sábado, 25 de abril de 2009

Noites e manhãs

Quantas vezes o Senhor Jesus deixou seus discípulos passarem uma noite infrutífera para logo de manhã lhes socorrer? Diversas.

Não foi assim quando ele os compeliu a embarcar após a multiplicação dos pães? Durante a noite inteira remaram apenas 5 a 6 quilômetros, contra o vento e as ondas, mas pouco antes do amanhecer Jesus os alcançou e os levou a bom porto.

Não foi assim quando Pedro, de longe, o via sofrer nas mãos dos sacerdotes, levitas e anciãos? Apenas, após o canto do galo, de madrugada, sob açoites, foi que o Senhor o “visitou” com seu olhar, e o levou ao porto das lágrimas, em que deveria abandonar sua valentia inconseqüente.

Não foi de madrugada que ele apareceu às mulheres que o procuravam no túmulo, após uma noite mais longa do que a noite comum, e capaz de envolver diversas noites com uma escuridão que cobre o sol e a alma?

Agora, muitos dias após sua ressurreição, Jesus estava sendo esperado por seus Apóstolos na Galiléia. Antes de ser preso pelos levitas, ele lhes marcara encontro lá, e os relembrara através das mulheres. Verdadeira noite de espera.

Muito mais aterradora do que a noite que envolveu o sábado, esta se alongou por vários dias e envolveu as almas de todos. Especialmente a alma de Pedro.

“O que será que o Jesus fará comigo?” Deveria pensar Pedro. “Ele lá apareceu às mulheres, à Cleopas - que nem é um dos Doze - e ao outro na estrada de Emaús. Mandou que Madalena me avisasse. Mas só apareceu a mim junto de todos. E nas duas vezes que me apareceu não me falou nada. Já apareceu até à Tomé, e fez questão de lhe mostrar seus ferimentos. Mas, comigo, nem uma palavra”.

“Eu prometi morrer por ele e o neguei. Menti. Praguejei. Jurei! Garanti que não o conhecia. E ele sabia o que eu estava fazendo. Aliás, sabia antes que eu o fizesse”.

O Salmo deve ter ressoado aos ouvidos de Pedro: “Ainda a palavra me não chegou à língua, e tu, SENHOR, já a conheces toda”.

A angústia era enorme. Muito maior do que a angústia que ele sentiu naquela noite em que, com os outros, remara contra o mar encapelado. Agora ele estava só, e não sabia o que esperar de seu Senhor que tanto advertira sobre vigiar e que tantas vezes o corrigira.

“Vou pescar”. Disse então.

Estas duas palavras revelavam seu íntimo. Era como se ele dissesse: “Não agüento mais. Desisto”. Parece que os demais estavam angustiados também, pois foram com ele.

Era início de primavera e os dias ainda estavam frios. As noites mais frias ainda. E uma noite em um barco era gelada. Mas o esforço para afastar aquela angústia fazia com que Pedro trabalhasse mais. A ponto de, suado, tirar suas roupas.

Por alguns instantes experimentou os velhos sentimentos de liberdade que tinha antes de conhecer a Jesus: voltara a fazer o que sempre fizera sem depender das ordens de ninguém. Despreocupara-se da vida. Talvez percebesse que a noite passava sem qualquer pescado, mas, pelo menos, passava. Era melhor do que ficar remoendo as lembranças.

Aquela noite, que envolvia os dias, condensava-se em uma noite de trabalho infrutífero tão óbvio quanto remar contra as ondas. Mas nem mesmo ele percebia.

A claridade já mostrava a praia e nela um vulto. No silêncio, ouviram a ordem de jogar as redes do lado direito do barco. De repente aquilo que não conseguiram durante toda uma noite afanosa ameaçava romper as redes.

Quem fora chamado a ser pescador de homens não poderia mais resolver sua vida pescando peixes.

Pedro se vestiu. Era o Senhor.

Certamente lhe veio a mente o que acontecera dois anos e meio antes, quando, no mesmo lago, após uma noite de pesca infrutífera, dois barcos quase afundaram com tantos peixes após o Senhor mandar que jogassem a rede. Naquela ocasião, “prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador”. Mas Jesus respondeu: “Não temas; doravante serás pescador de homens”.

O Senhor, que tinha todo direito de repreendê-los - especialmente a Pedro - os recebeu com pães e peixes, prontos para ser comidos, como acontecera nas duas multiplicações, e os serviu como fizera na ceia.

A vez de Pedro havia chegado.

Sua repreensão foi a mais dura. Como sua negação fora tríplice seu amor foi questionado três vezes e depois de cada questionamento sua missão, dada há dois anos e meio lhe era relembrada: “apascenta minhas ovelhas”. Era como se Jesus lhe dissesse: não se ocupe de nada mais além de fazer o que eu estou mandando.

Na primeira ocasião em que, prostrado aos pés do Senhor, ele confessou-se indigno recebeu a missão de pescar homens. Agora confessando que o sabedor de todas as coisas - até daquilo que ainda não foi dito - sabia também o quanto era amado por ele, recebeu a missão de alimentar seu rebanho.

A noite chegou ao fim. A manhã, brilhante sobre o Mar da Galiléia era pálida diante da que brilhava no coração de Pedro.

Manhãs assim sempre brilham e sempre brilharão sobre aqueles a quem o Senhor chamou.

domingo, 19 de abril de 2009

Jesus apareceu ressurreto apenas a alguns

Depois que o Senhor Jesus ressuscitou apareceu a muitas pessoas mais ou menos na seguinte ordem: a Maria Madalena, a outras mulheres, a dois discípulos no caminho de Emaús, a Pedro, a dez apóstolos escondidos, aos dez e Tomé (no domingo seguinte), a sete discípulos que estavam pescando, a onze apóstolos, a mais de quinhentos discípulos, a Tiago (seu meio irmão), aos onze apóstolos por ocasião da ascensão e a Paulo (alguns anos depois).

O próprio Paulo resume assim: “... e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E apareceu a Cefas e, depois, aos doze. Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora; porém alguns já dormem. Depois, foi visto por Tiago, mais tarde, por todos os apóstolos e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo” (1Co 15.4-8).

A Tomé o Senhor precisou apresentar provas de que “era ele mesmo”, mas não o deixou sem uma repreensão. Diferentemente, Lucas, médico, vários anos mais tarde, ficou tão impressionado com os relatos da ressurreição do Senhor que escreveu: “... depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis” (At 1.3).

Mas, por que o Senhor Jesus não apareceu a todos?

Quanto escuto alguém dizer que o cristianismo baseia-se em lendas, contos, ou relatos desvirtuados, ou que a existência de Jesus não passa de uma ficção, eu me lembro disso: ele apareceu apenas a alguns!

Explico: se tudo isso fosse uma história inventada, o final esperado seria Jesus aparecendo a todos, indistintamente, punindo os que tinham obrigação de zelar por seus interesses e em vez disso o condenaram à morte. Não é assim que terminam as histórias em cujo gênero literário querem encaixar as Sagradas Escrituras?

Replicam, entretanto, que, como apenas alguns o viram depois da ressurreição, é de se suspeitar da narrativa. Mas, como suspeitar de homens que mantiveram tal testemunho “inacreditável” mesmo ameaçados de morte?

Voltemos à pergunta: Por que Jesus não apareceu a todos?

Lucas nos dá a melhor resposta: “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas. Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24.44-49).

Em síntese: Os novos filhos de Abraão não nascem “do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. Nascem da fé. Que outro processo haveria de gerar estes novos descendente senão “a loucura da pregação”?

Crer, no que não se viu, disse Jesus a Tomé, é bem-aventurança. E, para garantir que apenas os que “crêem em seu nome” respondam a uma mensagem tão inusitada, o Senhor Jesus houve por bem divulgar sua ressurreição - sua vitória sobre a morte e nossa paz com Deus - através das testemunhas que ele selecionou.

Assim o Evangelho é pregado conforme sua natureza: “Escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1Co 1.23).

O anúncio do evangelho decorre desse fato: Jesus só apareceu àqueles a quem enviou! E, por conseqüência, essa é uma das marcas dos falsos apóstolos: anunciar a verdade calcados em mentiras dizendo terem visto o Senhor.

Daqueles a quem ele apareceu, chegou a nós o santo evangelho. A esses ouvimos. E, em nós, manifestou-se a verdadeira fé. Fé que não depende de nada além do poder de Deus. Fé que subsiste a despeito de tudo.

Bendito instrumento que gera os novos - os verdadeiros - filhos de Abraão.

domingo, 12 de abril de 2009

O valor do Senhor Jesus

Assim como Judas passou a história com sinônimo de traidor, 30 moedas de prata também passaram a história como preço da traição. Mas o que isso significa financeiramente? É muito dinheiro? Sabemos pouco. Porém há alguns indícios que podem nos dar uma idéia.

Parece que esse era o preço de um escravo no Antigo Testamento: “Se o boi chifrar um escravo ou uma escrava, dar-se-ão trinta siclos (Shekels) de prata ao senhor destes” (Ex 21.32). Naqueles dias o siclo era equivalente a umas 10 gramas. Hoje o grama de prata está cotado em cerca de 55 Reais (valorizado pela crise que vivemos). Portanto: 30 siclos de 10 gramas vezes 55 Reais: 16.500 Reais.

Mateus fala deste valor com desdém: “Então, se cumpriu o que foi dito por intermédio do profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata, preço em que foi estimado aquele a quem alguns dos filhos de Israel avaliaram; e as deram pelo campo do oleiro, assim como me ordenou o Senhor” (Mt 27.9-10).

Na época do Novo Testamento o siclo já não era usado e Judas recebeu “moedas de prata”. Cada uma era equivalente a uma Tetradracma (4 dracmas). Uma dracma (unidade monetária básica dos gregos) valia geralmente tanto quanto um denário. Portanto, trinta moedas de prata valiam o mesmo que 120 denários.

Grosso modo, poderíamos dizer que 1 denário seria o que pagamos hoje por dia a um faxineiro ou a um servente de pedreiro. Algo como 50 Reais. Portanto: 6.000 Reais.

Chegamos então a um valor que oscila entre 16 e 6 mil Reais. Sou mais propenso ao valor menor para os dias de Jesus, pois é natural que os metais preciosos baixem de preço em tanto tempo.

Curiosamente o seguro obrigatório (DPVAT) de hoje, indeniza um óbito com 10.300 Reais: valor médio entre os dois.

