sábado, 30 de março de 2013

A cruz de Jesus

À semelhança de Isaque, Jesus percorreu o monte Moriá carregando a madeira de seu sacrifício, pois Jerusalém foi construída sobre o monte Moriá (2Cr 3.1) o mesmo monte que Abraão subiu com Isaque.

Podemos dizer com certeza que Isaque carregou algumas achas de lenha ajuntadas em feixe, pois o Texto Sagrado diz que Abraão “rachou lenha para o holocausto” (Gn 22.3), mas não sabemos exatamente o que Jesus carregou: A cruz inteira? A trave horizontal?

Os evangelistas são unânimes em dizer que ele carregou a stauros, o que transmite a impressão de se referirem à chamada cruz comissa, ou cruz em tau (tau é a letra grega correspondente ao nosso T. Ou seja: Ela teria a forma de um Tê maiúsculo).

A forma atual, se deve mais a interpretação que os artistas fizeram de João 19.19: “Pilatos escreveu também um título e o colocou no cimo da cruz… (Atualizada)”. Concluíram que a placa de Pilatos foi colocada na parte superior da cruz, o que implica no uso da cruz imissa ou no formato de tê minúsculo (†). Entretanto, não pensaram na hipótese de um cartaz hasteado sobre o Tê (maiúsculo), como é perfeitamente aceitável em outra tradução: “E Pilatos escreveu também um título, e pô-lo em cima da cruz (Corrigida)”.

Tenha nosso Senhor levado a cruz inteira ou só a trave horizontal; tenha sido tal trave grande como a de um Tê maiúsculo ou menor como a de um t minúsculo, o certo é que diferentemente de Isaque ele não carregou apenas a madeira. A madeira que ele carregava, estava, por assim dizer, impregnada por todas as desgraças, desde Adão, as quais ele veio remover, a fim de que a criação de Deus voltasse a ser o que devia ter sido desde o começo. Ou melhor: passasse ao estágio de glorificação em que o pecado não mais existisse: fosse glorificada.

Não é à toa que Paulo declara auto e bom tom: “...mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1Co 1.23).

Não é à toa que amamos a mensagem da cruz!

sábado, 23 de março de 2013

A última semana de Jesus (Parte 2)

Iniciei a primeira parte deste assunto mostrando o quanto os Evangelhos dão destaque a última semana do Senhor e concluí, com a narrativa de João, explicando que o Senhor colocou a si mesmo como padrão de amor ao próximo ao dizer: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (Jo 13.34). Como essas palavras foram ditas em um contexto de despedida, deram ensejo a que Pedro prometesse dar a vida por Jesus, ao que ele respondeu: “Darás a vida por mim? Em verdade, em verdade te digo que jamais cantará o galo antes que me negues três vezes” (Jo 13.38).

Jesus já sabia que todos o abandonariam, pois assim profetizara Zacarias (Zc 13.7). Alertou seus discípulos de que eles se escandalizariam quando os acontecimentos profetizados se cumprissem (Mc 14.27-52). E se cumpririam, pois ele – Jesus – não deixaria cair sequer um i ou um til do que seu Espírito levara Zacarias e os demais profetas a registrar.

Porém, se ele era cuidadoso em não desdizer as Escrituras, como entender a participação dos demais na trama abominável que culminou em sua morte? Creio que a melhor resposta ainda é a tradicional: todos fizeram de acordo com os desejos dos próprios corações.

Judas e Pedro se destacam dos demais, que apenas fugiram. Alguns dizem que Judas era um zelote e, como lutava contra Roma para firmar o reino de Israel, ficou ressentido ao perceber que Jesus não tinha a menor intenção de estabelecer um reino material. Outros dizem que ele queria vingar-se de Jesus pela repreensão pública que recebera na casa de Maria (compare João 12.1-8, que identifica Judas como o maior repreendido, com Marcos 14.3-9 que mostra a veemência da repreensão de Jesus). Já outros atribuem seu ato apenas a possessão demoníaca.

Que o diabo sempre agiu na vida de Judas, Jesus deixa isso muito claro. Após proferir um discurso tão pesado que muitos discípulos o abandonaram. Então lhes explicou:ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido” (Jo. 6.65). E perguntou aos Doze se eles queriam ir embora também. Pedro lhe respondeu que não havia pra onde ir, pois ele possuía as palavras de vida eterna, e eles (os Doze) tinham crido e conhecido que “tu és o Santo de Deus”. A conclusão de Jesus é esclarecedora, pois nos permite entender que Judas, foi mantido entre os Doze, com o consentimento do Pai, desde o princípio, mesmo ‘diabo’: Não vos escolhi eu em número de doze? Contudo, um de vós é diabo. Referia-se ele a Judas, filho de Simão Iscariotes; porque era quem estava para traí-lo, sendo um dos doze” (Jo 6.70-71).

Ora, os motivos externos, dos quais o diabo se servia, eram os mais comezinhos: roubar: “Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava” (Jo 12.6).

Porém, o caso de Pedro me parece ser pior, pois Judas sequer era um filho de Deus: “Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome, que me deste, e protegi-os, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura” (Jo 12.12).

Além de ser filho de Deus, Pedro conviveu com o próprio Jesus e por ele foi ensinado, exortado, admoestado e alertado, mas ele agiu como se de nada valesse as palavras do Senhor. Tão xucra era sua opinião. Tão teimosa e obstinada sua vontade.

Pedro foi amedrontado, não pelo que estava acontecendo, mas pelo que poderia acontecer. Pedro acovardou-se, não diante de um soldado armado, mas diante de uma criada faladeira. Pedro, no fundo, tinha mais vergonha do que medo.

Os quatro relatos da negação de Pedro – complementares, como seria de se esperar de narradores independentes – são de uma vivacidade impressionante. Descrevem o acontecimento com imagens vivas e cruas. Todos concordam que aconteceu no pátio da casa do sumo sacerdote, durante o julgamento noturno de Jesus. Todos concordam que a primeira a questionar Pedro foi uma criada. Mas cada um nos dá informações relevantes:

De João (Jo 18.15-27) ficamos sabendo que, por ele ser conhecido do sumo sacerdote, a entrada de Pedro foi facilitada. Então, provavelmente João tenha visto seu pecado. Nos informa também que o último questionador de Pedro era parente do servo do sumo sacerdote a quem Pedro havia cortado a orelha. Aliás, é por ele que sabemos que foi Pedro quem cortou.

Por Mateus (Mt 26.58-74) e Marcos (Mc 14.54-72) ficamos sabendo que Pedro jurou e praguejou para dar mais força a sua negação.

E por Lucas (Lc 22.55-62) sabemos que Jesus, imediatamente antes do galo cantar, fitou os olhos em Pedro e o fez lembrar-se de suas palavras.

Dentre os muitos pecados que cometeu, até chegar a esse ponto, Pedro foi principalmente imprudente. Ele desejava estar com o Senhor, mas também desejava guardar-se. Ele ainda não havia entendido que estar com Cristo, não consiste apenas em desfrutar de seus ensinos, mas também em estar com ele até mesmo no vale da sombra da morte.

Essa atitude de Pedro é muito parecida com a nossa hoje. Desejamos estar com Cristo nas horas boas, mas detestamos, ao ponto de negá-lo, ser apenas confrontados. Exemplo? Como é que acreditamos que Jesus viveu na história e morreu para nos salvar do pecado que Adão nos legou e chegamos ao ponto de dizer que Adão é apenas um símbolo de que Deus criou o homem? Se Adão é símbolo Jesus também o é. Se admitirmos isso estaremos cometendo, em nome do intelectualismo, o mesmo pecado de Pedro: Negando a Jesus.

Que haja sempre um galo a nos despertar!

sábado, 9 de março de 2013

A última semana de Jesus

Certamente a última semana do Senhor recebeu um destaque especial de todos os Evangelistas, que gastaram, em média, 32% das palavras dos evangelhos para falar de apenas 1 das 170 semanas a que se referem na infância, adolescência e por fim, nos três últimos anos do ministério de Jesus.

Numa leitura rápida tem-se a impressão de que João é quem mais se preocupou com ela. Afinal dos 21 capítulos de seu Evangelho, 9 descrevem eventos que aconteceram naquela semana. Mas, na realidade, é Marcos, quem proporcionalmente dedica-lhe mais palavras: 36,9%. Depois João (35,3%). Em terceiro lugar Mateus (34,7%) e finalmente Lucas (22,3%). Calculei usando o texto grego majoritário.

Porém, a intensidade com que João trata esta semana se destaca dos demais ao ponto de causar a impressão de que tudo gira em torno dela. Observe, que, segundo João, após haver ceado, Jesus mandou Judas fazer o que tinha de fazer (e ele aproveitou para buscar a guarda do Templo) e João narra uma longa instrução de Jesus aos onze, inclusive sua conhecida oração sacerdotal.

Essa instrução começa com a celebração da Páscoa, que é transformada pelo Senhor na Ceia em que até hoje rememoramos a sua morte. Porém, João narra um detalhe: Jesus lavou os pés de seus alunos. E lhes ensinou: “Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes” (J0 13.12-17).

João era um dos que viviam discutindo quem seria o maior no reino dos céus. Ele e seu irmão Tiago chegaram até a constranger a sua mãe – provavelmente tia de Jesus – a pedir que se assentassem ao lado de Jesus em glória. Certamente João aprendeu a lição ao ver Jesus lavando seus pés. Embora a respeito de Tiago não haja nada escrito, seu martírio nos autoriza a pensar que aprendeu também.

Tão rica essa instrução, dificilmente pode ser esgotada nesses comentários pequenos. Mas a segunda instrução, igualmente corretiva, é fundamental: “...angustiou-se Jesus em espírito e afirmou: Em verdade, em verdade vos digo que um dentre vós me trairá[...] É aquele a quem eu der o pedaço de pão molhado. Tomou, pois, um pedaço de pão e, tendo-o molhado, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. E, após o bocado, imediatamente, entrou nele Satanás. Então, disse Jesus: O que pretendes fazer, faze-o depressa. Nenhum, porém, dos que estavam à mesa percebeu a que fim lhe dissera isto. Pois, como Judas era quem trazia a bolsa, pensaram alguns que Jesus lhe dissera: Compra o que precisamos para a festa ou lhe ordenara que desse alguma coisa aos pobres. Ele, tendo recebido o bocado, saiu logo. E era noite. Quando ele saiu, disse Jesus: Agora, foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele” (Jo 13.21-31).

O que estava por vir, as lições que ainda transmitiria aos que continuariam sua obra, não eram para os ouvidos de Judas. Por exemplo, a grande alteração que ele faz na segunda tábua, de modo a acabar com uma possível ambiguidade: Em vez de amar o próximo como amamos a nós mesmos, agora temos de amar nosso próximo como ele (Jesus) o amou: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (Jo 13.34).

E as lições tremendas continuaram. Chegaram a nós? Claro que sim! As observamos? Essa é a pergunta que temos de fazer todos os dias a nós mesmos.

sábado, 2 de março de 2013

A Bíblia TEM Razão!

Um dos maiores desserviços prestados ao cristianismo nos últimos tempos foi a publicação do livro “E a Bíblia Tinha Razão”. Apesar de muitos terem este livro quase que como uma Bíblia paralela, que explica o que a outra quer dizer, na realidade ele a desdiz, pois “explica” todos os milagres com eventos naturais.

Seu autor inaugurou uma linha moderna de publicações e “filmes científicos” com o mesmo objetivo: dia desses vi um que explicava as pragas do Egito como uma sequência de acidentes ecológicos em que o primeiro provocou o segundo, o segundo provocou o terceiro... até o último. Ou seja: Tudo! Menos Deus.

Quando me refiro a uma linha moderna faço de propósito, pois sempre houve quem tentasse explicar as intervenções divinas por outros meios. A Bíblia registra alguns. A oração de Jesus é apenas um exemplo: “Pai, glorifica o teu nome. Então, veio uma voz do céu: Eu já o glorifiquei e ainda o glorificarei. A multidão, pois, que ali estava, tendo ouvido a voz, dizia ter havido um trovão. Outros diziam: Foi um anjo que lhe falou” (João 12.28-29).

