quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Meditação anual sobre o Pai Nosso

“... vós orareis assim:

Pai nosso, que estás nos céus... Mt 6.9”

Por que razão o Senhor Jesus nos mandou orar chamando a Deus de Pai? Os judeus de então tinham Deus como Pai e eventualmente se dirigiam a ele assim, mas no sentido de ser o Criador; não no modo tão pessoal em que a ordem do Senhor explicita.

Apesar de ser surpreendente, é, provavelmente, o maior privilégio que temos. E, se pensarmos bem, não é difícil, para nós, cristãos, entendermos a ordem do Senhor, embora saibamos que somos suas criaturas e que O Filho Unigênito - o eternamente gerado - é Cristo.

Essa comparação, entre o que somos e o que Cristo é, pode ser palidamente apreciada quando comparamos uma estátua e o filho de um escultor. Tanto a estátua quanto o filho foram originados no escultor, mas entre a estátua e o filho haverá uma diferença definitiva.

Ao nos mandar orar chamando a Deus de Pai o Senhor Jesus Cristo está pondo em prática o que decorre de sua obra. Aquilo que João expressou admiravelmente com as seguintes palavras: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.12-13).

Ele - o Senhor Jesus - passou a nos tratar como filhos de seu Pai. Como seus irmãos. Certamente você se lembra do que está na Carta aos Hebreus: “Pois, tanto o que santifica como os que são santificados, todos vêm de um só. Por isso, é que ele não se envergonha de lhes chamar irmãos, dizendo: A meus irmãos declararei o teu nome, cantar-te-ei louvores no meio da congregação” (Hb 2.11-12).

Somos filhos! Oramos ao Pai!

Entretanto, temos de nos abster do pecado da soberba e achar que essa relação é exclusiva, pois temos irmãos. E por isso devemos dizer “Pai nosso”.

Ele não apenas é meu pai. É pai também de meus irmãos. É pai de todos os que foram redimidos pelo seu Filho unigênito.

Se essa verdade fosse mais destacada hoje, não haveria os absurdos do exclusivismo onde alguém acha-se filho único de Deus e despreza os demais, ou coloca Deus a seu serviço.

Se ele também é pai de meu irmão, como devemos tratar uns aos outros? Com brigas? Divisões? Querelas?

Mas esta primeira frase da Oração do Senhor apresenta outro modificador: “que está nos céus”.

Ele não é qualquer tipo de pai. É o Pai celeste. O Pai que ama infinitamente, mas é infinitamente justo. O pai que não suspende sua justiça por amor, nem recolhe seu amor face a sua justiça. Seu perdão - expressão de seu amor - não é de graça. Pelo contrário, é enraizado em sua justiça.

Em suma: Temos um Pai.

Não apenas meu: nosso Pai.

Não qualquer tipo de Pai: o Pai celeste.

Não percamos pois a oportunidade de, curvados diante dele, dizer conscientemente: Pai nosso que estás nos céus!

domingo, 16 de novembro de 2008

Ainda sobre resumos

Não há grande dificuldade para se entender o que nosso Senhor chamou de “o primeiro grande mandamento”: Amar a Deus de todo nosso coração, de toda nossa alma e de todo nosso entendimento. Porém, o que significa realmente amar o nosso próximo como a nós mesmos?

Este “segundo grande mandamento”, que, nas palavras do Mestre, é semelhante ao primeiro, apresenta-nos diversas dificuldades de entendimento, pois temos de lidar com algo que a tradição cristã, no mínimo, evita examinar: o amor próprio. Se devemos amar nosso próximo como a nós mesmos, então devemos amar a nós mesmos.

Há muito tempo atrás ouvi de alguém, hábil em matemática, que devemos amar a Deus com 51% de nosso amor. Os 49% restante deveriam ser divididos igualmente entre nós mesmos e nosso próximo. Segundo seu raciocínio, a soma do amor que dedicamos a nós mesmos, com o amor que dedicamos a nosso próximo, nunca deve ser maior do que o amor que devemos dedicar a Deus. Tampouco o amor que dedicamos a nós mesmos deve ser maior do que o que dedicamos a nosso próximo e vice-versa.

Já escrevi aqui, que, dentro da cosmovisão bíblica, amor é fundamentalmente cuidado. Entretanto não é apenas cuidado. Se fosse a equação acima faria sentido: cuidaríamos daquilo que refere-se a Deus, com 51% de nosso tempo, esforço, capacidade, etc. e o restante dividiríamos igualmente entre nós e nosso próximo. Mas, como poderíamos conciliar tal entendimento com a ordem “amarás o Senhor teu Deus de TODO o teu coração”, que é o “grande e primeiro mandamento”?

Hoje – sem desconsiderar que amar é fundamentalmente cuidado – vejo mais como uma questão de atitude. Explico: Suponha que eu esteja diante de um dilema. Minha atitude deve levar em conta primariamente a vontade de Deus e em segundo lugar a vontade de meu próximo e a minha.

Observe que esta atitude pode ser aplicada tanto à mão direita quanto à fronte (tanto à ética quanto à doutrina). Vivemos em uma época em que a vontade e as oportunidades de se quebrar a lei de Deus são muito grandes. E não falo de grandes decisões. Falo do dia-a-dia. Falo de aborto, engano, relacionamentos e de tudo aquilo que se coloca em nossa frente a todo instante. O que fazer, ou o que pensar? Fazer e pensar em primeiro lugar aquilo que manda a lei de Deus e em segundo lugar aquilo que atenda ao meu próximo da mesma forma que me atenda.

Dois namorados me perguntaram sobre aborto. Precisei voltar atrás e mostrá-los que chegaram a esse ponto por não respeitarem primeiramente a lei de Deus sobre a castidade, e que estão pensando em eliminar a vida do próximo – o bebê – por não vê-la tão importante quanto a vida deles mesmos.

Como vou cultuar a Deus? Se o fizer do modo semelhante ao descrito na Bíblia, jamais terei um ambiente que agrade ao meu próximo, mesmo que ele tenha nascido na Igreja! Mas, para agradar meu próximo devo desagradar a Deus? Minha obrigação primária é agradar a Deus. Satisfeita, não posso impor ao meu próximo aquilo que agrada apenas a mim.

Nossa atitude concreta é o que conta ao falarmos de amor como cuidado. É exatamente disso que Jesus está falando quando mudou o segundo mandamento. Você notou que ele foi mudado? Veja: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (Jo 13.34).

Acabou-se a ambigüidade. Deus foi satisfeito de modo pleno. Todas as exigências de sua justiça foram cumpridas em primeiro lugar. Agora, aquele que conseguiu fazer isso tornou-se o padrão: Amai uns aos outros como eu vos amei!

sábado, 8 de novembro de 2008

Resumos

Domingo passado vimos como Salomão resumiu a busca de sentido para sua vida debaixo do sol em “vaidade e correr atrás do vento”. Vimos também que, contrastando, ele resumiu o verdadeiro sentido da vida em “temer a Deus e obedecer os seus mandamentos pois esse é o dever de todo homem”.

Ao tentar resumir algo tão amplo Salomão não está inovando. O primeiro a fazer um resumo dessas coisas importantes foi o próprio Deus. Afinal, não foi ele quem nos mandou amá-lo sobre todas as coisas, e amar nosso próximo como a nós mesmos? O que são essas ordens senão resumos?

Não há como cumprir os quatro primeiros mandamentos sem amar a Deus e os seis últimos sem amar ao próximo.

Aliás, quando indagado sobre qual era o maior de todos os mandamentos Jesus respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”.

Observe que estão diante de nós duas formas diferentes de se ver o mundo. Duas cosmovisões. E todas as duas, além de serem profundamente bíblicas, são completa e totalmente contrárias aos nossos dias.

Vejamos:

Da primeira - que nos ensina que amar a Deus sobre todas as coisas é observar os quatro primeiros mandamentos, e amar o próximo como a nós é observar os seis últimos mandamentos – deduzimos que, para Deus, amar pode ser até um sentimento, mas acima de tudo é uma atitude.

Dos quatro primeiros mandamentos (Não terás outros deuses diante de mim, Não farás para ti imagem de escultura, Não tomarás o nome do teu Deus em vão e Lembra-te do dia de descanso para o santificar) vemos claramente que Deus está estabelecendo como devemos nos relacionar com ele:

1. Devemos adorá-lo. Não a outra coisa ou pessoa. Isso fala de nosso culto à ele, e somente a ele. Cultuar a outro que não ele, em toda Bíblia, é chamado de adultério espiritual.

2. Fazer qualquer tipo de imagem dele é degradar sua pessoa ao nível de criaturas e portanto blasfemar contra ele.

3. Usar seu Nome levianamente é degradar sua honra ao nível comezinho de nossas futilidades e portanto menosprezá-lo.

4. Não reservar um tempo exclusivo – santificado – para estar com ele é deixar de desfrutar sua presença e aprender como cumprir cada vez mais os três primeiros mandamentos.

Ou seja: amá-lo sobre todas as coisas não é ficar perdidamente apaixonado ou “transpirar” sentimentos pré-fabricados. É fazer, mesmo que não seja adequado ao nosso mundo, aquilo que ele determina que façamos. Amá-lo é adorá-lo como ele quer ser adorado! Sobre todas as coisas!

Da segunda – contida nas palavras de nosso Senhor e Mestre: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” – aprendemos que amar nosso próximo como a nós mesmos é simplesmente: Honrar nossos pais, Não matar, Não adulterar, Não furtar, Não testemunhar falsidades e Não cobiçar.

Seria ocioso repetir o quanto essas disposições são necessárias para podermos viver em paz com nossos semelhantes. Mas novamente convêm repetir: Amar nosso próximo não é forçar sentimentos que não existem, ou fazer declarações hipócritas. É fazer, mesmo que não seja adequado ao nosso mundo, aquilo que o Senhor determina que façamos a nosso semelhante.

Porém, por que a lei e os profetas dependem disso? Simples: A lei foi dada para garantir que isso seja cumprido e os profetas tinham como sua missão principal advertir o Povo de Deus, quando se esqueciam dessa obrigação.

Aí surge a diferença entre o que é e o que deveria ser: Como a lei foi escrita em nossos corações pelo Espírito Santo todos esses mandamentos deveriam ser para nós motivo de prazer, e jamais deveríamos precisar de alguém que nos lembrasse de cumpri-los pois os desejaríamos mais do que o ouro e teríamos nele maior prazer do que no mel.

sábado, 25 de outubro de 2008

Eclesiastes para hoje

Gosto de pensar que o Livro de Eclesiastes como uma auto-biografia de Salomão. Não estou sendo original, nem sei quem foi o primeiro a ter essa idéia, mas fiquei muito alegre ao vê-la, pois sempre tive problemas para entendê-lo.