Não estou tentando dizer que uma quantia maior justifica a vida de alguém, muito menos a de nosso Senhor, apenas tentando mostrar a mesquinhez do ato de Judas. Especialmente porque Mateus e Marcos contam que na quarta-feira, à noite, em uma ceia na casa de Lázaro, uma mulher derramou sobre a cabeça do Senhor Jesus o equivalente a 300 denários de perfume.

Um denário (unidade monetária básica dos romanos, de onde vem nossa palavra dinheiro) era uma moeda romana também cunhada em prata, e não estaríamos muito errados se disséssemos que o perfume derramado sobre o Senhor custou o equivalente a 15.000 Reais.

O que o Apóstolo do Senhor lucrou com sua traição foi menos do que a mulher gastou apenas para perfumar o Senhor.

Tomando o relato de João, como paralelo, tenho a impressão de que quando Jesus saiu em defesa da mulher, que estava sendo criticada pelo desperdício, Judas sentiu-se “desautorizado publicamente” pelo Senhor.

João esclarece que Judas não estava pensando nos pobres, como declarou quando criticou o desperdício, mas que era ladrão. Faz sentido então ele sair daquele ambiente com raiva procurando vingar-se vendendo o Senhor que lhe criticara.

Que contrastes! Um Apóstolo e uma anônima. Uma traição vil e uma demonstração de amor abnegado. Um que lucra à custa do Senhor e a outra que derrama sobre ele o que tinha de mais precioso.

Não salta aos nossos olhos o quanto esta situação repete-se em nossos dias? Acaso não vemos tantos gananciosos traindo o Senhor e sua mensagem para os quais Jesus vale apenas o que podem lucrar com ele?

Graça a Deus! Ainda há alguns como aquela mulher - que onde o evangelho for pregado seu gesto será lembrado - que lhe entregam tudo o que possuem - até a própria vida - pois para eles o Senhor Jesus vale mais do tudo.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A estrada e o templo de Jerusalém

As diversas estradas que davam em Jerusalém se encontravam em determinado ponto depois do qual se avistava a cidade do outro lado do vale.

Desse lugar, ao vê-la, o Senhor lamentou seus erros e seu destino: Era a Jerusalém que apedrejava os profetas e que perseguiam os que Deus lhe enviara.

Por essa mesma estrada, trilhada diariamente por anônimos, no tempo dos reis, os exércitos de Israel, montados ou não, voltavam para casa depois da guerra. E por essa mesma estrada exércitos estrangeiros, invadiram Jerusalém e puseram contra ela tranqueiras e emboscadas.

Cheia de peregrinos, às vésperas de cada festa religiosa, essa estrada testemunhou a aflição com que a mãe do Senhor procurava entre seus parentes e outros peregrinos, seu filho de doze anos que permanecera no templo na primeira discussão que tivera com sábios de lá.

Bendita estrada em que a simples alegria de ser convidado à casa do Senhor transbordava em cânticos de louvor e a certeza de que nosso socorro vem do senhor que fez o céu a terra.

Agora ela testemunha uma multidão – segundo João, a mesma que testemunhara a ressurreição de Lázaro – recebendo Jesus, montado sobre um animal de carga.

Embora não usasse montarias esplêndidas, como os reis que retornavam triunfantes da batalha, o Senhor foi recebido com a mesma frase que eles eram recebidos: Bendito o que vem em nome do Senhor!

Mas Jesus não está vindo a Jerusalém para ressuscitar outros lázaros, ou para inaugurar uma nova ordem política, muito menos para revoltar a grande quantidade de peregrinos contra os invasores romanos. Seu primeiro ato foi investigar o local de culto. O local onde ele, a verdadeira vítima, seria oferecida no verdadeiro culto do qual todos os demais foram antítipos sombrios.

E, ao examinar este local consagrado a Deus, o amigo de publicanos e pecadores, tornou-se inimigo feroz dos que tiravam proveito daquele santo lugar e o transformaram em “covil de salteadores”.

Essa inimizade foi acirrada à medida que a semana passou e a conspiração que já havia começado há tempos atrás ganhou consistência. Materializou-se na cruz.

E irônico observar como ir à Casa de Deus, fazer a vontade de Deus, trouxe conseqüências terríveis. Porém, é mais assustador, quando observamos que isto se repete hoje, pois, como naqueles dias, a Casa de Deus é cada vez mais usada para propósitos particulares.

Disse o salmista: “Vi os infiéis e senti desgosto, porque não guardam a tua palavra” (Sl 119.158). Não é isso que sentimos, depois de trilhar a longa estrada que nos leva a Casa de Deus, e encontramos nela qualquer coisa menos a Palavra de Deus?

Sirva esta semana de ênfase para nossas meditações sobre o caminho que trilhamos até chegarmos, como Igreja, à Casa do Senhor. Sirva também, para nos questionar: Como Jesus se sentiria no local que consagramos a, em seu nome, louvarmos ao Pai?

sábado, 28 de março de 2009

Dias atípicos

Por vezes os dias passam rotineiramente lentos. Por vezes parecem tão velozes, entre sucessos e infortúnios, que assustam. Como as três últimas semanas.

Alegria foi a tônica do casamento da Maressa em Lajinha. Não poderia ser diferente: Igreja cheia. Aliás, cidade cheia: todos os hotéis lotados e muitos convidados de longe. Adornada pela simplicidade a cerimônia não poderia ser mais bela.

Cheguei de volta pouco depois do meio dia de Domingo e uma hora depois ouvi que o Lairton falecera. Descanso nos pastos verdes e águas tranqüilas do Bom Pastor, dor e saudade no meio dos queridos que com ele sofreram as angústias dos últimos dias.

Uma família já grande foi aumentada pela família da fé, que se despediu com hinos de louvor àquele que o chamou e chamará a cada um de nós no devido tempo.

Durante a semana, enquanto o Misael convalescia, uma verdadeira têmpera de emoções se sucedia: a alegria de um aniversário contrapunha-se a uma visita no hospital, o prazer de receber amigos não vistos há mais de 4 anos contrastava com a dor de ver outros em dificuldades.

Tudo isso sob um mormaço inclemente que inutilizava os ventiladores fazendo-os circular ar quente. A sexta-feira, que já amanheceu quente, trouxe outro tipo de calor: o susto do acidente com o Waguinho.

“Basta a cada dia seu próprio mal”, disse nosso Mestre e Senhor, trazendo a impressão de que para cada dia há um mal determinado. E parecia haver.

No sábado pela manhã chegou a notícia de que D. Margarida caíra. No hospital, à hora do almoço, falava-se de algo mais grave. Mais grave para nós, pois para ela era a voz do Bom Pastor, aos pés de quem ela intercedia por todos nós diariamente. No domingo ela finalmente repousou em seus santos braços.

Quando cheguei do hospital no sábado senti febre. Era sinal de uma dengue que me acompanhou por dez dias e, algumas vezes, me fez pensar em encontrar o Lairton e D. Margarida à mesa do Senhor.

Voltamos ao normal.

Normal? Não estava tudo normal antes da doença do Lairton? Não estava tudo normal antes da queda de D. Margarida?

Falta-nos uma expressão adequada: desde quando ouvir o chamado do Bom Pastor é anormal? Mas, você dirá: “tantos insucessos seguidos é algo anormal, ou, pelo menos, atípico como o título do artigo”.

Pode ser. Pelo nosso ponto de vista pode ser. Mas nunca pelo ponto de vista daquele que nos espera e continuará nos chamando.

A quem ele chamará agora? Alguns anseiam por ouvir sua voz e ficarem livres de suas dores. Outros tremem e acham que ainda não é a hora. E outros apavoram-se fascinados com o presente século. Ele, porém, continuará chamando. Sejam dias atípicos ou não.

Não é melhor estar preparado?

O Mestre era a própria Palavra

Já vimos que a prioridade do Senhor Jesus era ensinar. Ele fazia outras coisas, porque era necessário fazê-las, mas sua missão básica era ensinar e pregar o evangelho. Na realidade seu ensino era a própria pregação do evangelho.

Parece que ele preferia ensinar pessoalmente, mas também ensinava às multidões. Via as multidões como “ovelhas sem pastor” (Essa frase foi repetida diversas vezes no Antigo Testamento quando morria um rei de Israel).

Ele cercava-se de cuidados. Uma vez ordenou a seus discípulos que tivessem sempre pronto um barquinho, pois as multidões, chegando cada vez mais perto, o “empurravam” em direção a água. Outra vez entrou num barco e, de dentro dele, afastado da margem, ensinou aos que estavam à beira da água.

Outra vez – pelo menos duas – ele colocou-se em terreno mais alto do que as multidões. Foi de um lugar assim que ele proferiu o que conhecemos hoje como Sermão da Monte.

Nunca deixou de discutir, nem de ensinar nos alpendres do templo. Aliás, já aos 12 anos seus pais o encontraram lá discutindo com os doutores da lei.

Nunca deixou de atender aos que o procuravam a sós. Atendeu ao velho Nicodemos que o procurou coberto pelo manto da noite e atendeu ao jovem rico que parecia buscar um elogio. Porém, foi sempre implacável com o erro: expôs a Nicodemos sua ignorância apesar de reconhecê-lo “mestre em Israel” e foi duro com o jovem rico, que ausentou-se triste. Encontrou a Deus. Falou com ele. Recebeu orientação e afastou-se triste. Como dizemos: Saiu pior do que chegou.

Enquanto não transigia com o erro não deixava de atender carinhosamente aos sofridos. Perdoou a mulher flagrada em adultério, mas ordenou-lhe a não pecar mais e desafiou aos hipócritas que não trouxeram também o homem a jogar nela a primeira pedra.

Não creio que tenha havido um lugar especial, mas, sem dúvida, houve um método especial: as parábolas. Com elas ele se fazia entendido daqueles a quem o Espírito Santo adrede preparara o coração. E com elas se fazia incompreensível aos que não lhe foram dados pelo Pai. Aos primeiros não lançou fora e não deixou que fossem arrebatados de suas mãos. Aos outros, suas parábolas, cegavam os olhos, tapavam os ouvidos e endureciam o coração.

O Senhor ensinava!

Como devem ter sido doces suas repreensões e claras suas explicações. Os dois de Emaús se referiram a tais momentos como momentos em que “lhes ardia o coração”, e Pedro lhes chamou de “palavras de vida eterna”. Até quem não as entendia, aos quais seu sentido era vedado, concordava que ele ensinava como quem tem autoridade; diferentemente do que faziam os escribas.

O Senhor ainda ensina! Suas palavras registradas, ainda hoje afetam o coração dos que foram preparados pelo seu Espírito. Ainda provocam transformações e ainda iluminam mentes.

