deixado claro que nosso estado é descrito pela Bíblia como “espiritualmente mortos”. E, por estarmos espiritualmente mortos, estamos em rebelião contra quem nos criou para ser espiritualmente vivos.

Quando nossos primeiros pais estavam espiritualmente vivos sabiam o que era bom e o que era mal e tinham total liberdade e capacidade para escolher entre fazer ou deixar de fazer aquilo que era bom e aquilo que era mal. Naqueles dias havia aquilo que hoje chamamos de “livre arbítrio”.

Hoje continuamos a ver o que é bom e o que é mal, desejamos fazer o bem, temos até certa liberdade de fazer qualquer um dos dois, mas não temos mais a capacidade de fazer o bem: para fazer o bem apenas por ser o bem. Desobedecendo ao Criador, nossos pais tornaram-se incapazes e nos legaram essa qualidade.

Hoje a natureza que herdamos deles, deseja, anseia e nos impele para fazer o que é mal. E mesmo quando conseguimos fazer algo de bom, o fazemos pela razão errada: para que outras pessoas vejam o quanto somos bons, ou para obter algo de Deus , ou para que alguém fique em dívida conosco, ou para pagarmos um favor, ou, no mínimo, para acalmar nossa consciência que constantemente nos acusa.

Nosso estado é tão perverso que o profeta Isaías usa palavras terríveis para descrevê-lo: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades, como um vento, nos arrebatam” (Is 64.6). Note que o profeta diz que nossa justiça (o que podemos fazer de melhor) é como trapo de imundícia. O trapo é o pedaço de pano que seria descartado e passou a ser usado para um propósito inferior. Neste caso, para reter aquilo que estava vivo e agora se decompõe na morte, pois a palavra hebraica é ‘ed beged, que literalmente significa trapo para absorver a menstruação.

Alguém em estado tão abjeto, na realidade morto para Deus, como poderá voltar-se para ele? Não pode! É Deus quem toma a iniciativa de fazer com que esses trapos sejam limpos e bons. É Deus quem toma a iniciativa de fazer com que esses mortos vivam.

Sendo Deus quem toma essa iniciativa ele é totalmente livre para escolher o trapo que quiser no amontoado deles, pois já é de admirar que ele ainda queira usar tal trapo. Ele também é totalmente livre para ressuscitar o morto que ele quiser, pois é de admirar que ele queira reviver alguém que morreu por rebelar-se contra ele. A isso a teologia resolveu chamar de “Graça incondicional”.

Nenhum trapo pode esperar tratamento diferente, muito menos tem a capacidade de argumentar ser merecedor de tratamento especial ou diferenciado dos demais. O destino de todos é o lixo e a destruição. Nenhum morto pode esperar tratamento especial da parte de Deus, afinal ele é um defunto, e defuntos não fazem nada.

Se não for a soberana vontade de Deus nenhum trapo ou nenhum morto, pode obter a atenção de Deus que é livre para escolher o que ele quiser.

Para deixar mais clara a liberdade de Deus a esse respeito, as Escrituras perguntam: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?” (Rm 9.20-21).

Realçando mais ainda a liberdade de Deus, lembremo-nos de Jacó e Esaú: “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú. Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9.11-16).

Nada há que o homem possa fazer por si mesmo (ele está defunto e continuará assim). Tudo é feito por Deus. Por isso podemos dizer: Deus salva pecadores.

Se o homem pudesse fazer algo em prol de sua salvação, tal frase não seria verdadeira. Pois, ou o homem não teria necessidade de salvação, ou, no máximo, Deus salvaria apenas aqueles que já se dispuseram a ser salvos, e, portanto, pessoas parcialmente salvas que colaboram com o próprio nascimento. Não esqueça de que esse renascimento é chamado na Escritura de a Primeira Ressureição: “Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade” (Ap 20.6).

domingo, 28 de julho de 2013

Pecado

O que é pecado? O Dicionário Houaiss define assim: Substantivo masculino (do latim peccatum), que possui os seguintes sentidos: 1) violação de um preceito religioso; 2) Derivação por extensão de sentido: desobediência a qualquer norma ou preceito; falta, erro. 3) ação má; crueldade, perversidade; 4) o que merece ser lastimado; pena, tristeza; 5) estado em que se encontra alguém que cometeu um pecado. O Aurélio não difere muito: acrescenta apenas como derivação por extensão: Falta, erro, culpa e vício.

Nos últimos séculos essa palavra teve seu sentido cada vez mais abrandado: um crime ou transgressão contra o próximo, hoje é visto como infinitamente mais grave do que um pecado, que ofende a Deus.

Se examinarmos mais tecnicamente, encontraremos: nos documentos da Igreja, especialmente nos Catecismos que expressam a Fé Reformada, a reiteração de que pecado é transgressão da Lei de Deus.

Se examinarmos a Bíblia encontraremos algumas palavras cujos campos semânticos nos fazem ver melhor os valores que estão envolvidos.

A palavra mais usada no AT é hatah que literalmente significa “errar o alvo”, o que fala bem da situação de nossos primeiros pais, que foram feitos para uma coisa e acabaram em outra (aliás é bom frisar que todos os sacrifícios levíticos eram consequência de hatah. A segunda palavra mais usada é Peshah, que está dentro do campo semântico de “transgressão ou rebelião” e é usada contra indivíduos, contra o Povo de Deus e contra o próprio Deus. Outra menos usada é awon, que literalmente significa “vaidade, no sentido de ser vão, vazio, nada”. Já rasha é traduzida por “maldade e inquietação” (característica de quem está longe de Deus). Ma’am evoca “prevaricação ou omissão”. Aasham exprime “culpa que demanda punição ou expiação”.

No NT a palavra mais usada é hamartia, que no Grego Clássico, semelhantemente ao AT, tem como sentido básico é “errar o alvo” ou “ser incompleto”. Porém, no Grego Koiné (em que foi escrito o NT) sem desprezar o sentido do Clássico, seu significado é muito mais profundo, ao descrever um estado. 1) É universal: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23); 2) Submete o homem (no sentido de torna-lo seu dependente ou seu comandado): “mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros” (Rm 7.23). 3) Pior! Faz do homem um escravo: “Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.38).

Menos usadas são: 1) adkia, que sempre descreve o estado do homem como devedor da justiça; 2) Parabasis, que está sempre relacionada a transgressão; 3) Paraptoma, que está sempre relacionada com cair, fracassar ou perder o caminho.

Por essas significações e muitas outras, que não cabem aqui, é que a teologia cristã reformada afirma que pecado não é apenas o ato errado e isolado que se comete, mas é principalmente um estado em que se encontra o gênero humano, e que o impulsiona irresistivelmente a cometer os atos errados do dia a dia, sejam eles uma simples palavra falsa ou a maior de todas as maldades, pois ambos terão origem no mesmo lugar: o estado pecaminoso do homem.

A teologia então cunhou o termo “totalmente depravado” para descrever o estado do homem depois da queda, onde “totalmente” deve ser entendido mais no sentido extensivo do que intensivo – pois ainda sobrou alguma coisa de boa no homem, uma vez que a imagem de Deus não foi totalmente apagada nele, e sim extremamente deformada – ou seja: em todas as partes que compõem o homem: seu corpo, mente, afeições, comunicações, imaginação, criatividade, etc. o pecado domina.

Criado perfeito, ele desobedeceu conscientemente uma ordem totalmente possível de ser cumprida, dada pelo Criador: abster-se de uma simples fruta que Deus tinha reservado para si. Isso levou a uma mudança total de estado em que não pode mais ser um instrumento dócil nas mãos dele. Pelo contrário: rebelou-se. E a descrição bíblica que é feita deste rebelde aos olhos de Deus é de um morto: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef 2.1).

Geralmente só nos damos conta de nosso pecado, quando pensamos na solução de Deus para ele: A morte de seu Filho. Que solução mais drástica poderia haver? Que situação pior poderia nos atingir? Alguém já disse que até no inferno se vê a glória de Deus, pois lá sua justiça está presente, mas no pecado a única glória – se houver – é a do homem, pois nele Deus não pode ser visto e para removê-lo foi preciso que seu Filho assumisse a pena a fim de que aqueles que andavam no escuro vale da sombra da morte vissem novamente a glória de Deus.

Agostinho descreveu com maestria por que pecamos hoje: “Nas imediações de nossa vinha, havia uma pereira carregada de frutos, que nem pelo aspecto, nem pelo sabor tinham algo de tentador. Alta noite – pois até então ficaríamos jogando nas tavernas, de acordo com nosso mau costume – dirigimo-nos ao local, eu e alguns jovens malvados, com o fim de sacudi-la e colher-lhe os frutos. E levamos grande quantidade deles, não para saboreá-los, mas para jogá-los aos porcos. Embora comêssemos alguns, nosso deleite era fazer o que nos agradava justamente pelo fato de ser coisa proibida. Aí está meu coração, Senhor: meu coração que olhaste com misericórdia quando se encontrava na profundeza do abismo. Que este meu coração te diga agora que era o que ali buscava, para fazer o mal gratuitamente, não tendo minha maldade outra razão além da própria maldade. Era hedionda, e eu a amei! Amei minha morte! Amei meu pecado, não o objeto que me fazia cair, mas minha própria queda. Ó torpe minha alma, que saltando para fora do santo apoio, te lançavas na morte, não buscando na ignomínia senão a própria ignomínia” (Confissões II, 4).

sábado, 20 de julho de 2013

O Livro dos Salmos (Parte 2)

Concluindo o assunto de Domingo passado, é bom nos lembrarmos de que os Salmos possuíam estilos que hoje escapam a nossa compreensão. Há os estilos indicados no próprio texto hebraico e aqueles que se deduz do tema que o próprio Salmo aborda.