A ciência deve muito a Johannes Kepler. Foi ele quem descobriu a as leis que regem o movimento dos planetas. Talvez por isso não se conteve em retroceder seus cálculos e datar a aparição da estrela de Belém, em 7 a.C. Saturno e Júpiter estavam em posições, que, para alguém que os olhasse da terra se mostrariam como uma grande estrela, ou pelo menos um estrela mais brilhante do que as demais.

O texto bíblico fala de uma estrela sim, porém era uma estrela de brilho tão discreto que Herodes precisou perguntar quando ela foi vista: 7 Com isto, Herodes, tendo chamado secretamente os magos, inquiriu deles com precisão quanto ao tempo em que a estrela aparecera. [...] 16 Vendo-se iludido pelos magos, enfureceu-se Herodes grandemente e mandou matar todos os meninos de Belém e de todos os seus arredores, de dois anos para baixo, conforme o tempo do qual com precisão se informara dos magos” (Mateus 2.7e16).

Também sempre foram feitas tentativas de se explicar os milagres de Jesus através de processos naturais. Quem nunca ouviu falar de que a multiplicação dos pães foi na realidade um ato de generosidade daquele garoto que contagiou a todos a abrirem suas matulas e compartilharem com os demais? O que a cura de cegos e paralíticos eram apenas o efeito de sugestão? Ou que a própria ressurreição do Senhor foi a volta de um desmaio curado pelo descanso silencioso e pela humidade do túmulo.

Curiosamente, após a queda deste meteorito alguns irmãos me perguntaram se isso poderia ser entendido como cumprimento de profecias que dizem “as estrelas cairão do céus”. Provavelmente sim, pois até hoje, desde os tempos mais remotos – provavelmente desde os próprios tempos bíblicos – chamamos este fenômeno em língua corrente de Estrela Cadente (que cai).

Porém, não foi isso que mais me chamou atenção. Fiquei impressionado com a narrativa unânime de um clarão mais ofuscante do que o sol! Eu sempre tentei saber como um fenômeno assim, muitas vezes mencionado na Bíblia, aconteceria por processos naturais.

Uma vez arisquei olhar para um arco de soldagem elétrica e vi que era mais clara do que o sol, porem era um processo artificial. Mas eu ainda não havia encontrado na natureza nada semelhante. Ouvia falar que era possível ocorrer, mas não havia testemunhado. Pois bem: eis aí um até corriqueira (que acontece centenas de vezes todos os dias). Só que agora foi flagrada pelas câmeras.

Entretanto, não cometamos o mesmo erro, pois a luz do que a Bíblia fala, na transfiguração do Senhor, na conversão de Saulo e em outros lugares, o clarão provém diretamente daquele que criou não só os luminares mas a própria luz em si. Aquela verdadeira luz da qual a que vemos, mesmo a do meteorito, é apenas uma sombra, que apesar de fascinar, e até assustar, é efêmera e jamais se compara à que serve de morada para o Altíssimo “... o Rei dos reis e Senhor dos senhores; o único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver. A ele honra e poder eterno. Amém!” (1Tm 6.15).

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Algoritmo cristão

Dia desses recebi, com alegria, um quadro muito interessante que mostra a evolução dos algoritmos ao longo da história. Desde aquele velho método – que acabava com nossa paciência no ginásio – de achar o Máximo Divisor Comum (provavelmente o primeiro algoritmo já elaborado) até os poderosos algoritmos de busca na internet que usamos sem nos dar conta.

Enquanto lia esse quadro outras lembranças paralelas passaram a invadir minha mente. Hoje, olhando pra trás, estou convencido de que muito de minha juventude (e de alguns amigos) foi vivida em uma espécie de “algoritmo cristão”.

Concordo, com quem disser que eram tempos difíceis e que tínhamos de nos agarrar a alguma coisa, como náufragos se agarram à primeira corda que alcançam, e graças a isso sobrevivemos, mas o que me entristece é ver sobreviventes, ainda hoje, agarrados a tal corda.

Vou explicar melhor.

Um algoritmo é um conjunto de operações matemáticas que se faz visando chegar a um resultado. Lembra-se de como se fazia para descobrir o Máximo Divisor Comum (MDC)? Daquela grade que desenhávamos (me disseram que hoje se usa outro meio mais fácil). Assim encarávamos também a vida cristã.

Veja um exemplo:

O apóstolo Pedro disse: “por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor. Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Pe 1.5-8). Observe a sequência de instruções (que as vezes eram até representadas como se fosse um algoritmo): {diligência U Fé U Virtude U Conhecimento U Domínio próprio U Perseverança U Piedade U Fraternidade U Amor} = {Atividade + Frutificação}.

Ora, tal lista de virtudes, era mostrada como como etapas de um algoritmo (como degraus numa escada de santificação, que deveríamos nos esforçar para subir) em que se acumulam processos até chegar a seu fim. De tal modo que, quanto mais degraus se subia mais maduro estava, ou quanto mais processos se acumulava, maior era o resultado.

Porém, não é exatamente isso o que texto ensina. Ou, pelo menos, ele não foi escrito com essa intenção!

Seu objetivo primário é ensinar que os cristãos que praticam essas virtudes, e as acumulam, além de não ficarem inativos nem infrutuosos, não se esquecem do perdão que receberam e, dessa forma, veem confirmado o chamado de Deus.

Pois é: encarávamos a vida cristã como um conjunto de regras a ser cumprido, nos assemelhávamos aos judeus de quem Isaías fala: “Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será preceito sobre preceito, preceito e mais preceito; regra sobre regra, regra e mais regra; um pouco aqui, um pouco ali; para que vão, e caiam para trás, e se quebrantem, se enlacem, e sejam presos” (Is 28.13). Entretanto, deveríamos nos deleitar nela como filhos que se alegram quando descobrem qual é a intenção do pai e correm na frente a surpreendê-lo fazendo-a com alegria. Isso é louvor!

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Jesus. Loucura e escândalo!

Ainda em nossos dias, fora dos círculos genuinamente cristãos, ao se falar sobre Jesus, as opiniões se dividem entre os que negam absolutamente que ele tenha sequer existido até os que admitem, porém com as ressalvas de que ele tenha sido apenas alguém além de seu tempo: um filósofo, um professor, ou qualquer coisa semelhante.

Essa foi uma das primeiras lutas dos cristãos. Eles resumiam sua resposta na frase latina aut Deus aut homo malus (ou era Deus, ou era um homem mau). Para os apóstolos e seus discípulos, aos quais hoje chamamos de pais da igreja (daí o nome Patrística para designar o período em que viveram, que vai pouco depois da morte do último apóstolo, antes do ano 100, até a morte de Agostinho em 430), isso era muito claro, uma vez que os grandes homens jamais ousaram dizer “eu e o Pai somos um” (Jo.10.30) ou se passar por Deus fazendo coisas próprias da divindade como perdoar pecados.

Veja como o próprio Jesus enfrentou esse problema: “E eis que lhe trouxeram um paralítico deitado num leito. Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Tem bom ânimo, filho; estão perdoados os teus pecados. Mas alguns escribas diziam consigo: Este blasfema. Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: Por que cogitais o mal no vosso coração? Pois qual é mais fácil? Dizer: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados - disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. E, levantando-se, partiu para sua casa” (Mt 9.2-7). Percebeu? Para provar que podia perdoar pecados Jesus curou um paralítico. Afinal, perdoar pecados é imponderável, fazer com que um paralítico ande não!

Ou se aceita que Jesus era (e nesse caso, continua sendo) Deus, ou se deve estar pronto para dizer que ele era o maior mentiroso, impostor, ou doido que já existiu. Pois o lugar de quem se faz passar por Deus é o hospício. Pra dizer pouco.

Quando escreveu que Cristo crucificado é “escândalo para os judeus e loucura para os não judeus” (1Co 1.18), o apóstolo Paulo estava também se referindo a este problema.

Para os judeus era um verdadeiro escândalo que alguém tão simples como Jesus almejasse tal posição, jamais pretendida por algum deles, mesmo com melhores candidatos.

Você já parou pra pensar no episódio da transfiguração? Já o fez como se fosse um judeu? Que personagens apareceram? Moisés e Elias. Como os Judeus de então os viam?

Ambos fizeram milagres maiores do que Jesus. Moisés os alimentou com maná durante anos (em João 6.30-31 esse argumento é contrastado pelos judeus descrentes com a multiplicação de pães feita por Jesus). Porém, antes disso, submeteu todo o Egito com pragas, dividiu o Mar Vermelho, e o fechou sobre o exército egípcio, fez jorrar água da rocha, etc.

Quanto a Elias, o viam quase como nossos adolescentes vem os super-heróis: Controlou o clima durante 3 anos e meio provocando seca, foi alimentado por corvos, perenizou óleo e farinha na cozinha de uma viúva, ressuscitou seu filho, fez descer fogo do céu sobre o holocausto diante dos profetas de Baal aos quais matou, ordenou que viesse chuva, correu mais de 25 quilômetros adiante e mais rápido do que a carruagem do rei Acabe, por duas vezes fez descer fogo do céu a consumir 50 soldados com seu capitão, dividiu o Rio Jordão com sua capa e subiu ao céu numa carruagem de fogo.

Não é de admirar que os discípulos ficassem assombrados com a visão, nem que Pedro quisesse fazer tendas para os três. Foi necessária a intervenção de Deus: “Este é o meu Filho amado; a ele ouvi” (Mc 9.7).

Ou seja, para os Judeus, Jesus era pequeno diante de heróis como Moisés e Elias e eles esperavam que o messias fosse um herói que os libertasse da opressão romana, nunca uma vítima de holocausto.

Mas, e diante de não judeus? É absurdo! Loucura! Eis algumas reações de não judeus registradas nas Escrituras:

Sobre Jesus: “Todavia, tinham contra ele algumas questões acerca da sua religião e de um tal Jesus, que, embora morto, Paulo alega estar vivo” (At 25.19 Sec. 21).

Sobre Paulo e sobre o cristianismo: “Cremos que este homem é uma peste, promovendo rebeliões entre todos os judeus por todo o mundo, sendo o chefe da seita dos nazarenos” (At 24.5 Sec. 21).

E assim prossegue até hoje. Fica pior quando consideramos que os cristãos atuais cada dia mais desdizem os ensinamentos do Mestre, usando-os como fonte de lucro ou de poder atraem o que o apóstolo Paulo dizia dos judeus em sua época: “Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa” (Rm 2.24).

Que nós não estejamos entre os que fazem isto.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A Bíblia em Português (parte 3)

Passando ao texto que serviu de fonte, precisamos falar dos originais escritos principalmente em Hebraico e Grego. Não vou considerar a Bíblia Viva nem A Mensagem, pois são traduções do inglês.

De início já temos um problema: Não existe um texto só. Não existe o que os técnicos chamam de “autógrafo”: um manuscrito com, por exemplo, a letra de Lucas, ou Mateus, ou Marcos, etc.

Ainda bem! Se existisse... à luz do que fazem com um lençol, que tem tudo para ser produto do artifício humano, imagine o que fariam com um trecho da escrita, de próprio punho, de Moisés, de Isaías ou de João? Em sua sábia providência creio que Deus os recolheu, como fez com a Arca da Aliança. Porém, deixou uma quantidade tão grande de cópias que nos dá um altíssimo nível de certeza do conteúdo dos originais.