Em Eclesiastes a palavra “vaidade” é repetida 28 vezes. A frase “vi que tudo era vaidade e correr atrás do vento” é repetida 7 vezes e parece delimitar seções do texto. Já a frase “debaixo do sol”, repetida 27 vezes, informa o local da ação.

Lendo-o como auto-biografia, escrita em seus últimos anos, fica fácil de ver uma estrutura coesa ao longo do texto. A impressão é de que ele registrou o quanto tentou achar sentido para sua vida “debaixo do sol” e como foi amargo o fim de cada busca: ”era vaidade e correr atrás do vento”.

Já tentei, diversas vezes, usando esta frase como marcador, resumir cada seção, ou pelo menos dizer do que ela se trata. Mas, se algumas, de tão obvias dispensam rótulos (por exemplo: a primeira), outras de tão complexas parece retratar uma profunda crise existencial.

Discordo de quem diz que naqueles dias não havia questionamentos existenciais, pois à luz do Livro de Jó (com todos os seus matizes de dor e questionamento não apenas da existência, mas também de merecimentos e recompensas) e dos Salmos 37 e 73, se não houvesse quem os entendesse, teríamos de admitir que foram preservados para os dias atuais.

Enquanto o Livro de Jó fala-nos de tais problemas à luz do sofrimento ocasionado por “forças espirituais”, Eclesiastes mostra-nos o sofrimento de quem busca sentido na vida material.

Veja a já citada primeira seção. Ela começa declarando que tudo é vaidade e perguntando que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol. Fala da eterna mesmice da vida, e da procura do Pregador em entendê-la. Porém, o que se destaca é que ele passou a examinar a vida “experimentalmente”: “Disse comigo: vamos! Eu te provarei com a alegria; goza, pois, a felicidade” (2.1).

E segue-se uma lista de experiências: Riso, alegria, bebedice, loucura, posses, feitos, aquisições, acúmulo de riquezas, desfrute de prazeres carnais e estéticos, que é concluída com a declaração seca: “Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol” (2.11).

E assim, as demais seções. Todas terminam com declaração semelhante.

O livro então ganha uma estrutura em que afirmações claramente contrárias ao Evangelho como: “Aquilo que é torto não se pode endireitar; e o que falta não se pode calcular” (1.15) ou “o que sucede aos filhos dos homens sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida, e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais; porque tudo é vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão. Quem sabe se o fôlego de vida dos filhos dos homens se dirige para cima e o dos animais para baixo, para a terra? Pelo que vi não haver coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua recompensa; quem o fará voltar para ver o que será depois dele?” (3.19-22), ganham sentido, pois foram ditas em um contexto determinado e são expressão de determinada época e de determinada busca e não verdades absolutas conflitantes com a “analogia da Fé”.

Outra vantagem é ver Salomão “redimido”. Explico: De 1Reis 11 sou obrigado a admitir que, ao morrer, Salomão levava uma vida de pecado longe de Deus, e morreu sob sua ira. Porém, se Eclesiastes, é sua auto-biografia, ele aproveitou para repassar-nos sua experiência, como que dizendo: “você quer achar sentido para a vida no materialismo? Tente. Eu “fui fundo” e só achei vaidade”.

Finalmente, a maior lição aparece nos últimos versos do livro quando ele diz que não há limites em “perscrutar”, mas “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem” (12.13).

Não era sem razão que Eclesiastes me fascinava na adolescência. É um guia seguro para a vida. Escrito por quem a viveu intensamente e só encontrou sentido para ela “acima do sol”.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Mais doce do que o mel e preciosa do que o ouro

Alguns estudiosos dizem que a maior tentativa que o homem fez, e continua fazendo, para viver sem Deus foi viver em cidades. O raciocínio é simples: quem vive fora das cidades vê com mais clareza as obras de Deus.

Talvez você nunca tenha morado na roça, mas certamente pode imaginar. Na roça é necessário, por exemplo, tirar água da terra – estou me referindo a roça sem os confortos modernos – de tal modo que além de ver que a água é um produto da graça de Deus, se vê claramente quando há água em abundância e quando míngua. Na cidade basta abrir uma torneira e para se sentir falta de água é necessário um grande período de escassez, pois os reservatórios garantem seu fornecimento diariamente.

Talvez isso fique muito mais claro se você pensar em segurança. Quem vive em uma casinha isolada está sempre sobressaltado e dificilmente fica sem, pelo menos, um cão de guarda. Na cidade a maioria dos perigos se origina em seus próprios moradores. Pense nas antigas cidades muradas.

As luzes da cidade escondem os céus onde o poder de Deus se manifesta de modo tão claro, que o salmista chega a afirmar “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo” Sl 19.1-4).

O estilo de vida nas cidades torna nossa percepção da vida tão opaca que só pensamos se o ano foi farto em chuvas quando os preços dos alimentos sobem; e, abrigados das intempéries da vida, nos esquecemos da graça, da bondade e principalmente das repreensões de Deus. Se o clima fica severo, temos os aparelhos aquecedores ou os de ar condicionado.

O estilo de vida nas cidades nos priva das grandes bênçãos de Deus. Você já notou como no Antigo Testamento comer tutano e gordura era uma espécie de prêmio? O salmista chega a dizer “A minha alma se fartará, como de tutano e de gordura; e a minha boca te louvará com alegres lábios” (Sl 63.5 Ed. Corrigida). Você se arriscaria? Seus níveis de colesterol permitem?

O mel, a que a Palavra de Deus é comparada por sua doçura, ainda é tido como um excelente alimento, mas seus níveis de glicose permitem usá-lo sem quaisquer restrições?

Essa crise pela qual o mundo passa mostra-nos também o quão longe ficamos de coisas que o próprio Criador delas usou para mostrar sua generosidade. Logo no começo da narrativa do Genesis, ao descrever a terra onde Deus plantou um jardim, lemos sobre a “... terra de Havilá, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom” (Gn 2.11e2).

O salmista que comparou a doçura da Palavra de Deus ao mel, é o mesmo que compara sua preciosidade ao ouro. Mas você observou que o ouro hoje só é “desejado” quando a montanha de papéis, sobre os quais as riquezas se assentam, entram em crise?

Em parte eu concordo que a cidades, de certa forma, nos afastam de Deus, mas, se nossos primeiros pais tivessem resistido ao inimigo e não caíssem será que nunca viveriam em cidades? Será que não teríamos cidades sem pecado?

Na verdade, tanto as cidades, quanto qualquer outras coisas que viermos a produzir debaixo de uma cultura pecaminosa, visarão sempre nossa própria independência. Independência de Deus. A menos que consagremos a ele nossa vida e o fruto de nosso labor. A menos que as riquezas de “origem injusta” – como são todas as riquezas produzidas longe do Criador – sejam trazidas, juntamente com nosso pensar, cativas aos pés de nosso Senhor e por elas o adoremos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Por uma Reforma Continuada

Desde a época apostólica a Igreja tem sido assolada por uma grande quantidade de inimigos. Inimigos externos e internos, como o apóstolo Paulo ensinou aos presbíteros da Igreja que haveria de esquecer seu primeiro amor.

Não estou falando das perseguições, pois tais começaram antes dela ganhar a estrutura com que foi caracterizada no dia de Pentecostes. O próprio Senhor Jesus era perseguido. Refiro-me aos atentados à sua essência.

Antes do último apóstolo morrer já havia facções que lutavam para impor à Igreja seu modo de pensar e de ver o mundo. O apóstolo João, bem velho, amparado por amigos ditou seu evangelho, preocupado com a Igreja que estava sofrendo as idéias gnósticas.

Após a era apostólica, ou o primeiro século, houve um período de mais de duzentos anos, em que todos os ensinos deixados pelos apóstolos, foram organizados em doutrinas bem definidas e estabelecidas. Dessa época nos veio o Credo Niceno, resultado do terceiro concílio e que até hoje é uma das balizas de nossa fé. A esse período chamamos de patrística, pois os historiadores referem-se aos sucessores dos apóstolos como “pais da igreja”.

O último desses gigantes foi Agostinho, que, com exceção de algumas coisas, é para nós um marco na interpretação da Bíblia e na formulação da cosmovisão cristã.

Após Agostinho, a Igreja entrou em um período estranho, a que muitos historiadores chamam de Era das Trevas. Era a idade média. Houve desenvolvimento no estudo das Escrituras, mas como imperou a clausura e muito do que foi registrado se perdeu em guerras, pouco se pode destacar, além do trabalho de Tomas de Aquino, que sujeitou o pensamento da Igreja aos princípios da filosofia de Aristóteles e a amarrou mais fortemente aos erros que já se manifestavam nos dias de Agostinho.

Nessa época encontramos também os pré-reformadores. Aqueles que viveram antes dos reformadores do século 16 e que já lutavam por um ou mais pontos que vieram caracterizar a Reforma Protestante. De um modo geral há algum acordo em torno dos nomes de John Wycliff na Inglaterra no século 14, John Huss na Boêmia, no começo do século 15 e Jerônimo Savanarola na Itália, no fim do século 15.

Porém, o movimento mais consistente aconteceu no século 16 e seu início é atribuído a Martin Luther na Alemanha.

Dizer que o ambiente cultural e político não contribuiu para a Reforma Protestante ou para os atos de Lutero, é o mesmo que negar a ação da providencia divina, mas dizer que a Reforma Protestante foi apenas um movimento político é desconsiderar seu papel destacado na vida espiritual de povos inteiros.

Se Lutero começou, Calvino foi quem deu a forma final. Pouco foi sistematizado depois de Calvino.

Mas, se as doutrinas cristãs já haviam sido sistematizadas no período patrístico, por que foram sistematizadas novamente? A Igreja havia tomado outros trilhos e a luta dos reformadores era para que ela voltasse à pureza apostólica, pois mesmo na era patrística havia sementes dos erros que frutificariam depois.

Além de Calvino, houve muitos outros: Zuínglio, Beza, Knox ... tantos.

E nós, hoje.

Cabe-nos continuar a obra desses homens que seguindo o exemplo apostólico lutaram pela pureza da Igreja. Como cada época tem seu tipo de sujeira, cada época deve ter também seus limpadores adequados.

A maior sujeira do século 16, a que desencadeou a ira de Lutero, foi a venda de indulgências. Qual será a de nossos dias?