Primeiro: Os estilos identificados no texto hebraico, e que não entendemos muito bem:

a. Masquil, que geralmente se traduz por Salmo Didático: Salmos 32, 42, 44, 45, 52, 53, 54, 55, 74, 78, 89 e 142.

b. Mictam, que geralmente se traduz por Hino (todos foram escritos por Davi): Salmos 56, 57, 58, 59 e 60.

c. Shigaiom, que é traduzido por Canto: apenas o Salmo 7.

d. Neguinote, que parece referir-se apenas a um instrumento musical, traduzido sempre como instrumento de cordas: Salmos 4, 6, 54, 55, 61, 67 e 76.

e. Nehilot, traduzido como flautas: apenas o Salmo 5.

f. Aijelet-Has-Saar, traduzido por (melodia) Corça da Manhã: apenas o Salmo 22.

g. Alamot, traduzido como voz de soprano: apenas o Salmo 46 (e o cântico entoado na volta da Arca da Aliança e registrado em 1Cr 15 e 16).

h. Mahalat, traduzido por cítara: apenas os Salmos 53 e 88.

i. Mut-Labém, literalmente significa "morte para o filho": apenas o Salmo 9.

j. Seminit, traduzido como "em tom de oitava", aparece nos Salmos 6 e 12, e no cântico entoado por ocasião da volta da Arca da Aliança.

Segundo: Esses títulos acima fazem parte do texto sagrado.

São tão importantes que serviram de base para nosso Senhor firmar uma doutrina: Em Mateus 22.41-46 citou o Salmo 110 como sendo de Davi e apenas seu título nos informa que este Salmo foi escrito por Davi. Ou seja: Jesus formulou uma doutrina sobre um título de um Salmo.

Além da autoria eles nos informam também a ocasião (Salmo 3.1, 102.1), a instrumentação (Salmo 6.1) e a forma que devia ser cantado (Salmo 46.1).

Terceiro: Os estilos que podemos deduzir ao examinar cada poema:

a. Hinos e Salmos utilizados para louvar a Deus: 8, 15, 19.1-6, 24, 29, 33, 46, 47, 48, 50, 66, 68, 76, 81, 82, 84, 93, 96, 97, 98, 99, 100, 103, 104, 105, 106, 108, 113, 114, 115, 117, 118, 121, 122, 132, 134, 135, 136, 145, 146, 147, 148, 149 e 150.

b. Súplicas, lamentos ou pedidos individuais: 3, 4, 5, 6, 7, 9, 10, 12, 13, 14, 17, 22, 25, 26, 28, 31, 38, 39, 41, 42, 43, 51, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 61, 63, 64, 69, 70, 71, 77, 86, 88, 94, 102, 109, 120, 130, 139 e 143.

c. Súplicas, lamentos ou pedidos coletivos: 44, 60, 74, 79, 80, 83, 85, 90, 123, 125, 126, 129 e 137.

d. Cânticos de confiança em Deus e em sua ajuda: 11, 16, 23, 27, 62 e 131.

e. Agradecimentos a Deus: 30, 32, 34, 40.1-10, 63, 65, 67, 75, 92, 103, 107, 111, 116, 118, 124, 136 e 138.

f. Relatos históricos: 78, 105, 106, 135 e 136.

g. Relativos ao rei: 2, 18, 20, 21, 28, 45, 61, 63, 72, 84, 101, 110, 132 e 144.

h. Didáticos: 1, 37, 49, 73, 91, 112, 119, 127, 128 e 133.

i. De peregrinação: 84, 107 e 122.

j. Mistos: 36 e 40.

k. Acrósticos: 9, 10, 34 e 119.

l. Imprecatórios: 58.6-11, 83.9-18, 109.6-19, 137.7-9.

Conclusão

A produção poética de Israel, começou muito cedo. Seu primeiro registro aconteceu durante o êxodo (com grande dose de acerto, podemos dizer que o primeiro registro é o Salmo 90). E embora muita coisa tenha sido escrita por Moisés, a maioria data da época de Davi.

Sabemos que houve época em que os que foram designados para a música no templo chegaram a 4.000 pessoas (1Cr 23.5). E que à produção de Davi somou-se, Asafe e os filhos de Corá e Jedutum, que é citado 2 vezes (Salmo 39 e 77) como cantor e 1 vez como autor de uma melodia (Salmo 62).

Todo esse material foi levado para a Babilônia onde foi compilado volume após volume (entenda-se: rolo após rolo). Note-se também que alguns Salmos foram compostos lá. Por exemplo, o Salmo 137). E talvez o único critério que tenha orientado os organizadores tenha sido dar prioridade aos escritos de Davi.

É de grande ajuda poder contar com o testemunho das Escrituras de que Deus não apenas escuta nossas orações, mas também compreende o que passamos. Ora isto é dito explicitamente a respeito de seu Filho, que sofreu todas as angústias expressas nos Salmos. Na verdade, podemos dizer – e será certa nossa afirmação – que cada Salmo é Jesus “cantando conosco no meio da congregação”.

sábado, 13 de julho de 2013

O Livro dos Salmos

Durante seis anos nossas reuniões de oração foram direcionadas pelos temas de um Salmo. Lemos e estudamos Salmo por Salmo e vimos em que ele nos conduz a orar. Para mim foram momentos de grande satisfação.

Compartilho aqui algumas informações sobre o livro de Salmos que aprendemos durante este período.

A primeira coisa é que na verdade o Livro dos Salmos é composto de 5 livros: As “marcas de transição” de um Livro para outro são bem claras: 1) No Salmo 41.13 lemos: Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel, da eternidade para a eternidade! Amém e amém!”. 2) No Salmo 72.19-20 podemos ler o mesmo refrão acrescido da informação sobre o fim da orações de Davi: “Bendito para sempre o seu glorioso nome, e da sua glória se encha toda a terra. Amém e amém! Findam as orações de Davi, filho de Jessé”. 3) No Salmo 89.52 lemos a mesma fórmula dos dois primeiros livros: Bendito seja o SENHOR para sempre! Amém e amém!” 4) No Salmo 106.48 lemos: Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel, de eternidade a eternidade; e todo o povo diga: Amém! Aleluia!”. 5) Finalmente no Salmo 150 lemos uma verdadeira apoteose como um todo e no versículo 6: Todo ser que respira louve ao SENHOR. Aleluia!”.

Possivelmente o Primeiro Livro (1-41) tenha sido feito ainda nos dias de Davi (Quase todos os seus Salmos são explicitamente atribuídos a Davi: 37 em 41) quando ele estabeleceu os levitas-músicos, ainda no tabernáculo (Leia o capítulo 16 de 1Cronicas, onde já se pode ver os Salmos 15.1-15, 96, 106.47-48).

Já o Segundo Livro (42-72) provavelmente tenha sido organizado por Salomão para o Templo (Leia o capítulo 5 de 2Crônicas). O número de Salmos atribuídos a Davi diminui para pouco mais da metade dos salmos do Livro (curiosamente um é feito em parceria com Jedutum). Os demais são atribuídos aos Filho de Coré, a Asafe e 1 a Salomão.

Muito provavelmente o Terceiro Livro (72-89) ainda seja obra de Salomão. Não que ele tenha escrito, mas seus escribas o compilaram, pois 1 Salmo é atribuído a Davi, 1 a Etã, 4 aos Filhos de Coré e 11 a Asafe.

Já o Quarto Livro (90-106) provavelmente tenha sido compilado pelos Escribas de Ezequias. Leia os capítulo 29 a 31 de 2Cônicas para se lembrar do que ele fez de bom e veja a repercussão que isso trouxe ao Escritório de Salomão em Provérbios 25.1).

O livro é aberto com o único Salmo atribuído a Moisés (que para muitos estudiosos é o mais antigo texto da Bíblia). Segue-se muitos Salmos escritos por autores que permaneceram no anonimato e apenas 2 Salmos são atribuídos a Davi. Entretanto por três vezes (Salmo 96, 105 e 106) repete-se o que Davi cantou ao receber de volta a Arca da Aliança, conforme está registrado em 1Crônicas 16 (Salmo 96 repete 1Crônicas 16.23-33; o Salmo 105 repete 1Crônicas 16.8-22 e o Salmo 106 repete em alguns versículos 1Crônicas 16.35-36).

O Quinto Livro (107-150) provavelmente foi produzido depois da volta do Cativeiro Babilônico, pois é nele que encontramos alusões ao Cativeiro, sejam diretas (Salmo 137) ou indiretas (Salmo 124, 126 e 127). Nele encontramos 14 Salmos atribuídos a Davi, e 1 a Salomão. Os demais 28 são de autores que permaneceram anônimos.

Porém, neste livro há um grupo de 15 salmos intitulados pela Edição Almeida e Atualizada “Cântico de Romagem” que seriam melhor chamados de Cânticos de Subidas. Estes cânticos eram usados durante as peregrinações ao Templo. Reúnem Salmos compostos por Davi, (ainda no período do Tabernáculo) e de Salomão. Na realidade estes Salmos são incentivo a que o Povo de Deus se lembrasse do Templo reconstruído (sem a glória do anterior), e, se estimulassem a subir a Jerusalém: “Alegrei-me quando me disseram: vamos à Casa do SENHOR [...] onde estão os tronos de Justiça”.

O Livro dos Salmos, portanto é para nós o que já foi chamado de “tesouro de Davi”. Nele encontramos a nós mesmos, com nossos defeitos: Impaciência (Até quando Senhor?), desejo de vingança (Filha da Babilônia, que hás de ser destruída, feliz aquele que te der o pago do mal que nos fizeste. Feliz aquele que pegar teus filhos e esmagá-los contra a pedra.). Mas também é um dos únicos lugares em que podemos falar de nós para nós mesmos: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu”.

sábado, 6 de julho de 2013

Famílias

Se analisarmos a família ao longo da Bíblia podemos achar diversas configurações.