O Antigo Testamento. O texto hebraico mais confiável que temos foi escrito entre 900 e 1000 d.C. Entretanto, partes desse texto podem ser comparadas com diversas fontes mais antigas:

a. Septuaginta. Antiga tradução para o grego feita ente 300 e 200 a.C. frequentemente citada pelo Senhor, por seus apóstolos e pelo escritor de Hebreus.

b. Textos de Qumram. Partes de todos os livros da Bíblia, menos Ester, escritos entre 200 e 100 a.C. encontrados em cavernas às margens do Mar Morto. Digitalizados e na internet. Em http://dss.collections.imj.org.il/isaiah você vê o livro do profeta Isaías quase completo (e links para as porções dos demais livros) com a respectiva tradução direta para o inglês.

c. O Pentateuco Samaritano. Composto entre 200 e 100 a.C. Escrito pelos sacerdotes do culto misto das onze tribos do norte e portanto com suas influências.

d. O Texto Massorético (de massora = tradição). Composto por volta de 100 d.C. Escrito com o objetivo de colocar vogais, a fim de que os judeus, que se espalhavam mundo afora, não se esquecessem de como se deveria pronunciar as palavras de sua língua natal, que já estava sendo substituída pela língua das nações em que moravam.

e. Muitíssimos fragmentos de diversas partes do AT, escritos em diversas datas, achados em diversos locais.

Então por que não se traduz pelo texto mais velho? O texto mais velho tem sido usado como subsidiário para corrigir, no que é necessário, o mais recente.

Daqui já surgem duas questões. Se o próprio Jesus citou a Septuaginta, e ela é mais antiga, não deveríamos usá-la? Creio que só podemos usá-la naquilo que está citada na Bíblia, pois ela é uma tradução. Moisés escreveu a Lei em Hebraico. Os profetas e os poetas também. O que foi inspirado por Deus não foi a septuaginta ou qualquer tradução.

Em que esses outros textos influenciaram o nosso? 1) Em fatos periféricos, algumas vezes importantes para a história de Israel, mas que não são essenciais para a História da Redenção. Por exemplo: Em Gn 47.21 a Atualizada, a Século XXI, a NVI e a Linguagem de Hoje seguem o Pentateuco Samaritano e a Septuaginta, dizendo que José escravizou os egípcios. Já a Corrigida e a Corrigida Fiel traduzem o texto tradicional afirmando que José os mudou de cidades (Agradeço ao Emerson Eduardo a lembrança). 2) Nos nomes próprios: em 2Sm 23.8: nas versões que seguem o texto tradicional temos um guerreiro de Davi chamado de Josebe-Bassebete. Influenciado pela septuaginta, a NVI alterou-lhe o nome para Jabesão. 3) Em passagens que aclaram o sentido do AT, pois foram usadas por autores do Novo. Por exemplo: Hebreus 2.7 lança luz sobre o significado do Salmo 8.5.

O Novo Testamento. Até 1880, por assim dizer, não havia grandes disputas a respeito do texto grego que servia de fonte para as traduções protestantes do Novo Testamento (a igreja de Roma, quando traduzia, sempre o fazia a partir do Latim). Em 1881, dois professores de Ingleses: Brooke F. Westcott e seu ex-aluno Fenton J. A. Hort (Westcott-Hort) publicaram o The New Testament in the Original Greek (O Novo Testamento no Grego Original). Suas ideias, aparentemente simples, tiveram grande impacto. Algumas são: 1) O texto do Novo Testamento deve ser tratado como um texto qualquer; 2) Não há sinal de falsificação do texto com propósito doutrinário; 3) A menor leitura deve ser a correta; 4) A leitura mais difícil deve ser a correta. Etc.

Daqui já surgem algumas questões: Primeira: A Bíblia é apenas um texto qualquer e está imune a ataques? A História da Redenção não está manchada de ataques do próprio inimigo de nossas almas à Palavra de Deus? O primeiro pecado não resultou exatamente disso?

Segunda: A própria existência do Pentateuco Samaritano não é uma refutação da segunda premissa? Hoje, a tradução das Testemunhas de Jeová não é uma prova palpável e atual disso, que qualquer estudioso, mesmo ateu, pode testificar?

Terceira: Deriva-se da pressuposição de que o copista sempre aumentava o que copiava para ficar mais claro o sentido. Porém, tradutores, como Jerônimo reclamam deles por fazerem exatamente o contrário: por preguiça.

Quarto: Para ser breve, pois há outros argumentos bem mais fortes que demandam mais espaço do que tenho, até que ponto isso não contradiz o terceiro ponto?

Voltando à história. O que se usava, inicialmente o Textus Receptus e depois o chamado Texto Majoritário (que difere principalmente pelo acréscimo de At 8.37 e parte de 1Jo 5.7-8) foi substituído por diversos textos (mais de 4 mil) descobertos em escavações. Datados como mais antigos, que submetidos às leis de Westcott-Hort formaram o conhecido Texto Crítico. E hoje temos: o The Greek New Testament (publicado pela United Bible Societies, em sua 4ª edição) e o texto de Nestle-Alland (publicado pelo Deutsche Bibelstiftung, na 27ª Edição) ambos baseados nesse procedimento.

Portanto, em Português, no que concerne aos textos fonte, temos dois tipos de tradução, sendo que as maiores diferenças entre elas estão no Novo Testamento: As versões que usam o Texto Majoritário (Corrigida, Corrigida Fiel e Contemporânea) e as que usam o Texto Crítico (Atualizada, Século XXI, NVI e Linguagem de Hoje).

Como ter certeza da Bíblia que temos hoje? Não é pra causar susto, pois as diferenças não afetam as verdades básicas do Evangelho. As maiores são: 1) O “Final longo de Marcos” (Mc 16.9-20), que mesmo ausente é amplamente suprido pelo que aconteceu na Igreja Primitiva conforme está registrado em Atos; 2) A mulher flagrada em adultério (Jo 7.53 - 8.11), cujo estilo é mais semelhante ao de Lucas, entretanto em nada acrescenta ou subtrai os ensinos do Senhor Jesus; e 3) o Comma Johanneum (1Jo 5.7b-8a) que não faz falta diante da grande quantidade de textos usados para provar a doutrina da Trindade.

Há diversas outras diferenças menores, mas que igualmente não afetam em nada a mensagem central do NT.

Pessoalmente eu creio que essa série de dúvidas foram uma bênção de Deus, pois hoje as Escrituras Sagradas estão sendo mais e mais estudadas. Hoje se estuda letra por letra fazendo-se verdadeiros recenseamentos, livro a livro, e todos os pontos em que há dúvidas são conhecidos e examinados.

Ou seja: Não me assusto com o uso de ambos os textos fonte, pois as diferenças são bem conhecidas. E o que tenho visto, na hora de se escolher uma Bíblia, é a preferência pela facilidade de manusear, pelo conforto da leitura que vem de uma boa apresentação gráfica e, cá entre nós, por um vocabulário mais acessível.

Finalizando, dou graças a Deus por que estamos vendo o cumprimento das palavras que o anjo disse a Daniel: “encerra as palavras e sela o livro, até ao tempo do fim; muitos o esquadrinharão, e o saber se multiplicará” (Dn 12.4). Nunca se soube tanto sobre a Bíblia como sabemos hoje.

sábado, 26 de janeiro de 2013

A Bíblia em Português (parte 2)

Era meu plano abordar hoje o texto fonte da tradução, entretanto, como surgiram algumas dúvidas e foram feitas algumas observações, vi que ainda precisava esclarecer um ponto: a capacidade de comunicação. Afinal nossa Confissão de Fé exige dos textos originais: “... têm de ser traduzidos nas línguas vulgares de todas as nações aonde chegarem, a fim de que a palavra de Deus, permanecendo nelas abundantemente, adorem a Deus de modo aceitável e possuam a esperança pela paciência e conforto das Escrituras”(CFW I viii).

Estou ciente de que falar de traduções a partir de um trecho tão pequeno é temerário, porém não pretendo fazer um tratado. Apenas chamar sua atenção.

1ª - Revista e Corrigida: Apresenta a Bíblia em linguagem erudita, com frases próprias de uma geração acima dos 50 anos e culta. Veja como exemplo o Salmo 32.1-4: Masquil de Davi - Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto. 2 Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano. 3 Enquanto eu me calei, envelheceram os meus ossos pelo meu bramido em todo o dia. 4 Porque de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; o meu humor se tornou em sequidão de estio. (Selá). O gênero literário é apenas transliterado (Masquil). A ambiguidade de “todo dia” é resolvido com “em todo o dia”. A palavra “humor” expressa a visão antiga dos quatro líquidos reguladores (sangue, fleuma e as duas bílis), pois a palavra original fala de algo como “umidade interna” que certamente contrasta com sequidão de estio. A marcação de tempo (Selá), que orientava o canto, foi só transliterado.

2ª - Revista e Atualizada: Também apresenta uma linguagem culta, porém mais acessível, com frases mais diretas. Veja o mesmo exemplo: De Davi. Salmo didático - Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto. 2 Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade e em cujo espírito não há dolo. 3 Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. 4 Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. O título foi interpretado, provavelmente com acerto, pois os demais salmos intitulados Masquil tem um forte apelo didático. Observe o que é equivalência dinâmica, que é usada apenas na primeira parte do verso: traduzem a tal humidade por “vigor”, mas obviamente demandaria “ficou sem alento”, pra ser coerente. A marcação musical sumiu.

3ª - Corrigida Fiel: De modo geral, até aqui, no que concerne a forma, o mesmo que foi dito da Corrigida pode ser dito da Corrigida Fiel, e o Salmo 32.1-4 é um bom exemplo para ambas.

4ª - Contemporânea: Preservaram a mesma estrutura frasal da Corrigida, apesar de declararem procurar evitar “arcaísmos”. Veja o mesmo exemplo: Um masquil de Davi. Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto. 2 Bem-aventurado a quem o Senhor não atribui pecado, em cujo espírito não há engano. 3 Enquanto me calei, envelheceram os meus ossos pelo meu bramido o dia todo. 4 Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; o meu humor se tornou em sequidão de estio. (selá). Observe o artigo indefinido “um” antes de Masquil. A troca de “imputa” pelo mais claro “atribui”. A substituição de “todo o dia” pelo menos ambíguo “dia todo” e de “porque” por “pois”. Incoerentemente mantém “bramido”. Ou seja: é mais uma revisão do que propriamente uma tradução.

5ª - Século XXI: Buscaram uma fraseologia direta com palavras mais compreensíveis: Masquil de Davi. Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada e cujo pecado é coberto! 2 Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui culpa e em quem não há engano! 3 Enquanto me calei, meus ossos se consumiam de tanto gemer o dia todo. 4 Porque tua mão pesava sobre mim de dia e de noite; meu vigor se esgotou como no calor da seca. [Interlúdio]. É mais parecida com a Corrigida. O gênero literário foi transliterado. Manteve-se “transgressão”, entretanto usou-se “culpa”. Assimilou-se espírito por pessoa através do pronome “quem”. Envelhecer foi substituído por “consumir” e manteve-se o menos ambíguo “dia todo”. O “calor da seca” que exaure as forças dos animais, tornou-se o paralelo para explicar como o vigor foi esgotado. A marca de tempo traduzida por interlúdio transmite a impressão de um tempo maior do que uma simples pausa.

Outros textos:

6ª - NVI: Tem frases mais simples: Davídico. Poema. Como é feliz aquele que tem suas transgressões perdoadas e seus pecados apagados! 2 Como é feliz aquele a quem o SENHOR não atribui culpa e em quem não há hipocrisia! 3 Enquanto eu mantinha escondidos os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer. 4 Pois dia e noite a tua mão pesava sobre mim; minhas forças foram-se esgotando como em tempo de seca. Pausa. Com “Davídico” se dá suporte a corrente hermenêutica que defende a teoria de que “os Salmos atribuídos a Davi não foram necessariamente escritos por ele, mas ao estilo dele”. Isso, no mínimo, coloca em dúvida as palavras do Senhor Jesus que formulou doutrina em cima do título do Salmo 110. Poema, também não faz justiça à complexa classificação de gênero literário da poesia hebraica. De resto, prefiro a coerência intrínseca dos termos escolhidos. Inclusive “Pausa”.

