sábado, 14 de novembro de 2009

Abel continua falando

Já chamei sua atenção para o paradoxo de Abel: Não há registro de qualquer palavra que ele tenha dito, entretanto o escritor da Carta aos Hebreus disse que ele ainda fala. Quem nos diz que ele ainda fala é também quem nos diz que a fé é o veículo através do qual ouvimos sua voz.

Porém Deus também ouviu sua voz: “A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim” (Gn 4.10).

Note: não é Abel que fala e sim algo dele. A nós, segundo o escritor da Carta aos Hebreus, sua fé. A Deus, segundo o próprio Deus, seu sangue.

Aqui é necessário fazer uma observação: a palavra sangue, no original hebraico, está no plural. Alguns acham que, para os Hebreus, a palavra sangue só tinha a forma plural (como, em português, lápis, férias, núpcias, óculos, etc.). Porém, quando Deus proíbe o uso do sangue como alimento (Gn 9.4) a forma usada é a singular.

Então, quais são os “sangues” de Abel que, da terra, clamavam ao Senhor? Pluralizar a palavra seria apenas uma figura de linguagem ou significaria algo que nosso idioma não nos permite ver?

Costumamos dizer - corretamente - que a morte entrou na terra após a queda. Dizemos também - erroneamente - que a primeira morte foi a de Abel e antes dela não se sabia o que era morrer. Há até quem diga que Caim não tinha a menor idéia do que aconteceria a seu irmão.

Porém a Bíblia é clara: a morte de Abel foi a primeira de um ser humano. A morte já havia sido introduzida no solo sagrado do jardim: o próprio Deus matou os animais dos quais tirou peles para cobrir a nudez de nossos primeiros pais.

Ao sacrificar um cordeiro Abel comete a segunda morte. E, fora do jardim, sangue é novamente derramado sobre a terra.

Se o sangue das vítimas que forneceram a Deus suas peles, já era um tipo do sangue de nosso Senhor derramado em favor dos seus, podemos entender melhor por que a palavra sangue está no plural: O sangue do próprio Abel, derramado por seu irmão e assassino e o sangue do sacrifício oferecido por Abel, clamavam ao Senhor.

Nenhum de nós, que tem a Bíblia como sua regra de fé, duvida de que o sangue derramado sobre a terra clama ao Senhor por justiça.

Os próprios glorificados, que aguardam o Dia do Senhor, testificam isso: “Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (Ap 6.10).

Nosso Senhor e mestre é muito mais incisivo: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar” (Mt 23.33-35).

Então fica clara a afirmação: “Mas tendes chegado a [...] Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel.” (Hb 12.22-24).

O sangue de Abel clama por justiça ao “juiz de toda a terra” e é tipo do sangue de todos os que foram martirizados por sua fé.

O sangue derramado por Abel clama, até hoje, testificando qual é o verdadeiro significado de uma fé obediente.

O Sangue de nosso Senhor, tipificado por ambos, fala de coisas superiores: perdão para os ‘cains’, que insistem em cultuar a Deus com o produto de uma terra corrompida pelo pecado, e, que, quando percebem que Deus não se agrada de suas obras, matam seus irmãos. Irmãos que, pela fé, cultuam obedientemente ao Senhor.

sábado, 7 de novembro de 2009

Depois de morto ainda fala

Na terça-feira passada a frase “mesmo depois de morto ainda fala”, prendeu minha atenção. Nem me lembro mais quem a disse, nem do que falávamos, mas ela ficou muito tempo martelando minha cabeça por um motivo simples: Não há registro de qualquer fala de Abel.

Minha primeira providência foi certificar-me de que a frase refere-se mesmo a Abel. Está.

Depois reli a história do primeiro assassinato e tirei a dúvida: ao contrário de Caim, seu irmão e assassino, que questiona o próprio Deus, Abel não fala palavra alguma.

Como então: “depois de morto ainda fala”?

Será que esse “ainda” foi acrescentado por nossos tradutores? Não. Não foi. Ele está livre de qualquer dúvida textual em todas as versões gregas que possuo.

Ainda fala! Como? Se nunca falou. Ou melhor: Como ainda fala, se não temos registro de qualquer palavra dita por ele?

Seu ato ainda fala!

Mas, veja bem: o único ato de Abel registrado foi um ato de adoração a Deus: Pela fé ele apresentou a Deus um culto mais excelente do que o culto de seu irmão. O qual, enciumado por Deus ter preferido o culto de Abel, o matou.

Observe que este é um dos poucos lugares em que Deus faz distinção baseado na qualidade da coisa em si. Geralmente, pela sua grande misericórdia, ele aceita nossas oferendas sem olhar para a qualidade delas. Em outras palavras: Aqui, a base para a aceitação do culto não está na misericórdia de Deus, mas na qualidade do culto.

A fé de Abel - aquela que o permite falar a nós hoje - o levou a oferecer a Deus um cordeiro. Caim tentou compensar sua falta de fé oferecendo a Deus um culto muito mais trabalhoso: teve, no mínimo, o trabalho de plantar, de colher e de transportar. Mas isso não comoveu a Deus.

A fé de Abel lhe mostrou que não poderia aproximar-se de Deus como seus pais o fizeram. O próprio Deus já cometera as primeiras mortes no jardim: os animais dos quais tirou peles. E será o próprio Deus que matará o verdadeiro cordeiro.

A fé de Abel lhe mostrou que desagradaria ao Criador se desconsiderasse seu ato.

Isso é contra o que popularmente se diz: “se for feito com fé Deus aceita qualquer coisa”. A assertiva correta é: “se for feito com fé, não faremos qualquer coisa!”

A falta de fé de Caim o fez repetir o gesto errado de seus pais, com o agravo de, inventando algo novo, oferecer os vegetais no altar. Note que Deus já os recusara como simples vestes.

A falte de fé de Caim levou-lhe a preferir a imaginação e a criatividade como substitutos para a obediência.

A falta de fé de Caim o levou a odiar a obediência na pessoa do obediente matando seu irmão. Do mesmo modo que os novos adoradores rotulam de mortos os que cultuam em espírito e em verdade.

Mas o texto destaca Abel. Seu ato e sua fé. Sem palavras, ainda nos fala: Deus não aceita cultos - por mais elaborados que sejam - inventados pela imaginação e criatividade dos ‘cains’, mas deleita-se quando, reconhecendo a Cristo, o verdadeiro Cordeiro de Deus, lhe cultuamos em fé.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Os perigos de se ver Deus face a face

Os mais velhos se lembram das aulas de Escola Dominical sobre Deus rejeitar o pedido de Moisés para vê-lo face a face, e alguns se lembram de um hino que usa como analogia nossa impossibilidade de olhar diretamente para o sol para explicar por que só podemos ver a Deus através das figuras que ele mesmo escolheu para se fazer conhecido.

No artigo passado mostrei como algumas correntes dentro do evangelicalismo brasileiro estimulam essa impossibilidade e adicionam toques eróticos a esse encontro da alma com Deus. Hoje espero deixar claro a impossibilidade do pecador, mesmo redimido, ver a Deus face a face. E, se conseguisse, o quão terrível seria para ele.

Em primeiro lugar, há o problema da finitude. Somos criaturas e Deus é o Criador. Somos finitos e Deus é infinito. Como abraçar o infinito? É possível colocar o oceano em um copo? Como nosso pequeno cérebro conteria aquele que o criou? Os místicos argumentam que é a alma que o recebe e que visão é apenas força de expressão. Mas o mesmo pode ser dito da alma. Acaso ela é infinita?

Em segundo lugar, estamos em rebeldia contra Deus. Nossos pais nos legaram tal estado: nascemos rebeldes. Aprendemos com facilidade a pensar, falar e fazer o mal. Como as mães testemunham: “se fosse coisa boa não fazia, mas como é ruim não precisou ser ensinado”!

Quando recebemos Jesus em nossas vidas somos declarados, pelo Pai, filhos amados. Totalmente justos diante dele que nos sela com o Espírito Santo o qual nos ensinará a renegar as paixões características dessa velha natureza e nos conduzirá em todas as decisões. Entretanto não perdemos nossa natureza pecaminosa. Ela nos acompanhará à sepultura.

Somos tidos por Deus como seus filhos, apenas por estarmos em seu Filho. E esse é o ponto ao qual eu queria chegar: seu Filho se fez um de nós para que fôssemos feitos um com ele!

Você já reparou que Jesus foi o único “pecador” que se encontrou com Deus face a face? Percebeu qual é o destino dos que vêem Deus face a face? Entendeu por que Deus não atendeu o pedido de Moisés? Ou será que você já esqueceu? “Respondeu-lhe: Farei passar toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o nome do SENHOR; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer. E acrescentou: Não me poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá” (Ex 33.19-20).

Jesus viu Deus face a face para não termos de fazê-lo.

Então nunca veremos a Deus? Veremos sim: em Cristo. Que além de ser a expressão exata do Ser de Deus é quem sustenta todas as coisas pela sua palavra. Também nele habita corporalmente a plenitude da Divindade. Leia Hebreus 1.1-4 e Colossenses 2.8-9) e nunca se esqueça de que Emanuel significa “Deus conosco”.

Esqueça o engodo de nossos poetas e as tolices que assolam nossos dias e escute as palavras do próprio Senhor: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras (Jo 14.9-10)”.

sábado, 24 de outubro de 2009

“... sadios na fé” (Tt 2.2)

Dentre as muitas correntes de pensamento e comportamento do evangelicalismo brasileiro, uma me impressiona há muito tempo. Ela diminui e cresce obedecendo a um ritmo que desconheço. Algumas vezes chega a tornar-se quase onipresente nos sermões, publicações e especialmente músicas. Costumo chamá-la (por falta de um nome melhor) de corrente místico/erótica.

Você já deve ter ficado incomodado, ou pelo menos pensativo, com declarações do tipo “estou apaixonado por Jesus”. É a esse tipo de coisa que me refiro.

Não é nova. Tem a idade dos movimentos místicos e, antes do protestantismo se instalar no Brasil, já se manifestava dentro do catolicismo romano.

De modo geral é possível dizer que os pensadores místicos usam esse tipo de expressões para caracterizar seu relacionamento com Deus. Parece que esse apelo erótico decorre da necessidade de se falar sobre um relacionamento mais íntimo com Deus. Como se a fé não bastasse.

Os relacionamentos mundanos, tidos hoje como os mais profundos, são usados como modelo do relacionamento que devemos ter com Jesus (ou para alguém, alardear o quanto se é íntimo dele). Dentro desse contexto é que essas expressões vulgares aparecem. Porém, não há maior incoerência do que fazer isso.

No contexto bíblico, especialmente no Novo Testamento, paixão é a total negação do Fruto do Espírito. Pathos (etimologia grega da palavra paixão, de onde também procede as palavras patologia ou doença) é a negação absoluta da falta de ordem esperada na fé e na prática. Especialmente no culto.