O Senhor ensinava e ensina: apascentava (lembre-se de que o sentido primário do verbo pascir – de onde vem ‘apascentar’ – é alimentar). Ele alimentou com as palavras que não voltam vazias para o Pai. Aliás ele mesmo era a palavra da qual todas as outras se derivam e ganham significados.

É a palavra que mudou vidas e muda até hoje. É a palavra que jamais deixou de fazer o que é da vontade do Pai. Quando necessitou criar a luz, disse “haja luz”. E, se hoje é necessário vivificar mortos, nada lhe é impossível. Qual Lázaro, ao ouvir sua voz, todos nós saímos de nossos túmulos em que, mortos em nossos delitos e pecados, nos putrefazíamos.

O Mestre ensinava porque era o próprio ensino. Era, e é, a Palavra.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Evangelizar

Já vimos que o Mestre mandou seus discípulos prepararem as cidades nas quais ele iria passar. Preparar como? Divulgando publicitariamente? Fazendo palanques? Não! Curando os doentes e libertando os endemoninhados.

O Senhor os comissionou para fazerem isso antecipadamente para que, quando ele chegasse naquela cidade, pudesse gastar seu tempo ensinando.

Que diferença do que se faz hoje: as cidades são preparadas para que o "grande servo de Deus" possa mostrar seus dons de cura e seu poder de expulsar demônios (não sem antes obrigá-los a confessar seus nomes, castas, e depravações preferidas). Nosso Senhor preferia ensinar.

*-*

Mas, até mesmo no ato de ensinar, havia diferença. Ele jamais se preocupou em ensinar como ter sucesso profissional ou social. Sua preocupação era ensinar como amar a Deus e como amar o próximo. Hoje a maior preocupação é ensinar como obter os favores de Deus e principalmente como superar as dificuldades.

“Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas ... vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias” era a pregação de João Batista, e foi assim que os discípulos prepararam as cidades antes dele as visitar. Mas hoje se enche os muros de cartazes e a mídia eletrônica de mensagens do tipo: “grande show da fé: Milagres, curas, libertações e muita música com o Conjunto Fulano e adoração com o Grupo de Coreografia Sicrano.

*-*

Mas, como anunciar o Evangelho sem outros atrativos? Só o “Evangelho seco”? Ou como me aconselhava Seu Pedro: - Pastor; tem de ter um chamarisco!

Creio que é exatamente aí que está a diferença entre o anúncio correto e anúncio errado do Evangelho. Mas, antes de falar sobre isso quero deixar bem claro que Deus usa até o anúncio errado, como ele usou a jumenta de Balaão. Entretanto, cabe a nós usar o modo correto.

Seu Pedro, me exortando a usar um chamarisco, tinha em mente uma pescaria em que, durante certo tempo, se alimenta os peixes em determinado lugar (e hora), para depois vir com o anzol. Observe que isso pressupõe “segundas intenções” e é muito semelhante à preparação antecipada a que me referi.

Anunciar o Evangelho pressupõe entregar boas novas, boas notícias; comunicar algo pelo qual o ouvinte espera. Por essa razão Jesus mandou adiante de si quem resolvesse os problemas materiais (doenças) e os espirituais (demônios), para que, quando ele chegasse, pudesse anunciar claramente o Evangelho, as boas novas, as boas notícias. Ou seja: a dívida de vocês, para com Deus, está paga. Eu paguei. (Obviamente, hoje temos de dizer: a dívida de vocês, para com Deus, está paga. Jesus pagou).

Quando eu falava isso, Seu Pedro me respondia: - Mas Pastor, ninguém sabe que deve a Deus, não!

Quase concordo com Seu Pedro. Porém alguns sabem que devem a Deus: os que ele mesmo chamou. Esses tem certa de que são devedores, porque são aquela terra preparada na qual, caindo a semente, nasce, cresce e “frutifica a trinta, a sessenta e a cem por um”.

Percebeu? Quando o Evangelho é anunciado do modo errado - com chamariscos - há resultados numericamente maiores, mas junto com os preparados por Deus virão também os que estão interessados no chamarisco. Quando o Evangelho é anunciado corretamente, somente aqueles a quem Deus preparou o recebem. Por esta razão o Senhor Jesus pregava usando parábolas.

domingo, 1 de março de 2009

Condoído e indignado

O Evangelista Marcos usou essa expressão para descrever o que nosso Senhor sentiu ao ver um grupo de líderes religiosos ansiosos para saber se ele curaria, no sábado, a mão aleijada de um homem.

Marcos destaca em seu Evangelho os atos de Jesus, e, logo no início, relata como a prisão de João Batista influenciou nosso Senhor a iniciar seu ministério na Galiléia. Veja:

“Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.14).

Chamada de Galiléia dos Gentios, por sua população miscigenada à força desde a invasão dos Assírios, a Galiléia era uma terra desprezada por todos. Para os judeus fazia parte do antigo e rebelde Reino do Norte e para os Romanos era onde regularmente cobravam impostos e esporadicamente sufocavam rebeliões.

Grande baixio ao norte das montanhas de Judá e às margens do lago de Tiberíades, que, de grande, era chamado de Mar da Galliléia. Vivia da agricultura e principalmente da pesca, que chegava a demandar pequenos grupos pesqueiros - como as famílias de Pedro e de João - devido a venda de uma espécie de molho de peixes, muito apreciado pelos romanos. Era lembrada tanto pelo fedor de suas cidades pesqueiras, quanto pelo atraso cultural de seus habitantes.

Lugar proverbial: Nicodemos ouviu de seus colegas “Examina e verás que da Galiléia não se levanta profeta”. E Natanael perguntou a seu irmão Felipe: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?”.

Nessa terra desprezada nosso Mestre começou seu ministério terreno. Ele já a conhecia bem. Afinal fora criado em uma de suas cidades: Nazaré. Aquela, da qual se dizia não produzir nada de bom.

Mal tomou a tarefa de João três empecilhos se levantaram. Necessidades materiais, espirituais e perseguição religiosa.

Não eram poucos aqueles a quem as enfermidades falavam mais alto do que o Evangelho; a esses ele curou. Também libertou aos que o inimigo possuía. Mas, tenho a impressão de que, o que mais aborrecia o Senhor era o comportamento vil daqueles que deveriam justamente cuidar de seus interesses.

Quando leio o Novo Testamento sempre tenho a impressão de que os judeus até toleravam certa pluralidade de pensamento - veja o nome das sinagogas que se juntaram contra Estêvão e a alusão a seitas judaicas no livro de Atos - desde que o sábado e a circuncisão fossem observados e as autoridades do templo acatadas. Entretanto, como o Senhor mesmo disse: Coavam mosquitos e engoliam camelos.

A estratégia do Senhor para enfrentar tais obstáculos foi simples: Além dos 12 que chamou para estarem juntos de si, comissionou 70, deu-lhes autoridade sobre doenças e demônios e determinou que fossem à frente preparando cada cidade em que ele ia passar.

Obviamente sua intenção era ter mais tempo para pregar o evangelho e ensinar. Porém, nem os 70, nem os 12, detiveram os líderes religiosos. A dureza de coração deles, e o “desconhecimento das Escrituras e do poder de Deus” não apenas os mantiveram “laborando em grande erro”, mas foram os instrumentos que Deus usou para levaram seu Filho ao último altar da Antiga Aliança: a cruz.

Condoído com a natureza humana e indignado com a incredulidade dos que, devendo conhecê-la, e levá-la aos pés do Redentor se aproveitavam dela para manter seus próprios privilégios: Obreiros da iniqüidade.

Não há muita diferença do que ocorre hoje. Entretanto, como naqueles dias, o evangelho não está amordaçado.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Prova da verdadeira fé

Em meu último artigo, escrevi: "ou Jesus era Deus ou era o pior homem que já existiu". Tal frase foi motivo de alguns comentários, que normalmente não levaria adiante, mas como eles revelam um pensamento bem atual achei melhor escrever algo.

Bastou uma busca rápida no catálogo de apenas uma livraria, e encontrei os seguintes livros:

·      Jesus, o maior líder que já existiu.

·      Jesus, o maior executivo que já existiu.

·      Jesus, o maior psicólogo que já existiu.

·      Jesus, o maior filósofo que já existiu.

·      Jesus, o maior especialista no território da emoção.

·      Jesus, o maior educador da história.

·      Jesus, o maior homem do mundo.

·      Jesus, o maior de todos.

Todos os títulos acima são de livros que atualmente estão à venda e acho que você conhece outros semelhantes. Entretanto, observe como, no intuito de elogiar ao Senhor, tais qualificações o degradam: Os grandes líderes, executivos, psicólogos, filósofos, especialistas (em qualquer área), educadores, etc. não reivindicam ser Deus.

Líderes cristãos, como Churchil, ou um não cristãos, como Gandhi, ou, até ateus, como Lenin, nunca fizeram isso, pois se o fizessem seriam tidos por doidos, ou, no mínimo seriam alvo de deboches.

Mesmo os que detiveram grande poder, como Gengis Kahn, Stalin, e outros, também não fizeram isso. E, caso fizessem, seriam acreditados? Certamente não.

Porém, se, além de dizerem-se Deus, passassem a se comportar como Deus, perdoando os erros cometidos contra terceiros, perdoando desobediências aos princípios estabelecidos no Antigo Testamento, não seriam ainda mais ignóbeis?

Mas, ainda que, por piedade ou por medo, alguém os considerasse apenas loucos e ficasse claro que estavam de posse plena de suas faculdades mentais, não os chamaríamos, mediante insistência em apresentarem-se como Deus, de impostores e mentirosos?

Percebeu? Os grandes homens não se auto-declaram Deus! Os que fazem isso classificamos de loucos ou mentirosos.

No caso de nosso Senhor Jesus Cristo, há um agravante: ele não apenas declarou-se Deus, e agiu como se fosse Deus, perdoando e recebendo adoração, mas provou ser Deus, fazendo milagres impossíveis de serem fraudados como restaurar a visão e saúde a cegos e aleijados de nascença, ou restaurando a vida a quem já apodrecia no túmulo. Finalmente, retornando a vida, apos ter sido morto.

Era dentro desse contexto que a Igreja, desde o princípio declarou que não há meio termo. Não adianta dizer que Jesus foi apenas um grande homem, grande mestre, ou o que o valha. Ou você o tem como Deus, ou você não tem parte com ele.

Esse é o teste da verdadeira fé: ou Jesus era Deus, ou era o pior homem que já andou sobre a terra.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O evolucionista cristão

Não faz muito tempo tive a oportunidade de conversar com uma pessoa que se dizia evolucionista cristão.