Porém, há algo fora do salmo que deve ser objeto de alerta: O uso dos pronomes. Veja: Gn 15.2-5: Mas Abrão perguntou: “Ó Soberano SENHOR, que me darás, se continuo sem filhos e o herdeiro do que possuo é Eliézer de Damasco?”E acrescentou: “Tu não me deste filho algum! Um servo da minha casa será o meu herdeiro!”Então o SENHOR deu-lhe a seguinte resposta: “Seu herdeiro não será esse. Um filho gerado por você mesmo será o seu herdeiro”. Levando-o para fora da tenda, disse-lhe: “Olhe para o céu e conte as estrelas, se é que pode contá-las”. E prosseguiu: “Assim será a sua descendência”. Percebeu? Em um diálogo, Abraão dirige-se a Deus chamando-lhe de “tu” (2ª pessoa do singular) e Deus lhe responde chamando-lhe de você (3ª pessoa do plural funcionando como 3ª pessoa do singular). Sei que é um esforço para que o texto fique mais próximo da língua do dia-a-dia. Mas além de perder o estilo próprio da Bíblia cria ambiguidades e introduz essa marcação pronominal estranha ao texto.

7ª - Linguagem de Hoje: O objetivo dessa tradução era uma linguagem acessível a qualquer pessoa alfabetizada, com um mínimo de capacidade de interpretação de um texto. Entretanto, além da precisão ficar prejudicada, muitas palavras precisaram ser mantidas a ponto de se ter um glossário ao final. As frases são simples: [Poesia de Davi.] Feliz aquele cujas maldades Deus perdoa e cujos pecados ele apaga! 2 Feliz aquele que o SENHOR Deus não acusa de fazer coisas más e que não age com falsidade! 3 Enquanto não confessei o meu pecado, eu me cansava, chorando o dia inteiro. 4 De dia e de noite, tu me castigaste, ó Deus, e as minhas forças se acabaram como o sereno que seca no calor do verão. Se “Poemas” era genérico, “poesia” é pior. Agora observe que não há qualquer preocupação com a precisão dos termos: transgressão/ iniquidade, ou imputação/atribuição, são traduzidos simplesmente maldades/pecados e perdoar/apagar. No v2 aparece alguma coisa no verbo “acusar”, mas o conteúdo é diluído em “coisas más” e “falsidades”. No v3 o terrível “envelheceram meus ossos” foi substituído pelo ameno “me cansava”. E no v4 se introduziu algo totalmente extra texto: “sereno”. Sumiu, como na Atualizada, a marca de pausa.

8ª - Bíblia Viva e A Mensagem: Não creio que valha a pena usá-las para outra coisa que não seja estudos pessoais. As explicações que elas demandam são tantas que é melhor gastar um pouco de tempo ensinando palavras novas aos leitores.

O que fica disso tudo? Como pastor sou obrigado, por minha consciência e pelo juramento confessional a apresentar ao rebanho que Deus me confiou a melhor tradução das Escrituras Sagradas. Qual é a melhor? Eu gostaria muito que todas as minhas ovelhas possuíssem erudição suficiente para entender o português das Corrigidas, mas me contento com a Atualizada e cada dia sinto mais simpatia pela Século XXI. Lamento que nossa Casa Editora não tenha em seu catálogo uma versão fácil de ler e fiel de conteúdo.

sábado, 19 de janeiro de 2013

A Bíblia em Português

Você já percebeu como é difícil escolher uma Bíblia com tantas opções de formato e cor? Agora, já procurou uma não “de afinidade” (do executivo, da mulher, do adolescente, de promessas, etc) ou de estudos? Recentemente, tive de encomendar. Porém, por traz disso, há um problema maior: a tradução.

No Brasil encontramos, com facilidade, pelo menos 9 versões protestantes da Bíblia. Almeida Revista e Corrigida, Almeida Revista e Corrigida Fiel, Almeida Revista e Atualizada, Almeida Século XXI, Almeida Edição Contemporânea, Nova Versão Internacional, Nova Tradução na Linguagem de Hoje, Bíblia Viva e A Mensagem (teremos outro tanto se considerarmos as versões Católicas Romanas).

A primeira tradução da Bíblia para o Português é creditada a João Ferreira d’Almeida que publicou o Novo Testamento em 1693 e em 1748 Jacobus op den Akker completou o que ele deixou pronto do Antigo Testamento. Porém, antes dele, há conhecimento de diversas porções da Bíblia (como a Bíblia de D. Dinis (1261-1325), que continha os 20 primeiros capítulos do Gênesis e foi traduzida da Vulgata Latina). Depois de Almeida muitos tentaram fazer o mesmo.

O próprio texto de Almeida contribuiu diretamente com:

1ª - Revista e Corrigida (1940) pela imprensa Bíblica Brasileira que compilou os textos da Edição Revista e Correcta (1873) e Edição Revista (1894). Hoje é editada, com pequenas variações, pela Sociedade Bíblica Brasileira (que a revisou em 1995 e 2009), Imprensa Bíblica Brasileira (que a revisou em 1997) e pelas Sociedade Bíblica de Portugal.

2ª - Revista e Atualizada (1959 e reeditada em 1988 e 1993) pela Sociedade Bíblica do Brasil valendo-se de uma ferramenta crítica da qual falarei depois.

3ª - Corrigida Fiel (1994) pela Sociedade Bíblica Trinitariana, procurando preservar a equivalência formal (palavra por palavra) e as classes gramaticais (verbo por verbo, substantivo por substantivo, etc.) e destacando as palavras adicionadas necessárias a compreensão.

4ª - Contemporânea (1990) pela Editora Vida, a partir da Corrigida para, como declaram: produzir um texto limpo de arcaísmos e ambiguidades e ao mesmo tempo preservar um estilo belo, ungido e admiravelmente soberano...

5ª - Século XXI (2007), feita pela Editora Vida Nova, procurou conciliar, como declaram: exatidão exegética e fluência.

Outros textos:

6ª - NVI (1993) pela Intenational Bible Society, como se depreende da introdução: através de uma equipe multidisciplinar, multinacional e multidenominacional de teólogos e estudiosos inspirados pelo projeto americano similar de 1978 que produzissem um texto que levasse em conta precisão, beleza de estilo, clareza e dignidade.

7ª - Linguagem de Hoje (1988) pela Sociedade Bíblica do Brasil com o objetivo de tornar a leitura mais acessível. Vale-se da equivalência dinâmica. Ou seja: Não tem qualquer compromisso com as palavras, apenas com a ideias (como as entendem).

8ª - Bíblia Viva (1981) pela Editora Mundo Cristão é na realidade uma tradução da Living Bible de Keneth Taylor. Ou seja uma paráfrase de uma paráfrase inglesa.

9ª - A Mensagem (2011) pela Editora Vida é na realidade a tradução do livro The Message, de Eugene Peterson, que é ainda mais livre do que uma paráfrase. Segundo ele disse é o modo como lia a Bíblia em palavras que fossem entendidas por todos que o ouviam durante seus anos de ministério.

Na realidade há mais, que não são estão nas lojas.

Talvez você esteja perguntando: E daí? Isso me afeta em que? Vou dar dois exemplos. O primeiro, qualquer que seja sua tradução, em nada afeta o sentido da história menor, muito menos da história de Israel, menos ainda o sentido da História da Redenção, mas nos mostra o quanto os conceitos afetam até mesmo um tradutor que se orienta pela equivalência formal.

Em Juízes 3.24 é narrado como Eúde matou Eglom, Rei dos Moabitas, e fugiu sem ser visto, trancando atrás de si a sala do trono onde deixou o cadáver. Os servos de Eglom sentiram sua demora, mas, pensaram literalmente: ele cobre os pés na sala fresca.

A Corrigida traduziu: está cobrindo seus pés na recâmara da sala de verão.

A Corrigida Fiel traduziu: está cobrindo seus pés na recâmara do cenáculo fresco.

A Atualizada traduziu: está ele aliviando o ventre na privada da sala de verão.

A Século XXI traduziu: está aliviando o ventre no seu quarto de verão.

A Edição Contemporânea traduziu: está aliviando o ventre na privada da sala de verão.

A NVI traduziu: Ele deve estar fazendo suas necessidades em seu cômodo privativo.

A Nova Tradução da Linguagem de Hoje traduziu: Então pensaram que o rei tinha ido ao banheiro.

A Bíblia Viva traduziu: Decerto está dormindo na sala de verão.

A Mensagem traduziu: Provavelmente ele está no banheiro, fazendo suas necessidades.

A expressão “cobrir os pés” é conhecida dos brasileiros. Os gaúchos dizem: “ir aos pés” como sinônimo de fazer necessidades fisiológicas. Portanto a tradução da Bíblia Viva (dormir) está prejudicada.

Banheiro, como lugar de fazer necessidades é algo muito recente. Mais recente do que o “quarto de banhos” onde se usava banheira e depois duchas ou chuveiros. Naqueles dias ou usava-se os matos, ou no caso de uma sala real se construía um jardim adjacente. Como é chamado de “sala fresca” provavelmente fosse um jardim superior, ou uma cobertura. Portanto, embora seja mais simples de se entender, quando se traduz por privada ou banheiro, se atribui à época algo que não existia (anacronismo). As traduções da Mensagem, NVI, Linguagem de Hoje, Contemporânea e Atualizada falharam.

A Corrigida e a Corrigida Fiel insistiram em recâmara onde pode ser apenas um cômodo. Entretanto, foram as mais literais.

Como segundo exemplo veja Mc 15.2 em que a intenção de Jesus precisou ser interpretada por todos:

A Corrigida Fiel, a Corrigida, a Atualizada e a Contemporânea: E Pilatos lhe perguntou: Tu és o Rei dos judeus? E ele, respondendo, disse-lhe: Tu o dizes.

A Século XXI: E Pilatos perguntou-lhe: Tu és o rei dos judeus? Jesus lhe respondeu: É como dizes.

A NVI: “Você é o rei dos judeus?” Perguntou Pilatos. “Tu o dizes”. Respondeu-lhe Jesus.

A Bíblia Viva: Pilatos perguntou a Ele: “Você é o Rei dos Judeus”? “Sim”, respondeu Jesus, “é como o senhor está dizendo”.

A Linguagem de Hoje: Pilatos perguntou: - Você é o rei dos judeus? - Quem está dizendo isso é o senhor! - respondeu Jesus.

A Mensagem: Pilatos perguntou: “Você é o ‘Rei dos Judeus’?” Jesus Respondeu: “Se você diz”.

Percebeu?

E eu estou dando exemplos apenas da forma. E chamo sua atenção para a necessidade de acautelar-se das paráfrases.

Não há uma tradução que substitua eficazmente a exposição fiel de um texto bíblico. Ler a Bíblia é algo importantíssimo, porém estudá-la, ou ouvir exposições fiéis (aquilo que a Fé Reformada chama de sermões) é vital para bem compreender seu conteúdo.

O inverso também é verdadeiro. Pesa nos ombros dos Ministros da Palavra de Deus (por essa razão é que as Escrituras ordenam que eles se afadiguem na palavra e no ensino) uma exposição correta do texto de modo que ele mantenha, em nossa língua e cultura, o máximo de sua força: como se um ouvinte original o estivesse ouvindo.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Esvaziou-se

Ao encarnar-se, Jesus abdicou de sua divindade e tornou-se um mero homem, ou apenas deixou de usar seus atributos divinos?

Esse tema é um divisor de águas na teologia. No meio protestante iniciou uma discussão que perdura entre os Luteranos e os Reformados. Porém, de modo geral, é usado como respaldo a diversas heresias como à teologia da libertação.

Os adeptos da corrente que diz que ele deixou completamente de ser Deus não conseguem explicar adequadamente sua glorificação e arcam com o ônus de terem contribuído para gerar a famigerada Teologia da Morte de Deus.

Geralmente baseiam-se nas seguintes palavras de Paulo, e exageram acima de tudo o esvaziamento: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.5-8).