O apóstolo Paulo verificava, mesmo à distância, a “boa ordem” da fé da igreja de Colossos (Cl 2.5). Determinou a igreja de Corinto que se empenhasse por um culto feito com “ordem e decência” (1Co 14.40). Chegou a deixar Tito como seu representante em Creta para colocar “em ordem” o governo das igrejas de lá (Tt 1.5). Ordem é um valor cristão.

Essa tendência “erótica” foi documentada no meio protestante brasileiro desde seu início. O Dr. André Bieller, pensador reformado, fundador da Escola de Sociologia da USP, chega a se queixar, em seu livro “O Protestantismo Brasileiro”, da quantidade de vezes em que nosso hinário fazia referências a sentimentos em lugar da fé. Constantemente a fé era substituída pelo tocar, sentir ou gozar. Por exemplo: “ao sentir-te perto nada temerei”. E se não sentir? Temerá? Então para onde foi a fé?

As figuras bíblicas foram exageradas e levadas as últimas conseqüências. As “Bodas do Cordeiro com a Igreja” tornaram-se um encontro amoroso entre o fiel e Jesus. Na maioria das vezes é o fiel que pede a Jesus seu toque, carinho e palavras amorosas. O fiel é o sedento de amor e Jesus é o amante que precisa ser chamado e lembrado da carência do fiel ou dos fiéis. Neste caso não se hesita em pedir “incendeia a tua noiva”.

É um relacionamento tão complexo que às vezes se inverte: O fiel possui a Jesus ou Deus e aparecem declarações como “Deus é tão fofinho”. Ou a do bispo: “Deus é uma coisinha quentinha e gostosinha”.

Os ensinos bíblicos sobre os perigos de se encontrar face a face com Deus são postos de lado e a palavra de ordem é aproveitar que, como Jesus já pagou tudo, só nos resta celebrar carnavalescamente ou “gozar a intimidade no jardim”.

Não relevo a alegria que a alma do cristão desfruta na bondade do Senhor. Entretanto, deploro o uso de imagens eróticas, as vezes de mau gosto ou mesmo pornográficas, para descrever esse bendito sentimento.

Há que vigiar nosso vocabulário, nossos cânticos e o culto que oferecemos a Deus. Há que corrigir nossos hinos. Mas primeiramente há que pensar em nossos valores e examinar se não estamos trazendo valores mundanos para dentro da Igreja.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Olimpíadas 2016

Como brasileiro fiquei alegre ao saber que nosso país sediará os jogos olímpicos de 2016.

Concordo que deixamos muito a desejar na área de saúde, educação, e segurança, e em outras, mas creio que este evento possibilita alavancar recursos diretos e indiretos que beneficiem também estas áreas.

Concordo também com os que alertam para a grande oportunidade de desvios de verbas, corrupção e coisas do gênero. Entretanto, a possibilidade disso acontecer é semelhante a de acontecer em qualquer outro evento.

Porém, não concordo com a afirmação de nosso presidente que finalmente resgatamos nossa cidadania mundial. Aliás, pra falar a verdade, nem sei mais ao que a nossos políticos se referem quando usam a palavra cidadania. Muito menos cidadania mundial. Se com isso ele quis dizer que finalmente outros países nos vêem como um país que pode se responsabilizar por um evento de tal magnitude, fico mais triste. Preferia receber tal atestado da OMS ou da UNESCO, do que do COI.

Entretanto, como pastor, lamento algumas coisas.

Primeiro: Fatalmente o Dia do Senhor será profanado. Profanado por quem participará como atleta e por quem se envolverá como espectador ou telespectador. O deleite, que as Escrituras reclamam para tal dia, não será no Senhor, mas nas vitórias que certamente nossos atletas alcançarão.

Segundo: Por mais que vejamos nos jogos olímpicos apenas uma ocasião de congraçamento, eles são, na realidade, um soerguimento do velho paganismo contra quem nossos pais lutaram até a morte. A pira olímpica é um culto aos deuses do Olimpo. Isso é triste.

Terceiro: Desde já começará a haver debates dentro de nossos rebanhos sobre cancelar, adiar ou remarcar horário do culto que prestamos a Deus com o fim de não atrapalhar o acompanhamento das competições. E, pode ter certeza: seja qual for a decisão que vier a ser tomada pelos Conselhos de nossas Igrejas, isso trará amarguras para dentro do rebanho.

Conheço todos os argumentos que se usa a favor do apoio cristão aos esportes e até do envolvimento de Igrejas com eles. Conheço os textos bíblicos que se valem da disciplina dos atletas como modelo da disciplina que a vida cristã demanda. Até concordo com quem diz que o apóstolo Paulo devia ser apreciador dos esportes em sua época. E, embora eu não seja tão atlético, as vezes aprecio também algum tipo de competição. Entretanto, minha dor será pelo que elas acarretarão. Peço a Deus que nos faça sábio e ponderados de modo a resolvermos bem os problemas que chegarão aos nossos apriscos.

sábado, 3 de outubro de 2009

Dubiedade

Uma das coisas mais condenadas nas Escrituras Sagradas é a dubiedade ou a falta de clareza na conduta. Veja:

Mesmo antes de entrar na Terra Prometida, Josué já advertia o povo: “Porém, se vos parece mal servir ao SENHOR, escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR” (Js 24.15).

Nos dias do idólatra rei Acabe, o povo de Deus foi exortado pelo profeta: “Então, Elias se chegou a todo o povo e disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o. Porém o povo nada lhe respondeu” (1Re 18.21).

O profeta Isaías não deixa por menos: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” (Is 5.20).

O Senhor Jesus é muito claro: “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno” (Mt 5.37).

O apóstolo Paulo nos adverte a respeito disso dizendo: “A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova” (Ro 14.22).

Tiago adverte que um comportamento resoluto é condição básica para Deus conceder sabedoria: “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida. Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento. Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa; homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos” (Tg 1.5-8). Como também declara que isso é sujeira do coração: “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração” (Tg 4.8).

Nos casos de Josué e de Elias o povo estava sendo conclamado a definir no que criam, para não chegar ao ponto em que chegaram: “De maneira que temiam o SENHOR e, ao mesmo tempo, serviam aos seus próprios deuses, segundo o costume das nações dentre as quais tinham sido transportados” (2Re 17.33).

Já o profeta Isaías e o Senhor Jesus falam de um comportamento perverso que leva a pessoa a chamar algo pelo seu oposto. Nosso Senhor é claro: isso procede do maligno.

O apóstolo Paulo nos adverte contra agirmos ao contrário de nossas convicções e Tiago fala do homem de “psique dupla” (ânimo dobre).

Esses exemplos mostram que, seja por má fé, tibiez, ou falta de resolução, o comportamento dúbio ou irresoluto é condenado. E, não é difícil encontrá-lo. Pior: precisamos vigiar a nós mesmos para não agirmos assim também, já que o pensamento de nossos dias nos empurra para isso.

Por exemplo: Há quem defenda a vida de um assassino perverso e ao mesmo tempo seja favorável a tirá-la dos que ainda estão no ventre de suas mães e é muito comum encontrar quem lute contra a corrupção política e defenda a corrupção sexual. Estou cansado de ver quem jurou ser a Bíblia sua única e suficiente regra de fé correndo atrás de revelações.

Há uns dez anos ganhei um livro ensinando esse tipo de conduta dúbia. Classificava-a “cientificamente” como um tipo de inteligência: a emocional. Segundo o livro a pessoa sábia é aquela que se conforma ao meio que vive. Como cristãos não podemos ser assim.

A ordem é clara: “não vos conformeis com este século”. E o diagnóstico é preciso: “Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca ... A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento” (Tg 3.15-17).

sábado, 26 de setembro de 2009

Os últimos dias

Em seu discurso, na manhã de pentecostes, o apóstolo Pedro deixou claro que estamos vivendo os “últimos dias”. Ou seja: O período de tempo que estende-se do nascimento do Senhor Jesus à sua volta (o “último dia”).

O Senhor Jesus alertou-nos que esses “últimos dias” se caracterizariam por um aumento gradual das dificuldades com o surgimento de falsos cristos e falsos profetas operando milagres com o objetivo de enganar os eleitos de Deus. Tal período terá fim com eventos cósmicos notáveis e com sua volta.

O apóstolo Paulo, chama os “últimos dias” de tempos difíceis e explica que, egoísmo, avareza, vanglória, arrogância, blasfêmia, desobediência aos pais, ingratidão, irreverência, desafeição, falta de perdão, calúnia, desregramento, crueldade, inimizade ao bem, traição, atrevimento, vaidade, hedonismo, ateísmo e hipocrisia serão as marcas da sociedade desses dias.

Paradoxalmente o escritor da Carta aos Hebreus, afirma que nesses dias a revelação divina será a expressão exata do ser de Deus: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser... ” (Hb 1.1-3).

Não tenho espaço suficiente para escrever tudo o que as Escrituras dizem sobre este período. Que nós vivemos estes “últimos dias” não tenho a menor dúvida, mas estamos perto do fim deles ou não?

Todas as gerações que nos antecederam pensavam que seriam a última. O próprio apóstolo Paulo julgava-se tão próximo que esperava ver a volta do Senhor.

Mas nossa geração tem direito a algum destaque: Nunca a população de nosso planeta foi tão grande. As reservas de subsistência - água e alimentos - já foram ameaçadas diversas vezes, porém nunca de forma tão violenta. Sempre houve problemas de saúde, às vezes atingindo mais de um povo, entretanto nunca em escala planetária, muito menos na velocidade de propagação que vemos hoje.

Nunca o mundo esteve tão conectado. Não só pelos meios de comunicação como especialmente pela economia. E finalmente todos os países e nações passaram a ter um inimigo comum (talvez o primeiro passo em direção a um governo mundial): as mudanças climáticas.

Provavelmente nossa geração não seja a última, mas certamente é uma geração sui generis.

Fica-nos, ainda hoje, a advertência do apóstolo Pedro:

Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento. Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas.

Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os elementos abrasados se derreterão.

Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça (2Pe 3.9-13).

sábado, 19 de setembro de 2009

Obreiros da Iniquidade

Acaso, não entendem todos os obreiros da iniqüidade,
que devoram o meu povo, como quem come pão,
que não invocam o SENHOR?

Salmo 14.4

O termo “obreiros da iniqüidade”, usado acima pelo salmista Davi, é consistentemente repetido, dentro de contextos semelhantes, em dois outros Salmos: o 36 e o 53.

Nestes três Salmos o contexto geral é a humanidade perdida em rebeldia contra Deus, insensatamente duvidando até de sua existência.