1) A família ideal, como Deus queria que fosse: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando- se os dois uma só carne” (Gn 2.24). Esta ordem divina foi dada antes do pecado e assim deveriam ser as famílias que fossem estabelecidas neste estado. Seriam unidades autônomas, pois não haveria perigos dos quais a família precisou se defender depois do pecado, via de regra tornando-se numerosa e multinuclear.

O Salmo 127 elogia a família numerosa. Diz que os filhos são herança e galardão do Senhor, pois o homem que tem muitos filhos “não será envergonhado, quando pleitear com os inimigos à porta”, o que pode ser uma alusão à defesa da porta de sua casa onde seus filhos agem como guerreiros (esclarecendo porque eles são chamados de “flechas na mão do guerreiro”) ou pode ser uma alusão a uma disputa civil feita no Foro das cidades de então: a porta.

Apesar de referir a uma família característica de uma sociedade sem pecado, de acordo com nosso Mestre e Senhor, os princípios estabelecidos, ainda continuam em vigor: a) A monogamia: Foi este o texto que o Senhor usou (Mc 10.2-12) ao repreender os fariseus que o tentavam a respeito do divórcio, mostrado que Deus criou a família para viver, sob suas bênçãos, em uma estrutura monogâmica. b) A vida na Igreja: Esse mesmo preceito será usado pelo apóstolo Paulo para exemplificar a união entre Cristo e sua Igreja (Ef 5.28-32). Que deixou seu Pai e uniu-se a sua igreja e assumiu sua natureza.

2) A família patriarcal. Foi a primeira conformação da família após o pecado. Era a grande família, multinuclear, apesar de todos os núcleos menores se reportarem ao Patriarca que era o núcleo central. De modo geral era poligâmica e os conflitos entre os filhos de uma esposa com os filhos de outra, ou até mesmo entre esposas, podem ser exemplados na família de Jacó.

Os servos e os agregados também faziam parte deste tipo de família, e os vínculos com alguns deles as vezes eram mais fortes do que com parentes de sangue. Lembre-se de Abraão e do damasceno Eliézer.

Porém, Jó tem uma família patriarcal monogâmica em que os múltiplos núcleos podem ser vistos nas casas de seus filhos e nas festas que davam uns para os outros.

Tudo indica que a família patriarcal era uma exigência de segurança, especialmente entre os nômades, que usavam a grande quantidade de homens como verdadeiro exército. Lembre-se de Abraão escolhendo entre seus servos 318 homens para lutar contra os Reis que ameaçavam a família de seu sobrinho Ló (Gn 14.14).

3) A família de Israel. Foi moldada no deserto, nos anos do êxodo, porém, algumas prescrições estavam reservadas para que ela a cumprisse apenas após a entrada na terra prometida. Por exemplo, a celebração da Páscoa, do Ano Sabático (com a quebra de vínculos de serviço e o acerto patrimonial decorrente do perdão das dívidas), e da Ano Jubileu quando as propriedades deveriam voltar a seus donos originais.

Não esqueça também que era a esta família, que se alguém que tivesse se vendido como escravo, ao fim do pagamento de sua dívida, se quisesse, tinha o direito de fazer parte dela (veja Dt 15.12-18), o que nos diz muito a respeito do regime de escravidão entre os judeus em que à época se exagerava dizendo que “se alguém arranjou um escravo, arranjou um patrão”.

Mas, além disso, a ela sempre se agregava outra, como as dos trabalhadores ou pelo menos a do Levita que via de regra era contratado para ensinar as crianças a ler a Lei do Senhor. Era essencialmente mononuclear, mesmo que com grande quantidade de filhos – alguns casados – vivendo, as vezes na mesma casa, mas mantendo uma independência quase total de cada núcleo.

4) A família do Novo Testamento já era contaminada por diversos costumes gentílicos e muitas vezes era totalmente gentílica e sujeita às piores influências das práticas cúlticas pagãs. Entretanto continuava mononuclear e em muitos casos podemos ver que a família acompanhava os rumos traçados pelo pai. As primeiras pregações eram claras: “serás salvo. tu e tua casa”. Ou “e creu e foi batizada ela e sua casa”, como é o caso de D. Lídia (At 16.15).

Em todas essas configurações de família, que podem incluir sobrinhos como Ló, ou servos com Eliezer e Onésimo e até mesmo “amigos mais chegados do que um irmão”, não encontramos uma modalidade que aparece hoje, pela simples razão de que seu núcleo central é sempre um homem e uma mulher (mesmo que um dos dois seja viúvo). Não encontramos na Bíblia famílias homossexuais, pois tal prática é a própria negação de seu alicerce.

Não há dúvidas de que em Israel havia casos de homossexualismo (se não houvesse não carecia de leis contra a prática) e alguns eram tratados com rigor e certamente a morte sempre ameaçava a todos. Porém, nunca – nem no mundo gentio, nem nas nações em que o homossexualismo era mais aberto como Roma – não há relato de que alguém se atrevesse fundar uma família sobre os alicerces homossexuais.

Voltamos ao Criador: Macho e fêmea os fez! O que passa disso foi agregado por nós depois do pecado.

sábado, 29 de junho de 2013

A verdadeira natureza do casamento

Por dever de ofício celebro casamentos há muitos anos e já estou acostumado a ver, tanto momentos de grande beleza e ternura, quanto momentos de ostentação que beiram o ridículo.

Infelizmente, nós protestantes, herdamos da Igreja Católica todo o aparato do casamento, especialmente a simbologia do rito: Entrada da noiva, entrega que o pai faz ao marido, o véu branco, os padrinhos e especialmente o acompanhamento musical. Mas como a Igreja Católica o fez, nós aumentamos também algumas coisas, como a bênção dos pais e uma participação inusitada da mãe do noivo.

Tendo sido instituído por Deus antes do pecado de Adão, o casamento é para os cristãos algo de enorme importância e para enfatizar Jesus foi claro ao repetir as palavras do Pai: “... o homem deixará pai e mãe e se unirá a sua mulher e os dois serão uma só carne” (Mt 19.5). O escritor de Hebreus é claro ao ordenar: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros” (Hb 13.4). E o apóstolo Paulo, nos capítulos 5 e 6 de sua Carta aos Efésios, foi claro ao colocar o casamento como um símbolo da união entre Cristo e sua Igreja.

Os profetas foram duros com aqueles que desrespeitavam o casamento. Malaquias chega a dizer que Deus rejeita as ofertas do cônjuge infiel: “Além disso, ainda cobris o altar do SENHOR de lágrimas, choro e gemidos, porque ele não olha mais para as ofertas, nem as aceita da vossa mão com prazer. Mesmo assim, perguntais: Por quê? Porque o SENHOR tem sido testemunha entre ti e a esposa que tens desde a juventude, para com a qual foste infiel, embora ela fosse tua companheira e a mulher da tua aliança matrimonial. Não foi o Senhor que fez deles um só? Eles lhe pertencem em corpo e espírito. E por que um só? Porque ele queria uma descendência santa. Cuidai de vós mesmos, portanto, e que ninguém seja infiel para com a sua esposa desde a juventude. Pois eu odeio o divórcio e também odeio aquele que se veste de violência, diz o SENHOR Deus de Israel. Portanto, cuidai de vós mesmos, diz o SENHOR dos Exércitos, e não sejais infiéis” (Ml 2.13-16 Sec.XXI).

Sendo tão importante para nós, não é de admirar que sejamos intransigentemente contra o chamado casamento homossexual. Está certo que não podemos obrigar a todos a viverem debaixo dos costumes e da fé que professamos, mas casamento é algo religioso, pois além de todas as razões que expus acima, ainda tem Deus como testemunha e o Deus Criador o fez para consumar, inclusive anatomicamente, sua obra.

A celebração de um casamento na Igreja não é um culto, no sentido estrito da palavra, e sim a celebração de um pacto que toma o povo de Deus e o próprio Deus como testemunha. Não é um sacramento, pois além das muitas razões que o descaracteriza como um, não tem consequência eternas: só é válido até a morte de um dos cônjuges. Porém, sendo algo tão grave deveria ser realizado com a seriedade devida à sua natureza.

Todos os ritos são dispensáveis se o coração dos dois estiverem firmes no propósito de continuar a obra divina e corrigirem aquilo que Deus percebeu que não era bom em tudo o que fez: a solidão. E todos os ritos, desde os pomposos aos ridículos, serão afronta a Criador se o propósito do casal for outro que não o estabelecido por Deus.

Entretanto, a atenção de todos, especialmente dos amigos do casal, geralmente se voltam para os ritos, achando que com isso lhe garantirão uma vida mais feliz. Ledo engano. Fariam melhor se os acompanhassem em exortações e orações e principalmente em companheirismo na difícil fase de ajustamento.

Nunca poderemos esquecer que o casamento é digno de honra. Não de palhaçadas.

sábado, 22 de junho de 2013

Protestar? Contra o que?

Temos visto nos últimos dias uma série de protestos em diversas cidades brasileiras. Parece que tudo começou com a insatisfação pelo aumento do preço das passagens de ônibus. Porém ...

Primeiro: Como explicar protestos em cidades onde não houve aumento do preço das passagens? Precaução para que não haja? E como explicar a continuação dos protestos nas que já cancelaram os reajustes?

Segundo: Como explicar as múltiplas reinvindicações? Se o começo foi um protesto contra o aumento das passagens, por que houve manifestações também contra os gastos com a Copa das Confederações, ou contra o PEC 37, ou pela melhoria dos hospitais e das escolas públicas, ou contra a ação policial, ou pela “volta dos bondes de Sta. Teresa”, pelo direito de aborto, contra a corrupção, contra a opressão e outras.

Terceiro: Como é possível se ver a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro ser depredada e incendiada, o Congresso invadido, a Prefeitura de São Paulo e o Itamarati ter seus vidros quebrados e concordar com repórteres, comentaristas e autoridades que estamos vendo uma conquista da democracia? Que democracia é esta que picha um “A” de anarquia sobre a bandeira nacional?