Fazendo um pequeno parêntesis: ultimamente apareceu outra heresia atribuindo ao Pai um esvaziamento semelhante. É conhecida como a Teologia Relacional, ou Teologia Aberta. Eles dizem que para Deus relacionar-se conosco abriu mão de ser onipotente, onisciente, onipresente... Ou seja: de seus atributos divinos. Quando houve aquele grande tsunami no fim do ano de 2004 um teólogo brasileiro, expoente dessa teologia, não só disse que Deus não sabia que a catástrofe ocorreria, como estava chorando ao lado das vítimas sem poder fazer nada. Ao ser perguntado se ele estava falando do mesmo Deus que enviou o dilúvio à terra e matou a todos menos Noé e sua família, desconversou.

Mas, voltando à Jesus. A Fé Reformada tem se batido para deixar claro que Jesus, ao encarnar-se tornou-se totalmente homem, mas continuou totalmente Deus. Ele não deixou de ser Deus, apenas não usou todas as suas prerrogativas divinas. Digo todas pra deixar bem claro que ele usou algumas. E ao usá-las sua intenção era dar testemunho de sua própria divindade. Ou seja: Os ensinos e os milagres que fez testificavam sua divindade. Atente para o que ele disse a Filipe. Ele esperava que Filipe visse o Pai através de suas palavras e de suas obras: “Disse-lhe Jesus: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras” (Jo 14.9-11).

Para seu Evangelho, João selecionou sete milagres e os chamou de sinais e deixou bem claro a razão: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.30-31).

No episódio da transfiguração, vemos como que por uma fresta, aquilo que lhe era permanente. Em um monte Moisés pediu a Deus para ver sua glória, e ao descer seu rosto brilhava tanto, que precisou cobri-lo. Tradicionalmente se entende que Moisés representava a lei ao passo que Elias representava os profetas. Lucas (9.31) declara que “falavam da sua partida (grego: êxodos), que ele estava para cumprir em Jerusalém”. Pedro, afoito, tenta perenizar o acontecimento sugerindo fazer três tendas. Nesse momento o Pai intervêm: “Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi” (Lc 9.35).

Lembre também das palavras de João: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14).

Ele esvaziou-se ao ponto de assumir forma de servo e morrer a mais ignominiosa morte. Porém fez isso de forma muito pior do sequer podemos imaginar. Fez isso voluntariamente, podendo parar a qualquer instante. Fez para cumprir o que já havia prometido através de seus servos, os profetas: “Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?” (Mt 26.53-54).

Ele esvaziou-se ao ponto de 90% de sua vida ter sido passada em total obscuridade. Temos notícias de seus primeiros 40 dias de vida. Depois de um breve período, aos 2 anos, quando visitado pelos magos teve de ser levado para o Egito. Depois, de alguns dias, aos 12 anos. Finalmente, de 3 a 3 ½ anos antes da ascensão. Com boa vontade chegaremos a 40 meses. Esse período é resumido por Lucas, com palavras que certamente ouviu de Maria: “E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso” (Lc 2.51).

A glória do Senhor Jesus o acompanhou desde os momentos mais simples até os momentos mais terríveis, pois nem mesmo a morte - credor de todo o homem - o reteve. E seu trinfo sobre ela se dá gloriosamente. A partir deste instante tudo o que aconteceu para cobrir sua glória é retirado e, então assentado à direita do Pai em glória, aguarda o dia em que voltará. Nesse dia a glória do Senhor será a morada dos povos.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Visões do futuro

O bom de chegarmos ao futuro é ver o quanto estávamos errados sobre ele no passado. Deixe-me explicar melhor.

Chegamos a 2013 vendo muitas previsões, de estudiosos “futurólogos”, desmentidas. Por exemplo: Para quem gosta de tecnologia, nossas casas já deviam ter robôs fazendo os trabalhos domésticos.

Nos anos cinquenta alguns garantiram que depois do ano 2000 já seria possível fazer turismo em outros planetas a partir de uma estação espacial orbitando a terra.

Para quem gosta de moda, já deveríamos estar vestindo roupas que não precisassem ser lavadas ou passadas (talvez, nem trocadas), e que se ajustariam a qualquer tamanho.

Pra quem gosta de carros, já deveríamos ter carros voadores, não poluidores e completamente silenciosos. Aliás, já existem uns três por aí, só que parecem mais um cruzamento de fusquinha com teco-teco e fazem um barulho... Sem contar que necessitam de uma pista de pouso no fundo do quintal.

A lista é grande. E se além das previsões acadêmicas eu juntar as do cinema e as da TV (tipo Jetsons) a coisa fica feia. Entretanto, nós ainda temos de lavar nossa louça, nossa roupa e quando conseguimos um pacote turístico pra uma praia mais próxima temos de ficar alegres. Isso sem falar de nossas estradas. Aliás, é bom nem falar, pois as do império romano, no tempo de Cristo, mutatis mutandi, eram bem melhores.

É muito interessante observar que a maioria dos que fazem tais observações se identificam como ateus e dizem sempre que estão fazendo isso com base no avanço da ciência. O enunciado costuma ser assim: “Continuando nesse ritmo, em tal data, teremos isso ou aquilo”.

De todos esses enunciados, que levam em conta o fator tempo futuro, o que, até 2007 (e parece que até hoje) tem se observado é o que ficou conhecido como “Lei de Moore”. Gordon E. Moore, um dos fundadores e presidente da Intel declarou em 1965 que a capacidade de determinados hardwares (número de transistores) aumentaria em 60% a cada 18 meses pelo mesmo custo.

Mudando de área... Se dependesse dos religiosos o mundo já teria acabado pelo menos umas 20 vezes. E se dependesse dos estudiosos da religião, já teríamos uma religião universal, ou nenhuma religião.

Aliás, você já reparou nos esforços da academia para impor o curso de Ciências da Religião, que estuda os efeitos de toda e qualquer religião sobre qualquer grupo social, sem preconceito ou ingerência? É uma proposta muito bonita. Tão bonita que cativa. Cativa tanto que muitos que a abraçam deixam de lado o verdadeiro Deus e começam a questionar se não é um preconceito cristão querer que exista apenas um Deus. Pior! Que ele tenha se revelado de forma infalível.

No fundo o que temos em mãos é uma questão que, além de ser prática, alicerçada na realidade, como meteorologistas do desenvolvimento das ciências, que às vezes acertam suas previsões, tem um cunho altamente religioso, pois o futuro, acima de tudo tem origem transcendente: Ninguém sabe se estará vivo amanhã.

O futuro está totalmente nas mãos de Deus. Desde a mais simples invenção até o destino, não apenas de um homem, mas de um povo. Os Assírios, que levaram Israel para o cativeiro, cem anos depois foram vencidos pelos Babilônios, que deram o mesmo destino a Judá. Estes, por sua vez, foram vencidos pelos persas, que foram vencidos pelos gregos, que acabaram sendo substituídos pelos Romanos. Cada um deles parecia ser eterno. Parecia! Como disse o profeta: “Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó fino que se levanta” (Is 40.15).

Em 2013 continuarei a amarrar meus sapatos (prometeram sapatos auto ajustáveis), tomar cuidado com os buracos da rua e das estradas, desconfiar de quem prometer o fim da corrupção em nosso sofrido país e esconjurar todo aquele que chegar perto de mim com predições semelhantes às que citei.

sábado, 29 de dezembro de 2012

O mundo não acabou. O ano sim.

Anos atrás alguns adolescentes me pediram para falar sobre Calendários (quem me conhece sabe que gosto desse assunto). Pedi um tempo e me preparei. Mostrei o desenvolvimento dos diversos calendários que precederam o nosso: O sumério, o judeu, o romano antigo e o juliano, o gregoriano antigo, o revolucionário francês, e o gregoriano atual.

Um que estava impaciente então me perguntou: “E o calendário maia, que diz que o mundo vai acabar em 21/12/12”? Entendi então o convite (só não fiquei bravo com eles, por ter aprendido tanto estudando todos esses calendários): “Tá na cara que isso é promoção de algum filme ou livro”. Respondi.

Não. Meu professor garantiu que os cientistas estão levando a sério. O mundo vai mesmo acabar, pois o calendário acaba nesse dia”. Retrucou.

Quantas profecias de fim do mundo não foram feitas, por quantos professores, cientistas, pastores, padres, “profetas”, doidos...

Quantos crédulos? Desde adolescentes a pais de família que as receberam como verdadeiras, largaram tudo, foram pros montes, e tiveram depois de pedir de volta o que deram?

Até hoje temos entre nós seitas que se vangloriam de uma reputação séria, mas que foram criadas sobre falsas promessas de fim de mundo.

Acaso nosso Senhor poderia ser mais claro? “...a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai” (Mt 24.36).

Um dia o mundo vai acabar, mas o dia nenhum de nós sabe. Por enquanto o que se acaba são os anos, os meses, as semanas, os dias, as horas, os minutos, os segundos... ou seja: aquelas porções de tempo que delimitamos para facilitar nossa contagem do mesmo.

Hoje, ao abrir os olhos, eu agradeci a Deus a noite de sono reparador e pedi que ele me ajudasse a administrar o tempo que se estendia na minha frente. Aparentemente o dia estava livre de compromissos e eu teria apenas que dar a forma final no texto que você está lendo agora, na exposição do Salmo 138 para o momento devocional da Reunião de Oração de quinta-feira à noite, no Estudo Bíblico da Escola Dominical, no sermão de Domingo à noite e no sermão do Culto de Vigília do dia 31 de Dezembro. Se ninguém me interromper talvez eu consiga fazer uma dessas coisas hoje ainda. Mas, se por alguma necessidade eu precisar aconselhar ou visitar alguém, provavelmente terei de acordar mais cedo amanhã.

Assim gerencio o tempo que Deus me dá. Assim creio que fazemos todos nós. Acomodamos nossas obrigações ao que dispomos, preparados para imprevistos.

Mas, e o planejamento de um tempo maior que um dia? Por exemplo, de um ano? Cada dia está mais difícil de fazer. Entretanto, não há desculpas para não tentar. Por exemplo: Em vez de fazer uma promessa de ano novo, que tal fazer um planejamento?

Vou acordar 15 minutos mais cedo e orar (se for o caso, debaixo do chuveiro pra não dormir) a fim de ter uma vida mais íntima com Deus. Ou, vou procurar emagrecer meio quilo a cada 2 meses de modo a perder seis quilos em 2013. Ou, vou colocar 100 reais na poupança todos os meses para ficar 15 dias de férias em janeiro de 2014.

Percebeu? Planejamento a longo prazo exige clareza de objetivo e de métodos. E cá entre nós: o primeiro passo é tão importante quanto os demais. Se o primeiro passo não for dado os outros também não o serão.

Temos duas vantagens:

1) Deus nos ajuda: A Bíblia repete isso desde seu começo, mas eu ainda prefiro ouvir as palavras de Moisés: Salmo 90.17: Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; confirma sobre nós as obras das nossas mãos, sim, confirma a obra das nossas mãos.

2) Se em vez do ano, o mundo acabar, nossos planos serão ampliados e aquilo que estivermos fazendo serão recebidos pelo Senhor como prova de nossa fidelidade: Lucas 12.42-44: Quem é, pois, o mordomo fiel e prudente, a quem o senhor confiará os seus conservos para dar-lhes o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo a quem seu senhor, quando vier, achar fazendo assim. Verdadeiramente, vos digo que lhe confiará todos os seus bens.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Um pouco mais sobre estrebarias

Se você leu com atenção o texto de domingo passado, percebeu que minha intenção foi leva-lo a refletir na razão pela qual o Senhor nasceu numa estrebaria. Alegorizei, garantindo que a lição mais básica que se pode tirar é que, mesmo que seu coração seja tão humilde - ou sujo - quanto uma estrebaria daqueles dias, o Redentor pode fazer nele morada.