No Salmo 14 Davi impreca contra os que devoram o povo de Deus como quem come pão. No Salmo 36 Davi os vê tombados e derruídos sem poderem se levantar. E no Salmo 53 o mesmo Davi altera apenas algumas frases do 14, de modo a estendê-lo também ao Povo de Deus que estava sitiado, pois no outro ele falava da linhagem dos justos sendo ridicularizada.

Em um Salmo os obreiros da iniqüidade ridicularizam a linhagem dos justos, no outro sitiam o povo de Deus e no outro Davi os vê derruídos.

Quando o Livro dos Salmos foi traduzido para o grego, o termo hebreu para obreiros da iniqüidade (que também pode ser traduzido por fazedores de tristezas, causadores de problemas) foi consistentemente vertido pelo que seria literalmente “obreiros sem lei”. Entretanto permite enxergar traços de outros sentidos: Os que investem na ilegalidade ou pessoas que praticam o que a lei proíbe. É claro que a lei a que se refere é a Lei de Deus.

Porém, o bem mais precioso que essa tradução legou-nos foi cunhar um termo que será repetido por nosso Senhor Jesus em um contexto prático: “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.22-23): “Praticantes da iniqüidade”.

Observe que o significado tornou-se mais determinado. Davi, o primeiro rei de Israel segundo o coração de Deus, o usou para caracterizar aqueles que “metiam a ridículo a linhagem do justo” ou “sitiavam o povo de Deus”, e os via derruídos. Jesus, a Raiz de Davi, o último rei de Israel, o real Coração de Deus, usa o mesmo termo para referir-se àqueles que alegam merecer seu favor, por terem a capacidade de, em seu nome, profetizar, expelir demônios e fazer muitos milagres.

Observe que o Senhor Jesus não disse que eles não faziam o que alegavam fazer. Observe também que eles convenceram si próprios de que, por fazerem tais coisas, possuíam algum tipo de familiaridade com Jesus. Tanto é que não hesitam em lançar na face dele que agiram em seu nome. Porém para Jesus eles eram o que Davi já havia denominado: “obreiros da iniqüidade”.

Finalmente veja uma constante: em todos os textos é dito deles que são traidores do povo de Deus. Nos Salmos 14 e 53 são descritos como quem devora o povo de Deus com a naturalidade de quem come um pedaço de pão. No Salmo 36 são descritos como o pé insolente que procura calcar e a mão ímpia que tenta repelir. E no Sermão do Monte o Senhor Jesus os descreve como lobos que se vestem de ovelhas.

A conclusão parece óbvia: Os obreiros da iniqüidade estão dentro do povo de Deus. Dentro o suficiente para devorá-los. Acham tão natural as peles de ovelha que vestem, que enganam-se a si mesmos, alimentam-se do povo de Deus como alimentam-se de pão. Devoram as ovelhas do Senhor como lobos roubadores que são. A ordem do Senhor Jesus não podia ser mais clara: Acautelai-vos deles.

sábado, 12 de setembro de 2009

Tempo de plantar

Broto de Uva Setembro chegou e com ele o calor se anuncia e as chuvas já ameaçam cair. Aproxima-se o tempo de plantar.

Nesta época a terra, qual forno, aquece e quebra as sementes. As chuvas as refrescam e as fartam de nutrientes. Logo nascerão plantas novas. As mangueiras já estão florindo, breve as manguinhas, e as demais frutas da época estarão prontas para ser colhidas.

Os frutos podem ser consumidos in natura, ou preservados. Alguns serão secos, outros serão cozidos em compotas e outros ainda serão prensados, fermentados ou destilados, nos mais variados líquidos.

Para compensar o desconforto do calor muitos aromas invadem a noite e o sono e nos renova a certeza de que o Amado de nossa alma nos provê daquilo que não conseguiríamos mesmo levantando de madrugada, dormindo tarde e penosamente nos afadigando sob o sol.

Para compensar a noite mal dormida ele nos acordar ao som dos passarinhos que nos certificam - como a pomba certificou a Noé que as águas haviam baixado - que suas misericórdias se renovaram naquela manhã.

Essa bendita variação do tempo nos traz muito mais do que sabores, aromas e sons agradáveis: renovam a certeza de que, o Pacto feito com Noé ainda vigora e pode ser por nós desfrutado.

É a graça. Todas essas coisas são mantidas pela graça divina e sem ela nada se renova.

Dia desses vi diversas mudas prontas para formar um vinhedo - essas que estão na foto - e observei que algumas já estavam brotando. Lembrei-me da mangueira frondosa vizinha de meu quarto e que, no final do ano, marcava a passagem da noite com baques surdos das mangas mais maduras derrubadas pela brisa cálida vinda do rio e lembrei-me também das palavras de nosso Senhor: “todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele (o Pai) corta e o lança fora”.

A igreja de Antioquia - aquela que enviou Paulo e Barnabé na primeira viagem missionária que as Escrituras registram - sofreu esta sanção. Dela hoje só temos uma caverna com ares de impostura para turismo. E as demais igrejas? Você já reparou que nenhuma igreja mencionada no Novo Testamento continua de pé? A menos que você considere de pé a igreja de Roma.

Aguardo ver um broto no tronco que sobrou da mangueira, como vi aquele broto da vinha. Entretanto, temo que os dias estejam mais para a missão de Isaías que ao se voluntariar com “eis-me aqui, envia-me a mim”, recebeu a dura missão de falar a santa mensagem até sobrar apenas o toco. Toco como o da mangueira de meu vizinho.

Temo que as palavras de João estejam se cumprindo “E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Lc 3.9).

É tempo de plantar. Tanto nos campos quanto em nossas vidas. Plantemos na confiança de boas colheitas de cereais e frutas, mas principalmente do único fruto que se entesoura para a vida eterna.

domingo, 6 de setembro de 2009

Por que a Igreja de vocês não se moderniza?

“Por que a Igreja de vocês não se moderniza?” Foi com esta pergunta que um senhor bem vestido e perfumado encerrou nossa conversa aborrecido por eu não consentir com a apresentação de “seu cantor” no culto de nossa igreja.

Eu já havia argumentado que em um culto cristão não há apresentações e sim louvor, ao que ele respondeu: “Mas é só louvor, ele não vai cantar música do mundo”. Tentei explicar que o louvor em um culto não significa apenas o tipo de música, mas principalmente a intenção com que ela é cantada. “Mas ele vai fazer apenas uma apresentação dos últimos sucessos para que os membros da Igreja possam cantar músicas novas depois”.

Cada argumento meu era rebatido por ele.

Mantive-me dentro dos elementos bíblicos do culto e ele enfatizou o quanto perdíamos não recebendo seu cantor: “ele canta bem, vai limitar seu repertório ao que é usual nas igrejas presbiterianas conservadoras, e ...”. Daí entendi que havia um repertório para outras denominações bem como para as presbiterianas não conservadoras.

E os 15 minutos pedidos por ele me pareciam uma eternidade. Seu último argumento foi: “O rapaz ainda é novo mas canta tão bem que o pastor dele já o ungiu ministro de música: um levita ...”.

Não me contive: “Um levita? Como no templo de Salomão?”

Diante da confirmação me esqueci dos 15 minutos, e do restante da rotina matinal. Tentei mostrar-lhe o anacronismo, - pra não dizer a bobagem - que ele estava falando. Tentei, mas não consegui, pois ele levantou-se furioso e soltou a pergunta que encabeça esta narrativa: “Por que a Igreja de vocês não se moderniza?”

Ele não referia-se a nossas instalações, ou a beleza de nosso templo, muito menos a funcionalidade das salas de aula ou de nosso escritório, do contrário eu teria respondido de pronto: “Por falta de recursos”.

Sua pergunta era retórica. Ele, na verdade, protestava contra uma organização que tinha por superada.

Depois, pensando no acontecido, imaginei que possa haver quem pense assim também. Alguns irmãos confirmaram que existe. Resolvi então tornar público o assunto e responder a tal pergunta.

Em um assunto como esse a Igreja não pode “se modernizar”, pois contrariará a Bíblia. Um exame na história do povo de Deus mostra que ele passou por fases bem determinadas. Houve o tempo dos patriarcas, o tempo dos juízes, o tempo dos reis e hoje o tempo do “sacerdócio universal”.

Nesses primeiros tempos os oficiais representavam os seus diante de Deus. Hoje cada um se representa diante de Deus. Ou seja: cada um é sacerdote de si mesmo, perante o sumo-sacerdote Jesus. Portanto o Povo de Deus presta culto. Não assiste, nem é mediado diante de Deus. Cultua. Cultua em Espírito e em verdade.

No culto cristão os cânticos apesar de importantes, não são essenciais. Na realidade não têm importância alguma diante de uma vida de culto. Mesmo que não se cante coisa alguma, se dois ou três estiverem reunidos em nome do Senhor Jesus ele garante que estará com eles. Entretanto o inverso não é verdadeiro.

Não é o cântico que faz o louvor. É uma vida de louvor que se expressa em cânticos.

O cântico sem respaldo de uma vida consagrada é abominação diante de Deus, e uma vida consagrada não precisa de cânticos, embora na maioria das vezes faz com que os lábios abram-se em cânticos, que, mesmo desafinados, são agradáveis a Deus por que procedem de quem o honra.

Mas, e a apresentação? Essas são apenas shows. Jamais alcançam um status de culto. Seja a mais bela cantata de Bach ou a performance mais leonina da mais conceituada artista. E, show por show, é melhor assistir aos profissionalmente bem feitos.


BH 6/9/2009

sábado, 29 de agosto de 2009

Nosso desafio centenário

... em nada considero a vida
preciosa para mim mesmo,
contanto que complete a minha carreira
e o ministério que recebi do Senhor Jesus
para testemunhar o evangelho da graça de Deus.
Atos 20:24

Neste fim de semana estamos alegres por relembrar que quinhentos anos atrás nasceu um homem que teve a coragem, de bradar bem alto: Deus é soberano! Conformemo-nos com isso ou continuemos lutando contra ele. Era João Calvino. Não poupou esforços e enfrentou os mais diversos empecilhos para praticar esta verdade, mas não se dobrou diante do deus deste mundo.

Da mesma forma por que, há cento e cinqüenta anos, chegou ao Brasil um jovem de vinte e seis anos que deixara o conforto de seu país trouxe-nos a Palavra de Deus. Morreu aqui poucos anos depois, mas deixou plantado e frutificando o santo Evangelho, o qual, até então estava limitado a colônias de imigrantes, e, no restante de nosso país semeava-se algo que de Evangelho tinha muito pouco ou quase nada.

Igualmente, por que cem anos atrás o Rev. Manoel Alves de Brito, enviado pela Igreja Presbiteriana de Alto Jequitibá, recebeu por profissão de fé e batismo os primeiros crentes no senhor Jesus Cristo em Dom Cavati.