A imprensa internacional, que nos vê com uma distância crítica, também não entende: A BBC vê uma insatisfação com as despesas com a Copa das Confederações diante de tantas outras necessidades. O Le Figaro é mais explícito e diz que “A onipotência da Fifa mexe com a raiva dos brasileiros”. O The New York Times compara com a Revolta do Vintém de 1879 (que ao ser estabelecida a cobrança de passagens nos bondes, a população do Rio de Janeiro, chegou a arrancar os trilhos das ruas, levando D. Pedro II a destituir o ministro que estabeleceu a cobrança).

Porém, tenho a impressão de que elas refletem algo maior e mais difuso: uma desilusão mundial com os governantes sempre mostrados pela imprensa como ineptos ou corruptos. É como se nosso país passasse a fazer parte das manifestações mundiais.

As primeiras atingiram os países árabes (a chamada primavera árabe, que só recrudesceu os governos islâmicos contra os cristãos que habitam nesses países), depois vieram as manifestações americanas, gregas, portuguesas, espanholas, suecas e mais recentemente a turca.

Veja que todas estas manifestações possuem uma espécie de gatilho que as desencadeia e logo elas se tornam difusas deixando de lado a reivindicação que as desencadeou. As da primavera árabe começaram com o suicídio do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi, que ateou fogo às próprias roupas desesperado com as extorsões que sofria das próprias autoridades. O movimento se alastrou pelo Egito, Líbia, Síria (onde tornou-se a guerra sangrenta que estamos vendo) e com menor força (ou melhor reprimida), no Kuwait, Marrocos, Arábia Saudita e outros.

Na América do Norte, foi algo mais concentrado na especulação financeira de Wall Street e acabou sendo sufocada pelo desgaste natural ou pela melhora, ainda que pífia, da economia.

Nos países europeus há uma diferença enorme entre os países que com crises econômicas (Grécia, Portugal e Espanha) e a Suécia, onde a revolta é produzida pelos imigrantes mais bem acolhidos de toda Europa, provocando o espanto em toda população sueca.

A turca é um pouco diferente. O gatilho foi a demolição de uma praça, e, se num primeiro momento, houve uma dispersão de protestos, depois eles se concentraram na queda do Primeiro Ministro Erdogan.

A aparência desses movimentos, ainda que o conteúdo deles seja diferente, não se assemelha com os que vemos aqui? Parece que é nossa vez (A Agência Reuters já chama de Primavera Tropical). Meu receio é de que o governo não a controle, pois já houve protestos em mais de 100 cidades e algumas já atingiram 1 milhão de manifestantes. E como nosso governo se vale muito do futebol para desviar a atenção dos problemas nacionais desta vez não conseguirá pois muitos estão protestando exatamente contra as imposições da FIFA. Aliás já escrevi algo sobre isso em 17/12/11.

Os especialistas em comportamento de massa dizem que é esperado estatisticamente (conforme a curva de Gauss?) que um pequeno grupo participe apenas olhando e outro pequeno grupo parta para a agressão enfurecida, enquanto a grande maioria faz apenas o que se propôs. Isso talvez explique a presença de vândalos em todas as manifestações, pois seria demais que a organização do evento contrate um grupo para tanto.

As Redes Sociais são outro aspecto do qual não podemos nos esquecer. Elas tornaram possível a criação de um sentimento de frustração e até de indignação e facilmente o transforma em atos concretos.

No começo dessa semana recebi um pedido para participar de um abaixo-assinado virtual, contra o uso de balas de borracha, feito por um repórter que pode perder a visão. Enquanto eu examinava o site do abaixo assinado, vi um link para uma ferramenta que organiza facilmente um protesto. Nela alguém tinha acabado de escrever ao proprietário reclamando que havia pedido um “espaço” para organizar seu protesto mas já se passara horas e não havia sido atendido. Enquanto eu lia, apareceu a resposta: “pode acessar agora, que está livre pra você”.

Se o tal sentimento chegou, devemos pedir a Deus, que o use para o bem do País e que o mesmo não chegue à violência que vimos na Síria, onde, dias atrás, um combatente, matou um soldado do governo, abriu-lhe o peito, arrancou o coração e o mordeu na frente das câmeras ameaçando fazer o mesmo a todos os soldados do regime.

Como cristãos, podemos protestar? Claro que sim! Podemos fazê-lo com violência? Claro que não!

Não é sem razão que somos chamados de protestantes, mas nunca lançamos mão da violência, do crime ou da desordem nem da mentira para protestar. Temos esse nome como referência à carta de protesto assinada pelos príncipes luteranos contra a reafirmação do Édito de Worms feita pela Dieta de Speyer em 1529.

Oremos pelo nosso país e não participemos do que é mau nem do que certamente levará ao pecado. E nos lembremos sempre da ordem divina: “Não espalharás notícias falsas, nem darás mão ao ímpio, para seres testemunha maldosa. Não seguirás a multidão para fazeres mal; nem deporás, numa demanda, inclinando-te para a maioria, para torcer o direito” (Ex 23.2).

sábado, 15 de junho de 2013

O Povo de Deus (Parte 2)

No artigo passado vimos como o Povo de Deus que viveu antes de Jesus, Israel, foi usado por Deus, para preservar sua Revelação e como a Igreja, recebendo esta revelação, interpretada por seu próprio autor, tem agora a obrigação de levá-la a todo mundo.

Porém, deixei claro que Israel teve uma segunda missão: preservar a linhagem da qual nasceria o Messias.

A descendência de Eva foi preservada por Deus no dilúvio e Sem foi escolhido e um de seus descendentes, Abraão, recebeu de Deus sua Aliança.

Abrindo um pequeno parêntesis: Deus age assim: Por escolhas: Escolheu Noé, escolheu Abraão, escolheu Moisés, escolheu Davi... e, finalmente escolheu Maria.

Voltando. Desde cedo nosso inimigo maior atentou contra o “descendente da mulher” (aquele que ele julgava ser o Escolhido e que lhe pisaria a cabeça). Não foi por outra razão que tramou a morte de Abel, e afadigou-se em levor todos os patriarcas (inclusive Jó) a pecar contra o Altíssimo.

Não fosse a graça divina tornar Sara fértil apenas na velhice, de modo que sua gravidez sobrenatural e o nascimento de Isaque (aquele que acolheu com alegria as promessas) passaria despercebida. Algo semelhante sucedeu a Rebeca e embora os gêmeos em seu ventre ainda não houvessem feito coisa alguma, que pudesse caracterizar o pecado de um deles, Deus já havia dito: “o mais velho servirá ao mais moço”.

Não estou me esquecendo da natureza corrompida do homem que sempre desagrada e peca contra Deus sem precisar de ajuda. Mas há explicação melhor para a reincidência sistemática do erro no período dos Juízes do que a ação do maligno em todo o povo?

O pecado mais destacado nos dias dos Reis, segundo o próprio Deus, foi agir segundo as nações ao redor. E, durante os dias de Atalia, se não fosse a coragem de Jeosabeate a linhagem de Davi teria sido interrompida: “Vendo Atalia, mãe de Acazias, que seu filho era morto, levantou-se e destruiu toda a descendência real da casa de Judá. Mas Jeosabeate, filha do rei, tomou a Joás, filho de Acazias, e o furtou dentre os filhos do rei, aos quais matavam, e o pôs e à sua ama numa câmara interior; assim, Jeosabeate, a filha do rei Jeorão, mulher do sacerdote Joiada e irmã de Acazias, o escondeu de Atalia, e não foi morto.” (2Cr 22.10-11).

E assim podemos acompanhar todas as listas do cativeiro e finalmente as duas genealogias de nosso Senhor. A de Lucas que o filia a Adão, como semente da mulher que haverá de esmagar a cabeça da serpente (o que de fato fez) e a de Mateus o filia a Abraão com quem fez a Aliança do qual o próprio Jesus é o fiador.

Embotado em si mesmo Israel preservou a linhagem da qual nasceu nosso Senhor, que ao transformar a organização de seu povo na forma de Igreja o mandou ir por todas as nações e pregar seu Evangelho.

Um só povo. Uma só missão: Louvar a Deus! Dois períodos distintos: o de Israel e da Igreja com missões “sub-missões” distintas:

Em Israel destacou-se a proteção das Escrituras e da linhagem do Messias. Era época de Isolamento e isso chegou ao fim.

Com a Igreja a palavra de ordem é: Vão pelo mundo afora e divulguem a obra do Messias e como ele ensinou as Escritura. É época de missões!

sábado, 8 de junho de 2013

O Povo de Deus (Parte 1)

Provavelmente todos os cristãos concordarão que Israel foi o antigo Povo de Deus. Concordarão que foi, pois nem todos concordam que o atual Israel é a continuidade do Israel da Bíblia (mas esse é outro assunto, para outro artigo).

Tanto Israel teve, quanto a Igreja tem a missão primordial de adorar a Deus sendo para ele “povo peculiar”. Entretanto, Israel teve missões específicas e subjacentes a esta missão principal, que já cessaram, assim como a Igreja possui também e que só cessarão quando estiver diante de seu Senhor. Israel devia manter intocada a Revelação do SENHOR e a linhagem da qual nasceria o Messias (daí seu isolamento). A Igreja tem a obrigação de levar a todos os povos a Revelação do Senhor (daí sua catolicidade).

Abordarei estes aspectos em textos seguidos, mas uma primeira observação já se impõe: sob este ângulo, podemos dizer que Israel foi a “adolescência do Povo de Deus” assim como a Igreja é sua maturidade.

Israel estava sujeito a mandamentos que tinham como único objetivo mantê-lo isolado. Isso fica claro nos mandamentos sobre comidas e vestimentas, semeadura, etc. E isso pose ser visto até nos dias da Igreja Primitiva: “Quando Pedro subiu a Jerusalém, os que eram da circuncisão o arguiram, dizendo: Entraste em casa de homens incircuncisos e comeste com eles” (At 11.2-3).