Já ouvi falar de alguns, e já li sobre os esforços que o Padre Pierre Teilhard de Chardin e teólogo batista Bernard Ramm fizeram para conciliar o evolucionismo com o cristianismo, mas ainda não havia encontrado um. Então puxei a conversa.

Perguntei-lhe sobre Jesus. Ele me disse que tinha Jesus como seu salvador pessoal, que assumiu nossa natureza, morreu, ressuscitou e está à destra do Pai por nossa causa.

Fiquei pasmo: Como é que alguém não crê no Criador e crê no Salvador? Que sentido faz ser salvo, quando se é mera obra do acaso? Demorei um pouco para me refazer do susto. Eu esperava que ele dissesse que Jesus fora apenas um grande mestre, ou coisa parecida, para lhe mostrar, que ou Jesus era Deus ou era o pior homem que já existiu.

Então perguntei como ele conseguia crer em Jesus, nestes termos, e não crer na existência de Adão, já que nenhum evolucionista que se preze acredita que Adão e Eva tenham existido de fato. Sua resposta me impressionou novamente: “Não creio no Adão conforme está no Gênesis. Para mim Adão foi o primeiro ser que tomou consciência de si e de Deus e que teve de escolher entre o Deus que lhe falava e sua própria consciência. Como optou por sua consciência rebelou-se contra Deus”.

E antes que eu fizesse outra pergunta, acrescentou: “Creio muito mais no poder de Deus do que um cristão comum, pois vejo a mão de Deus agindo por milhões de anos conduzindo o processo evolutivo do qual apareceu o homem”.

Fiquei, por alguns instantes, sem palavras. Mas percebi claramente que o problema todo estava na autoridade da Bíblia. Então perguntei sobre o relato do Gênesis. Sua resposta foi imediata: “É um relato em que, mediante uma história que se pudesse entender naqueles dias, o autor diz a mesma coisa que a ciência diz hoje. Só que a ciência detalhou como o homem veio do barro: através da evolução”.

- Mas, como cristão, você não deveria valorizar as Escrituras tanto quanto Cristo as valorizou? Perguntei.

- Me mostre onde não as valorizo tanto quanto Cristo.

Aí eu fiquei feliz com a enorme fila do banco, e pedi por minha memória.

Comecei recordando-lhe da tentação de Jesus, quando ele afirma que nossa vida depende mais da “palavra que sai da boca de Deus” do que do pão. Lembrei-lhe também de que, discutindo com os judeus, o Senhor disse “e a Escritura não pode falhar” como premissa sobre a qual construiu todo um argumento. Lembrei-lhe ainda que, explicando a razão para ter escolhido a Judas, Jesus disse: “para que se cumpra a Escritura”. E que, pelo mesmo motivo, após repreender Pedro por ter ferido a Malco, entregou-se aos guardas do templo.

Cheguei até a mostrar-lhe como Jesus, “expressão exata do ser de Deus”, identificou-se tanto com as Escrituras que suas últimas palavras foram a repetição de textos delas.

Deixei como argumento final o fato de que o Senhor Jesus expôs a doutrina da Eternidade da Alma usando apenas um tempo verbal: “antes de Abraão, eu sou”. E que mostrou-se a si mesmo como superior a Davi usando apenas o título do Salmo 110.

Argumentei que a natureza própria do pensamento científico é o desenvolvimento, e que portanto, a atitude mais sábia para o Cristão é manter as Escrituras como “pedra de toque” e, aguardar os acontecimentos, até o dia em que a evolução deixe de ser apenas uma teoria.

Após todos meus argumentos ele respondeu:

- Pastor, como então viveremos hoje? Alienados como um bando de ignorantes obscurantistas? Não é melhor admitir logo que a Bíblia - que não é um livro de ciências - pode ter algumas falhas? Mesmo que não sejam intencionais? Falhas que revelem as limitações de seus autores?

Percebi então que, no fundo, havia uma ponta de vergonha. E a respeito disso não há muito o que fazer.

Ficamos de nos corresponder.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Aniversariantes: Darwin e Calvino.

Certos acontecimentos, se não fossem tristes seriam até engraçados. Por exemplo, o destaque que a mídia está dando aos 200 anos do nascimento de Darwin: Artigos apaixonados, reportagens biográficas elogiosas e, como não poderia faltar, críticas, azedas, aos que “ainda acreditam que foi Deus quem criou o homem”.

Um dos programas que vi afirmava que a genialidade de Darwin foi tirar o homem do centro do debate e substituí-lo pelas forças da natureza. Na hora me lembrei que já ouvira isso.

A primeira vez que a ouvi falava sobre Copérnico e Galileu: Com a publicação dos livros Da revolução de esferas celestes e Mensageiro das estrelas, eles tiraram o planeta terra do centro do sistema solar e conseqüentemente o homem da posição privilegiada que tinha. A terra passou a ser vista como apenas mais um planeta e as cogitações sobre a existência de vida em outros planetas ganharam força.

A segunda vez que a escutei foi a respeito de Freud. Semelhantemente dizia que ele havia tirado o homem do centro das considerações mostrando que ele era apenas um animal como outro qualquer, motivado basicamente por sua sexualidade.

Quem sabe essa frase tenha sido dita outras vezes. Porém, é bom lembrar que o livro de Copérnico foi publicado em 1543, o livro de Galileu em 1610, os escritos de Freud vieram à luz em 1890. Ou seja: antes de todos eles, em 1536, na primeira edição das Institutas da Religião Cristã, Calvino já era bem explícito: o homem é apenas uma criatura de Deus e portanto não pode dirigir seu destino como se fosse Deus.

Calvino também tirou o homem do “centro”. Entretanto não o substituiu pelas “forças da natureza” e sim por seu Criador.

Para Calvino isso não era novidade, pois ele se lembrava do Apóstolo Paulo que dizia “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?” (Rm 9.20e21). Ele se lembrava também da pergunta do salmista: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres e o filho do homem, que o visites?” (Sl 8.3e4).

Porém, apesar de apontar Deus como o centro de todas as coisas, até da vontade e do destino dos homens, ele não rebaixou seu semelhante a simples animal dominado por instintos de sobrevivência e procriação. Poucos, além dele, falaram tanto a respeito da Imagem de Deus, como o diferencial entre o homem e as demais formas de vida. Só o homem a possui. Só o homem foi criado à imagem de Deus, apesar de compartilhar princípios biológicos com outros animais também criados por Deus.

Curiosamente, neste ano em que os 200 anos do nascimento de Darwin é lembrado, comemoramos também 500 anos do nascimento de Calvino.

E, de fato, o homem não é o centro de tudo. Mas a quem você vê no centro? Forças cegas da natureza? Acasos? Ou Deus?

Quando você estiver assistindo a um desses programas, ou lendo sobre esse assunto, preste atenção na quantidade de vezes em que as palavras “provavelmente”, “talvez”, ou outras semelhantes, aparecem. Sabe por quê? A razão é simples: o evolucionismo ainda é uma teoria: Teoria da Evolução. Ainda não foi provada. Mas já é tida como verdade absoluta da qual não se pode duvidar.

Então, no fundo, no fundo, estão retornando o velho homem para o centro - se é que o tiraram de lá - pois suas teorias são tidas como verdades absolutas das quais não se pode duvidar ou sequer questionar.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Caim e o verdadeiro culto

Que ganharia Caim por matar seu irmão Abel? Mais riquezas? Mais respeito diante de seus pais ou de seus outros irmãos? Mais aceitação diante de Deus? Absolutamente nada. Mas, ele o matou. Por despeito e por vingança o matou. Vingou-se de que? De seu irmão ter feito um culto que agradou a Deus.

Os dois irmãos foram criados juntos e o que os distinguia era apenas a idade e a profissão. Caim, mais velho e mais experiente, lavrava a terra e dela tirava os frutos. Abel, mais novo, quiçá jovem, cuidava de ovelhas. Porém ambos foram criados pelos mesmos pais e, como nasceram após o pecado deles, conheciam as determinações de Deus.

Deus não permitira a seus pais que trajassem aventais de folhas, mas providenciou-lhes vestimentas de peles. Certamente os filhos se vestiam assim e assim compareciam diante de Deus no cultuar-lhe.

Mas, como está escrito, “no fim de uns tempos...” eles foram cultuar a Deus por si mesmos. Sem a presença e orientação dos pais. Esse gesto que deixa qualquer pai moderno feliz foi o ensejo para a desavença entre o lavrador e o pastor de ovelhas.

Os dois só estavam de acordo na necessidade de cultuar a Deus, pois Abel apresentou as primícias e o melhor de seu rebanho, ao passo que Caim, o lavrador, apresentou o fruto da terra e de suas forças.

O escritor da Carta aos Hebreus fala da falta de fé de Caim: “Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb 11.4).

O Apostolo João destaca a falta de amor que caracterizava Caim: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros; não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (1Jo 3.11-12).

Creio que a falta de fé levou Caim a um culto errado e a falta de amor a uma atitude errada.
Se já sabiam que Deus determinara vestirem-se de peles – o que, hoje sabemos, era o prenúncio dos sacrifícios da Antiga Aliança e um tipo do sacrifício de nosso Senhor – como Caim poderia cultuar a Deus por suas forças, ou por qualquer outro modo não ordenado por Ele?

Caim deveria acreditar (ter fé) que era necessário apenas, e tão somente, o que Deus determinara. Mas ele apresentou orgulhosamente o que seu braço lhe alcançou: semeou, cultivou, colheu e transportou. Seu irmão sequer precisou carregar a vítima.

O primeiro assassinato aconteceu por razões litúrgicas!

O correto obedeceu a Deus e foi aceito. O errado tentou fazer conforme sua própria vontade e foi rejeitado. O que seria de se esperar senão que o errado se arrependesse e passasse a fazer o certo? Entretanto o que ele fez? Matou o que estava certo!

Não é a toa que Judas nos fala do “caminho de Caim” (Jd 1.11). Por ele andam muitos. E, até hoje, andam por ele todos aqueles que tentam cultuar a Deus “segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás ... sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras” (CFW XXI,1).

Mas, voltando a pergunta inicial: Por que matou seu irmão? Matou porque seu irmão agradou a Deus com um culto simples. E o dele, tão trabalhoso, recebeu o desagrado de Deus.
Parece que o pecado “emburrece” o pecador. Você se lembra da Parábola dos Lavradores Maus? Desde quando matar o herdeiro lhes garantiria a herança? Desde quando é possível agradar a Deus fazendo o que ele não ordenou que fosse feito?