Hoje, agradecemos a Deus, e nos desafiamos a continuar proclamando que o Senhor é soberano sobre todos nós e concede a oportunidade aos que ainda estão rebelados contra sua vontade de reconciliarem-se com ele mesmo mediante o sacrifício de seu Filho na Cruz.

Em uma cultura que vende o santo Evangelho como um produto qualquer, nosso maior desafio é permanecer fiéis aos valores ordenados por Deus, pois ele ainda tem muitos escolhidos que não ouviram de sua graça e a “fé vem pelo ouvir”.

É com tal certeza que recebemos entre nós o Rev. Samuel Gueiros Vitalino, que, no canto da seara do Senhor, a que chamamos de Estado do Piauí, também se afadiga nesta mesma missão. Entretanto, perto de nós há lugares tão carentes do santo Evangelho quanto o sertão.

Como esses homens, e como o apóstolo Paulo, autor das palavras que encabeça este texto, nunca deixemos que a tranqüilidade de uma vida pacata nos impeça de cumprir as ordens de nosso Senhor Jesus e testemunhar o evangelho da graça de Deus.

sábado, 22 de agosto de 2009

Quando as circunstâncias falam mais alto do que as convicções

Esta semana vimos uma decisão de nossos governantes na qual as circunstâncias calaram as convicções. E as circunstâncias, que obrigaram tão excelentes senhores, não foram de vida ou de morte, mas apenas a manutenção do poder: para, não perderem o mando, mandaram às favas suas convicções decantadas ao longo de anos.

Para mim, que sequer sou adepto do ideário esquerdista, foi triste ver alguns desses homens, cuja imagem sempre me trouxe algum tipo de respeito, dizer que foram forçados a fazer o que lhes foi mandado.

Já vi casos semelhantes. Alguns por motivos maiores e outros por motivos menores, até risíveis.

Dentre os de motivos maiores, lembro-me de uma jovem mãe desesperada com o estado terminal de seu filho, pedindo ajuda de Deus ou do Diabo, aos gritos: - Ouviu pastor? Ouviu Siqueira? Siqueira era o presbítero que me acompanhava horrorizado. - Podem dizer ao Conselho: Faço qualquer coisa pra que meu filho não morra!

Dentre os menores, lembro-me de um ancião que passou a freqüentar um terreiro de candomblé, a fim de fazer um trabalho poderoso, para que seu inquilino, de quem ficou aborrecido, saísse do quarto e sala, sem ter de pagar multa.

Acho que não consigo fazer uma lista do que se poderia chamar “motivação maior”. Mas já possuímos em nossas leis certo abrandamento para quem rouba com fins de se alimentar, ou para quem mata em legítima defesa. E desconheço um condenado por palavras de desespero como as daquela mãe.

Sobre o ancião que passou a freqüentar o terreiro de candomblé, não o vi mais e não sei que rumo tomou, pois era meu último mês naquela igreja.

Mas, voltando ao abandono de convicções diante das circunstâncias, repare que isso está arraigado em nossa cultura. Não é isso que faz um estudante que cola na prova? Não está abandonando uma convicção (ser honesto é bom) diante da ameaça de ser reprovado?

Igualmente quem abandona o ideal da castidade, para evitar as chacotas. Ou se esquece “da mulher de sua mocidade”, como brada o profeta do Altíssimo, em busca de novos prazeres?

Não faz o mesmo o ancião encanecido por Deus, que não “dá-se ao respeito”, para ser admirado pelo espírito jovial?

Acaso é diferente a autoridade que prevarica no uso da espada, da qual é ministro sob Deus, por medo ou por outras ambições?

Diante de um quadro tão terrível, o que me mete mais medo é ver uma Igreja deixar de lado a maior de todas as convicções dos cristãos sinceros: “amarás ao Senhor teu Deus, de todo o teu coração de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento” e, com o objetivo de arrebanhar mais fiéis, abraçar os valores do mundo.

Não seja esse nosso destino.

domingo, 16 de agosto de 2009

Na casa do Pai

Nos tempos do Antigo Testamento nossos pais referiam-se a Deus por diversas formas, como Senhor, Senhor dos Exércitos, Eterno, ou outros tantos nomes, Jesus o fez principalmente chamando-o de Pai. Chegou a ordenar a seus discípulos que orassem chamando-o assim. E dentre as palavras que poderia usar escolheu a que uma criança usa para chamar seu pai. Provavelmente a que ele mesmo usou com José.

Porém, é digno de nota que ele tenha se referido também à “Casa do Pai”. Duas vezes ele usa essa expressão para referir-se ao templo: aos doze anos e ao purificá-lo. Mas, também serviu-se dela para falar de realidades maiores.

Ao despedir-se dos seus, ele garantiu que na Casa do Pai havia muitas moradas e ele ia adiante deles preparar-lhes lugar.

Para o Filho Pródigo a Casa do Pai era o lugar em que os servos tinham pão com fartura. Entretanto na própria parábola o Senhor Jesus a descreve mais generosamente: era lugar de alegria.

Lá o filho era aguardado com festa e com muito mais de tudo aquilo que despendera prodigamente. Mas, repare bem na própria Parábola: na Casa do Pai há certos procedimentos que devem ser observados.

As roupas que ele levou, e as dissipou, na Casa do Pai são necessárias para cobrir a nudez que um mero pano não consegue cobrir. Por isso são providenciadas pelo próprio Pai.

Na Casa do Pai o anel e os calçados certificam reabilitação filial. Com o anel ele está credenciado a assinar pelo pai. Calçado, ele jamais será confundido com um simples trabalhador - os quais têm pão com fartura - mas fica claro que ele também é Senhor.

Na Casa do Pai vestir-se é mais do que obediência a etiqueta. Sinaliza que o filho assumiu as obrigações decorrentes da filiação, mesmo que aos olhos de muitos tais obrigações pareçam ostentação, elas existem para a glória do Dono da Casa e seus filhos se comprazem, mesmo indignos delas, em recebê-las e usá-las.

Mas na Casa do Pai, não há lugar para picuinhas entre irmãos. O irmão, mesmo mais velho, que recusa a alegrar-se com a graça e misericórdia do Pai, ofende-lhe tanto quanto aquele que o considerou morto e lhe voltou as costas.

Portanto, na Casa do Pai, há certas normas de conduta. Há um modo de se viver lá. E esse é o sentido primário de ethos: palavra grega da qual deriva-se a nossa palavra ética, que poderia ser traduzida por “conforme os costumes da casa”. No caso da família que, tanto no céu quanto na terra, toma o nome do Pai Altíssimo, a ética de sua Casa. A ética vivida por seu Filho Unigênito. Ou seja: a Ética Cristã.

Em síntese: Na Casa do Pai, o filho é motivo de alegria e festa, mas não se faz o que se quer. Quem mora na Casa do Pai tem de seguir as normas que foram estabelecidas pelo Pai. Tanto as que regulamentam o comportamento em relação a Ele próprio, quanto o comportamento em relação aos irmãos, que nela também moram.

Aqui fica clara a diferença entre a ética cristã, muito mais estreita, pois revela a vontade do Pai para com seus filhos da ética comum, que para muitos não passa de normas convenientes ao bom viver.

Na Casa do Pai há muitas moradas, mas todas são regidas pela vontade do Pai.

domingo, 9 de agosto de 2009

Qual é a principal obrigação de um pai para com seu filho?

- Qual é a principal obrigação do pai para com seu filho? Foi a pergunta de uma amiga a todos nós que, falávamos sobre as dificuldades que tem para educar um filho nos dias de hoje.

É claro que uma pergunta dessas não pode ser respondida de pronto. Especialmente se ainda não pensamos nela. Mas é uma excelente pergunta para dar início a uma boa discussão sobre o papel daquele que homenageamos hoje.

Nesta mesma época do ano passado eu escrevi aqui sobre o privilégio da paternidade. Especialmente considerando o fato de que Deus a usa para falar de si. Ou seja: Deus se revela como um pai.

Certamente temos de entender que tal revelação não é exaustiva. Não explica tudo o que Deus é. Entretanto nos é a mais apropriada para que compreendamos o nosso relacionamento com ele e relacionamento dele conosco.

Ele é nosso pai.

Pai de todos por criação e pai dos remidos por adoção. Ou seja: há um “afunilamento” no conceito de paternidade de Deus, que se estreita ainda mais quando consideramos o modo como ele é pai de nosso senhor Jesus Cristo.

O que ele espera, como pai de todas as criaturas, é semelhante ao que um pai espera de seus filhos: obediência filial. Não a obediência implacável, embora inteligente de um soldado, nem a obediência automática das máquinas, mas a obediência amorosa de alguém que o louva com seus atos.

O que ele espera, como pai dos remidos, é que, cada vez mais, pareçamos com seu Filho Unigênito. Não apenas no nome, mas nos atos; no esvaziar-nos de nós mesmos; no assumirmos em nossa mão direita e em nossas frontes - ou seja: no agir e no pensar - a semelhança e os valores que orientaram a vida que seu filho levou entre nós.

O que é que nós esperamos, como pais Cristãos, de nossos filhos? A resposta será a mesma que teremos de dar a pergunta daquela amiga a que me referi no início desse texto, pois nossos filhos dependem de nós para serem o que devem ser. Em outras palavras: temos, para com nossos filhos, a obrigação de os tornarmos aquilo que esperamos deles.

Nossa hesitação em responder deveu-se exatamente a não havermos pensado antecipadamente no que esperávamos de nossos filhos.

Às vezes esperamos deles que sejam bons profissionais, bons cidadãos, bons esposos ou bons pais. É pouco! Devemos esperar que sejam bons Cristãos. Se forem bons cristãos serão tudo o que foi listado e ainda mais.

Então qual é a principal obrigação do pai para com seu filho? Eu não teria palavras melhores do que as dela: Nossa principal obrigação para com nossos filhos é mostrar o quanto eles são pecadores e o quanto precisam da graça de Deus revelada em Cristo.

Esta noite concluí que antes de tudo um pai é um evangelista (ou um missionário, como quiser) e seu campo de trabalho está bem determinado: seus filhos.

Feliz Dia dos Pais!

domingo, 2 de agosto de 2009

Encontros com Jesus

Você já notou quantos encontros com Jesus foram registrados nos Evangelhos? Já parou para pensar em cada um deles? Se o fez, deve ter percebido como foram diferentes entre si.

Deixando de lado, Simeão, Ana, os magos e os doutores que o encontraram ainda infante, o primeiro registro dos Evangelhos é o encontro com João Batista, que o identifica como Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Entretanto, o que mais me atrai é pensar naqueles em que, diferentemente de João, as pessoas com quem ele se encontrou não tinham idéia de quem ele realmente era, nem de sua verdadeira missão.

O que falar daquele leproso que o adorando confessou “Senhor, se quiseres, podes purificar-me” e foi curado ao simples toque de sua bendita mão?