Cabe-nos discernir e lutar contra ela, daí a necessidade de uma Reforma Continuada. Daí a necessidade de voltarmos sempre, não ao tempo de nossos pais ou avós, mas ao tempo dos Apóstolos. E o único caminho para isso é a Bíblia.

sábado, 27 de setembro de 2008

A crise e a confiança em Deus

wall street bull

Andando por Wall Street dificilmente você não verá uma enorme escultura de bronze com mais de três toneladas de peso. É esse touro ao lado.

Indecorosamente furioso, foi esculpido por Arturo di Módica, em comemoração ao fim da crise financeira de 1987 da qual poucos se lembram, mas foi pior do que a de 1929 que desfila até nos livros escolares.

A explicação de di Módica é que um touro representa bem a “agressividade otimista do sistema financeiro e a prosperidade da economia americana”, além de ser uma referência ao modo como os corretores da bolsa se referem a uma subida rápida de um papel: “jogado para cima pelos chifres de um touro”. Entretanto, só o fato de ser um touro, deixa qualquer estudioso da história do povo de Deus com uma pulga atrás da orelha.

Até hoje sucesso material e bênçãos divinas estão ligados na mente de todos de qualquer religião. Como os judeus também achamos que um homem rico é mais abençoado por Deus do que um pobre. E, como os discípulos do Senhor, também estranhamos sua declaração de que é mais fácil passar um camelo pelo furo de uma agulha do que salvar um rico.

Nos últimos dias, acompanhando a aflição de alguns irmãos cujos queridos moram na outra América e estão sobressaltados, resolvi escrever alguma coisa que os tranqüilizasse. Porém, o texto que eu julgava pronto na segunda-feira passada, precisou ser atualizado dia a dia ao ponto de, na quinta-feira à noite, já nem parecer mais com o primeiro.

E hoje, sexta-feira, a única coisa da qual tenho certeza é que tudo se originou no pecado da ganância, e a confiança geral é apenas na “descomunal força do touro”.

Não podemos, nem devemos ficar alheios ao que ocorre no mundo. Muito menos ser ingênuos ao ponto de pensar que estamos em uma ilha que jamais será afetada, pois nossos 208 bilhões de dólares nos deixa “blindados” contra qualquer coisa. Pensar isso é loucura.

Você não se lembra de como Jesus chamou ao homem que, diante de uma boa safra, aumentou seus celeiros, fez grande estoque e tranqüilizou sua alma dizendo: “tens muito em depósito. Come, bebe, regala-te”? As palavras de nosso Mestre ainda soam e se aplicam muito bem a quem julga-se seguro por ter muito: “Louco. Esta noite pedirão tua alma”.

Como pastor, tenho a obrigação de entender o que está acontecendo e exortar ou tranqüilizar o rebanho sobre o qual Deus me colocou. Leia as palavras do Salmo 49.10-15:

"Pois todos podem ver que os sábios morrem, como perecem o tolo e o insensato e para outros deixam os seus bens. Seus túmulos serão suas moradas para sempre, suas habitações de geração em geração, ainda que tenham dado seus nomes a terras.

O homem, mesmo que muito importante, não vive para sempre; é como os animais, que perecem. Este é o destino dos que confiam em si mesmos, e dos seus seguidores, que aprovam o que eles dizem. Como ovelhas, estão destinados à sepultura, e a morte lhes servirá de pastor.

Pela manhã os justos triunfarão sobre eles! A aparência deles se desfará na sepultura, longe das suas gloriosas mansões. Mas Deus redimirá a minha vida da sepultura e me levará para si".

Não adianta tentar eternizar-se dando “seus nomes a terras”, pois o destino dos que confiam em si mesmos é, na sepultura, terem a morte por pastor.

Por quanto tempo o touro ainda resistirá? Quantas crises ainda se abaterão sobre ele? Até quando se comercializará promessas de pagamento (origem da atual crise, que ainda sequer teve seu tamanho medido)?

“Blindados” mesmo estão aqueles que obedeceram o Senhor e não puseram seus corações nas riquezas. Felizes mesmo são aqueles cuja esperança não está limitada a esta vida.

domingo, 21 de setembro de 2008

A máquina do “fim-do-mundo”

Ligaram a máquina do “fim-do-mundo”! Advertiu-me um amigo impressionado com as notícias sobre o enorme acelerador de partículas europeu. Lá mesmo houve advertências, processos judiciais para impedir o funcionamento. E, na índia, enquanto muitos aguardavam o fim do mundo uma adolescente se matou de tanto medo.

Sei muito pouco sobre uma máquina dessas, mas sei que não é a primeira. É, de longe, a maior, mas outras já foram ligadas antes, e muito do que sabemos sobre o átomo e suas partículas aprendemos com elas.

Assuntos velhos: antes mesmo do nascimento de Jesus já se falava tanto sobre fim do mundo quanto sobre átomo. Sobre o primeiro, quem nunca leu as profecias de Daniel? E, sobre o segundo, acaso não lembramos das aulas de ciências sobre o filósofo grego que intuiu a existência de partículas constitutivas da matéria pelo simples raciocínio de se cortar alguma coisa continuamente em sua metade? Dizia ele: - Chegaremos a uma partícula que não poderá ser mais cortada. A palavra grega ‘átomo’ significa literalmente ‘não cortável’.

Meus professores nunca entraram em acordo se isso foi pensado por Leucipo ou Demócrito. Mas como o primeiro foi professor do segundo, para mim, essa questão não é tão importante.

Mas, voltando ao meu amigo alarmado. Ouvi todas as suas considerações - achei melhor não contar outras que eu conhecia, com medo de que ele ficasse mais alarmado ainda – e fiquei pensando duas coisas quase que paradoxais: como seria bom se fosse mesmo o “fim-do-mundo”! Afinal, não esperamos, oramos e nos empenhamos para que esse dia chegue logo?

Mas não é. Esse dia não será provocado pelo homem. Será uma intervenção divina. Não é uma “maquininha dessas” que fará o trabalho de Deus. Por mais importante que ela seja, é apenas uma “máquina de ver”. Explico:

Se você gosta de história tanto quanto eu, já deve ter percebido que a invenção das lentes foi um marco divisor no progresso da ciência. Com o microscópio um mundo invisível tornou-se examinável e com o telescópio o que era distante veio ser considerado em uma mesa de estudos.

À medida que os microscópios foram ficando mais potentes se percebeu que aquilo que parecia uma coisa só, como a pele, na verdade era constituída de várias celinhas (do latim: “celullas”), que no microscópio mostravam-se constituídas de partes menores, que por sua vez, eram constituídas de outras partes ainda menores.

Estava claro que quanto mais potente fosse o microscópio menores seriam as partículas que poderiam ser vistas. Mas quando se veria o átomo? Que potência deveria ter o microscópio que o mostrasse? Um cientista chamado Dalton no início do século XVII pensou: Não vamos esperar vê-lo pois já há informações sobre o que ele é. E postulou dentre muitas coisas que tudo é constituído por átomos e os átomos são as menores partículas.

Resumindo cem anos de história, Niels Bohr completou o modelo que conhecemos até hoje: O átomo possui um núcleo composto de prótons (positivos) e nêutrons (neutros). Ao redor deste núcleo orbitam os elétrons (negativos). E, quando um elétron migra de um átomo a outro, há produção de eletricidade e alteração das qualidades de ambos os átomos.

Do século XVII para hoje houve muitas outras descobertas. Descobrimos diversas partículas menores do que o átomo que o constituíam. Chegamos a “cortá-lo” - lembre-se que, por definição, ele era “não cortável”.

Mas o modelo de Bohr já era suficiente para se pensar (pois até hoje não vimos o átomo): Os elétrons são como os planetas que sempre vimos orbitando o sol. Mas não bastaria arranjar um microscópio mais poderoso? Não. Essas partículas são menores que a substância (onda ou partícula) da luz, que deveria iluminá-las para que as pudéssemos ver. Por isso o acelerador as emite em alta velocidade e observa o resultado do choque de uma contra outra. Mais ou menos como as partículas que os tubos de nossos aparelhos de TV emitem partículas para se chocarem contra a tela em uma ordem tal que produza imagens.

As Escrituras Sagradas ensinam que, ao examinar as coisas criadas, o homem aprende tanto sobre Deus que se torna indesculpável perante ele. Agora, repare bem: isso é dito sobre o homem comum fazendo uma observação comum. Imagine o quanto Deus tem por indesculpável aquele que examina suas obras com requintes científicos e aparelhagem sofisticada?

E, se, conforme nos ensina o Salmo 8, quando o olho os Céus compreendo que sou nada perante Deus, o que deveríamos então entender, quando “contemplamos” maravilhas como essas?

Essa maquineta não deve nos assustar. Ela está cumprindo suas maiores funções: fazendo com que os filhos de Deus exultem pelas obras do Criador e tornando os céticos mais indesculpáveis ainda.

domingo, 14 de setembro de 2008

A cultura e a transmissão do Evangelho

Há alguns dias atrás defendi a existência de uma “estética cristã” normativa para o bom relacionamento entre cristãos e para o “bom testemunho” evangélico. Entretanto, não posso deixar de explicar que, apesar de não estar subordinada, boa parte de sua expressão é afetada pelo contexto cultural em que vivemos.

Ninguém está isento de avaliar o mundo de acordo com a cultura em que o percebe e o expressa.

Isso não é difícil de entender.

Em todos os lugares em que, falando da dieta de João Batista, mencionei as diversas formas como os judeus de então comiam gafanhotos, a estranheza de meus ouvintes foi constante. Em alguns lugares ouvi nitidamente um “eeca”. Porém, o que um judeu de então pensaria de nós se soubesse que comemos porco? Pior: os intestinos do porco? Será que ele também não diria: “eeca!”?

Um amigo meu que não suporta certo tipo de música evangélica contemporânea, pois o lembra do “clima dos barzinhos”. Quando eu disse que engolia obrigado o gospel rock tão comum nas igrejas hoje, pois me trazia reminiscências das bobagens que cantei quando adolescente, ele estranhou.

Percebemos o mundo ao nosso redor através de nossos cinco sentidos, mas o decodificamos através dos valores que moldaram nossa forma de entendê-lo, e tais valores tanto podem ter sido desenvolvidos por nós mesmos (como a música para mim e para meu amigo) quanto podem ser expressão da cultura em que fomos criados (como o caso dos gafanhotos e dos porcos).

Mas, se não estamos isentos de “ver o mundo” através dos óculos de nossa cultura, também não estamos isentos de expressá-lo da mesma forma. E aqui, parece estar o maior problema.