Sabemos que por adorarem a criatura em vez do Criador, Deus entregou os homens a paixões infames para desonrarem-se mutuamente, homens com homens, mulheres com mulheres. Pois bem: Caim nos mostra que o culto errado leva a falta do amor verdadeiro pelo irmão. Até mesmo pelo o irmão de sangue.

Na época da Nova Aliança em que vivemos o simples menosprezar o irmão é mesmo que matá-lo. Assim nos ensinou nosso Senhor e Mestre. Quantos, então, são mortos cada vez que insistem em um culto simples e obediente às ordens do Senhor? Não estejamos entre eles.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Homem de dores

No ano passado escrevi sobre a alegria que o velho Simeão deve ter sentido ao tomar nosso Senhor nos braços. De fato, qualquer um de nós, conhecendo o que Simeão conhecia, sem dúvida, se alegraria. Entretanto nosso Senhor viveu à sombra do sofrimento, e não foi sem razão que o profeta o chamou de homem de dores. Não sei bem se daí poderia inferir tristeza, porém vale a pena lembrar alguns episódios de sua vida.

As condições em que ele nasceu: Sujeito à burocracia de um censo que visava determinar a base tributária de uma colônia invadida. Em uma cidade “pequena demais para figurar entre as principais de Judá”, cuja a única estalagem (Lucas fala no singular) lotada o remeteu a uma estrebaria.

Seus primeiros anos: Aos oito dias recebeu no corpo a única marca permitida a um Judeu: a circuncisão. Isso visava trazer à lembrança a todos os descendentes de Abraão que Deus era o Senhor até sobre os atos mais íntimos e recônditos da vida. Nosso Senhor precisava ser lembrado disso? Não. Mas precisava cumprir a lei.

Aos quarenta dias foi reconhecido por um velho Simeão, farto de dias, que viu nele o sinal de seu próprio fim. Também por uma anciã de oitenta e quatro anos que dedicara-se a adorar a Deus no templo desde que seu marido morrera. Até aqui foi reconhecido apenas por humildes e inexpressivos pastores e por estes dois anciãos.

Com quase dois anos de idade, vieram, do oriente, homens importantes, trazendo presentes e declarando terem vindo adorar o Rei dos Judeus. Se eles queriam adorá-lo o ocupante do trono não estava disposto a abdicar. E, então as perseguições começaram. Não achando-o, várias crianças de sua idade foram mortas na esperança de que ele estivesse entre elas. A perseguição o fez refugiado político onde não o procurariam, em um país proibido aos judeus: “... o SENHOR vos disse: Nunca mais voltareis por este caminho” (Dt 17.16).

Mesmo quando voltou a sua terra natal, (aos seis anos?) não pôde morar onde seus pais queriam, pois o rei de lá era tão cruel quanto seu finado pai. Foi morar em Nazaré. Lugar tão miserável que mais tarde Natanael - homem reconhecido pelo próprio Senhor Jesus como isento de dolo - perguntará a seu irmão: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1.46).

Até mesmo a alegria do ‘Bar Mitzvá’, quando seria declarado religiosamente maior de idade, apto a desfrutar da companhia, conversa, e ritos de todos os homens judeus, é ofuscada pelo incidente em que o leva a declarar na frente de seu pai terrestre que estava na casa de seu verdadeiro pai.

Se pouco sabemos entre os doze primeiros anos e o que sabemos é marcado pela tristeza e pela dor, dos doze aos trinta não deve ter sido diferente. De José os Evangelhos não falam mais e Jesus assume sua profissão e certamente os deveres de um filho primogênito: “Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E não vivem aqui entre nós suas irmãs?” (Mc 6.3). Provavelmente José havia morrido.

Sobre suas irmãs nada sabemos. Nem quantas eram, nem seus nomes. Gosto de pensar que eram duas, pois seria normal a um casal daqueles dias ter sete filhos em doze anos. Mas, parece que, juntamente com seus irmãos, elas também foram motivo de tristeza para ele: “Dirigiram-se, pois, a ele os seus irmãos e lhe disseram: Deixa este lugar e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque ninguém há que procure ser conhecido em público e, contudo, realize os seus feitos em oculto. Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. Pois nem mesmo os seus irmãos criam nele” (Jo 7.3-5).

De seus discípulos mais chegados escutou discussões sobre quem seria o maior. Diante deles elogiou a fé de um soldado romano como a maior que já vira e em seguida os repreendeu no meio de uma tempestade como “homens de pouca fé”. Não foram poucas as vezes em que os censurou a incredulidade. Dois o traíram. Um por trinta moedas e outro por pura vergonha. Nenhum conseguiu manter-se acordado em sua noite mais dolorosa. E na hora mais difícil todos o abandonaram.

Realmente era homem de dores e sabia o que era padecer. Entretanto, além dessas que foram registradas nos Evangelhos, devemos somar as que nós colocamos sobre seus ombros. Certamente não foram poucas. Aliás, não são poucas, pois continuamos a fazê-lo sofrer já que ele intercede por nós junto ao Pai.

Como é pueril, para não dizer mal-sã, essa alegria toda que tem contaminado seu rebanho, que troca a cruz, deixada por ele, em quem devemos nos gloriar, por festas e mais festas sem sentido, que são apenas pretextos para dar ocasião a carne.

Como deveria ser reverente nosso comportamento e nossas disposições para com o Homem de Dores que soube o que é padecer exatamente por causa de nosso fútil procedimento.

Devemos nos alegrar, sim, por tudo o que dele recebemos. Mas nunca deixemos que o preço dela seja ofuscado.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Todos os anos

Todos os anos, ao raiar de um novo ano, nos preparamos para “começá-lo bem”. Dizem que isso traz boa sorte. Os mais ligados às coisas de Deus, gostam de repetir o texto bíblico: “se as primícias forem santas, o restante também o será”. E assim, pelo menos nos primeiros momentos do ano - horas, dias, semanas - as decisões são levadas a termo.

Conheci uma pessoa angustiada por um pecado recorrente que decidiu não praticá-lo mais a partir da virada de 1999 para 2000. No primeiro dia de 2000, me procurou. Explicou-me a decisão que havia tomado e pediu que eu orasse naquele instante e todos os dias a partir de então para que não voltasse a praticar tal coisa.

Oramos. No dia seguinte telefonou para mim dizendo que havia resistido, e novamente oramos. Isso se repetiu por dois ou três meses: ele me telefonava todos os dias em que não nos encontrávamos na Igreja e dava seu “relatório”. Nos últimos dias, já nem entrava em detalhes. Dizia apenas: “Pastor, mais um dia e tudo bem”.

Na minha correria cotidiana, só depois de dois ou três dias é que me dei conta de que ele não havia me ligado mais. Meu primeiro pensamento foi de que ele havia fracassado, e fiquei angustiado sem saber se o procurava ou não.

Naquele dia, na hora do almoço, na fila do banco, nos encontramos. Ele sequer tocou no assunto. Fiquei pensando se deveria perguntar. Quando os vizinhos de fila estavam um passo mais afastados, perguntei baixinho: “e então, como vai?”. Ele entendeu e sorriu: “esqueci até de ligar. Já não sinto falta. Estou livre”.

Agradeci a Deus em silêncio enquanto me dirigia ao caixa após parabenizá-lo com um “tapinha nas costas”.

Eu sempre havia duvidado dessas “resoluções de ano-novo”, pois pensava, e ainda penso, que qualquer dia é dia de se resolver a mudar alguma coisa na vida. Não é necessário aguardar o dia 31 de dezembro. Mas, a partir de então, passei a ver que há uma espécie de efeito psicológico nessas ocasiões marcantes.

Como me contou meu amigo Joaquim: “quando minha filhinha me viu no mesa do buteco, atrás de um copo de cerveja, e eu vi a cara de nojo que ela fez... pastor... parei de beber! E nunca mais pus um copo de cerveja na boca”.

São dois casos diferentes. O primeiro marcado artificialmente por uma data e o segundo marcado naturalmente pela reação de uma criança. Ambos fortes o suficiente para provocar mudança de vida.

Aprendi a não desprezar esses momentos.

Estamos a poucas horas da mudança de 2008 para 2009. Você não gostaria de tentar mudar alguma coisa em sua vida? Não vou sugerir nada. Mas, talvez, seja melhor começar com algo pequeno. Depois de ganhar confiança pense em algo maior. Mas não se esqueça: sua força está em Deus.

Não é questão de “força positiva” nem de qualquer outra coisa além da oportunidade que acontece todos os dias, mas que pode ser otimizada nessas datas notáveis. Se você chegar ao meio do ano e puder olhar para traz e dizer: “neste ano, até hoje, resisti...” Então já terá valido a pena.

Não prometo que você conseguirá resolver qualquer coisa. Prometo orar com você, e se nossos problemas forem iguais, quem sabe, caminhar com você.

Não perca a oportunidade.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Vou a Belém

Neste Natal vou a Belém. Não a Belém do Pará. Muito menos a Belém da Palestina. Vou à mesma Belém a que os pastores foram na noite em que os anjos os avisaram do nascimento de Jesus.

Não vou precisar de carro, muito menos de avião para chegar lá. Mas também não vou a pé. Vou em espírito. Calma! Não sou místico nem afeito a essa embromação de nossos dias, mas vou em espírito.

Não vi nenhum anjo, muito menos uma milícia deles. Mas ouvi, nas Sagradas Escrituras, o convite que eles fizeram uns aos outros depois do impressionante anúncio que receberam sobre o nascimento de Jesus.

Não vi nenhuma estrela nos céus, além das que me fascinam todas as noites. Mas li nas Escrituras Sagradas que alguns sábios entenderam que uma delas anunciava o nascimento de Jesus.

Então, vou a Belém.

Infelizmente não tenho ouro, nem incenso, e, pra falar a verdade, nunca vi mirra. Mas, como os pastores, que não tinham o que levar, além de um coração disposto a ver o que Deus tinha dado a conhecer, vou a Belém.

De antemão já sei que vou encontrar uma estrebaria. Provavelmente alguns animais e um casal com seu primeiro filho. Mas sei que esse menino é na realidade o Filho de Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade que esvaziou-se de algumas de suas prerrogativas divinas e assumiu nossa natureza, a fim de reconduzir-nos à posição para a qual fomos criados e da qual nos afastamos rebeldes contra nosso Criador.

Tenho plena convicção de que não encontrarei nada de extraordinário, como luzes, coro de anjos e todas essas coisas que a imaginação de artistas bem intencionados costuma colocar no presépio, mas nunca me esquecerei dos momentos que passarei diante daquele menino.