Além da doença que lhe afligia não há qualquer informação sobre ele. Mas o gesto do Senhor em tocar num leproso era inusitado. Nenhum Judeu faria isso, pois ficaria impuro para as cerimônias religiosas. Nosso Senhor o fez. Fez por ele e fez por nós. Fez-se impuro pelos seus, que, impuros, não podiam ter acesso ao Pai.

O quase encontro com o centurião de Cafarnaum, que, ao saber que ele viria a sua casa curar seu servo, mandou-lhe dizer não ser digno de receber sua visita; bastava que ordenasse e o servo ficaria bom.

Neste caso as informações não são sobre o Senhor e sim sobre o centurião. O centurião era um soldado romano, portanto um dos líderes da força de ocupação que subjugava Israel, mas era compassivo ao ponto de preocupar-se com seu servo. Era humilde ao ponto de reconhecer sua indignidade. E possuía a maior fé que qualquer um de Israel: isso foi atestado pelo Senhor.

Agora compare o encontro que ele teve com um príncipe, com o encontro que teve com uma adúltera: Nicodemos e a anônima do capítulo oito do Evangelho de João.

Nicodemos evita a pecha popular cobrindo-se com o manto da noite. A mulher é arrastada a sua presença diante de todos flagrada em adultério (mas o homem com quem foi flagrada não é trazido).

Nicodemos inicia a conversa, tentando ocultar sua real dúvida com elogios ao Senhor. A mulher só fala uma frase respondendo a pergunta do Senhor.

Jesus vai direto ao ponto que afligia Nicodemos afirmando que ele precisava “nascer de novo”, e compadecido da mulher demonstra que nenhum dos presentes estava isento de pecado.

Hoje provavelmente trataríamos Nicodemos com a deferência devida a um mestre, e advertiríamos a mulher da necessidade de nascer de novo. Afinal, não dizemos que fulano é bom pai, bom marido, tem excelente reputação, “só falta ser crente”? Não cumulamos de condenação pessoas flagrantemente depravadas?

O Senhor também condenava o pecado. Condenava veementemente. Entretanto, como conhecia o coração, sabia quem era “mais pecador” e a dose de repreensão que cada um poderia suportar. O profeta Isaías declarou que uma de suas características era não desprezar as pequenas qualidades dizendo que ele “não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega” (Is 42.3).

Nicodemos era um mestre em Israel. Tinha a obrigação de conhecer a necessidade de uma regeneração: um novo nascimento. A pobre mulher, humilhada, vilipendiada, por experiência própria - atestada pelo comportamento do Senhor - já sabia que precisava disso, por isso o Senhor apenas ordena “... vai e não peques mais” (Jo 8.11).

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Pai e filhos

Ainda criança, lendo a parábola do filho pródigo, minha atenção se voltava sempre para o pai: Por que ele não tentou dissuadir seu filho? Por que sequer lamenta sua grosseria em pedir sua parte da herança enquanto ele estava vivo?

Nunca foi assim com meus pais, e creio que não é assim com nenhum pai. Todos tentam dissuadir seus filhos de eventuais erros. Mas, por que o pai esboçado pelo Senhor Jesus nesta parábola - que simbolicamente representa o Pai Celeste - é diferente? Será que ele não liga pro que acontece a seus filhos?

* - *

A ênfase que damos ao filho mais moço - ao ponto de emprestarmos seu nome à parábola - desdiz o propósito principal do Senhor Jesus que era ensinar aos filhos mais velhos a receberem com alegria seus irmãos que retornam ao lar.

Entretanto, estude-a com calma e tenho certeza de que você concordará comigo de que o personagem em torno do qual tudo acontece é o Pai.

Agora, observe bem: Jesus esboça dois tipos de filhos e só um pai. Os dois filhos ilustram dois tipos de pecadores e o pai é único, pois é figura de Deus que é um só.

Há pecadores ousados e irreverentes, como o filho mais moço, a ponto de exigir de Deus aquilo que não lhes é de direito. Há pecadores que continuam morando na casa do pai, como o filho mais velho, e, sem coragem de enfrentá-lo, colecionam ressentimentos daquilo que chamam de direitos usurpados.

Há pecadores arrependidos que, caindo em si, voltam para a casa do pai. Há pecadores empedernidos e orgulhosos que não admitem que a casa do pai seja maculada pela presença do outro, mesmo que o outro seja seu irmão.

Há pecadores que reconhecem o erro e seu próprio estado, ainda que para isso tenham sido obrigados a comer comida de porcos. Há pecadores que, sempre desfrutaram da mesa do pai, mas não reconhecem que o ressentimento velado que possuem contra ele, é mais ofensivo do que considerá-lo morto. Entretanto, jamais admitem estar errados.

Há muitos tipos de pecadores, mas um só tipo de Pai.

Por sua própria natureza o Pai está disposto a perdoar o filho que volta. Por sua própria natureza o Pai está disposto a restaurar a filiação abalada pela maior ofensa daquele que o reconhece como pai. Por sua natureza o Pai é que é pródigo. Pródigo em amor. Pródigo em perdão. Pródigo em aceitação.

A única exigência inerente a natureza do Pai é continuar pai. Por isso ele não dissuade o filho que deseja virar-lhe as costas. O filho precisa ter consciência de que, até para virar as costas a seu pai, precisa do que ele dá: força, liberdade, ousadia, e meio de subsistir longe de sua casa.

Há muitos tipos de pecadores, mas há um só Pai. Imaginar que qualquer coisa escolhida como pai transforma-se no verdadeiro Pai é tão insensato quanto imaginar que a comida dos porcos é a mesma coisa que o pão da casa do Pai.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Esboço da vida de Calvino

Há quinhentos anos, precisamente em 10 de julho de 1509, João Calvino nascia na cidadezinha francesa de Noyon.

Seu pai esforçou-se para bem formá-lo esperando vê-lo padre e aos 14 anos foi admitido na Universidade. No Collège de la Marche em Paris fez o curso inicial de latim e no Collège de Montaigu as demais matérias. Formou-se aos 17 anos. Entretanto seu pai determinou-lhe buscar a carreira jurídica e ele foi estudar direito em Orleans, onde doutorou-se aos 21 anos. Nessa época foi alcançado pela graça de Deus.

No prefácio de seu Comentário dos Salmos, ele mesmo resume esse período assim: "Quando eu era ainda menino, meu pai destinou-me ao estudo de Teologia. Mas posteriormente, considerou que a profissão jurídica geralmente promovia seus seguidores à riqueza, ... visto que eu era tão obstinadamente devotado às superstições do papado, Deus,para desembaraçar-me facilmente de tão profundo abismo de lama, por meio de súbita conversão, subjugou e pôs na minha mente ... a disposição para aprender".

Logo começou a organizar seus pensamentos no que seria sua obra maior: Institutas da Religião Cristã, a partir do capítulo que conhecemos hoje: Da vida futura.

Aos 26 anos, passando por Genebra, recebeu a visita de Farel, líder do movimento de Reforma da Igreja de lá, que, após amaldiçoar sua idéia de procurar um lugar tranqüilo em que pudesse dedicar-se aos estudos, o convenceu a ficar em Genebra. Ele mesmo se lembra do acontecido: "Fiquei tão aterrorizado com essa imprecação que desisti da viagem que havia empreendido. Senti como se Deus tivesse lançado sobre mim sua mão poderosa para levar-me preso".

Em Genebra, logo sofreu oposição das autoridades da cidade, que concordavam com a doutrina reformada, mas não a praticavam. Tempos depois refere-se a essa época, em uma carta, dizendo que não passava um dia sem ansiar pela morte, tamanha era a aflição que lhe provocavam.

Negou-se a servir a Santa Ceia a esses chamados libertinos e, com uma manobra política o expulsaram de lá como persona non grata.

Foi viver em Estrasburgo, pastoreando os protestantes refugiados das muitas perseguições de então, onde, apesar de ter uma congregação numerosa, deu continuidade às Institutas e casou-se com Idelete com quem teve um filho prematuro que morreu ainda bebê.

Quase quatro anos depois, a situação em Genebra, tornara-se insustentável e seus inimigos enviaram uma missão pedindo que voltasse. Estavam autorizados a pagar o que ele pedisse, mas ele exigiu apenas que as autoridades submetessem suas vidas e a vida do que estava sob o poder deles à orientação da Palavra de Deus. Foi recebido com boas vindas pelas autoridades de Genebra na cidade vizinha de Versoix.

Entretanto, o ministério de 25 anos em Genebra, apesar de produtivo foi cheio de percalços: sofreu a morte de sua esposa; foi obrigado a restringir a celebração da Santa Ceia a 4 vezes por ano; tomou parte no processo que Levou Servetus à fogueira; e, traído por Villegaignon, viu a expedição ao Brasil ser desfeita e maioria de seus integrantes mortos.

Era de compleição doentia e seus biógrafos falam de mais de 30 enfermidades gástricas e reumáticas. Muitas simultâneas. Como a Igreja era de pedra e não possuía aquecimento, nas épocas de frio ele vestia com diversas roupas e cobria-se com sua beca de formatura. Não demorou muito para que seus muitos alunos, alguns já doutorados pela Sorbonne, passassem a homenageá-lo usando o mesmo tipo de manto.

Seus sermões, quase diários, anotados por seus ouvintes mais cultos, deram origem a Bíblia de Genebra e mais de 800 deles podem ser encontrados na íntegra nos 59 volumes do Corpus Reformatorum.

As anotações do secretário da Igreja e os livros que ele mesmo escreveu geraram os 45 volumes comentando quase todos os livros da Bíblia com exceção de Cantares e Apocalipse, que ele dizia serem profundos demais.

Morreu em 27 de maio de 1564. Seu túmulo pode ser visto no cemitério de Plain Palais ao lado da Cidade Velha em Genebra.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Mais uma conseqüência do Pentecostes

A igreja, na verdade,
tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria,
edificando-se e caminhando no temor do Senhor,
e, no conforto do Espírito Santo,
crescia em número.
At 9.31

Como podemos entender esta declaração? Como a Igreja podia ter paz se enfrentava tantos problemas? Veja quantos problemas (Lucas até alterna problemas internos e externos).

  • Pouco tempo depois de Pentecostes, Pedro e João haviam sido presos e só foram soltos após ameaçados pelo mesmo Sinédrio que havia condenado o Senhor Jesus.
  • Não demorou muito tempo para que Ananias e sua esposa Safira expusessem o maior problema que afligia e sempre afligirá todas as igrejas: mentir ao Espírito Santo!
  • Logo em seguida todos os apóstolos foram presos e açoitados por anunciarem o nome de Jesus.
  • Com o crescimento numérico apareceram os necessitados. Isso os levou à escolha dos primeiros diáconos.
  • Um desses diáconos que foi apedrejado, com o consentimento do fariseu Saulo, foi o estopim para uma grande perseguição que espalhou a Igreja de Jerusalém pelas cidades da Judéia e de Samaria. Enquanto isso Saulo literalmente “assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere” (At 8.3).
  • Como acontece hoje com os mercadores da fé, Simão, o mago, tentou comprar o poder de conceder o Espírito Santo mediante a imposição de mãos.