Vamos examinar essas missões separadamente: Primeiro consideremos a manutenção da Palavra de Deus.

Até os dias de Abraão a Palavra de Deus foi preservada através da transmissão oral, a partir de então passou a ser grafada, porém poucos sabiam como fazê-lo e quem sabia o fazia em tabletes de argila, que depois de queimados no forno (como fazemos até hoje com os tijolos nas olarias) adquiriam sua maior resistência. Portanto, eram frágeis e pouco eficientes na quantidade de informações que podiam conter. Além de frágeis eram pesados. Imagine o peso do livro do profeta Isaías nessa mídia. Acho que seria necessário um caminhão para carregar toda Bíblia.

Além disso o modo como a linguagem da época era grafada através de caracteres pictográficos ou ideográficos, não permitia o registro da profundidade necessária a um pensamento complexo.

Não estou dizendo que não houvesse este tipo de pensamento. Havia sim. Os discursos dos amigos de Jó atestam a existência dele. Mas, tudo indica que eles foram preservados oralmente.

Acho que é necessário fazer um parêntese em prol da transmissão oral. Não podemos julgá-la à luz da que temos em nossos dias em que ela foi praticamente extinta. Nas sociedades antigas ela era muito importante e muitíssimo mais precisa. Podemos ter uma pequena amostra disso se nos lembrarmos de como nossos avós eram capazes de recitar o nome de seus antepassados com riqueza de detalhes sobres suas vidas.

A providência divina fez com que, não apenas novas mídias, mais portáteis e confiáveis, passassem a ser usadas (o papiro e principalmente o pergaminho). Mas também mudou o modo como os idiomas passaram a ser grafados. Houve um grande avanço com a invenção da sílaba.

A sílaba é basicamente articulação de dois, ou mais caracteres determinados, onde um estabelece o “ataque” (a consoante) e outro o estabelece o “som” (a vogal). As vezes uma sílaba já significa algo, ou seja: já é uma palavra. Porém, a maioria das palavras é constituída de duas ou mais sílabas e expressam tudo o que pode ser dito.

Em pedaços de couro macio (o pergaminho) costurados e enrolados, a revelação foi então escrita para segurança e certeza nossa. Dela se serviu nosso Senhor: “Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. Então, passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4.16-21). Neste texto, os detalhes (sábado, sinagoga, assistente, etc.) atestam que Jesus estava usando o texto hebraico da segunda parte da Bíblia dos Judeus: os livros proféticos.

Israel teve papel chave na manutenção dessa revelação. Era um povo isolado, sem artes cênicas ou plásticas e com apenas este livro, que era copiado meticulosamente. Tantas eram as precauções para que as cópias fossem fiéis que seria muito extenso relatá-las aqui.

Hoje temos a Revelação da vontade Deus e como ela deve ser vista em profundidade, através das luzes que o Evangelho nos proporcionam para entende-la e aplicá-la em nossa vida. Como Igreja somos obrigados a vive-la de conformidade com o modo que o Novo Testamento a interpreta e isso será nossa adoração a Deus.

Porém, nossa segunda missão, subjacente a essa, é: Indo por todo mundo (por essa razão a Igreja não possui um território), onde encontrar um lugar em que a vontade de Deus não é observada, divulgá-la. Isso é evangelização! Isso será levar as nações a louvar a Deus.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Mãos

Uma das figuras que a Bíblia usa com mais frequência é a das mãos. Não são poucos os lugares em que as Sagradas Escrituras falam delas. Surpreendentemente, as usa não só em relação aos homens mas principalmente a Deus.

Em muitos lugares se diz que foi a mão do Senhor que deu forma a todas as coisas, e a todas fez com destreza. Moisés repete muitas vezes que Deus livrou seu povo com mão forte e com mão forte também os protegeu e os disciplinou no deserto. E não foram poucos os que se dispuseram a cumprir uma ordem do Senhor se sua mão estivesse com eles.

O salmista diz que a mão do Senhor o guiaria mesmo que ele, tomando as asas da alvorada, procurasse afastar-se de sua presença. O profeta garante que a mão de Deus não está encolhida de modo que não possa abençoar. E o próprio Senhor promete a seu povo que os tomará pela mão.

Não bastasse tantas afirmações, feitas em uma linguagem tão simples, usando uma figura mais simples ainda, que até mesmo os mais simples entenderiam, o próprio Senhor, encarnado, usa concretamente as mãos a que se referira de modo figurado.

Com elas abençoou. Com elas teceu um chicote e limpou a casa do Pai. Com elas lavou os pés de seus discípulos. E, enquanto por elas era traspassado, perdoou-nos mostrando-nos que não sabíamos o que estávamos fazendo ao pregá-las no madeiro.

Não duvide! Eu e você e todos os seus eleitos, estávamos lá pregando suas benditas mãos, através de mãos iníquas, tão pecadoras quanto as nossas.

Com suas mãos furadas instou a Tomé que cresse, e o advertiu que mais bem-aventurados seriam os que não precisariam desse testemunho terrível.

Finalmente somos informados que haveremos de reconhecê-lo por suas cicatrizes: certamente as das mãos serão uma delas.

Como precisamos desta bendita certeza!

De suas santas mãos recebemos tudo: desde o pão de cada dia até o consolo de que carecemos nas aflições. De suas santas mãos recebemos os sinais que nos orientam a fazer sua vontade: “Como os olhos dos servos estão fitos nas mãos de seu senhor e os olhos das servas nas mãos de sua senhora, os nossos permanecem fitos nas mãos de nosso Deus”.

Delas esperamos bênção. Delas esperamos orientação. Nelas nos abandonamos e sabemos que se ele deixou que elas fossem traspassadas por nós, elas não nos afligirão sem necessidade ou razão.

Mas nunca esqueçamos de que, por vezes, somos nós suas mãos. Algumas vezes, através de nós suas mãos alcançam nosso irmão necessitado ou se levantam contra o erro.

Nunca “abafemos” seu Espírito e estaremos consagrando nossas vidas, como instrumentos dóceis de execução de sua vontade: como se fôssemos verdadeiramente suas próprias mãos.

Publicado originalmente em 2/9/2006

sábado, 25 de maio de 2013

Por uma evangelização consciente

Uma das funções mais deturpadas ao longo da história da Igreja tem sido, sem dúvida, a proclamação do evangelho.

Quando o Senhor ordenou a seus apóstolos que anunciassem as boas-novas, certas características, que estavam presentes neste anúncio não são encontradas mais na evangelização que é feita hoje.

O Senhor mandou como seus enviados, pessoas que anunciassem com sua autoridade. Não quem implorasse ou usasse de expedientes que aviltam seu Nome, degradam sua obra e desdizem sua mensagem.

Hoje, nos incluímos no rol dos que receberam esta sagrada incumbência e fazemos bem, pois ela foi dada a nós também, mas muitos de nós não aceitam as restrições que o teor da mensagem impõe a seus proclamadores. Nosso Senhor mandou que seus enviados anunciassem “boas notícias”. Mas as boas-notícias foram logo desvirtuadas. Transformadas em convite ou em um simples anúncio como outro qualquer.

As vezes são os proclamadores que não possuem entendimento claro do que anunciam e, por isso, anunciam a solução das necessidades humanas (prosperidade, saúde, e outras). As vezes são os ouvintes que, não conhecendo as “más-notícias” (a perdição em que se encontram), não fazem a mínima ideia do valor das “boas-notícias”.

Você está lembrado do que aconteceu a Paulo em Listra? Leia o capítulo 14 de Atos. Aquele povo ficou tão impressionado com o milagre feito por ele que foi necessário repreendê-los e chamar-lhes a atenção para que o verdadeiro Evangelho prevalecesse. O mesmo aconteceu em Atenas (Capítulo 17 de Atos): a pregação de Paulo no Areópago, que foi uma verdadeira agressão aos costumes atenienses, na realidade era uma exposição doutrinária da soberania e dos decretos de Deus para que o evangelho não virasse mais uma das muitas novidades que tinham prazer em examinar.

Após a morte do último apóstolo, a história nos informa que o Evangelho serviu a muitos propósitos. Desde dominação política, a partir da época de Constantino, até instrumento de exploração comercial.

Hoje ele é utilizado de tantas formas que fica difícil de ver o verdadeiro Evangelho. Em um mundo hedonista como o nosso, ele é manobrado para atender a um público cada vez mais ávido por diversão. Em um mundo cada vez mais comercial ele destaca as igrejas locais que possuem uma preocupação organizacional e mercadológica.

Na parábola de Jesus, as aves do céu encontram abrigos nos ramos da hortaliça que representa o Reino de Deus. Hoje o mercado agarra-se aos galhos da Igreja como uma planta parasita que não apenas mina sua força, mas compromete sua própria existência.

Não deixemos de proclamar o Santo Evangelho. Aqui, ali e acolá. Mas não nos deixemos envolver pelos valores do mundo, pois “o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente”. 1Jo 2.17

Publicado oginalmente em 26/9/2005

sábado, 18 de maio de 2013

Como vento e como fogo

Ao cumprir-se o dia de Pentecostes,
estavam todos reunidos no mesmo lugar;
de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso,
e encheu toda a casa onde estavam assentados.
E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo,
e pousou uma sobre cada um deles.

Não é raro encontrarmos nas Escrituras Sagradas algumas palavras que deixam claro a dificuldade de expressar o que elas descrevem. Por exemplo: “a cidade é de ouro puro, transparente como vidro”. Ou as que Paulo ouviu e disse que além de inefáveis eram ilícitas ao homem pronunciá-las.