Alguns dizem que o Evangelho deve ser expresso através de todas as culturas existentes para atingir a todas as pessoas. Outros dizem que ele deve ser expresso a todas as culturas existentes, mas apenas através dos “meios culturais” que não desdigam sua mensagem.

Parece-me que a última opção é a correta.

Você já notou que Deus proibiu-nos certas coisas? Por exemplo: somos proibidos de “fazer a obra do Senhor relaxadamente”, de substituir a ação de seu Espírito pela “força ou pela violência”, e de sermos “parciais na apresentação do conselho de Deus”.

E, ao contrário, podemos resumir com as instruções dadas a Tito: “Torna-te, pessoalmente, padrão de boas obras. No ensino, mostra integridade, reverência, linguagem sadia e irrepreensível, para que o adversário seja envergonhado, não tendo indignidade nenhuma que dizer a nosso respeito” (Tt 2.7-8).

Além de ser um padrão ético de “boas, ou belas obras” Tito foi ordenado a usar “palavras sadias, hígidas, não ambíguas”, que não pudessem ser condenadas.

Ou seja: estamos proibidos de ensinar irreverentemente, ou com linguagem chula! E isso transcende a qualquer cultura!

Como então alguns querem se valer de blocos carnavalescos, de boates, de baladas ou similares, para transmitir o santo Evangelho?

A transmissão do Evangelho, ou de seus conteúdos, está indelevelmente associado a certos valores estéticos e éticos, que, algumas vezes, dependem da cultura, mas na maioria delas a transcendem.

Dizer que a cultura é neutra ou que foi redimida pela cruz é uma das grandes bobagens de nosso século. Se ela for neutra então podemos usar todas as expressões de “porneia” para comunicar exatamente aquilo que mais as condena. Se ela foi inteiramente redimida pela cruz, então todos também foram e não há necessidade alguma de se evangelizar.

Que evangelho anunciamos? Se for o verdadeiro, como estamos anunciando-o? Acho que aqui cabe bem a exortação do Apóstolo: “Suportai-me, pois. Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo. Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo. Se, na verdade, vindo alguém, prega outro Jesus que não temos pregado, ou se aceitais espírito diferente que não tendes recebido, ou evangelho diferente que não tendes abraçado, a esse, de boa mente, o tolerais”. (2Co 11.1-4).

domingo, 7 de setembro de 2008

Felicidade medida?

Nessa semana divulgou-se o resultado de uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas expressa em um índice de nome, no mínimo, interessante: Índice de Felicidade Futura. Fiquei surpreso: O Brasil está em primeiro lugar!

Fui examinar.

A pesquisa é dirigida a jovens entre 15 e 29 anos e através de perguntas objetivas e subjetivas busca avaliar qual é a sensação do jovem frente a situação atual e a situação futura de seu respectivo país (é feita em 132 países).

Na realidade há dois índices: o de Felicidade Presente e o de Felicidade Futura, sendo que no índice de Felicidade Presente o Brasil está em 22º lugar com a Dinamarca em primeiro. Ou seja: a sensação que esse grupo tem atualmente é que a vida vai melhorar, pois se hoje os jovens de 21 nações se vêem em melhor posição do que os jovens brasileiros, a expectativa dos brasileiros é a maior de todas.

Porém o que a pesquisa chama de felicidade está atrelada indissociavelmente ao bem estar financeiro. Aliás, é como se dissesse: “o dinheiro pode até não comprar a felicidade, mas compra - ou possibilita - a aquisição de coisas que nos fazem felizes”.

Não nego que um bem estar financeiro, ou econômico, nos torne menos preocupados com as dificuldades que eventualmente nos assediem. Também não nego que proporciona a possibilidade de realização de sonhos, projetos ou desejos. Mas será que isto não é apenas parte da felicidade? Não foi por essa razão que Jesus chamou de louco aquele homem que tranqüilizou sua alma quando encheu seu celeiros?

Há também a satisfação de ser “bem sucedido”. Não importa muito em que. Mas, o sucesso em pequenas coisas provoca certo sentido de bem-estar difícil de ser avaliado. Por exemplo (a seguinte conversa é verdadeira): - Olha, para teu carro, funcionar direito, use um aditivo na gasolina. Basta por uma medida para cada tanque, e ... seja feliz!

Esses sentidos estão dicionarizados: felicidade (do Latim felicitate) s. f., ventura; bem-estar; contentamento; bom resultado, bom êxito; dita; qualidade ou estado de quem é feliz. Porém, nas Sagradas Escritura, o sentido da palavra felicidade é muito mais amplo. Repare que a pesquisa e parte do verbete do dicionário referem-se a um estado de satisfação fruto de sucesso material, mas a Palavra de Deus é bem clara: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19).

Veja também o contraste com as palavras de Jesus, quando, por nove vezes, ele define os que são felizes: “’Felizes’ os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus” (Mt 5.3).

Para o verdadeiro cristão a felicidade não está condicionada ao sucesso material. É claro que o sucesso material influencia até mesmo seu ânimo, porém sua felicidade está em valores maiores, como o que é mostrado pelo seguinte texto: “Feliz és tu, ó Israel! quem é semelhante a ti? um povo salvo pelo Senhor, o escudo do teu socorro, e a espada da tua majestade” (Dt 33.29). Essas benditas palavras cumprem-se na Igreja: o verdadeiro Israel de Deus.

A felicidade do verdadeiro cristão não pode ser avaliada em índice, pois transcende as coisas materiais que são mensuráveis e expressa a fé no eterno, diante do qual tudo pode faltar, mas ele permanece.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Como escolher um candidato

No livro “O Espírito das Leis”, Montesquieu nos ensina que os governos ditatoriais e tiranos se mantém pelo medo, os governos monárquicos pelos princípios da honra e os governos democráticos pela virtude, e faz questão de explicar que não se refere a virtude em seu sentido religioso.

Estamos vivendo os dias em que os candidatos aos cargos de governo estão se apresentando a fim de nos convencer a votarmos neles. Se Montesquieu tiver razão - e acho que ele tem - podemos encontrar alguma virtude naqueles, que não se cansam de mostrar o quanto são bons, capazes e honestos?

Acaso seria virtuoso quem se apresenta como o único capaz de fazer isso ou aquilo? Ou quem enaltece seus feitos?

Falando sobre isso com um “candidato evangélico” ele me explicou: “nosso povo tem memória curta. Precisamos relembrar o que foi feito, senão votam na campanha mais bonita”.

Entendi. Não concordei, mas entendi. E deplorei!

Há uma figura que mostra bem a insensatez deste tipo de raciocínio: Imagine que você vá fazer uma viagem de avião com outros duzentos passageiros, e, ao chegar no aeroporto, seja informado que deve ir à determinada sala a fim de eleger um dos passageiros como piloto. Você se arriscaria numa viagem dessas? Você aceitaria a incumbência se acaso fosse o eleito?

Hoje, a escolha “dos pilotos de nossas cidades” não é feita pelo medo (embora a imprensa tenha noticiado que em determinados lugares, alguns estão ameaçando os eleitores), pois tal escolha é privilégio da elite que se impõe.

Também não é feita por sucessão familiar em que, por compromissos de honra, tenhamos que obedecer ao domínio de uma “família real”. Afinal ao estabelecer a República no Brasil, não apenas proibimos títulos de nobreza como desterramos apressadamente e à noite D. Pedro II, imperador de então.

Devemos escolher dentre nossos concidadãos os mais virtuosos e delegar-lhes poder de mando. A questão toda é: que critérios usaremos para descobri quais são os mais virtuosos?

Se nos fixarmos em Montesquieu o mais virtuoso será aquele para o qual o estado estiver acima de tudo, principalmente de seus interesses pessoais.

Encontraríamos sequer um que não tivesse qualquer tipo de interesse em ser eleito? Que abrisse mão do dinheiro que vai ganhar? Da influência que facilitará sua ascensão social ou a melhoria de vida de seus queridos? É difícil. É quase impossível. É praticamente impossível.

A ética cristã não condena o governante que ganha para ser governante nem o que acumula influência.

A Bíblia é clara: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. ... É necessário que lhe estejais sujeitos, ... por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. ... a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra” (Romanos 13.1-7).

Então, em quem votaremos?

Um bom critério nos é dado pelo Senhor Jesus. Na realidade ele nos foi dado para conhecer falsos líderes religiosos, mas acho que serve também para escolher políticos: “Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus” (Mateus 7.16-17).

Pelo contexto “frutos” tem um sentido claro: as características que acompanham quem é guiado pelo Espírito de Deus. Ou seja: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio” (Gálatas 5:22-23). Porém, como extrapolamos o contexto, e, de falsos religiosos, estamos procurando falsos políticos, o termo “frutos” poderia muito bem ser aplicado ao que ele já fez.

Não estou me referindo apenas a obras, ou leis, mas principalmente a decisões que ele tenha tomado em momentos de crise.

Se ficou “em cima do muro” ou foi pusilânime - posição mais confortável e preferida pela maioria - é de se imaginar que no futuro faça o mesmo e deixe seus governados arcarem as conseqüências.

Se assumiu posição, de que lado ficou? Do lado da ética, da verdade, da moral, da austeridade, dos bons costumes? Ou ficou do lado em que agradaria mais eleitores?

Lembre sempre: Quando você elege alguém, não está delegando-lhe poderes para lhe agradar, mas para fazer o que é direito e o que precisa ser feito.

Escolha bem. Você tem um mês para analisar.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Há uma Estética Cristã?

Não há como questionar a existência de uma ética cristã. Afinal as exigências que Jesus faz sobre o comportamento são maiores do que as que o senso comum - o orientador da ética geral - permite.

A ética geral diz que é errado matar alguém, mas a ética cristã diz que é igualmente errado odiá-lo. A ética geral apenas reprova o adultério como questão de “quebra de confiança”, mas a ética cristã o classifica como o único pecado cometido contra o próprio corpo. Há muitos outros exemplos.

Entretanto, não tenho visto acordo sobre a existência de uma estética cristã, que esteja para aparência do cristão assim como a ética está para seu comportamento. Ou, pelo menos, que, de certa forma, o obrigue a determinadas preferências como a ética cristã o obriga a determinados comportamentos.

Geralmente coisas assim são classificadas apenas como questão de gosto. Mas, será que qualquer uso que façamos de meios que atingem os sentidos de nosso próximo, ou deleitam o nosso coração, são indiferentes?