Como uma igreja, sujeita a todas essas circunstâncias - e provavelmente outras que não foram relatadas por Lucas - em cerca de 5 ou 6 anos, podia ter paz?

O próprio versículo nos dá a resposta: o conforto do Espírito Santo.

Quando Jesus prometeu o Espírito Santo aos seus discípulos ele o chamou de Consolador (em grego: Paracletos). Agora Lucas se serve da mesma palavra para descrever o que em português lemos “conforto”. Ou seja: A igreja tinha paz, ao ponto de crescer em número, mediante a “paraclesis” do Espírito Santo.

Nossa tradução por “conforto” não é ruim. Talvez a dificuldade de se entender esteja na mudança de significado que esta palavra sofreu.

Hoje, para muito de nós, o significado de conforto está entre aconchego e comodidade. Dizemos que cadeiras, casas e outras coisas, ou situações, são confortáveis, quando elas nos proporcionam sensação de bem-estar. Entretanto o primeiro significado desta palavra deriva do latin “cum+fortius” (com força).

Eles tinham paz mediante a força que o Espírito Santo lhes concedia, ao ponto de, com tantos, e tão grandes problemas, não comprometerem o viver na presença de Deus.

O mesmo Espírito, que os capacitou a falar nos idiomas das nações para as quais iriam, os capacitou também a viver em paz, apesar dos problemas pelos quais passavam.

Mas não esqueça: Essa paz não era desperdiçada. Eles a aproveitavam para edificarem-se caminhando no temor do Senhor e nessa “paraclesis” do Espírito Santo.

Não há melhor descrição dessa paz do que a que, anos depois seria feita por quem antes lutava contra ela: “... a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus (Fp 4.7).

terça-feira, 23 de junho de 2009

Outras conseqüências do Pentecostes

Ao formar o povo da Antiga Aliança Deus seguiu determinada ordem: 1) os libertou do cativeiro egípcio pelo sangue do cordeiro aspergido nos umbrais das casas, 2) em meio a fogo e vento outorgou-lhes, em tábuas de pedra, suas leis, transformando-os em um povo com identidade nacional, 3) conduziu-os pelo deserto até a terra prometida a seus pais, e 4) os assentou nela com ordens expressas de não fazerem contato com nenhum povo vizinho.

Ao formar o povo da Nova Aliança Deus seguiu ordem semelhante: 1) os libertou do cativeiro espiritual mediante o verdadeiro sangue derramado na cruz, 2) em meio a fogo e vento escreveu sua lei no coração de cada um, transformando-os num povo independente de barreiras nacionais 3) e até hoje os conduz por caminhos mais perigosos do que os do deserto, com ordens de contatarem as nações divulgando estes acontecimentos, antes de entrarem na verdadeira terra tipificada pela anterior.

Observe que o esquema é o mesmo, mas cada evento é mais profundo, pois na Antiga Aliança se trabalhava com as sombras do que de fato aconteceria na Nova.

- * -

A Igreja não foi libertada de um cativeiro comum, mas do “império das trevas”, da “potestade de Satanás”, das “forças espirituais do mal”.

Os acontecimentos do Sinai, selados com sangue de cordeiros, repetiram-se no dia de pentecostes (curiosamente, ainda hoje, os judeus, neste dia comemoram a entrega da Lei por Moisés). O vento e o fogo no cenáculo não foram tão terríveis quanto no Sinai, mas estavam lá também. E lá ao contrário do Sinai, eles apontavam para o mundo. O isolacionismo determinado no Sinai, que tinha por objetivo preservar a semente da qual nasceria o Redentor, foi completamente abolido. Isso fica claro quando o novo povo de Deus recebe a capacidade de falarem pelo menos 14 idiomas.

Há muito nas comparações entre o período no deserto e o período em que vivemos. O Apóstolo Paulo, destaca seis semelhanças do que acontece conosco com o que aconteceu no deserto: 1) todos foram batizados, 2) “todos comeram de um só pão” e todos “beberam da mesma fonte espiritual”. Entretanto, Deus não se agradou da maioria deles, pois, como acontece hoje, eles foram: 3) idólatras, 4) imorais, 5) murmuradores e 6) lhe desrespeitaram.

No deserto, pessoas que há quatrocentos anos eram escravos, cujo maior conhecimento tecnológico era fazer tijolos de terra arenosa, foram ordenados a erigir um Tabernáculo, onde o SENHOR seria cultuado, que demandava trabalhos em tecidos, perfumes, pedras preciosas, marcenaria, fundição de metais, desenhos, e outros trabalhos de artífices especializados. O que fazer?

Nesse contexto foi que o Santo Espírito capacitou a Bezalel e a Oliabe a fazerem tudo isso e a ensinar seus auxiliares. Observe a descrição no Livro do Êxodo em seus capítulos 31 a 38.

Na Nova Aliança, não precisam mais de um Tabernáculo, pois Deus fez morada no coração de seu povo, mas possuem necessidades materiais: saúde, socorro financeiro, capacidade de anunciar a Boa Nova a estrangeiros, etc. Quantas eram as necessidades não resolvidas normalmente, tantos eram os dons concedidos pelo Espírito Santo. Semelhantemente ao que fez a Bezalel.

E como aconteceu quando Jesus multiplicou os pães, não houve sementeira nem colheita; muito menos preparo. O Senhor “queimou etapas” e com pães já prontos, fez o que faz todos os dias, quando semeamos a terra: multiplicou o grão em espiga.

À uma multidão de peregrinos, sem recursos para permanecer mais tempo em Jerusalém, ele levantou homens como Barnabé que vendiam tudo o que possuíam e depositavam o valor aos pés dos Apóstolos. Ou credenciou o novo anúncio das grandezas de Deus mediante milagres, inclusive de curas.

E, quando a barreira era a língua, quem trazia as boas notícias era capacitado a falar das grandezas de Deus no idioma de quem deveria ouvi-las.

O Espírito Santo sempre acompanhará seu povo e suprirá suas necessidades. Entretanto não lhe imaginemos ingênuo ao ponto de levar alguém a falar coisas sem sentido a pessoas que usam o mesmo idioma que nós.

“Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos” (1Co 14.20).

sábado, 13 de junho de 2009

Marcas da verdadeira Igreja

Não há dúvidas de que o dia de Pentecostes marcou uma nova era para o Povo de Deus. Alguns chegam a dizer que foi o nascimento da Igreja. Prefiro ver como um novo arranjo; reflexo da nova Aliança, em que as leis de Deus passaram das tábuas ao coração de seu povo, pois Estêvão em seu discurso, falando do êxodo, menciona a Ekklesia (Igreja) peregrinando no deserto (At 7.38).

Esse arranjo gerou novos valores e novas práticas no meio do povo. Algumas dessas práticas lembram o que aconteceu quando a primeira aliança foi firmada com Moisés por mediador. Por exemplo: O despreendimento dos bens materiais lembra muito o acontecido por ocasião da construção do Tabernáculo, em que Moisés mandou que parassem de trazer ofertas, pois já tinham o suficiente.

O som como de um vento impetuoso e o fogo em forma de labaredas (línguas) lembra-nos também os eventos terríveis que ocorreram no Monte Sinai.

Porém, mais importante do que as aparentes semelhanças são as diferenças. Primeiro: não houve sangue, pois o último e verdadeiro sangue - do qual todos os demais eram sombras - já havia sido derramado na cruz. Segundo: houve um sinal claro de que com esse novo arranjo o Povo de Deus deveria atingir as nações (ao contrário do Sinai em que eles deveriam abster-se de qualquer contato com os povos vizinhos): os idiomas.

A fala imediata proporcionada pelo Espírito Santo os capacitou cumprir o que Marcos registrou: “E eles, tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam” (Mc 16.20).

De todas essas práticas, algumas perduraram, e perduram até hoje, como marcas distintivas da Igreja. Não os sinais miraculosos iniciais, pois, credenciadores dos eventos que estavam acontecendo, cessaram tanto no Sinai quanto no Cenáculo.

Nem o despreendimento de bens materiais, pois tanto no deserto tal prática cessou ao ponto de terem de receber o Maná das próprias mãos divinas, como também a Igreja Primitiva, de tão despatrimonializada, precisou receber ajuda.

Só por intermédio do Apóstolo Paulo a Igreja de Jerusalém recebeu, pelo menos, duas grandes ofertas levantadas entre as igrejas gentias.

Além das alegorias, como a que o Apóstolo Paulo faz entre o peregrinar no deserto e a vida da Igreja (não deixe de ler 1Co 10), permaneceram três marcas que não se encontram - juntas - em nenhum outro lugar além da Igreja de Cristo: 1) A doutrina dos Apóstolos, 2) a administração correta dos sacramentos e 3) a disciplina.

As duas primeiras estão em At 2.42, onde a doutrina dos apóstolos está explícita. A administração correta dos sacramentos está implícita em “comunhão” (koinonia: paz com os irmãos), “partir do pão” e “orações” (paz com Deus).

A terceira marca, a disciplina, fica explícita em At 5. O caso de Ananias e Safira.

Esta doutrina (as marcas distintivas da Igreja) é de vital importância tanto para as diretrizes de um ecumenismo sadio e bíblico, quanto para qualquer um de nós que chegue a um lugar estranho e procure uma Igreja para cultuar a Deus.

Ao se perguntar: esta é uma igreja de Cristo, ou se degenerou em “sinagoga de Satanás” (Ap 2.9), ou finge ser igreja de Cristo? A resposta está na observação judiciosa desses três pontos:

1º - Essa igreja permanece na doutrina dos apóstolos (tem as Escrituras, de fato, como a única regra de fé e prática), ou também é dirigida por outras fontes de doutrina?

2º - Essa igreja administra fielmente os sacramentos, ou faz deles meios de fomentar a superstição ou engano?

3º - Essa Igreja preocupa-se em viver de acordo com a ética das Escrituras ou a ética do mundo impera em seu meio?

A manutenção dessas marcas depende de nós. Entretanto só podemos fazê-lo mediante a força que o Espírito Santo nos concede.

sábado, 6 de junho de 2009

Presbíteros e diáconos

As primeiras capacitações concedidas à Igreja a partir do Pentecostes foram anunciar as grandezas de Deus em outros idiomas e a intrepidez para fazê-lo.

Não custa repetir, apesar de ser óbvio, que eles necessitariam falar outros idiomas, quando saíssem mundo afora, cumprindo a Grande Comissão recebida do Senhor Jesus. Isso foi suprido.