Lucas, na descrição da descida do Espírito Santo sobre a Igreja em Jerusalém, também enfrentou essa dificuldade. Sabemos que ele procurou informar-se com exatidão, com os que viveram os acontecimentos. Cremos que ele foi assistido pelo próprio Espírito Santo na descrição feita. Mas atente para a descrição feita.

A casa em que todos estavam reunidos não foi sacudida por vento. Mas “enchida” por um som semelhante ao som que faz um vento impestuoso. Tampouco foi incendiada. Mas línguas “como de fogo”, separadas umas da outras, apareceram e pousaram: uma sobre cada cabeça.

Estes dois símbolos são sinérgicos e não podem ser apreciados separadamente, pois falam da mesma coisa.

O som de vento, certamente lembrava a judeus o Espírito de Deus (Ruach em hebraico: que é uma onomatopéia de respiração).

Era-lhes comum a lembrança de textos como: “Então, Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o SENHOR, por um forte vento oriental que soprou toda aquela noite, fez retirar-se o mar, que se tornou terra seca, e as águas foram divididas” (Ex 14.21). Ou do profeta Samuel a quem foi mostrado “os fundamentos do mundo” quando Deus descobriu-lhe as profundezas do mar pelo “iroso resfolegar das suas narinas” (2Sm 22.16).

Para eles o vento era símbolo do Espírito de Deus: seu sopro e sua respiração, que vivifica. Mas na casa em que se aglutinavam 120 pessoas o vento se faz presente apenas pelo seu som.

Já ouvi de muitas pessoas, e eu mesmo tive a experiência, de “sentir” um ambiente - no meu caso uma igreja - “cheia de som” em que os grandes pulmões de um órgão de tubos transmitia a impressão de que se podia tocar naquela “matéria etérea” que a tudo enchia.

O fogo também fazia parte da “memória simbólica” deles. O fogo da sarça não a consumia, o fogo do tabernáculo, cheio da “presença de Deus”, não consumiu a Moisés nem o povo sobre o qual se levantava como coluna. Mas, reduziu à cinzas, como castigo terrível, os filhos desobedientes de Arão. E, como sinal de aprovação, consumiu as ofertas sobre o altar.

Porém, naquele bendito dia “eram línguas como de fogo”. Como se fossem miniaturas daquela enorme coluna que acompanhava o povo pelo deserto. João vem novamente em nosso auxílio: “Vi como que um mar de vidro mesclado de fogo” (Ap 15.2). Inefáveis experiências. Eventos indescritíveis.

Mesmo não descritos em sua totalidade, foram fatos reais, que de alguma forma foram expressos através de analogias com outros fatos semelhantes já acontecidos.

Agora, pare e pense: Os elementos vento e fogo não estavam totalmente presentes. Porém, paradoxalmente, as palavras estavam. Eram idiomas! Hoje, talvez fossem coreano, russo, finlandês, árabe, etc.

Não houve uma “tradução simultânea”. O milagre não foi no ouvir, mas no falar: verbo falar é repetido 6 vezes nesse texto. O Espírito Santo capacitou a falarem imediatamente idiomas, que, via de regra, são aprendidos depois de muito esforço e muito tempo de estudo.

Eles não falaram coisas sem sentido: evangelizaram. Proclamaram a Jesus e as “grandezas de Deus”. Finalmente podiam ir “pelo mundo inteiro e pregar o evangelho a toda criatura”. Não ficaram em Jerusalém em sons desconexos fingindo idiomas.

Certamente esse tema também estava no pensamento do Apóstolo ao advertir a Igreja de Corinto: “Deus não é de confusão” (1Co 14.33). E essa advertência vale também para nós hoje.

 

NOTA – Este texto é um republicação do mesmo dp Pentecostes de 2008

sábado, 11 de maio de 2013

A Palavra e o Espírito do Senhor–Parte 2

Espero ter, no artigo passado, indicado, o por que da Bíblia, falar da “Palavra de Deus” como uma pessoa. Como também espero que você pense bem antes de imaginar que o apóstolo João, tendo tantos exemplos nos profetas de Israel, tenha se valido da filosofia grega, como dizem alguns para explicar a natureza divina de Jesus.

Não sabemos como a “Palavra de Deus” é Deus e ao mesmo tempo sua Palavra, do mesmo modo como não sabemos como somos matéria e ao mesmo tempo espírito.

Hoje, indo um pouco mais fundo, lembro que a Bíblia nos informa que a “Palavra de Deus” assumiu a natureza do homem que ela mesma criou. E se refere a esse acontecimento usando termos muito interessantes: “a palavra se fez carne” (Jo 1.14), “se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens, e, reconhecido em figura humana...” (Fp 2.6-8), “manifestado em carne” (1Tm 3.16). Porém, uma das mais interessantes aparece indiretamente. Veja:

“Pois ele, evidentemente, não socorre anjos, mas socorre a descendência de Abraão. Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo” (Hb 2.16-17). Ou seja: 1) Para socorrer a descendência de Abraão ele se tornou um deles (seus irmãos), 2) Misericordiosa e fielmente tornou-se sumo sacerdote para fazer propiciação dos pecados.

Fazendo um parêntese: Se ele veio socorrer a descendência de Abrão, como então seremos beneficiados? A resposta é dada por um descendente de Abraão (o apóstolo Paulo): “Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus” (Rm 2.28-29). Em outras palavras: Os descendentes de Abraão são aqueles que possuem a mesma fé na “Palavra de Deus” que Abraão possuía.

Concluído o socorro, feita a propiciação, há necessidade de estender sua obra. Aqui, na terra, ele confiou a nós (“E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado” (Mc 16.15)). Em lugares que não conhecemos – e parece que nos é vedado conhecer – compete exclusivamente a ele: “... quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder. Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte” (1Co 15.24-26).

Porém, enquanto tal dia não chega e ao mesmo tempo ele “prepara-nos lugar” (Jo 14.14.2-3), para não nos deixar órfãos de sua companhia, ele enviou-nos o Espírito do Pai – que também é seu, já que ele e o Pai, apesar de diferentes, são um – com a missão básica de continuar conosco. Não fisicamente, mas em nossos corações e mentes.

A continuidade da “Palavra de Deus” conosco, é expressa na Bíblia através de termos igualmente interessantes. Veja alguns exemplos:

1º - “ele vos dará outro Consolador” (Jo 14.16): A tradução de outro exige que se entenda outro da mesma espécie (outro que me substitua naquilo que eu estava fazendo). E o termo Consolador, refere-se a alguém que “fala ao lado”, um conselheiro, um advogado de defesa, um ajudador, um confortador, etc.

2º - “... vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (Jo 14.26). “Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim” (Jo 15.26). “Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir” (Jo 16.13). Observe que estes textos – instruções de Jesus aos apóstolos logo antes de ser preso no Getsêmani – falam basicamente da mesma coisa: o Espírito Santo terá como missão fazer com que eles se lembrem do que Jesus lhes ensinou e de como aplica-las.

3º - “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). “... nós, os que de antemão esperamos em Cristo; em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1.12-13): Observe que ele é também um selo que identifica aqueles em quem habita a “Palavra de Deus”.

Do Pai procedeu então a “Palavra”, verdadeiro Filho, que fez tudo o que lhe aprouve e para ele não voltou vazia. Do Pai e do Filho procederam o Espírito Santo, que já atuava desde a criação de todas as coisas, porém muito além de estar com seu povo, passou a estar em seu povo.

Glória seja pois ao Pai, ao Filho e ao Santo Espírito. Assim como era no princípio, e sempre será por toda eternidade.

sábado, 4 de maio de 2013

A Palavra e o Espírito do Senhor

Um leitor comum da Bíblia frequentemente se depara com a expressão “palavra do Senhor” e a entende como se entenderia a expressão “palavra do Antônio” ou, no máximo, “palavra do Rei”, uma vez que “Senhor” se refere a alguém com autoridade.

Um leitor mais acostumado com a Bíblia sabe que a mesma expressão (palavra do Senhor) pode se referir tanto ao que foi dito diretamente por Deus quanto aos Textos Sagrados. Ou seja: à própria Bíblia.

Porém, se o mesmo leitor passar a anotar as nuanças de cada texto em que essa expressão é encontrada, aprenderá lições preciosas. Veja:

Primeiro exemplo: Às vezes o que foi dito pelo próprio Deus veio diretamente de sua pessoa, outras vezes através de um intermediário: um profeta.

Diretamente: Temos como exemplo Gênesis 1.1: “Disse Deus: Haja luz; e houve luz” (que o Salmo 33.6 se encarrega de colocar dentro da expressão que estamos estudando: “Os céus por sua palavra se fizeram...”).

Através de um intermediário: É até difícil de fazer uma lista, pois explicitamente há mais de trezentos lugares em que encontramos algo como “veio a mim a palavra de Deus”, ou “então a palavra de Deus veio a...”. Mas, há um texto interessante que nos mostra o perigo de se ousar dizer o que ele não disse: “Então, veio a palavra do SENHOR a Jeremias, dizendo: Manda dizer a todos os exilados: Assim diz o SENHOR acerca de Semaías, o neelamita: Porquanto Semaías vos profetizou, não o havendo eu enviado, e vos fez confiar em mentiras, assim diz o SENHOR: Eis que castigarei a Semaías, o neelamita, e à sua descendência; ele não terá ninguém que habite entre este povo e não verá o bem que hei de fazer ao meu povo, diz o SENHOR, porque pregou rebeldia contra o SENHOR” (Jr 29.30-32)

Segundo exemplo: Às vezes a expressão “palavra de Deus” designa o próprio Deus, ou um enviado divino, que não há como deixar de concluir que se trate do próprio Jesus antes de sua encarnação.