As Escrituras associam certos “aspectos” à realidades concretas, transmitindo-nos a impressão de que existe uma estética normativa. Veja os seguintes exemplos:

As referências que as Escrituras fazem a céu aparecem sempre associadas a claridade, luz, águas, alturas, harmonias, lado direito, caminho estreito, poucas pessoas, paz, etc. Ao passo que as referências a inferno aparecem sempre associadas a escuridão, trevas, sequidão, subterrâneos, barulho, lado esquerdo, caminho largo, multidões, guerra, etc.

A alegria sempre é associada com a virtude e a tristeza com o erro. Mas a alegria excessiva, sem domínio, também é condenada, como a tristeza pelos próprios erros é enaltecida.

A harmonia, a verdade, a cortesia, o frescor, os aromas e outros valores, que estão no limite entre a estética e a ética, são sempre mostrados como prêmios a virtudes cultivadas. Ao passo que seus opostos muitas vezes são usados para descrever castigos.

Prosperidade e penúria, saúde e doença, bom ânimo e abatimento, vitória e derrota, autocontrole e dissolução são também binômios antitéticos freqüentemente presentes e associados a bênçãos e maldições.

Há outras citações, mas, por amor à concisão, destaco as palavras do SENHOR através de seus profetas em que a beleza representa valores maiores. Por Jeremias (2.32) Deus se queixa de que a virgem não esquece seus adornos nem a noiva seu cinto, mas seu povo se esqueceu dele. E Isaías (61.10) refere-se a salvação como vestes e à justiça como manto tal qual o noivo que se adorna com um turbante e a noiva se enfeita de jóias.

O pregador nos ensina em (Pv 25.12) que “Como brinco de ouro e enfeite de ouro fino é a repreensão dada com sabedoria a quem se dispõe a ouvir.” e nos ordena: “Em todo tempo sejam alvas as tuas vestes, e jamais falte o óleo sobre a tua cabeça” (Ec 9.8). Porém nosso Senhor é mais explícito: “Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto” (Mt 6.17).

Certos limites, porém, estão presentes: “... as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso, porém com boas obras (como é próprio às mulheres que professam ser piedosas)” (1Tm 2.9-10).

Repare então que, muito próxima da ética, e debaixo de sua orientação, há, sim, uma estética cristã. Beleza e harmonia parecem ser seus valores principais, pois são os mais repetidos. Tal estética visa nosso próprio bem estar tanto quanto o bem estar de nosso próximo. Não tenho dúvida de que seja normativa e que estejamos obrigados a respeitá-la, pois além de exprimir valores eternos é a “manifestação cortez” da ética a que o Reino de obriga a todos os seus súditos.

sábado, 16 de agosto de 2008

149 anos de lutas

Na semana passada comemoramos 149 anos da implantação da Igreja Presbiteriana em nosso País. Na realidade comemoramos o dia da chegada do primeiro missionário, pois ainda a estamos implantando. Não posso dizer que foram 149 anos apenas de lutas, mas foram principalmente de lutas.

Encontramos receptividade e desafios.

Aliás, quando se anuncia o Santo Evangelho as respostas invariavelmente são as mesmas recebidas pelo Apóstolo Paulo no areópago em Atenas: Objeção, procrastinação e aceitação.

“Quando ouviram falar de ressurreição de mortos, uns escarneceram, e outros disseram: A respeito disso te ouviremos noutra ocasião. ... porém, alguns homens que se agregaram a ele e creram” (At 17.32-34).

Invertendo a ordem: encontramos receptividade entre os que já haviam conhecido as Escrituras pela mão dos colportores, que haviam visitado o Brasil anos antes, disseminando a Bíblia.

Encontramos receptividade também entre os que tinham luta comum contra o status quo, como os maçons e os republicanos, pois viam o protestantismo como uma posição política e cultural de vanguarda comum aos países mais desenvolvidos de então.

Algumas vezes tal receptividade resultou em conversões sinceras, outras vezes em apoio indispensável, mas sem comprometimento religioso, e outras em apenas cobeligerância contra um obstáculo comum.

A procrastinação teve também aspectos positivos, pois creio que ela é o fator principal da índole tolerante do brasileiro, que, se não foi extremamente receptivo, também não foi violentamente refratário como aconteceu em Espanha, Portugal e França e em outros países onde muito sangue foi derramado.

A objeção, assumiu os mais diversos aspectos. Sofremos perseguições e algum derramamento de sangue. Precisamos construir cemitérios, pois nossos mortos “não deveriam contaminar a terra santa onde descansava o corpo dos fiéis” apesar dela ser pública e não de uma denominação em particular. Tivemos de estabelecer escolas, pois nossos filhos eram proibidos de freqüentar a escola, ainda que fosse pública. Mas não há como comparar ao que nossos irmãos sofreram nos países citados.

A esse tipo de objeção - velada, política e algumas vezes violenta - correndo o risco de ser mal interpretado, atribuo à superstição (que acaba sendo o desenvolvimento dos mesmos fatores que geraram a procrastinação). e que infelizmente está sendo aumentada pelos “neo-evangélicos”. É principalmente neste ponto é que nossa luta de 149 anos continua.

Costuma-se dizer que o brasileiro é 1/3 indígena, 1/3 europeu e 1/3 africano. Portanto, 1/3 animista, 1/3 racionalista e 1/3 politeísta.

Não concordo. Pois o “europeu” que veio para cá havia ficado 400 anos debaixo da influência moura (mulçumanos que invadiram a península Ibéria através da África). Ou seja: o cristianismo que chegou aqui, com os portugueses, tinha muito pouco de Roma. Era mais místico, mais independente do Papa e mais submisso ao rei. Acima e tudo era “sebastianista”. Explico:

Portugal teve um rei (D. Sebastião), que foi morto com seu exército, enfileirados para o combate, mas esperando um sinal do céu para atacar o exército inimigo que estava na frente. Como o sinal não veio os inimigos atacaram com sucesso. No imaginário português, esse rei foi então guardado por Deus, mas voltará para “livrar Portugal”.

Essa crença era tão difundida, que Euclides da Cunha relata uma matança de crianças nas vizinhanças de Canudos, na esperança que o sangue delas trouxesse D. Sebastião de volta.

Ou seja: o cristianismo que chegou aqui com os portugueses era “messiânico”.

São esses os fatores que os neo-evangélicos e o movimento carismático se baseiam e mais atinge o brasileiro: O animismo, o messianismo e o politeísmo.

O animismo pode ser visto nas pajelanças travestidas de rodas de “cura divina”. O messianismo, nas promessas sempre renovadas - mas nunca cumpridas - de vitória sobre todas as vicissitudes. E o politeísmo no número enorme de santos especialistas e nas pessoas com “oração de poder”.

Nossa luta continua. Os mesmos desafios de 149 anos atrás ainda estão presentes.

sábado, 9 de agosto de 2008

O Pai, o Filho e os demais filhos

O curso de catecúmenos em nossa Igreja é, na verdade, um estudo aprofundado do Credo Apostólico e os que o fazem são, desde a primeira aula, expostos a uma afirmação inquietante: “Creio em Deus Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra”.

Chamo a esse artigo do Credo de afirmação inquietante por ele abordar dois tipos de paternidade e não deixar muito espaço para conjecturas: ou se crê que Deus as exerce ou não.

Quando o Credo chama Deus de Pai, está fazendo uma alusão direta à doutrina da Trindade em que a Primeira Pessoa é conhecida como Pai.

As Escrituras Sagradas estão cheias de afirmações sobre filhos de Deus, e nós, Cristãos, deixamos bem claro no segundo artigo do mesmo Credo: “Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor...”.

Como vemos na classe de catecúmenos é muito difícil de entender a relação entre a Primeira e a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, pois as Escrituras falam dela como uma relação de paternidade e filiação estrita: “Nós vos anunciamos o evangelho da promessa feita a nossos pais, como Deus a cumpriu plenamente a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus, como também está escrito no Salmo segundo: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei” (At 13.32-33).

A Segunda Pessoa da Trindade é filha da Primeira por geração: Geração eterna! A única comparação possível com o que conhecemos é a que o Apóstolo João usa: O Verbo.

Ele é Filho do Pai como a palavra (o verbo) é filho do falante. Como Deus é eterno, e falou na eternidade (antes que houvesse tempo) seu Filho “é eternamente gerado”.

Porém para que nós, nascidos no tempo, fôssemos alcançados pelas bênçãos decorrentes da “geração eterna” do Filho, ele se fez um de nós: “... ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.6-8).

Como se o artista perfeito resolvesse fazer estátuas de seu filho. Tanto as estátuas quando seu descendente poderiam ser chamados de “filhos”. Mas há alguma comparação entre a pedra esculpida e o descendente além da imagem?

Assim também nós, criaturas do Supremo Artista, fomos feitos imagem do verdadeiro Filho. Surpreendentemente, o Verdadeiro Filho, torna-se um de nós, a fim de sermos como ele é.

Graça impar!

“Por isso, é que ele não se envergonha de lhes chamar irmãos, dizendo: A meus irmãos declararei o teu nome, cantar-te-ei louvores no meio da congregação. E outra vez: Eu porei nele a minha confiança. E ainda: Eis aqui estou eu e os filhos que Deus me deu.

Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida.

Pois ele, evidentemente, não socorre anjos, mas socorre a descendência de Abraão. Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo. Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados” (Hb 2.11-18).

sábado, 2 de agosto de 2008

O Supremo Pastor e seus cooperadores

Aquele que chamou seu povo de rebanho foi o mesmo que, nos tempos antigos, era conhecido como O Pastor de Israel. O mesmo que inspirou a Davi - seu servo e também pastor desde a infância - a chamá-lo de pastor e atribuir-lhe todas as qualidades de um bom pastor.

Portanto, ele sabe o que é ser pastor. Conhece bem a natureza de seu povo para compará-lo a um rebanho.

Aquele que, feito um de nós, vendo aos que viera resgatar como “ovelhas que não tem pastor”, supriu-lhes as necessidades materiais, espirituais e disse de si mesmo: “Eu sou o Bom Pastor”. Comparou-se a um pastor que deixa noventa e nove ovelhas em segurança e sai em resgate de uma que se perdeu. E, depois de salvá-la, carrega-a nos braços de volta ao aprisco.

Portanto, ele sabe também que a melhor figura para representar seu povo é um rebanho. Um rebanho perdido e debilitado, que precisa ser trazido de volta nos braços.

Ele então chamou diversas pessoas como seus cooperadores e os dotou com o dom fundamental que todos os pastores devem ter: o cuidado.

*.*

Numa sociedade agropastoril, como era aquela em as Sagradas Escrituras foram escritas, um rebanho era o bem mais precioso que alguém podia ter.