Também, não custa repetir o quando era difícil para alguém nascido na Galiléia, sequer pensar em ir a outros países, e, pior, anunciar uma mensagem completamente descontextualizada.

Talvez isso explique a razão de muitos se aferrarem ao ambiente judaico ao ponto de terem por necessário primeiro tornar-se judeu para depois tornar-se cristão. Eram os judaizantes, que tantos problemas causaram à Igreja a ponto de obrigarem-na a deixar de lado, por algum tempo, sua missão natural e reunir-se em Concílio.

Entre esses dois momentos - o Dia de Pentecostes, e o Concílio de Jerusalém - vemos, no relato de Lucas, que surgiram os oficiais que até hoje são objeto dos cuidados da Igreja de Cristo.

A princípio havia apenas apóstolos. Parece que contavam com alguns auxiliares. Por exemplo: o sepultamento de Ananias e de Safira foi feito por quem Lucas chama de apenas de “moços”. Entretanto, quando houve necessidade de uma assistência mais consistente, promoveram a escolha de 7 homens: os diáconos.

A primeira menção do termo presbítero - tecnicamente falando, pois essa palavra pode também ser traduzida por ancião - acontece em Atos 11.30 quando a igreja de Antioquia resolve “enviar socorro aos irmãos que moravam na Judéia; o que eles, com efeito, fizeram, enviando-o aos presbíteros por intermédio de Barnabé e de Saulo”.

Em sua primeira viagem missionária, Paulo, não obstante tenha deixado igrejas em diversas cidades, foi maltratado em quase todas, e na última foi apedrejado e arrastado para fora da cidade, dado como morto. Entretanto recuperou-se. E, apesar de estar próximo de onde começara sua viagem, voltou passando pelas cidades hostis e em cada uma promoveu a eleição de presbíteros.

No Concílio de Jerusalém as igrejas dos diversos lugares foram representadas por presbíteros, os quais foram recebidos pelos presbíteros da igreja de Jerusalém e ambos participaram dos debates e da decisão do concílio em pé de igualdade com os Apóstolos.

Os presbíteros de Éfeso receberam a ordem de pastorearem o rebanho de Deus, e a instrução de que Deus os colocou por bispos.

Timóteo é instruído sobre os presbíteros que se “afadigam na palavra e no ensino”.

Tito é enviado por Paulo às igrejas de Creta com o objetivo de por as coisas em ordem e em cada cidade constituir presbíteros.

Tiago encarrega os presbíteros de visitarem os doentes. Orarem por eles e os medicarem.

Pedro e João, reconhecidamente apóstolos, identificavam-se em cartas como presbíteros.

No dia de Pentecostes o Espírito Santo já encontrou os apóstolos escolhidos pelo Senhor Jesus e os capacitou a desempenharem suas respectivas missões. Mas, à medida que a Igreja se estruturava, espalhando-se mundo afora, sem contar com a presença dos apóstolos todo o tempo em todos os lugares, o mesmo Espírito suscitou homens que a pastoreasse: diáconos e presbíteros.

Os diáconos sempre aparecem mais relacionados com as necessidades materiais e com suas respectivas igrejas. À exceção de Estêvão e Felipe.

Os presbíteros recebem o encargo de visitação de enfermos, de afadigar-se na palavra e no ensino, e de supervisionarem (episcopado). Portanto, contextos mais abrangentes.

Sobre ambos pesa a responsabilidade enorme dada pelo Senhor da Igreja: “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada: pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe 5.1-3).

Sobre ambos pesa, muitas vezes, o desânimo que vem com a desconfiança e a rebeldia natural de corações pecaminosos que se esquecem das ordens do Senhor da Igreja: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros” (Hb 13.7).

sábado, 30 de maio de 2009

Cenáculos benditos

“Façamos-lhe, pois, em cima, um pequeno quarto, obra de pedreiro, e ponhamos-lhe nele uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candeeiro; quando ele vier à nossa casa, retirar-se-á para ali” (2Re 4.10). E assim aquela família rica de Suném fez para o profeta Eliseu o que nos tempos de Jesus chamou-se cenáculo.

A palavra cenáculo vem do latim (cænaculu deriva-se de cœna ceia) e refere-se ao lugar em que a família ceava. Infelizmente traz aos falantes de português a ilusão de cenário: nada mais distante. A palavra grega significa simplesmente quarto alto.

Embora nas casas ricas houvesse uma espécie de mezanino designado pelo mesmo nome, o mais comum era o cenáculo externo, com acesso por uma escada na lateral da casa, em que, nos dias quentes, se usava até como local de dormir.

Em um cenáculo Jesus instituiu a Santa Ceia quando celebrou a páscoa com seus discípulos. Em outro, em Jope - muitos anos mais tarde - Pedro ressuscitou Dorcas. De outro, em Trôade, durante o sermão de Paulo, que prolongou-se até meia noite, Êutico caiu de uma janela. E, foi para um cenáculo que os discípulos voltaram logo após o Senhor ter subido aos céus. Mas veja bem o texto: “Então, voltaram para Jerusalém, ... Quando ali entraram, subiram para o cenáculo...” (At 1.12-13). Não era qualquer um. Era “o cenáculo”.

Gosto de pensar que era o mesmo em que Jesus serviu a Santa Ceia. Imagino que ele fosse parcialmente aberto, pois creio que também foi lá que o Espírito Santo foi derramado.

De Atos 2.1 ficamos sabendo que “Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar”. O contexto imediato que explica a expressão “mesmo lugar” é a reunião em que Matias foi escolhido, que - tudo indica - aconteceu no mesmo cenáculo e revela o hábito recém-criado de reunirem-se lá.

Em Atos 2.6 lemos “Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua”. Ora, se tudo aconteceu em um cenáculo semi aberto, fica fácil de se entender como a multidão de peregrinos judeus, que veio a Jerusalém celebrar a festa de pentecostes, teve conhecimento do que estava ocorrendo.

Às 9 horas da manhã, foram imediatamente habilitados a falar o idioma de um dos grupos lingüísticos ali representados.

Saíram às ruas. E, à medida em que “as grandezas de Deus” eram anunciadas na língua da pessoa a quem falavam, iam se dirigindo ao único lugar de Jerusalém que comportava uma multidão da qual três mil foram batizados: o pátio do templo.

Bendita casa que abrigou o Senhor Jesus durante a páscoa da qual ele disse ter “desejado ansiosamente comer” com seus discípulos antes de seu sofrimento.

Bendita casa que recebeu de volta os onze e os demais discípulos, em suas primeiras reuniões, serviu de local para a escolha de Matias e finalmente foi o lugar preferido pelo Espírito Santo, em detrimento da pompa, riqueza e do cerimonial que acontecia no templo, para derramar-se sobre os seus.

Bendita casa em que o Evangelho começou a ser proclamado até chegar a nós, que vivemos nos confins do mundo.

Benditas sejam também as nossas casas onde o Espírito Santo manifesta seu poder produzindo seu divino fruto em cada um de seus moradores, os verdadeiros “santo-dos-santos” onde habita o Senhor.

Benditos cenáculos, onde qualquer pessoa - de qualquer cultura, língua ou nação - nascido “não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus mediante o lavar regenerador de seu Espírito” - o qual “de pedras suscita filhos a Abraão” - repetem a última ceia do Senhor esperando pela primeira a ser celebrada nas casas que ele disse que iria preparar.

sábado, 23 de maio de 2009

“Não vos deixarei órfãos”

Alguns dicionários restringem o sentido da palavra “órfão” a menores de idade ou a incapazes. Àqueles que, pela falta dos pais, carecem de algum amparo ou de quem responda por eles.

Perdi meus pais após 30 anos de idade, e se não houve o que fazer em termos legais, houve a que providenciar por mim mesmo, a fim de mitigar a falta de ambos.

Lembro-me das noites em que eu orava em favor de ambos. Depois que meu pai morreu gastei certo tempo para me acostumar em agradecer pela vida dele e pedir em favor de minha mãe. Anos depois precisei me acostumar de novo: passei a agradecer pela vida dos dois.

Em termos materiais a morte deles não afetou minha vida. Mas em termos afetivos e espirituais sou completamente incapaz de descrever o que aconteceu.

No próximo domingo, dia de pentecostes, relembraremos o cumprimento da promessa de Jesus: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo 14.18).

A palavra grega nesta promessa - que, aliás, deu origem à nossa é “orphanos” - pode ser usada para referir-se a qualquer um que perdeu seus pais, mas seu uso bíblico é muito restrito, pois, além daqui, ocorre apenas na carta de Tiago, quando ele fala da verdadeira religião. E o sentido nos dois textos pressupõe incapacidade, ou necessidade.

Se Jesus promete não deixá-los órfãos, obviamente ele está se colocando na posição de pai, e colocando-os na posição de quem não podem passar sem um.

O Senhor, nos dias de sua carne, desempenhou o papel do Pai ao ponto de dizer a Filipe: “Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras” (Jo 14.9-10).

Ao reassumir a glória que teve com o Pai desde a fundação do mundo, para que os seus não ficassem órfãos ele os enviou seu Espírito.

Se a segunda implicação era a de que os seus não suportariam a orfandade, segue-se um desdobramento: o Espírito Santo supriria o papel de Pai que ele havia desempenhado. Portanto o remédio para a orfandade do Senhor Jesus era - e ainda é - a presença do Espírito Santo.

Mediante o Espírito Santo os seus não foram apenas capacitados a desempenhar a missão que dele receberam, mas tornaram a desfrutar de sua presença e de sua paternidade.

Capacitados e protegidos, aqueles por quem morreu, desfrutam mediante o Espírito Santo, das mesmas bênçãos que os discípulos e os apóstolos desfrutaram tempos atrás.

Essa é mais uma das grandes bênçãos que o Espírito Santo nos traz. Bênção que quase não é lembrada em nossos dias confusos.

domingo, 17 de maio de 2009

Subiu aos céus

Nunca meus lábios cessarão, ó Cristo,

De bendizer-te, de cantar-te glória;

Pois guardo na alma teu amor imenso:

Grata memória!

Agradecido, pelo amor sem par que meu Senhor revelou na cruz, preparei-me antecipadamente para relembrar sua última semana, pois a importância desta semana na História de Redenção é realçada pela atenção que todos os evangelistas lhe deram.

Reverentemente e grato acompanhei dia-a-dia essa semana esforçando-me para entender o que aconteceu em cada dia e como tais acontecimentos me afetam hoje.

Fui alertado pela figueira infrutífera, que, apesar de folhuda, amaldiçoada pelo Senhor secou-se. E este alerta agravou-se quando vi sua ira contra os que vilipendiavam o templo.

Ouvi, triste e assustado, todos os ais e imprecações que o Senhor verberou contra os líderes religiosos hipócritas que se preocupavam com os mosquitos e engoliam camelos.