Entretanto, não é prudente a um pastor reformado manter seu rebanho longe dos pastos verdes e das águas tranquilas que são o texto, em si mesmo. A alegoria é útil até certo ponto, mas deve ser usada com cuidado, pois o próximo passo seria: “Eles foram pra estrebaria por que ninguém deu lugar. E hoje? Você está negando lugar ao Senhor Jesus?” Ora, bem sabemos que ele nasce no coração que quer. Ninguém tem a capacidade de ordena-lo que nasça em seu coração. Portanto. Vamos parar com a alegoria por aqui enquanto é tempo.

Voltando ao texto de Lucas - o único a registrar esses acontecimentos - uma leitura cuidadosa nos mostra que ele fala de uma hospedaria: não havia lugar para eles na hospedaria.” (Lc 2.7). Parece que Belém só dispunha de apenas uma hospedaria. Veja um pouco sobre Belém:

A história registra que Davi suspirou por um gole da água do poço que está em Belém (2Sm 23.15), como se todas as casas se abastecessem de um poço só. O próprio nome Belém deriva-se das palavras hebraicas beith lehem (forno, ou literalmente casa de pão), o que é uma alusão ao costume comum nas vilas pequenas de ter um só forno onde todos aproveitavam a lenha para assar, de uma vez, os pães que cada família preparava. E o profeta Miquéias fala explicitamente de seu tamanho pequeno: “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Mq 5.2).

Mesmo nos tempos de Jesus, Belém era um povoado. Tanto é que se fosse recensear apenas seus moradores, a base tributária seria muito pequena (pois esse era o objetivo dos censos romanos: estabelecer em quanto se poderia tributar as colônias) então se determinou que todos os descendentes de Judá, que tinham Belém como sua cidade mãe, fossem lá se alistar perante as autoridades romanas.

Portanto, imaginar Belém, nos dias em que Jesus nasceu com apenas uma hospedaria é até admirável. Era de se esperar que não houvesse.

Quanto a hospedaria cheia, não pensemos que estivesse lotada de judeus da mesma tribo de José, mas de soldados romanos que tinham prioridade. Porém, o exército romano era, em quase sua totalidade, constituído de infantaria. Daí os estábulos vazios, ou pelo menos, desocupados o suficiente para que a família de José fosse abrigada neles.

Segundo estudiosos como Richard Lenski, as hospedarias de então, eram construções com apenas um portão e voltadas para um pátio interno. Feitas de madeiras com dois andares, sendo que no superior se alojava o hospede, e sob seus aposentos ficavam seus animais e os servos, naquilo que poderia ser chamado de estrebaria.

Se o andar superior estava ocupado por soldados romanos de infantaria os estábulos inferiores estavam vazios. Portanto, lá alojaram-se José e Maria. E ficaram lá por alguns dias. Talvez semanas, pois o texto diz: “Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias, e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2.6-7).

A ideia de que a hospedaria ficava junto a uma encosta e seus estábulos em uma gruta, parece ter recebido apoio de Justino (114-165 d.C.) em seu Diálogo com Trifão o que levou Helena, Mãe do Imperador Constantino em 326, a se decidir pelo lugar em que edificou a atual igreja e incrustou no chão uma estrela de prata pretendendo marcar o lugar exato onde Jesus nasceu.

Há mais uma coisa que o texto nos leva a pensar: a ausência de apoio de algum parente. Afinal, eles estavam indo à cidade onde a tribo de Judá, família de José, tinha como sendo sua cidade de início. Pior, estavam indo em uma situação delicada: Maria estava grávida. Será que não encontraram nenhum parente que pudesse abriga-los? Essa questão só pode ser respondida com “não sei”. Porém é a questão que mais depõe contra a ideia de que José era um velho. Pois se fosse velho, as chances de ser conhecido seriam maiores. Mas, sendo jovem e casado com uma jovem - mesmo que de linhagem sacerdotal - mas vindo de uma cidade da Galileia, cheia de gentios, evitada por Judeus mais conservadores, certamente não o conheceriam.

Mas, o que há de importante nisso tudo? É possível destacar algumas coisas, porém vou me ater a uma: Aquele que habitava em luz inacessível, não hesitou em trocar seu trono celestial por um estábulo e finalmente por uma cruz por amor de nós. Nas palavras do apóstolo: “...pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos” (2Co 8.9).

Glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra à quem ele quer bem!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Em uma estrebaria

Phillip Keller, em seu livro Cordeiro de Deus, conta que em uma viagem pelo Paquistão, foi surpreendido por uma tempestade fortíssima e convidado a abrigar-se em uma casa muito pobre, na qual teve de entrar agachado, tão diminuta era a porta.

Viu-se em um cômodo sem janelas, com uma trempe ao centro com a panela em que se cozinhava a refeição aquecida por um fogo fumacento em que a lenha era esterco de animais. Depois de alguns minutos, após se acostumar ao fedor acre e ao ardor da fumaça nos olhos, percebeu do outro lado do cômodo, uma jovem magra com um bebê no colo. Rapidamente percebeu: foi num ambiente como esse que o Senhor Jesus nasceu.

Quando eu li este relato gastei algum tempo para digerir as imagens. Porém logo tive de discordar. É um quadro chocante para nós ocidentais, que cozinhamos com muito asseio, mas eu me lembro de minha infância em que, por diversas vezes, em um campo missionário novo, para o qual meu pai fora designado, que minha mãe precisou armar uma trempe – fora da casa – e eu a ajudei a acender o fogo. Só não usamos esterco, pois era fácil achar gravetos. O esterco era queimado à noite, em pequenas quantidades, para espantar, muriçocas ou carapanãs.

Porém, meu maior ponto de discórdia não foi a descrição do ambiente miserável. Ele descreveu um ambiente de habitação humana. Ambiente miserável sim, mas uma casa. Ao passo que não houve casa para o Senhor nascer. O texto sagrado diz que ele nasceu, foi enfaixado e deitado em uma manjedoura. A rigor, manjedoura pode ser apenas um coxo ou uma gamela, porém a leitura do texto de Lucas, nos leva a entender que o parto se deu em um local onde estava essa gamela. Portanto é de se supor que tenha acontecido em uma estrebaria: um ambiente de habitação animal. Lá o esterco não era usado com fins “nobres”, era simplesmente o dejeto dos animais. Esse foi o lugar que sobrou para que o Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Deus todo-poderoso, nascesse.

Não podia ser diferente. Ao encarnar-se ele tomou a natureza da criatura pecadora e pecaminosa, revoltada e rebelde contra ele. Criatura, cujos melhores atos, diante dele, são equivalente a trapos sujos de menstruação. Criatura, cuja situação não podia ser resolvida apenas com a frase “Está perdoada. Vai em paz.” Para que essa frase pudesse ser dita, era necessário um sacrifício muito maior. Infinitamente maior. Tão assustadoramente maior, que, apenas aquele que conhecia a extensão da ofensa, poderia dimensionar sua cura e prescrever seu remédio. E seu remédio começou no ato de assumir a natureza do homem rebelde, não contaminado pela rebeldia, mas sujeito a todas as desgraças que a rebeldia lhe impôs: Nascer desprezado por aqueles que ia salvar: Nascer no meio dos dejetos não apenas dos homens, mas também dos animais: Nascer em imundícia tal que já prefigurava a morte que lhe estava reservada.

Além da ilusão boba que os presépios modernos nos trazem, como colocar os magos na primeira noite, costumam também se parecer celeiros americano, desses que se vê em filmes, do que uma estrebaria oriental, com sua imundície característica e nos distrai da tragédia que aconteceu a nosso Senhor.

Sempre perguntei por que razão a providência divina determinou que ele nascesse assim. Creio que uma boa resposta é essa: Deus o humilhou. Na teologia diz-se que este foi o primeiro estágio de sua humilhação: nascer como servo. Entretanto isso ainda não explica a estrebaria.

A melhor explicação que eu encontro ainda é alegórica. É como se o Senhor estivesse dizendo: Mesmo que seu coração seja imundo como uma estrebaria, cheio dos dejetos mais nojentos, eu farei dele a minha casa.

Imagine como era a estrebaria quando ele nasceu lá e compare com o que era seu coração quando você se tornou sua morada. Havia diferença? Aliás, há diferença? Você mantem seu coração livre dos dejetos do pecado, ou continua obrigando o Senhor a conviver com eles?

Aleluia! Glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra à quem ele quer bem!

sábado, 1 de dezembro de 2012

Um cego que guia outro

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Quando os discípulos do Senhor Jesus vieram alertar-lhe de que os fariseus haviam se escandalizado com suas palavras, ele disse: “Deixai-os; são cegos, guias de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, cairão ambos no barranco” (Mt 15.14).

Pieter Bruegel, o velho, (1526 – 1569), nascido em Brogel, na Bélgica, pintou, em 1568 o quadro acima, a fim de tornar visível esta parábola. Uma versão pode ser vista com detalhes em www.artbible.info/art/large/556.html

Em 1568 os principais reformadores protestantes já estavam mortos e haviam deixado muita coisa escrita sobre esta parábola. Calvino já havia desenvolvido seus princípios éticos sobre o escândalo dado e o escândalo tomado. E embora Bruegel habitasse a parte católica dos Países Baixos, sua formação nos leva a crer que ele conhecia pelo menos um pouco do pensamento protestante.

Seu quadro é revelador e nos mostra um pouco do que falei na semana passada. Os estudiosos classificam Bruegel como um renascentista. Alguém que estava deixando a confusa Idade Média e aderindo a organização da Idade Moderna.

Confusões próprias da Idade Média: Jesus disse esta parábola mais de uma vez. Uma contra os fariseus: Mateus (15.14). Outra faz parte de uma coleção de diversas parábolas: Lucas (6.39). De qualquer forma, isso deveria ser entendido em um ambiente judaico. Entretanto, Bruegel o pinta em seu meio social: Observe as roupas dos cegos: são roupas de sua época. Repare nas casas ao fundo e especialmente na Igreja que se destaca, e observe que a fila se afasta dela. O quadro diz: Os cegos guiam outros cegos para longe da Igreja em direção ao barranco.

Poderia se argumentar que ele está aplicando a mensagem bíblica a seus dias. De fato, parece que esta é sua intenção. Porém, este tipo de interpretação do texto, é a alegoria tão prezada pela hermenêutica da Idade Média.

Traços do pensamento moderno: Há uma espécie de respeito exegético no quadro: Apesar de Jesus ter usado a palavra “ambos”, transmitindo a ideia de dois cegos, Bruegel pinta seis, mas mantém a organização deles em duplas. Exegeticamente também, ele pinta o barranco ameaçador próximo de todos.

O quadro foi extremamente organizado. Certamente foi esboçado previamente. Os cegos estão pintados na mesma ordem que se lê. E seus rostos apresentam uma feição mais carregada, à medida que se aproximam da direita do quadro onde está o primeiro que já caiu. Na realidade vai do cego aparvalhado ao aterrorizado pelo tombo. Das apalpadelas à queda. Do menor ao maior perigo.

O estilo das roupas, para mim, indica a posição social e provavelmente a riqueza de cada cego, sendo que eles estão misturados. O de maior posição social (melhores trajes), terceiro da esquerda para a direita, está sento conduzido por um mendigo (andrajoso e sujo), que por sua vez é levado por um com cara de esperto, que está tropeçando no que carregava um instrumento musical e que parecia ser o líder da trupe.

Olhando em detalhes, da esquerda para direita, parece que o grau de cegueira aumenta, pois o cego mais a esquerda tem apenas os olhos fechados, enquanto o cego que tropeça no que caiu (do qual sequer vemos os olhos) está com as órbitas vazias, desprovidas de olhos.

A ausência de adornos na Igreja, apesar de a parte sul dos Países Baixos, a Bélgica de hoje, ter permanecido católica, para mim indica que ele se referia a uma igreja protestante.