Vou a Belém apenas par adorá-lo. Não com cânticos, pois nem minha voz, nem o mais belo dos cânticos é digno dele. Tampouco com instrumentos, pois, além de não saber tocar qualquer deles, mesmo que possuísse a capacidade musical e a destreza dos grandes mestres, jamais conseguiria compor ou tocar qualquer peça que merecesse sua atenção.

Vou a Belém com o coração aberto. No chão. Mais disposto a receber do que a dar algo que não possuo, pois tudo o que tenho me foi dado por ele.

Vou a Belém, durante o culto na Igreja e durante a ceia que estamos preparando em casa. A cada hino com meus irmãos da Igreja me lembrarei de que estou ali por que ele nasceu. A cada alimento saboroso que desfrutarei com meus queridos, me lembrarei de que vivo não apenas de pão mas de toda palavra que sai da boca de Deus. E ele, o menino da manjedoura, é a verdadeira Palavra de Deus, a última com que ele nos falou e a única que não lhe volta vazia.

Por esse e muitos outros motivos vou a Belém.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Meditação anual sobre o Pai Nosso (4ª Parte)

Porque teu é o reino, o poder e a glória para sempre.

Amém.

Antes de examinar esta última frase convém lembrar que ela foi registrada apenas por Mateus. Lucas foi mais sucinto. Não é erro ou incoerência. Apenas registros de momentos diferentes.

Nenhum de nós seria tão ingênuo de pensar que o Senhor Jesus fez esta oração apenas uma vez, muito menos de acreditar que ele as repetiu ipsis verbis todas as vezes que orou. Mateus, que conviveu com ele, registrou uma forma mais longa da oração e Lucas que, como ele mesmo declara, pesquisou de diversas fontes, já que ele não conviveu com o Senhor, optou por uma forma mais curta.

***

Mas, voltando a frase... Sua função básica é explicar por que razão nos dirigimos a Deus como Pai e por que lhe fazemos aqueles pedidos: Porque dele é o reino. Dele é o poder. Dele é a glória. Ou seja: nos explica por que razão oramos.

Não oramos primariamente para satisfazer nossas necessidades, mas para fazer a vontade de nosso Senhor: Para bendizer seu nome, nos amoldarmos às realidades de seu reino, nos submetermos a seu poder e para o glorificarmos.

Bendizemos o seu nome desde o primeiro pedido - santificado seja o teu nome - e continuamos a fazê-lo quando desejamos a presença de seu reino e a realização que sua vontade seja feita na terra com a mesma diligência com que ela é feita nos céus. E quando pedimos o pão diário, o perdão de nossas dívidas e a proteção contra quedas ao sermos tentados, não há menor dúvida de que estamos atribuindo a ele - e a ele apenas - o atendimento de coisas tão importantes.

Amoldamo-nos às realidades de seu reino, quando buscamos em primeiro lugar aquilo que lhe diz respeito e depois nossas necessidades, mesmo que elas sejam tão prementes quanto o pão do dia. Não foi ele mesmo quem nos mandou buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça e garantiu que comida, bebida e vestes nos seriam acrescentadas?

Nos submetemos a seu poder não apenas quando desejamos a santidade de seu nome, ou pedimos a vinda de seu reino, ou ainda quando desejamos a pronta e perfeita consecução de sua vontade. O fazemos também quando nos admitimos incapazes de receber o pão que seja apenas nosso, mesmo que sua quantidade seja apenas para um dia. Igualmente quando não podemos pagar o que lhe devemos, mesmo que seja de modo imperfeito como fazemos com quem nos deve. E principalmente quando dependemos dele - e somente dele - para que não caiamos quando somos tentados, por aquilo que é mau, nossa própria cobiça ou o mundo, ou por aquele que é mau: o inimigo de nossas almas.

Creio que é impossível sermos tão abrangentes e ao mesmo tempo tão específicos com outras palavras que não as que nosso Mestre e Senhor nos ensinou.

Portanto, nunca percamos a oportunidade de dizer: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém!

sábado, 29 de novembro de 2008

Meditação anual sobre o Pai Nosso (3ª Parte)

O pão nosso de cada dia dá-nos hoje

Perdoa-nos as nossas dívidas
assim como perdoamos nossos devedores

Não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal.

Neste segundo grupo de três pedidos, oramos por nosso bem estar. Porém, ainda que não oremos “contra nós” (veja a Parte 2), tudo o que pedimos nos é extremamente humilhante. No primeiro pedido confessamos não ser melhores do que mendigos a pedir pão. No segundo nos declaramos inadimplentes a rogar perdão para nossas dívidas. E no terceiro pedido confessamos nossa total incapacidade de resistir ao que procura nos afastar da vontade de nosso Pai.

Além de tal natureza humilhante, cada pedido está vinculado a uma ou mais condições. Veja um por um.

Quando pedimos pelo pão, assumimos duas condições básicas. Primeiro, que ele seja o pão nosso. Não o pão alheio, do engano, da fraude e da opressão, mas o que é fruto do suor de nosso rosto. Segundo, não é o pão acumulado - como aquele louco da parábola do Senhor - mas o quotidiano. Aquele que nos mantém na dependência diária do Pai Celeste.

Também é bom lembrar que ao pedir o pão de cada dia, estamos nos obrigando a fazer esta oração diariamente.

Como pastor presbiteriano, tenho visto algum tipo resistência ao uso dessa oração. Creio que é por medo de semelhanças com as rezas Católicas, pois a explicação que mais ouço é: “orar uma vez ou outra tudo bem. Mas todo domingo? Parece reza”. Sempre respondo citando este pedido, pois ninguém quer alimentar-se uma vez ou outra, muito menos só aos domingos. E ninguém reclama da repetição dos mesmos alimentos. Entretanto, há quem se ache capaz de corrigir nosso Mestre e Senhor.

Dá mesma forma, quando pedimos o perdão das nossas dívidas, assumimos a obrigação de perdoar nossos devedores do mesmo modo, e com a “mesma intensidade”, que desejamos ser perdoados. Alguns explicam tal condição como uma simples declaração de intenções. Outros, vão mais longe e simplesmente deixam de usar essa oração – mesmo sendo as palavras que o Senhor nos ensinou – ou não dizem esta frase.

Esta oração visa primariamente nos colocar, diante de Deus, humildes e carentes de sua graça. Portanto, nada mais apropriado do que saber que, se ele manifestasse sua justiça, seríamos tão perdoados quanto perdoamos. Entretanto, sua justiça esgotou-se em seu Filho a fim de que fôssemos cobertos por sua misericórdia e por sua graça. E lembre-se bem de que foi ele que nos ensinou a orar assim, e especialmente chamando a seu Pai de nosso Pai.

Essa frase nos mostra o quanto não merecemos o perdão com que somos agraciados por Deus.

Quando pedimos que ele não nos deixes cair em tentação, acrescentamos: mas livra-nos daquilo – ou daquele – que é mau. Com isso, reconhecemos não ter forças para resistir a tudo o que visa a contrariar sua vontade: seja o produto de nossa natureza pecaminosa, ou a fascinação que o mundo exerce sobre nós, ou as sugestões que inimigo de nossas almas nos faz.

Asseguro que orar o Pai Nosso é mais do que rezar ou simplesmente repetir palavras. É cumprir a vontade de Deus expressa pelo profeta: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus” (Mq 6.8).

Não percamos então a oportunidade de, como filhos amados, pedir a nosso Pai: O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Perdoa-nos as nossas dívidas assim como perdoamos nossos devedores. Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Meditação anual sobre o Pai Nosso (2ª Parte)

Santificado seja teu nome,

Venha o teu reino

Seja feita a tua vontade assim na terra como nos céu.

Se você tem costume de orar com as palavras do Senhor, e ora pensando no significado delas, já deve ter percebido que, depois de invocarmos a Deus como Pai – um Pai todo especial, que não é só seu, nem deixa de lado sua divindade, já que continua nos céu – fazemos-lhe seis pedidos: três dizem respeito a ele e três dizem respeito as nossas necessidades. Assim mesmo: três no singular e três no plural.

Além do fato de que os três primeiros se referem a coisas relativas ao Pai, há que se destacar que em nada podemos contribuir para a realização de qualquer deles. Pelo contrário: a plena realização de qualquer um deles nos é, humanamente falando, altamente prejudicial.

Veja: quando pedimos que o nome de nosso Pai seja santificado, no fundo estamos repreendendo nosso próprio comportamento leviano de repetir seu santo nome futilmente, de comprometê-lo em interesses egoístas - por vezes escusos - e principalmente de tratá-lo como objeto qualquer do qual podemos dispor conforme nossa necessidade ou vontade.

Não é isso o que estamos vendo? O nome de Deus não está sendo, cada dia mais, comercializado? Invocado diante das mais irrisórias e fúteis necessidades? Debochado por aqueles que se dizem seus filhos e muito mais pelos que se dizem seus emissários?

Semelhantemente, quando pedimos que o Reino de Deus seja estabelecido, novamente oramos contra nossos próprios interesses carnais. Pois se há uma coisa pela qual nos esforçamos no presente século é estabelecer nosso próprio reino. Evidentemente, não me refiro ao real início do Reino de Deus, pois o próprio Jesus atestou que ele já veio (Mt 12.28).

Na realidade pedimos que este bendito reino, que já veio, atinja todas as áreas de nossa vida, de tal forma que a vontade de Deus seja feita em nós, que vivemos na terra, no presente século, da mesma forma que ela é feita nos céu: que é o terceiro pedido.

Pedir ao Pai que a vontade dele seja feita na terra como é feita nos céu, é o complemento do pedido “venha o teu reino”. Também é um pedido contra nossos próprios interesses carnais, já que priorizamos tanto a nossa vontade, que por vezes chegamos a comprometer a santidade de seu nome.

Orar o Pai Nosso é mais do que uma simples reza ou uma simples repetição de palavras vãs. É orar contra nós mesmos. É submeter nosso próprio eu à vontade de nosso Pai.

Não podemos então perder a oportunidade de, como filhos amados, pedir a nosso Pai que seu nome seja Santificado, seu reino se manifeste a tal ponto de que a terra siga sua vontade como o céu o faz.

Por isso nunca deixemos de dizer: Santificado seja teu nome. Venha o teu reino. Seja feita a tua vontade assim na terra como nos céu.


quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Meditação anual sobre o Pai Nosso

“... vós orareis assim:

Pai nosso, que estás nos céus... Mt 6.9”

Por que razão o Senhor Jesus nos mandou orar chamando a Deus de Pai? Os judeus de então tinham Deus como Pai e eventualmente se dirigiam a ele assim, mas no sentido de ser o Criador; não no modo tão pessoal em que a ordem do Senhor explicita.

