Você já percebeu como é difícil escolher uma Bíblia com tantas opções de formato e cor? Agora, já procurou uma não “de afinidade” (do executivo, da mulher, do adolescente, de promessas, etc) ou de estudos? Recentemente, tive de encomendar. Porém, por traz disso, há um problema maior: a tradução.
No Brasil encontramos, com facilidade, pelo menos 9 versões protestantes da Bíblia. Almeida Revista e Corrigida, Almeida Revista e Corrigida Fiel, Almeida Revista e Atualizada, Almeida Século XXI, Almeida Edição Contemporânea, Nova Versão Internacional, Nova Tradução na Linguagem de Hoje, Bíblia Viva e A Mensagem (teremos outro tanto se considerarmos as versões Católicas Romanas).
A primeira tradução da Bíblia para o Português é creditada a João Ferreira d’Almeida que publicou o Novo Testamento em 1693 e em 1748 Jacobus op den Akker completou o que ele deixou pronto do Antigo Testamento. Porém, antes dele, há conhecimento de diversas porções da Bíblia (como a Bíblia de D. Dinis (1261-1325), que continha os 20 primeiros capítulos do Gênesis e foi traduzida da Vulgata Latina). Depois de Almeida muitos tentaram fazer o mesmo.
O próprio texto de Almeida contribuiu diretamente com:
1ª - Revista e Corrigida (1940) pela imprensa Bíblica Brasileira que compilou os textos da Edição Revista e Correcta (1873) e Edição Revista (1894). Hoje é editada, com pequenas variações, pela Sociedade Bíblica Brasileira (que a revisou em 1995 e 2009), Imprensa Bíblica Brasileira (que a revisou em 1997) e pelas Sociedade Bíblica de Portugal.
2ª - Revista e Atualizada (1959 e reeditada em 1988 e 1993) pela Sociedade Bíblica do Brasil valendo-se de uma ferramenta crítica da qual falarei depois.
3ª - Corrigida Fiel (1994) pela Sociedade Bíblica Trinitariana, procurando preservar a equivalência formal (palavra por palavra) e as classes gramaticais (verbo por verbo, substantivo por substantivo, etc.) e destacando as palavras adicionadas necessárias a compreensão.
4ª - Contemporânea (1990) pela Editora Vida, a partir da Corrigida para, como declaram: produzir um texto limpo de arcaísmos e ambiguidades e ao mesmo tempo preservar um estilo belo, ungido e admiravelmente soberano...
5ª - Século XXI (2007), feita pela Editora Vida Nova, procurou conciliar, como declaram: exatidão exegética e fluência.
Outros textos:
6ª - NVI (1993) pela Intenational Bible Society, como se depreende da introdução: através de uma equipe multidisciplinar, multinacional e multidenominacional de teólogos e estudiosos inspirados pelo projeto americano similar de 1978 que produzissem um texto que levasse em conta precisão, beleza de estilo, clareza e dignidade.
7ª - Linguagem de Hoje (1988) pela Sociedade Bíblica do Brasil com o objetivo de tornar a leitura mais acessível. Vale-se da equivalência dinâmica. Ou seja: Não tem qualquer compromisso com as palavras, apenas com a ideias (como as entendem).
8ª - Bíblia Viva (1981) pela Editora Mundo Cristão é na realidade uma tradução da Living Bible de Keneth Taylor. Ou seja uma paráfrase de uma paráfrase inglesa.
9ª - A Mensagem (2011) pela Editora Vida é na realidade a tradução do livro The Message, de Eugene Peterson, que é ainda mais livre do que uma paráfrase. Segundo ele disse é o modo como lia a Bíblia em palavras que fossem entendidas por todos que o ouviam durante seus anos de ministério.
Na realidade há mais, que não são estão nas lojas.
Talvez você esteja perguntando: E daí? Isso me afeta em que? Vou dar dois exemplos. O primeiro, qualquer que seja sua tradução, em nada afeta o sentido da história menor, muito menos da história de Israel, menos ainda o sentido da História da Redenção, mas nos mostra o quanto os conceitos afetam até mesmo um tradutor que se orienta pela equivalência formal.