Eu desconheço algum quadro ou gravura da Idade Média que tente ilustrar esta parábola. Porém, não creio que pudesse ir além do óbvio: dois cegos um guiando o outro, sem qualquer outra preocupação.

Já uma simples pesquisa de imagens na internet sob o título “blind leads another blind” retorna uma quantidade enorme de tirinhas, charges, pastiches, grafites, fotos de peças de teatro, montagens cênicas e “performances”, desde engraçadas até grosseiras e chulas. E embora algumas pretendam ser originais, todas carregam o ônus de refletir as palavras do Senhor, que a grande maioria despreza.

Porém, todas estas que aparecem na pesquisa, refletem muito mais um pensamento ainda moderno, que critica, mesmo acintosamente, pois o homem pós-moderno não tem a menor intenção de perder tempo com isso. “Pensar? Gastar tempo com crítica? Cada um faz o que quer”. O homem pós-moderno quer sentir. Tanto faz se ele é guiado por um cego ou por uma máquina, desde que alguém assuma a tarefa de decidir por ele, e ele tenha em quem por a culpa se algo der errado.

sábado, 24 de novembro de 2012

Ser moderno

Se olharmos nosso passado e entendermos como agíamos, aprenderemos viver melhor o presente. O mesmo acontecerá se entendermos melhor o que marcou as várias épocas da história da humanidade. Afinal nosso Senhor falou como é importante discernir a época em que se vive (Lc 12.56).

Hoje há nas diversas correntes de pensamento uma espécie de unanimidade que estamos em uma época posterior à que era chamada de Moderna. Entretanto, não há uma definição clara sobre o que seja Idade Moderna. Aliás, sequer há consenso sobre o nome. A nomenclatura antiga “Idade ou Era Moderna” já é chamada por alguns de “Tempos Modernos” ou simplesmente “Modernidade” para facilitar seu deslocamento no tempo.

Ainda no antigo curso ginasial aprendi que a Idade moderna começou com a queda de Constantinopla em 1453 e me lembro de meu professor dizendo que estávamos vivendo os tempos modernos. Meio assustado eu fazia os cálculos: “Tá demorando! Mais de 500 anos! Moderna deveria ser uma coisa de no máximo um ou dois anos”.

Em minha primeira pós graduação já se falava em pós-modernidade. E novamente pensei sozinho: “O que é isso?”

Hoje noto que, quanto mais influenciado for o historiador pela visão marxista – que vê a história sob a ótica trabalho/capital – mais recentemente ele datará a Idade Moderna. E, para meu espanto, já li autores cristãos (!) que a colocam entre a queda da Bastilha (1879) e a queda do muro de Berlim (1989).

Noto também, pelo muito que li, que uma das principais caraterísticas do Modernismo (a cosmovisão que prevaleceu durante a Idade Moderna) foi a organização. E, perceber isso, foi para mim uma espécie de chave que abriu a compreensão de muitos valores. É claro que há muitíssimas outras formas de classifica-la. Mas, por muitas circunstâncias, terei de me ater a essa.

A Idade Média era muito confusa. A Idade Moderna é (ou será que era?) organizada. Para os historiadores clássicos, que veem como marco a queda de Constantinopla, o Ocidente foi obrigado a procurar novos rumos. Por exemplo: novas rotas marítimas para manter comércio com a Índia e a China. Porém, para fazer isso, e outras coisas eles precisaram se organizar. E a organização, que já orientava o pensamento teológico – ter uma fonte, um método e buscar um fim – passou a ser usado nas outras áreas do conhecimento e nas artes em geral.

A hermenêutica medieval era caótica. De um texto tiravam muitas lições, além da literal (que muitas vezes era a de menor importância): lições alegóricas, lições morais e lições anagógicas (que provocam meditação, enlevo ou êxtase). O pensamento moderno favoreceu em muito a hermenêutica protestante que via apenas o sentido literal e sobre ele construía sua fé. Aliás, é no começo da Idade Moderna que surgem as Confissões Protestantes em que, muito mais do que o indivíduo que diz “creio”, elas dizem “confessamos” e detalham a fé com minudências características de uma nova ciência a “Teologia Sistemática”.

As artes se organizaram. A arquitetura medieval, com suas vielas curvas e assimétricas dá lugar a cidades planejadas, como Paris depois da reconstrução, em que até a altura dos prédios é estipulada (dizem que atinge seu ápice em Brasília, com setores separados para morar, trabalhar e governar).

A pintura passou a se exprimir de tal modo que às vezes parece uma fotografia atual. Tanto é que quando os impressionistas chegaram negando os traços e retratando apenas uma impressão de luz foram mal recebidos. Não tiveram melhor acolhida os cubistas nem os surrealistas. E o adjetivo “modernista” para os escultores sempre soou como ironia.

A música, que era algo meio solto, também organizou-se rigidamente em torno de temas e expressões, que, representavam o que se tinha como belo e ordeiro, chegando-se até mesmo a proibição de dissonâncias.

Ora, se isso era uma reação ao que se supunha ser o mundo desordenado da Idade Média, o Pós-modernismo é exatamente um questionamento disso: “Por que tem de ser assim?” E começa também pela teologia? “Por que: confessamos? Eu acredito diferentemente. Aliás, nem sei se acredito! E se acredito ou não, pouco importa. O que importa é o que eu sinto”. Entretanto, não é uma volta ao tempo das formulações credais, pois não se cogita no que se crê, e sim no que se sente.

A arquitetura pós-moderna passou a espelhar essa confusão ao juntar elementos de estilos diferentes em um só lugar. Apareceram construções com colunas gregas, característica da Idade Clássica, bem anterior à Idade Média, ao lado de arcos góticos, característicos da Idade Média, fechados por painéis de vidro temperado, caraterísticos da Arquitetura Moderna. Para a Arquitetura Pós-moderna pouco importa o que se usa, basta a satisfação de quem está pagando a obra.

Pintura? Quem liga mais pra isso? É melhor se fazer uma colagem sobre uma fotografia desfocada, ou revelada, ou melhor: impressa sobre PVC e obter uma superfície 3D. Assim fica mais perto do artificialismo da realidade.

Música? “Quando vem um barato, eu pego o violão e gravo o que sai. Depois escrevo as posições (sic)”. Então as gravadoras compram espaço na mídia que anuncia o “último sucesso de caipira e sertanejo” e passa a tocá-lo repetidamente e nenhum ouvido bem educado na arte de ouvir o que presta deixa de sofrer, mas as massas o cantam como se fosse uma obra prima, mesmo que seja uma coleção de bobagens.

Mas, o que tem isso a ver com a Igreja? Tudo.

Se na Idade Moderna se prezou pela clareza das formulação confessionais, na Pós-modernidade a última coisa que se quer saber é disso. Cada um que cuide de si. Aliás que não cuide. Como diz o irresponsável: “O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído...”.

As doutrinas claramente formuladas se expressam em liturgias claramente definidas, e consequentemente em um culto coerente. Mas se não há definição delas, por que deveria haver definição deste? Aliás, Se não há uma definição clara dos dois qual é a razão de existir da Igreja? O que é uma Igreja? No Pós-modernismo pode ser até mesmo um clube, e, replicando a arquitetura, ter tantos estilos quantos gostos, desde que agradem os muitos fregueses.

A consequência última é a forma de governo. Se porventura houver algum, necessariamente será uma espécie de “democracia totalmente direta” e não será de se espantar que aconteça o que já se vê: Igrejas que se reúnem para determinar que rito seguirão no próximo período: Católico Romano, protestante, misto, ou outro.

Na Idade Pós-moderna ecumenismo é coisa do passado. A figura melhor que me ocorre é: salada! Pastores protestantes que não veem nada de mal em dividir opiniões com padres ou pais de santo ou com quem quer que seja. Cultos meio espetáculos, meio talk shows, meio MMA, meio qualquer coisa.

Há um compromisso então da Igreja com o pensamento moderno? Não. Entretanto, é no modo de pensar moderno que o protestantismo encontrou um terreno mais sólido, e principalmente uma ferramenta chamada “pensamento lógico” (que não nasceu nessa era, mas foi disseminada nela) para pensar sua fé diante dos dilemas mundanos e procurar viver os ensinos bíblicos nos dias atuais.

sábado, 17 de novembro de 2012

Breve relato da resistência à Palavra de Deus

Na História da Redenção os Patriarcas foram os primeiros a transmitir a vontade de Deus aos homens. Como falavam de uma posição privilegiada – eram os chefes de suas famílias – ninguém os questionava, com algumas exceções: José. Que por pouco escapou da morte, mas não de ser vendido como escravo pelos próprios irmãos. Os Patriarcas agiam de modo pessoal e falavam sem rodeios, à família e à amigos, como Jó.

Deixando Moisés de lado, por ser um caso atípico, que merece ser tratado isoladamente, o segundo grupo que aparece nesta linha são os profetas. Quer sigamos a metodologia de Pedro, que fixa Samuel como o primeiro profeta (At 3.24), quer usemos o critério do próprio Samuel e incluamos também os videntes, que já existiam no tempo dos juízes (1Sm 9.9), não há como ver um ministério diferente. Todos eles falavam diretamente e sem rodeios.

Elias e Eliseu, além de não deixarem nada escrito, eram itinerantes. Foi Samuel que conciliou esta necessidade com um endereço fixo (1Sm 7.15-17) e o primeiro a registrar. Todos sofreram perseguições e arriscaram a vida.

Com o crescimento das cidades e especialmente a centralização do culto em Jerusalém, alguns passaram a ser tipicamente urbanos, como Isaías, que vivia na corte, e Jeremias, que morava em Jerusalém apesar de possuir uma propriedade no campo (Jr 37.12). Porém, enquanto alguns moravam em cidades e exerciam algum tipo de trabalho no templo, como Isaías e Habacuque, a maioria morava em vilas e falava diretamente contra o rei, contra as autoridades e contra o povo idólatra. De príncipes como Sofonias (Sf 1.1) a boiadeiros como Amós (Am 7.14-15). Todos foram enviados por Deus “desde a madrugada” (Jr 7.27) e todos foram desprezados. Alguns até mortos (Lc 13.34).

O equivalente aconteceu também no Reino do Norte.

Nem na Babilônia foi diferente. Não conseguiam cantar o “Canto do Senhor em terra estranha” (Sl 137.4), mas ouviram os profetas lá também. Embora Daniel não tenha se dirigido diretamente ao povo, descobriu a que se referia as profecias de Jeremias (Dn 9.2) e profetizou as datas do Messias (Dn 9.24-27). Neemias foi quem falou – e até agrediu – diretamente ao povo (Ne 13.25). Deus animou Ezequiel a falar-lhes na cara dando-lhe rosto de pedra (Ez 3.4-11). E pela primeira vez, na volta do cativeiro – tirando Moisés, como já disse, e as reformas de Ezequias e Josias – o Texto Sagrado fala de multidões em busca da Palavra de Deus.

João Batista viveu em uma época mais urbanizada, entretanto imitou em tantos aspectos a vida de Elias que preferiu os desertos. E novamente o Texto Sagrado fala de multidões. Procurava-o e era conclamada ao arrependimento. Fez incursões nas cidades onde igualmente denunciava o pecado e isso lhe custou a vida.

Jesus iniciou seu ministério no ponto onde João parou: “Ouvindo, porém, Jesus que João fora preso, retirou-se para a Galileia; e, deixando Nazaré, foi morar em Cafarnaum, [...] Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4.12-17), ou seja: a mesma mensagem de João.

Jesus falou diretamente e em particular. E embora tenha acolhido os pecadores arrependidos, jamais deixou de repreender o pecado nem os pecadores impenitentes. Novamente o Texto Sagrado fala de multidões. Mas quando Jesus percebe que elas têm segundas intenções ele foge delas ou as repreende (Jo 6.26-27). Não preciso dizer que fim ele teve.