Apesar de ser surpreendente, é, provavelmente, o maior privilégio que temos. E, se pensarmos bem, não é difícil, para nós, cristãos, entendermos a ordem do Senhor, embora saibamos que somos suas criaturas e que O Filho Unigênito - o eternamente gerado - é Cristo.

Essa comparação, entre o que somos e o que Cristo é, pode ser palidamente apreciada quando comparamos uma estátua e o filho de um escultor. Tanto a estátua quanto o filho foram originados no escultor, mas entre a estátua e o filho haverá uma diferença definitiva.

Ao nos mandar orar chamando a Deus de Pai o Senhor Jesus Cristo está pondo em prática o que decorre de sua obra. Aquilo que João expressou admiravelmente com as seguintes palavras: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.12-13).

Ele - o Senhor Jesus - passou a nos tratar como filhos de seu Pai. Como seus irmãos. Certamente você se lembra do que está na Carta aos Hebreus: “Pois, tanto o que santifica como os que são santificados, todos vêm de um só. Por isso, é que ele não se envergonha de lhes chamar irmãos, dizendo: A meus irmãos declararei o teu nome, cantar-te-ei louvores no meio da congregação” (Hb 2.11-12).

Somos filhos! Oramos ao Pai!

Entretanto, temos de nos abster do pecado da soberba e achar que essa relação é exclusiva, pois temos irmãos. E por isso devemos dizer “Pai nosso”.

Ele não apenas é meu pai. É pai também de meus irmãos. É pai de todos os que foram redimidos pelo seu Filho unigênito.

Se essa verdade fosse mais destacada hoje, não haveria os absurdos do exclusivismo onde alguém acha-se filho único de Deus e despreza os demais, ou coloca Deus a seu serviço.

Se ele também é pai de meu irmão, como devemos tratar uns aos outros? Com brigas? Divisões? Querelas?

Mas esta primeira frase da Oração do Senhor apresenta outro modificador: “que está nos céus”.

Ele não é qualquer tipo de pai. É o Pai celeste. O Pai que ama infinitamente, mas é infinitamente justo. O pai que não suspende sua justiça por amor, nem recolhe seu amor face a sua justiça. Seu perdão - expressão de seu amor - não é de graça. Pelo contrário, é enraizado em sua justiça.

Em suma: Temos um Pai.

Não apenas meu: nosso Pai.

Não qualquer tipo de Pai: o Pai celeste.

Não percamos pois a oportunidade de, curvados diante dele, dizer conscientemente: Pai nosso que estás nos céus!

domingo, 16 de novembro de 2008

Ainda sobre resumos

Não há grande dificuldade para se entender o que nosso Senhor chamou de “o primeiro grande mandamento”: Amar a Deus de todo nosso coração, de toda nossa alma e de todo nosso entendimento. Porém, o que significa realmente amar o nosso próximo como a nós mesmos?

Este “segundo grande mandamento”, que, nas palavras do Mestre, é semelhante ao primeiro, apresenta-nos diversas dificuldades de entendimento, pois temos de lidar com algo que a tradição cristã, no mínimo, evita examinar: o amor próprio. Se devemos amar nosso próximo como a nós mesmos, então devemos amar a nós mesmos.

Há muito tempo atrás ouvi de alguém, hábil em matemática, que devemos amar a Deus com 51% de nosso amor. Os 49% restante deveriam ser divididos igualmente entre nós mesmos e nosso próximo. Segundo seu raciocínio, a soma do amor que dedicamos a nós mesmos, com o amor que dedicamos a nosso próximo, nunca deve ser maior do que o amor que devemos dedicar a Deus. Tampouco o amor que dedicamos a nós mesmos deve ser maior do que o que dedicamos a nosso próximo e vice-versa.

Já escrevi aqui, que, dentro da cosmovisão bíblica, amor é fundamentalmente cuidado. Entretanto não é apenas cuidado. Se fosse a equação acima faria sentido: cuidaríamos daquilo que refere-se a Deus, com 51% de nosso tempo, esforço, capacidade, etc. e o restante dividiríamos igualmente entre nós e nosso próximo. Mas, como poderíamos conciliar tal entendimento com a ordem “amarás o Senhor teu Deus de TODO o teu coração”, que é o “grande e primeiro mandamento”?

Hoje – sem desconsiderar que amar é fundamentalmente cuidado – vejo mais como uma questão de atitude. Explico: Suponha que eu esteja diante de um dilema. Minha atitude deve levar em conta primariamente a vontade de Deus e em segundo lugar a vontade de meu próximo e a minha.

Observe que esta atitude pode ser aplicada tanto à mão direita quanto à fronte (tanto à ética quanto à doutrina). Vivemos em uma época em que a vontade e as oportunidades de se quebrar a lei de Deus são muito grandes. E não falo de grandes decisões. Falo do dia-a-dia. Falo de aborto, engano, relacionamentos e de tudo aquilo que se coloca em nossa frente a todo instante. O que fazer, ou o que pensar? Fazer e pensar em primeiro lugar aquilo que manda a lei de Deus e em segundo lugar aquilo que atenda ao meu próximo da mesma forma que me atenda.

Dois namorados me perguntaram sobre aborto. Precisei voltar atrás e mostrá-los que chegaram a esse ponto por não respeitarem primeiramente a lei de Deus sobre a castidade, e que estão pensando em eliminar a vida do próximo – o bebê – por não vê-la tão importante quanto a vida deles mesmos.

Como vou cultuar a Deus? Se o fizer do modo semelhante ao descrito na Bíblia, jamais terei um ambiente que agrade ao meu próximo, mesmo que ele tenha nascido na Igreja! Mas, para agradar meu próximo devo desagradar a Deus? Minha obrigação primária é agradar a Deus. Satisfeita, não posso impor ao meu próximo aquilo que agrada apenas a mim.

Nossa atitude concreta é o que conta ao falarmos de amor como cuidado. É exatamente disso que Jesus está falando quando mudou o segundo mandamento. Você notou que ele foi mudado? Veja: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (Jo 13.34).

Acabou-se a ambigüidade. Deus foi satisfeito de modo pleno. Todas as exigências de sua justiça foram cumpridas em primeiro lugar. Agora, aquele que conseguiu fazer isso tornou-se o padrão: Amai uns aos outros como eu vos amei!

sábado, 8 de novembro de 2008

Resumos

Domingo passado vimos como Salomão resumiu a busca de sentido para sua vida debaixo do sol em “vaidade e correr atrás do vento”. Vimos também que, contrastando, ele resumiu o verdadeiro sentido da vida em “temer a Deus e obedecer os seus mandamentos pois esse é o dever de todo homem”.

Ao tentar resumir algo tão amplo Salomão não está inovando. O primeiro a fazer um resumo dessas coisas importantes foi o próprio Deus. Afinal, não foi ele quem nos mandou amá-lo sobre todas as coisas, e amar nosso próximo como a nós mesmos? O que são essas ordens senão resumos?

Não há como cumprir os quatro primeiros mandamentos sem amar a Deus e os seis últimos sem amar ao próximo.

Aliás, quando indagado sobre qual era o maior de todos os mandamentos Jesus respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”.

Observe que estão diante de nós duas formas diferentes de se ver o mundo. Duas cosmovisões. E todas as duas, além de serem profundamente bíblicas, são completa e totalmente contrárias aos nossos dias.

Vejamos:

Da primeira - que nos ensina que amar a Deus sobre todas as coisas é observar os quatro primeiros mandamentos, e amar o próximo como a nós é observar os seis últimos mandamentos – deduzimos que, para Deus, amar pode ser até um sentimento, mas acima de tudo é uma atitude.

Dos quatro primeiros mandamentos (Não terás outros deuses diante de mim, Não farás para ti imagem de escultura, Não tomarás o nome do teu Deus em vão e Lembra-te do dia de descanso para o santificar) vemos claramente que Deus está estabelecendo como devemos nos relacionar com ele:

1. Devemos adorá-lo. Não a outra coisa ou pessoa. Isso fala de nosso culto à ele, e somente a ele. Cultuar a outro que não ele, em toda Bíblia, é chamado de adultério espiritual.

2. Fazer qualquer tipo de imagem dele é degradar sua pessoa ao nível de criaturas e portanto blasfemar contra ele.

3. Usar seu Nome levianamente é degradar sua honra ao nível comezinho de nossas futilidades e portanto menosprezá-lo.

4. Não reservar um tempo exclusivo – santificado – para estar com ele é deixar de desfrutar sua presença e aprender como cumprir cada vez mais os três primeiros mandamentos.

Ou seja: amá-lo sobre todas as coisas não é ficar perdidamente apaixonado ou “transpirar” sentimentos pré-fabricados. É fazer, mesmo que não seja adequado ao nosso mundo, aquilo que ele determina que façamos. Amá-lo é adorá-lo como ele quer ser adorado! Sobre todas as coisas!

Da segunda – contida nas palavras de nosso Senhor e Mestre: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” – aprendemos que amar nosso próximo como a nós mesmos é simplesmente: Honrar nossos pais, Não matar, Não adulterar, Não furtar, Não testemunhar falsidades e Não cobiçar.

Seria ocioso repetir o quanto essas disposições são necessárias para podermos viver em paz com nossos semelhantes. Mas novamente convêm repetir: Amar nosso próximo não é forçar sentimentos que não existem, ou fazer declarações hipócritas. É fazer, mesmo que não seja adequado ao nosso mundo, aquilo que o Senhor determina que façamos a nosso semelhante.

Porém, por que a lei e os profetas dependem disso? Simples: A lei foi dada para garantir que isso seja cumprido e os profetas tinham como sua missão principal advertir o Povo de Deus, quando se esqueciam dessa obrigação.

Aí surge a diferença entre o que é e o que deveria ser: Como a lei foi escrita em nossos corações pelo Espírito Santo todos esses mandamentos deveriam ser para nós motivo de prazer, e jamais deveríamos precisar de alguém que nos lembrasse de cumpri-los pois os desejaríamos mais do que o ouro e teríamos nele maior prazer do que no mel.

sábado, 25 de outubro de 2008

Eclesiastes para hoje

Gosto de pensar que o Livro de Eclesiastes como uma auto-biografia de Salomão. Não estou sendo original, nem sei quem foi o primeiro a ter essa idéia, mas fiquei muito alegre ao vê-la, pois sempre tive problemas para entendê-lo.