Certamente você se lembra do diálogo inicial do Livro de Jeremias no capítulo 1. Repare bem nos versículos 4 a 9. O profeta declara: “A mim me veio, pois, a palavra do SENHOR, dizendo: Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações”. Porém, o que é mais notável é que ele continuou argumentando com a “Palavra”. Observe:

Então, lhe disse eu: ah! SENHOR Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança. Percebeu? Ele chama de “SENHOR Deus” (e SENHOR é a tradução do Nome sagrado de Deus que os antigos não pronunciavam) aquilo de que inicialmente foi dito ser a “palavra de Deus que lhe veio”.

E a réplica da “palavra” é contundente: Mas o SENHOR me disse: Não digas: Não passo de uma criança; porque a todos a quem eu te enviar irás; e tudo quanto eu te mandar falarás. Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o SENHOR. Depois, estendeu o SENHOR a mão, tocou-me na boca e o SENHOR me disse: Eis que ponho na tua boca as minhas palavras Note bem: O SENHOR o repreende, o exorta, o anima, promete-lhe sua total assistência, e – inusitado – diz: “agora coloco minhas palavras na tua boca”.

Percebeu? Jeremias argumentou, com a “Palavra de Deus”, que, por fim acabou colocando palavras em sua boca!

Há muitos outros casos emblemáticos, mas eu não posso deixar de lembra-lo de outro que conhecemos desde nossa infância: o de Samuel. Podemos encontrar sua história no livro que leva seu nome, mas destacarei os eventos do capítulo 3.

Samuel foi fruto das orações de sua mãe que ansiava por um filho. Como prometido, após desmamá-lo o levou para o templo como oferta ao SENHOR. De início o capítulo 3 declara: “Naqueles dias, a palavra do SENHOR era mui rara; as visões não eram frequentes” (1Sm 3.1). Aqui temos o fim do período do Juízes, no qual houve pouquíssimas revelações diretas de Deus (Gideão, Sansão...) e um total esquecimento do ensino da Lei de Moisés, apesar da obrigação dos levitas de a ensinarem as famílias a que se agregassem. O que mais caracteriza este período são as declarações de Jz 17.6 e Jz 21.25: “...cada qual fazia o que achava mais reto.

À noite, ao dormir, o SENHOR chamou Samuel, que imaginando ter sido chamado pelo Sacerdote Eli, seu tutor, foi apresentar-se a ele. O texto explica assim a confusão de Samuel: “Samuel ainda não conhecia o SENHOR, e ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do SENHOR” (1Sm 3.7). Observe que até aqui “palavra do SENHOR” pode ser sinônimo do que se refere o v1: visões. Já que os levitas haviam deixado de exercer a missão que lhes fora designada e a Lei de Moisés sequer era estudada.

Ao ser chamado pela terceira vez, Eli presumiu que Samuel estava sendo chamado pelo SENHOR e o instruiu sobre o que fazer. Ele fez. O que temos é impressionante: “Então, veio o SENHOR, e ali esteve, e chamou como das outras vezes: Samuel, Samuel! Este respondeu: Fala, porque o teu servo ouve. Disse o SENHOR a Samuel: Eis que vou fazer uma coisa em Israel, a qual todo o que a ouvir lhe tinirão ambos os ouvidos” (1Sm 1.10-11). Você percebeu? Veio o SENHOR. Ali esteve e falou com Samuel. Agora por favor. Releia o v7: “Samuel ainda não conhecia o SENHOR, e ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do SENHOR” (1Sm 3.7).

Samuel se encontrou com a Palavra do SENHOR.

A Palavra do Senhor, que cria a luz, os céus e todo o exército deles, (Sl 33.6), que troveja que está sobre as muitas águas, que é poderosa, que é cheia de majestade, que quebra e despedaça os cedros e despede chamas de fogo, faz tremer o deserto, faz dar cria às corças e desnuda os bosques (Sl 29.3-9) e que não volta vazia (Is 55.11)!

A Palavra do SENHOR age. Por isso a chamamos de Verbo (em nosso idioma é a classe de palavras que melhor expressa a ação).

A Palavra do Senhor encarnou-se e foi reconhecida em figura humana. Assumiu nossa natureza. Recebeu sobre si nossas enfermidades e nossa maldição.

Finalmente a Palavra do Senhor não nos deixou órfãos e sem ouvi-la. Inscreveu-se para não ser deturpada e vivifica-se em nossos corações mediante seu Espírito para não ficar na letra morta.

Ao Pai de quem procede a Palavra seja a glória. À Palavra que procede do Pai seja a mesma glória, pois é a expressão exata dele. E ao Espírito, que procede do Pai e da Palavra, e vivifica em nossos corações a obra do Pai e a expressão da Palavra, seja a mesmíssima glória, por toda eternidade. Amém.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Paz e Felicidade

Judá e Israel habitavam seguros,
cada um debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira,
desde Dã até Berseba, todos os dias de Salomão.
(1Re 4.25)

Essa declaração é surpreendente. Ela contém informações objetivas importantes, mas talvez sejam as informações subjetivas que mais nos interessem nos dias tão confusos que vivemos.

Objetivamente podemos deduzir que ela foi escrita depois da divisão de Israel (e por um escriba de Judá), ou seja: muitos anos depois do reinado de Salomão, do contrário não se referiria ao todo como Judá e Israel.

Ficamos sabendo também que Salomão promoveu dias de paz e segurança. Igualmente que a extensão geográfica de seu reino foi de Dã (ao norte, próximo da divisa atual com o Líbano) até Berseba (ao sul na altura da atual Faixa de Gaza).

Subjetivamente porém há muitas outras informações, começando na palavra habitar, pois ninguém habita debaixo de árvores, muito menos uma nação inteira. E, se habitar, não habitará segura.

A melhor explicação que já vi para este pequeno texto está no “Dictionary of Biblical Imagery”: “Um fazendeiro cansado termina seu longo dia no vinhedo, e enquanto o sol se põe, ele se assenta, sob uma das muitas figueiras que rodeiam sua casa. Sua esposa, senta-se ao seu lado e ambos olham o vale abaixo carregado de vinhas frutíferas que prometem um bom ano. Enquanto a safra prosperava, nasceu-lhes o terceiro filho. O Rei é um fiel servo de Deus, que pacificou as fronteiras do país e garantiu a paz e segurança do povo”. Esta é a imagem que o Antigo Testamento faz de felicidade.

Quando chegamos ao Novo Testamento temos uma figura igualmente desconcertante: “A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galileia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número” (At 9.31).

Como tinham paz? Já no capítulo 4 ficamos sabendo da prisão de Pedro e João e do interrogatório a que foram submetidos diante do mesmo Sinédrio que condenou o Senhor Jesus.

No capítulo 5 torna-se claro, através da mentira de Ananias e Safira, que o pecado, a despeito do poder com que o Espírito Santo impregnara a Igreja, ainda permanecia arraigado. E açoites que os apóstolos sofreram são prenúncios das perseguições que virão.

No capítulo 6, vemos que o pecado já tinha se alastrado. De mentira já havia se tornado murmuração. No capítulo 7 conhecemos o primeiro mártir.

No capítulo 8 a primeira perseguição instalou-se. E se esta contribuiu para que o Evangelho chegasse aos samaritanos, é no território deles que vemos o primeiro caso de tentativa de comércio das coisas sagradas.

E no capítulo 9, no meio da perseguição de Saulo, que é descrita como “respirando ameaças de morte contra os discípulos do Senhor”, Lucas nos diz que a Igreja tinha paz. Como entender isso? Entendemos facilmente o conceito do Antigo, mas como entender o conceito do Novo Testamento?

Do mesmo modo que a Igreja não é mais um país, e sim o povo eleito de Deus em todos os países... Do mesmo modo que o rei não é mais aquele que se assenta na Jerusalém terrestre, mas na Jerusalém celestial... Do mesmo modo que a garantia de nossa segurança não é a guarda das fronteiras do país que habitamos, mas a guarda de nossas almas... Assim é a paz da Igreja e por consequência sua felicidade. Afinal, aquele que disse “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27) não estava falando do que desconhecia. E essa “paz que excede a todo entendimento” (Fp 4.7) não foi apenas um cumprimento banal, dito quando se chega ou quando se sai. Custou sua vida.

Não confundamos portanto a diversão efêmera, por vezes imoral e pecaminosa que avidamente procuramos com a verdadeira paz e felicidade que só o Senhor pode nos dar.

sábado, 20 de abril de 2013

As quatro “Grandes Comissões”

Você já deve ter notado que ultimamente tenho escrito sobre os dias finais de Jesus. Domingo passado analisei rapidamente sua ordem: pastorear. Pois bem: hoje vou falar sobre a Grande Comissão. Aliás, sobre as quatro, pois cada evangelista a narrou de um modo diferente.

Observe que Mateus (28.18-20) faz do “ide” 1) uma consequência de Jesus ter recebido toda autoridade (ou poder) no céu e na terra. 2) Que tal missão consistia em fazer discípulos batizados obedientes aos mesmos ensinamentos que Jesus havia dado a eles, o que pressupõe mais do que um simples anúncio do Evangelho.

Marcos (16.14-20) também usa o termo “ide”, mas faz dele uma prova de fé. A incredulidade grassava entre os onze. Não creram no anúncio da ressurreição feito por Madalena (v9), nem no anúncio feito pelos dois que “estavam de caminho para o campo” (v12). Agora o Senhor lhes aparece em pessoa. Censura-lhes a incredulidade e dureza de coração e lhes ordena pregar o evangelho a toda criatura e promete a companhia de sinais aos que cressem.

A de Lucas (24.44-49) ocorre em um clima dramático, pois narra a surpresa dos apóstolos ao verem o Senhor ressuscitado. Tão surpresos, que, para provar não ser um “espírito” comeu com eles. Lembrou-lhes então do que havia falado e “lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras”. Revelou-lhes então como seria feito a evangelização dos povos: começando em Jerusalém, depois que fossem revestidos de poder.