A narrativa dos Atos dos Apóstolos nos traz a impressão de que a Igreja era mais “multidão”, embora o relato esteja salpicado de descrições de casas. Os apóstolos confrontavam constantemente o erro e os errados, inclusive com punições físicas, como cegueira (Simão), morte (Ananias e Safira), etc. E não há uma só carta do Novo Testamento que não tenha sido escrita para combater um ou mais erros.

Dois séculos após, já dona do patrimônio pagão, a Igreja se viu com templos enormes; e o que já vinha sendo praticado com certa parcimônia – a imitação das reuniões da sinagoga – passou fazer às claras: a espontaneidade das reuniões nos lares precisou de um ordenamento maior: as liturgias. Quanto maior era o destaque que se dava as mesmas, mais a missão legada desde os profetas – reprovar o erro – era abafada. Exatamente como acontece hoje: “Vamos louvar”. Naqueles dias com cânticos polifônicos, depois gregorianos e finalmente grandes missas de enredos intrincados.

A Reforma Protestante se levantou contra esse tipo de coisas proclamando que a Palavra de Deus deve ter primazia, e, mesmo que não houvesse mais profetas, ainda havia um ministério profético, afinal a Igreja está assentada sobre eles e sobre os apóstolos (Ef 2.20) e a palavra deles devia continuar viva, e, de tal modo exposta e explicada, com o Texto Sagrado nas mãos, que se pudesse dizer como eles diziam “assim diz o Senhor”.

Para que os antigos pudessem ser ouvidos nos grandes edifícios os construtores se valeram de toda sabedoria arquitetônica em favor da acústica. Dosséis passaram a encimar os púlpito e estes, por sua vez, foram colocados o mais alto possível. A Reforma Protestante enfatizou mais ainda e suprimiu do edifício tudo o distraía a atenção de cultuava. Os sermões, antes, quase poéticos – quando existiam – passaram a ser quase preleções ou aulas. Para o protestante, entender a Bíblia era questão de salvar sua alma. Atender ao culto divino era negar-se a si mesmo e ouvir, muitas vezes de pé, a sermões com uma ou duas horas de duração. Não há a menor dúvida que além dos papistas os perseguirem, inclusive com fogueiras, foram mal entendidos e vistos como fanáticos. Mas nos legaram uma herança de temor a Deus.

Spurgeon, que viveu na segunda metade dos anos 1800, reclamava da teatralização das Igrejas inglesas. No texto clássico “Apascentando ovelhas ou entretendo bodes” ele pergunta qual é a verdadeira missão do servo de Deus: Proclamar a vontade do Altíssimo ou promover momentos agradáveis a seu rebanho e aos eventuais visitantes? Foi desprezado até por seus colegas pastores batistas das Igrejas de Londres.

Um pecador que hoje se aproxima de um púlpito deve ser inquietado por sua vida pecaminosa. Um filho de Deus aflito deve ser consolado pela graça de nosso Senhor. Mas nunca nos enganemos, tais necessidades só podem ser supridas pelas Escrituras. Mas como sempre houve, sempre haverá resistência: “prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, aconselha, repreende e exorta com toda paciência e ensino. Porque chegará o tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, desejando muito ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo seus próprios desejos; e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão para as fábulas” (2Tm 4.2-4 Almeida XXI).

sábado, 10 de novembro de 2012

Olhos

Quem é acostumado a ler a Bíblia já observou que partes do corpo humano são frequentemente usadas metaforicamente. Por exemplo: as mãos. Muitas vezes com o sentido de abençoar, especialmente depois do verbo impor. Porém, se o verbo que as precede for levantar, o sentido quase sempre será oposto.

Os pés podem ser usados como expressão de vitória: “...calcarás aos pés o filho do leão e a serpente” (Sl 91.13); de humilhação: Lançou-se-lhe aos pés e disse: Ah! Senhor meu, caia a culpa sobre mim...” (1Sm 25.24).

Entretanto, há um órgão que se destaca: os olhos. Fisicamente eram tão importantes que se punia quem cegasse, mesmo que fosse a seu escravo: “Se alguém ferir o olho do seu escravo ou escrava, e o cegar, lhe dará a liberdade por causa do olho” (Ex 21.26 A-XXI).

Metaforicamente os olhos podem significar muitas coisas, a começar por entendimento “...ó povo insensato e sem entendimento, que tendes olhos e não vedes...” (Jr 5.21). Revelam até o caráter da pessoa: “São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!” (Mt 6.22-23).

Neste último texto o Senhor Jesus condensou todo o ensino dos antigos, para o quais os olhos poderiam revelar bondade: “Quem vê com olhos bondosos será abençoado, porque dá do seu pão ao pobre” (Pv.22.9 A - XXI). Ou inveja: “Não comas o pão daquele que tem os olhos malignos, nem cobices os seus manjares gostosos” (Pv 23.6 ARC). Isaías fala da altivez presente no olhar (2.11); e Ezequiel (16.5) fala de olhos não apiedados. Salomão promete literalmente castigo aos “olhos que zombam do pai ou desprezam a obediência da mãe...” (Pv 30.17 – ARC).

Com exceção de Jeremias 32.4 e 34.3, cuja interpretação precisa ser literal, e Gálatas 4.15, onde Paulo está falando da generosidade dos irmãos daquela igreja, a expressão “os próprios olhos” sempre significa, na Almeida XXI, conceito sobre si mesmo. A Almeida Atualizada amplia o significado. Porém, nenhuma das duas se preocupou com a literalidade de Juízes 21.25: “Naqueles dias, não havia rei em Israel e cada um fazia o que parecia reto aos seus próprios olhos”.

Abrir ou fechar os olhos pode significar muito. Em Gênesis 3.5-7, abrir os olhos significou perceber que estavam nus da graça de Deus que servia de roupas a nossos primeiros pais. Já em Isaías 6.10, reforçado por Mateus 13.15, fechar os olhos é parte do processo de não conversão, que, naquele caso, é castigo infligido por Deus.

Os olhos postos nas mãos dos senhores, mais do que atenção às necessidades deles em serviço desvelado, são metáforas das bênçãos que se espera confiadamente na providencia de Deus (Salmo 133).

Quando em Isaías promete que veremos a Deus em sua formosura (33.17), ou, em Ezequiel, o SENHOR promete que se dará a conhecer aos olhos de muitas nações (38.23), ou em outros textos semelhantes fica evidente a promessa da encarnação do Verbo.

Mesmo andando com Deus seu povo não via sua face: “Pois como se há de saber que achamos graça aos teus olhos, eu e o teu povo? Não é, porventura, em andares conosco, de maneira que somos separados, eu e o teu povo, de todos os povos da terra? [...] Então, ele disse: Rogo-te que me mostres a tua glória. Respondeu-lhe: Farei passar toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o nome do SENHOR; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer. E acrescentou: Não me poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá” (Ex 33.16-20), pois o finito não compreende o infinito. Daí a necessidade dele assumir nossa natureza: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14). Isso também explica todas as aparições do Anjo do Senhor, ou do próprio SENHOR, como manifestações antecipadas do próprio Cristo, seja na sarça que ardia e não se consumia, seja no alto e sublime trono visto por Isaías, ou às margens do rio Quebar conforme Ezequiel.

Ao falar dos olhos de Deus é dito que “estão em todo lugar” (Pv 15.3), como também que, “passam por toda terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é totalmente dele” (2Cr 16.9). Entretanto, Noé literalmente encontrou “graça aos olhos do SENHOR” (Gn 6.8) e o homem, de modo geral, pode fazer o que é certo “aos olhos dos SENHOR” (1Re 15.11) ou pode fazer o que é errado (1Re 16.25). Ezequias e Daniel pediram a Deus que abrisse seus olhos e visse o que estava acontecendo com seu povo (2Re 19.16 e Dn 9.18).

Deus declara que os pecados do povo fazem com que ele “esconda os olhos” (Is 1.15). Porém quando Deus olha para o homem o livra e o mantem (Sl 33.18). E tocar no seu povo é o mesmo que tocar “na menina de seu olho” (Zc 2.8).

Mas, o maior consolo para o filho de Deus é saber que os olhos do SENHOR o acompanham desde o ventre materno. Ele o vê e constantemente pensa preciosamente sobre ele: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda. Que preciosos para mim, ó Deus, são os teus pensamentos! E como é grande a soma deles!” (Sl 139.16-17).

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Precisamos de outra Reforma hoje?

Desde que fui ordenado pastor tenho feito esta pergunta a mim mesmo e a outros pastores. Confesso que minhas respostas sempre refletiram as dificuldades do momento. Já as respostas dos pastores mais experientes variaram e a dos pastores mais novos eram quase sempre iguais: começar tudo de novo como os Reformadores no Século 16 fizeram.

No fundo, desejo alguma espécie de aperfeiçoamento ou correção de rumo, que é difícil de expressar. Talvez, se eu falar dos problemas, possa, pelo menos, dizer o que mais me aflige.

Primeiro: A seriedade com os compromissos assumidos: Ainda no Seminário o livro Reformemos a Igreja, escrito pelo Dr. Klass Runia, chamou muito minha atenção sobre a frouxidão da disciplina eclesiástica e ultimamente o livro Subscrição Confessional do Rev. Dr. Ulisses Horta Simões, enfatizando a necessidade de manter os votos confessionais, mostra a desordem que atinge desde ovelhas a pastores (e até concílios) complacentes com o erro. Não há dúvida que isso precisa ser corrigido. Ou se preferirem usar o termo: reformado.

Segundo: Uma limpeza em nossos valores, especialmente no modo de vermos o culto a Deus: É preciso também uma correção (ou reforma) que vá além de usos e costumes. Ela deve atingir os valores Católicos Romanos impregnados em nossa cultura, tão evidentes em algumas cerimônias. Já avisei a minha família que não quero velório, nem culto de corpo presente. Quem quiser se despedir de mim faça enquanto eu estiver vivo (quem sabe, eu o convencerei a ansiar pelo dia em que me encontrará à mesa com o Senhor). E se outro tiver ideia de me fazer alguma homenagem – pois em nossa cultura basta morrer para virar santo – se lembre das palavras de nosso Senhor: “Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17.10).

Terceiro: É preciso também, ao contrário, lembrar que muitas práticas genuinamente cristãs, não são exclusividade da Igreja de Roma e não podem ser deixadas de lado, por que “parecem católicas”. Por exemplo: Credo Apostólico, o Pai Nosso, etc.

Quarto: Precisamos ser cuidadosos com os extremos: Alguns em nome de cumprir o Princípio Regulador do Culto não oram o Pai Nosso quando o Senhor Jesus disse “Vós orareis assim”. Outros, insistem em cantar apenas os cento e cinquenta Salmos deixando de obedecer a ordem “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Cl 3.16) e preterem ricos ensinos que podem vir do restante da Escritura.

Quinto: Deixar bem claro quem somos nós: Os excessos que vemos hoje começaram quando se deixou, na prática, a doutrina Sola Scriptura (A Bíblia é a única regra de Fé e Prática). Ao aceitar-se revelações contemporâneas, abriu-se a porta para todos os tipos de invenções e chegamos ao absurdo dos sprays contra maridos infiéis ou travesseiros ungidos para provocar sonhos proféticos. Obviamente tudo vendido e bem cobrado.

Ainda dentro desse ponto é bom lembrar que hoje se reproduz com exatidão um aspecto contra o qual a Reforma do Século XVI lutou. Uma das razões para a venda das indulgências era a construção da Capela Sistina (que celebra esses dias seus 500 anos) adornada por artistas como Rafael, Bernini, Botticelli e especialmente por Michelangelo, pintor de seu teto em ousada blasfêmia de representar Deus, mas que, nem por isso, deixa de encantar muito protestantes que se declaram contra a venda de indulgências e contra a quebra do Segundo Mandamento.

Há muitas outras coisas de menor importância, que no entanto merecem vigilância, pois podem crescer e nos afetar. Acima de tudo o que deve nos servir de norte é a Palavra de Deus. Somente ela, mas em sua totalidade.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...