Dele se extraía a lã e o leite e secundariamente a carne o couro, os chifres e as unhas. Porém, no Israel bíblico o maior valor do rebanho residia em sua “capacidade de culto”.

A maior parte dos ritos do culto deles consistia no oferecimento da vida de um cordeiro - o que prefigurava o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Mas não poderia ser qualquer cordeiro: devia ser primogênito, em seu primeiro ano de vida, sem qualquer tipo de defeito ou mancha: Uma matriz.

Levando em conta que as ofertas contínuas no templo chegavam a 800 cordeiros por ano, era necessário que os rebanhos “produzissem a milhares e a dezenas de milhares” para obterem outras matrizes.

Ora, se um rebanho tinha tanto valor assim para seu dono, o que dizer do rebanho do Bom Pastor? Aquele pelo qual ele não hesita em dar sua própria vida?

Nessa época, mesmo um pequeno rebanho, cuidado por seu próprio dono, demandava auxiliares. E, se o rebanho fosse grande, os próprios pastores rodiziavam-se nos cuidados diretos e indiretos, essenciais para a manutenção do pastoreio.

*.*

Ter cuidado com as ovelhas era fundamental, para o pastor que olhava para cada uma e distinguia tanto eventuais enfermidades como qualidades necessárias para servirem de culto.

Ter cuidado com os perigos era fundamental ao pastor que rodeava o rebanho atento ao que se aproximava.

Ter cuidado consigo mesmo era fundamental ao pastor que havia de passar a noite ao relento, e ser hábil no cajado com que acolheria a ovelha e no bordão que espantaria o lobo.

*.*

Hoje nossa Igreja recebe novos pastores. Todos terão por missão cuidar do rebanho em suas necessidades mais básicas. O farão lembrando-se sempre que o rebanho não lhes pertence e que o dono do rebanho o tem em tão grande valor que deu sua vida por ele. São pastores, e melhores pastores serão, se imitarem o Supremo Pastor.

Os três cuidados que citei ainda estão em vigor. Mas é necessário adaptá-los, pois as ovelhas de antes eram apenas tipos das novas ovelhas que o Senhor reuniu em sua Igreja.

Os lobos de outrora eram nada comparados à nova raça de hoje (geneticamente modificada nos laboratórios mais sórdidos dos corações pecaminosos e dos demônios mais hábeis).

E as necessidades pessoais não se limitam a suportar uma simples noite ao relento, mas os séculos de uma noite tenebrosa “até que o dia clareie e a estrela da alva nasça”.

Portanto, pastores da Igreja Presbiteriana da Ilha dos Araújos, sejam os que ministram às mesas, sejam os que se dedicam a oração e a palavra, “atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28).

sábado, 26 de julho de 2008

Yap os “Rahi” e nós

Querendo mostrar o quanto os valores dependem de nós mesmos e não das coisas em si, Peter Bernstein, em seu livro “O Poder do Ouro”, escreveu sobre uma das ilhas da Micronésia chamada Yap, e citou William Furness, antigo estudioso daquela cultura: “a comida, a bebida e as roupas dão nas árvores e são acessíveis a todos”. Os habitantes daquele pequeno lugar viviam com fartura: entre eles não havia opulência, mas também não havia miséria.

Porém não se sabe por que, partir de dado momento inventaram um modo de se destacar uns dos outros e criaram uma moeda. Na verdade um “objeto de valor”. Era uma pedra calcária extraída de uma ilha vizinha: os “Rahi” (ou Fei).

Em formato de discos, variavam em tamanho, desde o diâmetro de um pires, até outras que, de tão grandes, eram furadas ao meio para duas pessoas poderem carregar.

Quanto maior a pedra, mais rico era seu dono. E alguns eram “tão ricos” que tinham de deixar suas pedras próximas ao mar, onde eram feitas. Todos sabiam quem era o dono de qual. E, se as menores podiam ser usados como moeda de troca, as maiores representavam o patrimônio de uma família que podia ser deixado aos herdeiros. Mas nunca saíam dali. Roubá-los? Prá que? Alem de ser trabalhoso todos saberiam quem era o verdadeiro dono.

O mais interessante é que o “Rahi” da família mais rica não estava visível. Afundara em uma tempestade enquanto era trazido pelo dono que supôs ser melhor fazê-la na ilha de onde vinham as pedras, pois só teria de transportar o “Rahi” e não a pedra toda da qual ele seria esculpido.

Quando os alemães, na guerra, invadiram a ilha só conseguiram obrigá-los a construir uma pista de pouso “confiscando seus “Rahi”. Pintavam neles uma suástica - sem tirá-las de seus lugares - prometendo devolvê-las - apagar a suástica - logo que a pista fosse terminada.

Você deve estar pensando que esse pessoal de Yap era muito ingênuo, mas será que eles eram mais ingênuos do que nós?

O Apóstolo Pedro nos ensina que já nos foram dadas todas as coisas que conduzem à vida e a piedade. Temos a vida eterna e disso não duvidamos, mas somos piedosos? Ou seja: vivemos vidas santas?

Como os nativos de Yap recebemos de Deus os meios de vida. Eles receberam os meios de vida física e nós de vida espiritual. Temos tudo o de que necessitamos para viver a vida que Deus exige de nós, mas inventamos nossos “Rahi” para mostrar a todos o quanto somos espiritualmente ricos.

Não são verdadeiros “Rahi” algumas crendices que inventamos? E acaso conseguiremos ser mais ricos da graça de Deus usando nossas invenções? Acaso superaremos a abundância e a ordem com que ele nos sustém, fazendo pedras?

Ao criar essas coisas que não estão previstas em sua Palavra, a única coisa que fazemos é nos tornar mais orgulhosos e menosprezar nossos irmãos.

Correntes de oração, reuniões de poder, pactos ou votos embaraçosos, bênção de “irmãos poderosos”, copo de água sobre o rádio, Bíblia com o Salmo 91 aberto em direção da porta... o que mais?

Alguns anos atrás “quase bati” em um colega pastor que insistia em que eu batizasse o filho dele com água que trouxera do Rio Jordão.

Geralmente se diz: se não fizer bem, mal não faz. Faz sim! Em vez de receber com louvores a fartura com a qual Deus nos agracia, nossa atenção passa a ser desviada para confecção de pedras, às quais fatalmente daremos mais valor do que ao que vem das divinas mãos.

Examine bem sua vida. Veja se você está fazendo - ou já fez - alguns “Rahi”. E saiba de uma coisa: eles só servem para lhe prejudicar. Livre-se deles.

sábado, 19 de julho de 2008

Lembranças da adolescência

Quando leio o Salmo 23 sempre me lembro de que Davi estava falando do que conhecia bem. Afinal, quando adolescente, ele cuidava das ovelhas de sua família. Mas, repare bem: quando adolescente.

De fato, depois de ir levar comida a seus irmãos que estavam no campo de batalha contra os filisteus, não há mais indicações históricas de que ele tenha voltado para sua rotina de casa.

Chegando ao campo de batalha viu o pavor que Golias infundia nos soldados de Israel, inclusive em seus irmãos, e decidiu enfrentá-lo. O resto da história sabemos desde a infância.

Vitorioso, foi levado por Saul para seu palácio e lá ficou. Mesmo quando perseguido por Saul e refugiado em cavernas, desertos, ou nações vizinhas, não há relato de que ele tenha voltado à viver na casa de seu pai; muito menos de que voltasse a cuidar de ovelhas.

Para mim este Salmo está calcado sobre as reminiscências de sua adolescência. Aliás prefiro pensar que ele tenha sido escrito em sua velhice, pois sinto nas entrelinhas um cheiro de saudade próprio de quem já viveu bastante.

Aquele que, quando adolescente, fora pastor de ovelhas, agora é o “pastor de Israel”: E lembrando-se do que fazia às suas ovelhas, vê seu dever para com a nação sobre a qual reina. Nesse contexto é que entendo como ele percebe que o Bom Pastor é muito mais atencioso. “Nada me faltará”, portanto, é mais do que uma expressão: é sua constatação diária.

Nos cuidados de alimentar, pastos verdes e águas tranqüilas são retratos da suprema providência do Bom pastor. Providência tão especial que ele não conclui referindo-se simplesmente ao alimento físico, que poderia ser expresso por “sacia-me” ou “dessendenta-me”, mas com “refrigera minha alma” que fala muito mais de satisfação espiritual.

Nos cuidados de levar, fica ainda mais clara a preocupação espiritual. As veredas pelas quais ele é guiado não são descritas como gramadas, sem pedras, ou macias - como aquelas nas quais ele guiava seu rebanho - mas como “veredas de justiça”. E o vale perigoso, no qual a morte faz sombra, é enfrentado sem temor, pois o carinho do cajado que puxa pra perto e a prontidão da vara que afasta o perigo é verdadeiro “consolo”.

Nos cuidados de tratar, a mesa, o óleo e o cálice, as necessidade do espírito esclarecem totalmente que ele não refere-se a simples ovinos. A mesa, apesar de ser defronte, não é afetada pela presença dos adversários. O óleo não é usado para pensar feridas, mas para ungir a cabeça semelhantemente ao que se fazia a um sacerdote. O cálice, de abundante, transborda.

E, nos cuidados finais, ele sequer menciona o carnear ou a tosquia - finalidade primeira de uma ovelha - mas a habitação na casa do Bom Pastor, escoltado por sua bondade e sua misericórdia. Não por alguns dias, nem por uma temporada, mas para todo sempre.

O Salmo 23, por tudo isso, é um Credo em que as reminiscências do passado, falam do que ocorre no presente e apontam para a esperança no futuro. É também uma confissão da dependência divina de todos aqueles que conhecendo suas limitações de ovelhas confiam na graça do Bom Pastor.

Faça dele suas palavras. Eu já o fiz minhas.

sábado, 12 de julho de 2008

A alma redimida e seu Amado

As Escrituras Sagradas, em muitos lugares, nos exortam a progredir na fé: Jesus nos ordena a frutificar; o escritor da Carta aos Hebreus, igualmente, a que, deixando o leite, busquemos alimento sólido, pois atendendo ao tempo decorrido já deveríamos ser mestres; o Apóstolo Paulo deplora nossa meninice e exorta a que atinjamos a estatura de varão perfeito e em outro lugar a que desenvolvamos a nossa salvação. Progredir na fé não é algo opcional é uma obrigação.

Um belo exemplo de como progredimos na fé aparece no relacionamento entre os cônjuges do Cântico dos Cânticos, nas três declarações semelhantes da esposa:

Em 2.16: “O meu amado é meu, e eu sou dele”.

Em 6.3: “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu”.

Em 7.10: “Eu sou do meu amado, e ele tem saudades de mim”.