João (20.19-23) inicia o relato falando da materialização de Jesus em um cômodo trancado e paradoxalmente mostrando suas mãos e seu lado ferido. A missão que Jesus lhes dá recebe então uma analogia com a missão que o próprio Jesus recebeu do Pai. E João é o único a declarar que ele soprou sobre os onze o Espírito Santo. Até hoje há divergências sobre o significado disso: era uma ação profética – uma representação de algo que estava para acontecer (como Aías rasgou a capa de Jeroboão em 12 pedaços (1Re 11.29-32)) – ou eles receberam o Espírito Santo e no Dia de Pentecostes receberam seu poder? A seguir garante-lhes o poder de perdoar pecados ou não.

O que há de comum: 1) Todas elas ocorrem após a ressurreição de Jesus. 2) Todas são unânimes em estabelecer como alvo o mundo. 3) Todas tomam por base a autoridade de Jesus, pois é ele quem envia.

O que há de diferente: 1) Mateus destaca a promessa do Senhor de estar com eles. 2) Marcos destaca (v20) que eles conseguiram. 3) Mateus e Marcos deixam mais claro a necessidade do batismo. 4) Mateus e Marcos usam um tempo verbal muito difícil de traduzir em português. Literalmente seria: “Enquanto vocês estiverem indo”, ou também é possível: “depois que você forem”. Porém, o sentido mais forte é a certeza de que terão de ir. Daí a preferência pela tradução imperativa IDE). 5) Lucas e João deixam mais claro a necessidade da orientação do Espírito Santo. 6) Lucas é específico em dizer que eles seriam testemunhas da morte e ressurreição de Jesus e que deveriam esperar em Jerusalém o momento certo de começar. 7) João é específico em dizer que eles teriam o poder de perdoar ou reter pecados.

Concluindo: O que podemos retirar de ensino para nós? Não há a menor dúvida de que o primeiro ensino é o que pesa sobre nossos ombros: a missão de manter a Grande Comissão cumprida, já que Marcos diz que ela o foi. E Paulo confirma esse ensino (Cl 1.23). Porém, sinceramente creio que já deixamos de fazer isso a muito tempo.

O segundo ensino é que a missão que o Senhor deu aos seus apóstolos, e, por extensão, a nós, é tão rica, quanto foi sua própria missão entre nós: Houve necessidade de quatro evangelistas para descrever ambas.

Tendo como alvo o mundo, como conteúdo o Evangelho puro, nossa missão entre judeus terá um aspecto, entre gentios terá outro. Porém, será tão difícil quanto a vida de uma ovelha no meio de lobos, às vezes só conseguiremos anunciar (como Paulo fez no Areópago), às vezes conseguiremos formar discípulos que, por sua vez formem outros (como Paulo ordenou a Timóteo que fizesse).

Não teremos o mesmo poder que os apóstolos tinham, mas contamos com algo que eles não possuíam (e ansiavam ter): a totalidade da revelação escrita (lembra-se de Paulo pedindo os livros e pergaminho que ficaram na casa de Carpo?), mas certamente estaremos cumprindo uma missão semelhante a de nosso Senhor.

sábado, 13 de abril de 2013

Pastorear

O exercício desse ministério está profundamente enraizado na tradição cultural e religiosa do antigo povo de Deus e, não tenho a menor dúvida, de que Jesus tenha escolhido de propósito a figura do pastor de ovelhas, para que, por sua simplicidade, os primeiros pastores de almas encontrassem claramente, não apenas na cultura, mas especialmente nas Escrituras as diretrizes do que significa ser pastor e legassem um modelo claro de atuação a seus sucessores.

Como pastor perto dos 30 anos de ministério ordenado, percebo que hoje faço muito mais o que as circunstâncias me impõem, e o que minhas ovelhas demandam, do que aquilo que os primeiros pastores me deixaram de modelo e principalmente o que a Bíblia exige de mim. E, tenho certeza, de que outros, como eu, percebem o mesmo.

É claro que sonho com uma reforma (o verdadeiro protestante sempre abriga em seu peito o não conformismo de Rm 12.1-2), mas não é possível fazer como fazemos nos computadores: apertar um botão de reset (ou desligar e ligar). As pessoas não são assim: As mudanças vêm pelo ensino persistente da Palavra de Deus, pela paciência e até mesmo pelos ouvidos moucos com que um pastor tem de receber afrontas.

O que a Bíblia ensina sobre pastores é mais do que um artigo pode comportar, mas, em linhas gerais, partindo da figura do pastor de ovelhas, podemos resumir dizendo que ele é quem cuida de um rebanho.

A ênfase maior que o Antigo Testamento dá nesse cuidado é na alimentação do rebanho, pois a palavra que mais se repete (mais de 160 vezes) tem sua raiz nesse contexto.

A primeira vez que ela aparece é em Gn 29.7 onde é traduzida por alimentar ou por apascentar. Volta a aparecer em Gn 29.9, 30.36, 36.24 e 41.2. E embora se refira a apascentar ou alimentar diversos tipos de animais (poeticamente até gazelas em Ct 4.5) merece destacar que o supremo Pastor tenha por primeira preocupação conduzir suas ovelhas a pastos verdes e às águas tranquilas (Sl 23.1-2).

O uso poético dessa palavra e seus derivados é importantíssimo. Em Pv 15.14 “a boca dos insensatos se apascenta de estultícia”. E o profeta Isaías (44.20) diz que o idólatra “se apascenta de cinzas”. Observe que nestes textos o verbo apascentar pode ser substituído por alimentar-se como a Versão Atualizada fez em Is 65.25. Mas, certamente o uso mais rico está em Jr 3.15: Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência”.

Por falta espaço menciono apenas que outro uso no Antigo Testamento era o domínio dos povos invasores que devoravam as cidades conquistadas (Mq 5.6). Literalmente: se alimentavam delas.

Porém, o que mais me impressiona é ver que uma das funções do rei de Israel era ser “O Pastor de Israel”: Confira o contexto de 1Re 22.17 e 2Cr 18.16.

Não há grandes mudanças no Novo Testamento. O quadro cultural e religioso continua, mas a Igreja introduz um elemento novo: O verdadeiro Pastor, do qual todos os reis de Israel e sacerdotes, eram apenas sombra, torna-se um pastor onipresente por seu Espírito em todos os corações. Porém, a lembrança concreta disso é realizada através da Comunhão dos Santos, em sua Igreja, que deve ser conduzida, por oficiais que recebem a tarefa de pastoreá-la.

Essa tarefa é dada de formas parecidas, mas com nuanças interessantes. Veja algumas:

Paulo dirigindo-se aos presbíteros da Igreja de Éfeso: “Atendei (prosecho) por vós e por todo o rebanho ...” (At 20.28).

Pedro dirigindo-se aos presbíteros de uma região enorme, que equivale atualmente à toda Turquia e a algumas regiões mais ao norte, ordena: “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, [...] pastoreai (poimaino) o rebanho de Deus que há entre vós, [...] como Deus quer;” (1Pe 5.1-2).

Por fim veja as ordens que Jesus deu a Pedro: “... perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? Ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Ele lhe disse: Apascenta (Bosko) os meus cordeiros. Tornou a perguntar-lhe pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Ele lhe respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Pastoreia (poimaino) as minhas ovelhas. Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta (Bosko) as minhas ovelhas” (Jo 21.15-17).

Temos, portanto, três palavras: Atender (prosecho), pastorear (poimaino) e apascentar (bosko).

Prosecho, além daqui (At 20.28), nas outras 23 vezes que aparece no NT pode ter pelo menos 7 sentidos correlatos: Acautelar-se (tanto da hipocrisia, quanto dos falsos profetas ou do fermento dos fariseus). Atender tanto a verdade como às palavras de Filipe ou às mentiras de Simão, o mago. Ocupar-se de mitos como Paulo proibiu aos efésios e aos cretenses. Dar-se, ao vinho ou aos espíritos enganadores. Aplicar-se à leitura, apegar-se com mais firmeza às verdades ouvidas e atender à palavra profética.

Já poimaino, em suas 11 aparições tem 5 sentidos básicos. Apascentar, como Mateus se refere a profecia de Miquéias, ou o próprio rebanho do qual se nutre. Guardar o rebanho mesmo que se refira a gado graúdo. Alimentar-se como os hereges fazem nas festas de fraternidade da Igreja. Guiar como o Cordeiro fará com os egressos da grande tribulação. E Reger como o vencedor mostrado a Igreja de Tiatira e o cavaleiro que monta o cavalo branco.

Por sua vez bosko é monossêmica e nas 9 vezes em que aparece no NT refere-se sempre a comer. Além de Jo 21.5 os sinóticos falam apenas da manada de porcos de Gadara e da vontade que as alfarrobas provocavam no filho pródigo.

Resumindo: Quando Jesus ordenou a Pedro, quando Paulo ordenou aos presbíteros de Éfeso e quando Pedro ordenou aos muitos presbíteros de um vasto território com muitas nações de culturas díspares (unificadas apenas pela fé cristã e um sistema de governo presbiteriano), estavam dando uma ordem razoavelmente clara: Cuidem, guiem e alimentem o rebanho do Senhor.

Obviamente estes verbos possuem modificadores ou predicados. E cuidar, tanto quanto guiar, ou alimentar, às vezes podem ser literais, para uma comunidade perseguida. Porém, via de regra, refere-se muito mais a necessidades da alma diante da nova fé que abraçaram.

Observe que Jesus toma figuras em profissões simples: Cerca de dois anos antes Pedro e André foram chamado por Jesus para ser “pescadores de homens” (Mt 4.18-19). Agora, Pedro é chamado a ser pastor do “rebanho do Senhor” (Jo 21.15-17).

Eu não estaria totalmente errado se dissesse que pastorear, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, é principalmente alimentar ou conduzir à alimentos. Não foi sem causa que se resumiu tudo na palavra apascentar, palavra derivada do latim pascere: “pastar”.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...