Em Juízes 3.24 é narrado como Eúde matou Eglom, Rei dos Moabitas, e fugiu sem ser visto, trancando atrás de si a sala do trono onde deixou o cadáver. Os servos de Eglom sentiram sua demora, mas, pensaram literalmente: ele cobre os pés na sala fresca.
A Corrigida traduziu: está cobrindo seus pés na recâmara da sala de verão.
A Corrigida Fiel traduziu: está cobrindo seus pés na recâmara do cenáculo fresco.
A Atualizada traduziu: está ele aliviando o ventre na privada da sala de verão.
A Século XXI traduziu: está aliviando o ventre no seu quarto de verão.
A Edição Contemporânea traduziu: está aliviando o ventre na privada da sala de verão.
A NVI traduziu: Ele deve estar fazendo suas necessidades em seu cômodo privativo.
A Nova Tradução da Linguagem de Hoje traduziu: Então pensaram que o rei tinha ido ao banheiro.
A Bíblia Viva traduziu: Decerto está dormindo na sala de verão.
A Mensagem traduziu: Provavelmente ele está no banheiro, fazendo suas necessidades.
A expressão “cobrir os pés” é conhecida dos brasileiros. Os gaúchos dizem: “ir aos pés” como sinônimo de fazer necessidades fisiológicas. Portanto a tradução da Bíblia Viva (dormir) está prejudicada.
Banheiro, como lugar de fazer necessidades é algo muito recente. Mais recente do que o “quarto de banhos” onde se usava banheira e depois duchas ou chuveiros. Naqueles dias ou usava-se os matos, ou no caso de uma sala real se construía um jardim adjacente. Como é chamado de “sala fresca” provavelmente fosse um jardim superior, ou uma cobertura. Portanto, embora seja mais simples de se entender, quando se traduz por privada ou banheiro, se atribui à época algo que não existia (anacronismo). As traduções da Mensagem, NVI, Linguagem de Hoje, Contemporânea e Atualizada falharam.
A Corrigida e a Corrigida Fiel insistiram em recâmara onde pode ser apenas um cômodo. Entretanto, foram as mais literais.
Como segundo exemplo veja Mc 15.2 em que a intenção de Jesus precisou ser interpretada por todos:
A Corrigida Fiel, a Corrigida, a Atualizada e a Contemporânea: E Pilatos lhe perguntou: Tu és o Rei dos judeus? E ele, respondendo, disse-lhe: Tu o dizes.
A Século XXI: E Pilatos perguntou-lhe: Tu és o rei dos judeus? Jesus lhe respondeu: É como dizes.
A NVI: “Você é o rei dos judeus?” Perguntou Pilatos. “Tu o dizes”. Respondeu-lhe Jesus.
A Bíblia Viva: Pilatos perguntou a Ele: “Você é o Rei dos Judeus”? “Sim”, respondeu Jesus, “é como o senhor está dizendo”.
A Linguagem de Hoje: Pilatos perguntou: - Você é o rei dos judeus? - Quem está dizendo isso é o senhor! - respondeu Jesus.
A Mensagem: Pilatos perguntou: “Você é o ‘Rei dos Judeus’?” Jesus Respondeu: “Se você diz”.
Percebeu?
E eu estou dando exemplos apenas da forma. E chamo sua atenção para a necessidade de acautelar-se das paráfrases.
Não há uma tradução que substitua eficazmente a exposição fiel de um texto bíblico. Ler a Bíblia é algo importantíssimo, porém estudá-la, ou ouvir exposições fiéis (aquilo que a Fé Reformada chama de sermões) é vital para bem compreender seu conteúdo.
O inverso também é verdadeiro. Pesa nos ombros dos Ministros da Palavra de Deus (por essa razão é que as Escrituras ordenam que eles se afadiguem na palavra e no ensino) uma exposição correta do texto de modo que ele mantenha, em nossa língua e cultura, o máximo de sua força: como se um ouvinte original o estivesse ouvindo.