Mantenho vivas as advertências que o Senhor fez sobre o futuro e, embora saiba que a maioria já se cumpriu aguardo com sofreguidão o cumprimento de parte delas.

Aprendi o quanto é fácil desperceber o que está acontecendo, e discutir com companheiros do mesmo serviço, com discípulos do mesmo Mestre, quem de nós é o maior, e entendi o gesto do Senhor, que enrolado em um toalha lavava-lhas os pés prestando-lhes o serviço de um escravo.

Chorei - como sempre faço ao repetir o ato do Senhor - lendo como ele repartiu seu corpo e seu sangue a pessoas tão indignas quanto eu.

Condoí-me de Pedro; e alertei-me mais sobre a facilidade que cada um de nós tem de negar o Senhor, diante da menor ameaça.

Alegrei-me com Madalena ao saber que o Senhor não ficou na tumba, mas ressurgiu vitorioso.

Exultei ao escutar o Senhor dizer a Tomé que mais bem-aventurado são aqueles que não o viram e creram.

- * -

Hoje, me preparo para, na próxima quinta-feira, avivar na mente o que aconteceu 1978 anos atrás, em Betânia, quando o Senhor foi elevado aos céus diante dos olhos de seus discípulos, que receberam a promessa de dois anjos que ele haveria de vir do mesmo modo como o viram subindo ao céu.

Era o encerramento de seu ministério terrestre, em que esvaziado dos atributos que o impediam de ser um de nós, tomou sobre si as nossas dores e sarou-nos por suas chagas.

Não sabemos a que hora do dia aconteceu. Mas sabemos que ele retornou para o mesmo lugar de onde veio. Saiu de tudo aquilo que criara e retomou a glória que tivera com o Pai antes de haver mundo.

Sendo um de nós, no corpo adquirido de Maria – do qual nunca se separará – sentou-se à destra do Pai, e reina “até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés” e “o último inimigo a ser destruído é a morte”.

De lá, juntamente com o Pai, enviou o Espírito Santo à Igreja, e por meio dele, está presente com dois ou três que estiverem reunidos em seu nome cantando louvores ao Pai, e capacitando-os a viver, não mediante as obras da carne, mas frutificando conforme foram designados.

Concedeu presentes à Igreja que resgatou com seu sangue: ofícios e respectivos oficiais. Estes, guiados pelo Espírito Santo, apascentam seu rebanho - a Igreja - conforme sua vontade, mediante os dons que dele receberam.

Se a Redenção foi concluída na Cruz, como atesta seu brado: “está consumado”, seu ministério terrestre, que foi iniciado com os anjos anunciando a pastores de ovelhas seu nascimento, terminou quando eles anunciaram a pastores de almas que, como ele subiu, um dia voltará.

Que ele volte logo. Maranatha!

domingo, 10 de maio de 2009

Mostarda: semente e planta

Jesus usou muitas parábolas para descrever os diversos aspectos do Reino de Deus. Em três delas (Mc 4.30, Lc 13.18e20) ele fez uma pergunta do tipo: “A que assemelharemos o reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos?”.

Nosso Mestre procurava as figuras que melhor atendessem a capacidade de seus ouvintes e algumas devem ser “atualizadas” para nossa realidade se quisermos entendê-las bem.

Há alguns dias me perguntaram como as “aves dos céus” podem aninhar-se nos ramos de um pé de mostarda, se ela é apenas uma plantinha de dois palmos de altura?

Ora, a própria descrição do Senhor nos mostra que ele falava de um tipo de planta que chegava a ser “a maior de todas as hortaliças”. Uma pesquisa rápida mostra que nossa mostarda é da família Brassica e a que ele se referia deve ser da família Sinapis, a qual cresce até 2 metros ou mais, pois há textos que falam de plantas mais altas.

Entretanto, o mais importante, para quem estuda o Reino de Deus, é notar os pontos que o Mestre destacou: o contraste entre o pequeno tamanho da semente e o grande tamanho da planta, e a presença das “aves dos céus”.

Do contraste, a lição do Senhor é óbvia: O Reino de Deus tem um início pequeno, mas se torna grande. Da presença das aves, aprendemos sobre sua utilidade.

Sobre os tamanhos, convém lembrar que ambos - tanto o pequeno quanto o grande - são temas recorrentes ao longo das Escrituras. Acaso não nos lembramos do profeta Zacarias (4.10) ordenando-nos a não desprezar os “pequenos começos”? Ou porventura esquecemos que o profeta Isaías fala do dia em que toda a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar?

Assim é o Reino de Deus. Seu início, de tão pequeno, é desprezível. Afinal seu início é a palavra. Entretanto ele se transforma em algo tão grande que é capaz de mudar o cerne do ser humano: seu coração. Muda totalmente: converte. Converte um coração rebelde em um coração dócil ao seu Criador e Redentor.

Sobre as “aves do céu”, que se aninham (literalmente: fazem tenda) nos ramos da “planta Reino de Deus”, a interpretação mais usada é a de que os outros encontram naquele em que o Reino de Deus, de semente tornou-se planta, um lugar de repouso. Porém, levando em conta o sentido das demais vezes em que Jesus falou delas, sou propenso a entender que elas encontram repouso à custa da planta. Ou seja: elas prejudicam a planta. Explico:

A expressão “Aves dos Céus” aparece nos evangelhos apenas em quatro contextos: 1) Quando o Senhor diz não possuir onde “reclinar a cabeça”, mas as aves dos céus têm ninhos, 2) na Parábola do Semeador, quando Jesus diz que as aves dos céus comem as sementes caídas no caminho, 3) na Parábola sobre a qual estou falando, e 4) quando Jesus desafia seus discípulos a terem fé em Deus que sustenta até as aves dos céus que não semeiam, não colhem e nem ajuntam em celeiros.

Ou seja, elas não aparecem em contextos favoráveis à planta. Elas se valem da planta, no mínimo, para pouso. Há textos que falam delas se alimentando das sementes de mostarda.

A experiência comprova. Alguém em cujo coração o Reino de Deus foi plantado mínima semente, e desabrochou planta frondosa, muitas vezes é explorado - humanamente falando - e enganado, ao ponto de nosso Mestre nos advertir que “porque os filhos do mundo são mais hábeis na sua própria geração do que os filhos da luz”, ou que nos enviou como cordeiro para o meio de lobos.

Porém, o consolo que temos é sua ordem de sermos misericordiosos como nosso Pai que “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”.

Aquilo, que em nós teve um início pequeno, cresceu. Hoje, mesmo com prejuízo próprio coloca-se à disposição de seu Senhor, pois é súdito do Reino de Deus.

sábado, 2 de maio de 2009

Profecias que se cumprem

Em 1347, os venezianos disputavam com os genoveses a cidade de Kapha, que ficava na atual Ucrânia, e era comercialmente estratégica. Contrataram então um povo mongol para cercar a cidade, que, bem fortificada, oferecia grande resistência.

Os mongóis, dispersos por um território de vastas estepes conviviam, sem maiores danos, com uma febre que provocava o aparecimento de bolhas negras na pele. Entretanto agrupados em condições precárias, como acontece em uma guerra, foram os primeiros a experimentar um alto índice de mortandade entre seus soldados. Era a Peste Negra ou Peste Bubônica.

Talvez por estratégia de guerra, ou por vingança, atiraram cadáveres por cima das fortificações da cidade, e a contaminam.

Alguns fugitivos levaram a doença para a Anatólia (atual Turquia) e outros, em um barco, já chegaram mortos à Sicília, onde os que os enterraram foram o primeiros europeus contaminados. Dois anos depois a peste já havia chegado a grande parte da Europa, inclusive à Ibéria e às Ilhas Britânicas. Quatro anos depois chegou aos países nórdicos.

Matou cerca de 50 milhões de pessoas (talvez 75), o que equivalia a 1/3 da população européia da época. Há relatos de cidades inteiras abandonadas com pilhas de mortos insepultos, de desespero, pânico, descrédito e até fanatismo.

Antes da Peste Negra houve muitas outras. Porém nenhuma foi tão bem documentada quanto ela. Depois dela, além de seus retornos a cada geração de europeus durante os 400 anos gastos para se entender seus mecanismos de contaminação e tratamento, o mundo sofreu muitas outras pandemias.

As mais notáveis foram: a gripe espanhola na última metade de 1500, com mais de 1 milhão de mortos na Espanha e muitos em outros países. A Peste Italiana em 1630. A Praga Londrina em 1665, que matou cerca de 100 mil pessoas (1/5 dos habitantes de Londres) e muitos na Europa. A Peste de Viena em 1879. A gripe aviária, que desde 1900, quando foi registrada pela primeira vez na Itália, se manifesta esporadicamente no mundo todo e, quatro anos atrás trouxe pânico aos países da Ásia. Agora, o mundo se preocupa com a gripe suína.

Em todas as manifestações anteriores, os animais - ratos ou aves - eram os transmissores. E a velocidade de propagação da doença dependia da velocidade de locomoção deles: dos ratos, via de regra, nos navios, e das aves em suas migrações. Agora as pessoas são os transmissores. E transmitem com a rapidez do avião, que a levam em menos de um dia de um continente a outro. De um lado da terra ao outro.

Não deixa de ser notável, que o Sermão Profético de Jesus, proferido dias antes de sua morte, conhecido como o pequeno Apocalipse, e registrado nos três evangelhos sinóticos, concordam na enumeração de quase todas as catástrofes a que o Senhor se referiu: Guerras, terremotos e fomes. Entretanto, Lucas, o médico, destaca a palavra “pestilência” (no grego: loimos).

Alguns argumentam que com o aumento da população mundial a conseqüência direta é o aumento das doenças, especialmente das infecciosas. Pode ser. Porém, esse aumento que se observa no número de pandemias, é muito semelhante ao aumento que se observa no número de terremotos que independe do tamanho da população mundial. Ou seja: estamos vendo mais uma profecia se cumprindo debaixo de nossos olhos.

Não sabemos se ceifará muitas vidas como a Peste Negra o fez, muito menos se, as medidas que todos os países estão tomando serão suficientes. Porém sabemos que como não foi a primeira, não será a última.

Você já reparou que todas as advertências de Jesus já se cumpriram? Nesse mesmo sermão ele foi bem claro: “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” Lc 21.33.

Entretanto, não há motivo para desespero, pois quem nos adverte é o mesmo que nos ordena a ter esperança e até mesmo a exultar com a proximidade de sua volta: “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; sobre a terra, angústia entre as nações em perplexidade por causa do bramido do mar e das ondas; haverá homens que desmaiarão de terror e pela expectativa das coisas que sobrevirão ao mundo; pois os poderes dos céus serão abalados. Então, se verá o Filho do Homem vindo numa nuvem, com poder e grande glória. Ora, ao começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima” (Lc 21.25-28).

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...