Essas afirmações retratam diversos estágios da maturidade do relacionamento conjugal. E, tomando os princípios de interpretação usados pelo Apóstolo Paulo no capítulo dez de sua primeira carta aos coríntios, podemos entendê-las melhor.

No primeiro estágio, com a avidez própria de quem encontra algo muito precioso - como aquela pérola de grande preço da parábola do Senhor - esse bendito relacionamento caracteriza-se por uma espécie de “egocentrismo” da esposa em que se destaca seu afã em afirmar posse sobre seu amado.

A mútua pertença está presente, mas note a ordem: “o meu amado é meu”. Só depois ela afirma “e eu sou dele”. Assim também ocorre ao cristão no início de sua vida.

Os que insistem em permanecer nesse estágio transmitem a impressão de que Deus lhes é propriedade exclusiva. E chegam a tratá-lo como servo, determinando e exigindo dele as coisa mais estapafúrdias e pueris. Se não chegam a negar a fé por palavras o fazem pelas obras.

Os que procedem amadurecendo chegam ao segundo estágio em que as relações de pertença ainda continuam mútuas, mas a ordem se inverte: “Eu sou do meu amado” e depois “o meu amado é meu”.

Pelo conhecimento maior e melhor de quem é o Amado de nossas almas as prioridades também se invertem. Muitas coisas então passam a fazer sentido. Como, por exemplo, as palavras do Amado: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros...”.

E a medida da estatura da plenitude de Cristo é expressa na última declaração: “Eu sou do meu amado, e ele tem saudades de mim”.

Para que essa frase fique mais clara optarei por outra tradução, já que “saudades” dilui o significado do verbo hebraico.

A maioria das traduções usa o verbo desejar. E, de fato, a palavra hebraica aqui é a mesma com que Deus amaldiçoou o desejo da mulher logo após o pecado: “... o teu desejo será para o teu marido...” (Gn 3.16).

Neste estágio a Redenção aparece completa. A salvação foi desenvolvida ao limite do que é possível nesta vida. Já não é mais a mulher, que escravizada pelo pecado, tem seu desejo como propriedade do marido (o que ocorre até hoje aos que não foram redimidos por Cristo), mas é o marido que nutre desejos por sua esposa.

Dentro desse contexto é que se pode entender as ordens veementes da Escritura de que o marido deve amar a esposa como Cristo ama a Igreja.

Também, dentro desse contexto é que os redimidos, seguros, amadurecidos e firmes - quais cônjuges amados - desenvolvem sua salvação junto ao Amado de suas almas.

A vida conjugal redimida - de cônjuges redimidos - é um notável paralelo entre a vida cristã, até mesmo em seu desenvolvimento.

Por essa razão Deus detesta tanto o divórcio e a vida conjugal sem compromisso.

sábado, 5 de julho de 2008

Já não és digno de ser meu pai!

Sob nenhuma hipótese teríamos coragem de concordar com um filho que dissesse isso de seu pai. Porém, às vezes, agimos assim com nosso Pai celeste. E ele sabe! Não apenas sabe, como nos alerta, direta ou indiretamente, sobre o quanto isso o desagrada. Um desses alertas é a Parábola do Filho Pródigo.

Você se lembra? O filho caçula pediu adiantado a parte da herança a que tinha direito afrontando enormemente a seu pai, pois seu ato subentendia que o considerava morto.

Afrontou-o mais ainda quando vendeu tudo o que tinha, demonstrando que não pretendia mais voltar àquela casa e dela só queria levar o que pudesse ser gasto em outro lugar. E, aumentou a afronta dissipando o suor de seu pai dissolutamente em terra estranha.

Porém, longe da casa do pai, vendo-se reduzido ao destino de todos os que quebram o quarto mandamento - cuidar de porcos - quando tentou comer a comida deles, e não deixaram, percebeu o quanto aviltara-se. Lembrou-se então de onde era digno: a casa de seu pai.

Sua consciência pesada não o permitia ver a bondade do pai em toda sua extensão, mas tinha certeza de que, mesmo como reles patrão, seu pai era mais bondoso do que as pessoas com quem convivia.

Ensaiou um pedido de perdão cujo término era a frase “já não sou digno de ser chamado teu filho”. Nesta frase, que falta nos lábios do irmão mais velho, está expresso o verdadeiro reconhecimento da bondade de seu pai e de sua miserabilidade.

Nas queixas do irmão mais velho, e especialmente em recusar-se entrar na casa onde o pai recebera com festas o caçula, está presente a terrível inversão: “Já não és digno de seres chamado meu pai”.

Do mesmo modo que o caçula ele também recebeu adiantado a parte que lhe cabia dos bens: “... e lhes repartiu os haveres”. Mas, diferentemente do caçula, foi hipócrita e continuou em casa vendo no pai apenas um patrão: “... a tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos”.

Sua afronta ao pai tornou-se pior do que a afronta do caçula, pois ele obrigou o paia sair de casa tentando conciliá-lo.

Afinal, o que suas queixas e atitudes dizem senão que o pai tinha se tornado indigno dele? Não estava claro o pensamento de que ele era bom demais para ser filho daquele pai?

O comportamento do caçula parece-nos mais comum do que o comportamento do mais velho, mas, examinando bem, ele é apenas mais visível, e os dois são igualmente comuns.

Certa vez, explicando que, apesar de infinitamente amoroso, o Pai Celeste também é infinitamente justo e não deixará o ímpio sem castigo, alguém me respondeu: “... mas Deus não é assim. Se eu não guardo rancor de ninguém, imagine Deus”. Esta pessoa acabara de declarar que se achava mais digna do que Deus.

Quando rejeitamos a simplicidade do Evangelho e a verdadeira festa que o Pai faz ao receber de volta seu filho perdido, e, como o irmão mais velho, dizemos “não gostei”, não estamos cometendo o mesmo pecado?

“Já não és digno de ser meu pai. Vou procurar quem me satisfaça. Entrarei na casa onde eu seja valorizado” ... Como eu escuto, cada dia mais, frases assim!

Meus irmãos; desejo de todo coração, que atitudes assim estejam cada vez mais longe de nós. Especialmente considerando, que nossos quarenta anos como Igreja de Deus pressupõem, conforme as Escritura, que já “deveríamos ser mestres atendendo ao tempo decorrido”.

sábado, 28 de junho de 2008

Tempos de refrigério

O clima ameno das últimas semanas trouxe noites frescas o suficiente para se tirar o cobertor do armário.

Em noites assim o sono parece ser mais profundo e o silêncio “mais audível”. Depois das dez é possível escutar o barulho das corredeiras, e, de madrugada, os trabalhadores que passam na rua, encolhidos pela aragem fria, não fazem algazarra, sequer falam alto. Dá pra dormir até as sete horas.

Um dia desses, curtindo o frio da manhã, me lembrei das palavras de Pedro em seu sermão do dia de Pentecostes: “vos sobrevenham tempos de refrigério”.

O que será que entenderam com essa promessa de Pedro?

Para um povo em que a vida no deserto era conhecida ao ponto de terem como esperança textos como “nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum” (Ap 7.16), certamente a palavra refrigério tinha muito a dizer.

Essa mesma palavra é usada pelo salmista ao descrever os cuidados do Bom Pastor. Veja: “Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma” (Sl 23.2-3).

Há outros textos em que a palavra refrigério não aparece, mas a idéia está presente, seja em promessa seja na esperança de dias melhores.

Aliás, você já reparou quantas vezes a palavra “sombra”, cujo sentido é muito semelhante, aparece como figura da proteção divina? Não é às sombras das asas do Senhor que nos escondemos e que o próprio Jesus queria agasalhar Jerusalém?

Lembro-me de uma vez em que atravessei a ponte com o sol a pino - ao chegar perto dos correios vi que o termômetro marcava quarenta e seis graus - como a ponte pareceu comprida! Pareceu bem maior do que de fato é. Era apenas desconforto físico, mas foi terrível. Imaginei então o ardor que atinge a alma sem Deus. É muito pior. A tais pessoas é que Pedro promete “tempos de refrigério”.

Não sei que tipo de refrigério é o mais ansiado por sua alma. Entretanto posso garantir que só o Bom Pastor pode lhe dar.

Mas não o procure com o interesse. Nenhum de nós se agrada de alguém que nos procura visando satisfazer um interesse. A tais pessoas costumamos chamar de interesseiros. Por que seria diferente a reação do Senhor?

Sei que ele é rico em misericórdia, mas isso não é desculpa para tratá-lo pior do que você trata a seu igual.

Procure-o por ele mesmo.

“Agrade-se dele e ele satisfará os desejos de seu coração”.

terça-feira, 24 de junho de 2008

No leito

No leito, enquanto dormimos, recebemos bênçãos superiores as que eventualmente viríamos a conseguir levantando-nos de madrugada, dormindo tarde e comendo o pão que penosamente granjearmos.

No leito “consultando o travesseiro” e, meditando na Palavra do Senhor, aguçamos nossa consciência, fortalecemos nossas convicções e nosso coração nos ensina.

No leito somos objetos da graça e misericórdia de Deus, que muitas vezes nos devolve a saúde, ou “afofa-nos a cama” quando é sua vontade que permaneçamos nela.

No leito sem mácula honramos o amor conjugal pactuado em nossos corações, a exemplo do bendito pacto eterno através do qual somos do Amado de nossas almas e Ele é nosso.

Mas, no leito também “nadamos nossas lágrimas e alagamos nosso pranto” ao perceber o quanto os perversos se multiplicam e o mal se alastra ao ponto de atingir aquilo que de mais precioso tentamos preservar.

Ainda no leito deprecamos nossa situação e, ao fazer o balanço do nosso dia, e, o encontrando em falta, recorremos ao único de quem podemos dizer “em paz me deito e logo pego no sono, pois tu SENHOR me fazes repousar tranqüilo”.

No leito os pecadores não encontram descanso de suas preocupações. E, mesmo dormindo, o que lhes vem é a obsessão em construir “novos celeiros” e garantir à própria alma: “tens muito em depósito: come, bebe e regala-te”.

No leito os perversos maquinam perversidade. Abjurando o discernimento e a prática do bem, estudam como podem atingir o justo e como podem ser mais eficientes em fazer o mal.

No leito os ímpios repousam o corpo e afadigam a alma. Pois sabem que se aproximam céleres do último leito reservado ao corpo - fechado escuro e frio - enquanto a alma, por leito, terá calor e trevas; choro e ranger de dentes.