Em Eclesiastes a palavra “vaidade” é repetida 28 vezes. A frase “vi que tudo era vaidade e correr atrás do vento” é repetida 7 vezes e parece delimitar seções do texto. Já a frase “debaixo do sol”, repetida 27 vezes, informa o local da ação.

Lendo-o como auto-biografia, escrita em seus últimos anos, fica fácil de ver uma estrutura coesa ao longo do texto. A impressão é de que ele registrou o quanto tentou achar sentido para sua vida “debaixo do sol” e como foi amargo o fim de cada busca: ”era vaidade e correr atrás do vento”.

Já tentei, diversas vezes, usando esta frase como marcador, resumir cada seção, ou pelo menos dizer do que ela se trata. Mas, se algumas, de tão obvias dispensam rótulos (por exemplo: a primeira), outras de tão complexas parece retratar uma profunda crise existencial.

Discordo de quem diz que naqueles dias não havia questionamentos existenciais, pois à luz do Livro de Jó (com todos os seus matizes de dor e questionamento não apenas da existência, mas também de merecimentos e recompensas) e dos Salmos 37 e 73, se não houvesse quem os entendesse, teríamos de admitir que foram preservados para os dias atuais.

Enquanto o Livro de Jó fala-nos de tais problemas à luz do sofrimento ocasionado por “forças espirituais”, Eclesiastes mostra-nos o sofrimento de quem busca sentido na vida material.

Veja a já citada primeira seção. Ela começa declarando que tudo é vaidade e perguntando que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol. Fala da eterna mesmice da vida, e da procura do Pregador em entendê-la. Porém, o que se destaca é que ele passou a examinar a vida “experimentalmente”: “Disse comigo: vamos! Eu te provarei com a alegria; goza, pois, a felicidade” (2.1).

E segue-se uma lista de experiências: Riso, alegria, bebedice, loucura, posses, feitos, aquisições, acúmulo de riquezas, desfrute de prazeres carnais e estéticos, que é concluída com a declaração seca: “Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol” (2.11).

E assim, as demais seções. Todas terminam com declaração semelhante.

O livro então ganha uma estrutura em que afirmações claramente contrárias ao Evangelho como: “Aquilo que é torto não se pode endireitar; e o que falta não se pode calcular” (1.15) ou “o que sucede aos filhos dos homens sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida, e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais; porque tudo é vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão. Quem sabe se o fôlego de vida dos filhos dos homens se dirige para cima e o dos animais para baixo, para a terra? Pelo que vi não haver coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua recompensa; quem o fará voltar para ver o que será depois dele?” (3.19-22), ganham sentido, pois foram ditas em um contexto determinado e são expressão de determinada época e de determinada busca e não verdades absolutas conflitantes com a “analogia da Fé”.

Outra vantagem é ver Salomão “redimido”. Explico: De 1Reis 11 sou obrigado a admitir que, ao morrer, Salomão levava uma vida de pecado longe de Deus, e morreu sob sua ira. Porém, se Eclesiastes, é sua auto-biografia, ele aproveitou para repassar-nos sua experiência, como que dizendo: “você quer achar sentido para a vida no materialismo? Tente. Eu “fui fundo” e só achei vaidade”.

Finalmente, a maior lição aparece nos últimos versos do livro quando ele diz que não há limites em “perscrutar”, mas “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem” (12.13).

Não era sem razão que Eclesiastes me fascinava na adolescência. É um guia seguro para a vida. Escrito por quem a viveu intensamente e só encontrou sentido para ela “acima do sol”.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Mais doce do que o mel e preciosa do que o ouro

Alguns estudiosos dizem que a maior tentativa que o homem fez, e continua fazendo, para viver sem Deus foi viver em cidades. O raciocínio é simples: quem vive fora das cidades vê com mais clareza as obras de Deus.

Talvez você nunca tenha morado na roça, mas certamente pode imaginar. Na roça é necessário, por exemplo, tirar água da terra – estou me referindo a roça sem os confortos modernos – de tal modo que além de ver que a água é um produto da graça de Deus, se vê claramente quando há água em abundância e quando míngua. Na cidade basta abrir uma torneira e para se sentir falta de água é necessário um grande período de escassez, pois os reservatórios garantem seu fornecimento diariamente.

Talvez isso fique muito mais claro se você pensar em segurança. Quem vive em uma casinha isolada está sempre sobressaltado e dificilmente fica sem, pelo menos, um cão de guarda. Na cidade a maioria dos perigos se origina em seus próprios moradores. Pense nas antigas cidades muradas.

As luzes da cidade escondem os céus onde o poder de Deus se manifesta de modo tão claro, que o salmista chega a afirmar “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo” Sl 19.1-4).

O estilo de vida nas cidades torna nossa percepção da vida tão opaca que só pensamos se o ano foi farto em chuvas quando os preços dos alimentos sobem; e, abrigados das intempéries da vida, nos esquecemos da graça, da bondade e principalmente das repreensões de Deus. Se o clima fica severo, temos os aparelhos aquecedores ou os de ar condicionado.

O estilo de vida nas cidades nos priva das grandes bênçãos de Deus. Você já notou como no Antigo Testamento comer tutano e gordura era uma espécie de prêmio? O salmista chega a dizer “A minha alma se fartará, como de tutano e de gordura; e a minha boca te louvará com alegres lábios” (Sl 63.5 Ed. Corrigida). Você se arriscaria? Seus níveis de colesterol permitem?

O mel, a que a Palavra de Deus é comparada por sua doçura, ainda é tido como um excelente alimento, mas seus níveis de glicose permitem usá-lo sem quaisquer restrições?

Essa crise pela qual o mundo passa mostra-nos também o quão longe ficamos de coisas que o próprio Criador delas usou para mostrar sua generosidade. Logo no começo da narrativa do Genesis, ao descrever a terra onde Deus plantou um jardim, lemos sobre a “... terra de Havilá, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom” (Gn 2.11e2).

O salmista que comparou a doçura da Palavra de Deus ao mel, é o mesmo que compara sua preciosidade ao ouro. Mas você observou que o ouro hoje só é “desejado” quando a montanha de papéis, sobre os quais as riquezas se assentam, entram em crise?

Em parte eu concordo que a cidades, de certa forma, nos afastam de Deus, mas, se nossos primeiros pais tivessem resistido ao inimigo e não caíssem será que nunca viveriam em cidades? Será que não teríamos cidades sem pecado?

Na verdade, tanto as cidades, quanto qualquer outras coisas que viermos a produzir debaixo de uma cultura pecaminosa, visarão sempre nossa própria independência. Independência de Deus. A menos que consagremos a ele nossa vida e o fruto de nosso labor. A menos que as riquezas de “origem injusta” – como são todas as riquezas produzidas longe do Criador – sejam trazidas, juntamente com nosso pensar, cativas aos pés de nosso Senhor e por elas o adoremos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Por uma Reforma Continuada

Desde a época apostólica a Igreja tem sido assolada por uma grande quantidade de inimigos. Inimigos externos e internos, como o apóstolo Paulo ensinou aos presbíteros da Igreja que haveria de esquecer seu primeiro amor.

Não estou falando das perseguições, pois tais começaram antes dela ganhar a estrutura com que foi caracterizada no dia de Pentecostes. O próprio Senhor Jesus era perseguido. Refiro-me aos atentados à sua essência.

Antes do último apóstolo morrer já havia facções que lutavam para impor à Igreja seu modo de pensar e de ver o mundo. O apóstolo João, bem velho, amparado por amigos ditou seu evangelho, preocupado com a Igreja que estava sofrendo as idéias gnósticas.

Após a era apostólica, ou o primeiro século, houve um período de mais de duzentos anos, em que todos os ensinos deixados pelos apóstolos, foram organizados em doutrinas bem definidas e estabelecidas. Dessa época nos veio o Credo Niceno, resultado do terceiro concílio e que até hoje é uma das balizas de nossa fé. A esse período chamamos de patrística, pois os historiadores referem-se aos sucessores dos apóstolos como “pais da igreja”.

O último desses gigantes foi Agostinho, que, com exceção de algumas coisas, é para nós um marco na interpretação da Bíblia e na formulação da cosmovisão cristã.

Após Agostinho, a Igreja entrou em um período estranho, a que muitos historiadores chamam de Era das Trevas. Era a idade média. Houve desenvolvimento no estudo das Escrituras, mas como imperou a clausura e muito do que foi registrado se perdeu em guerras, pouco se pode destacar, além do trabalho de Tomas de Aquino, que sujeitou o pensamento da Igreja aos princípios da filosofia de Aristóteles e a amarrou mais fortemente aos erros que já se manifestavam nos dias de Agostinho.

Nessa época encontramos também os pré-reformadores. Aqueles que viveram antes dos reformadores do século 16 e que já lutavam por um ou mais pontos que vieram caracterizar a Reforma Protestante. De um modo geral há algum acordo em torno dos nomes de John Wycliff na Inglaterra no século 14, John Huss na Boêmia, no começo do século 15 e Jerônimo Savanarola na Itália, no fim do século 15.

Porém, o movimento mais consistente aconteceu no século 16 e seu início é atribuído a Martin Luther na Alemanha.

Dizer que o ambiente cultural e político não contribuiu para a Reforma Protestante ou para os atos de Lutero, é o mesmo que negar a ação da providencia divina, mas dizer que a Reforma Protestante foi apenas um movimento político é desconsiderar seu papel destacado na vida espiritual de povos inteiros.

Se Lutero começou, Calvino foi quem deu a forma final. Pouco foi sistematizado depois de Calvino.

Mas, se as doutrinas cristãs já haviam sido sistematizadas no período patrístico, por que foram sistematizadas novamente? A Igreja havia tomado outros trilhos e a luta dos reformadores era para que ela voltasse à pureza apostólica, pois mesmo na era patrística havia sementes dos erros que frutificariam depois.

Além de Calvino, houve muitos outros: Zuínglio, Beza, Knox ... tantos.

E nós, hoje.

Cabe-nos continuar a obra desses homens que seguindo o exemplo apostólico lutaram pela pureza da Igreja. Como cada época tem seu tipo de sujeira, cada época deve ter também seus limpadores adequados.

A maior sujeira do século 16, a que desencadeou a ira de Lutero, foi a venda de indulgências. Qual será a de nossos dias?

Cabe-nos discernir e lutar contra ela, daí a necessidade de uma Reforma Continuada. Daí a necessidade de voltarmos sempre, não ao tempo de nossos pais ou avós, mas ao tempo dos Apóstolos. E o único caminho para isso é a Bíblia.

Bom ânimo

Hebreus 3.13 (NAA) Pelo contrário, animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”, a fim de que nenhum de vocês ...