No leito os escarnecedores maculam o pouco do bem que ainda poderiam conservar e, cobertos de nódoas, o que fazem “o só referir é vergonha”.

O leito pode ser lugar de bênçãos e de maldições. Mas certamente é lugar de teste. Lugar muito propício a nos conhecermos melhor.

domingo, 15 de junho de 2008

Ser ou não ser?

As Escrituras Sagradas fazem diversas referências a crianças com muitos significados diferentes. Algumas vezes fala de crianças mesmo, outras vezes elas são metáforas de muitas coisas.

Veja que simbologia rica.

Quando Jesus falou a respeito da salvação usou uma criança como modelo dos que são salvos e disse: “... se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mt 18.3).

Diferentemente, através do profeta Isaías, Deus ameaça seu povo com governantes infantis: “Porque eis que o Senhor, o SENHOR dos Exércitos, tira de Jerusalém e de Judá o sustento e o apoio. Todo sustento de pão e todo sustento de água, e [todo] o valente, o guerreiro e o juiz; o profeta, o adivinho e o ancião; o capitão de cinqüenta, o respeitável, o conselheiro, o hábil entre os artífices e o encantador perito. Dar-lhes-ei meninos por príncipes, e crianças governarão sobre eles. Entre o povo, oprimem uns aos outros, cada um, ao seu próximo; o menino se atreverá contra o ancião, e o vil, contra o nobre.” (Is 3.1-5).

E tais símbolos não param por aí. Pedro fala das crianças recém nascidas, como um modelo a ser imitado no desejar do genuíno leite espiritual. Como se dissesse: do modo como as crianças anseiam pelo leite da mãe, assim devemos ansiar pela Palavra de Deus.

O Escritor de Hebreus nos ensina que nosso desejo deve ser deixar de lado a infantilidade, que é alimentada de leite, e não consegue entender além dos rudimentos da fé – como imposição de mão e ensino de batismos – e prosseguir em direção a vida adulta dependente de alimento sólido e que “pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal” (Hb 5.14).

Ao censurar a igreja de Corinto pelo mal uso dos dons espirituais Paulo diz: “... não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos” (1Co 14.20).

Há muitos outros ensinos. Mas finalmente, a respeito da missão dos oficiais doados por Cristo à sua Igreja, o mesmo Apóstolo disse que a principal tarefa deles é promover o crescimento do povo de Deus: “... para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4.14).

Há quem diga - e só menciono aqui por ter ouvido recentemente - que este tema só prova que a mensagem de Jesus é diferente da mensagem dos profetas e de seus apóstolos (que representam a igreja institucionalizada). Nada mais tolo - ou ficando dentro do mesmo campo semântico: nada mais pueril.

O que nosso Senhor e Mestre destacou como a virtude infantil que deve ser imitada é a mesma que Paulo destaca: a ausência de malícia. Lembre-se de que Jesus a destaca depois de ver seus apóstolos - os mesmos que deveriam ir pelo mundo afora como seus embaixadores - discutindo quem era, dentre eles, o maior. Isso é o que devemos evitar.

Nesse tipo de pensamento e comportamento devemos ser como crianças, pois quem não é já está atestando não ser filho do Reino de Deus, onde ninguém age assim.

Entretanto no juízo, no exame da Palavra de Deus, na ética cotidiana, no trabalho da Igreja devemos ser homens amadurecidos.

Hoje elegemos oficiais em nossa Igreja. Que o compromisso de todos seja com o amadurecimento contínuo do Rebanho aqui congregado e uma luta constante para afastar essas infantilidades - para não dizer absurdos - que rodeiam o povo de Deus e tanto causam descrédito a fé cristã.

Seja o desejo e o alvo de todos nós.

domingo, 8 de junho de 2008

“Vós não sois assim”

Algumas palavras de nosso Senhor e Mestre devem ressoar mais fortes aos nossos ouvidos nesses dias em que nos preparamos para eleger oficiais em nossa Igreja. Certamente a frase título deste artigo é uma delas.

Lucas nos informa que eles haviam acabado de participar da Santa Ceia quando começaram “uma discussão sobre qual deles parecia ser o maior”. Repreendendo-os, o Senhor lhes determinou como deviam ser.

Lembre-se de que nesta ocasião o Senhor lavou os pés de cada um, e lhes ordenou que fizessem uns aos outros o que ele havia acabado de fazer-lhes.

Sua repreensão inclui uma análise das relações sociais, na qual mostra a nossa conhecida “pirâmide social” em cujo topo estão os que exercem autoridade e poder e na base os que são conduzidos: “Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores” (Lc 22.25).

E então os instruiu.

Na organização de Jesus a “pirâmide social” está invertida: os que lideram e os maiores estão na base. É como uma família, onde o pai que a lidera é exatamente o que mais tem responsabilidades de serviço, e sobre a qual ela repousa.

Essa figura - a da família - orientará todos os textos do Novo Testamento sobre escolha de oficiais para a Igreja. Na verdade a família será o principal local de prova em que o candidato a oficial da Igreja deve ser examinado. Examinando-o como vive em família a Igreja deve atestar diante de Deus que vê nele as qualidades determinadas para ser um dos líderes, que a conduzirá à “pastos verdes e águas tranqüilas”.

Em que outro lugar poderemos saber se ele é esposo de uma só mulher, hospitaleiro, que governa bem sua própria casa, que cria seus filhos sob disciplina, etc., senão em sua família? Então, olhando para a família do candidato a oficial, teremos as informações necessárias para qualificá-lo conforme as determinações de nosso Senhor e Mestre e discernir se deve ser escolhido ou não oficial na Igreja do Senhor.

Estamos a uma semana do dia em que escolheremos 1 presbítero e 5 diáconos para nossa Igreja. É, portanto, a hora em que - volto a afirmar - essas palavras devem ressoar com mais força em nossos ouvidos, ao ponto de entendermos que, na Igreja, um bom Pai de Família preenche mais os critérios estabelecidos pelo dono dela, do que o melhor empresário, o melhor intelectual ou o mais rico e poderoso dos homens.

domingo, 1 de junho de 2008

A quem tem lhe será dado ...

Em poucas semanas os alimentos ficaram mais caros. Um gráfico noticiado mostrava que o arroz, tão corriqueiro em nossas mesas, se considerado internacionalmente, teve um grande aumento de preço. No relatório “The Rice problem” a FAO fala de mais de 100% de aumento.

Porém, mais interessante é a explicação dada pelas principais autoridades mundiais no assunto - a FAO inclusive: Os mais pobres estão comendo mais! E, quando a procura por um produto é maior do que sua oferta, é esperado que seu preço aumente.

Fico perplexo: será que em poucas semanas a quantidade de pobres que antes não comia - arroz, por exemplo - cresceu tanto assim? E, se cresceu, e passaram a comer mais arroz, o que comiam antes? Ou será que em pouco tempo nasceu tanta gente assim e já comendo arroz?

Que explicação canhestra, para não dizer perversa! Aquilo que finalmente podem comprar fica mais caro justamente porque mais pessoas podem comprar.

Tenho maior impressão de falta de alimentos do que de excesso de pessoas. E como aconteceu em pouco tempo desconfio mais da especulação do que de outra coisa.

Lembro-me o que aconteceu quando Israel voltava do cativeiro na Babilônia. Tão bem repreendido pelo profeta: “Ouçam, vocês que pisam os pobres e arruinam os necessitados da terra, dizendo: Quando acabará a lua nova para que vendamos o cereal? E quando terminará o sábado para que comercializemos o trigo, diminuindo a medida, aumentando o preço, enganando com balanças desonestas e comprando o pobre com prata e o necessitado por um par de sandálias, vendendo até palha com o trigo?” (Amós 8.4-6 - NVI).

Lembro-me também, assustado, das palavras de nosso Senhor e Mestre: “...ao que tem, ser-lhe-á dado; e, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado”.

Estas palavras foram repetidas por ele em dois contextos e em ocasiões diferentes.

Contexto profético - Quando ele contou a Parábola das Minas/Talentos (Mt 25.14-30 e Lc 19.11-27), ensinando que quanto mais somos fiéis na administração daquilo que a nós é confiado por Deus, tanto mais ele colocará sob nossa administração.

Contexto de ensino - Quando ele contou a Parábola da Candeia (Lc 8.16-18), exortando seus ouvintes a serem atentos ao verdadeiro sentido de suas palavras. Ressalto a figura notável: “vede como ouvis”, e seu paralelo mais enfático em Marcos 5.21-25 “com a medida que tiverdes medido vos medirão também, e ainda se vos acrescentará”.

Essas palavras (a quem tem ser-lhe-á dado) sempre me pareceram a mais terrível das profecias feitas pelo Senhor.

Acaso não sabemos pela experiência que quanto mais posses uma pessoa tem, mas fácil é conseguir outras? Algum banco empresta dinheiro a quem não tem condições de pagá-lo? Parece que nessas poucas palavras o Senhor esboçou profeticamente o que chamamos de capitalismo.

Igualmente, não percebemos desde os primeiros anos de escola, que quando sabemos bem um determinado assunto torna-se mais fácil de aprender o assunto seguinte? Parece também que nas mesmas palavras está resumido o que sabemos sobre acúmulo do conhecimento e competência pessoal.

Porém, de repente, diante de nossos olhos, elas ganham novo sentido e mostram as disparidades alimentares do mundo.

A Bíblia fala de fome no passado. Lembre-se de José no Egito. Mas Jesus também fala dela como “sinal dos tempos”. E a pluraliza: “fomes” (Mt 24.7 e Mc 13.8).

No Passado, a fome atingia predominantemente o povo como um todo (como ainda acontece hoje nos países mais pobres e mais explorados, que, de certo modo, ainda vivem naqueles tempos). Se não fosse a providência divina usar José, todos os habitantes do Egito - ricos e pobres - passariam fome. Hoje parece que a fome também foi globalizada, pois com o aumento de preços dos alimentos, apenas uma classe social - em todos os países - será afetada: os pobres.

Cumprir-se-á então um aspecto terrível da profecia do Senhor, conforme o registro de Lucas 8.18: “... e ao que não tiver, até aquilo que julga ter lhe será tirado”.

Então o que devemos fazer? Ou, o que podemos fazer? Nosso próprio bom senso e as Escrituras nos alertam contra a especulação. Que esse não seja nosso modo de ganhar nosso pão.

Somos, também ordenados a discernir os tempos. Para tanto as palavras do Senhor são atualíssimas: “haverá fomes e terremotos em vários lugares; porém tudo isto é o princípio das dores. ... levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos. E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor se esfriará de quase todos. Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo. E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim” (Mt 24.7-14).

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...